A Guerra Grande: história e historiografia do conflito no ... ?· A Guerra Grande: história e historiografia…

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  • Alexandre Borella Monteiro

    A Guerra Grande: histria e historiografia do conflito no

    Prata [1864-1870].

    Passo Fundo, agosto de 2010.

  • Livros Grtis

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  • 1

    Alexandre Borella Monteiro

    A Guerra Grande: histria e historiografia do conflito no

    Prata [1864-1870].

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-

    Graduao em Histria, do Instituto de Filosofia e

    Cincias Humanas da Universidade de Passo Fundo

    como requisito parcial e final para obteno do grau

    de mestre em Histria sob a orientao do Prof.(a)

    Dr.(a) Mrio Maestri

    Passo Fundo

    2010

  • 2

    minha a me, ao meu pai, ao meu irmo,

    Rubiamara, mas dedico tambm esse trabalho a um

    professor que mais do que mestre nos tempos de

    Universidade, foi tambm um grande amigo, e que j

    no est mais entre ns, o grande professor Joel Ablio

    Pinto dos Santos.

  • 3

    Agradeo a Deus, em primeiro lugar. Agradeo a

    todos aqueles que me ampararam neste caminho, para

    que conseguisse chegar at onde cheguei. A primeira

    pessoa meu orientador. Primeiramente por ter me

    aconselhado a respeito do tema abordado na

    Dissertao. Em segundo lugar, por ter me encorajado a

    continuar, quando eu mesmo achei que no tinha

    condies de seguir em frente, e quando desanimei

    depois das primeiras correes, ou ainda por eu ter

    demorado a engrenar o trabalho. O professor Doutor

    Mrio Maestri sempre me escreveu e disse palavras de

    nimo nos encontros para que conclusse a Dissertao,

    mesmo quando eu tive certeza que no terminaria. Meu

    orientador foi muito mais do que um simples professor,

    mas um dedicado mestre, um exemplo que quero levar

    para a vida. Depois minha famlia que tambm

    sempre acreditou que eu poderia subir esse degrau da

    minha vida, minha me Ivete, a meu pai Edson e a meu

    irmo, Eduardo, Rubiamara, minha namorada, por

    terem ficado ao meu lado e por estarem dedicando parte

    de suas vidas a mim, no tenho palavras para agradecer

    a todos eles. Mas ao meu pai ainda tenho um

    agradecimento a mais, pois alm do apoio moral, dos

    incentivos, deu-me tambm o suporte financeiro, sem o

    qual no teria conseguido sequer iniciar essa travessia.

    Agradeo a todos os professores que passaram pela

    minha vida, iniciando pelos do Ensino Fundamental, do

    Ensino Mdio, pois nessa idade eu j pensava em ser

    professor de Histria, pois me inspirara neles, os da

    Universidade Federal de Santa Maria e os da Ps-

    Graduao da Uniju, especialmente ao meu orientador

    de ento, o professor Doutor Ivo dos Santos Canabarro.

  • 4

    H, verdadeiramente, duas coisas diferentes:

    saber e crer que se sabe. A cincia consiste em saber;

    em crer que se sabe est a ignorncia. (Hipcrates)

  • 5

    RESUMO

    O presente texto trata a respeito da formao dos pases na Bacia do rio da Prata, do

    maior conflito militar envolvendo esses pases e da historiografia a respeito dessa guerra. O

    Uruguai foi alvo primeiramente da coroa portuguesa e, posteriormente, entrou para a rea de

    influncia do Imprio do Brasil. Sofreu constantes intervenes e foi o estopim para a Guerra

    do Paraguai quando foi invadido pelos imperiais, apesar de claras ameaas do presidente

    Solano Lpez, do Paraguai para o caso de uma interveno no Estado Oriental. A Argentina

    por sua vez, enfrentou um conflituoso processo de unificao, presenciando uma guerra

    intermitente depois da queda de Rosas, vendo dois expoentes: Urquiza e Mitre cujas bases de

    apoio eram a Confederao Argentina e a rica provncia de Buenos Aires. O Imprio do Brasil

    se configurava na nica nao governada por um monarca na Amrica. Era uma excreo em

    um continente de Repblicas. Diferenciava-se tambm pelo fato de possuir instituies

    jurdicas e polticas consolidadas, ao contrrio de seus vizinhos. Sem contar que sua riqueza

    era sustentada pelo trabalhador escravizado. Alm do mais, entrava em uma fase de

    estabilidade, depois das revoltas internas e no Segundo Reinado, assistiu a um surto industrial

    e pde se lanar a uma poltica imperialista. Foi nesse perodo inclusive, que o trfico de

    escravos foi extinto, contribuindo para essa estabilidade. O Paraguai por sua vez, apresentou

    um singular desenvolvimento endgeno, baseado em uma forte classe camponesa. Singular

    tambm foi o isolamento paraguaio, no voluntrio, mas imposto, por circunstncias

    geogrficas, bem como para manter a independncia. O Paraguai foi um peculiar Estado

    moldado por Francia, e modernizado pela famlia Lpez. Singular tambm foi sua forma de

    governo, uma ditadura ou tirania de poder unipessoal, imposta nos tempos de Francia e

    consolidada por seus sucessores. Por outro lado, tirania onde o povo era consultado, e onde

    no faltavam os meios bsicos de subsistncia, e principalmente: onde todos sabiam ler e

    escrever. E foi o pas mais destrudo depois da guerra. Mas e a discusso em torno da Guerra

    do Paraguai? O que dizem as correntes historiogrficas divergentes? O que foi a guerra?

    Quando ela iniciou? Quem tomou a iniciativa? A quem interessava? So perguntas que, no

    pretendemos responder, de forma conclusiva, mas simplesmente instigar a novas

    interrogaes, ou quem sabe abrir caminho para estudos ainda mais aprofundados. Sabemos

    que no possvel esgotar o assunto, mas faremos o possvel para debater a Guerra do

    Paraguai, bem como para jogar mais luz a respeito desse assunto. Elucidar esse importante

    tema para histria e historiografia brasileiras e sul-americanas.

    Palavras-chave: Unificao, Governo, Imprio, Guerra, Historiografia.

  • 6

    ABSTRACT

    This text is about the formation of countries in the River Plate Basin, the largest

    military conflict involving these countries and the history about this war. Uruguay was the

    first target of the Portuguese crown, and later entered the area of influence of the Empire of

    Brazil. Suffered constant interventions and was the trigger for the Paraguayan War when it

    was invaded by imperial despite clear threats of President Solano Lopez, Paraguay in case of

    an intervention in Eastern State. Argentina turn faced a contentious process of unification,

    witnessing an intermittent war after the fall of Rosas, seeing two exponents: Urquiza and

    Mitre whose bases of support were the Argentine Confederation and the rich province of

    Buenos Aires. The Empire of Brazil was configured in single nation ruled by a monarch in

    America. Was an exception on a continent of republics. Differed also by the fact that it has

    consolidated political and judicial institutions, unlike their neighbors. Not to mention that his

    wealth was held by slave labor. Furthermore, entered a phase of stability, after internal revolts

    and the Second Empire, saw an industrial boom and was able to launch an imperialist policy.

    It was there also, that the slave trade was abolished, thus contributing to this estabildade.

    Paraguay in turn, presented a unique endogenous development, based on a strong peasantry.

    Singular also was the isolation of Paraguay, not voluntary but imposed by geographical

    conditions and to maintain independence. Paraguay was a peculiar state shaped by France,

    and modernized by the Lopez family. Singular was also their form of government, a

    dictatorship or tyranny of power proprietorship, imposed in times of Francia and consoled by

    his successors. Moreover, tyranny, where the people were consulted, and where they lacked

    the basic means of subsistence, and mainly: where everyone could read and write. And was

    the most destroyed after the war. But what about the discussion on the Paraguayan War?

    What say the divergent historiographical trends? What was the war? When she started? Who

    took the initiative? Who cares? These are questions that we do not intend to respond in a

    conclusive way, but simply to urge the new questions, or perhaps pave the way for further

    detailed studies. We know that you can not exhaust the subject, But Farmer possible to

    discuss the war with Paraguay, and to throw more light on this matter. Elucidate this

    important issue to history and historiography of Brazil and South America.

    Keywords: Unification, Government, Empire, War, Historiography.

  • 7

    LISTA DE ILUSTRAES

    Figura 1: Mapa do Uruguai.. ................................................................................................................................. 13

    Figura 2: Jos Gervsio Artigas............................................................................................................................. 24

    Figura 3: Venncio Flores. .................................................................................................................................... 39

    Figura 4: Mapa da Argentina. ................................................................................................................................ 44

    Figura 5: Juan Manuel de Rosas ............................................................................................................................ 48

    Figura 6: Justo Jos de Urquiza. ............................................................................................................................ 53

    Figura 7: Bartolom Mitre. .................................................................................................................................... 60

    Figura 8: Mapa do Brasil. ...................................................................................................................................... 67

    Figura 9: D. Perdo II. ............................................................................................................................................. 78

    Figura 10: Baro de Mau. .................................................................................................................................... 81

    Figura 11: Mapa do Paraguai. ............................................................................................................................. 104

    Figura 12: Jos Gaspar Rodrigues de Francia ..................................................................................................... 105

    Figura 13: Antonio Lpez. .................................................................................................................................. 116

    Figura 14: Francisco Solano Lpez. .................................................................................................................... 121

    Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946124Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946125Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946126Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946127Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946128Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946129Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946130Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946131Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946132Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946133Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946134Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946135Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946136Guerra%20do%20Paraguai%20histria%20e%20historiografiaV1.7.docx#_Toc267946137

  • 8

    SUMRIO

    INTRODUO..................................................................................................................................................... 10

    URUGUAI: INDEPENDNCIA DOS ESPANHIS, INDEPENDNCIA DOS BRASILEIROS E UMA

    GUERRA .............................................................................................................................................................. 13

    Introduo .......................................................................................................................................................... 13

    Uruguai, da independncia dos espanhis independncia dos brasileiros ...................................................... 14

    A questo agrria no Uruguai. ........................................................................................................................... 23

    O Uruguai e seus partidos: blancos e colorados................................................................................................ 28

    A crise uruguaia e os tratados de 1851. ............................................................................................................. 31

    O intervencionismo imperial e o caminho para a guerra. .................................................................................. 35

    Flores toma o poder. .......................................................................................................................................... 38

    ARGENTINA: DA GUERRA CIVIL GUERRA DE LA TRIPLE INFAMIA ................................................... 44

    Introduo. ......................................................................................................................................................... 44

    Buenos Aires e sua importncia para a Argentina. ............................................................................................ 45

    A Argentina de Rosas. ....................................................................................................................................... 48

    Confederao Argentina versus Buenos Aires: um novo conflito. .................................................................... 53

    A batalha de Pavn e a retirada de Urquiza. ...................................................................................................... 58

    A Argentina de Mitre......................................................................................................................................... 60

    IMPRIO DO BRASIL: A MONARQUIA ESCRAVISTA................................................................................. 67

    Introduo. ......................................................................................................................................................... 67

    A Monarquia escravista. .................................................................................................................................... 68

    O Segundo Reinado e a estabilidade imperial. .................................................................................................. 78

    Guerra do Paraguai e escravido. ...................................................................................................................... 87

    PARAGUAI: A SINGULAR DITADURA POPULAR CAMPONESA ............................................................ 104

    Introduo ........................................................................................................................................................ 104

    O Paraguai da independncia ditadura do dr. Francia................................................................................... 105

    O Paraguai sob o governo da famlia Lpez. ................................................................................................... 116

    O que era o Paraguai pr-1865? ...................................................................................................................... 123

    O precipitar-se da crise. ................................................................................................................................... 126

    GUERRA DO PARAGUAI: DEBATES ............................................................................................................ 130

    Introduo ........................................................................................................................................................ 130

    Introduzindo ao estudo historiogrfico da guerra. ........................................................................................... 131

    A historiografia restauracionista: a reviso da reviso. ................................................................................... 140

    O que foi a Guerra do Paraguai? ..................................................................................................................... 148

    Quando iniciou a Guerra do Paraguai? ............................................................................................................ 150

    O encontro em Puntas Del Rosario .................................................................................................................. 161

    O Paraguai ataca... ........................................................................................................................................... 165

    A Trplice Aliana ........................................................................................................................................... 170

    A Inglaterra e a Guerra do Paraguai ................................................................................................................ 173

    Quais os interesses em jogo na Guerra do Paraguai? ...................................................................................... 182

  • 9

    CONSIDERAES FINAIS .............................................................................................................................. 189

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ................................................................................................................ 196

  • 10

    INTRODUO

    No presente trabalho, faremos uma anlise historiogrfica geral a respeito daquele que

    foi o maior acontecimento militar na histria da Amrica do Sul a chamada Guerra do

    Paraguai, Guerra da Trplice Aliana ou Guerra Grande. Essa anlise se basear na leitura de

    autores diferentes, com seus respectivos pontos de vista, sobre temas que quando discutidos,

    trazem polmica a respeito daquele conflito.

    Para atingir nosso objetivo, analisaremos obras marcantes das historiografias

    brasileira, argentina, uruguaia e paraguaia. Poderemos verificar possveis debates

    historiogrficos, tendo em vista que para muitos assuntos elas tm vises conflitantes. No

    raro, a historiografia de um mesmo pas apresenta contradies, e pretendemos trazer um

    pouco dessas divergncias para nosso trabalho.

    Qual o nosso objetivo ento? Um deles contar como estava a situao da regio

    platina no perodo que vai da formao dos Estados do Rio da Prata e do Imprio brasileiro

    at a Guerra do Paraguai, estudar as condies que levaram a esse conflito e o que ele

    significou para os envolvidos. Mas esse no o nico. Nosso objetivo um pouco mais

    ambicioso do que contar apenas em forma sinttica a histria dos pases da regio do rio da

    Prata. Pretendemos analisar o que a historiografia dos pases envolvidos na Guerra do

    Paraguai escreveu sobre os assuntos acima relacionados. Nossas fontes primrias sero os

    livros que versam sobre esse confronto armado.

    Sabemos que no iremos analisar toda a historiografia da Guerra do Paraguai, pois isso

    seria impossvel. Faremos uma anlise, das obras que consideramos mais importantes, sobre a

    formao dos pases platinos, das condies que levaram esses pases luta, sobre a guerra

    propriamente dita. No escreveremos sobre as batalhas, mas sobre o significado da guerra, a

    quem poderia interessar e o que se tem escrito sobre ela na literatura histrica.

    Para iniciar a abordagem do tema Guerra do Paraguai, analisaremos os pases que

    dela participaram. Em nosso entendimento, foi a grandes pugnas sociais e polticas em torno

    do processo de formao daquelas naes, a partir das contradies internas e externas, que

    explicam em grande parte esse confronto que teve dimenses gigantescas, deixou marcas

    profundas nos beligerantes e significou grande destruio para um dos envolvidos o

    Paraguai. O primeiro Estado analisado ser o Uruguai, uma vez que sua importncia cabal

    nessa guerra. Para muitos, o Estado Oriental foi o barril de plvora, o estopim que detonou a

    Guerra do Paraguai. Nesse captulo, nosso objetivo ver como se deu a formao social

  • 11

    uruguaia, como era a relao desse pas com seus vizinhos e como essa relao acabou

    contribuindo para o desencadeamento de uma guerra.

    O segundo Estado abordado ser a Argentina. Ser analisada a histria desse pas, suas

    relaes com o Uruguai, com o Paraguai e com o Imprio do Brasil, desde os tempos de

    Rosas at a presidncia de Bartolom Mitre. Destacaremos a particular diviso entre

    Confederao Argentina e o Estado de Buenos Aires, as batalhas que levaram sua unificao

    e a ao das classes dominantes portenhas em relao ao Uruguai, Imprio e Paraguai.

    O Imprio, por fim ser estudado sob a luz de sua peculiaridade. Destacaremos o fato

    de que o Imprio brasileiro era o nico Estado monrquico e escravista da Amrica.

    Ressaltaremos a importncia do latifndio monocultor, apoiado no trabalho feitorizado, para a

    classe dominante do Brasil, sem deixar de destacar o muito insipiente surto industrial por qual

    o pas passou. Ainda, enfocaremos o momento poltico que acabou sendo propcio a uma

    poltica imperialista por parte do governo imperial com relao aos seus vizinhos.

    Por fim, analisaremos o Paraguai. Pas de desenvolvimento peculiar, que foi o grande

    derrotado da Guerra do Paraguai. Agressor ou vtima? Qual o verdadeiro Paraguai? Uma

    potncia sul-americana ou um pas pobre que atacou vizinhos incrivelmente mais poderosos?

    Tentaremos nesse captulo analisar a questo do modo o mais imparcial possvel, no

    fazendo desse pequeno pas um paraso nem um inferno. Estudaremos a importncia do

    isolamento inicial ensejado por seu primeiro governante, o dr. Francia, e continuado, em

    forma decrescente, pela famlia Lpez para o desenvolvimento paraguaio.

    O captulo final analisar a historiografia sobre a Guerra do Paraguai. No

    pretendemos responder s questes cabalmente, mas sobretudo discutir o que se tem escrito

    sobre o confronto. Algumas questes sobre as quais aventuramos respostas so: qual teria sido

    o movimento inicial da guerra? Quando podemos considerar de fato que se iniciou a Guerra

    do Paraguai? O que motivou a invaso paraguaia Argentina? A invaso paraguaia ao Mato

    Grosso foi realmente uma invaso em perodo de paz ou j se estava em guerra? Qual a

    participao argentina nos confrontos entre o Imprio e o Uruguai nos momentos que

    antecederam Guerra do Paraguai? A quem interessava esse conflito?

    Reiteramos que nosso objetivo no presente trabalho realizar uma discusso entre os

    diferentes historiadores, dos diferentes pases participantes da Guerra do Paraguai. Dessa

    forma, destacaremos os pontos de vista, que em alguns casos so afins, em alguns so

    discrepantes e em outros pontos so mesmo conflitantes.

  • 12

    Assim, depois de uma anlise panormica a respeito da formao de cada pas e como

    essa formao terminaria por desembocar no maior conflito militar da Amrica do Sul,

    faremos ento um debate historiogrfico a respeito dessa guerra que tanto marcou os

    envolvidos.

    No pretendemos esgotar as questes, mas trazer diferentes vises sobre ela,

    abordando vises das historiografias dos pases diretamente envolvidos.

    Gostaramos de fazer uma ressalva que nos parece pertinente. Muitas vezes nos

    referiremos no presente trabalho em pases. Mas no pretendemos substituir as classes sociais

    por naes ou mesmo por cidades. Deixemos bem claro que na verdade quem age so as

    classes sociais, representadas por seus lderes. Elas que tem seus interesses e levam seus

    lderes a agirem de determinadas maneiras.

    Assim, quando mencionarmos que a Argentina declarou guerra ao Paraguai e assinou

    a Trplice Aliana, nos referimos classe dos unitrios, que apoiavam Mitre, uma vez que o

    pas estava fortemente dividido entre estes e os federalistas. A maior parte do pas era contra a

    guerra contra o Paraguai e a aliana com o Imprio. O Uruguai tambm no agia como um

    corpo inteiro, mas era fracionado entre os blancos, que eram contra a ingerncia brasileira

    dentro de suas fronteiras e os colorados de Venncio Flores, mais flexvel aos interesses

    imperiais. Por isso, destacamos que o importante no deixarmos de levar em considerao

    que so as classes as grandes protagonistas da histria, mesmo que representadas por seus

    expoentes.

  • 13

    URUGUAI: INDEPENDNCIA DOS ESPANHIS, INDEPENDNCIA DOS

    BRASILEIROS E UMA GUERRA

    Introduo

    Faremos no presente

    captulo fazer uma anlise

    sobre o Uruguai at o

    momento da Guerra do

    Paraguai. Estudaremos suas

    contradies, sua poltica e

    suas relaes com os

    vizinhos, o Imprio e a

    Argentina. Assim,

    poderemos melhor distinguir

    como foi que se deu essa

    guerra, estudando as

    condies criadas na regio

    no decorrer do sculo 19.

    Estudaremos

    sobretudo os autores Moniz

    Bandeira; Jos Maria Rosa;

    Len Pomer; os trabalhos

    coletivos de Rosa Alonso

    Eloy, Lcia Sala de Touron,

    Nelson de la Torre e Jlio

    Carlos Rodrigues; o livro

    dos autores Nelson de la Torre, Julio Carlos Rodrigues e Santa Lcia de Touron, alm dos

    trabalhos do historiador Francisco Doratioto para analisarmos a formao, consolidao e

    desenvolvimento desses pases e como levaram a um conflito que os marcaria profundamente

    e traria morte e destruio para todos.

    Enfocaremos o caso uruguaio, onde blancos e colorados debatiam-se pelo controle do

    pas, sendo que ambos eram apoiados por naes e faces sul-americanas. Os blancos eram

    apoiados pelo Paraguai e pelos federalistas argentinos. E todas essas faces tinham

    Figura 1: Mapa do Uruguai. Pas considerado chave no processo da

    Guerra do Paraguai. Sua invaso pelo Imprio teria desencadeado a

    reao de Solano Lpez de declarar guerra.

    Fonte: http://www.google.com.br

  • 14

    interesses no pequeno pas, que inclusive surgiu aps um confronto contra o Imprio do Brasil

    a Guerra da Cisplatina [1825-1828] quando teve reconhecida a sua independncia.

    Posteriormente, o Uruguai tornou-se alvo de disputas entre a Argentina de Rosas e o

    Imprio de dom Pedro. E por fim, acabou sendo invadido, diversas, vezes, pelo Imprio, que

    pretendia manter em seu governo o Partido Colorado, mais flexvel s suas exigncias, at que

    em 1864, aps a deposio de Anastasio Aguirre, pelo Imprio, Francisco Solano Lpez,

    presidente do Paraguai, declarou guerra ao Brasil, sendo esse fato, a invaso do Uruguai pelo

    Imprio, encarado por muitos como a grande razo detonadora da Grande Guerra. A

    Repblica Oriental do Uruguai entraria no conflito, contra o Paraguai, em virtude de acordo

    entre Venncio Flores [1808-1868], que devia seu triunfo ao imperial.1

    Levando-se em considerao que reinava situao de conflito poltico e social na

    Amrica do Sul no perodo estudado, com os pases procurando consolidar-se, enfatizaremos

    neste captulo os acontecimentos que levaram Flores ao Uruguai e este pas ao confronto

    contra o Paraguai. Faremos uma ligeira anlise sobre a poltica interna uruguaia e suas

    implicaes no exterior e como as intervenes estrangeiras acabariam por desembocar no

    maior confronto armado entre pases da Amrica do Sul, uma vez que entendemos que o

    Estado Oriental e a chave para compreendermos essa guerra.

    Uruguai, da independncia dos espanhis independncia dos brasileiros

    As independncias na Amrica espanhola foram marcadas por lutas lideradas pelos

    caudilhos. No Estado Oriental, destacamos o perodo em que os orientais estiveram livres do

    jugo espanhol, mas estiveram sob a dominao imperial, que somente findaria em 1828

    Perodo Cisplatino. Os historiadores Uruguaios Eloy, Touron e Torre em seu livro La

    oligarquia oriental em la Cisplatina, de 1970, fazem um paralelo entre as independncias

    latino-americanas e a Revoluo Francesa. Si la Revolucin Francesa fue dirigida por una

    clase nacional burguesa en oposicin a las viejas clases feudales, y barri con el antiguo

    rgimen [] la Revolucin Hispanoamericana con variantes que van de regin a regin

    fue dirigida por la burguesa comercial, importadora y exportadora criolla muchos de cuyos

    integrantes eran a la vez terratenientes y por los hacendados criollos.2

    1 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana. 2 ed. So Paulo: Ensaio; Braslia, DF; EdUnB, 1995. 2 ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental en la Cisplatina. Montevideo: Ediciones Pueblos Unidos, 1970 p. 9

  • 15

    A independncia dos pases latino-americanos serviu, dentre outras coisas, para findar

    o pacto colonial, que obrigava a colnia a apenas comprar e vender seus produtos ou atravs

    da metrpole. Assim escrevem os autores Eloy, Torre e Touron: La Independencia abri el

    cauce irrestricto al libre comercio ya en parte carcomido el monopolio en la poca colonial

    -, relacionando a las viejas colonias directamente al mercado mundial, en especial a

    Inglaterra, en ese momento su centro dominante. Las clases comerciales de los centros

    urbanos y la produccin local fueron incapaces de tomar el poder exclusivamente en sus

    manos, salvo espordicamente y en algunos lugares.3

    Segundo os mesmos autores, a provncia que mais teria sido beneficiada com a

    independncia das provncias pertencentes ao Vice-Reinado do Rio da Prata teria sido Buenos

    Aires, especialmente sua oligarquia comerciante. En el Rio de la Plata la principal

    beneficiaria de esta situacin fue la clase comercial de Buenos Aires. Durante el coloniaje

    sostuvo largas disputas con Montevideo por el comercio exterior, el que slo poda realizarse

    por los dos nicos puertos habilitados en la zona. [] Contra los clanes comerciantes y

    prestamistas porteos detentores de la llave del Plata se rebelaron los portavoces de los

    intereses provinciales compuestos de viejos terratenientes criollos, pujantes caudillos

    estancieros y comerciantes locales.4

    No podemos pensar nas independncias apenas como atos de herosmo e de pessoas

    que almejavam libertar suas ptrias do domnio espanhol. H os interesses de classe por trs

    dessas lutas. E a oligarquia importadora de Buenos Aires liderou esse processo

    revolucionrio, interessada no livre comrcio. La burguesa comercial y terrateniente de

    Buenos Aires que haba desempeado un papel dirigente en la Revolucin en el Plata

    consideraba que su tarea era la liberacin del poder espaol, y que de suyo esta tarea

    conllevaba ganar, para su provecho, las restantes provincias del Virreinato. Para los

    comerciantes porteos en lo especial ese programa coincida con la conquista de lo que

    consideraban, expresa o tcitamente, su viejo mercado virreinal: Banda Oriental, Litoral,

    Paraguay, provincias interiores y Alto Per. La suerte de este ambicioso proyecto vari a

    tenor de las diversas contradicciones internas de lugar y de tiempo que hall en su

    aplicacin.5

    3 ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 10 4 Id. Ibid pp. 11-12

    5 Id. Ibid p. 12

  • 16

    Os autores Eloy, Touron e Torre se refere ainda forma como era feita a apropriao

    de terras e do gado no territrio do Estado Oriental. Al rgimen monopolista y privilegista en

    el trfico se haba sumado un sistema tambin privilegista en el acceso a la tierra, todo para su

    mayor provecho y resultante en una importante acumulacin. As se apoderaron de los

    ganados cimarrones, de los animales alzados, de los rodeos de los pequeos hacendados y de

    los cueros faenados clandestinamente en las inmensas campaas despobladas.6

    Todavia, nas primeiras dcadas do sculo 19, a poltica europia de Napoleo

    Bonaparte interferiu tambm na Amrica Latina. Significou, por um lado, o enfraquecimento

    da dominao espanhola sobre suas colnias. Por outro, a coroa portuguesa havia se

    transferido para sua colnia americana. El Imperio Portugus, radicado en Amrica durante

    la oleada napolenica, postergado por los grandes de Viena, intent convertirse en el gran

    Estado de Amrica del Sur. Razones de ndole econmica, estratgica y poltica lo impulsaron

    tras el sueo secular del Plata como lmite natural de sus dominios, procurando a la extirpar el

    peligro contagioso del artiguismo. Coincidieron los intereses de la oligarqua portea con las

    apetencias de la Corte de Juan VI, y en 1816 las fuerzas portuguesas irrumpieron en la

    Provincia Oriental. A la complicidad de la oligarqua de Buenos Aires se sum entonces la

    apata primero y la complicidad despus de la clase comercial montevideana y de los grandes

    hacendados y latifundistas.7

    A invaso da Banda Oriental pelos portugueses j era uma pretenso antiga. Estes

    sempre tiveram o objetivo de chegar at o rio da Prata, com finalidades estratgicas e

    econmicas. Assim, os autores Torre, Rodrigues e Torres, em seu livro Despus de Artigas,

    de 1970, escreveram que: Los portugueses haban invadido y ocupado la Banda Oriental para

    la satisfaccin de determinados fines que les eran especficos. [] Fines, estratgico-

    polticos, por dems dilucidados, fines econmicos que atendan por sobre todo a absorber la

    produccin ganadera y saladeril en beneficio de los consumos de su esclavatura y de la

    expansin de los grandes ganaderos y saladeristas riograndenses: tales en breve esbozo, los

    objetivos propios de la dominacin portuguesa.8

    Segundo Eloy, Touron, Torres e Rodrigues, os lusitanos teriam encontrado alguns

    facilitadores para sua conquista das terras uruguaias, especialmente por parte daqueles que

    6 ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental p. 13

    7 Id. Ibid p. 21

    8 TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus de Artigas (1820-1836).

    Montevideo: EPU, 1970 p. 9

  • 17

    estavam descontentes com a poltica agrria de Artigas, de distribuio de terra entre os

    gachos, os pees, os negros, os pobres, para impulsionar a ocupao da Banda Oriental e

    consolidar sua independncia. Estes so chamados por esses historiadores de traidores da

    ptria. En agosto de 1816 los portugueses irrumpan en la Banda Oriental. Las fuerzas

    invasoras avanzaron rpidamente y en pocos meses ocuparon la plaza de Montevideo. Mas

    enemigos de la revolucin artiguista aparecieron pblicamente y creci el nmero de traidores

    a la patria.9

    Outro aspecto que parece ter facilitado a invaso portuguesa teria sido o fato de que

    sobretudo os grandes proprietrios orientais no estavam naquele momento dispostos a mover

    uma guerra contra o Imprio, que sacrificaria suas posses. Las defecciones de los grandes

    hacendados empezarn a sucederse luego de 1817. Entre los propietarios rurales el odio a los

    portugueses estaba muy arraigado. Se remontaba al coloniaje y no estaban lejanos los

    sufrimientos de la invasin de 1811. Pero sostener una larga guerra implicaba sin embargo

    una segura destruccin de los ganados que an podan quedar sobre los campos. De cmo se

    las gastaban los portugueses dan cuenta documentos de estos aos.10

    Ou seja, para os terratenientes, uma resistncia mais dura conta os lusitanos poderia

    significar perder tudo o que tinham conquistado depois de 1811. Encarando a situao dessa

    maneira, a resistncia aos portugueses naquele momento ficava sobretudo a cabo exatamente

    daqueles que no tinham mais nada a perder e tudo a ganhar, os pobres e despossudos das

    cidades e dos campos.11

    O general Lecor, que comandava as tropas lusitanas na Banda Oriental agiu de modo a

    conquistar adeptos entre os proprietrios uruguaios e comprar a oligarquia crioula

    montevideana com a distribuio de cargos. Consumada la conquista, Lecor mont un

    complejo aparato administrativo que form con portugueses y hombres de la oligarqua

    criolla. El propio Lecor tena el cargo de Gobernador y Capitn General de la Banda Oriental

    del Ro de la Plata y el Mariscal Sebastin Pinto de Araujo fue designado Gobernador de

    Montevideo y Presidente de su Ayuntamiento.12

    9 ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 25

    10 Id. Ibid pp. 34-35

    11 Id. Ibid p. 37

    12 Id. Ibid p. 46

  • 18

    Seguem os autores escrevendo a respeito dos colaboracionistas e abrasileirados

    uruguaios: Los colaboracionistas recibieron las migajas del festn, repartidas adems en

    forma desigual. Lecor Mediante ddivas y honores, gan la voluntad de los hombres,

    profundo conocedor de las flaquezas humanas, halag a unos con promesas y a otros con

    realidad; reparti cruces y condecoraciones; distribuy tierras que no eran las del Rey;

    conquist a la sociedad de Montevideo con fiestas saraos; cas a sus oficiales con hijas del

    pas, haciendo l propio los hombres para cada cometido; eligi a su gusto los Cabildos,

    organismos que tenan prestigio popular y que fueron el secreto de su poltica y de tal suerte

    dispuso las cosas, que todos los actos de incorporacin a la corona de don Juan VI o acciones

    de ella parecieron siempre hechos espontneamente.13

    Eloy, Touron e Torres escrevem que os portugueses instituram um novo monoplio

    em lugar daquele que havia no tempo de colnia. Entretanto, se a liberdade de comrcio era o

    que queria a oligarquia de Montevidu, alm da segurana da propriedade, no era isso o que

    os lusitanos traziam. El dominio luso-brasileo comenzaba a generar un nuevo monopolio a

    favor de los comerciantes de su nacin, provocando las primeras contradicciones entre la

    burguesa comercial e su nuevo amo. Pero no fue esa la nica motivacin del enfrentamiento.

    Estaba tambin el eterno problema de las tarifas. Ya en 1814 este asunto haba sido una de las

    causas de oposicin del comercio montevideano al dominador porteo. En 1817 se produjo un

    violento choque entre el Administrador de la Aduana de Montevideo, Jos Maria Roo, el

    Gobernador Pintos de Arajo y el Prior del Consulado de Comercio Dr. Lucas J. Obes.14

    Os portugueses ainda enfrentariam um entrave na dominao do territrio oriental: os

    chefes artiguistas. Lecor tentaria encontrar uma forma de pr um ponto final nessa resistncia.

    Com cautela, se no fosse possvel ganh-los para o lado dos lusitanos, pelo menos que

    fossem neutralizados.15

    En 1820 lleg a su fin la resistencia de las fuerzas artiguistas. Dueo

    de todo el territorio, el gobierno portugus deba organzalo buscando para ello el apoyo de

    los sectores ms influyentes. Contaba, sin duda, con la mayora de los grandes comerciantes y

    los estancieros.16

    13

    PIVOTO, Juan E. Pivel; Apud ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la;

    RODRIGUES, Julio Carlos. La oligarqua oriental [] Op Cit p. 47

    14 ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit pp. 51-52

    15 Id. Ibid pp. 61-62

    16 Id. Ibid p. 63

  • 19

    Ocupado o Uruguai em 1821, os portugueses teriam de encontrar uma maneira de ter

    menos problemas com a resistncia, principalmente com os homens ligados a Artigas. En

    este primer ao de su primitiva ocupacin pacfica abril de 1820 a mediados de 1821 la

    relativa y gradual tranquilidad que iba ganando la campaa corra paralela con la creacin de

    lazos de dependencia de los viejos jefes artiguistas con las nuevas autoridades portuguesas. A

    medida que este nuevo entrelazamiento iba corroyendo las anteriores relaciones

    revolucionarias entre caudillos y masas rurales las autoridades portuguesas se fueron

    considerando habilitadas para retocar la primitiva poltica general de amparo a los poseedores

    de buena fe.17

    Em 1822, o Uruguai estava atopetado de comerciantes lusitanos e ingleses,

    beneficiados pelos tratados firmados ainda pelo antigo rei. De los libros de Entradas y

    Salidas de 1822 se desprende que los ms de los barcos que llegan son portugueses, estn

    consignados a portugueses o brasileos y arriban desde Brasil. Traen alimentos y

    especialmente frutos tropicales: azcar, arroz, yerba, caa, tabaco, etc.; maderas, y algunas

    manufacturas como camas y ejes de carreta, artculos de cuero, etc. Brasil se transforma en

    lugar de intermediacin para los efectos extranjeros, y los portugueses y brasileos en

    monopolistas del trfico negrero. Y los comerciantes criollo-espaoles tienen que contemplar

    sufridamente cmo se instalan una multitud de traficantes lusitanos, agentes de casas

    brasileas, que disfrutaban a sus anchas de toda clase de privilegios. Por si esto fuera poco,

    tambin son desplazados por capitalistas ingleses que se benefician de los generosas

    tratados concertados por la casa de Braganza con Gran Bretaa y de otras naciones, que se

    hacen an ms numerosas a partir de 1820.18

    No podemos esquecer que depois do 7 de setembro de 1822, o Brasil independente

    passou a depender comercialmente em forma ainda mais forte da Gr-Bretanha. Deixava de

    reger o pacto colonial com a metrpole portuguesa, mas mantinha-se a dependncia

    econmica com a Inglaterra de colnia o Brasil passava a uma semi-colnia. (Ver o capitulo

    sobre o Brasil). Alm do mais, a burguesia montevideana passou a se decepcionar cada vez

    mais com a situao em que se encontrava, sob domnio estrangeiro. La dominacin

    portuguesa se haca intolerable para la burguesa portuaria montevideana a mediados de 1822.

    Fue entonces cuando se escindi esta clase que tan entusiastamente haba recibido al invasor

    en 1817. Entre los comerciantes aparecen como beneficiarios de la novel dominacin el

    17 ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit pp. 111-112

    18 Id Ibid p. 73

  • 20

    escaso nmero de los vinculados especialmente al comercio portugus y no desplazados por

    los brasileos, los abastecedores de la armada y tropas lusitanas y los contratistas de todo tipo

    con el Estado. En cambio, y sobre todo despus del Tratado del Cuadriltero, padecieron en

    sus intereses los que hacan navegacin de cabotaje y en particular los que comerciaban con

    Buenos Aires y el litoral, adems de los exportadores, barraqueros, saladeristas, etc., que en

    mayor o menor grado se vieron afectados negativamente por la limitacin impuesta por el

    nuevo coloniaje.19

    No demoraria, entretanto para que a burguesia montevideana passasse a se frustrar

    com a poltica luso-brasileira. El neo-colonialismo portugus, con su poltica proteccionista

    del comercio, la navegacin y los saladeros brasileos, y con la elevacin de las tasas en

    beneficio de la capa burocrtica, frustr abruptamente sus esperanzas. Importadores y

    exportadores, comerciantes con negocios en el Litoral y Buenos Aires, y junto a ellos los

    saladeristas, sufrieron por una poltica que expresaba unos intereses que no eran los suyos. La

    instalacin de traficantes extranjeros los releg al papel de segundones en una plaza que

    consideraban suya.20

    Quem ainda permanecia fiel aos invasores? Quais classes ainda eram favorecidas pela

    poltica comercial imposta pelos luso-brasileiros? Slo el pequeo grupo de funcionarios

    bien pagos y abastecedores que cobraban generosamente, a costa del resto de la sociedad,

    mantuvieron una adhesin inmutable a los nuevos amos. Fueron los integrantes del crculo de

    Lecor, del Club del Barn, hbilmente halagados con prebendas y honores por el raposo

    al decir de Lavalleja -, por el insinuante y lcido jefe de las fuerzas extranjeras.21

    Para levar adiante a resistncia contra os luso-brasileiros, no entanto, passou a ser

    fundamental o apoio externo. Sendo assim, era imprescindvel que a oligarquia de Buenos

    Aires se colocasse ao lado de Montevidu. Para el pequeo grupo dirigente y para el

    conjunto de la burguesa comercial y terrateniente montevideana, es de vital importancia

    ganar el apoyo del gobierno bonaerense y decidir un vuelco a su favor de la poltica

    rivadaviana. Aunque estn de acord en unir a la Provincia a las argentinas, hay consenso

    unnime en la necesidad vital del apoyo de Buenos Aires y las dems provincias. [] Desde

    antes de jugarse la suerte en la campaa los dirigentes montevideanos estaban persuadidos de

    19

    ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 77

    20 Id. Ibid p. 122

    21 Id. Ibid p. 123

  • 21

    que para mantener la hegemona del movimiento les era imprescindible contar con apoyo

    exterior.22

    A Argentina, no entanto se encontraba fortemente dividida. El interior se opona al

    litoral y Buenos Aires en torno a las tarifas aduaneras, tema que enfrentaba a los productores

    de artesanas con los ganaderos y comerciantes. El litoral se opona a Buenos Aires

    fundamentalmente en cuanto al viejo problema del puerto nico, mientras las contiendas por

    tierras en las fronteras mal definidas, e inclusive el intento de subyugacin de unas por otras,

    contribuan a enfrentarlas. Tambin en el interior de cada una estaba planteado el problema

    del poder. Viejos hacendados y estancieros caudillos se enfrentaban con las clases ligadas al

    comercio exterior y, en el caso de Buenos Aires, clases de comerciantes y prestamistas se

    afanaban por apoderarse del gobierno. Se planteaban complejos problemas a consecuencia del

    escaso desarrollo de las fuerzas productivas y del predominio de una estructura precapialista,

    situacin que se prolong por largo tiempo impidiendo la unidad nacional hasta despus de

    Pavn.23

    Apesar de todas essas diferenas, tanto Buenos Aires como as provncias tinham um

    ponto em comum. En Buenos Aires y las dems provincias eran muy fuertes las tendencias

    anti-portuguesas. Portugal significaba un peligro latente para todas ellas, particularmente para

    Entre Ros, que haba estado en la mira de los lusitanos. Montevideo segua siendo para el

    litoral el puerto alterno de Buenos Aires, cuyo monopolio siempre era objeto de resistencia.

    [] Una motivacin importante era, sin duda el deseo de recuperar las tierras que Artigas

    haba confiscado a numerosos propietarios porteos y a algunos entrerrianos.24

    Em 1823 haveria uma primeira tentativa de independncia oriental em relao ao

    Imprio. El movimiento de 1823 fue finalmente vencido. En la Provincia fracas el

    levantamiento de la campaa. Sin las masas rurales que eran las ms activas poltica y

    militarmente era imposible triunfar. Todava no se haban acumulado en el campo los

    ingredientes explosivos que iba a generar en los aos siguientes la poltica definidamente

    propietarista de los brasileos. La dependencia de las masas con relacin a los caudillos

    22

    ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 139

    23 Id. Ibid p. 152

    24 Id. Ibid p. 153

  • 22

    militares, y en particular en relacin a Rivera, permiti a este ltimo decidir, con su posicin

    pro-brasilea, la suerte del movimiento ms all de los muros de Montevideo.25

    A pesar da derrota, era possvel notar que de um modo geral, o descontentamento com

    os portugueses era cada vez maior, e que a independncia era uma questo de tempo.

    Dependeria do posicionamento de alguns personagens-chave, que teriam de ser levados no

    s por sua conscincia, mas pelo clamor popular, quase levados a terem alguma atitude. De

    todas formas, la impopularidad del rgimen era creciente. Una parte considerable de los

    hombres del movimiento de 1823 emigr despus de su derrota. En Montevideo y en los

    pueblos de la campaa los vecinos prominentes se excusaban a aceptar los cargos a cuyo

    ejercicio eran forzados. En estos aos Rivera se transform en el hombre clave. A la muerte

    del Brigadier Mrquez de Souza, en 1824, sum a los cargos que ya desempeaba la

    Comandancia de la Campaa.26

    Inicia-se um novo movimento para a libertao do Estado Oriental. Desta vez

    contando com a maioria esmagadora da populao e com seus lderes mais comprometidos

    para com a causa. 1824 y 1825 fueron aos de preparacin de un movimiento libertador que

    se inici con el desembarco en la costa oriental el 19 de abril de 1825 de los dirigentes salidos

    de Buenos Aires. En estos aos se agudizaron al mximo las contradicciones entre los

    colonialistas brasileos y sus adictos por un lado, y la mayora absoluta de la poblacin por

    otro. Los dirigentes ms comprometidos en las acciones de 1823, que estaban emigrados en

    Buenos Aires y otras provincias, desempearon un papel decisivo en la organizacin de este

    movimiento.27

    A Inglaterra ainda trabalharia para pacificar a regio. No lhes era economicamente

    vantajoso que continuassem em constante guerra. Grandes comerciantes ingleses tenan

    fuerte peso en el trfico de importacin y exportacin de Buenos Aires y algunos como

    banqueros y abastecedores hicieron grandes negociados con el Banco de Descuentos. []

    Para aqullos cuyas actividades eran exclusivamente comerciales, toda empresa que condujera

    a la guerra les significara perjuicios irreparables y seguramente actuaron para reclamar la

    paz. Este parece haber sido un objetivo primordial de la mediacin inglesa.28

    25

    ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 160

    26 Id. Ibid p. 171

    27 Id Ibid p. 189

    28 Id. Ibid p. 201

  • 23

    Escrevem os autores Eloy, Touron, Torres e Rodrigues a respeito da cruzada

    libertadora do Uruguai: El levantamiento oriental que se inicia con la Cruzada, es el fruto de

    la conjuncin de oposiciones que engendr el dominio luso-brasileo y que uni a la mayora

    absoluta de la poblacin oriental contra ese nuevo colonialismo. [] Triunf muy

    rpidamente y muy pronto los brasileos tuvieron que refugiarse en Montevideo y Colonia,

    las nicas plazas que se mantuvieron en su poder, porque el descontento antibrasileo haba

    alcanzado un nivel muy superior al que exista en 1823 y porque la experiencia permiti

    prepararlo ms eficientemente. [] La ayuda que recibieron de las dems provincias y en

    particular en Buenos Aires, no hizo sino auxiliar a quienes tenan la decisin y estaban

    apoyados por el pueblo en la sentida tarea de separarse de los nuevos amos.29

    A ao de libertao oriental comparada s guerras pela independncia do Vice-

    Reinado do Prata em 1811. Como en 1811, la insurreccin abarcaba mayoritariamente a la

    poblacin oriental. Era una oposicin nacional hacia a una potencia extranjera y sus

    personeros locales. Se nutra de la tradicin colonial y revolucionaria. A los criollos se

    unieron ahora los espaoles que perdida toda esperanza en la restauracin de la metrpoli, se

    incorporaron al movimiento, si por otras razones no estaban vinculados al poder brasileo.30

    O Estado Oriental do Uruguai se tornaria independente no ano de 1828 e essa seria uma das

    causas do enfraquecimento da autoridade de D. Pedro I, bem como do desgaste de sua

    imagem perante os proprietrios brasileiros em um processo que culminar com sua

    abdicao do trono em 1831.

    A questo agrria no Uruguai

    Depois de uma grande modificao na estrutura agrria, promovida por Artigas,

    diversos grupos tiveram direito ao acesso terra. Poseedores sin ttulo, arrendatarios, peones,

    gauchos, negros libres, etc., tendran ahora el principal derecho para acceder a la tierra. []

    En lenguaje jacobino, expresaba sin duda, la creciente vinculacin que se haba producido a lo

    largo de cuatro aos de lucha, entre el ncleo dirigente de la Revolucin y las masas

    desheredadas.31

    Teria sido nesse contexto que muitos latifundirios teriam aceitado sem

    muita resistncia ou at com alegria a chegada dos invasores portugueses.

    29

    ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit pp. 203-204

    30 Id. Ibid p. 208

    31 Id. Ibid p. 34

  • 24

    Os grupos de proprietrios bonaerenses e

    emigrados encontraram um problema. Ao tentarem

    recuperar seus domnios, depararam-se com os

    chamados posseiros artiguistas. Esse confronto

    entre posseiros, arrendatrios de boa f e os

    proprietrios perpassaria pelo perodo de dominao

    luso-brasileira e adentraria mesmo no perodo

    independente do Estado Oriental. Assim escrevem os

    historiadores uruguaios Torre, Rodrigues e Torres em

    Despus de Artigas, de 1970: Los propietarios de

    este grupo [emigrados], no tuvieron prcticamente

    dificultades para recuperar sus campos, en lo que

    tiene que ver con una deleznable oposicin de los

    poseedores artiguistas documentados o no. Las

    dificultades que pudieran haber hallado se cifraron en

    aquellos casos en que sus campos se cubrieron con

    los recin llegados portugueses, caso sobre el cual nos detenemos nuestra atencin por no

    correponder al anlisis que hoy realizamos, pese a su incrementada importancia a lo largo de

    la dominacin cisplatina.32

    Quando os portugueses invadiram a Cisplatina, encontraram uma situao nada fcil,

    onde se enfrentavam reacionrios espanhis e a burguesia montevideana. Apenas el invasor

    se encontr dueo de la ciudadela de Montevideo e hall entre dos fuegos cruzados: la vieja

    contrarrevolucin espaola clamaba no slo por la devolucin de sus bienes sino tambin por

    el castigo a aquella burguesa girondina que haba aprovechado la ruina de sus intereses; pero

    el sector criollo de la burguesa montevideana haba sido el mejor aliado del invasor; sin su

    obsecuencia, muy difcil hubiera sido al portugus el dominio pacifico de la orgullosa

    ciudad.33

    Os autores Eloy, Touron, Torre e Rodrigues em seu livro La oligarquia oriental em

    la Cisplatina, de 1970, destacam outro aspecto que ser decisivo nos acontecimentos

    posteriores: a ocupao por luso-brasileiros de terras no Estado Oriental. Numerosos

    brasileos se apropiaron o adquirieron tierras en la fronteriza, iniciando un proceso que

    32

    TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus de Artigas. Op Cit p. 11

    33 Id. Ibid p. 23

    Figura 2: Pintura a leo Jos Gervsio

    Artigas [1764-1850]. Promoveu uma

    grande distribuio de terras em seu pas.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 25

    todava en la segunda mitad del siglo XIX pesaba sobre la propia existencia nacional, al

    convertir al Norte del Rio Negro en lugar de invernada para los ganados que faenaban los

    saladeros de Ro Grande.34

    Em verdade, essas regies, que conheciam igualmente fazendas

    pastoris apoiadas fortemente na mo-de-obra escravizada, eram verdadeiras extenses do Rio

    Grande do Sul.

    E o Rio Grande do Sul era o destino do gado contrabandeado dos campos orientais.

    Si desde la poca colonial el Ro Grande haba sido el mercado tradicional para el trfico

    clandestino de cueros y ganados, ahora que los portugueses mandaban allende y aquende de la

    lnea de demarcacin, puede colegirse fcilmente con qu puntualidad se cumpliran tales

    normas. Ms bien parece una hbil jugada de Lecor para ganar la buena voluntad de los

    orientales o justificar las giles genuflexiones de aquellos ilustres patricios que integraran el

    inminente Congreso Cisplatino.35

    Em geral, muitos daqueles que tinham recebido terras durante o perodo artiguista, no

    todos, acabaram sendo expulsos de suas terras. [] la expulsin masiva de los donatarios e

    intrusos no fue, ni poda ser, un recurso generalizado. El gobierno no tena inters en

    transformar la campaa en una hoguera revolucionaria no deseaban y muchas veces no

    podan explotar los extensos campos directamente. Caba [] transformar a los orgullosos

    trabajadores independientes del campo en productores subordinados y explotados. [] De

    este modo uno tras otro de los poseedores, donatarios e intrusos, fue conociendo la terrible

    alternativa: o desalojo o subordinacin.36

    Em 1822 veio a independncia do Brasil. Com ela houve lutas em diversas provncias

    entre pr-lusitanos e independentistas, inclusive na Cisplatina, onde eram numerosos os

    soldados e oficiais portugueses. A poltica agrria seria afetada por esses acontecimentos,

    como destacam os autores Torre, Rodrigues e Torres: La independncia de Brasil,

    proclamada el 7 de setiembre de 1822, provoca a los pocos la separacin de Lecor, quien se

    instala con las fuerzas adictas a Brasil en Guadalupe e ntima a los destacamentos leales a

    Portugal el abandono de la provincia. La crisis en seno de las fuerzas armadas dominantes es

    34

    ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 66

    35 Id. Ibid. p. 71

    36 TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus []. Op Cit pp. 62-63

  • 26

    aprovechada por el Cabildo montevideano, que en octubre, proclama su deseo de

    independencia.37

    Seguem os autores citados: En el tema que ahora preocupa nos importa comprender

    que esta grave crisis trajo como consecuencia si no un viraje radical en la poltica agraria de

    Lecor, s por lo menos la suspensin dos desalojos masivo que amenazaban a los donatarios

    artiguistas y los dems poseedores sin ttulos de la campaa. [] Cabe recordar, si, que vino

    agregar un elemento de gran complexidad le acelerada tendencia de repartir tierras entre los

    oficiales cuyas consecuencias no podran menos que influir sobre la anterior puja entre

    propietarios e poseedores, apenas se resolviese el conflicto militar que ahora detena a

    Lecor.38

    Um dos conflitos que chamamos ateno para esse perodo o dos grandes

    proprietrios de terras contra os posseiros sem ttulos. Um exemplo citado pelos autores

    Torre, Touron e Rodrigues, envolvendo Alcorta e Garrido. O ltimo teria recebido uma

    estncia de Artigas em 1815. No entanto, seu ttulo de propriedade teria se extraviado.

    Posteriormente, o intento de Garrido de consolidar sua propriedade provocou a rplica de

    Alcorta. Sendo assim, em 1824, o amparo de posse dado a Garrido foi suspenso e, em menos

    de um ano, ele estava junto com os demais posseiros e arrendatrios que foram expulsos de

    suas terras. Os desalojados engrossariam o exrcito que lutaria sob as ordens de Rivera.39

    Mas o que levava os portugueses a adotarem essa poltica de apoio s classes

    possuidoras em detrimento dos donatrios e posseiros artiguistas? Segundo escrevem os

    autores Torre, Rodrigues e Torres: [] la nueva poltica de las autoridades brasileas era

    totalmente solidaria con los intereses de los grandes propietarios, no intentaban siquiera

    volver el pleito a los viejos trminos, que slo se haban justificado por el temor que las

    autoridades sentan a la fresca hombra revolucionaria das masas artiguistas.40

    Alm do conflito entre posseiros e proprietrios, Eloy, Touron, Torres e Rodrigues

    destacam outro problema com relao poltica agrria na Cisplatina: a presena lusitana.

    En definitiva, todo el Norte de la Provincia, donde se haban repartido la mayora de las

    tierras a oficiales y soldados brasileos, sala del mbito econmico tradicional y pasaba a ser

    una dependencia de Ro Grande. Este territorio, asiento de la mayor parte de los ganados

    37 TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus []. Op Cit p. 65

    38 Id. Ibid p. 65

    39 Id. Ibid p. 67

    40 Id. Ibid p. 69

  • 27

    orientales, y donde por decreto anterior se haba permitido la saca a los propietarios criollos

    pasaba ahora a ser campo de disfrute de los brasileos.41

    Os luso-brasileiros passaram a exigir o ttulo de posse das terras para provar o direito

    de permanecer nelas, o que criaria dificuldades para os posseiros. El Bando de 7 de

    noviembre de 1821, al obligar a propietarios y poseedores a probar sus derechos, estaba

    decidiendo de antemano quin se quedara con la tierra. Resolver como cosa juzgada por los

    tribunales qu ttulo tendra prelacin a otro equivala a disponer que los viejos propietarios

    volviesen a sus campos y que, en consecuencia, los poseedores artiguistas saliesen de ellos e

    aceptasen diversas formas de subordinacin. El ciclo de la tendencia de la tierra cumplido

    bajo la dominacin espaola se replantaba bajo el nuevo colonialismo.42

    Outros que foram afetados pela poltica portuguesa eram do grupo dos que possuam

    terras desde o perodo colonial, mas perderam os ttulos que tornavam sua posse legal.

    Tambin tuvieron sus dificultades aquellos que no haban alcanzado a perfeccionar sus

    ttulos en la poca colonial o que haban perdido los documentos que convalidaban sus

    derechos. Para todos estos la reivindicacin se agravaba por las lentas indagatorias, las

    compulsas siempre costosas en archivos extranjeros y nacionales, los testimonios de vecinos

    a veces renuentes, a veces enemigos y las gravosidades de los influyentes, cuyo favor no se

    lograba si no se les pona por delante el estipendio.43

    Depois da independncia da Cisplatina, os posseiros renovaram suas esperanas para

    conseguir novamente a posse de suas terras. Segundo Torre, Rodrigues e Torres: Separada la

    Provincia Oriental, en pleno cumplimento de la Convencin Preliminar de Paz, se presentaron

    inmediatamente los donatarios artiguistas ante los tribunales nuevamente con la idea de

    consolidar sus propiedades. Obraba a favor de sus expectativas, el convencimiento de que la

    independencia estatal de la otrora Provincia Oriental, habra de traer como consecuencia la

    caducidad de la legislacin argentina, al amparo de la cual los tribunales haban desconocido

    sus derechos.44

    A situao criada acabara por levar muitas pessoas a procurarem seus direitos, dando

    origem a uma enxurrada de pedidos. La avalancha de solicitaciones llegadas de todos lados

    41

    ELOY, Rosa Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La

    oligarqua oriental [] Op Cit p. 90

    42 Id. Ibid p. 114

    43 Id. Ibid p. 116

    44 TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus de Artigas. Op Cit p. 97

  • 28

    donde los donatarios artiguistas an conservaban un mnimo de posesin, coloc al Gobierno

    en grave conflicto. Con ese motivo el 22 de enero de 1829 el Ministerio del Gobierno pas a

    una orden a los tribunales para que se suspendiese el curso de todos los expedientes donde se

    tratase de las donaciones realizadas por Artigas, hasta que la Asamblea General resolviese la

    lnea a seguir en los terrenos donados por los gobiernos anteriores. Sometidos a tal resolucin

    se paralizaron todos os trmites iniciados por los donatarios artiguistas ante cuyas

    reclamaciones fueron recayendo sucesivamente vistas fiscales y autos que se amparaban en la

    resolucin superior para no conocer ni comprometer opinin en los asuntos debatidos.45

    Os autores Torre, Rodrigues e Torres acabam por colocar que esta disputa entre

    posseiros e proprietrios, que perpassar os tempos acabar por entrar para as disputas

    polticas locais. En los campos [] nuevos y viejos poseedores se enzararon en furiosos

    pleitos, algunos de los cuales no finalizaran sino muy avanzado el siglo. No es del caso

    insistir aqu sobre la enorme importancia que tuvo este hecho para nuclear a los hacendados

    de intereses contrapuestos sobre la misma tierra, en facciones enemigas que a la postre junto

    a otras motivaciones se decantaran en los llamados partidos tradicionales: Blanco y

    Colorado.46

    O Uruguai e seus partidos: blancos e colorados

    Torre, Rodrigues e Torres, em Despus de Artigas, de 1970, escrevem a respeito da

    estrutura social da Cisplatina, bem como sobre a formao das diferenciaes partidrias.

    [] la estructura social semifeudal, por la cual los lazos de dependencia personal se

    sobreagregaron a los lazos de solidaridad de clase, desfibrando, corroyendo las antiguas

    configuraciones de revolucin y contrarrevolucin. En fin de cuentas, estas relaciones,

    teidas de uno u otro contenido histrico-concreto tuvieron una suficiente solidez como

    perdurar en poca independiente hasta cristalizar en los partidos de York y Lancaster, de

    borgoones y armagnacs que dieron al Uruguay dcimono su rostro reconocible: Blancos y

    Colorados.47

    A Repblica Oriental do Uruguai se havia dividido em Blancos e Colorados, sendo os

    primeiros, como mencionados anteriormente apoiados pelo Paraguai e pelos Federalistas

    argentinos e menos flexveis ingerncia brasileira; ao passo que os segundos, apoiados pelo

    Imprio, sendo mais flexveis quanto navegao, relaes comerciais, concesses

    45

    TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus de Artigas. Op Cit p. 98

    46 Id. Ibid pp. 98-99

    47 Id. Ibid p. 10

  • 29

    territoriais, extraterritorialidade, etc. Eram os abrasileirados. Entre eles encontravam-se os

    criadores rio-grandenses e seus dependentes e agregados com enormes pores de terras

    no norte do Uruguai, que apontavam para a subalternizao do Estado oriental ao Imprio.

    Os partidos Blanco e Colorado surgiram na dcada de 1830 do embate entre faces

    que lideraram o processo de independncia do Uruguai, cujos expoentes eram Manuel Oribe e

    Fructuoso Rivera.48

    A respeito dos dois grupos polticos, o historiador brasileiro Moniz Bandeira, escreveu

    em O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana, de 1995: O Uruguai tambm se fracionou em dois

    blocos polticos, blancos e colorados, como um prolongamento, em parte, das dissidncias

    que se verificavam internamente na Confederao Argentina.49

    Contudo, em nosso

    entendimento, no h esse prolongamento mecnico, mesmo quando havia identidade

    conjuntural ou de interesses. Entendemos que devemos respeitar as peculiaridades existentes

    em cada pas, mesmo levando em considerao que os interesses dos colorados fossem

    condizentes com os unitrios argentinos, uma vez que ambos os grupos eram formados pela

    burguesia importadora; ou ainda que os blancos teriam uma viso mais prxima dos

    federalistas argentinos, sendo formados basicamente por estancieiros charqueadores. No

    podemos ignorar, alm da histria local, as personalidades das lideranas em cada partido, em

    cada regio.

    A respeito desta diviso partidria, e da necessidade de relativizar a identificao entre

    colorados e unitrios, blancos e federalistas, escreve o historiador argentino revisionista Jos

    Maria Rosa, no seu clebre estudo La guerra del Paraguay: y las montoneras argentinas, de

    1985: Los blancos orientales equivalen a los federales occidentales, como los colorados a

    los unitrios. Esta comparacin vale solamente en general pues la presencia de un fuerte

    caudillo Fructuoso Rivera ti al coloradismo de un cierto sabor criollo ausente del

    unitarismo argentino.50

    A diviso dentro do Estado Oriental no era apenas de cunho poltico. Ela tambm

    representava uma dissenso no que diz respeito orientao econmica. Segundo escreve

    48 Cf. NAHUM, B. Manual de Histria del Uruguay 1830-1903. 2

    a ed. Montevideo: Ediciones de la Banda

    Oriental, 1994.

    49 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 82

    50 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay: y las montoneras argentinas. 1

    a ed. Buenos Aires: Punto de

    Encuentro, 1985 p. 83

  • 30

    Bandeira na obra citada: Dessa forma, paralelamente s rivalidades econmicas e polticas

    entre os diversos grupos rurais e mercantis, competio pelas pastagens e pelos estoques de

    gado, disputa das rendas aduaneiras pelas provncias, pode-se dizer, grosso modo, que ento

    se produziu um corte profundo em toda a sociedade platense, estruturada sobre a produo

    pecuria, defrontando-se, de um lado, os grupos ligados burguesia comercial, importadora,

    cujos redutos mais fortes se encontravam nos portos de Buenos Aires e de Montevidu, e, do

    outro, as classes sociais sustentadas pela economia nativa, as massas rurais, montoneras ou

    farroupilhas, [sic] que os estancieiros saladeristas, como faco dominante, acaudilhavam.51

    Bandeira escreve que: Em 1843, porm, o reconhecimento da independncia do

    Uruguai urgia. A queda de Montevidu em mos de Oribe, segundo ao governo imperial se

    afigurava, era iminente, o que consolidaria o fechamento do Rio da Prata, dominadas pela

    Confederao Argentina. O Paraguai, vulnervel em sua posio geogrfica, no teria como

    escapar ao xeque-mate que o Governo de Buenos Aires lhe preparava. Sem acesso ao mar,

    encravado no interior da Amrica do Sul, sua independncia dependia da independncia ao

    Uruguai.52

    Isso porque, Montevidu lhe servia de porto alternativo a Buenos Aires, que

    exigia submisso inaceitvel.

    O presidente uruguaio Oribe, blanco, se indisporia com o Imprio, pois, por um lado,

    lutava para impor a autonomia oriental sobretudo sobre os departamentos do norte do pas, em

    grande parte em mos de criadores escravistas rio-grandenses. Para tanto, apoiara-se em

    Rosas, interessado na autonomia uruguaia, por diversas razes, entre elas, recuperar os gados

    da Banda Oriental desviados para as charqueadas rio-grandenses. A respeito escreveu Moniz

    Bandeira: E o problema com o Uruguai se tornou cada vez mais difcil, uma vez que Oribe,

    com o domnio sobre os campos, atacou os interesses dos charqueadores brasileiros,

    assegurando a liberdade dos escravos foragidos e proibindo a transferncia de gado territrio

    brasileiro.53

    Como assinalado, os departamentos setentrionais do Uruguai, na fronteira com o Rio

    Grande do Sul eram, em grande parte, propriedades de rio-grandenses, que se negavam a

    pagar impostos sobre as terras e sobre os gados exportados para as charquearias situadas

    dentro das fronteiras de sua terra natal. Os fazendeiros rio-grandenses em terras orientais

    serviam-se igualmente em forma abundante do brao escravizado, mesmo tendo sido a

    51

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay[] Op Cit p. 83

    52BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 95

    53Id Ibid p. 101

  • 31

    escravido abolida naquele pas em 1842. Nos fatos, comportavam-se como se vivessem no

    Rio Grande do Sul.

    Em uma ao conjunta com os argentinos Mitre e Urquiza, o Imprio derrota Juan

    Manoel Rosas na Batalha de Caseros [3 de fevereiro de 1852], aps dobrar, sem combates,

    Oribe no Uruguai, como podemos acompanhar nas palavras de Jos Maria Rosa: En 1851

    capitula Oribe ante Urquiza. ste, no obstante su pronunciamiento y su alianza interesada con

    Brasil, simpatiza con los blancos. No hay vencedores ni vencidos es la frmula del

    Pantanoso el 8 de octubre. Se convocara a elecciones de diputados y senadores, que

    formaban la Asamblea Nacional encargada constitucionalmente de elegir al presidente de la

    Repblica.54

    No Uruguai as eleies para presidente no eram pelo voto popular, mas censitrias e,

    pelo Congresso Nacional. Ou seja, votavam apenas os grandes proprietrios, nos proprietrios

    ainda mais ricos. Quem controlava a bancada maior, obviamente, elegia o presidente. Rosa

    escreve: De all que la mayora, de los diputados y senadores elegidos en el comicio de 30 de

    noviembre de 1851 pertenecieran al partido Blanco. Importaba poco el color de los

    asamblestas, porque tanto Brasil como Urquiza se haban puesto de acuerdo en el general

    Garzn para la presidencia. [] Pero ocurre algo inesperado. Garzn, enfermo desde al

    comienzo de la campaa contra Rosas, muere el 1o de diciembre, el da siguiente de las

    elecciones. [] Juan Francisco Gir asumi la presidencia.55

    A crise uruguaia e os tratados de 1851

    Em 1851, o Estado Oriental saia da Guerra Grande, iniciada em 1839 e concluda

    quando o Imprio, com Urquiza vergara Oribe e depusera Rosas. Segundo podemos ler no

    trecho de Moniz Bandeira, em O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na

    Bacia do Prata, de 1995: A condio em que o Uruguai se encontrava, quela poca, era

    ainda bastante crtica. Ao trmino da Guerra Grande, em 1851, o pas unificara-se, formando-

    se um s governo, sob a presidncia de Juan Francisco Gir, mas, com a economia em runa,

    ficara reduzido a mero protetorado do Brasil. Sua populao, estimada em 140.000 habitantes,

    por volta de 1840, baixara para 132.000, dos quais 34.000 (40.000 anteriormente) residiam

    54

    ROSA, Jos Maria. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 84

    55 Id. Ibid pp. 84-85

  • 32

    em Montevidu. Dos 24 saladeiros, que existiam em 1842, apenas 3 ou 4 funcionavam e a

    causa do colapso dessa indstria fora a falta de matria-prima, o gado.56

    Um protetorado se d no momento em que um pas colocado sob a autoridade de

    outro governo. no entanto, percebemos que no momento, o Uruguai contava com governo

    prprio, representao diplomtica prpria e com suas instituies polticas e jurdicas

    funcionando, mesmo que aparentemente. Pensamos que e tratava de um semi-protetorado,

    onde vigia as instituies orientais, limitadas pelas clausulas restritivas independncia do

    Tratado e pela enorme dependncia econmica ao Imprio. O poder militar do Imprio e sua

    hegemonia sobre o Prata assombrava igualmente a autonomia e a independncia do pequeno

    Estado.

    O Imprio teria persuadido Oribe a se portar dessa forma depois que mandou o

    Marqus do Paran ao rio da Prata negociar o apoio de dois potenciais inimigos: o presidente

    uruguaio e Justo Jos Urquiza. Segundo escreve o jornalista brasileiro Jorge Caldeira em

    Mau: empresrio do Imprio: Logo que desembarcou, estabeleceu contatos com emissrios

    de Manuel Oribe, o general rosista, adversrio, que controlava todo o interior do Uruguai no

    comando de tropas que misturavam argentinos e muitos uruguaios. Em pouco tempo,

    conseguiu um encontro secreto, e fez uma proposta: disse que no teria chance numa guerra

    com o Exrcito brasileiro, que o futuro do pas estava em suas mos e que seria melhor ser

    prudente. Prometeu anistia para sus tropas comandante includo -, garantiu que ele no seria

    molestado pelo novo governo e poderia contar com a proteo das tropas brasileiras para que

    a promessa valesse. Pouco depois, Paran conseguiu contatos com Justo Jos Urquiza, o

    presidente da provncia de Entre Rios que vinha demonstrando descontentamento com Rosas.

    Com Urquiza, o tom da conversa mudou. Paran falou principalmente de economia, e deu a

    entender que o Brasil poderia facilitar bastante as compras de charque daquela provncia.57

    Mas ainda seria necessrio trazer Urquiza para o lado do Imprio. Somente assim,

    poderiam derrotar Rosas. E assim se fez. Paran sabia que o governador de Entre Rios estava

    insatisfeito e poderia se aliar em uma luta contra o governante da Confederao Argentina.

    Segundo Caldeira: [...] Urquiza aproveitou para explicar que teria at muita vontade de se

    aliar ao Brasil, no fosse o fato de os cofres de sua provncia andarem muito vazios naquele

    momento. Paran entendeu o recado, e apresentou ali mesmo sua proposta para resolver o

    impasse. O governo brasileiro poderia fazer um emprstimo para a guerra, desde que, em caso

    56 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 113

    57 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio do imprio. So Paulo: Companhia das Letras, 1995 pp. 231-232

  • 33

    de vitria, o futuro governo argentino reconhecesse o dbito como dvida pblica. Urquiza

    negaceou um pouco, colocando novos empecilhos ao acordo. Para ganhar a guerra, explicou,

    suas tropas precisariam atravessar um rio muito largo, mas no tinham navios para a tarefa.

    Paran ento lhe garantiu que haveria navios brasileiros, bons e rpidos vapores, esperando

    suas tropas no momento adequado. Como Urquiza demonstrasse ainda certo receio de

    enfrentar o ditador, Paran passou a outra etapa de seus negcios: usou uma eventual aliana

    com Urquiza para pressionar Oribe, e a promessa de que teria Oribe ao seu lado para dar mais

    coragem a Urquiza na luta contra Rosas. Deu certo: Paran acabou convencendo os dois

    inimigos potenciais a mudar de lado. Oribe aceitou a oferta de anistia, e Urquiza assinou um

    tratado secreto nos moldes daquele feito com o governo de Montevidu.58

    Essa jogada, que terminou com a converso de Oribe e com a ajuda de Urquiza

    terminaria com a queda de Rosas, assim descrita por Jorge Caldeira: Em setembro de 1851,

    Oribe se rendeu ao governo da cidade de Montevidu sem disparar um tiro. Para completar a

    vitria do plenipotencirio brasileiro, todo o exercito sob seu comando continuou armado, e

    apenas mudou de lado. Em vez de lutar contra o Brasil, seria empregado na derrubada de

    Rosas. [...] Os soldados brasileiros ficariam na retaguarda, como reserva para uma eventual

    derrota das tropas aliadas e nem precisaram lutar. Em fevereiro de 1852, depois de um nico

    combate, em Monte Caseros, o exrcito rosista foi desbaratado. O ditador nem sequer tentou

    estender a resistncia na capital. Pediu asilo aos ingleses, embarcou na fragata Conflict, e dali

    assistiu ao desfile das tropas argentinas, uruguaias e brasileiras nas ruas de Buenos Aires.59

    Em Mau: empresrio do Imprio, Caldeira refere-se s condies econmicas em

    que se encontrava o Estado Oriental no incio da dcada de 1850. Nada parecia indicar um

    bom futuro naquele lugar. Perto do Uruguai, o Brasil parecia uma ilha de prosperidade e

    ordem poltica e financeira. Nos seis anos transcorridos desde a guerra de 1851, o pas vizinho

    tivera quatro presidentes da Repblica, e renegociara duas vezes o emprstimo de Mau, pago

    aos trancos e barrancos. Continuavam circulando pela praa de Montevidu moedas de todo o

    mundo, e no havia ainda uma moeda nacional. O comrcio era confuso e precrio, porque

    no havia um nico banco no pas ali os grandes comerciantes ainda desempenhavam o

    papel de sistema financeiro, emprestando dinheiro a juros de agiota , mesmo porque a

    cobrana de dvidas nos pampas no era exatamente uma atividade singela. 60

    58

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 232

    59 Id. Ibid pp. 232-233

    60 Id. Ibid p. 231

  • 34

    Portanto, a situao do Uruguai era ruim no s pelos efeitos da guerra encerrada em

    1851, mas tambm pelos privilgios arrancados ao Uruguai, em boa parte em favor dos

    criadores rio-grandenses residentes em terras orientais, na fronteira com o Rio Grande do Sul,

    e devido aos tratados impostos ao Uruguai: Alm dos atos de pilhagem, as califrnias, os

    brasileiros retiravam, sistematicamente, o gado do Uruguai, sem pagar qualquer imposto

    aduaneiro, para abastecer as charqueadas do Rio Grande do Sul, privilgio que o Tratado de

    Comrcio, firmado por Andrs Lamas, em 1851, derrogando as proibies do Governo Oribe.

    Eles ocupavam uma faixa extensa e frtil do Uruguai, ao longo da fronteira com o Brasil,

    onde mantinham campos de criao e engorda de gado. [...] Cerca de 428 estncias,

    pertencentes a brasileiros, abrangiam a superfcie de 1.782 lguas quadradas, o equivalente a

    30% do territrio do Uruguai.61

    Os tratados de outubro de 1851, que segundo o historiador argentino Len Pomer, em

    Os conflitos na Bacia do Prata, de 1979, custaram a dignidade do pas62

    , so tambm citados

    por seu compatriota Jos Maria Rosa. Esos cinco tratados son una vergenza diplomtica. En

    el de limites se ceden las Misiones Orientales a Brasil (Urquiza, por una garanta de

    cumplimiento del 15 de mayo de 1852, renunci a los derechos argentinos) y se adjudica al

    imperio la plena propiedad de la zona norte del Chuy, laguna Mirim yel rio Yaguarn; en el

    de alianza se garantiza la nacionalidad oriental con el derecho de intervencin militar

    brasilea en los conflictos internos uruguayos; en el subsidios se le entrega dinero al gobierno

    de la defensa [Governo de Montevidu durante o cerco], que sera reembolsado por el

    gobierno constitucional al 6% anual, y mientras no se pagase la deuda Brasil intervendra las

    finanzas uruguayas para mejor asegurar al reconstruccin del Estado Oriental[].63

    Segue o historiador: [...] pero el de comercio y navegacin, los estancieros brasileos

    con propiedades en el Estado Oriental no pagaran impuestos por la exportacin de sus

    haciendas y quedaban exentos de milicias, contribuciones y requisiciones militares, sera

    comn la navegacin del Plata y del Uruguay (que no eran limtrofes) no as la de aguas

    limtrofes (laguna Mirim y rio Yaguarn) que seran exclusivamente brasileas, la isla Martin

    Garca seria neutralizada en caso de quedar uruguaya; por el tratado de extradicin adems

    de la devolucin de criminales se haca la de esclavos brasileos fgidos al territorio oriental,

    entregados a simple requisicin y sin trmites engorrosos; los esclavos no perdan su

    61

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 113-114

    62 POMER, Leon. Os conflitos na Bacia do Prata. So Paulo: Brasiliense, 1979 pp. 37-38

    63 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 85-86

  • 35

    condicin por el hecho de pisar territorio oriental no obstante encontrarse abolida la esclavitud

    en l, y podran los estancieros brasileos tener en sus estancias uruguayas los esclavos con el

    rgimen servil que les pluguiese.64

    Destaque-se que nessa poca, como j proposto, a

    escravido fora abolida no Uruguai em 1842.

    Os blancos uruguaios no eram favorveis a uma ingerncia do Imprio em seu pas.

    Por outro lado, os colorados eram mais flexveis ao Imprio, j que dependeram dele para

    retornar ao poder: por isso, os tratados citados foram por eles assinados. Mas no momento, o

    presidente da Repblica Oriental era Gir. E segundo Bandeira: O Presidente Juan Francisco

    Gir, que se elegera, sobretudo, com o apoio dos blancos, tentou desvencilhar-se de algumas

    responsabilidades, contrados pelos colorados durante o cerco a Montevidu, e adquirir certa

    margem de poder para governar. Com o objetivo a renegociao dos Tratados com o Brasil,

    especialmente na questo das fronteiras, entendeu que os devia submeter ratificao pelas

    Cmaras, propiciando, assim, o debate e o surgimento de objees. Por outro lado, decidiu

    que o Estado passaria a administrar as rendas aduaneiras, ento sob o controle de uma

    sociedade mista, integrada pelos credores e representantes do Governo.65

    Len Pomer escreveu a respeito da reao do presidente Gir sobre os tratados: O

    novo governo oriental [Juan Francisco Gir] no estava disposto a aceitar os tratados de 12 de

    outubro de 1851 com o Brasil. O cerceamento territorial e o livre transporte de gado vacum

    at o Rio Grande do Sul eram extremamente difceis de entender. O primeiro recortava o

    territrio sob soberania nacional e o segundo no s subtraia rendas indispensveis ao

    governo, como tambm praticamente anulava toda a possibilidade de reconstruir uma

    indstria de charque no Uruguai.66

    O intervencionismo imperial e o caminho para a guerra

    Procuramos destacar o constante intervencionismo imperial no Estado oriental. Jos

    Maria Rosa ressalta que o Imprio interveio militarmente no Uruguai com freqncia,

    chegando a chamar a Repblica Oriental de protetorado brasileiro, condio esta que se

    estabeleceu depois dos tratados de 1851, como assinalado. Chega mesmo a compar-lo

    antiga Provncia Cisplatina. No entanto, enfatiza que o domnio agora era apenas virtual, pois

    o Imprio tomaria o cuidado de no atrair a antipatia da Inglaterra, que fora favorvel

    64

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit pp. 85-86

    65 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 114

    66 POMER, Leon. Os conflitos [...] Op Cit p. 48

  • 36

    independncia uruguaia. O governo ingls era contra o fortalecimento de qualquer nao

    americana que pudesse se antepor aos seus designos. Ainda escreve que era do interesse do

    Imprio que o governo blanco fosse substitudo por um colorado.67

    Depois da queda de Oribe, formou-se novo governo no Estado Oriental, um triunvirato

    o Brasil deu seu beneplcito queda de Gir afirmao do triunvirato. Segundo Len

    Pomer: Com a queda de Gir convenientemente preparada pelo gabinete imperial e pelo

    governo de Buenos Aires armou-se no Uruguai um governo de trs pessoas, uma das quais,

    o famoso Juan Antonio Lavalleja, faleceu quase em seguida, ficando testa do pas Fructuoso

    Rivera e Venncio Flores. A maior autoridade do Imprio na Banda Oriental era agora o Dr.

    Amaral, que de imediato se transformou no grande manipulador de tteres do governo

    uruguaio.68

    No triunvirato que se formou, um dos trs lderes era blanco, e dois eram

    colorados.

    Rosa ressalta que alm da afinidade dos colorados para com os imperialistas, o fato

    que dois dos membro do triunvirato que assumiu depois da queda de Gir morressem,

    terminou deixando o governo para Flores. En 1852 se convena que los blancos nacionalistas

    fueron desalojados del gobierno por los colorados brasileistas. [] Pero la revolucin

    acabara por estallar el 18 de julio de 1853, dominando los cuerpos de lnea colorada a las

    milicias populares de preferencias blancas. Pero no pudo mantenerse un gobierno

    integralmente colorado; se transigi por un triunvirato de Lavalleja, Rivera y el general

    colorado Venancio Flores. Al ao siguiente haban muerto los ancianos Lavalleja y Rivera y

    Flores quedar como jefe nico.69

    Em 1860, os problemas voltariam, uma vez que novamente os blancos conseguiriam

    indicar o presidente da Repblica, Bernardo Berro que, novamente, procurou obter maior

    autonomia nacional em relao ao Imprio. En 1860 asume la presidencia oriental Bernardo

    Berro. No obstante su militancia blanca, por su gosto quisiera terminar con las luchas que

    desangran al Plata. [] Berro intenta, por la habilidad de sus diplomticos (Juan Jos de

    Herrera y Cndido Juanic) restabelecer la perdida soberana oriental, pero nada puede contra

    67

    ROSA, Jos Mara La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 86

    68 POMER, Leon. Os conflitos [...] Op Cit p. 50

    69 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit pp. 86-87

  • 37

    Brasil que esgrime los tratados de 1851. Ni siquiera se le permite cambiar el Encargado de

    Negocios en Rio de Janeiro, donde debe continuar Andrs Lamas, el gestor de los tratados.70

    A situao uruguaia seria determinante para o surgimento de divergncias entre os

    pases sul-americanos. O elemento catalisador de todas as divergncias foi a situao poltica

    no Uruguai, sob a presidncia, desde 1860, de Bernardo Berro. O porto de Montevidu

    apresentava-se como concorrente de seu congnere de Buenos Aires, pois Entre Rios e

    Corrientes dele se utilizavam como variante comercial para suas exportaes. Desse modo, a

    Repblica uruguaia estabeleceu relaes com a resistncia federalista contra Mitre.71

    Em Maldita Guerra: novas histria da Guerra do Paraguai, ressalta a importncia da

    situao no Estado Oriental para Argentina, o Imprio e o Paraguai. O presidente Berro

    indisps-se [sic] tanto com a Argentina, quanto com o Imprio, que o fim do seu governo

    passou a interessar a esses dois pases. Se isso ocorresse, permitiria a Mitre consolidar o

    Estado unitrio, aps o que poderia enfrentar o Paraguai e os federalistas de Corrientes e

    Entre Rios, caso se aliassem com Solano Lpez. J ao Brasil, o trmino daquele governo

    significaria atender aos reclamos dos fazendeiros gachos [sic], liberando o Imprio para

    pressionar, militar e diplomaticamente, o Paraguai para for-lo a aceitar o rio Apa como

    fronteira entre os dois pases.72

    Em nosso entendimento, indispor-se talvez no seja o termo

    adequado para se referir relao de Berro com o Imprio e a Argentina. O que o presidente

    uruguaio procurou foi enfatizar a independncia oriental. Como j mencionado, havia um

    tratado assinado em 1851 por Andrs Lamas, dando enormes privilgios ao Imprio onde

    citamos: possibilidade de interveno militar, extraterritorialidade, sem contar na alternativa

    de usar trabalhadores escravizados. Ainda no devemos nos esquecer que havia muitas

    propriedades de estancieiros rio-grandenses em terras orientais, de onde retiravam o gado sem

    pagar qualquer tributo. Berro se posicionava contra essa situao e no renovou o tratado.

    Em O Conflito com o Paraguai, de 1996, Doratioto elenca razes do Imprio em uma

    possvel colaborao para com os colorados contra o governo Berro. O citado autor enfatiza

    que pecuaristas rio-grandenses que habitavam em territrio oriental aproveitavam para

    contrabandear o gado para o lado brasileiro, onde o transformavam em charque e o vendiam

    70

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 88

    71 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai. So

    Paulo: Companhia das Letras, 2002 p. 45

    72 Id. Ibid p. 46

  • 38

    para alimentar os escravos.73

    O governo do presidente Berro procurou pr fim liberdade de

    ao desses pecuaristas, que reagiram, reclamando do Imprio proteo aos brasileiros que

    estariam sendo vtimas de maus-tratos da parte das autoridades uruguaias e davam

    publicidade a esses fatos por meio da imprensa e do Parlamento. Foram bem-sucedidos em

    criar, dessa forma, na opinio pblica brasileira uma posio favorvel interveno do

    Imprio no Uruguai.74

    Em nosso entendimento, o presidente Bernardo Berro procurou pr

    fim liberdade de uma ao que era ilegal. Ou seja, Berro tencionava terminar com a ao da

    retirada do gado de suas fronteiras para o territrio oriental sem o pagamento de tributos.

    Procurou por fim ao contrabando de seu gado.

    Doratioto em A Guerra do Paraguai enfatiza a relao entre o Imprio, a Argentina

    mitrista e o governo de Bernardo Berro. Em relao ao Brasil, o presidente Berro procurou

    enfraquecer a hegemonia imperial em seu pas. O governo uruguaio recusou-se a renovar o

    Tratado de Comrcio e Navegao, quando esse espirou em 12 de outubro de 1861,

    eliminando, assim, os privilgios comerciais do Imprio.75

    J ressaltamos oportunamente que

    os privilgios conseguidos pelo Imprio dentro do territrio oriental no eram apenas

    comerciais.

    Flores toma o poder

    Dessa forma, se iniciou no Uruguai uma ao armada, com o intuito de colocar fim ao

    domnio dos blancos, mas que somente seria complementada no mandato do prximo

    presidente, Aguirre, conforme lemos em Maldita Guerra: Em abril de 1863 o caudilho

    colorado Venncio Flores, que, no ano anterior, combatera sob as ordens de Mitre na batalha

    de Pavn, invadiu o Uruguai com tropas recrutadas e organizadas em Buenos Aires e com o

    beneplcito do governo argentino.76

    Bandeira ainda ressalta que no s houve um consentimento imperial na interveno

    contra o governo blanco, como era importante que o governo oriental fosse favorvel s

    polticas brasileiras no Prata. A sublevao colorada empreendida por Flores e incitada

    desde a Argentina [por Mitre], correspondeu aos interesses econmicos e polticos [das

    classes dominantes hegemnicas] do Brasil e esta convergncia viabilizou o entendimento

    73

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva O conflito com o Paraguai. So Paulo: tica, 1996 p.16

    74 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva O conflito [...] Op Cit p. 16

    75 DORATIOTO, Francisco Fernando Monte Oliva. A Guerra do Paraguai. In Histria do Cone Sul. Rio de

    Janeiro, Braslia: UnB, 1998 p. 200

    76 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva Maldita Guerra [...] Op Cit p. 46

  • 39

    com Mitre. Se o eixo Montevidu-Parana-Assuno no

    convinha ao governo do Rio de Janeiro, constitua

    igualmente um perigo para Buenos Aires. Era preciso,

    portanto, empec-lo, destruir aqueles que o tentavam

    compor. [...] De sua parte, o Governo de Buenos Aires

    necessitava de um aliado em Montevidu, por modo a

    conter Urquiza e, debelando as rebelies montoneras por ele

    auladas, sopear o Paraguai, que era, em certo sentido,

    exemplo e estmulo para as tendncias federalistas ainda

    vigorosas. E a articulao entre Paraguai e Uruguai, com a

    participao de Entre Rios e Corrientes, poderia constituir a

    base de outra Confederao, adversa Repblica da

    Argentina.77

    Trabalhamos com a hiptese mais factvel

    apresentada por Rosa, para a interveno de Flores. O

    caudilho colorado, at o momento de sua invaso do Uruguai oficial dos exrcitos argentinos

    de Mitre, teria agido de acordo com os governos do Imprio e da Argentina. El 19 de abril

    de 1825 Lavalleja y Oribe con los 33 orientales iniciaban desde la Agraciada la liberacin de

    la ocupacin brasilea; el 19 de abril de 1863 Venancio Flores, desembarcado cerca de la

    Agraciada, comenzaba su Cruzada Libertadora destinada a afirmar la injerencia brasilea en

    el Estado Oriental. [] Flores se adelant o hizo adelantar los planes de su correligionario y

    amigo con dinero, armas y transportes, facilitados por el trompetero de la prensa liberal

    portea que, despus de Pavn, por un de esos misterios en la libertad era toda la prensa

    portea. Una vez asentado el invasor en su campamento del Paso de la Laguna, se le

    incorporaron partidas de Corrientes (donde gobernaban los mitristas) y de la provincia

    brasilea de Rio Grande; muchas armas, municiones e implementos de guerra salieron

    libremente del puerto de Buenos Aires con destino revolucionario.78

    Berro seria sucedido ento por Anastasio Aguirre. Segundo Bandeira, isto levou a uma

    radicalizao das relaes entre os governos dos pases do Prata e do Imprio. Ao comeo do

    ano de 1864, a situao interna tanto no Uruguai quanto no Brasil radicalizou-se. O mandato

    de Berro terminou e Anastsio Aguirre, da faco mais agressiva e extremada [sic] dos

    77

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 172

    78 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguai [] Op Cit p. 101

    Figura 3: Retrato de Venncio

    Flores[1808-1868]. Caudilho

    colorado, foi presidente do Uruguai

    por duas vezes, entrando na Guerra

    do Paraguai ao lado do Imprio por

    lhe dever a presidncia de seu pas.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 40

    blancos, assumiu provisoriamente a Presidncia da Repblica. No Brasil, Zacarias de Goes e

    Vasconcelos, ex-Presidente da Provncia do Paran, quando denunciara a terrvel ocorrncia

    da erva paraguaia, e lder do Partido Progressista, voltou a organizar novo Gabinete e o

    Brigadeiro honorrio Antnio de Sousa Neto, saladerista e estancieiro no Uruguai, apareceu

    no Rio de Janeiro, a reclamar a interveno contra o Governo de Montevidu, por modo a

    coibir supostos maus tratos e perseguies aos brasileiros residentes naquele pas.79

    Segundo Doratioto em Maldita Guerra, de 2002: Em abril de 1864, o governo

    imperial enviou em misso especial ao Uruguai o conselheiro Jos Antnio Saraiva, deputado

    liberal de posies moderadas. Suas instrues eram as de exigir do governo uruguaio o

    respeito aos direitos dos brasileiros residentes no pas, a punio dos funcionrios uruguaios

    que teriam abusado da sua autoridade e que se indenizassem por prejuzos causados por eles a

    propriedades de brasileiros. Na realidade, o Rio de Janeiro tratava de criar condies para

    justificar a invaso da Repblica vizinha, sendo Saraiva portador de um ultimatum para

    Montevidu.80

    O pretexto para a invaso imperial no Uruguai seriam os pretendidos maus tratos

    sofridos pelos brasileiros l residentes. A interveno ia alm disso, tinha por trs dessa

    motivao manter os uruguaios sob dependncia do Estado Imperial, fazendo valer os tratados

    de 1851. Os imperiais ainda vislumbravam o Paraguai, pois com essa atitude, colocavam o

    pas guarani de joelhos, retirando-lhe a sada ao mar. Pretextando eterno pretexto las

    vejaciones sufridas por los propietarios brasileos de estancias uruguayas sin atender a la

    condicin de minora privilegiada que les daban los tratados de 1851 [...], apenas conocida

    la noticia de Pavn, el ejrcito imperial se dispone a ocupar la Repblica Oriental. El

    movimiento de Flores era slo una operacin auxiliar de otra mayor. [] La invasin era

    publica en abril de 1863. Todos saban que da ms, da menos, Flores ira con los hombres

    y las armas reunidos en Buenos Aires y Brasil, a la vista de todo el mundo, a libertar en

    beneficio brasileo al Estado Oriental.81

    Em Maldita Guerra, Doratioto escreve que o Brasil conseguiu a neutralidade de

    Mitre para depois apresentar um ultimatum ao presidente Aguirre para que cumprisse as

    exigncias brasileiras. Assegurada a benvola neutralidade de Mitre [sic], o governo imperial

    instituiu Saraiva para apresentar um ultimatum ao presidente Aguirre, para que atendesse s

    79

    BANDEIRA, Moniz O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 176-177

    80 Id. Ibid pp. 52-53

    81 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 92-93

  • 41

    exigncias brasileiras. Saraiva mantinha, porm, a postura moderada, quando comparada ao

    intervencionismo belicoso do governo imperial. Foi, de fato, apresentado o ultimatum em 4 de

    agosto, dando-se prazo de seis dias para o atendimento das exigncias, do contrrio tropas

    brasileiras entrariam no Uruguai para garantir os direitos [sic] dos sditos do Imprio ali

    residentes. [...] Assim, Montevidu rompeu relaes com o Imprio, e o ministro oriental no

    Paraguai, Vsquez Sagastume, entregou ao governo guarani cpias da nota de Saraiva com o

    ultimatum.82

    A respeito da pretensa neutralidade de Mitre, Jos Maria Rosa escreve: Era el 15 de

    junio. El 22 de la escuadra mitrista, al acecho cerca de Martin Garca, se apoder del buque de

    guerra oriental General Migas, que llevaba para reforzar los ejrcitos gubernistas del norte, y

    bloque la entrada del Uruguay para cortar las comunicaciones entre Montevideo y los

    puertos sobre ese ro. Bloqueado el Uruguay y ayudado por contingentes y armas salidos de

    Buenos Aires a la luz del da, el triunfo de los revolucionarios no era dudoso. El caudillo

    insurgente aprovech la situacin para batir a los gubernistas en Las Caas (25 de julio).83

    Se contingentes e armas saram de Buenos Aires para auxiliar Flores que servira

    recentemente como oficial nos exrcitos de Buenos Aires no combate a Aguirre, difcil

    imaginar que Bartolom Mitre realmente fosse neutro e no tivesse impulsionado o conflito.

    Sobre a ajuda recebida pelo caudilho Venncio Flores por parte do Brasil, Rosa

    escreve o seguinte: Flores era ayudado a cara descubierta: en el parlamento brasileo se

    habran odo expresiones que no dejaban dudas sobre la posicin y papel de imperio. Estaba

    claro que imperiales y mitristas iban a poner en la Repblica Oriental un gobierno de sus

    conveniencias, mejor dicho, de las conveniencias brasileas, pues el mitrismo jugaba el papel

    de una fuerza de choque.84

    fundamental ressaltar que houve uma admoestao clara e explcita do governo

    paraguaio ao Imprio para o caso de uma invaso imperial no Uruguai. Para muitos

    historiadores, a invaso imperial na Repblica uruguaia o incio da Guerra do Paraguai [ver

    captulo O que se escreve sobre a Guerra do Paraguai sobre o revisionismo]. No saba

    Saraiva el 7 de setiembre que Paraguay haba tomado cartas en el juego. El 30 de agosto, por

    nota del ministro Bergs al representante brasileo Vianna de Lima, haca saber a Brasil breve

    82 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra [] Op Cit pp. 58-59

    83 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 103

    84 Id. Ibid pp. 103-104

  • 42

    enrgicamente que en conocimiento del ultimtum a Uruguay del 4, Paraguay juzgar

    cualquier ocupacin de territorio oriental como atentatorio al equilibrio de los Estados del

    Plata descargndose desde luego, de toda responsabilidad de las ulterioridades. Era, pues,

    la guerra; la tan temida guerra con Paraguay si seguan las represalias.85

    O governo imperial no teria dado maior importncia ao aviso dado por Solano Lpez,

    e segundo Doratioto, em seu texto A Guerra do Paraguai: A ameaa implcita nessa nota

    paraguaia no foi levada a srio quer pelo governo Imperial, quer pelo argentino. Em 12 de

    setembro, em decorrncia do ultimatum, tropas brasileiras penetraram em territrio uruguaio,

    retornando dias depois ao Rio Grande do Sul. Em 20 de outubro, o vice-almirante Tamandar,

    que substitura Saraiva como representante poltico do Imprio no Uruguai, assinou o Acordo

    de Santa Lcia com Venncio Flores, pelo qual se estabelecia a cooperao entre aquele

    caudilho e as foras brasileiras.86

    discutvel a posio de Doratioto quanto ao fato de o

    Imprio no ter dado maior importncia a uma declarao de guerra. Se assim tivesse sido,

    seria imensa a incompetncia da arguta diplomacia imperial. Se esta ltima tivesse

    compreendido, ao contrrio, o sentido pleno daquela clara declarao, a invaso do Uruguai

    objetivaria tambm, abrir confronto contra o Paraguai.

    Segundo Doratioto, em Maldita Guerra, como Aguirre no atendeu ao ultimatum, os

    imperiais invadiram o territrio uruguaio, sob as ordens de Mena Barreto, entregando a vila

    de Melo ao general Flores. Depois de tomarem a vila de Salto em ao conjunta com

    Tamandar, os uruguaios cercaram Paissandu, sendo reforados pelas tropas do general Souza

    Neto, rumando para Montevidu em janeiro de 1865.87

    Rosa descreve a batalha de Paysandu, onde por trs dias, viveu-se um intenso

    bombardeio, fazendo a cidade parecer uma imensa fogueira. Tendo a segunda maior

    populao do Uruguai, perdendo somente para a capital, a esquadra imperial ataca com seus

    canhes a populao civil e Flores manda incendiar as casas. A pesar da resistncia, Paysandu

    acaba deserta.88

    Segundo Moniz Bandeira, Aguirre no teria aceitado qualquer negociao com o

    Imprio confiante na ajuda de Solano Lpez e de Urquiza. Aguirre, a confiar ainda na ajuda

    de Lpez e na sublevao de Entre Rios e Corrientes, continuou a repulsar qualquer acordo. E

    85 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 148

    86 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A guerra do Paraguai. Op Cit pp. 204-205

    87 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Malditoa guerra [] Op Cit p. 65

    88 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 159

  • 43

    se recusou a renunciar, conforme o corpo diplomtico lhe sugerira. Mas, ante a ameaa dos

    canhes de Tamandar, o Senado reuniu-se e elegeu Tomas Villalba Presidente da Repblica.

    Foi o golpe de misericrdia. Com a queda de Aguirre, Villalba passou o poder para Flores. Ao

    trmino do prazo do ultimatum, 15 de fevereiro, o Governo blanco no mais existia.89

    A Repblica Oriental do Uruguai foi ao longo do sculo 19 alvo de seguidas investidas

    do Imprio e de Buenos Aires. Tanto um como outro tinha interesse no pequeno pas. O

    Imprio, que perdeu o domnio sobre o Uruguai em 1828, imps uma srie de tratados

    draconianos em 1851, aps interveno militar no pas. Tambm interferiu na derrubada de

    Oribe e posteriormente de Aguirre, reconstruindo sua hegemonia naquela nao. Seu objetivo

    foi sempre a manuteno dos privilgios dos proprietrios rio-grandenses; impor a livre

    navegao do Prata; obter vantagens comerciais no pas; ampliar suas fronteiras; enfraquecer

    a Argentina e impedir a gnese de qualquer nao hegemnica na regio. Programa

    imperialista que acabaria por levar o Paraguai, em defesa de sua autonomia, a tomar partido

    na disputa, apoiando o Uruguai e a romper relaes com o Imprio e, a seguir, com a

    Argentina de Mitre.

    Assim como o Uruguai, a Argentina tambm teve um processo de formao

    conflituoso. Dividida aps a queda de Rosas na batalha de Caseros [1852], os argentinos

    enfrentaro um processo de guerra civil intermitente que se encerrar em 1861 sem compor

    um Estado unificado. E ser dividida que entrar na Guerra do Paraguai ao lado do Imprio.

    89

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [] Op Cit pp. 188-189

  • 44

    ARGENTINA: DA GUERRA CIVIL GUERRA DE LA TRIPLE INFAMIA

    Introduo

    No presente captulo, analisaremos

    de maneira sucinta o conflituoso processo

    de formao da Argentina. Consolidao

    que poderia ser centralista, como queriam

    os Unitrios, ou federalista, com maior

    autonomia e com maior proteo para a

    economia provincial, como queriam os

    Federalistas. Sabemos que a Argentina

    enfrentou grandes dificuldades para se

    consolidar, conhecendo a invaso

    estrangeira e guerra civil intermitente.

    Veremos a importncia das aes de suas

    classes governantes, com destaque para as

    da provncia de Buenos Aires, em relao

    aos vizinhos e as conseqncias que tal

    ao tiveram no desenrolar dos fatos que

    levaram guerra estudada.

    Ressaltaremos o processo de

    formao da Argentina.

    Depois da derrota de Juan Manoel

    Rosas [1793-1877], na batalha de Caseros [1851-1852], esse pas passaria por um processo de

    guerra civil intermitente na qual as classes dominantes hegemnicas da provncia de Buenos

    Aires [Unitrios] buscavam a unificao centralizada do pas, em favor exclusivo de seus

    interesses, enquanto os segmentos provinciais federalistas mobilizavam-se pela confederao

    das provincial, em p de igualdade. Nesse processo, se defrontariam os federalistas,

    chefiados, sobretudo por Justo Jos Urquiza [1801-1870], contra os unitrios, que tiveram em

    Bartolom Mitre [1821-1906] seu principal dirigente. O confronto teve sua primeira

    culminncia na batalha de Pavn [17 de setembro de 1861], onde Urquiza se retirou do campo

    de batalha, entregando a vitria a seu tradicional adversrio Mitre, que teria consolidado o

    Figura 4: Mapa da Argentina. Pas sofreu com

    sucessivos conflitos em seu processo de unificao e

    entrou na Guerra do Paraguai fortemente dividido.

    Fonte: http://www.google.com.br

  • 45

    domnio unitrio e centralizador de Buenos Aires sobre as provncias rebeldes, ao golpear a

    autonomia uruguaia e paraguaia..90

    A Argentina apresentaria um conflituoso processo de consolidao como Estado

    unificado. Primeiramente governada por Juan Manuel Rosas, que tinha como uma de suas

    finalidades, assim como, em geral, os anteriores e posteriores governantes de Buenos Aires, a

    recomposio do antigo Vice Reinado do Rio da Prata em uma confederao hispano-

    americana, dominada pela provncia de Buenos Aires. Com sua derrota na batalha de Caseros,

    os argentinos presenciaram mais uma vez uma disputa entre seus expoentes, Mitre, com

    projeto de monoplico mercantil e porturio e centralizao em torno de Buenos Aires e

    Urquiza, que propunha uma defesa maior da autonomia e da economia das provncias.

    Disputa essa que teve um primeiro encerramento na batalha de Pavn, com a vitria do

    liberal-mitrismo, como assinalado.

    Buenos Aires e sua importncia para a Argentina

    A cidade de Buenos Aires no seria apenas a capital da Argentina unificada, sobre seu

    taco. Fora a antiga capital do Vice-Reinado do Rio da Prata, que mantivera a regio sob sua

    hegemonia comercial, no contexto do domnio espanhol. Lembra o historiador argentino Juan

    Bautista Alberdi, em La Republica da Argentina consolidade en 1880 con Buenos Aires

    por capital, de 1881. Su gobierno tena por jefe a un Virey, armado de poderes ilimitados y

    absolutos, que le fueron dados por el Rey [de Espanha], en leyes y ordenanzas coloniales, que

    formaban el Cdigo conocido con el nombre de Leyes de Indias y Ordenanza de

    Intendentes.91

    Aquele autor destaca que Buenos Aires era cidade porturia, por onde

    entravam e saam necessariamente, devido ao monoplio regional determinado pela

    metrpole, os produtos e riquezas do Vice-Reinado. La ciudad riberea de su residencia,

    Buenos Aires, fue el indispensable y nico puerto de entrada y salida que tuvo el Vice-Reino

    entero, para el trfico y cambio de sus productos naturales, con los artefactos que reciba de

    Europa.92

    Alberdi escreve como a situao monoplica da cidade-metrpole depois da queda do

    regime monrquico, com o advento da independncia, a partir de 1810. Despus de caido el

    rjimen realista, el gobernador de la Provincia-Metrpoli de Buenos Aires, conservado en

    90

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay. Op Cit p. 150

    91 ALBERDI, Juan Bautista. La Repblica Argentina consolidada en 1880 con la ciudad de Buenos Aires

    por capital. Buenos Aires: Impreta de Pablo E. Coni, 1881 p. 1

    92 Id. Ibid p. 2

  • 46

    plena Repblica escrita, ha dividido los beneficios de la indivisin del poder y del pas

    metropolitano, con otros gobernadores cmplices y partcipes de las rentas que el pueblo

    produca, pero que no gozaba; y la maquinaria de este nuevo rjimen, mera trasmigracin del

    viejo, han sido esas ligas llamadas federales de Gobernadores de Provincias, sin ms

    autonoma que la necesaria para ayudar mantener la de la Provincia-Metrpoli, usada contra

    el pueblo de Buenos Aires, desde luego, y en seguida contra los pueblos argentinos

    interiores.93

    Alberdi identifica tambm um perigo no regime de governo aps a queda de Rosas. A

    diviso do poder, a anarquia ou mesmo a falta de autoridade. Segundo o autor, a existncia de

    dois governos no poderia de modo algum ser benfico para os argentinos. Ese peligro se

    haca sentir en cada eleccin de gobierno, porque cada uno de los dos gobiernos en que estaba

    dividido el poder, lo usarla para renovarse perpetuarse en una forma u otra; y cada uno se

    apoyara en cada gran seccin de las que dividan tradicionalmente al pas argentino; es decir,

    uno en Buenos Aires, otro en las Provincias.94

    Segue o autor, referindo-se ao problema da dualidade de poderes e ao perigo da

    exploso da Argentina em repblicas independentes: Baste decir que la Constitucin que

    instituia y haca coexistir los dos gobiernos nacionales en la Ciudad de Buenos Aires, estaba

    hecha para producir como su efecto natural y forzoso, desde luego, la anarqua falta de

    gobierno (pues donde hay dos, que se neutralizan, no hay ninguno), y en seguida la

    desmembracin del pas argentino en tantas naciones como gobiernos nacionales encierra.95

    Portanto, alm da anarquia poltica e da ausncia de poder centralizado, Alberdi

    identifica outro perigo para o caso argentino: o surgimento de naes rivais dentro de um

    mesmo pas. La coexistencia de dos gobiernos nacionales autnomas independientes uno

    de otro, trae poco poco, pero inevitablemente, la coexistencia de dos Naciones rivales,

    dentro del mismo territorio argentino.96

    Veremos nos captulos referentes ao Imprio e ao que foi escrito sobre a guerra do

    Paraguai que a estabilizao poltica conseguida pelo Brasil, depois do conturbado perodo

    regencial, trouxe-lhes vantagens sobre as naes vizinhas, especialmente a Argentina. O

    Paraguai tambm contou com essa vantagem, uma vez que o dr. Francia governou a nao por

    93 ALBERDI, Juan Bautista. La Republica Argentina [] Op Cit p. 12

    94 Id. Ibid p. 34

    95 Id. Ibid p. 36

    96 Id. Ibid p. 44

  • 47

    mais de vinte anos afastada dos conflitos polticos que reinavam no Prata. Alberdi registra a

    importncia da unificao argentina e da elevao de Buenos Aires como nica capital, em

    uma nao realmente federalizada, superando a diviso entre a Confederao Argentina, com

    sede na cidade de Paran, e a provncia de Buenos Aires, com sede na cidade homnima.

    Para hacer de la Repblica Argentina un poder mas fuerte que el Brasil y Chile aliados,

    bastara consolidarla y unirla en un solo Poder; y para darle esa consolidacin bastara darle

    por Capital a Buenos Aires, pues en Buenos Aires se encuentran unidos todos los elementos y

    fuerzas naturales del poder argentino. Dar al gobierno nacional por Capital y residencia la

    ciudad de Buenos Aires, es completar el poder que necesita para dejar de ser un poder de

    mero nombre, pues la ciudad de Buenos Aires quiere decir el Puerto, el Trfico Directo, la

    Aduana, el Mercado, el Crdito, el Tesoro de la Nacin toda entera.97

    Juan Buatista Alberdi enumera ainda mais razes para a unificao argentina,

    demonstrando que outras naes contemporneas conseguiam essa consolidao. Unitario

    federal, poco importa; son cuestiones de palabras. El sofisma de los nombres ha desfigurado

    la realidad de los hechos y cosas. La cosa en cuestin, es la formacin de un Estado regular, el

    Estado argentino, ms menos como el Estado chileno, que es unitario, el Estado brasilero,

    que es medio unitario, es decir, casi federativo. Se dir impracticable este sistema porque

    somos muchos los argentinos para formar un solo Estado? Los brasileos son ms numerosos,

    pues son diez millones. Ser su forma monrquica la que les d esa capacidad? La Repblica

    de los Estados Unidos, es cuatro veces ms grande, en poblacin, que el Imperio del Brasil.

    Nosotros mismos hemos sidp'el doble de lo que somos hoy en poblacin, cuando hace setenta

    aos formbamos un solo cuerpo social hispano-argentino.98

    Em uma pergunta que ele mesmo responde, Alberdi resume todo seu entendimento

    sobre a importncia de Buenos Aires para a formao da nao argentina e a forma para

    chegar a tal. Qu necesita para ponerse la cabeza de sus vecinos y de todos los Estados de

    la Amrica del Sud? Que la ciudad de Buenos Aires consienta en ser la Capital de la Nacin

    Argentina, en vez de ser modesta Capital de una Provincia rica, pudiendo serlo de catorce

    Provincias, capaces de ser opulentas.99

    Para ele, portanto, o fundamental era a capitalizao

    da grande cidade, com a federalizao das rendas porturias.

    97

    ALBERDI, Juan Bautista. La Republica Argentina [] Op Cit p. 52

    98 Id. Ibid p. 61

    99 Id. Ibid p. 84

  • 48

    Qual era a principal atividade econmica de Buenos Aires? Segundo Alberdi de qu

    vive Buenos Aires? qu constituye su riqueza y poder? El producto de su trabajo rural y

    pastoril, sus ganados, sus pieles, sus lanas, sus carnes, sus granos, sus grasas, sebos, etc., etc.

    Dnde est situado todo eso? [...] El comercio, que es la grande industria de la ciudad de

    Buenos Aires, es desempeado por los estrangeros, en que eclipsan los nativos, por su

    inteligencia en esa industria privada, que les es familiar, desde los pases estrangeros de su

    origen, y privativa en el de su establecimiento americano.100

    A Argentina de Rosas

    Em La Republica da Argentina consolidada

    en 1880 com Buenos Aires por capital, de 1881,

    Juan Bautista Alberdi prope que Rosas teria feito

    um governo absoluto e desptico, nos mesmos

    moldes dos vice-reis. Colocado Rosas en el asiento

    de los vireyes absolutos y omnipotentes, mantuvo su

    poder desptico, por la divisin y separacin en que

    mantuvo todos los argentinos bajo la dependencia

    de su poder absoluto y omnmodo.101

    Mas quem foi Juan Manuel Rosas? Moniz

    Bandeira d-nos algumas explicaes sobre esse

    caudilho, que se tornou uma figura exponencial na

    dcada de 1820. Esse homem, lembrado pela

    historiografia oficial apenas como tirano, assumiu o

    Governo de Buenos Aires em 1829 e logo tratou de

    unificar e organizar o Pas segundo os princpios

    federalistas, firmando com outras provncias o pacto de 4 de janeiro de 1831, que formava a

    Confederao Argentina e lhe entregava a direo de sua poltica externa.102

    Bandeira ainda relata mais sobre o governo Rosas. Durante seu domnio, Rosas

    manteve a ordem pblica em toda a provncia de Buenos Aires, garantiu a segurana dos

    negcios e o respeito propriedade e aos direitos de estrangeiros, reconhecidos em tratados,

    100 ALBERDI, Juan Bautista. La Repblica da Argentina [] Op Cit pp. 171-172

    101 Id. Ibid p. 192

    102 ROSA, Jos Maria. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 84

    Figura 5: Retrato de Juan Manuel de

    Rosas [1793-1877]. Poltico e militar

    argentino. Presidiu a Argentina. Seu

    governo terminou em 1852 depois da

    Batalha de Caseros, onde foi derrotado por

    uma aliana entre imperiais e Urquiza.

    Fonte: http://www.google.com.br

  • 49

    deslocou as fronteiras ao sul e a oesse, permitindo aos estancieiros saciar a fome de terras, e

    procurou atender, tanto quanto podia, s reivindicaes regionais.103

    Segundo Bandeira, Rosas tinha como objetivo restaurar o antigo Vice Reinado do

    Prata. Pretendia formar uma confederao sul-americana. O sistema americano, a que Rosas

    aspirava e na qual o Governo do Imprio pressentia o propsito de reconstruir o Vice-Reino

    do Prata, espelhava, no fundo, essa necessidade de submeter o Paraguai e o Uruguai a uma

    estrutura federal que teria Buenos Aires como epicentro.104

    Temos de tomar cuidado ao

    afirmarmos que Rosas pretendia refazer o Vice-Reinado do Prata, tendo Buenos Aires frente

    como seu programa central, afinal de contas importante levarmos em considerao as

    rivalidades econmicas da poca. No nos parece que reconstruir o Vice-Reino do Prata sob a

    liderana de Buenos Aires fosse a poltica dominante de Rosas, apesar de ser uma orientao

    importante. Rosas representava, sobretudo, a oligarquia pastoril e charqueadora de Buenos

    Aires e, a seguir, o capital comercial porturio. No queremos dizer com isso, que a oligarquia

    pastoril e charqueadora fossem contra essa orientao poltica, mas que suas prioridades

    diziam respeito primeiramente representao dessas classes e em um segundo momento, s

    da classe porturia, onde sim, se teria como finalidade controlar as atividades dos portos,

    colocando Buenos Aires a frente das demais provncias.

    O autor Bandeira escreve que: Dessa forma, paralelamente s rivalidades econmicas

    e polticas entre os diversos grupos rurais e mercantis, competio pelas pastagens e pelos

    estoques de gado, disputa das rendas aduaneiras pelas provncias, pode-se dizer, grosso

    modo, que ento se produziu um corte profundo em toda a sociedade platense, estruturada

    sobre a produo pecuria, defrontando-se, de um lado, os grupos ligados burguesia

    comercial, importadora, cujos redutos mais fortes se encontravam nos portos de Buenos Aires

    e de Montevidu, e, do outro, as classes sociais sustentadas pela economia nativa, as massas

    rurais, montoneras ou farroupilhas, que os estancieiros saladeristas, como faco dominante,

    acaudilhavam.105

    Rosas representava em primeiro plano, a oligarquia pastoril e charqueadora

    de Buenos Aires e em um segundo plano, o capital comercial porturio. Sendo assim,

    necessitava manter o monoplio porturio.

    Por essas razes, Rosas no reconhecia a independncia do Paraguai. Em Os conflitos

    na Bacia do Prata, de 1979, o historiador argentino Len Pomer assinala. Rosas negou-se a

    103

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit. pp. 84-85

    104 Id. Ibid p. 86

    105 Id. Ibid p. 83

  • 50

    reconhecer a independncia do Paraguai alegando o seguinte: porque ameaava a existncia

    da Confederao Argentina; - porque era necessrio formar uma nao de respeitvel porte e

    no pequenos e mseros Estados; - porque o carter competitivo da produo brasileira com

    relao paraguaia acabaria por desloc-la do mercado platense, salvo se o Paraguai como

    parte da Confederao desfrutasse dos benefcios aduaneiros inerentes condio de produtor

    nacional.106

    O mesmo autor escreve que Rosas no s no reconhecia a independncia paraguaia,

    como pretendia ser seguido nessa poltica por seu aliado uruguaio: Isso ocorria nos primeiros

    meses de 1845. Rosas j havia fechado os portos argentinos a todo o comrcio com o

    Paraguai, e logrado que Oribe, seu aliado no Uruguai fizesse o mesmo. A extrema irritao de

    Rosas se devia no tanto persistncia do governo de Assuno em reclamar o

    reconhecimento de sua independncia, mas sim do fato de esse ter se transformado numa

    espcie de ttere imperial, e por seu atrevimento em fazer alianas com a provncia argentina

    de Corrientes, naquela poca sublevada contra a autoridade de Rosas.107

    Desde os tempos coloniais, Buenos Aires sempre explorara economicamente

    Assuno com tributos sobre a erva-mate e o tabaco E essa tributao sobre os produtos

    provenientes de Assuno que explicava o isolamento paraguaio, como veremos. Os rios

    Paraguai e Paran possibilitavam a comunicao de Assuno com os demais locais do Rio da

    Prata, especialmente com a capital do Vice-Reinado, Buenos Aires, onde o principal produto

    paraguaio, a erva-mate, chegava a ser tributado de forma mais pesada de que o ouro, que era

    quintado.108

    A situao, no entanto, no ficaria favorvel a Juan Manuel Rosas, conforme podemos

    ler no trecho de Bandeira. Rosas criara, porm, as condies para sua prpria derrota. Como

    Governador de Buenos Aires, abandonara progressivamente os princpios federalistas que ao

    comeo o norteavam, traduzidos, sobre a Lei das Aduanas, e passara a agir como unitrio em

    suas relaes com as Provncias do interior e do litoral platense.109

    O historiador argentino Jos Maria Rosa inclui tambm os interesses imperiais em um

    possvel fim do governo de Juan Manuel Rosas. La presencia de Rosas en Buenos Aires era

    106

    POMER, Leon. Os conflitos [...] Op Cit pp. 30-31 107

    Id. Ibid p. 31 108

    SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai 1814 1840. So Paulo: Coleo Museu

    Paulista, Srie Ensaios, 1978 pp. 27-30 109

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo [...] Op Cit p. 107

  • 51

    en 1851 cuestin de vida o muerte [sic] para el imperio. Rosas significaba una voluntad frrea

    puesta al servicio de un propsito nacional: haba logrado la unidad de la porcin mayor del

    virreinato del Plata disgregado a partir de 1811 por influencia brasilea principalmente

    consolidando las catorce provincias enemigas que amenizaban convertir el extremo sur del

    continente en una Centroamrica de catorce republiquetas independientes; impedido el avance

    lusitano en las porciones definitivamente segregadas del trono comn, como Paraguay y

    Uruguay; no reconocida la ocupacin de las Misiones Orientales ni la libre negociacin de

    los ros interiores argentinos, orientales o paraguayos, sobre todo, su poltica, hbil y enrgica

    a la vez, amenazaba unir los pases de origen en una fraternidad de comn defensa y respeto

    recproco.110

    Destaque-se que, ao contrrio do sugerido pelo autor, o prprio Paraguai no se

    negara, originariamente, a participar de uma confederao do Prata, se lhe fosse garantido a

    autonomia poltica e comercial por Buenos Aires. No mesmo sentido, Rosas jamais unificou

    efetivamente a Argentina, pois jamais lhe deu uma Constituio que resolvesse a questo da

    capitalizao de Buenos Aires e distribuio das rendas porturias, questes s quais se

    opunha.111

    A situao degradou-se em 1851 Rosas tomou a iniciativa de atacar o Imprio. Moniz

    Bandeira, no livro citado, lembra: Em 18 de agosto de 1851, agravada a crise, Rosas tomou a

    iniciativa da declarao de guerra, que o Imprio brasileiro evitava, preferindo [este ltimo]

    golpe-lo [a Rosas], obliquamente, atravs do ataque a Oribe, como no bilhar, a fim de no

    ferir a Conveno Preliminar de 1828 e no dar pretexto interveno da Gr-Bretanha. Dois

    meses depois, no entanto, o stio de Montevidu, que se arrastara por anos, terminou. Oribe e

    as tropas da Confederao Argentina, comandadas, renderam-se a Urquiza praticamente sem

    resistir. Essa atitude no se deveu tanto ao temor da derrota, na iminncia de ter que enfrentar,

    tambm o exrcito brasileiro, avanando sobre Cerrito, como alguns supuseram.112

    A historiografia tradicional identifica Rosas como um ditador sanguinrio que

    degolava seus opositores. Mas, segundo Bandeira, isso era prtica comum na regio nesse

    perodo. A situao chegara ao ponto em que Rosas s poderia enfrentar o Imprio

    brasileiro, recorrendo cada vez mais ao terror poltico, Mazorca. No importa, no caso, se

    ele mandava ou no degolar seus adversrios. Unitrios ou federais, colorados ou blancos,

    110

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 19

    111 Cf. BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana. 2a So Paulo: Ensaio; Braslia, DF; Editora da Universidade de Braslia,

    1995.

    112 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [] Op Cit p. 108

  • 52

    caramurus ou farrapos, todos degolavam. Na regio do Rio da Prata, onde os gaudrios

    matavam bois ou cortavam as veias do cavalo para beber sangue e aplacar a sede, onde o

    cuchilo era o principal instrumento de trabalho, a violncia e a morte constituam o seu

    cotidiano.113

    No entanto, apresentar a violncia da poca como resultado da forma de

    produo nos parece uma explicao bastante ingnua. A violncia nasceria das relaes

    sociais e no pelo fato de se cortar as veias dos cavalos ou matar bois ou pelos instrumentos

    de trabalho.

    Em Os conflitos na Bacia do Prata, de 1979, Len Pomer escreve como foi o golpe

    de misericrdia em Oribe e Rosas. Em 21 de novembro de 1851 foi assinada entre o

    Imprio e as provncias de Entre Rios e Corrientes uma conveno, que representou o

    segundo passo decisivo para a queda de Rosas. Comprometeu-se o Imprio a auxiliar Urquiza

    economicamente, e todos juntos, inclusive o Paraguai se resolvesse enviar tropas, decidiram

    marchar contra o governador de Buenos Aires. [...] Em 3 de fevereiro de 1852 no sem

    antes derrotar Oribe no Uruguai um grande exrcito enviado por Urquiza e integrado por

    tropas brasileiras, venceu Rosas na batalha de Caseros, s portas de Buenos Aires. Estava

    terminando uma poca histrica no Rio da Prata.114

    Uma nova era se iniciava, com a batalha de Caseros, que marcou o fim do perodo

    rosista na Argentina. O historiador Jos Maria Rosa, rosista, prope: Despus de Caseros, la

    Argentina tender su constitucin escrita, pero a costa de su grandeza nacional y su poltica

    americanista; mientras Brasil mantuvo su monarqua, su esclavitud, su unidad, los limites

    reclamados, la libre navegacin, convirti al Uruguay en una prctica dependencia suya y dio

    influencia econmica y poltica al capitalismo brasileo en ambas mrgenes del Plata.115

    Para o historiador argentino Milicades Pea, em La era de Mitre, de 1968, a

    derrocada de Rosas deu origem ao que ele chamou de Rosismo sem Rosas. Em sntesis la

    revolucin del 11 de setiembre de 1852, hecha restauracin del rosismo sin Rosas y sin

    mazorca; pero lo fue completamente en el orden econmico de coisas, que contiene el

    verdadero poder desptico.116

    Milcades Pea se refere ao governo de Buenos Aires que

    manter sua hegemonia sobre o porto e sobre as rendas porturias.

    113

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [] Op Cit pp. 109-110

    114 POMER, Len. Os conflitos [] Op Cit pp. 42-43

    115 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 21

    116 ALBERDI Apud PEA, Miliciades. La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia. 3

    a ed.

    Buenos Aires: Ediciones Fichas, 1968 p. 12

  • 53

    Confederao Argentina versus Buenos Aires: um novo conflito

    Com a derrota de Rosas na batalha

    de Caseros, surgia uma nova situao na

    Amrica do Sul, com um novo equilbrio de

    foras, segundo Bandeira, agora favorvel

    plenamente favorvel ao governo do Rio de

    Janeiro. A batalha de Caseros, com a

    derrota de Rosas, rompeu o equilbrio de

    poder na Bacia do Prata, mudou a

    correlao de foras, a favor do Imprio do

    Brasil, possibilitando a expanso de sua

    influncia econmica e poltica, inclusive

    sobre a Confederao Argentina, e

    propiciou a consolidao do novo sistema

    de alianas, dirigido pela Corte do Rio de

    Janeiro, mas no superou as contradies

    que laceravam, interna e externamente, os

    Estados da regio e que, por cerca de vinte

    anos, gerariam sucessivas guerras intestinas e confrontos internacionais, no menos

    dramticas e sangrentas.117

    Com a derrota de Rosas que surgem na Argentina literalmente dois Estados distintos: a

    Confederao Argentina e Buenos Aires, conforme podemos ler no trecho de Doratioto, em

    seu livro Maldita Guerra, de 2002. Derrubado Rosas, os governadores das provncias

    argentinas assinaram, em maio de 1852, o Acordo de San Nicols, que redefiniu o Pacto

    Federal de 1831, que criara a Confederao. Enquanto treze provncias juraram, no Congresso

    de Santa F, a Constituio de 1852, que sacramentou as aliteraes descentralizadoras,

    Buenos Aires, que persistia no projeto de um Estado argentino no qual seria hegemnica,

    recusou-se e elaborou sua prpria Constituio em 1854. Ento, duas unidades polticas

    independentes entre si e em permanente atrito, a Confederao Argentina, com sede em

    117

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 111

    Figura 6: Retrato de Justo Jos de Urquiza [1801-

    1870]. Caudilho argentino. Presidiu a Confederao

    Argentina at sua derrota na Batalha de Pavn frente

    a Mitre. Era o presidente de Entre Rios quando da

    Guerra do Paraguai. Foi assassinado em 1870.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 54

    Paran, e o Estado de Buenos Aires. Ambos reconheceram a independncia do Paraguai, que

    teve franqueada a navegao do Prata e do rio Paran.118

    Em seu livro La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia, de 1968, o

    historiador argentino Miliciades Pea escreve que a diviso da Argentina resultou de

    orientaes diferentes da poltica, da economia e do Estado: El liberalismo de la burguesa

    comercial portea acaudillado por Mitre quera la conquista de la propia repblica o la

    desmembracin de su soberana. Era nacional para gobernar y dirigir la nacin en su

    beneficio, pero aislacionista y secesionista si se traba de obedecer en el otro seno de una

    nacin gobernada por otros intereses.119

    Len Pomer precisa sobre a diviso. Derrubado Rosas, comeou na Argentina o

    processo de constituio de um Estado nacional. Mas a primeira conseqncia foi o

    aparecimento de dois Estados: Buenos Aires e a Confederao Argentina, rivais entre si numa

    luta surda e espetacular ao mesmo tempo. Na antiga capital do vice-reino, um grupo de

    poderosos comerciantes, proprietrios de terras, charqueadores e alguns intelectuais acreditou

    ser necessrio estabelecer com a mxima clareza que ou constituam um Estado Nacional e

    exerciam a dominao, ou tal Estado nunca existiria, ao menos como unidade das provncias

    que sob Rosas se haviam denominado Confederao Argentina. J provncia de Entre Rios,

    sob a liderana do general Justo Jos Urquiza, se havia desenvolvido durante o perodo

    rosista, principalmente nos ltimos dez anos, um poder apto a disputar com Buenos Aires a

    direo do processo de constituio da Nao; poder que necessitava, ao mesmo tempo,

    exportar livremente a produo de seus campos e de carne salgada, sem as interferncias por

    um nico porto manejado por mos alheias.120

    Segue o mesmo autor: Entre 11 de setembro de 1852 (sete meses depois da batalha de

    Caseros) e 17 de setembro de 1861, ambos os Estados argentinos usaram as mais variadas

    armas, sem excluso das militares: a ltima data corresponde batalha de Pavn, na qual a

    Confederao ser derrubada e Buenos Aires haver de assumir decididamente a direo do

    processo.121

    O Imprio firmaria com os argentinos um tratado de livre comrcio e navegao,

    segundo podemos ler no trecho do historiador Rosa. [] el 7 de marzo de 1856 se firm el

    118 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: [...] op Cit p. 29

    119 ALBERDI Apud PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 8

    120 POMER, Len. Os conflitos [] Op Cit p. 55

    121 Id. Ibid p. 55

  • 55

    tratado de amistad y navegacin argentino-brasileo donde s estipulaba la libertad de Brasil

    para actuar en el Paraguay y Repblica Oriental, y tambin para navegar los ros Paran,

    Uruguay y Paraguay tanto embarcaciones mercantes como de guerra (art. 14), obligndose a

    emplear los medios a su alcance para que la Repblica del Paraguay adhiriera a las

    estipulaciones que preceden (art.20). Por las dudas de una guerra paraguayo-brasilea,

    quedaba permitido el trnsito y abastecimiento de la escuadra imperial por el Paran sin sufrir

    molestia (art.19).122

    Francisco Doratioto, em Maldita Guerra, escrito em 2002, destaca que esse

    documento criaria um compromisso futuro entre ambos os governos: Ao propor ao governo

    argentino a aliana contra o Paraguai, Paranhos reivindicava a aplicao do Tratado de 1857,

    assinado entre a Confederao Argentina e o Imprio. Por esse documento, os dois pases se

    comprometiam a agir de comum acordo se o governo paraguaio atacasse um deles.123

    Destacamos nesse acordo que este no era puramente defensivo, uma vez que propunha uma

    aliana contra o Paraguai. Poderia se falar em uma aliana defensivo-ofensiva.

    Em 1859 ocorreu a batalha de Cepeda, onde Mitre e Urquiza atacaram-se nesta

    intermitente guerra civil. Milicades Pea escreve que: En la batalla de Cepeda, el ejrcito de

    la olgarquia porturia comandada por Mitre fue derrotado por el ejrcito nacional que diriga

    Urquiza. Urquiza perdi 24 jefes y 300 hombres. Mitre perdi 2000 soldados, toda la

    caballera, 20 caones, varios miles de fusiles, enormidad de municiones, todos los carros, el

    parque y toda caballada de repuesto.124

    Urquiza vence seu rival de modo indubitvel, como escrito no trecho de Pea.

    mandado ento, Argentina um navio paraguaio com Francisco Solano Lpez com o intuito

    de intermediar uma soluo pacfica para o conflito. Ele parte a bordo do Taquar, e acaba por

    impedir que os vencedores ocupem Buenos Aires.125

    Rosa escreve que Solano Lpez teria ido at a Argentina para negociar uma paz, por

    uma Argentina unida. El 27 de setiembre (1859) deja Solano Asuncin a bordo del vapor

    paraguayo de guerra Tacuar. El posible que haya influido en su padre para cambiar la

    promesa de ayuda por esa misin de paz. Por qu no ha querido cooperar al aplastamiento de

    los liberales, dueos de Buenos Aires, a quienes sabe partidarios del imperio Tal vez ha

    122 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 33-34

    123 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra [] Op Cit p. 72

    124 PEA, Milicades. La era de Mitre [] Op Cit p. 16

    125 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 60

  • 56

    buscado ganrselos a la causa del Paraguay, tal vez considera que una Confederacin

    Argentina fuerte y unida es la mejor garanta para la repblica guaran contra su amenazador

    vecino lusitano. O lo ha hecho por un fraternal deseo de poner en la familia argentina.126

    Solano Lpez teria preferncia por uma Argentina forte e unida, pois isso seria uma

    melhor garantia contra o Imprio do Brasil. E Doratioto, no livro Maldita Guerra, escreve

    ainda que o governante paraguaio contava com a forte rivalidade entre o governo brasileiro e

    o de Buenos Aires para poder negociar em uma situao de maior equilbrio. Apenas a

    continuidade da forte rivalidade entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro permitiria a Solano

    Lpez ocupar uma posio em p de igualdade com os dois vizinhos. Tal igualdade dar-se-ia

    basicamente devido ao fato de que, tanto o governo argentino, quanto o brasileiro, na tentativa

    de isolarem um lado do outro, procurariam estreitar relaes com Assuno. Alm disso, o

    Paraguai contaria adicionalmente com a ascendncia que possua sobre os blancos uruguaios

    e federalistas argentinos para se justificar como parte integrante nas questes platinas.127

    Contudo, se Solano Lpez se via como um pacificador, na Argentina, ele era visto

    como um intruso, segundo as palavras de Doratioto, no trabalho supracitado.

    Instrumentalizando as contradies platinas, Solano Lpez procurou estabelecer a influncia

    de seu pas como parte legtima no quadro regional e fator de pacificao e estabilidade na

    rea. Para a Argentina, contudo, o governo paraguaio era tido como um intruso, cuja presena

    no Prata poderia constituir uma ameaa ao Estado argentino.128

    Contudo, importante mais

    uma vez salientar que o citado autor se refere a Argentina como um todo, enquanto se tratava

    do governo argentino, representante de uma faco, hegemnica, de seu territrio, a portenho-

    unitarista. Os que rejeitavam a intruso paraguaia eram sobretudo os Unitrios de Buenos

    Aires, salvos pela mediao paraguaia. Os Federalistas das provncias, no apenas apoiavam

    essa poltica de Solano Lpez, mas o viam como um aliado, contra o liberal-unitarismo.

    Miliciades Pea escreve a respeito da superioridade econmica da rica provncia de

    Buenos Aires diante da Confederao Argentina: La oligarqua portea en Estado Libre de

    Buenos Aires era consciente de su podero frente a la debilidad del resto del pas agrupado en

    la Confederacin Argentina con capital en Paran. De los cuatro millones de renta en oro que

    produca la sola aduana de la Capital, dos por lo menos deban corresponder a las provincias

    126

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 62

    127 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra [] Op Cit p. 49

    128 Id. Ibid p. 50

  • 57

    que por la separacin ya perpetrada de hecho no recubran un solo peso, aprovechando todo

    Buenos Aires.129

    Pea refere-se importncia de Urquiza e dos criadores-charqueadores-gachos de

    Entre Rios e Corrientes no enfrentamento entre as classes dominantes de Buenos Aires e o

    bloco social formado em torno da Confederao Argentina. Dentro de la Confederacin, las

    provincias interiores eran el irreductible enemigo de la oligarqua portea, de la cual slo

    podan esperar su completa anulacin. Pero frente a Buenos Aires estos elementos eran por s

    solos incapaces de oponer otra cosa que una resistencia desesperada, heroica y en ltima

    instancia condenada al fracaso.130

    Para o autor: El nico sector de la Confederacin capaz de enfrentar la oligarqua

    portea - aunque con las desventajas que hemos visto eran los ganaderos entrerrianos,

    acaudillados por Urquiza, el mayor de estos. Pero esta clase tena intereses aunque

    competitivos similares a los de la oligarqua portea, y entre la perspectiva de una larga

    guerra civil que arruinara sus negocios y un acuerdo que dejara en manos de Buenos Aires la

    direccin de pas, pero otorgase plena independencia y garantas a los ganaderos entrerrianos,

    se inclinaba fatalmente, por el peso de sus crecientes intereses capitalistas, en sentido de este

    acuerdo.131

    Segundo Milcades Pea, o pretexto para a guerra usado pela oligarqua de Buenos

    Aires viria em 1860.: [] debilitada la Confederacin y colocadas varias cuas entre sus

    distintos sectores, la oligarqua portea mont en 1860 la provocacin final, eligiendo

    diputados para el Congreso Nacional, no de acuerdo al artculo 37 de la Constitucin Nacional

    que Buenos Aires haba jurado en 1860 (por el cual cada provincia constitua un solo distrito

    electoral), sino con arreglo a una ley especial de la Provincia, que la divida en siete distritos

    electorales. Por supuesto, el Congreso Nacional rechaz a esos diputados elegidos en

    violacin de la Constitucin, y esto dio el pretexto a la oligarqua portea para romper con la

    Confederacin y exigir la guerra a toda costa. Mitre juega entonces a dos puntas: mientras

    amenaza con la guerra, le propone a Urquiza un pacto que dejara a todo el pas en manos de

    129

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 19

    130 Id. Ibid pp. 23

    131 Id. Ibid pp. 23-24

  • 58

    la burguesa comercial portea asociada a los ganaderos entrerrianos en carcter de

    segundones.132

    Com o rompimento de relaes entre Buenos Aires e a Confederao Argentina,

    segundo Pea, a provncia portenha deixaria de pagar seus subsdios Confederao para

    comprar armas da Inglaterra, deixando sua irm rival completamente empobrecida,

    desorganizada e desarmada.133

    A batalha de Pavn e a retirada de Urquiza

    Pea escreve sobre as condies de ambos contendores antes de se iniciar a batalha

    final: En vsperas de la batalla final, que habra de producirse en Pavn, Buenos Aires era

    militarmente superior a la Confederacin y la ciudad resultaba invulnerable al sitio o la

    invasin. Todos los factores militares favorecan a Buenos Aires, excepto la desventaja no

    depreciable de tener al frente de su ejrcito a Bartolom Mitre, un general que demostrara en

    los hechos ser uno de los ms ineptos del pas y sus arredores.134

    A dualidade de poderes entre a Confederao e Buenos Aires se resolve na batalha de

    Pavn, em setembro de 1861. O fim da batalha inesperado, pois um fato acaba por decidi-la.

    Quando a luta entre os exrcitos vergava em favor dos federalistas e Mitre j fugia em direo

    a Buenos Aires, Urquiza se retira do campo de batalha, "con sus cuatro mil entrerrianos, sin

    haber participado seriamente en el combate, entregando a vitria ao seu rival. 135

    Jos Maria

    Rosa analisa de maneira mais detida essa retirada: 17 de setiembre de 1861. Chocan los

    ejrcitos cerca de la estancias de Palacios junto al arroyo Pavn de Sana Fe. La caballera

    portea se debanda; ceden la izquierda y la derecha ante el empuje de las cargas federales.

    Apenas si el centro mantiene una dbil resistencia que no puede prolongarse. Mitre toma del

    camino de San Nicols, la rota de los derrotados en la zona. [] Inexplicablemente Urquiza

    tambin se retira del campo. Lentamente, al tranco de sus caballos, los jinetes entrerrianos que

    van. Es una retirada con ralentisseur para demonstrar que es voluntaria. [] Mitre, que

    anunciaba su victoria por el trompeteo de los peridicos porteos, no puede moverse de la

    estancia de Palacios pues no tiene caballada; si Urquiza volviese, en una sola carga dara

    132

    SALDAS, Apud PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 25

    133 Id. Ibid p. 25-26

    134 Id. Ibid pp. 26-27

    135 PELLIZA, Apud PEA, Milicades. La era de Mitre [] Op Cit p. 29

  • 59

    cuenta de los porteos. []Finalmente Mitre, que no las tiene todas consigo y est

    desconcertado por la victoria, empieza a moverse de Pavn a Rosario.136

    A pergunta que fica no ar por que Urquiza desistiu da luta. Qual foi o derradeiro

    motivo que levou o lder da Confederao a se retirar da batalha abrindo caminho para

    Bartolom Mitre vencer e destruir a Confederao Argentina? Haveria algum propsito nessa

    atitude do governador de Entre Rios? Miliciades Pea escreve que, apesar de rivais, Mitre e

    Urquiza, ou seja, os interesses hegemnicos de Buenos Aires e de Entre Rios, no eram

    portadores de ideologias e interesses completamente distintas ou incompatveis. En verdad,

    fue reiteradamente maniobrado y contramaniobrado por Mitre, que pareca a veces jugar con

    l, pero esto es lo que ocurre siempre cuando un poltico que representa intereses dispuestos a

    ir hasta el fin para lograr sus objetivos se enfrenta a otro que, como Urquiza, busca la

    conciliacin y no desea entablar una lucha a muerte.137

    Segue o mesmo autor: En ltima instancia, Urquiza y los entrerrianos deseaban para

    el pas el mismo destino que sus colegas bonaerenses, aunque les sugera a perder demasiado

    en una lucha a muerte que, desde su punto de vista, no tena objeto, ya que el dominio

    nacional de la oligarqua portea no poda afectar la buena marcha de sus negocios, ni intentar

    arruinarlos como hizo Rosas con el monopolio de la navegacin de los ros. [] Urquiza

    saba todo esto, y de ah su poltica conciliadora y su claudicacin final frente a la oligarqua

    portea, que de inmediato lo acept como un socio menor en el gobierno sobre el resto del

    pas.138

    Miliciades Pea segue enumerando as razes de Justo Jos Urquiza para trair seus

    ideais ao entregar a batalha de Pavn nos seguintes termos: Urquiza acept mantener con la

    oligarqua portea, bajo Mitre, un tipo de relacin similar al que tena con ella bajo Rosas,

    como estrella de segunda magnitud en la constelacin oligrquica que dominaba al pas.

    Urquiza haba sido nacionalista en tanto que gran estanciero capitalista competidor de los

    estancieros y la burguesa comercial portea, ero era aliado de Buenos Aires y proclive a

    asociarse con su oligarqua, contra el Interior y el gauchaje, en tanto que gran estanciero a

    136

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 67-68-69

    137 PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 30

    138 Id. Ibid pp. 30-31

  • 60

    secas, ansioso por acumular capital y barrer los obstculos que se oponan a su

    acumulacin.139

    A Argentina de Mitre

    O interior da Argentina que viria a sofrer as

    conseqncias da atitude de Urquiza. Mitre declararia

    guerra s provncias a fim de unific-las sob o poder da

    oligarquia bonaerense. Miliciades Pea escreve que:

    Liberado a su suerte, el Interior estaba condenado a

    sufrir la aplanadora portea, auxiliada por los ncleos

    oligrquicos locales que se acoplaban al tren victorioso

    del liberalismo mitrista financiado por el comercio de

    Buenos Aires y es sintomtico que hasta ltimo

    momento los montoneros que resistan con el apoyo de

    las poblaciones locales al ejrcito de lnea porteo,

    combatan sin ilusiones de obtener por s la victoria,

    confinados slo en que su resistencia permitira la

    insurreccin de Urquiza. Pero no habra tal insurreccin.

    Los ganaderos entrerrianos queran hacer sus negocios y

    nada ms, y la oligarqua portea poda realizar sin

    tropiezos por el lado de Entre Ros la pacificacin del pas.140

    Destaque-se o fato que Miliciades Pea, como veremos oportunamente, no v

    possibilidade de vitria nas guerrilhas das provncias. Ele mesmo dir mais adiante que elas

    tm apenas uma iluso de vitria e que seu nico caminho ser sucumbir lutando, sem

    oferecer uma alternativa vivel ao domnio de Buenos Aires. Entretanto, ao analisar a

    organizao social paraguaia, aponta para esta como uma alternativa desenvolvimentista

    autnoma, ou seja, uma via nacional possvel para o capitalismo, margem das solues

    liberais e exportadoras hegemnicas na Argentina.

    Com o intuito de solidificar sua vitria, Mitre contratou militares uruguaios para

    derrotar as provncias interioranas. O governo de Buenos Aires se imps no pela aceitao da

    maioria das populaes, mas sim pela fora das armas, as baionetas. Para levar essa represso

    139

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 32

    140 Id. Ibid p. 33

    Figura 7: Retrato de Bartolom Mitre

    [1821-1906]. Poltico argentino.

    Presidente da Argentina aps a vitria

    na Batalha de Pavn [1861]. Foi o

    presidente da Argentina durante a

    Guerra do Paraguai e comandou as

    tropas da Trplice Aliana durante

    parte da mesma.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 61

    a cabo, o presidente argentino contratou militares uruguaios, como Venncio Flores, Paunero,

    Rivas, Iseas e Arredonto, para que estes no sofressem com inibies sentimentais.141

    Rosa ainda menciona o massacre promovido pelo uruguaio Venncio Flores.

    Venancio Flores, que antes fue presidente de la Repblica Oriental por una revolucin de los

    colorados, es jefe de la vanguardia de Mitre. Se adelanta a Caada de Gomes y sorprende, el

    22 de noviembre, al grueso del ejrcito federal que sigue esperando rdenes de Urquiza.

    Flores pasa a degello los ms reacios e incorpora los dems.142

    Ainda a respeito das divergencia entre Buenos Aires e a Confederao, o autor Pea

    escreve que no campo econmico, elas no eram muito acentuadas, destacando o fato de que

    Justo Jos Urquiza era um grande estancieiro e saladeiro: La Confederacin tena una base

    ms popular que la de la oligarqua portea, pero en el terreno econmico su poltica conduca

    a los mismos resultados que los de su grande rival, con la diferencia de que sus beneficios no

    los concentraba en Buenos Aires sino que los haca llegar hasta los ganaderos y el comercio

    del litoral. Si la Confederacin hubiera triunfado podra haber destruido el poder militar de la

    oligarqua platense, pero no su base econmica a menos que Urquiza, celoso guardin de la

    propiedad estancieril, hubiera expropiado estancias y estatizado el comercio -, lo que es tan

    inconcebible como un sapo con barba.143

    Ou seja, Miliciades Pea escreve que no haveria

    grandes mudanas na poltica dos federalistas de Urquiza, a menos que ele se colocasse contra

    os grandes estancieiros e saladeiros e comerciantes. E essa atitude, o caudilho no tomaria,

    pois se o fizesse estaria indo contra os interesses de sua prpria classe. O Paraguai que se

    apresentava como uma alternativa vivel contra a poltica liberal e importadora de Buenos

    Aires.

    Urquiza se manteria como governador de Entre Rios, e segundo Rosa: El mismo

    Urquiza, que tanto haba hecho temblar a Buenos Aires, estaba a principios de 1863, tranquilo

    y contemporizador. Aunque la opinin de su comprovincianos era, lgicamente antimitrista,

    acabara de hacer votar por Mitre a los entrerriano en la eleccin presidencial de 1862. No

    quera que nada lo turbasse en el desfrute tranquilo de su gobierno y su patrimonio. No

    obstante era todava el jefe del federalismo, el gobernador de la provincia ms federal de la

    Argentina.144

    141

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 35

    142 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 69

    143 PEA, Miliciades. La era de Mitre [...] Op Cit p. 40

    144 Id. Ibid p. 107

  • 62

    Ainda segundo Jos Maria Rosa, depois da batalha de Pavn, Uquiza ficaria com sua

    imagem de lder federalista seriamente arranhada. La verdad es que Urquiza estaba en 1863

    muy desprestigiado, salvo ante la masa federal que lo mantena como un mito. Los dirigentes

    del interior le inculpaban la retirada de Pavn, su inercia ante las masacres y su alianza, pelo

    menos aparente, con Mitre; los liberales recordaban su condicin de caudillo federal, sus

    matanzas en el Potrero de Vences y el susto de Cepeda. Ni dentro ni fuera del pas nadie crea

    una palabra.145

    Miliciades Pea escreve que, por outro lado, havia outro inimigo da oligarqua

    portenha, que por sua vez, tinha melhores condies de mover uma guerra. Quem seria este

    outro antagonista de Buenos Aires? Segundo escreve o citado autor: La destruccin de la

    Confederacin Argentina, por desercin de Urquiza y fusilamiento masivo de las montoneras

    del interior asegur la soberana de la oligarqua metropolitana sobre todo el pas. Aunque,

    slo a medias. Paran arriba, exista un Estado que reuna contra la oligarqua portea todos

    los antagonismos de los productores del Litoral y las provincias interiores, pero sin la

    debilidad de stas ni la posibilidad de acuerdos de aqullos. Era el Paraguay.146

    Miliciades Pea escreve que a Guerra do Paraguai teria sido o desfecho de uma antiga

    rivalidade existente entre a burguesia portenha e os paraguaios. Rivalidade esta que se

    arrastava desde os tempos coloniais devido aos impostos e aos monoplios comerciais, como

    assinalado. La guerra contra el Paraguay fue la continuacin lgica y la ltima etapa de la

    guerra de la oligarqua mitrista contra el Litoral y las provincias interiores argentinas, en que

    un doble sentido. Desde luego, porque la potencia econmica del Estado paraguayo chocaba

    desde los ms viejos tiempos con el monopolio aduanero y portuario de Buenos Aires,

    dificultando su dominio indisputado sobre todo o litoral, y constituyendo un foco constante de

    atraccin y reagrupamiento para las derrotadas provincias interiores e incluso para los

    claudicantes estancieros del Litoral en sus momentos de conflicto con sus colegas de Buenos

    Aires.147

    O Paraguai ento se apresentava como a alternativa ao modelo importador de Buenos

    Aires. A situao a que teria chegado o pas guarani fora forjada desde os tempos do dr.

    Francia, com o isolamento e a auto-suficincia, que so destacados pelo autor Raul de

    Andrada e Silva, em Ensaios sobre a ditadura do Paraguai 1814-1840, de 1978: Com

    145

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 111

    146 Id. Ibid p. 47

    147 Id. Ibid pp. 47-48

  • 63

    efeito, a Ditadura converteu-se no somente num Estado proprietrio, dono de vasto

    patrimnio, mas em gestor dos empreendimentos estatais, e por outro lado, agiu como rgo

    da solidariedade moral entre os indivduos e promotor do bem-estar geral do povo. A esto

    duas coincidncias bem claras entre a estatizao de Francia e as idias do Socialismo de

    Estado. [...] Era ilimitada [sic], portanto, a interveno do Estado na vida econmica,

    impondo toda a sorte de restries ao individual. Tal intervencionismo resultava da

    autarquia. Mas, tinha em vista menos o progresso material que a salvaguarda dos direitos

    polticos e econmicos do Paraguai, em toda a sua plenitude.148

    Em alguns autores, o Estado guarani apontado, em forma certamente abusiva, como

    um quase socialismo. Jos Maria Rosa chega a dizer que o Paraguai um Estado socialista e

    paternalista.149

    Manilio Cancogni e Ivan Boris em Solano Lpez, o Napoleo do Prata, de 1970,

    escrevem que Carlos Antonio Lpez, com o capital acumulado nos tempos do dr. Francia,

    iniciou a modernizao do pas, importando tecnologia e contratando tcnicos estrangeiros. O

    que diverso. Destacam-se a fundio de Ibicui, as ferrovias, o telgrafo, o telefone, as

    manufaturas, a esquadra. Entre o numeroso pessoal de gabarito que trabalhava por conta do

    governo havia dois tcnicos altamente qualificados. Um dele era o engenheiro-chefe ingls

    John William Whitehead, homem de grande capacidade, mesmo no setor administrativo,

    diretor do arsenal de Assuno, e morreu no primeiro ano da guerra. O outro era o coronel

    George Thompson, especialista em artilharia.150

    E foi com o impulso dado por esses tcnicos que o Paraguai, durante os ltimos anos

    da presidncia de Carlos Antonio, ultrapassou todos os demais pases da Amrica Latina

    (inclusive a Argentina) no tocante a ferrovias, telgrafos, estaleiros e arsenais. [...] Carlos

    Antonio conseguira transformar o pas graas s imensas riquezas acumuladas por Francia nos

    cofres pblicos durante os vinte e cinco anos de seu mandato. Aquele dinheiro, fruto do

    confisco dos bens de grandes proprietrios e da Igreja, permitiram-lhe adquirir mquinas,

    patentes e plantas industriais, assim como pagar bons salrios ao pessoal contratado.151

    148

    SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit pp. 208-209-210

    149 ROSA, Jos Mara. La Guerral del Paraguay [] Op Cit p. 16

    150 CANGOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez, o Napoleo do Prata. Rio de Janeiro: Civilizao, 1970

    pp. 39-40

    151Id. Ibid pp. 39-40

  • 64

    E esse desenvolvimento endgeno, no na superao relativa da Argentina e do

    Brasil, mas na sua realizao sem endividamento internacional, sob o controle do Estado, que

    colocado, por autores como Pea, como uma alternativa de fato poltica de importao da

    oligarquia liberal de Buenos Aires liderada por Bartolom Mitre. Poltica favorvel, por um

    lado, ao livre-cambismo, mas, por outro, defensora do monoplio porturio portenho.

    Depois de esmagar as revoltas do interior, bem como mandar assassinar um dos

    expoentes do descontentamento com a poltica da oligarquia portenha el Chacho -, Mitre

    passou a ter como objetivo impor a centralizao unitria a toda a Argentina. Mas para isso,

    ainda teria de derrotar o Paraguai, modelo que poderia servir de alternativa ao

    desenvolvimento desejado por ele e sua classe social. O pas guarani ainda poderia ser um

    estmulo permanente s revoltas intestinas e contestao ao modelo mitrista.

    Nos primeiros anos da dcada de 1860, a Argentina de Mitre foi acusada de apoiar a

    revolta do colorado Venncio Flores contra o presidente constitucional Anastasio Aguirre.

    Embora tenha se declarado neutro, difcil imaginar que essa neutralidade seja verdadeira,

    levando em considerao que Flores combatera sob suas ordens na batalha de Pavn e

    principalmente tendo em vista que o caudilho uruguaio partiu com soldados e armas de

    Buenos Aires.

    O governo do Paraguai deixara claro que qualquer interveno no Uruguai seria

    equivalente a uma declarao de guerra. Mesmo assim, o Imprio com a licena expressa do

    governo mitrista, que incentivara tal ao invadiu o territrio oriental. Como resposta, o

    Paraguai invadiu o Mato Grosso e pediu autorizao a Mitre para cruzar o territrio argentino

    com o intuito de chegar ao Uruguai. No entanto, Mitre, aps ter autorizado anteriormente que

    o exrcito imperial utilizasse seu territrio para exerccios, nega o passo das tropas

    paraguaias, precisamente para criar situao de guerra com aquele pas. Ante essa reao,

    Solano Lpez declara guerra Argentina e invade a provncia de Entre Rios. Mitre oculta a

    declarao de guerra, apresentando-a simplesmente como uma agresso paraguaia em tempos

    de paz, na perspectiva de unificar o pas em guerra contra os blancos no Uruguai e o governo

    paraguaio. Integrava essa estratgia o desejo permanente de incorporar a provncia rebelde. 152

    152

    Cf: BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana. 2a So Paulo: Ensaio; Braslia, DF; Editora da Universidade de

    Braslia, 1995; DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova histria da Guerra do

    Paraguai. So Paulo: Companhia das Letras, 2002.; PEA, Miliciades. La era de Mitre: de Caseros a la

    Guerra de la Triple Infamia. 3a ed. Buenos Aires: Ediciones Fichas, 1975.; ROSA, Jos Mara. La guerra del

    Paraguay: y las montoneras argentinas. -1a Ed.- Buenos Aires: Punto de Encuentro, 1985.; ELOY, Rosa

    Alonso; TOURON, Lucia Sala de; TORRE, Nelson de la; RODRIGUES, Julio Carlos. La oligarqua oriental

  • 65

    Em maio de 1865 foi firmado o Tratado da Trplice Aliana, onde o Imprio, a

    Argentina liderada por Mitre e o Uruguai de Venncio Flores entraram em guerra contra o

    Paraguai. [Ver captulo O que se escreve sobre a Guerra do Paraguai] No entanto, devemos

    lembrar que os dois ltimos fortemente divididos. O presidente argentino Bartolom Mitre

    agiu de modo a legitimar a aliana com o Imprio da seguinte maneira. Primeiramente,

    preparou a interveno do Imprio ao Uruguai e impediu o acesso das tropas paraguaias ao

    front de combate, impondo a invaso de Corrientes. Segundo, apresentou a guerra que movia

    contra o Paraguai como um confronto da tirania contra a liberdade. Em segundo lugar,

    ocultou a declarao de guerra por parte de Francisco Solano Lpez, apresentando a invaso

    paraguaia como um ato de traio, onde os argentinos teriam sido agredidos em tempos de

    paz, buscando assim apoio para uma ao militar contra o Estado Guarani.153

    [Ver captulo

    O que se escreve sobre a Guerra do Paraguai]

    Segundo Rosa, ao invadirem Corrientes, os paraguaios no foram recebidos, ao menos

    no incio, como invasores, pois l contavam com simpatizantes federalistas. No hubo lucha.

    [] fue presentado estruendosamente como una agresin en plena paz, que obligaba al honor

    argentino. Los diarios mitristas batieron el parece y los mismos antimitristas se les acoplaron

    por lo que entendieron un agravio al pabelln nacional. Hubo manifestaciones patriticas en

    Buenos Aires [].154

    Por outro lado, nessa regio, era muito forte a populao de cultura

    guarani, o que jogava tambm contra o mitrismo.155

    Mitre colocara-se objetivamente contra o Paraguai, ao apoiar ativamente a deposio

    dos blancos e a interveno imperial no Uruguai, como visto no captulo Caractersticas da

    formao dos pases envolvidos na Guerra do Paraguai O Uruguai. Finalmente negara o

    direito de passagem das tropas paraguaias por seu territrio, concesso acordada

    anteriormente ao Imprio pelo governo argentino. Urquiza proporia a Mitre, ao contrrio, que

    concedesse aquela permisso.

    O presidente Bartolom Mitre teria encontrado na invaso de Corrientes uma forma de

    conseguir o baixo consenso da populao argentina com seu governo e sua poltica, com

    destaque para a populao provincial. O que para Francisco Solano Lpez teria sido uma

    ocupao militar, um movimento de guerra, teria sido apresentado por Mitre sua populao

    en la Cisplatina. Montevideo: Ediciones Pueblos Unidos, 1970.; TORRE, Nelson de la; RODRIGUEZ, Julio

    C.; TORRES, Sala Lucia de. Despus de Artigas (1820-1836). Montevideo: EPU, 1970. 153

    ROSA, Jos Maria. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 188

    154 Id. Ibid p. 191

    155 CANGOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 70

  • 66

    como uma invaso em perodo de paz, escondendo a declarao de guerra apresentada pelo

    presidente paraguaio e a poltica de favorecimento do confronto, que fora responsvel, ao

    apoiar a invaso de Flores do Uruguai e a guerra civil naquele pas . E a Argentina que entrou

    na Guerra do Paraguai ao lado do Brasil o fez fortemente dividida entre os que apoiavam

    Mitre e seu apoio ao Imprio e os que tinham mais simpatia pelo Paraguai e no sabiam o

    motivo de estarem contra o pas guarani.

    Ao contrrio dos dois primeiros Estados estudados, o Imprio ser uma exceo na

    Amrica do Sul. Ser o nico que, alm de manter a unidade de suas partes, manter tambm

    a mo-de-obra escravizada como predominante, alm de um poderoso trfico de trabalhadores

    feitorizados. Sim, pois o Paraguai tambm tinha escravos, mas no h comparao com seu

    vizinho de colonizao lusitana. Alm disso, o Imprio j possua instituies polticas e

    jurdicas bem consolidadas e, a partir do Segundo Reinado, conheceu um perodo de

    estabilidade, podendo lanar investidas nos pases vizinhos com o intuito de atender seus

    interesses. Outra caracterstica peculiar importantssima foi a manuteno do sistema

    monrquico, fazendo do Imprio, a nica monarquia das Amricas.

  • 67

    IMPRIO DO BRASIL: A MONARQUIA ESCRAVISTA

    Introduo

    Neste captulo,

    estudaremos o pas que

    destoou dos demais na

    Amrica do Sul em seu

    processo de independncia, o

    Brasil. Demonstraremos que

    esta nao teve um processo

    singular no seu nascimento,

    que o marcaria profundamente.

    Caractersticas que

    influenciariam sua poltica

    com os vizinhos do Rio da

    Prata, como o

    intervencionismo,

    caracterizando, em alguns

    casos, um verdadeiro

    imperialismo.

    O Imprio brasileiro

    configurava-se como uma

    exceo na Amrica Latina. Ao

    contrrio do imprio colonial

    espanhol, manteve a unidade de suas diversas partes aps a independncia em 1822, com a

    Monarquia, o latifndio e a escravido156

    . Em meados do sculo 19, era o nico pas da regio

    que contava com instituies poltica e jurdicas consolidadas aps longo perodo de

    instabilidade interna golpe de dom Pedro em 1823; deposio do imperador, em 1931;

    revoltas regenciais. 157

    Quando da Guerra do Paraguai, o poder central havia derrotado as

    rebelies que sacudiram o pas e encontrava-se em processo de impulso devido cafeicultura

    156

    Cf. COSTA, Emlia Viotti da. Da senzala colnia. 3 Ed. So Paulo: Brasiliense, 1989; MAESTRI, Mrio.

    A servido negra. Porto Alegre: Mercado Aberto 1988; CONRAD, Robert, Os ltimos anos da escravatura no

    Brasil: 1850-1888, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1978.

    157 Cf. FAUSTO, Bris. Histria do Brasil. 10

    a Ed. So Paulo, Edusp, 1995; HOLANDA, Srgio Buarque de.

    Histria geral da civilizao brasileira. So Paulo: Difel, 1972-1982. 11 v.

    Figura 8: Mapa do Brasil. nica Monarquia da Amrica, ainda

    trazia como caracterstica a mo-de-obra escravizada. Era tambm

    o nico pas com instituies polticas e jurdicas definidas na poca.

    Fonte: http://www.google.com.br

  • 68

    escravista exportadora. 158

    Nas dcadas de 1850 e 1860, enquanto os demais pases da regio

    do Rio da Prata estavam ainda em processo de consolidao, como era o caso do Uruguai e da

    Argentina, sem atingir completamente seu objetivo, o Imprio atingia auge relativo, passando

    a expandir sua influncia alm de suas fronteiras.159

    O Imprio agiu de forma imperialista interferindo no Uruguai, que j pertencera ao

    territrio imperial e na Argentina. Sua ao vergara em 1851 o presidente oriental Oribe e em

    1852, com Justo Jos Urquiza, deporia Juan Manoel Rosas na Argentina. E novamente

    interferiria no Uruguai em 1863, culminando com a deposio de Anastasio Aguirre e a

    ascenso ao governo de Venncio Flores, seu preposto. So as caractersticas peculiares do

    Imprio que iremos analisar neste captulo, demonstrando como elas possibilitaram a ao

    imperial fora de suas fronteiras.

    A Monarquia escravista

    O Imprio trazia algumas caractersticas peculiares nesse processo. O primeiro e mais

    bvio, o fato de ser um Imprio, a nica Monarquia na Amrica. O Brasil havia passado

    pela Independncia sem sofrer fragmentao de seu territrio, transformando-se em um

    Estado centralizado. Ao ressaltar as peculiaridades do Imprio brasileiro em relao aos

    demais Estados sul-americanos, no podemos esquecer que quem passou a governar o pas era

    um membro da famlia real da antiga metrpole. Outra caracterstica que diferenciaria o

    Imprio era que, mesmo depois do rompimento com a metrpole, a mo-de-obra

    predominante continuou sendo a escravizada. Com uma estrutura centralizada, hierarquizada

    e consolidada, o Imprio passou a praticar uma poltica realmente imperialista e a interferir

    nos destinos de seus vizinhos para atender a seus interesses.

    O historiador rio-grandense Mrio Maestri lembra que o Brasil caracterizou-se pela

    utilizao do trabalhador escravizado desde os primeiros anos de sua colonizao. Desde

    1530, com o incio da ocupao territorial e da plantagem aucareira nas possesses luso-

    americanas, o escravismo articulou-se como forma hegemnica de produo. No perodo

    158

    Cf. HOLANDA, Srgio Buarque de. Histria geral da civilizao brasileira. So Paulo: Difel, 1972-1982.

    11 v.

    159 Cf. SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na formao do exrcito. Rio de Janeiro:

    Paz e Terra, 1990

  • 69

    colonial, a economia assentou-se na mo-de-obra feitorizada, primeiro nativa e sobretudo

    africana, a partir do Seiscentos.160

    Maestri destaca a principal caracterstica das independncias da Amrica espanhola,

    em relao ao Imprio: a fragmentao. A Amrica espanhola pertencera a uma mesma

    metrpole. Suas elites possuam uma mesma religio, uma mesma lngua e uma mesma

    cultura. Era tambm significativo o iderio americanista entre importantes parcelas das elites

    criollas hispano-americanas. Nada disso sobreps-se fora das tendncias centrfugas dos

    diversos blocos geo-econmicos. A Amrica espanhola explodiu em uma constelao de

    dezesseis Estados republicanos independentes.161

    A ex-colnia portuguesa na Amrica no conheceu o federalismo, se caracterizando

    em um Estado centralizado e autoritrio: As ex-colnias luso-brasileiras emergiram da

    independncia como nao unitria, organizada em torno de Estado centralizado e autoritrio.

    No conheceram nem mesmo o federalismo que organizou, por longos anos, as ex-colnias

    britnicas. O Estado-nao brasileiro monrquico, autocrtico e centralizado resultou da

    necessidade das elites das diversas provncias de enfrentarem o problema da independncia e

    da gesto constitucional de seus interesses maiores, sem colocarem em perigo a espinha

    dorsal da economia colonial: a produo escravista.162

    Em O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana, de 1995, Moniz Bandeira descreve tambm a

    diferena entre o Imprio e os demais Estados do Prata no que diz respeito ao

    amadurecimento de suas instituies. Enfatiza, porm, que o Brasil nada mais era que um

    desdobramento de sua antiga metrpole, o que constitui, certamente, um exagero, visto que o

    Estado imperial era conformado determinantemente pela escravido. Sem dvida, enquanto a

    conformao definitiva e centralizada de quase todos os demais pases da Amrica do Sul,

    como a Repblica da Argentina, s ocorreria durante a segunda metade do sculo XIX, o

    Imprio do Brasil, quela poca, j estava amadurecido como Estado, possuindo um aparelho

    burocrtico-militar capaz de defender e mesmo impor, tanto internamente quanto

    externamente, a vontade social de suas classes dominantes. Esse desenvolvimento poltico se

    160

    MAESTRI, Mrio. A escravido e a gnese do Estado nacional brasileiro. ANDRADE, Manuel Correia de et al. Alm do apenas moderno: Brasil sculos XIX e XX. Braslia: CNPq; Recife, Fundao Joaquim

    Nabuco/Editora Massangano, 2001 p. 1

    161 MAESTRI, Mrio. A escravido e a gnese [...] Op Cit pp. 3-4

    162 Id. Ibid p. 5

  • 70

    devia ao fato de que o Imprio do Brasil no era simples sucessor do Estado portugus. Na

    verdade, era o prprio Estado portugus, que se desdobrara numa outra base geogrfica,

    ajustara-se s condies econmicas e amoldara-se estrutura social da colnia, com a

    conseqente reformulao da aliana de classes, que as contingncias histricas impuseram.

    Mas, na mudana, no sofrera descontinuidade. Conservara sua contextura internacional,

    assentada no dogma da soberania una e indivisvel da Coroa, da hierarquia, as leis civis, os

    mtodos administrativos, o estilo poltico, o instrumental blico e diplomtico, com

    experincia internacional, e o vezo de potncia. Tanto isto certo que o Brasil era a nica

    Monarquia no continente.163

    importante ressaltar a dependncia comercial brasileira com relao Inglaterra,

    principal fora comercial do momento, que prosseguiu, como escreve o jornalista brasileiro

    Jorge Caldeira em Mau: empresrio do Imprio, de 1995. Os ingleses levaram sua parte:

    garantiram por quinze anos as vantagens que tinham conseguido no tratado assinado com um

    dom Joo VI com a corda no pescoo, como se o novo pas fosse o velho Portugal: impostos

    de 15% na Alfndega, um juizado especial para cuidar de seus cidados, liberdade religiosa

    para seus sditos etc. Portugal tambm teve suas compensaes: o Brasil pagaria um

    emprstimo de 2 milhes de libras, tomado dos portugueses para combater justamente a

    independncia do Brasil.164

    Sobre a relao legal entre o Imprio e a Inglaterra. A justia, pelo menos para os

    ingleses, no dependia em nada dos brasileiros. O tratado de 1810 garantia que todos os

    sditos britnicos jamais seriam submetidos humilhao de receber um tratamento diferente

    do que estavam acostumados em casa: mesmo no Brasil, eles s podiam ser julgados por um

    tribunal ingls, e de acordo com suas prprias leis, inclusive nas causas comerciais. O tratado

    de reconhecimento da Independncia, de 1826, renovou esse privilgio.165

    Mrio Maestri toca em um ponto fundamental das peculiaridades imperiais em relao

    demais pases da Amrica do Sul: a utilizao do trabalhador escravizado e como ela

    interferiu na organizao do seu Estado: Se as provncias brasileiras explodissem em

    repblicas, cresceriam as dificuldades para manter a organizao escravista nas regies onde

    se mostrasse produtiva. Os Estados abolicionistas acoutariam os escravos fujes, como o

    haviam feito as Guianas e as possesses hispano-americanas, no passado. [...] Velada ou

    163

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 133

    164 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit pp. 101-102

    165 Id. Ibid p. 110

  • 71

    abertamente, a questo servil traspassou as discusses senhoriais sobre como enfrentar a

    independncia. O Estado-nao monrquico, autoritrio e centralizado brasileiro foi criatura

    da escravido. Nos momentos da definitiva ruptura das provncias luso-brasileiros com a

    monarquia lusitana, o Brasil independente e unitrio surgiu sobretudo como resultado dos

    interesses negreiros e escravistas.166

    Mrio Maestri escreve sobre a importncia das pessoas ligadas ao comrcio de

    trabalhadores cativos no Imprio: A Independncia e o unitarismo nacional deram-se sob a

    batuta cautelosa e conservantista dos grandes plantadores e comerciantes de trabalhadores

    escravizados. Os comerciantes de cativos da Corte desempenharam importante papel na

    vitria, em 1822, da soluo unitarista e centralista organizada em torno de Pedro I. Eles

    teriam, igualmente, apoiado o golpe anti-liberal e anti-constitucional do Imperador, em

    1823.167

    O mesmo historiador destaca outras razes da manuteno do escravismo e do

    unitarismo. O trono brasileiro foi assumido por um membro da dinastia de Bragana, e o

    imperador simbolizava que alguns homens eram superiores a outros por questes de

    nascimento. A entronizao do regente assegurava os interesses do comrcio lusitano no

    Brasil e da dinastia dos Braganas. Ela era tambm garantia aos senhores ainda adictos do

    absolutismo. Em um sentido simblico, a figura do imperador expressava e representava, nos

    seus direitos de sangue e nascimento sobre os cativos, os direitos dos mesmos senhores sobre

    os seus negros, africanos de sangue e escravos de nascimento.168

    A escravido, no Imprio, estava ligada tradio e sobretudo economia. Em Os

    ltimos anos da escravatura no Brasil, o clebre brasilianista estadunidense Robert Conrad,

    destaca que os trabalhadores escravizados eram utilizados em praticamente todos os tipos de

    trabalho, o que ensejava que as atividades laborativas fossem vistas como algo de escravos,

    que degradavam os homens.169

    Todos que tinham recursos adquiram trabalhadores

    escravizados, pois eram quem garantiriam o sustento do dono. No possuir cativos era estar

    na misria. O fato de que o trabalhador escravizado fosse a fora de trabalho dominante

    transformava-o tambm em fonte de status o poder de um grande proprietrio era medido,

    166

    MAESTRI, Mario. A escravido e a gnese [...] Op Cit p. 8

    167 Id. Ibid p. 8

    168 Id. Ibid p. 8

    169 CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. 2

    a Rio de Janeiro: Civilizao

    Brasileira, 1978 p. 6

  • 72

    dentre outros critrios, sobretudo pela quantidade de cativos que possusse. No eram apenas

    as pessoas mais abastadas que possuam trabalhadores escravizados, mas inclusive os quase

    pobres que tinham neles a sua nica fonte de renda.170

    Segundo Mrio Maestri, no podemos nos esquecer das razes externas que fizeram

    com que o Brasil surgisse como um Estado unitrio, uma vez que, para ter sua independncia

    reconhecida, o Imprio contraiu uma dvida de duas mil libras para pagar uma indenizao a

    Portugal. Outras razes contriburam para o unitarismo nacional, entre elas, o interesse da

    Inglaterra nessa soluo, j que o surgimento de naes independentes dificultaria o

    recebimento da dvida luso-brasileira e a consecuo dos interesses ingleses nesse canto do

    mundo. Porm, no podemos explicar a unidade brasileira como produto dessa

    interferncia.171

    A situao econmica do Imprio nesse perodo tambm no era das melhores.

    Maestri assinala: O grande problema nacional tinha origem econmica. Havia muito que a

    economia mineradora esgotara-se e no se encontrava novo produto em que empregar as

    multides de trabalhadores escravizados semi-ociosos. No contexto dessa difcil situao, a

    Coroa, o aparato administrativo e as elites hegemnicas do Rio de Janeiro utilizavam o

    centralismo estatal para acapararem as parcas rendas provinciais. [...] As infelizes negociaes

    concludas por dom Pedro com a Inglaterra e Portugal, para o reconhecimento do novo

    Estado, empobreceram fortemente o errio pblico. O imperador comprometera-se com uma

    indenizao milionria para seu pai e assumira a dvida lusitana feita com os ingleses para

    combater a independncia brasileira! [...] A liberdade de comrcio golpeara a frgil produo

    artesanal brasileira. O pas inundara-se de mercadorias ingleses, degradando-se o balano

    comercial. Os desmandos econmicos, a dvida internacional, os reflexos da queda dos preos

    das exportaes eram lanados nas costas das classes subalternas. A moeda inflacionada

    aumentava a misria dos livres pobres.172

    Em 1831 o Imprio entra em uma nova fase com a abdicao de D. Pedro I, o Perodo

    Regencial, que dura de 1831 a 1840. A questo da gesto pelas elites nacionais do Estado

    brasileiro foi resolvido com o movimento de 7 de abril de 1831, que deps Pedro I, imperador

    autocrtico, protetor dos interesses lusitanos e comprometido com o fim do trfico. Com o

    defenestramento imperial, davam-se as condies para a gestao do Ato Adicional de agosto

    170

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit pp. 12-13-14-15

    171 MAESTRI, Mario. A escravido e a gnese [...] Op Cit p. 9

    172 Id. Ibid p. 10

  • 73

    de 1834, que criou um sistema de assemblias provinciais fortalecidas, diminuindo em algo o

    poder discricionrio do governo central. As concesses regenciais aproximaram do poder

    central as foras provinciais conservadoras.173

    O Perodo Regencial lembrado pela historiografia como o mais agitado da histria

    do Brasil. Os regentes, no poder, procuraram desfazer atos de D. Pedro I que prejudicavam

    brasileiros, alm de procurarem privilegiar alguns nascidos no territrio nacional. Mas a

    instabilidade foi mesmo a marca dessa poca. Caldeira escreve que: Os trs primeiros

    regentes indicados o marqus de Caravelas, o senador Vergueiro e o general Francisco de

    Lima e Silva agentaram apenas dois meses no poder. Deram anistia aos processos

    polticos, garantiram o poder do parlamento [...]. Essas poucas gotas dgua no contiveram o

    incndio que se alastrava. Os papis do governo, que substituam os do Banco do Brasil,

    tinham to pouco valor como os anteriores. O fim da legalidade do trfico de escravos

    provocava a apreenso nos fazendeiros, oposio dos traficantes e uma grande diminuio

    das combalidas receitas da Alfndega, j que os escravos, agora contrabandeados, no eram

    mais taxados. O Exrcito, inchado desde a guerra contra a Argentina, estava com os soldos

    atrasados e era um foco permanente de revoltas. Os ltimos fiis vassalos de dom Pedro I,

    ligados aos comerciantes portugueses, passaram a pregar a volta do imperador e a fazer uma

    oposio violenta, com manifestaes quase dirias na capital e tentativas de armar um golpe

    de Estado. At do lado dos que apoiavam o governo havia problemas: os liberais mais

    exaltados exigiam reforma imediatas, no queriam esperar. Antes de comear a enfrentar tudo

    isso, os regentes j haviam cado.174

    Jorge Caldeira destaca uma organizao secreta de importncia mundial, que era

    influente e presente no Brasil, mesmo antes da Independncia, e que ter, nas palavras do

    prprio autor, papel relevante nos conflitos regenciais: a maonaria. Na verdade, essa

    sociedade secreta j era relevante mesmo antes do rompimento poltico entre Brasil e

    Portugal. Havia duas faces manicas: os vermelhos e os azuis. Os primeiros eram

    vinculados maonaria francesa, sendo inclusive os inspiradores da Inconfidncia Mineira,

    contribuindo at com seus smbolos, como o triangulo vermelho. Eram republicanos. Por

    outro lado, os azuis eram vinculados maonaria inglesa e no tencionavam acabar com a

    monarquia ou em instalar a repblica.

    173

    MAESTRI, Mrio. A escravido e a gnese [...] Op Cit p. 10

    174 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 126

  • 74

    Segundo o mesmo autor, no Brasil eram liderados por Jos Bonifcio. Este poltico

    tinha como plano a independncia brasileira com o regente dom Pedro como imperador. Para

    chegar ao seu objetivo iniciou o prprio prncipe na maonaria, tanto na vermelha como na

    azul, conseguindo o apoio de ambos. No entanto, logo depois da independncia, dom Pedro se

    livrou dos republicanos e mandou prender os vermelhos. Depois, inclusive prendeu os

    azuis, apesar de serem monarquistas constitucionais, exilando Jos Bonifcio de Andrada e

    Silva, desorganizando a maonaria no Imprio. Essa somente voltaria a se organizar entre os

    liberais que passariam a se opor ao regente, enquanto o Primeiro Reinado entrava em

    colapso.175

    Caldeira escreve que os maons, liberais, com a vitria de Feij, estariam mais

    prximos de alcanar seus objetivos. A regncia de Feij, que prometia no comeo, no

    demorou a ser demolida com a ajuda dos prprios liberais. [...] Assim que Feij tomou

    posse, os liberais lanaram-se com todo o mpeto na execuo das mudanas que haviam

    pregado. Mas o novo ainda era raro, e nunca se multiplicava o suficiente para satisfazer os

    sonhos. Em pouco tempo, muitos achavam o governo lento demais na implantao das

    reformas. Mais um pouco, e alguns resolveram fazer tudo com as prprias mos. A maonaria

    vermelha, que tinha se mantido prudente at a eleio de Feij, por temor de uma reviravolta,

    tornou-se radical de novo. Seus lderes acharam que tinha chegado a hora de concretizar os

    velhos sonhos republicanos transformados agora num federalismo radical. Das idias aos

    fatos foi um pulo.176

    Caldeira prope, exagerando nos objetivos republicanos dos liberais exaltados. J que

    os liberais farroupilhas, originalmente na direo das revoltas provinciais, desejavam

    sobretudo o direito eleio dos presidentes das provncias, dentro da ordem monrquica:

    Em vrias provncias eclodiram revoltas, sempre com o objetivo de criar um governo

    republicano local. Cada uma ganhava um nome: Cabanagem no Par; Balaiada, no Maranho;

    Sabinada na Bahia; Carneiradas em Pernambuco. A histria em todas elas foi semelhante: o

    grupo de liberais imbudos de ideais republicanos composto em geral de artesos,

    funcionrios pblicos e alguns proprietrios com vnculos na capital da provncia conseguia

    tomar o poder ou ao menos desencadear uma forte rebelio na capital. Os conservadores

    175

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit pp. 140-141-143

    176 Id. Ibid p. 151

  • 75

    reagiam, convocando tropas para retomar a cidade. Por fim, os liberais fugiam para o interior

    territrio dos fazendeiros conservadores e acabavam invariavelmente esmagados.177

    O perodo em questo seria um dos mais agitados da histria do Brasil Imprio.

    Segundo Len Pomer: Como unidade poltica, longe estava o Imprio de se ter consolidado.

    Rebelies no Cear (1831-32), Pernambuco (1832-35), Par (1838-37), Bahia (1837-38),

    Maranho (1838-41) e sobretudo no Rio Grande do Sul (1835-45) mostravam que as foras

    centrfugas em ao no eram nada desprezveis.178

    No entanto, todas essas rebelies acabaram sendo derrotadas. Onde estava seu

    problema? Qual seria o ponto fraco delas? Segundo Caldeira: O drama por trs dessa falta de

    sucesso das idias federalistas, republicanas e liberais era conhecido h muito tempo. Por

    melhor que fosse o desempenho militar dos revoltosos, um problema permanecia sempre

    intocado: o destina a dar aos escravos. [...] O fantasma de uma revolta de escravos como a do

    Haiti, onde a produo foi inteiramente desorganizada, estava na cabea de todos os milhares

    de proprietrios brasileiros e tambm na dos revoltosos. Nem o mais lcido revolucionrio

    sabia como conciliar uma repblica, idealmente formada por cidados iguais perante a lei,

    com a escravido.179

    E, sobretudo, os grandes escravistas provinciais sabiam que, com a

    independncia de suas regies, a Inglaterra certamente imporia o fim do trfico transatlntico,

    o que dessangraria rapidamente a produo escravista.

    Dessas rebelies, destacamos principalmente a Cabanagem no Par, por seu carter

    popular;; a Sabinada, tambm na Bahia, por seu carter separatista; mas principalmente a

    Revoluo Farroupilha, principalmente por sua longa durao 10 anos constituindo-se na

    maior rebelio da histria brasileira. A importante Revolta dos Mals na Bahia (1835), por ter

    sido planejada por negros livres, libertos e alguns trabalhadores escravizados, no faz parte

    em sentido estrito do ciclo das revoltas liberais, constituindo movimento insurrecional de

    cunho social.180

    A exceo a esse drama seria a Guerra Farroupilha, liderada exatamente pela classe

    dominante da provncia do Rio Grande do Sul. A respeito desse episdio, Jorge Caldeira

    escreve, incorrendo em deslize sobre a realidade rio-grandense: S um lugar do Brasil

    177

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 151

    178 POMER, Leon. Os conflitos [...] Op Cit pp. 36-37

    179 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit pp. 151-152

    180 Cf. REIS, Joo Jos. Rebelio Escrava no Brasil : A histria do Levante dos Mals, 1835. 2 ed. So Paulo:

    Brasiliense, 1987; FREITAS, Dcio. Insurreies escravas. Porto Alegre: Movimento, 1976.

  • 76

    escapava do drama que consumia os radicais. Na provncia do Rio Grande do Sul, a proposta

    de radicalizar os aspectos federativos do Ato Adicional parecia vivel. Ali tudo era diverso do

    resto do pas. Havia poucos escravos no campo [sic] e muitos nas cidades, empregados nas

    charqueadas. Os maons vermelhos eram, em sua maioria, fazendeiros e muitos fazendeiros

    que no participavam da sociedade pensavam como eles. [...] A Revoluo Farroupilha

    comeou em 1835, chefiada por Bento Gonalves. Ao contrrio de todas as outras revoltas

    liberais da poca, os gachos [sic] se firmaram no campo e o governo dos farroupilhas

    prosperou com o apoio dos estancieiros [...]. Enquanto em todo o Brasil os liberais caados

    por proprietrios rurais sofriam para conseguir montar um governo vivel fora das capitais, no

    Sul era o governo central que sofria para controlar uma revolta difusa e apoiada pelos

    proprietrios. 181

    A Revolta Farroupilha, movimento dos estancieiros, importantes

    proprietrios de cativos, somente seria pacificada durante o Segundo Reinado, j em 1845.

    O historiador Jorge Caldeira se baseou nos mitos que havia sobre o Rio Grande do

    Sul: o da produo sem trabalho e o da produo sem escravos. 182

    O fato de no haver grande

    quantidade de cativos trabalhando na atividade pastoril, no autoriza afirmar que no havia

    trabalhadores escravizados nessa regio do pas. Sobre a existncia de cativos, os nmeros

    desmistificam a informao que o Rio Grande do Sul praticamente no adotava seu trabalho.

    Segundo Mrio Maestri: "Em 1874, com 21,3% de cativos, o Rio Grande era terceira

    provncia do Brasil em nmeros de trabalhadores escravizados, aps o Rio de Janeiro (39,7%)

    e o Esprito Santo (27,6%)." 183

    Portanto, podemos observar que longe de possuir poucos

    trabalhadores escravizados, o Rio Grande era importante regio escravista.

    O mesmo autor escreve a respeito das atividades onde seriam mais teis os servios

    dos trabalhadores escravizados: Inicialmente, importante salientar que a presena do cativo

    na fazenda no significa necessariamente que trabalhasse sobretudo em funes pastoris, que

    fosse um cativo campeiro. No Sul, a atividade criatria dominou at fim do sculo 19. Porm,

    ao lado das fazendas pastoris, tnhamos propriedades dedicadas agricultura mercantil,

    especialmente na periferia das cidades as chcaras. Nelas, o cativo assumia o papel de

    181

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Ci.. 152

    182 FREITAS, Dcio. O capitalismo pastoril. Porto Alegre: EST, 1980.

    183 MAESTRI, Mrio. [Org]. O negro e o gacho: estncias e fazendas no Rio Grande do Sul, Uruguai e Brasil.

    Passo Fundo: UPF Editora. MAESTRI, Mrio. O cativo, o gacho e o peo: consideraes sobre a Fazenda

    Rio-Grandense [1860-1964] p. 3

  • 77

    destaque.184 Porm, como lembra o autor, o cativo assumiria papel determinante nas estncias

    como cativo campeiro.

    Durante o Perodo Regencial, formaram-se grupos polticos que no podemos chamar

    de partidos ainda, pois eram agrupamentos de pessoas com afinidades polticas. Aps a morte

    do monarca Dom Pedro I [1798-1834], o grupo dos restauradores [que desejava o retorno do

    imperador que abdicara em 1831, se junta parte dos liberais moderados para formarem a ala

    dos Regressistas. Todos eram contrrios participao popular na poltica [no que os

    progressistas a aprovassem] e tinham um plano poltico mais centralizado nas provncias e

    classes proprietrias dominantes, com menor autonomia para as provncias perifricas. Eram

    favorveis ao senado vitalcio e ao trabalho compulsrio. Formariam mais tarde o Partido

    Conservador.

    Os progressistas foram o resultado da fuso de parte dos liberais moderados com os

    liberais exaltados. No havia grandes diferenas sociais entre esses dois grupos. O jornalista e

    cientista social Jorge Caldeira exagera nos ideais republicanos destes, sendo que essa no era

    uma Bandeira de luta dos progressistas como um todo. Tambm no podemos ainda lhes

    impingir uma mentalidade anti-escravista, sendo que muitos deles eram grandes fazendeiros e

    utilizavam o trabalho compulsrio. Em verdade, no havia grandes diferenas entre eles, do

    ponto de vista social, no que se refere ordem escravista. Mesmo que entre os progressistas

    houvesse faces emancipacionistas. Sobretudo, eles procuravam uma autonomia maior para

    as provncias, reivindicando a eleio do presidente da provncia. Eles formaro a seguir o

    Partido Liberal, fazendo oposio ao senado vitalcio. Todavia, tambm tero seus senadores

    vitalcios, principalmente durante o Segundo Reinado.185

    A inexistncia de uma oposio

    poltica de vis democrtico durante praticamente todo o Imprio devia-se essencialmente

    ausncia de faces substanciais de trabalhadores livres e de classe camponesa com direitos

    polticos.

    Em 1840 chega ao fim do Perodo Regencial e inicia do Segundo Reinado. Os

    regressistas passaram a usar mtodos mais eficazes no combate aos liberais. Com uma

    folgada maioria no Parlamento, montaram um aparato legal que esmagaria todas as conquistas

    liberais descentralizadoras. Por outro lado, os liberais apostaram suas fichas em uma jogada

    184

    MAESTRI, Mrio. [Org]. O negro e o gacho [...] Op Cit p-24

    185 Cf. CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio do imprio. So Paulo: Companhia das Letras, 1995; FAUSTO,

    Bris. Histria do Brasil. 10a Ed. So Paulo, Edusp, 1995; HOLANDA, Srgio Buarque de. Histria geral da

    civilizao brasileira. So Paulo: Difel, 1972-1982.

  • 78

    incerta: antecipar a maioridade do herdeiro do trono e subir ao poder nas costas dele. Os

    regressistas acusaram que seria golpe, mas como poderiam se opor ao prprio imperador?

    Mesmo assim, tentaram negociar um adiamento na maioridade, mas dom Pedro quando

    questionado a respeito da data para assumir o trono brasileiro disse, como era de se esperar de

    uma quase criana: Quero j! Assim, com o Golpe da maioridade, o filho de dom Pedro

    I tornava-se o imperador do Brasil com 14 anos de idade.186

    O Segundo Reinado e a estabilidade imperial

    O ano de 1840 marcaria o incio do

    Segundo Reinado. Praticamente todas as

    rebelies do perodo anterior foram debeladas

    com exceo da Guerra dos Farrapos e, mais

    tarde, da tardia revolta Praieira, em

    Pernambuco, em 1848. O Imprio comeava a

    entrar em uma fase de estabilidade. Jorge

    Caldeira escreve sobre a formao dos dois

    partidos rivais do Segundo Reinado os

    Conservadores e os Liberais. [...] os

    regressistas transformaram-se em partido

    poltico. Nascia o Partido Conservador, auto-

    apelidado de Saquarema, em homenagem a

    seus principais lderes, fazendeiros escravistas

    da regio da cidade fluminense de Saquarema.

    Os liberais reagiram como puderam, abrigando-

    se um tanto a contragosto no Partido Liberal.

    Mas nunca puderam escapar do apelido

    colocado pelos algozes. Seriam os luzias,

    carregando no nome o peso da derrota nas armas em Santa Luzia.187

    A batalha que lhes

    renderia esse apelido e que marcou essa diviso entre liberais e conservadores, a de Santa

    Luzia, ocorreu no rescaldo das revoltas liberais em 1842. Quando da ascenso de D. Pedro II

    ao trono, os liberais conseguiram afastar os desafetos e voltar pelas mos do rei, os

    conservadores lanaram-se com sede de raiva ao pote: anularam as eleies, usaram as

    186

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit pp. 156-157

    187 Id. Ibid p. 170

    Figura 9: Pintura a leo de D. Pedro II [1825-

    1891]. Governou o pas por quase 50 anos [1840-

    1889]. Seu governo foi marcado pela estabilidade,

    pelo surto industrial e, dentre outras coisas, pela

    Guerra do Paraguai [1865-1870].

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 79

    prerrogativas de interpretao da Constituio que tinham aprovado no governo.

    Pressionados, os antigos liberais moderados no viram sada seno se tornarem eles mesmos

    vermelhos. Organizaram s pressas revoltas em So Paulo e Minas Gerais, contra o arbtrio

    do governo. Era o que os adversrios queriam. No levaram muito tempo para bater os

    mineiros em Santa Luzia e os paulistas em Sorocaba. Ali, numa cena melanclica,

    consolidou-se a definitiva separao de dois grupos que um dia tinham andado juntos.188

    A estabilidade, que ser uma das marcas do longo governo de D. Pedro II [1840-

    1889]. Era preciso, porm, encerrar o mais longo conflito interno da histria do pas, a

    Revoluo Farroupilha. Em 1840 foi mandado para o Rio Grande do Sul Luis Alves de Lima

    e Silva, o baro de Caxias com a misso de debelar esse conflito. No ano de 1845, os lderes

    farroupilhas aceitaram a rendio e depuseram as armas. Os comandantes farrapos acabaram

    sendo incorporados ao Exrcito Nacional e pela primeira vez, todo o pas estava sob controle

    do governo central.

    Mrio Maestri ressalta a ascenso de uma nova classe social ao poder, no Segundo

    Reinado. O principal eixo do novo bloco social era a classe dos cafeicultores. Foi o

    desenvolvimento da cafeicultura escravista fluminense, a partir dos anos 1830, que cimentou

    o matrimnio entre monarquia e escravismo. Em poucas dcadas, os bares do caf,

    principal pilar da Segundo Reinado, transformaram-se na classe nacionalmente hegemnica.

    Foram eles, como acabamos de ver, que constituram a espinha dorsal do Partido

    Conservador, em forte associao com os grandes comerciantes de cativos, sobretudo da

    Corte. 189

    Maestri comenta: A estabilidade do Segundo Reinado foi comumente apresentada

    como produto da pretensa clarividncia poltica de Pedro II ou do inexistente liberalismo das

    instituies imperiais. Ela deveu-se pujana da expanso da cafeicultura e perfeita

    interpretao, pela Monarquia, das necessidades do escravismo nacional. O crescimento das

    rendas auferidas com a exportao do caf e com a importao de trabalhadores escravizados

    permitiu que fosse aliviada a presso fiscal sobre as provncias perifricas.190

    Efetivamente, a

    imposio das importaes, com a vigncia das Tarifas Alves Branco, ensejaria importantes

    rendas para o Estado imperial, como veremos.

    188 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 169

    189 MAESTRI, Mrio. O cativo, o gacho e o peo [...] Op Cit p. 12

    190 Id. Ibid p. 12

  • 80

    E foi a partir dessa estabilidade e pelo fato de ser um Estado centralizado, autoritrio e

    consolidado, que o Imprio pde retomar sua poltica imperialista j praticada quando do

    perodo colonial e do Reino Unido, voltando as atenes para o Rio da Prata, onde almejava,

    se possvel, reduzir o Uruguai a semi-protetorado, manter a Argentina e o Paraguai em

    posio secundria, dominar a navegao dos rios Uruguai, Paraguai e Paran. As dcadas de

    1850 e 1860 assinalariam o auge do Imprio, bem como de sua economia cafeeira e

    escravista. Segundo assinala Ricardo Salles, em Guerra do Paraguai: , de 1990: A

    produo escravista, base da economia, estava em expanso com as plantaes de caf,

    principalmente na regio do vale do Paraba. O Brasil gozava de uma situao privilegiada em

    relao ao mercado internacional, tendo praticamente o monoplio do fornecimento do

    produto. A produo agrcola nas outras regies base do trabalho escravo, se no conhecia

    expanso semelhante regio cafeeira, conseguia, no mnimo, manter-se estavelmente, em

    termos de preservao da unidade de produo escravista, devido a caractersticas prprias do

    modo de produo escravista. Em outras regies, ainda, como no Rio Grande do Sul,

    conhecia-se mesmo uma expanso da produo, nesse caso do prprio mercado interno da

    regio cafeeira com o charque.191

    A produo escravista pastoril-charqueadora sulina

    avanava produzindo e vendendo igualmente couro e mulas, imprescindveis para a

    cafeicultura. 192

    As dcadas de 1850 e 1860 assinalariam o auge do Imprio, bem como de sua

    economia cafeeira e escravista. Segundo podemos ler no trecho de Ricardo Salles. A

    produo escravista, base da economia, estava em expanso com as plantaes de caf,

    principalmente na regio do vale do Paraba. O Brasil gozava de uma situao privilegiada em

    relao ao mercado internacional, tendo praticamente o monoplio do fornecimento do

    produto. A produo agrcola nas outras regies base do trabalho escravo, se no conhecia

    expanso semelhante regio cafeeira, conseguia, no mnimo, manter-se estavelmente, em

    termos de preservao da unidade de produo escravista, devido a caractersticas prprias do

    modo de produo escravista. Em outras regies, ainda, como no Rio Grande do Sul,

    conhecia-se mesmo uma expanso da produo, nesse caso do prprio mercado interno da

    regio cafeeira com o charque.193

    A produo escravista pastoril-charqueadora sulina

    191

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit pp. 40-41

    192 Cf., entre outros: TRINDADE, J. B. Tropeiros. So Paulo: Editorao e Comunicaes/Incepa, 1992.

    FONSECA, Ari Verssimo da. Tropeiros de mula: a ocupao do espao; a dilatao das fronteiras. 2 ed. Passo

    Fundo: Berthier, 2004; Caminho das tropas. Importncia do tropeirismo na configurao urbano-espacial de

    Cruz Alta. S.L: IPHAE/SEC, sd.

    193 SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit pp. 40-41

  • 81

    avanava produzindo e vendendo igualmente couro e mulas, imprescindveis para a

    cafeicultura.

    Salles ressalta a situao brasileira aps a pacificao das revolta regenciais.

    Encontravam-se regrados os conflitos internos classe dominante, agora expressos no jogo

    poltico e parlamentar. A Maioridade, a derrota de todas as revoltas que buscavam a

    descentralizao e a manuteno de uma autonomia local haviam criado as condies para a

    consolidao do Estado imperial. Nas diversas regies do Imprio o Estado centralizado,

    superando resistncias, incorporando e subordinando potentados locais e regionais, impunha

    seu controle sobre todo o territrio nacional. Suas instituies, smbolos eram aceitos pela

    classe dominante e tambm pelos setores mdios da populao como expresso particular de

    uma cultura poltica brasileira, por sua vez caudatria da cultura europia ocidental vigente.

    [...] A figura benevolente do imperador aparecia como sntese e smbolo da solidez das

    instituies imperiais. No quadro institucional parlamentar, essa sntese e esse smbolo

    transfiguravam-se em presena poltica efetiva atravs do Poder Moderador.194

    Fator de suma importncia no Segundo Reinado

    foi a Tarifa Alves Branco, de 1844, que levava o nome

    do ministro liberal que a editou. Com a elevao das

    taxas de importao, destinada a financiar os gastos

    governamentais, essa lei permitiu o uma primeira

    impulso de estabelecimentos manufatureiros no

    Imprio, bem como de uma nova espcie de

    empreendedor na economia nacional, o industrial e

    empresrio. Realidade, porm, limitada pela

    dominncia da produo escravista e inexistncia de

    mercado livre de trabalho significativo. Segundo o

    jornalista e cientista social Jorge Caldeira, em Mau:

    empresrio do Imprio, de 1995: Pela lei, as tarifas de

    importao dos produtos ingleses subiam de 15% para

    30% a 60%, dependendo da mercadoria. Produtos

    194

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit pp. 41-42

    Figura 10: Pintura a leo do Baro de

    Mau [1813-1889]. Principal personagem

    do surto industrial ocorrido no Segundo

    Reinado, era tambm um banqueiro

    influente na Europa e na bacia do Prata.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 82

    importados de outros pases pagariam taxas similares.195

    Nesse cenrio um pouco mais favorvel ao desenvolvimento da produo

    manufatureira interna, surge Irineu Evangelista de Sousa, o Baro de Mau. Despus de

    1852, la preponderancia del barn de Mau es completa en el continente sudamericano:

    construye ferrocarriles, lneas de navegacin a vapor, crea fundiciones, empresas de

    iluminacin a gas, diques flotantes, compaas mineras, estancias en la Repblica Oriental y

    en Rio Grande, cables submarinos, inicia el Banco de Brasil. Ms tarde, con la ayuda

    financiera de los Rotschild de Londres, crea el poderoso Banco Mau, con agencias en todo el

    imperio y filiales en Nueva York, Londres, Manchester, Montevideo, Rosario y Buenos Aires.

    Estas ltimas, formaban la punta de lanza de la penetracin anglobrasilea en el sur. []

    Mau consigui el monopolio bancario con la facultad para emitir monedas y billetes; sus

    deudores seran considerados como deudores del Estado y sujetos a sus penas criminales y

    polticas, quedaba liderado de todo impuesto, y sus cajas recibiran toda la recaudacin

    nacional.196

    Mau foi o grande empresrio no s no Imprio, mas construiu seu prprio imprio,

    controlando boa parte das aes dentro dos pases vizinhos, que ainda se encontravam em

    processo de formao. Em Mau: empresrio do Imprio, de 1995, Jorge Caldeira escreve:

    De seu punho podiam nascer leis no Uruguai, movimentos de tropas na Argentina, um novo

    ministro no Brasil, uma grande tacada na bolsa de Londres.197

    Qual a importncia desse industrial, banqueiro, empresrio e at fazendeiro? Irineu

    Evangelista de Sousa tinha uma das maiores fortunas do Imprio, uma quantidade de dinheiro

    comparvel ao oramento do governo. De sua mesa saam ordens para os diretores de

    dezessete empresas instaladas em seis pases e informaes para um complexo grupos de

    scios, no qual despontavam milionrios ingleses, nobres franceses, especuladores norte-

    americanos, comerciantes do Par, fazendeiros do Rio Grande do Sul. Por meio da

    correspondncia com esses pases e colaboradores, o baro geria bancos no Brasil, no

    Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra e Frana; estabelecimentos no Brasil e no

    Uruguai; trs estradas de ferro no interior do Brasil; a maior fbrica do pas, uma fundio que

    195

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op cit p. 176

    196 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 28-29

    197 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op cit p. 16

  • 83

    ocupava setecentos operrios; uma grande companhia de navegao; empresas de comrcio

    exterior; mineradoras; usinas de criao de gado; fbricas variadas.198

    Mau era to ou mais influente nos pases vizinhos, no Rio da Prata Uruguai e

    Argentina. Seus bancos emprestavam dinheiro aos governos e a presidentes desses pases

    tornando-se credor de alguns dos membros mais importantes das classes dirigentes das naes

    platinas. Escreve Caldeira: Ele era o dono do maior banco do Uruguai, credor de todas as

    dvidas do governo e centro da vida econmica do pas. No interior funcionavam as agncias

    de Salto, Colnia e Paissandu, freqentadas por gachos rudes, que desciam de seus cavalos

    com a arma numa das mos e o ouro da venda do gado, para depositar, na outra. Enquanto

    isso, em Montevidu, empresrios e governantes passavam pela elegante sede do banco, na

    esquina das ruas do Cerrito e Trinta e Trs, em busca de financiamentos para seus projetos. Se

    os depsitos no interior crescessem, aumentavam os negcios e o ritmo desse pulsar bsico

    da economia uruguaia era ditado pelo Banco Mau.199

    Segue Caldeira: Ele tambm tinha fazendas, a maior das quais era a Estncia

    Mercedes, com 160 mil hectares e 100 mil cabeas de gado[sic]; um grande dique; um

    estaleiro no porto; e muitas aes da companhia de iluminao a gs da capital. [...] Os

    dirigentes daquele pas nunca deixavam de levar em conta sua opinio na hora de tomar

    decises. Muitas vezes, a chuva ou sol na economia uruguaia dependiam de uma de suas

    cartas, do apoio ou da censura a qualquer projeto que passasse pela cabea dos

    governantes.200

    Destaque-se a impreciso dos dados no relativo ao gado da estncia

    Mercedes, com 1,6 animais por hectares, povoamento impossvel, sobretudo em propriedade

    de tal dimenso.

    No plano econmico, o Imprio encontrava sua identidade na tradicional forma de

    propriedade, de produo e de explorao do trabalho, associada agora a um novo produto: o

    latifndio monocultor, a mo-de-obra escrava e a produo para a importao. Segundo

    Caldeira: Desde 1830, quando entraram em produo plena, o caf estava substituindo o

    acar como principal produto de exportao do pas. Nem mesmo a queda nos preos, que

    vinha desde o final dessa dcada, assustou os investidores, que disputavam cada palmo de

    terra no vale do Paraba. Ali estava a esperana, o futuro. A idia de juntar gente e gastar um

    bom dinheiro com esquisitices como uma indstria no era entendida como uma alternativa

    198

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op cit p. 17

    199 Id. Ibid p. 25

    200 Id. Ibid p. 25

  • 84

    para ganhar dinheiro. O pas s conhecia fbricas artesanais, a maior parte das quais perdidas

    no meio de fazendas. Produziam tecidos grossos para consumo de escravos, um ou outro

    utenslio agrcola. A nica coisa parecida com grande indstria que havia por aqui eram as

    unidades de processamento de produtos agrcolas, como charqueadas ou engenhos de acar,

    sempre encravados em plantaes.201

    Politicamente, o imperador usou o poder dito moderador e o parlamento para

    consolidar sua fora. Em lugar de ter seu poder j grande diminudo, aumentou-o fortemente,

    aproveitando-o para realizar a estabilizao poltica necessria e querida pelos grandes

    escravistas. Para tal, colocou sob controle as rivalidades entre conservadores e liberais,

    intervindo em claro favor dos primeiros, em um contexto de perda tendencial de fora dos

    ltimos. Escreve Jorge Caldeira: [...] transformar o Parlamento num poder auxiliar, no num

    rival da autoridade rgia. Disse e fez: criou a figura do presidente do gabinete de ministros,

    que arcaria com toda a responsabilidade do governo e em troca do favor deveria obedecer

    cegamente ao rei. [...].202

    Segue o autor: Depois da derrota de 1848, at mesmo os liberais mais radicais com

    cargos vitalcios acabaram chegando concluso de que esperar sentado at que o rei

    mudasse de idia era melhor que ficar mal aos olhos do soberano o que certamente

    significaria o afastamento definitivo dos ministrios.203

    Consolidado poltica e economicamente em seu plano interno, sob a hegemonia dos

    grandes fazendeiros e comerciantes escravistas, com as massas dos trabalhadores escravizados

    mantidas fortemente na submisso, o Imprio passou a agir de modo a atingir seus objetivos

    na poltica externa. Nesse sentido, Ricardo Salles aponta esquematicamente pontos que

    norteariam as relaes brasileiras com seus vizinhos platinos. [...] o Brasil tinha alguns

    interesses: 1. Impedir a formao de um Estado nacional forte e que unificasse o antigo Vice-

    Reinado do Rio da Prata; 2. Assegurar a livre navegao pela bacia do Prata; 3. Fazer valer

    determinadas reivindicaes territoriais nas reas de fronteira; 4. Estar presente de forma

    marcante na poltica interna uruguaia; 5. Garantir a no restaurao da presena europia na

    201

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op cit p. 181

    202 Id. Ibid p. 194

    203 Id. Ibid p. 195

  • 85

    regio.204

    A esses pontos, devemos incorporar a vontade de debilitar a ordem republicana e

    impor a restituio dos trabalhadores escravizados fugidos para os Estados vizinhos.

    Jorge Caldeira escreve as razes econmicas que teriam levado o Imprio a adotar

    uma poltica intervencionista no rio da Prata. Seria um modo de permitir seu

    desenvolvimento. A idia de intervir no Prata estava ligada ao desenvolvimento do Brasil. O

    acesso por terra aos vastos territrios de Mato Grosso era complicado demais uma viagem

    de ida ao Rio de Janeiro a Cuiab levava cinco meses para permitir qualquer espcie de

    colonizao. A disseminao dos navios a vapor criou uma alternativa do contorno via

    Buenos Aires e da o rio Paran acima, num percurso no qual se gastaria um tero do tempo,

    se fosse possvel fazer as viagens. Para vencer essa barreira, havia alguns obstculos no

    caminho. O governo argentino no permitia nem por sonho que navios estrangeiros

    navegassem por ali. A poltica de fechar o rio da Prata era uma questo de sobrevivncia

    nacional, mantida a ferro e fogo apesar de todos os desarranjos que causava.205

    Destaque-se a

    confuso entre a proposta do desenvolvimento da economia escravista exportadora do Brasil e

    o desenvolvimento do prprio pas, apresentado como unidade sem contradio.

    Em Maldita Guerra, de 2002, Doratioto prope que o Imprio se esforava para

    impedir a formao de um Estado forte s suas fronteiras: Um vizinho republicano no Prata

    poderoso, que somente poderia ser a Argentina, era visto pela diplomacia imperial como

    ameaa independncia do Paraguai e do Uruguai. A existncia desses dois Estados era a

    garantia de que, os rios platinos no seriam nacionalizados pela Argentina, fato que seria uma

    ameaa sua livre navegao. Essa liberdade era essencial ao Rio de Janeiro, para ter acesso

    por via fluvial ao Mato Grosso, nica forma de contato regular dessa provncia com a capital

    brasileira. [...] O Partido Conservador, que governava o Imprio no final da dcada de 1840,

    implementou a poltica, para o Prata, de defesa da integralidade territorial do Paraguai e do

    Uruguai [sic]. Com isso, os conservadores buscavam no s garantir a livre navegao, como

    tambm evitar a ampliao da fronteira argentino-brasileira, de modo a reduzir os pontos

    pelos quais Rosas poderia promover uma eventual agresso ao Brasil.206

    O interesse pela

    independncia sobretudo do Uruguai materializava a vontade do governo imperial em

    transformar e conservao aquele Estado como espcie de seu protetorado, caso fosse

    impossvel incorpor-lo ao Imprio, como ocorrera quando da provncia Cisplatina.

    204

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit p. 45

    205 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 201

    206 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra[...] Op Cit p. 28

  • 86

    Moniz Bandeira lembra que o Imprio reunia as condies para impor sua poltica

    intervencionista na regio do rio da Prata. Com um territrio de cerca de 8 milhes de km2,

    uma populao da ordem de 10 a 11 milhes de habitantes, ou seja, de cinco a mais de dez

    vezes superior qualquer outro pas da Amrica do Sul, e um aparelho de Estado capaz de

    empreender, internacionalmente, uma ao autnoma, tanto diplomtica quanto militar, o

    Imprio do Brasil, assegurada sua tranqilidade interna, pde ento, exprimir-se como grande

    potncia, em face da Bacia do Prata.207

    Bandeira ainda aponta os fatores que facilitariam a ao, que caracteriza claramente

    como colonial e imperialista, do governo imperial na Amrica do Sul. O Imprio do Brasil,

    sendo, na verdade, o desideratum de todo o conjunto de medidas que D. Joo VI adotou desde

    a transferncia da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro, contou com a vantagem de possuir

    um aparelho de Estado, que se ajustara a outras relaes sociais e evolura, mas, na mudana,

    no sofrera ruptura nem descontinuidade. E assumiu a posio de grande potncia, vis-a-vis os

    pases da Bacia do Prata, aos quais imps sua hegemonia entre 1850 e 1876, empreendendo

    aes de carter colonial e imperialista, para realizar objetivos econmicos e polticos, que

    podiam coincidir ou no com os interesses da Gr-Bretanha.208

    Como sugere sensivelmente Bandeira, no devemos confundir ou deduzir a ao

    poltica do Imprio no relativo aos seus vizinhos das polticas e vontades do governo imperial.

    No raro, ela ops-se e contraditou os objetivos do governo britnico na regio. No

    podemos, entretanto, olvidar que a orientao essencial liberal-mercantilista da economia e da

    sociedade do Imprio correspondia e adaptava-se essencialmente s necessidades do capital e

    da produo fabril-manufatureira inglesa. Contando portanto com seu forte apoio. As

    contradies entre o governo e o Estado ingls e imperial deram-se sempre no contexto dessa

    concordncia e dependncia.

    Salles refere-se poltica imperialista do Imprio no Rio da Prata, no que diz respeito

    real ameaa que produzia nao paraguaia A partir da derrota de Rosas em Caseros em

    1852 e ao longo de toda a dcada de 50 e incio dos anos 60, a poltica externa brasileira vinha

    progressivamente ganhando forma no sentido de exercer concretamente a possibilidade de

    predomnio que sua situao demogrfica e material lhe conferia [sic]. Entre uma situao de

    desequilbrio estrutural de foras e uma poltica externa expansionista concreta, houve toda

    uma srie de mediaes conjunturais presentes no jogo entre as naes. A interveno militar

    207 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 157

    208 Id. Ibid p. 213

  • 87

    brasileira no Uruguai e o apoio ou, pelo menos, a aquiescncia argentina a essa interveno

    dava uma forma bastante ameaadora e concreta, do ponto de vista paraguaio, ao

    desequilbrio de foras estrutural da regio. Isso parecia to mais verdadeiro quando

    consideramos o quadro mais geral de presses brasileiras ao longo da dcada de 50 pela

    abertura do rio Paraguai livre navegao (obtida em 1858) e a tradicional hostilidade

    argentina em relao ao Paraguai.209

    Destaque-se que a superioridade do Imprio permitia

    no determinava poltica imperialista. Ou seja, obviamente, por ser superior aos vizinhos,

    teria vantagem para exercer uma poltica imperialista, mas essa vantagem no lhe dava o

    direito de agir dessa forma.

    Guerra do Paraguai e escravido

    importante analisarmos a importncia dessa forma de explorao para estudarmos os

    diversos momentos da histria do Imprio. Afinal essa era uma caracterstica indelvel deste

    singular pas, que se manteve diferente do restante da Amrica a Monarquia escravista.

    Portanto, uma forma secular de aproveitamento da mo-de-obra que muito mais do que

    economicamente, era justificada por motivos morais e principalmente para a manuteno do

    status. Qual a sua vinculao com a Guerra do Paraguai?

    O historiador argentino Miliciades Pea v a poltica imperialista do governo do Brasil

    sob outro prisma, que contradita em uma importante questo a viso da pujana imperial-

    escravista nos anos 18760-70. Para ele, na dcada de 1860, a expanso territorial nascia da

    necessidade da crescente fome de terra da forma escravista de produo do Brasil, que estaria

    passando por crise de mo-de-obra, devido a abolio do trfico internacional de cativos,

    sendo que o fim do regime de escravido uma questo de tempo, pois os trabalhadores

    escravizados eram relativamente ineficiente e cada vez mais caros.210

    Uma viso que faz

    sentido. Na dcada de 1860, segundo o historiador estadunidense Robert Conrad, passou a se

    desenvolver no Brasil movimento emancipacionista e, a seguir, abolicionista. A escravido

    era vista internacionalmente como uma instituio desacreditada. A prpria Guerra do

    Paraguai serviria para desarticular o movimento emancipacionista e abolicionista e atrasar e

    sustar medidas e reformas que exigia. 211

    209

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit p. 52

    210 PEA, Miliciades. La era de Mitre: [] Op Cit p. 62

    211 CONRAD, Robert. Os ultimo anos da escravatura [...] Op Cit p. 88

  • 88

    Essa viso de Miliciades Pea faz sentido. Na dcada de 1860, segundo o historiador

    norte-americano Robert Conrad, passou a se desenvolver no Brasil um movimento

    emancipacionista. A escravido era vista internacionalmente como uma instituio

    desacreditada e como uma vergonha.212

    Em seu livro Os ltimos anos da escravatura no Brasil, de 1978, o historiador norte-

    americano Robert Conrad escreve a importncia do trabalhador escravizado no Imprio,

    sendo ressaltado que ele no era utilizado somente em funes produtivas, conforme podemos

    ler no trecho que segue: Os escravos no s eram um elemento quase universal na

    populao, mas tambm eram usados em quase todos os tipos de trabalho.213

    Portanto, a propriedade de um trabalhador escravizado no era somente uma

    necessidade para a produo, uma vez que se constitua em um bem, um indicativo de poder e

    de riqueza. Possuir cativos era a forma de demonstrar o poder. Conrad escreve nos seguintes

    termos: O escravo era a nica propriedade do homem livre. Sem sua ajuda, o homem branco

    podia considerar-se pobre, mesmo com uma abundncia de dinheiro. Sem escravos, a

    minerao e a agricultura deixariam de existir. O escravo produzia o sustento de seu dono, o

    qual, de outro modo teria de emigrar ou viver na misria.214

    Engana-se quem pensa que eram somente os senhores de engenho ou os plantadores

    de caf que possuam cativos. Possuir trabalhadores escravizados era o desejo de pessoas

    inclusive de condio menos abastada, como podemos ler no trecho escrito por Robert

    Conrad: A propriedade de escravos, no entanto, no se limitava a uma pequena classe

    dominante. Apesar dos ricos fazendeiros terem sido sempre os donos da maioria dos escravos

    brasileiros, particularmente nos ltimos anos, havia muitas pessoas pobres que viviam do

    trabalho de um ou mais cativos. Para muitas pessoas, os escravos eram a nica fonte de

    renda.215

    O motivo de o trabalho escravo ser defendido de maneira to intensa no Imprio se

    deve ao fato ser esta instituio uma herana dos tempos coloniais que marcaram as

    caractersticas da colnia portuguesa. Mais do que isso, deixaram uma marca na

    212

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 88

    213 Id. Ibid p. 6

    214 Id. Ibid p. 12

    215 Id. Ibid p. 13

  • 89

    personalidade do brasileiro. Uma imagem negativa do trabalho. A idia que trabalhar era

    degradante, coisa de escravo.216

    Conrad escreve ento, que a escravido perpassava por vrias esferas da vida do

    Brasil, no sendo apenas economicamente importante, mesmo que fosse para a economia a

    mais importante fonte de lucro e de mo-de-obra. Era fundamental socialmente falando, como

    podemos aferir no trecho seguinte: No Brasil, a escravatura era muito mais do que uma

    instituio econmica, j que a propriedade de escravos no s era lucrativa, como tambm

    elevava o status do proprietrio aos olhos dos outros. Havia uma espcie de satisfao pessoal

    inerente propriedade de escravos [...].217

    O trabalhador escravizado no foi somente o produtor do caf, ou o plantador de cana.

    Mas deixou sua marca em praticamente todas as esferas da vida econmica e social do

    Imprio. Alm disso, muitas ocupaes surgiram em funo do trabalhador escravizado, fosse

    para anunciar, vender, capturar, castigar, dentre outros. Conrad escreve que: A escravatura

    penetrava a vida brasileira, encontrando seu caminho at na imprensa de um modo cotidiano

    na forma de anncios classificados para a venda e aluguel de escravos ou para a captura de

    fugitivos. O escravo era o servidor na casa e na rua, a ama de leite dos filhos legtimos do

    dono e, em muitos casos, a me de seus filhos ilegtimos. O sistema criou profisses: o

    negociante de escravos, o importador, o avaliador, o capito-do-mato, o capanga local que

    capturava os fugitivos.218

    Conrad anda escreve que a o principal motivo que levou os senhores de escravos e o

    governo brasileiros a se apegarem tanto ao trabalho compulsrio teria muito a ver com a

    tradio trazida por Portugal. Uma tradio que perduraria com o prosseguimento da famlia

    de Bragana no poder com a declarao de independncia, trao que diferenciou o Imprio

    das demais naes latino-americanas que no s retiraram as pessoas da antiga metrpole do

    seu governo, com adotaram regimes republicanos. Assim, Conrad coloca nos seguintes termos

    a resistncia imperial contra o fim do trabalho escravo: A relutncia brasileira para

    abandonar o sistema de trabalho de escravos no foi apenas uma conseqncia da grande

    importncia social e econmica da instituio. A conservao da escravatura tambm estava

    216

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 13

    217 Id. Ibid p. 15

    218 Id. Ibid p. 17

  • 90

    intimamente relacionada com a sobrevivncia de atitudes tradicionais que mantinham e

    protegiam a maioria dos costumes e instituies que o Brasil herdara do passado colonial.219

    A questo do trfico de trabalhadores escravizados foi uma das fontes de divergncias

    entre o Imprio e a Inglaterra. Sabe-se que os sditos da rainha passaram a pressionar os

    governos imperiais para abolir o trfico de cativos. Para muitos, no entanto, no sabido que

    por muito tempo, os ingleses que foram no somente traficantes de trabalhadores

    escravizados, mas os maiores traficantes do planeta.220

    Apesar de seu passado como traficante de trabalhadores escravizados, os ingleses, em

    1845, editaram uma lei dura para com quem transportava cativos. Conforme escreve Jorge

    Caldeira: O Parlamento ingls, pressionado agora tambm pelos produtores de acar do

    Caribe, aprovou uma lei que levou o nome do novo primeiro-ministro ingls, o conde

    Aberdeen. Por ela, os navios ingleses ficavam oficialmente autorizados a perseguir, aprisionar

    e destruir barcos de pases estrangeiros em guas internacionais, desde que suspeitassem

    bastava a suspeita de que se dedicavam ao trfico de escravos. [...] Depois do Bill, a

    Inglaterra passou a massacrar a frota mercante brasileira. S nos ltimos trs meses do ano,

    nada menos que 27 barcos acabaram nas mos do Royal Navy.221

    Como citado, a Inglaterra passou a pressionar o Brasil para a eliminao do trfico

    transatlntico de cativos. O Bill Aberdeen ingls, como visto, autorizava a Marinha inglesa a

    perseguir navios negreiros. Essa oposio ao trabalho escravizado teria diversas motivaes,

    desde humanistas at econmicas. Quais seriam os motivos econmicos que possivelmente

    levariam os britnicos a abandonarem a prtica do escravismo para se colocarem contra o

    trabalho compulsrio? Por que os ingleses passaram a fazer presso para que o Imprio

    deixasse de adotar essa forma de explorao do homem pelo homem?

    Interessa-nos neste momento tambm apresentar a viso de Jlio Jos Chiavenato, a

    respeito deste discurso britnico. Ele aponta que a Revoluo Industrial criou a necessidade

    de mercado consumidor dos produtos ingleses. Sendo assim, para a expanso de sua

    produo, os ingleses precisariam alargar seu mercado consumidor. Encontraria, pois, em

    pases de mo-de-obra escravizada um grave entrave, pois estes trabalhadores no dispunham

    de condies de comprarem produtos britnicos. Alm do mais, os escravizadores poderiam

    219

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 25

    220 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 72

    221 Id. Ibid p. 179

  • 91

    investir na aquisio de artigos manufaturados britnicos o gasto na compra de trabalhadores

    escravizados. Segundo escreve o autor: No h mais a agressividade inglesa impondo seus

    navios contra os tumbeiros que abasteciam o mercado escravo brasileiro; mas h o prprio

    processo de desenvolvimento industrial exportador ingls, atingindo sua fora mxima, com

    uma exigncia econmica impossvel de ser negada, pedindo o trabalhador livre, assalariado,

    para criar um proletrio que possa consumir sua produo.222

    Ainda importante salientar

    que eram apenas os grandes cafeicultores que consumiam estes produtos, uma vez que os

    homens livres e pobres possuam um poder aquisitivo muito baixo adquiriam muito pouco

    desta produo.

    O jornalista Jorge Caldeira traz outra razo importante para a oposio dos ingleses ao

    trfico transatlntico de trabalhadores escravizados. Em 1807, com o bloqueio do comrcio

    com o continente europeu decretado por Napoleo, no havia o que fazer com os estoques de

    acar das Antilhas, e o governo britnico resolveu proibir o trfico de escravos como forma

    de conter a produo.223

    A Revoluo Industrial, juntamente com a vitria sobre Napoleo Bonaparte

    trouxeram benefcios imensos, como a abertura dos mercados mundiais para os produtos

    ingleses, tanto que a Gr-Bretanha sequer chegou a sentir o golpe do fim do trfico de cativos.

    Segundo Jorge Caldeira: O grande capital aplicado no trfico, paralisado de um dia para o

    outro foi rapidamente transferido para investimentos em fbricas. Quando a guerra acabou,

    ningum pensava muito no passado os ingleses j se julgavam pioneiros na moralidade e

    no queriam nem ouvir falar de brbaros escravistas. [...] A regio de Liverpool e Manchester,

    em vez de regredir com o fim das oportunidades do trfico, conheceu uma exploso de

    progresso. As fbricas de tecidos de algodo, muitas delas financiadas pelos bancos dos

    comerciantes de produtos tropicais, cresciam na velocidade dos sonhos. A vitria militar abriu

    mercados no mundo inteiro, e eles pareciam infinitos: o consumo de algodo pelas indstrias

    inglesas, a maior parte das quais ficava na regio de Liverpool, saltou de 5 milhes de libras

    em 1800, para 220 milhes de libras em 1830.224

    Mas, quando escrevemos que os ingleses passaram a se colocar como os paladinos da

    moralidade, da liberdade de comrcio preconizada por Adam Smith, ou ainda das liberdades

    individuais, pertinente ressaltarmos que isso se referia ao que eles desejavam para os outros.

    222

    CHIVENATO, Jlio Jos. O negro no Brasil[...]Op Cit p. 193

    223 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 159

    224 Id. Ibid pp. 159-160

  • 92

    A Inglaterra, apesar da prtica do livre-cambismo, adotava uma postura diversa sobre o

    assunto para o consumo externo. Aplicava a idia da liberdade de comrcio apenas quando

    favorecia seus interesses: s permitia competio aberta nos setores em que tivesse muita

    vantagem de capital ou de custos, e mantinha um alto grau de proteo nos setores em que era

    mais fraca. A liberdade no era uma questo filosfica, mas antes de tudo, uma alavanca

    econmica da no aplicarem em casa o que pregavam para os outros. Ao mesmo tempo que

    arrancaram do Brasil um tratado comercial pelo qual seus produtos de exportao pagavam

    poucos impostos de entrada -, os ingleses continuavam taxando o acar e o caf brasileiros,

    de modo a proteger os agricultores da Metrpole, to conservadores quanto os fazendeiros do

    Brasil.225

    Mas ao destacarmos o papel que a Gr-Bretanha teve nas medidas tomadas contra o

    trabalho compulsrio no Imprio, devemos destacar que esta persuaso pelo trabalho

    assalariado j era exercido pelo governo daquela nao desde os tempos do Brasil Colnia,

    como podemos ler no trecho de Os ltimos anos da escravatura no Brasil, de Robert

    Conrad, escrito em 1978: Em 1810, com o governo portugus no Rio de Janeiro virtualmente

    sob a proteo britnica, o Prncipe Regente Joo concordou, num tratado de aliana, cooperar

    com o monarca britnico na abolio gradual do comrcio de escravos e tornar imediatamente

    ilegal o trfico em territrios no portugueses da frica. Esse tratado deu ao governo britnico

    uma dbil justificativa para a sua primeira campanha naval contra os navios portugueses,

    despertando a ira dos importadores e fazendeiros portugueses e brasileiros. Em 1815, de novo

    sob coero o governo de Joo VI concordou com proibir o trafico ao norte do Equador e, em

    1817 o mesmo rei cometeu seu regime a medidas que tinham por objetivo fazer vigorar a

    proibio parcial do comercio do escravos.226

    E quando nos referimos averso dos ingleses ao trabalho cativo, no devemos

    raciocinar de imediato que se tratava de uma questo moral para alguns at era pois, os

    ingleses, no eram necessariamente um paraso para os trabalhadores livres das indstrias,

    como escreve Jorge Caldeira. A Inglaterra do sculo XIX no era bem um paraso, apesar de

    toda sua riqueza. A expectativa mdia de vida dos trabalhadores pobres de Liverpool, uma das

    cidades mais ricas do pas, era de apenas quinze anos, e a das camadas mdias, 35 mais

    baixas que no sculo anterior e prxima dos escravos brasileiros. O desemprego era elevado

    225

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 162

    226 CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 31

  • 93

    e os desempregados, ao contrrio dos escravos, no recebiam comida quando faltava

    trabalho.227

    Alm dos problemas j citados que o trabalho escravo e o trfico causavam

    Inglaterra, tambm destacamos que havia a concorrncia no comrcio do acar. Segundo

    Caldeira em Mau: empresrio do Imprio, de 1995: O acar brasileiro tinha custos

    prximos metade das mais eficientes plantaes britnicas no Caribe, e cerca de 10% mais

    baixos que os dos concorrentes cubanos. A facilidade para se obterem terras, o baixo custo

    dos escravos e a inexistncia de taxaes altas na exportao eram os maiores responsveis

    pelo alto desempenho da produo. Com o caf se passava algo semelhante: em nenhum lugar

    do mundo se conseguiam fazer plantaes com a escala e a produtividade das brasileiras. A

    ficavam ainda mais evidentes as vantagens do Brasil: o acesso a escravos a bom preo

    afinal, eles eram produzidos com produtos e navios brasileiros e a infinidade de terras

    frteis e baratas ajudavam a fazer das plantaes fluminenses as mais eficientes do

    planeta.228

    Em 1822 o Brasil se separou politicamente de Portugal, mas precisava ser reconhecido

    como uma nao independente pelas demais. Essa foi uma das formas de a Inglaterra

    pressionar o imperador D. Pedro I a aceitar o fim do trabalho compulsrio dentro de seu pas.

    Conrad escreve que: Em 1823, sob presso da Gr Bretanha no sentido de acabar com o

    comrcio de escravos em troca do reconhecimento diplomtico, uma minoria liberal entre os

    membros da Assemblia Constituinte brasileira procurou iniciar um processo que conduzisse

    ao estabelecimento de um sistema de trabalho livre, com liberais preeminentes continuando

    sua oposio ao comrcio de escravos sempre que tiveram oportunidades para faz-los nos

    vinte e cinco anos seguintes.229

    A presso por parte do governo britnico seguiu, como podemos conferir no livro Os

    ltimos anos da escravatura no Brasil: Em 1826, a Gr Bretanha conseguiu obter mais um

    compromisso do governo do Rio de Janeiro depois de quatro anos de negociaes difceis em

    Londres e no Rio, aps a independncia brasileira. Este tratado, praticamente imposto ao novo

    governo brasileiro, tornou a participao brasileira no comrcio internacional de escravos

    227

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 163

    228 Id. Ibid p. 164

    229 Id. Ibid p. 28

  • 94

    inteiramente ilegal trs anos depois da ratificao do tratado, com tal trfico em escravos

    considerado e tratado de Pirataria.230

    No entanto, o Brasil apesar de se comprometer a terminar gradativamente com o

    trabalho compulsrio, na realidade, no se esforava de fato para cumprir com sua palavra.

    Conforme escreve o historiador norte-americano Robert Conrad: Apesar da ameaa de

    pesados castigos fsicos tanto para os importadores quanto para os compradores de escravos

    contrabandeados, o trfico continuou. Entre 1831 e 1837 e, de novo, em 1840 e 1848, os

    governos liberais brasileiros tomaram algumas medidas para fazer vigorar a proibio desse

    comrcio, mas a verdade que, durante mais de duas dcadas, depois de 1831, o trfico

    africano prosseguiu com liberdade quase completa e o conhecimento e aprovao da maioria

    dos regimes brasileiros.231

    Segundo a lei de 1831, todos os escravos que desembarcassem no Imprio depois

    dessa data seriam considerados livres. No entanto, o governo imperial desdenhou da regra,

    que acabou sendo a lei para ingls ver. Alguns tribunais chegaram at a libertar cativos

    tendo como prova a idade e a data de chegada dos mesmos, no entanto a maioria no chegava

    a se tornar livre. Muitas vezes no se aplicava a lei alegando-se o desuso, ou ainda porque o

    tribunal no estava satisfeito com as provas de idade e nacionalidade apresentadas.232

    A inrcia do governo brasileiro fez com que os britnicos passassem a tomar medidas

    drsticas para com os traficantes, conforme podemos analisar no trecho seguinte: Em 1849 e

    1850, contudo, o governo britnico tomou uma atitude drstica contra os traficantes de

    escravos nas guas territoriais brasileiras com o mais completo desrespeito pela soberania

    brasileira com a inteno de obter um compromisso do governo brasileiro no sentido de que

    este promulgasse lei eficaz contra o comrcio de escravos e fizesse com que ela fosse

    cumprida. Completamente humilhado pelas incurses britnicas nos portos do Imprio e a

    captura e destruio de navios negreiros brasileiros at mesmo em guas territoriais

    brasileiras, enfrentando ameaas navegao legal do Imprio, com conflitos militares e

    mesmo com o bloqueio dos portos brasileiros, o governo do Imprio foi obrigado em julho de

    1850, a ceder ante as exigncias britnicas em troca da promessa da suspender os ataques

    navais.233

    230

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 32

    231 Id. Ibid p. 32

    232 Id. Ibid pp. 55-56

    233 Id. Ibid pp. 33-34

  • 95

    A necessidade de expandir a produo haveria levado a Inglaterra a se posicionar

    contra o trfico de trabalhadores escravizados, forando o governo imperial a adotar medidas

    que, em 1850, acabariam com aquele comrcio. Primeiramente, a Lei Eusbio de Queirs

    impediu a chegada de africanos no Brasil. Posteriormente, os navios negreiros seriam tratados

    como piratas. Por fim, a presso interna tambm acabaria levando ao fim definitivo do

    cativeiro, em 1888. Em 1871, a assinatura da Lei do Ventre Livre objetivou sobretudo aliviar

    as presses abolicionistas, no resultando em libertao significativa dos cativos. A Lei dos

    Sexagenrios de 1885 provocou descontentamento geral ao movimento abolicionista com sua

    clusulas extremamente cruis. Sobre as leis escravistas e suas clusulas abusivas, faremos

    uma anlise em momento oportuno. E em 1888, no dia 13 de maio veio a Abolio.234

    Aps a assinatura da Lei Eusbio de Queirs em 1850, a escravido recebeu seu

    atestado de uma morte iminente. Sem receber trabalhadores da frica, os trabalhadores

    escravizados no Imprio teriam de se reproduzir naturalmente, pois os que aqui j estavam

    iriam envelhecer e morrer. Mas como fazer com que o nmero de nascimentos fosse maior

    que o de mortes? At 1850, o crescimento da populao cativa era assegurado pelo comrcio

    internacional, mas agora ele deixaria de existir. Sobre o crescimento vegetativo dos

    trabalhadores escravizados, Robert Conrad em Os ltimos anos da escravatura no Brasil,

    de 1978, escreve que: Uma variedade de condies e polticas contriburam para um excesso

    de mortes sobre os nascimentos entre os escravos do Brasil e sua conseqente incapacidade

    para manterem seus nmeros atravs da reproduo natural. Essas condies incluam uma

    proporo baixa de mulheres em relao aos homens, escassez de casamento e de vida

    familiar, a desateno habitual para com a prole dos escravos, o uso freqente de severo

    castigo fsico, trabalho esgotante, tanto para mulheres quanto para homens, roupas

    inadequadas, alimentao e habitao deficientes e pouco higinicas, juntamente com

    cuidados mdicos pouco eficientes, epidemias e (para africanos importados recentemente) um

    novo ambiente pouco saudvel.235

    No devemos confundir o fim do trfico, no entanto, com o fim do trabalho

    compulsrio. Jorge Caldeira em seu grandioso trabalho Mau: empresrio do Imprio, de

    1995, nos deixa claro como ficaria a situao da escravido depois da extino do trfico

    transatlntico. O fim do trfico no significou o fim da outra instituio fundamental, a

    234

    Cf. FAUSTO, Boris. Histria do Brasil. So Paulo: Edusp, 1998; CONRAD, Robert. Os ltimos anos da

    escravatura no Brasil: 1850-1888. 2a Ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1978.

    235 CONRAD, Robert. Os ltimo anos da escravatura [...] Op Cit p. 35

  • 96

    escravido mas condenou-a morte. Desde 1851, qualquer membro da elite brasileira tinha

    certeza de que o tempo dos escravos acabaria, mas tambm via com meridiana clareza outra

    realidade to forte como esta: no havia no horizonte nenhuma alternativa para o problema da

    mo-de-obra.236

    O Imprio estava vendo seus trabalhadores diminurem e agora, sem o trfico esse

    problema se tornaria crnico. Assim escreve Robert Conrad: A populao de escravos estava

    diminuindo e os escravos sobreviventes estavam se concentrando em regies limitadas da

    nao como areia numa ampulheta. Estes fatos, juntamente com a inaceitabilidade de uma

    escravatura permanente, reconhecida teoricamente at mesmo no Brasil, fomentou uma lenta

    rejeio do sistema escravocrata tradicional nos trina anos que se seguiram a 1850, enquanto

    muitas instituies complementares herdadas da era do domnio portugus, instituies essas

    menos vulnerveis crtica estrangeira, continuaram sobrevivendo quase completamente sem

    obstculos e sem mudanas.237

    O citado autor segue escrevendo a respeito da falta de mo-de-obra nas seguintes

    palavras: A preocupao constante do governo pelos produtores agrcolas era causada, em

    parte, pelos graves problemas que a agricultura enfrentava. Um dos mais srios era a escassez

    permanente de mo-de-obra. Esta escassez de trabalhadores foi uma caracterstica geral da

    sociedade brasileira enquanto a escravatura existiu, j que o trabalho escravo repelia o

    trabalho livre, tanto nacional quanto estrangeiro, criando exigncias quase constantes dos

    fazendeiros de auxlio por parte do governo na aquisio de novos e pouco dispendiosos

    trabalhadores.238

    A alta mortandade entre os escravos que impedia que a populao crescesse

    naturalmente era causada por vrios fatores, dos quais Robert Conrad destaca a falta de

    cuidado com a sade principalmente das crianas. Assim, podemos ler no trecho que segue:

    [...] no h qualquer prova de que a reproduo de escravos, sistemtica e eficiente fosse

    comum nas provncias exportadoras ou mesmo de que os senhores de escravos dessem,

    geralmente, cuidados especiais s crianas que lhes eram concedidas pela Providncia. O que

    aconteceu foi o uso espontneo de escravos disponveis, incluindo filhos no planejados.239

    236

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 295

    237 CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit pp. 40-41

    238 Id. Ibid p. 43

    239 Id. Ibid p. 45

  • 97

    Outra questo que o citado autor aborda na questo da reproduo natural dos

    trabalhadores escravizados a questo do casamento. Assim, Conrad coloca nos seguintes

    termos: Se, por um lado, os brasileiros senhores de escravos s raramente eram reprodutores

    conscientes de escravos, a verdade que as estatsticas sobre o casamento sugerem que,

    como uma questo prtica, eles antecipavam com freqncia as vendas de escravos

    adiantadamente. Num pas em que quase todos os casamentos eram religiosos e que os

    casamentos entre escravos eram teoricamente to sagrados quanto os das pessoas livres, os

    proprietrios prevendo vendas futuras, podero ter desencorajado as unies permanentes,

    particularmente depois de 1869, quando a separao de escravos casados, pela venda foi

    declarada ilegal.240

    A atitude do governo brasileiro frente ao problema da escravido apontado por

    Robert Conrad, explicando o motivo de este no aceitar facilmente as restries utilizao

    de trabalhadores escravizados. Assim, podemos ler no trecho que segue: [...] as atitudes dos

    governos brasileiros para com as pessoas escravizadas e escravizveis nem sempre foram

    favorveis liberdade durante os primeiros doze a quinze anos depois da supresso do trfico

    de escravos africanos. Pertencentes, como geralmente o eram, classe dos fazendeiros, os

    polticos e estadistas brasileiros eram pouco motivados para com a reforma ou a aplicao de

    leis que tinham por objetivo proteger a populao escrava ou assegurar a liberdade daqueles

    que eram escravizados ilegalmente. Alguns homens ocupando cargos eletivos durante esses

    anos falaram em defesa dos escravos ou chegaram mesmo a advogar a abolio, mas suas

    propostas foram sempre mal recebidas.241

    Mas o governo imperial iria ainda mais longe, recusando-se inclusive a reconhecer a

    lei de 1831 que declarava libertos os escravos importados depois da referida data. As atitudes

    governamentais iam cada vez mais contra os interesses de quem desejava o fim do trabalho

    compulsrio, como podemos aferir no trecho a seguir: Em 1852, o governo ops-se

    fortemente alterao do status dos africanos importados depois de 7 de novembro de 1831,

    embora sua situao de escravos fosse ilegal. No mesmo ano, o Conselho de Estado, o corpo

    assessor do Imperador, ops-se legislao para permitir que um escravo abusado exigisse

    sua venda a outro dono. [...] Da mesma forma, em 1855, o Conselho de Estado decidiu que

    um escravo no poderia compelir legalmente seu dono a libert-lo da escravido atravs de

    uma oferta de seu valor, j que a Constituio Imperial garantia o direito de propriedade e

    240

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 45

    241 Id. Ibid p. 60

  • 98

    nenhuma exceo fora feita no caso do escravo que oferecera seu valor em troca da

    liberdade.242

    O autor Robert Conrad ento nos explica o motivo dessas atitude dos governantes

    brasileiros no que diz respeito resistncia quanto s idias antiescravistas. No podemos

    imaginar simplesmente que se deve ao fato de serem eles maus ou porque gostavam de

    explorar pessoas ou ainda porque no gostavam de negros. Afinal, a escravido se devia

    menos ao fato da cor da pele, como ao status de sua me, pois havia cativos que no eram

    necessariamente negros. Assim, podemos ler que: O Brasil era um pas agrcola governado

    por uma classe de senhores de escravos cujos interesses no podiam, nesse tempo, ser

    promovidos por uma mudana da poltica vigente na questo da escravatura. A abolio do

    trfico africano foi seguida, por conseguinte, por mais de uma dcada de quase silncio sobre

    o problema dos escravos. O Brasil aprendeu a viver sem o trafico de escravos da frica, mas a

    escravatura, j h muito extinta na maioria dos pases latino-americanos, tendo terminado na

    Venezuela e na Colmbia, e prestes a causar um desastre sem paralelos nos Estados Unidos,

    ainda era uma poderosa instituio no Brasil. Poucas foram as pessoas que pensaram

    seriamente na sua abolio at que tais pensamentos lhes foram impostos por condies

    diferentes surgidas tanto no Brasil quanto no exterior.243

    A soluo encontrada para resolver o problema da falta de trabalhadores nas

    plantaes de caf foi o trfico interprovincial, onde as provncias com maior nmero de

    trabalhadores escravizados e menos demanda exportavam quelas com maior necessidade de

    braos. Com os seguintes termos, Conrado explica como se deu isso: Agravando ainda mais

    o problema do trabalho em algumas regies do Brasil e aliviando-o em outras, havia um fluxo

    de escravos para os pontos em que o produto do seu trabalho era mais valioso. [...] Os

    escravos eram obrigados a migrar e, por vezes, seus donos vendiam tudo o que tinham e

    partiam com seus trabalhadores para regies mais promissoras. Novas reas foram abertas e o

    cultivo de novos e ricos solos expandiram a produo, aumentando o compromisso com a

    escravatura. [...] A migrao forada dos escravos brasileiros, que se seguiu supresso do

    trfico africano, comeou nas plantaes, fazendas e cidades das regies do norte, do oeste e

    do extremo sul do pas e terminou com sua chegada s plantaes de caf no Rio de Janeiro,

    Minas Gerais e So Paulo.244

    242

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 61

    243 Id. Ibid p. 62

    244 Id. Ibid pp. 63-64

  • 99

    Um dos principais problemas que iriam surgir seria o aumento do preo dos cativos.

    Seu comrcio era regulado pela lei da oferta e da procura, e com o trfico interno, este

    problema se agravaria. A respeito do avano dos valores dos trabalhadores escravizados,

    Robert Conrad escreve que: Em maio de 1852, um relatrio do Ministrio da Justia usou a

    palavra fabuloso para descrever a alta nos preos dos escravos no Rio. O custo dos escravos

    dobrara em pouco tempo, de maneira que at mesmo os que tinham vcios e defeitos, antes

    indesejveis, encontraram compradores. No s os preos eram altos, mas o volume de

    escravos entrando no Rio de Janeiro, vindos das provncias do Norte e do extremo Sul,

    tambm aumentava rapidamente.245

    Mas esse trfico interprovincial de escravos trouxe em seu bojo um grave problema,

    alm da alta dos preos, que acabaria por levar ao fim da escravido em vrias provncias do

    norte e do nordeste, como ressalta o historiador Conrad: Os brasileiros com um interesse

    econmico em reduzir rapidamente o trfico interno de escravos consideraram os efeitos

    divisrios que o movimento de populao teria sobre os compromissos regionais para com a

    escravatura e advertiam das conseqncias de uma retirada contnua de trabalhadores cativos

    de regies menos prsperas. Na dcada de 1850, os plantadores de caf precisavam de

    escravos, contudo, e os perigos do trfico interno de escravos eram remotos. Uma vez

    iniciado, portanto, o trfico continuou quase sem restries. Ao longo de um perodo de trinta

    anos, combinou-se com os efeitos do envelhecimento e da morte para alterar a quantidade e a

    qualidade dos escravos, com mais destaque nas regies menos prsperas do pas

    especialmente nas provncias secas do norte, mas tambm nas provncias do oeste, Gois e

    Mato Grosso, e as antigas regies mineiras de Minas Gerais, as provncias do sul do Paran,

    Santa Catarina e Rio Grande do Sul e at mesmo as zonas costeiras menos produtivas do Rio

    de Janeiro e de So Paulo.246

    O problema criado pelo trfico interprovincial de escravos era grave. Muitas das

    provncias menos prsperas perderiam sua mo-de-obra para as chamadas provncias do caf.

    Com isso, tenderiam a se ressentir com o sistema, ou ver os trabalhadores escravizados

    perderem valor em suas propriedades. Desse modo, poderiam com o tempo, deixar de ter um

    compromisso com a escravido, e se no entrassem de vez na causa abolicionista, pelo menos

    no se esforariam tanto para manter o status. E seria exatamente isso o que ocorreria com o

    245

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 66

    246 Id. Ibid p. 67

  • 100

    Amazonas e com o Cear, segundo Robert Conrad, em Os ltimos anos da escravatura no

    Brasil.247

    Segundo o historiador norte-americano Robert Conrad, este perigo chegou a ser

    identificado, porm, os interesses dos plantadores de caf prevalecerem, conforme est escrito

    nas linhas a seguir: A ameaa ao sistema escravocrata inerente ao trfico interno de escravos

    foi reconhecida quase no mesmo momento em que esse comrcio comeou. Todavia, os

    interesses imediatos prevaleceram sobre os perigos problemticos. Os escravos eram

    necessrios indstria do caf e, portanto, as dbeis tentativas para deter o trfico em

    benefcio dos fazendeiros do norte no tiveram grande efeito.248

    Conrad destaca o incio do movimento abolicionista na dcada de 1860 com as

    seguintes palavras: Durante a dcada de 1860, desenvolveu-se um movimento

    emancipacionista significante no Brasil, culminando em 1871 com a aprovao de legislao

    que libertava os filhos recm-nascidos de escravas. Esta mudana da poltica de nada fazer

    dos anos da dcada de 1850 foi resultado do reconhecimento por muitos brasileiros, incluindo

    algumas das mais elevadas autoridades, de que a escravatura era uma instituio desacreditada

    no mundo ocidental e de que no poderia continuar existindo sem sofrer algumas restries

    importantes. A abolio, acreditava-se, era impossvel nas circunstncias brasileiras, mas seria

    igualmente impossvel manter o silncio sobre uma questo que preocupava grandemente o

    mundo fora do Imprio.249

    A escravido encontrava-se desacreditada internacionalmente. O Brasil era o nico

    pas independente americano a explorar pessoas. O citado autor escreve que: Em 1865,

    apenas a Espanha, com suas colnias de Cuba e Porto Rico, acompanhava o Brasil como uma

    importante nao escravocrata e o Brasil era o ltimo dos pases independentes das Amricas

    a carregar o estigma colonial da escravatura. Se quisesse conservar sua reputao,

    construda durante anos de paz e desenvolvimento sob a liderana de um soberano moderado,

    o Brasil teria de tomar medidas importantes para sua eliminao.250

    Sendo assim, o historiador norte-americano Robert Conrad escreve que o Imperador

    D. Pedro II estava em um dilema quanto ao trabalho compulsrio, conforme podemos aferir

    247

    Cf. CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. 2a

    Rio de Janeiro:

    Civilizao Brasileira, 1978.

    248 CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 83

    249 Id. Ibid p. 88

    250 Id. Ibid p. 89

  • 101

    no trecho que segue: O prprio Imperador, talvez depois de prolongada meditao sobre as

    dificuldades e os riscos envolvidos, tomou a deciso de agir contra a escravatura e Dom

    Pedro constituiu de longe a mais importante influncia singular na aprovao da lei da

    reforma da escravatura de 1871. Seu poder para responder opinio mundial, entretanto, no

    era ilimitado, pois a classe dos fazendeiros, que eram aqueles que mais se beneficiavam da

    escravatura, encontrava-se na base do sistema poltico brasileiro e s com o apoio dessa classe

    ou com o consentimento passivo de alguns de seus setores que qualquer reforma poderia ser

    adotada e realizada.251

    O historiador norte-americano Robert Conrad escreve a respeito de uma possvel

    disposio de D. Pedro II em terminar com a explorao dos trabalhadores escravizados no

    Imprio. Assim, podemos ler que: A disposio do imperador refletia-se, contudo, numa

    srie de decises executivas tendendo para reduzir o sistema da escravatura. Tendo decretado,

    em 1864, a libertao h muito devida dos emancipados, decidiu tambm, em junho do ano

    seguinte, acabar com o uso do chicote nos escravos condenados a trabalhos forados, como

    sendo uma violao do Artigo 179 da Constituio, que proibia o chicote e todos os castigos

    cruis e, no incio de 1866, o governo baniu o emprego de escravos em obras

    governamentais.252

    Uma das solues encontradas para a falta de mo-de-obra seria a entrada de

    imigrantes europeus para substituir os trabalhadores escravizados. No entanto, essa

    colonizao deveria ser feita sob o controle do Estado. Nesse clima, em 1850, foi editada a

    Lei de Terras, onde o visconde de Itabora a defenderia com as seguintes palavras: [...] 'para

    fazer com que a produo agrcola do pas tivesse co conveniente desenvolvimento era

    indispensvel evitar que as terras devolutas continuassem sendo ocupadas', como estava

    acontecendo, e que a lei, 'extremando o domnio pblico sobre o particular' era a melhor sada

    para uma colonizao feita ' custa do tesouro', a nica possvel. Para ele, o Brasil s

    precisaria de colonos se eles viessem para 'atender sorte dos estabelecimentos agrcolas que

    j existem', ou seja, as fazendas de escravos, nas quais 'se vierem a faltar braos, grande parte

    dos capitais ficaro perdidos, e os atuais lavradores arruinados'. [...] 'Se distribussemos

    gratuitamente as terras aos colonos, sucederia que todos os imigrantes, levados ao desejo

    ardente de se tornarem proprietrios, procurariam obter sua poro, negando-se a trabalhar

    251

    CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura [...] Op Cit p. 90

    252 Id. Ibid pp. 94-95

  • 102

    por conta dos proprietrios existentes, e esses proprietrios ver-se-iam destitudos de meios

    para manter seus estabelecimentos'.253

    Os trabalhadores escravizados foram ficando cada vez mais escassos e mais caros.

    Conrad assinala que as provncias menos desenvolvidas iam gradativamente perdendo seus

    trabalhadores escravizados, podendo mais facilmente aderir ao abolicionismo, como de fato

    aconteceu, em forma objetiva, no legal, em algumas do Norte e do Nordeste. A Lei Rio

    Branco de 1871, votada apenas aps o fim da Guerra no Paraguai, assentou um golpe aparente

    na escravatura. Ela colocou mais freio na reproduo natural de trabalhadores cativos,

    postergando ainda o fim da instituio por alguns anos. A lei determinava que os que filhos de

    cativas nascidos a partir daquela data seriam considerados livres, por isso se chamou Lei do

    Ventre Livre. Porm, facilitava que os proprietrios de suas mes pudessem explor-los, sem

    pagamento, como cativos de fato, por ainda 21 anos! O fato que os trabalhadores

    escravizados iam se tornando menos numerosos, mais caros e mais velhos.254

    Em suma, assinalamos que a escravido estava sendo colocada em xeque. A partir de

    1850, recebera seu atestado de bito, quando da assinatura da lei Eusbio de Queirs, pois

    encerrava a alimentao de trabalhadores escravizados. Tendo em vista que a mortalidade era

    muito alta, a reproduo da mo-de-obra cativa seria menor que a quantidade de pessoas que

    morriam. Sendo assim, seria inevitvel o envelhecimento dos trabalhadores escravizados

    existentes dentro da fronteira. E o trfico interno aumentaria seu preo, alm de causar um

    desequilbrio na quantidade de cativos existentes no Imprio, levando algumas provncias a

    no mais se importarem tanto com o fim desta instituio.

    Soma-se a isso a presso inglesa pelo fim do trfico internacional de trabalhadores

    escravizados, que se fazia presente desde a independncia do Imprio e s leis que vinham

    aprovando com o intuito de coibir essa forma de comrcio. A escravido se tornava uma

    instituio anacrnica, vergonhosa, desacreditada no mundo e que manchava a reputao do

    imperial em nvel internacional. Seria uma sada desviar a ateno ento, desse problema

    interno para intervenes no rio da Prata, que foram das investidas nos pases vizinhos e

    culminariam na Guerra do Paraguai.

    Foi esse Imprio brasileiro que entrou na Guerra do Paraguai. J amadurecido como

    Estado imperial, nas palavras de Mrio Maestri, centralizado e autoritrio e, conforme lemos

    253

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 309

    254 Cf. CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. 2

    Rio de Janeiro: Civilizao

    Brasileira, 1978; COSTA, Emlia Viotti da. Da senzala colnia. 3 Ed. So Paulo: Brasiliense, 1989.

  • 103

    nos demais autores, com suas caractersticas polticas e sociais asseguradas, mesmo que pela

    fora em muitos casos, com instituies e hierarquias definidas. Estado esse que j

    empreendia uma poltica fortemente imperialista, interferindo na conduo poltica de seus

    vizinhos com vistas a atender seus interesses que ingressou no maior confronto da Amrica do

    Sul. E sair vitorioso ao final da guerra em 1870, deixando no pas guarani um rastro de

    destruio, aniquilando com um pas vizinho, que nunca mais foi o mesmo.

    Tambm atpico foi o Estado guarani. Isolado por questes geogrficas e para manter

    sua independncia, o Paraguai no conheceu a anarquia poltica vivenciada por Argentina e

    Uruguai, tampouco foi alvo de constantes intervenes externas. Essas caractersticas

    peculiares lhe tornaram um Estado singular na Amrica do Sul. Sendo assim, os paraguaios

    tiveram uma forma diferente de desenvolvimento, um crescimento endgeno e menos

    dependente das importaes, destoando de seus vizinhos. Foi nesse cenrio que se destacam

    seus primeiros governantes Jos Gaspar Rodrigues de Francia, Carlos Antonio Lpez e

    Francisco Solano Lpez, como veremos.

  • 104

    PARAGUAI: A SINGULAR DITADURA POPULAR CAMPONESA

    Introduo

    No presente captulo,

    analisaremos o Paraguai, o pas que

    mais sofreu com o conflito,

    conhecendo forte destruio.

    Estudaremos sinteticamente a

    formao do pas guarani depois de

    sua independncia com o dr.

    Francia [1776-1840], que lhe

    proporcionou um desenvolvimento

    assaz singular, ainda pouco

    conhecido e estudado. O que era

    esse pas alvo das mais

    apaixonadas e polmicas

    discusses? Como Gaspar Francia

    e os seus sucessores Carlos Lpez

    [1790-1862] e Francisco Solano

    Lpez [1827-1870] governaram esta nao? O que h de verdade sobre o Paraguai nas

    afirmaes desmedidas positivas e negativas? Como era o paradoxal regime paraguaio, uma

    ditadura civil perptua determinada pela mais ampla e democrtica consulta populao,

    naquele e ento, durante muitos anos mais? E como estava a situao econmica e social do

    pas guarani? Interessa-nos saber, sobretudo, mesmo que de maneira sumria, como explica a

    singular trajetria dos combates militares de ento?

    Nas primeiras dcadas do sculo 19, Amrica Latina saa de um perodo de lutas pela

    independncia. De um modo geral, os novos Estados caracterizaram-se pelo surgimento de

    lderes, geralmente vinculadas ao meio militar, que conduziram esse processo em suas

    regies. Lderes que entraram para a histria com a denominao de caudilhos. Dentre eles,

    destacamos Simn Bolvar, San Martin, Miranda, Hidalgo, Bernardo O Higgins, Jos

    Artigas, Gaspar Francia. A regio latino-americana se apresentava como um mosaico de

    estados que, sob a liderana de caudilhos, no possuam uma unidade (com exceo do

    Paraguai, sob a liderana de Francia).

    Figura 11: Mapa do Paraguai. Pas de formao singular, seja

    por seu isolamento, seja por seu desenvolvimento endgeno.

    Sofre forte destruio com a guerra, tanto nos aspectos

    econmicos como sociais e demogrficos.

    Fonte: http://www.google.com.br

  • 105

    Segundo o historiador Ricardo Salles, em Guerra do Paraguai: escravido e

    cidadania na formao do exrcito, de 1990 apenas no Paraguai, a unidade nacional e a

    estabilidade poltica sob a liderana de Francia e, mais tarde sob o comando de Dom Carlos

    Lpez, haviam sido atingidas logo aps a independncia. Entre as lideranas caudilhas do

    restante das regies emergiu, a partir do final da dcada de 20, Juan Manuel Rosas. Tornando-

    se a figura exponencial das Provncias Unidas do Rio da Prata, basicamente ambicionava a

    recomposio do antigo Vice-Reinado do Prata sob seu controle. Nesse sentido, interferia

    constantemente na poltica uruguaia e no reconhecia a independncia paraguaia. Por outro

    lado, teve que assegurar a soberania das Provncias Unidas contra as intervenes militares

    inglesas e francesas, que objetivavam a obteno do maior nmero possvel de vantagens

    comerciais na regio.255

    Nos parece exagero afirmar que Rosas pretendesse recompor o

    antigo Vice-Reinado do Prata. Essa no seria sua poltica dominante, embora fosse uma

    orientao importante, ditada pela necessidade de impor a exclusividade do porto de Buenos

    Aires.

    O Paraguai da independncia ditadura do dr. Francia

    A seguir, analisaremos, sempre em forma

    sumria, o mais paradoxal dos pases envolvidos na

    Guerra do Paraguai, o pas guarani. Enclausurado em

    uma posio geogrfica que lhe permitiu um

    desenvolvimento peculiar, o pas conheceu um caminho

    diferente de seus vizinhos. Pretendemos ressaltar

    rapidamente neste trabalho, que o Paraguai e seus

    governos foram frutos de sua condio geogrfica,

    social e histrica. Destacaremos para a singular

    personalidade de seu primeiro governante, Jos Gaspar

    Rodrigues de Francia, que em grande parte, moldou o

    pas, ao interpretar as foras sociais sobre as quais se

    sustentou o francismo. Em seu livro Ensaios sobre a

    ditadura do Paraguai 1814-1840, de 1978, o

    historiador Raul de Andrada e Silva faz um paralelo

    entre a personalidade de Francia e o Estado por ele

    fundado.

    255

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit p. 45.

    Figura 12: Retrato de Jos Gaspar

    Rodrigues de Francia [1766-1840].

    Ditador paraguaio que ajudou a moldar

    as caractersticas do Paraguai

    apresentadas antes e durante o conflito.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 106

    Escrevia o autor: Singular carreira a do Ditador do Paraguai, Dr. Jos Gaspar

    Rodrigues de Francia! Lanado entre os prceres de vanguarda pela fora das circunstncias e

    pelo destaque da sua atuao, alado aos postos culminantes de chefia em plena crise da

    Independncia nacional, veio a assumir o governo, no mais absoluto dos sistemas de poder

    pessoal, e dele s pela morte foi separado, ao cabo de um quarto de sculo. [...] O governo do

    Dr. Francia perdurou at o dia da morte do Ditador, e ele ficou como o fundador por

    excelncia do Paraguai livre, imprimindo o cunho indelvel de sua personalidade nos

    acontecimentos e no devir do povo paraguaio.256

    Em O expansionismo brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana, de 1995, o historiador brasileiro Moniz Bandeira

    escreve que: Dentre os Estados que se desmembraram do Vice-Reino do Rio da Prata,

    apenas o Paraguai no passara pela experincia da guerra civil e no se imiscura nas

    contendas da regio, durante pelos menos, trinta anos da Ditadura de D. Jos Gaspar

    Rodriguez de Francia. Localizado na mesopotmia da Bacia do Prata, margem das correntes

    internacionais do comrcio, contraa-se, qual molusco dentro da concha, ao deparar-se com

    bices que Buenos Aires lhe anteps s exportaes de erva-mate, madeira e tabaco, a partir

    de 1810. No lhe restara como alternativa seno enclausurar-se e, na medida do possvel,

    tornar-se auto-suficiente, a fim de manter-se praticamente autnomo. Neste particular, a

    geografia favoreceu-se, por tambm dificultar acesso ao seu territrio. [...] O insulamento do

    Paraguai, menos desejado do que imposto pelas contingncias, condicionou a solidificao de

    um tipo de economia, em que o Estado representava o principal agente de produo e do

    comrcio, fomentando ou regulamentando, rigorosamente, todas as atividades. Esta economia,

    que no ultrapassara a fase pr-monetria, modelara-se nas runas remanescentes do sistema

    colonial e da Repblica Guarani.257

    Bandeira no explicita o forte confronto de classes, no momento da Independncia,

    que levou o Paraguai a essa situao. Na verdade, existiam na Assuno pr-independncia e

    logo depois dela, grupos distintos. Havia os que eram favorveis unio com a Espanha, os

    espanholistas; os que eram favorveis anexao Buenos Aires ou sua hegemonia, os

    portenhistas; e aqueles que eram favorveis independncia sem concesses. Entre os

    ltimos, destacavam-se os pequenos e mdios chacareiros e criadores, dos quais Francia se

    transformou em intrprete. O inslulamento foi na verdade uma maneira de manter a

    256 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 13

    257 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 118-119

  • 107

    autonomia paraguaia diante da oligarquia portenha recolonizadora, bem como isolar-se das

    lutas que varriam as regies do rio da Prata.258

    Raul de Andrada e Silva deduz, em boa parte, em forma algo simplista o insulamento

    do Paraguai e o futuro regime poltico da geografia e raa dos nativos da regio. [...] durante

    o colonialismo, a geografia propicia a insularidade do pas; a dura necessidade de combater

    pela preservao do seu territrio, em face dos ataques de ndios salteadores e do

    expansionismo luso-brasileiro; as peculiaridades do meio social, de formao tnica

    dominantemente amerndia e de estrutura extremamente simples, conformada com uma

    dinmica de ritmos acentuadamente morosos; a relativa marginalidade do Paraguai, em

    relao ao mundo exterior, e a imaturidade poltica do seu povo [sic], tudo isso resultou num

    concurso de circunstncias favorveis, por um lado, constituio progressiva de uma

    conscincia nacional e, por outro lado, ao advento da ditadura, aps o momento crtico da

    independncia.259

    Em seu livro La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia, de 1968 o

    historiador argentino Miliciades Pea escreve que o isolamento do Paraguai permitiu-lhe um

    desenvolvimento peculiar e ressalta as diferenas do pas guarani, referindo-se j ao perodo

    dos Lpez. Pero este aislamiento poltico y econmico oblig a la clase dominante del

    Paraguay integrada por medianos propietarios agrarios a levantar una economa defensiva,

    basado en el monopolio estatal de la propiedad del principal instrumento de produccin la

    tierra y de la comercializacin de los productos fundamentales de exportacin, lo cual le

    permiti, pese a su pobreza en relacin a Buenos Aires y pese los tributos que el puerto nico

    porteo le impona, capitalizarse aceleradamente. No exista en Paraguay ninguna clase tan

    rica como los estancieros o la burguesa comercial portea, pero s un Estado que por su

    podero econmico y centralizacin poltica poda competir victoriosamente con aquellas

    clases capitalistas, las ms poderosas y prsperas de Amrica del Sur.260

    No podemos nos

    esquecer que a classe dos grandes proprietrios crioulos teve sua ao restrita durante o

    governo do dr. Francia, sofrendo fortemente com a interrupo das trocas comerciais. Esses

    setores sofreram confiscos importantes, quando envolvidos em conspiraes anti-francistas,

    que aumentaram o patrimnio estatal, como veremos oportunamente. Ao contrrio, a

    258

    Cf. SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai 1814 1840. So Paulo: Coleo

    Museu Paulista, Srie Ensaios, 1978.

    259 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadora do Paraguai [...] Op Cit p. 33

    260 PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 50

  • 108

    interrupo das trocas mercantis e a ampliao da nacionalizao da terra favoreceram

    fortemente os pequenos e mdios camponeses, base social do francismo.

    Em Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai, Raul de Andrada e Silva descreve o

    Paraguai e pases vizinhos aps a independncia. As condies do momento no

    propiciavam qualquer atividade administrativa continuada e tranqila, incluindo as atenes

    da Junta, especialmente nas questes polticas, de rbita externa e interna, que absorviam

    quase todas as energias e o tempo consagrado pelos seus membros ao cumprimento dos

    encargos governativos. [...] Por um lado no havia cessado inteiramente a presena do

    espanholismo e dos simpatizantes do portenhismo. A Junta no contava s com adeptos e, sob

    a influncia do Dr. Francia, punia sem contemplaes os que eram ou se assemelhavam ser

    seus inimigos, alegando o dever de salvaguardar a autoridade do governo e a Independncia

    do Paraguai.261

    Aps Francia se retirar da junta governativa no Paraguai, esta no consegue se

    valorizar nem impor-se. A sua ausncia passa a ser cada vez mais sentida e a poltica Buenos

    Aires procura impor cada vez mais restries autonomia paraguaia. Soma-se a isso o clima

    de instabilidade scio-poltica interna, e temos as condies para um regime de poder pessoal,

    onde a autoridade imposta pela fora e pela ordem. Andrada e Silva segue mostrando que as

    caractersticas que propunha, somadas proposta estreiteza intelectual dos paraguaios, viso

    que retoma os preconceito dos colonizadores e espanholistas, dificultariam um governo liberal

    justificando, de certo modo, o regime ditatorial, nos fatos, de corte jacobino. Efetivamente, no

    poder, as classes proprietrias crioulas teriam possivelmente claudicado diante de Buenos

    Aires, comprometendo a independncia. 262

    O autor descreve as caractersticas pessoais de Francia que, para ele, moldariam o

    regime autocrtico paraguaio que, lembra, arrancava de razes social e polticas profundas.

    Francia tinha estofo [sic] para ditador. No lhe faltava a tenacidade e a energia, coragem e

    audcia ponderadas, frieza, s vezes at crueldade na ao poltica, desde que pesassem as

    razes de Estado. Tudo isso, sem excluir a impecvel honestidade e inflexvel retido de

    propsitos [...]. Era talhado para a misso que lhe coube, graas s peculiaridade de seu

    carter; aos atributos da sua individualidade, que se harmonizavam com as circunstncias do

    meio social e com o momento histrico. Mas, a ditadura que ele implantou no proveio da

    simples ambio ou propenso autoritria. Se, por um lado, o meio comportava tal soluo

    261

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 130

    262 Id. Ibid p. 133

  • 109

    poltica, por outro lado, os problemas fundamentais, derivados do movimento autonomista e

    da desagregao do Vice-Reino do Prata a conquista e a manuteno da independncia, a

    defesa da economia paraguaia, a preservao da ordem interna do pas, em face da anarquia

    que lavrava por fora e rondava as fronteiras tudo isso reclamava ao orientada, pronta e

    firme do governo.263

    Raul de Andrada e Silva justifica a ordem discricionria concedida ao ditador

    supremo, atravs do voto da populao como resposta s necessidades que se impunham no

    momento, entre elas, o assinalado, para ele, carter atrasado daquela nao: [...] o mais

    ilimitado poder pessoal. Isso no aconteceu, quer-nos parece, por simples dissimulao ou

    posterior infidelidade de Francia s suas idias, mas porque estas ainda no podiam vingar

    numa sociedade atrasada e incompatvel com a prtica das instituies representativas; e

    tambm porque a preservao da independncia e da ordem social exigiam ao pronta de um

    governo forte.264

    Em seu governo, Francia concentrou todos os poderes. Era o Executivo, o Legislativo

    e o Judicirio. O supremo ditador paraguaio poderia dizer sem estar mentindo O Estado sou

    eu. Realidade que no deve nos levar falsa apreciao de governo e Estado nascido e

    assentado em um s homem, ainda que este homem expressasse plenamente o governo e o

    Estado. Somando os poderes que lhe conferiam o exerccio do governo, a funo de legislar

    e a administrao da Justia em instncia suprema, o Ditador assentava sua absoluta

    autoridade na fora armada, que diretamente comandava e que se lhe tornou inteiramente fiel.

    No podia ser mais autocrtico o regime, que descambava facilmente para o despotismo,

    desde que Francia julgasse em perigo alguma das finalidades superiores do Estado ou que,

    num dos seus acessos de clera, decidisse punir um desafeto ou um traidor da ptria. Acabou

    pesando por vezes uma contnua atmosfera de temor que fazia a existncia atribulada. Mas, a

    Ditadura tambm ps sua fora a servio da independncia nacional e dos interesses gerais do

    povo. Sendo autocrata, soube ser benfezeja.265

    Com relao Igreja, Andrada e Silva escreve como foi o relacionamento do supremo

    Ditador com a instituio: Ao processo de absoro de poderes, que distinguia a Ditadura,

    no pde subtrair-se a Igreja. Atravs dos seus sacerdotes, especialmente os curas da

    263 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 143

    264 Id. Ibid p. 155

    265 Id. Ibid p. 175

  • 110

    campanha, a Igreja exercia sensvel influncia no nimo do povo crdulo e temente, e Francia

    desconfiava desse influxo que, segundo ele admitia, podia degenerar em desapreo ao

    governo, at porque entre os clrigos ainda havia espanhis[...]. At a sua adolescncia, o

    Ditador recebera uma formao religiosa, chegando a iniciar-se na carreira eclesistica que

    depois abandonou.266

    Segue o autor: Durante algum tempo agiu como crente e praticante, mas desde 1818

    deixou de assistir missa. E como Ditador, cada vez mais lhe parecia possvel que o clero

    pudesse fazer sombra ao poder leigo. [...] Todavia, no esposou uma poltica anti-religiosa.

    Tolerante com todas as crenas, condenava apenas o atesmo [...] reconhecida a liberdade de

    cultos, embora a Igreja catlica continuasse a ser estipendiada pelo Estado. Compreendia que

    a Igreja era uma das nicas foras morais efetivas, nas primrias e confusas repblicas

    daquele tempo. Por isso, no liquidou a Igreja no Paraguai, porm submeteu-a autoridade do

    Estado. [...] Confiscado o patrimnio dos Conventos, aproveitaram-se os edifcios mais

    importantes para os quartis e outras dependncias pblicas.267

    A to marcante resistncia do soldado guarani na Guerra do Paraguai, enfrentando

    exrcitos maiores e melhor equipados, tem parte de suas origens aclaradas por Andrada e

    Silva: O Paraguai colonial no conheceu tropas de linha, dispondo s de milcias, a cujo

    servio estavam obrigados todos os habitantes. Mas a coragem e a pugnacidade dos

    combatentes paraguaios forjaram-se na grande resistncia contra os ndios infiis e os

    invasores portugueses, como se viu. Homens aptos para a guerra, havia-os [...]. Restava

    organiz-los militarmente. E a essa tarefa dedicou-se Francia com o mximo empenho.268

    Ou

    seja, em parte podemos dizer que a resistncia dos soldados paraguaios se originou da defesa

    de sua terra e de sua nacionalidade, ainda nos tempos coloniais. Ou seja, em parte podemos

    dizer que a resistncia dos soldados paraguaios se originou de sua nacionalidade e, sobretudo,

    das terras que detinham, como pequenos proprietrios ou arrendatrio. Propriedade que teria

    sido ampliada fortemente durante o regime francista.

    Andrada e Silva, cita a importncia dada por Francia s Foras Armadas: A

    distribuio percentual das despesas de imediato revela o predomnio esmagador dos gastos

    com as foras militares, acima de 90%, compreendendo os soldos tropa e os fornecimentos

    266

    SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 179

    267 Id. Ibid p. 179

    268 Id. Ibid p. 183

  • 111

    mesma, pagamento aos trabalhadores dos quartis, arsenais e estaleiros, enfermagem e msica

    militar, missas e iluminao em quartis.269

    Todavia, no havia academia militar no Paraguai. Assim, segundo podemos ler no

    trecho do citado autor: Era precria a formao dos Oficiais, pois no havia escola militar.

    Iniciava-se como soldados e iam ascendendo aos postos da hierarquia, cujo maior grau era o

    de Capito. Os antigos chefes que haviam feito sua carreira como combatentes, os Cavaa,

    Yegros, Caballero, Iturbe, estavam retirados e no era fcil improvisar substitutos. O

    recrutamento selecionava os jovens mais fortes e bem apessoados de cada localidade,

    excluindo-se os oriundos de famlias distintas, no por privilgio, mas pela precauo de

    evitar possvel ao desagregadora.270

    Segundo parece, os soldados paraguaios sabiam, em

    grande maioria, ler.271

    Algo impensvel nas foras armadas da Argentina e do Imprio. A

    tradio de promoo dos soldados a sub-oficiais e a oficiais, por merecimento, registra

    igualmente um exrcito de carter claramente plebeu. Realidade tambm radicalmente diversa

    da conhecida nas foras armadas aristocrticas da Argentina e, sobretudo, do Imprio.

    Essa singular caracterstica tem razes no perodo colonial, com os jesutas, segundo

    escreve o historiador rio-grandense Mario Maestri: No fim da Colnia, o pas contava com

    escola primria e secundria na capital, alm de estabelecimentos elementares nas ex-misses,

    financiados pela administrao aps a expulso dos jesutas, em 1767. As ordens religiosas

    atuantes na provncia possuam tambm colgios. Quando da Independncia, a realidade

    educacional regional era limitada, mesmo em relao a outras provncias do vice-reinado,

    encontrando-se o mundo rural quase desprovido de escolas. Mundo rural que falava

    maciamente o guarani, como o faz at hoje, em boa medida.272

    Segue o autor escrevendo sobre a alfabetizao dos paraguaios durante o governo de

    Francia, o que explicaria o fato de os soldados paraguaios saberem ler: Apesar da escassez

    de fontes, sabemos que, em 1834, fora as escolas da capital e das ex-misses, existiriam no

    mnimo 140 escolas primrias rurais, com uns cinco mil alunos, para populao de pouco

    mais de duzentos mil habitantes. As escolas pblicas, descentralizadas, enfatizavam o

    aprendizado da leitura, escritura, religio, despreocupando-se com a aritmtica. O

    269

    SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 228

    270 CHAVES, Apud. SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 184

    271 MAESTRI, Mrio. No Paraguai do sculo 19 todos sabiam ler. O NACIONAL, Passo Fundo, tera-feira,

    13/04/2010. p. 3

    272 MAESTRI, Mrio. No Paraguai todos sabiam ler [...] Op Cit p. 3

  • 112

    financiamento pblico escolar interpretaria as necessidades do pequeno e mdio campesinato,

    base de sustentao do francismo. Em 1831, o salrio mensal do professores seria de um peso

    forte, elevado, em 1834, para seis.273

    Raul de Andrada e Silva sintetiza o regime empregado por Francia: A ditadura

    acarretou a supresso de qualquer atividade poltico-partidria e instaurou severa fiscalizao

    dos indivduos quanto emisso de opinies contrrias ao governo, punidas como delitos

    ordinrios. As proscries incidiam principalmente sobre os mais abastados, entre os quais

    estavam os maiores adversrios de Francia. A priso sem culpa formada, e o confisco de bens,

    eram as penas correntes. As punies atingiam inclusive os religiosos, mais raramente os

    militares, a no ser os que se rebelavam. [...] Ao longo dos dois decnios do regime ditatorial,

    a maioria pde viver na segurana da ordem interna, sem riqueza, nem privaes, porm sob

    uma atmosfera de respeito e temor criatura enigmtica, que a dominava e dirigia.274

    Quando pensamos na vida do sculo 19 na Amrica do Sul, logo aps as

    independncias, temos de relativizar a informao sem riqueza. De um lado, viver sem

    privaes era raro nas ex-colnias vizinhas ao Paraguai da poca, como na Argentina ou no

    Imprio. Ento, podemos dizer que era uma riqueza para a populao plebia no ser privado

    do essencial. O que poderia se dizer que no havia classe abastada, como os importadores

    portenhos, os estancieiros das provncias argentinas ou os escravistas imperiais. Em boa parte,

    os grandes proprietrios crioulos paraguaios fugiram para Buenos Aires, foram presos,

    confiscados e, em alguns casos, executados, quando de conspiraes. Sobretudo, foram

    golpeados por quase trinta anos de retrao das atividades mercantis. Eles levantaram a

    cabea e construir uma nova hegemonia a partir de 1840, quando do governo dos dois Lpez.

    Em Conflito com o Paraguai, de 1996, o historiador Francisco Doratioto ressalta

    sobre Francia: Quanto ao Paraguai, desde a dcada de 1810 e at o ano de 1840, foi

    governado por Jos Gaspar Francia, que isolou o pas como forma de manter sua

    independncia ante as ambies expansionistas de Buenos Aires. Esta, por sua posio

    estratgica, controlava a navegao do rio da Prata e podia, portanto, criar obstculos s

    passagens que se originassem ou se dirigissem ao Paraguai, dificultando o acesso deste pas s

    rotas do comrcio internacional.275

    273

    MAESTRI, Mario. No Paraguai todos sabiam ler [...] Op Cit p. 3

    274 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit pp. 187-188

    275 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. O conflito [...] Op Cit p. 12

  • 113

    Bandeira relata aspectos do governo de Gaspar Francia: Os confiscos de

    propriedades, mediante os quais Francia quebrantou a classe dominante tradicional, sobretudo

    o segmento espanhol, e atacou a Igreja, robustecendo enormemente, o poder econmico do

    Estado paraguaio. Seu patrimnio territorial, em 1840, abarcava 100% da regio do Chaco,

    desde o Rio Bermejo at o Jaru, e 98,4% da superfcie oriental do pas [...]. Estas terras,

    cobertas de extensos bosques, ervatais e pastagens, o Estado arrendava aos camponeses ou

    explorava diferentemente, com o emprego de escravos e o trabalho diretamente, com o

    emprego de escravos e o trabalho forado de detentos, organizando, assim, mais de 175

    Estncias de La Patria, que forneciam carne e couro para o consumo do Exrcito e da

    populao. A renda fundiria fundia-se com os Impostos, pagos em espcie, uma vez que o

    Estado era o proprietrio do solo e se relacionava diretamente com os agricultores,

    subordinando todos ao seu mais estrito domnio, sob os aspectos econmicos e poltico.276

    A respeito dos confiscos, Raul de Andrada e Silva, em Ensaios sobre a Ditadura do

    Paraguai 1814-1840, escreve: Os confiscos que s podiam recair sobre terratenientes e que

    com mais freqncia atingiram os adversrios polticos de Francia, no significavam

    transferncia da propriedade aos camponeses. Ao contrrio, destinavam-se formao e

    ampliao do patrimnio estatal, antes de mais nada. [...] Em suma, a no ser o aumento das

    vastas reas pertencentes ao Estado, terras de cultivo e estncias La Ptria, a Ditadura no

    alterou sensivelmente o quadro da propriedade territorial do Paraguai.277

    Aquele autor acrescenta: Os confiscos de propriedades, que vitimaram

    principalmente os conspiradores de 1820, os espanhis e os adversrios de Francia,

    igualmente avolumaram o patrimnio estatal e carrearam apreciveis somas para o errio.

    Tambm as multas vieram acrescer os caudais do tesouro pblico, sendo que a metade das

    mesmas cabia autoridade que as aplicasse, mas revertiam totalmente ao Estado, se infligidas

    pelo Ditador. E o produto da venda, da exportao e da locao dos bens nacionais

    completava o conjunto das rendas pblicas.278

    Como j proposto, grande parte das terras

    confiscadas ou incorporada ao patrimnio do Estado eram entregues, sob forma de

    arrendamento, a baixo custo, para camponeses sem terra, ensejando, como prope Bandeira,

    que a renda da terra, ou seja, o custo do arrendo, se transformasse em um imposto, o que

    beneficiava aos arrendatrios, ao Estado e ao pas. A luta contra os proprietrios espanhis

    276

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 119-120

    277 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit pp. 199-200

    278 Id. Ibid p. 226

  • 114

    espanholizados, argentinizados e a Igreja, pela manuteno da independncia paraguaia,

    resultava portanto em importante democratizao do uso da terra, em boa parte,

    nacionalizada. Realidade historicamente em avano em relao prpria privatizao

    parcelaria da terra. A restrio da exportao de produtos e o afastamento dos proprietrios

    crioulos do poder restringiam fortemente a presso sobre as terras dos pequenos proprietrios

    e arrendatrios e das aldeias de ndios.279

    Em Maldita Guerra, de 2002 Doratioto escreve que: At o incio da dcada de 1840,

    inexistiram contatos oficiais do Paraguai com seus vizinhos. Francia isolou seu pas como a

    melhor forma de manter a independncia em relao a Buenos Aires e sua prpria ditadura,

    na qual as instrues pblicas eram um apndice de sua vontade e idiossincrasias pessoais.

    Durante a ditadura francista, o diminuto comrcio do Paraguai com o exterior, sob controle

    estatal com a provncia argentina de Corrientes, por meio do porto da Villa Del Pillar, e com o

    Brasil, pela Villa de Itapa. Francia eliminou qualquer oposio por parte de setores da elite a

    seu projeto isolacionista. Os espanhis no Paraguai, os peninsulares, e parte da elite local, os

    crioullos, ambos simpticos a Buenos Aires devido a interesses econmicos, foram

    neutralizados aps a descoberta, em 1820, de uma conspirao para assassinar Francia, que

    aplicou a justia sumria contra os participantes do movimento. O alto preo pago pelos

    conspiradores, em termos pessoais e com o confisco de seus bens, desencorajou novas

    conspiraes. [...] O isolamento do Paraguai, afastado das lutas platinas, implicou o

    estabelecimento de um tipo de economia no qual o Estado se tornou regulador de todas as

    atividades e detentor do monoplio do comrcio da erva-mate, da madeira e do tabaco, os

    produtos mais significativos da economia nacional. Ao confiscar terras da elite tradicional, o

    poder econmico do Estado paraguaio fortaleceu-se.280

    Doratioto ainda destaca que houve a

    secularizao dos bens da Igreja, com seus bens e seus escravos sendo transferidos para o

    Estado.281

    Todavia, esse isolamento do Paraguai, durante o governo de Francia, sobretudo em

    defesa do intervencionismo bonaerense, trouxe o benefcio de afast-lo das lutas platinas e de

    permitir o surgimento de uma economia tendencialmente auto-suficiente, trouxe um

    problema, que segundo Bandeira, seria solucionado apenas com a sada do isolamento: as

    279 Cf. SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai 1814 1840. So Paulo: Coleo

    Museu Paulista, Srie Ensaios, 1978.

    280 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 25

    281 Id. Ibid p. 25

  • 115

    exportaes. O excedente acumulado durante o governo do dr. Francia precisava agora de

    uma sada para o exterior. Dessa forma, os futuros governos paraguaios foram compelidos a

    conquistar uma sada para o mar, bem como a reconquistar os mercados da erva-mate e do

    tabaco, primordialmente na bacia do Prata.282

    Raul de Andrada e Silva refere-se ao ensino sob Francia: A Ditadura proporcionou ao

    povo o estudo de primeiras letras, zelando pela continuidade da escola que havia em

    Assuno. [...] Em 1828, decretava-se a obrigatoriedade da instruo primria oferecida pelo

    Estado. O que no excluiu a atividade de alguns professores particulares, que ganhavam a

    vida lecionando. O Ditador estimulou tambm o estudo da msica, sobretudo militar. [...] J o

    ensino superior foi relegado ao mais completo olvido [...]. A introduo de livros no foi

    vedada, mas estava sujeita censura ditatorial, sendo proibida a entrada de peridicos, salvo

    os destinados ao Dr. Francia [...].283

    Destaque-se que a obrigatoriedade do ensino primrio,

    para o estudantado do sexo masculino, fortemente impulsionado durante o governo francista,

    sem que se tenha jamais alcanado a alfabetizao plena, como comumente proposto,

    realizou-se mais tarde, apenas quando do advento de Carlos Antonio Lpez. 284

    Sob Francia, o Estado teve importante papel de produtor e interventor. Com efeito, a

    Ditadura converteu-se no somente num Estado proprietrio, dono de vasto patrimnio, mas

    em gestor dos empreendimentos estatais, e por outro lado, agiu como rgo da solidariedade

    moral entre os indivduos e promotor do bem-estar geral do povo. A esto duas coincidncias

    bem claras entre a estatizao de Francia e as idias do Socialismo de Estado.285

    Ainda no campo das finanas, o citado autor coloca que: A ordem das finanas

    pblicas, cuja estrutura vinha do passado, quase no experimentou mudanas intrnsecas,

    durante o extenso governo de Francia. Condizia com a economia rudimentar estagnada [sic]

    que a rigor tambm no se transformara a ponto de forar uma sensvel alterao dos sistema

    financeiro. Economia e finanas ditatoriais, entretanto, bastaram para a exeqibilidade do

    sistema econmico que assegurou o abastecimento interno do Paraguai e agiu a favor da

    282

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 121

    283 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit pp. 201-202

    284 Cf. MAESTRI, Mrio. No Paraguai do sculo 19 todos sabiam ler. O NACIONAL, Passo Fundo, tera-

    feira, 13/04/2010. p. 4.

    285 Id. Ibid pp. 208-209

  • 116

    Independncia nacional.286

    No entanto, essa economia teria de acabar por mudar, caso o

    governo paraguaio quisesse que o pas seguisse seu desenvolvimento.

    A respeito dos ltimos anos do governo ditatorial de Gaspar Francia, Raul de Andrada

    e Silva escreve que: Nos ltimos anos da Ditadura, Francia atingira o mais alto poder. Sua

    vontade era lei soberana em todo o Paraguai, onde o veneravam como um homem sem

    paralelo, mais temido, talvez que respeitado. Ficou a lembrana de que os camponeses no

    proferiam o nome do Supremo, sem erguer-se de descobrir-se.287

    Em suma foi possvel fazer uma caracterizao do Paraguai, desde a sua

    independncia at o fim do governo do dr. Francia. Neste tempo, foram forjadas as

    caractersticas que perdurariam pelos prximos dois governos e que explicam parte das

    caractersticas da Guerra do Paraguai. Por exemplo, nos do a noo do motivo de o Paraguai

    ter se mantido isolado. Temos de entender que no foi esse um propsito deliberado de seu

    governante, mas um insulamento imposto pelas sobretudo histricas, ou seja, sobretudo a luta

    pela Independncia, diante do neocolonial ismo das classes mercantis de Buenos Aires. O

    isolamento se fez necessrio para a manuteno da independncia paraguaia com relao a

    Buenos Aires, bem como para manter a estabilidade interna em face anarquia poltica que

    rondava o Estado Guarani.

    O Paraguai sob o governo da famlia Lpez

    Andrada e Silva escreve sobre a sucesso do Supremo

    Ditador: E a sucesso de Francia, aps o breve perodo do 2o

    Consulado, recaiu na pessoa de Carlos Antonio Lpez, cujo

    governo, em termos de poder pessoal, seria um prolongamento

    do regime antecedente, sob o disfarce de uma Lei constitucional,

    que mal o encobria. 288

    Em Maldita Guerra, de 2002,

    Francisco Doratioto prope: O ano de 1840 assistiu, porm, a

    mudanas internas tanto no Brasil como no Paraguai, que lhe

    permitiram voltar a participar das questes platinas. No Paraguai

    morreu Jos Gaspar Francia e, no Imprio do Brasil, a

    maioridade antecipada de Pedro II e o pacto intra-elites de um

    286

    SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 232

    287 CARDOSO Apud SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 232

    288 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 233

    Figura 13: Retrato de Carlos

    Antonio Lpez [1790-1862].

    Responsvel pela

    modernizao do pas.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 117

    Estado monrquico centralizado e escravocrata puseram fim ao conturbado perodo regencial

    (1831-40), durante o qual no se pudera criar uma poltica para o Prata.289

    A retomada do

    expansionismo imperial tenha se dado sobretudo aps o ano de 1845, quando a Revoluo

    Farroupilha foi debelada e acelerada depois do fim do trfico transatlntico de trabalhadores

    escravizados em 1850.

    O historiador argentino Jos Maria Rosa prope sobre o novo mandatrio paraguaio:

    [] abogado y profesor de filosofa en el Seminario, hasta que los acontecimientos lo

    llevaron al silln del Supremo. Haba sido hombre de paz y sin embargo amaba las cosas de la

    guerra: los ejrcitos, los armamentos, las fortificaciones, los navos blindados. Form el mejor

    ejrcito de Amrica del Sud con 18.000 hombres sobre las armas y una reserva de 40.000;

    impuls la fundicin de Ibicuy, dirigida por el ingls Witehead contratado en 1855, que

    fabricaba caones y armas largas; la joven oficialidad segua en Europa cursos de

    adiestramiento especializados. Haba elegido para sus hijos la carrera de las armas: Francisco

    Solano era brigadier general, Venancio velaba por el orden desde el comando de la Plaza y

    Angel Benino estudiaba en la Academia Naval de Rio de Janeiro.290

    Em Solano Lpez, o Napoleo do Prata, de 1970, os escritores italianos Cancogni e

    Boris escrevem as semelhanas e as diferenas entre os governos de Francia e Carlos Antonio

    Lpez: Lpez, como Francia, no acreditava que o poder pudesse ser questionado, pois era

    inimigo de idias liberais [...]. Ao contrrio do Supremo, escondia sua ambio de poder sob

    uma aparncia de bondade e tolerncia e no temia ver-se rodeado de colaboradores, em quem

    confiava sempre parte das responsabilidades governamentais. Formou um gabinete com

    ministros investidos de poderes efetivos e no teve receio de recorrer tcnica e cincia

    estrangeiras, visando modernizao do pas. Engenheiros, mdicos, cirurgies, professores

    notadamente ingleses foram acolhidos em Assuno. Aps trinta anos de isolamento e de

    silncio, o Paraguai teve tambm um jornal se bem que redigido de ponta a ponta pelo

    prprio Lpez. Chamava-se El Paraguaio Idependiente e informava ao pas dos atos

    realizados pelo governo.291

    Propem os autores que para obter o reconhecimento, o novo governante paraguaio

    teve de adotar novas atitudes com relao s demais naes: Em troca do reconhecimento do

    Paraguai, Carlos Antonio estava disposto a entrar no jogo poltico das alianas, mas, por outro

    289

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [] Op Cit p. 25

    290 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 15

    291 CANGOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 30

  • 118

    lado, temia ser derrubado. Em 1845, decidiu fazer frente nica com os adversrios de Rosas

    o Uruguai e as provncias de Corrientes e Entre Rios; mas devido ineficincia dos aliados,

    ao cabo de um tempo, voltou atrs na deciso. E foi nessa ocasio que o filho, Francisco

    Solano, fez sua primeira apario no cenrio poltico, como colaborador do pai. Aos dezenove

    anos assumiu, como coronel o comando do exrcito que fora enviado em auxlio dos aliados

    de Corrientes e preparava-se com entusiasmo para entrar em combate. [...] Atravessara o rio

    Paran na esperana de revolver as glrias de Paraguay e Tacuary mas regressava ptria

    promovido a general e sem ter combatido.292

    Manilio Cancogni e Ivan Boris seguem escrevendo: As potncias europias e at os

    Estados Unidos acabaram por reconhecer o Paraguai e enviaram seus representantes a

    Assuno. Estipularam-se tratados. Os rios da Prata, Paraguai e Paran foram abertos

    navegao internacional. Tudo isso significava progresso, mas perigo tambm. Os

    estrangeiros que mantinham relaes com o presidente no sabiam at que ponto Carlos

    Antonio estava convencido de sua prpria poltica. Desconfiavam dele e ele, por sua vez,

    nunca confiara inteiramente neles.293

    Os mesmo autores ressaltam que o Paraguai conseguia

    um satisfatrio desenvolvimento interno, preocupando no entanto, a situao de seus vizinhos,

    que neste perodo passavam por uma anarquia poltica. Destacamos agora, a situao

    argentina j citada como a que mais preocupava Lpez. No interior, o pas s desenvolvia

    satisfatoriamente. Navios eram lanados ao mar, uma ferrovia (a segunda em toda a Amrica

    do Sul) estava sendo construda em Assuno e Villarica, assim como uma rede telegrfica,

    um arsenal e uma fundio. Porm, a posio internacional do Paraguai continuava precria e

    o pas corria o risco de ser envolvido na situao de guerra civil que ainda persistia na regio

    do Prata mesmo aps a derrota de Rosas.294

    Seguem os autores: Dois novos contendores se encontravam agora frente a frente: o

    velho general Urquiza, em quem as provncias do interior viam seu chefe, e o general

    Bartolomeu Mitre, chefe dos portenhos liberais, amigo dos europeus e grande figura da

    maonaria sul-americana. Urquiza era sempre o mesmo: por trs da luta entre liberais e

    conservadores emergia a rivalidade, nunca extinta em Buenos Aires, com seus burgueses

    evoludos e ambiciosos, e as provncias do interior, com sua populao rural, indolente [sic],

    conservadora. De acordo com os interesses imediatos de seu pas, Carlos Antonio deveria ter

    292

    CANGOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 31

    293 Id. Ibid p. 32

    294 SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 35

  • 119

    aceito uma aliana que Urquiza lhe oferecia, preferiu esperar uma definio da luta entre

    Urquiza e Mitre.295

    Quanto referncia que Mitre era amigo dos europeus, leia-se dos

    comrcios britnico e francs. E devemos atentar ao fato que ao qualificar a oligarquia de

    Buenos Aires como evoluda e ambiciosa e a populao das provncias do interior como

    indolente e conservadora, os autores Cancogni e Boris realizam juzo de valor. No devemos

    esquecer que em Buenos Aires predominava uma oligarquia liberal importadora, e, portanto,

    improdutiva, e que nas provncias, a principal classe era a dos estancieiros e criadores de

    gado, seguida pelos artfices, pequenos comerciantes, gachos, etc..

    E que, como est ressaltado no captulo da Argentina, apesar das rivalidades, e de sua

    aparente base mais popular, no tinha um projeto to diferenciado da burguesia portenha,

    tanto esses estancieiros aceitaram ser um scio menor depois da batalha de Pavn.296

    Em 1861, Mitre venceu Urquiza na batalha de Pavn, marcando o fim da

    Confederao Argentina e a vitria dos Unitrios. No Paraguai esse fato causou receio. O

    triunfo de Mitre um mau pressgio para o Paraguai reavivou nos exilados paraguaios em

    Buenos Aires a esperana de um retorno ptria sob um novo regime. Alguns jornais

    portenhos como El rgano, que era porta-voz dos exilados, no cessava de atacar a ditadura e

    a famlia Lpez, pai e filho [...]. Atacavam particularmente os filhos do presidente, cuja vida

    faustosa descreviam em pormenores, contrastando-a com modstia, se no a pobreza do resto

    da populao. [...] convidavam os paraguaios a rebelar-se para no cair nas mos de um novo

    Francia, dando a entender que at o prprio governo argentino, apesar de ter reconhecido

    oficialmente a independncia do Paraguai, no ficara margem de certa interveno na sua

    poltica interna.297

    Outra caracterstica exaltada por muitos historiadores o desenvolvimento interno do

    pas guarani s vsperas da guerra iniciado no governo de Carlos Antonio Lpez, que trouxera

    tcnicos estrangeiros para modernizarem seu pas. Entre o numeroso pessoal de gabarito que

    trabalhava por conta do governo havia dois tcnicos altamente qualificados. Um dele era o

    engenheiro-chefe ingls John William Whitehead, homem de grande capacidade, mesmo no

    setor administrativo, diretor do arsenal de Assuno, e morreu no primeiro ano da guerra. O

    outro era o coronel George Thompson, especialista em artilharia. E foi com o impulso dado

    295

    SILVA, Raul de Andrada. Ensaios sobre a Ditadura do Paraguai [...] Op Cit p. 35

    296 Cf. PEA, Miliciades. La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia. 3

    a ed. Buenos Aires:

    Ediciones Fichas, 1968.

    297 CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit p. 36

  • 120

    por esses tcnicos que o Paraguai, durante os ltimos anos da presidncia de Carlos Antonio,

    ultrapassou todos os demais pases da Amrica Latina (inclusive a Argentina) no tocante a

    ferrovias, telgrafos, estaleiros e arsenais [sic].298

    Nos parece um exagero escrever que o

    Paraguai ultrapassara o Brasil, por exemplo, no que diz respeito s ferrovias, que eram bem

    mais desenvolvidas. O singular no Paraguai era um desenvolvimento com recursos prprios,

    endgenos, como j proposto.

    Em Conflito com o Paraguai, de 1996, Doratioto faz uma rpida anlise sobre a

    atuao de Carlos Antonio Lpez. Sob Francia, o Paraguai, isolado, desenvolveu a

    agropecuria, destacando-se o cultivo de tabaco, a criao de gado e a explorao de erva-

    mate. O reconhecimento argentino da independncia paraguaia, na dcada de 1850, ps fim s

    dificuldades de navegao para o pas guarani e Carlos Lpez pde, gradualmente, retir-lo de

    seu isolamento. Foi ento promovida a exportao de produtos primrios, para que a

    economia paraguaia obtivesse recursos monetrios para importar manufaturados.299

    Os historiadores italianos ento descrevem como se encontrava o governo paraguaio

    sob a batuta de Carlos Antonio Lpez assim: Carlos Antonio conseguira transformar o pas

    graas s imensas riquezas acumuladas por Francia nos cofres pblicos durante os vinte e

    cinco anos de seu mandato. Aquele dinheiro, fruto do confisco dos bens de grandes

    proprietrios e da Igreja [sic], permitiram-lhe adquirir mquinas, patentes e plantas

    industriais, assim como pagar bons salrios ao pessoal contratado.300

    O historiador paraguaio OLeary, em seu livro El mariscal Lpez, de 1921, Carlos

    Antonio Lpez foi o reconstrutor da ptria, negando a obra anterior de Francia. Carlos

    Antonio Lpez haba reconstruido el Paraguay, que dej en ruinas el dictador Francia,

    improvisando riquezas, fuerza, civilizacin con su maravilloso genio creador. En diez aos,

    solo en diez aos, haba hecho lo que no hicieron en siglos los espaoles, lo que no hizo jams

    ningn pastor de pueblos. De la nada, del caos, de la desolacin y de la miseria hizo surgir

    una poderosa nacionalidad que, de un salto, se puso a la cabeza de todos los pases vecinos de

    habla castellana, imponiendo su negada soberana y levantando bien sus prestigios de la

    laboriosidad, de cultura y sensatez.301

    298

    CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit p. 39

    299 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Conflito [] Op Cit p. 13

    300 CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit p. 40

    301 OLEARY, Juan E. El Mariscal Solano Lpez. Asuncin: Casa America - Moreno HNOS, 1921 pp. 23-24

  • 121

    Foi durante seu governo que seu filho Francisco Solano Lpez fez uma viagem

    Europa. Segundo OLeary: Y as, despus de haber hecho un lcido papel diplomtico;

    despus de haber estudiado detenidamente todo lo que poda interesar a su patria; despus de

    haber hecho magnficas adquisiciones, asegurando el concurso de hombres e instituciones de

    trascendental importancia, regres, a bordo del hermoso y veloz vapor Tacuar, adquirido por

    el en Inglaterra. [] Venan con l, a ms del personal de la Legacin, numerosos tcnicos

    contratados en Inglaterra y Francia, entre ellos, los ingenieros Whitehead y Richardson, que

    tan valiosos servicios haban de prestar al Paraguay.302

    Em Maldita Guerra, Francisco Doratioto

    relata: Para os Estados Platinos, o ano de 1862 foi

    um marco, quer para as respectivas polticas internas,

    quer para as relaes entre eles. No Paraguai,

    Francisco Solano Lpez ascendeu ao poder; na

    Argentina, houve a reunificao nacional sob a

    liderana de Buenos Aires e, no Brasil, o Partido

    Liberal substituiu o Conservador no governo. Nesse

    ano, tambm teve fim a moratria para a definio

    dos limites, estabelecida pelo Paraguai com o

    Imprio e a Confederao Argentina na dcada

    anterior. As relaes do novo governo paraguaio

    deterioraram, a partir de 1864 de forma acelerada,

    tanto com o Imprio como com a Repblica

    Argentina, levando o Paraguai guerra contra esses

    dois pases que, juntamente com o Uruguai, constituram a Trplice Aliana para enfrentar

    Solano Lpez.303

    Devemos fazer, no entanto, algumas ressalvas. Ao lermos este trecho escrito por

    Doratioto, temos de ter em mente mais uma vez que no se tratava da Repblica Argentina

    como um todo, pois o pas estava fortemente dividido. Inclusive, Solano Lpez havia recebido

    de Urquiza a garantia que este exigiria de Mitre uma autorizao para que o exrcito

    paraguaio pudesse cruzar seu territrio por terra, se necessrio. Como o pronunciamento do

    302

    OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit pp. 42-43

    303 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [] Op Cit pp 39-40

    Figura 14: Retrato de Francisco Solano

    Lpez [1827-1870]. Presidente do Paraguai

    de 1862 a 1870, sucedendo seu pai. Declarou

    guerra ao Imprio e Argentina, sendo

    morto no final da Guerra do Paraguai na

    Batalha de Cerro Cor.

    Fonte: Http://www.google.com.br

  • 122

    governador de Entre Rios tardaria demasiadamente, Lpez mandou um comunicado avisando

    que avanaria por Corrientes. Os paraguaios sequer teriam sido tratados como invasores pelos

    correntinos, mas Mitre usaria essa invaso para justificar uma declarao de guerra contra os

    paraguaios e a unio com o Imprio, atitude fortemente impopular.304

    Em O expansionismo brasileiro e a Formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana, de 1995, Moniz Bandeira refere-se ascenso de

    Solano Lpez ao poder: Em 16 de outubro de 1862, o General Francisco Solano Lpez

    ascendeu legalmente presidncia da Repblica e a militarizao do pas, iniciada com

    moderao nos tempos de D. Carlos Antonio, tornou-se, sub eo, sua preocupao

    predileta.305

    Em Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai, de 2002, Francisco

    Doratioto escreve como teria sido a posse de Francisco Solano Lpez ao cargo mximo:

    Solano Lpez assumiu, em carter provisrio, a chefia do Estado paraguaio e, em 16 de

    outubro, foi instalada a sesso do Congresso paraguaio, que no se reunia desde 1856, para

    eleger o novo presidente. [...] Na verdade, o Congresso fora convocado para ratificar a

    permanncia de Solano Lpez no poder e no para aprimorar a organizao poltica do pas.

    [...] Os congressistas dissidentes, que ousaram questionar a apresentao da candidatura de

    Solano Lpez, foram presos.306

    Em Solano Lpez o Napoleo do Prata, de 1970, Manilio Cancogni e Ivan Boris

    escrevem que na verdade foi apenas um deputado que se ops nomeao de Francisco

    Solano Lpez. Assim, podemos conferir como foi feita essa oposio e qual foi realmente sua

    conseqncia: Apenas um deputado Jos Maria Varela teve a coragem de fazer algumas

    objees, citando o artigo nmero dois da Constituio (o governo da repblica jamais ser

    patrimnio de uma pessoa ou de uma famlia) e propondo uma emenda que fixasse os limites

    do poder executivo. Ningum o apoiou e ele prprio no parecia muito convicto de suas

    palavras. Lpez foi investido oficialmente e logo no dia seguinte mandou prender seu tmido

    opositor, que acabou morrendo no crcere.307

    Em Maldita Guerra, Doratioto relata a situao do Paraguai nos seguintes termos: O

    Paraguai que Solano Lpez recebeu para chefiar uma nao unificada, sem dvidas e, graas a

    304 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 188

    305 BRAY, Apud. BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 170

    306 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 41

    307 CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 43

  • 123

    presena de tcnicos estrangeiros, com avanos tecnolgicos em relao a outras naes do

    continente. Essa modernizao, todavia, era de carter militar ou defensiva, enquanto o

    campons paraguaio utilizava ainda tcnicas de cultivo de dois sculos de idade. O Estado

    guarani era dono, em meados do sculo XIX, de quase 90% do territrio nacional e

    praticamente controlava as atividades econmicas, pois cerca de 80% do comrcio interno e

    externo eram propriedade estatal. Para manter o desenvolvimento, a economia paraguaia

    necessitava ampliar o comrcio externo, de modo a conseguir recursos para continuar a

    importar tecnologia.308

    Procurando sair do isolamento e manter a independncia do pas, Solano Lpez

    acabaria se chocando com os objetivos hegemnicos do governo imperial no Prata. A ao

    no sentido de aumentar sua presena no Prata colocou Assuno em rota de coliso com o

    Imprio. Este buscava manter o status quo platino, que se caracterizava pelo desequilbrio

    favorvel ao Brasil, hegemnico na rea por ter sido, at ento, vitorioso em influir sobre os

    Estados da regio [...]. A falta de definio de limites era um elemento visvel de tenso entre

    o Paraguai e o Imprio.309

    O que era o Paraguai pr-1865?

    Sobre as inmeras caracterizaes a respeito do Paraguai, ressaltamos a que fez o

    jornalista Jlio Jos Chiavenato: [...] o nico povo livre da Amrica do Sul. O Paraguai era

    uma republica autnoma desde 1811, que no tinha dvida externa, que no tomava

    emprstimos e no precisava importar nada para o seu consumo. Quebrava assim o modelo de

    explorao imposto pelo imperialismo ingls. Com uma situao geogrfica incmoda,

    espremido entre o Brasil, a Bolvia e a Argentina tendo como nico aliado em 1864 o

    Uruguai, um pas fraco cujas fronteiras eram freqentemente invadidas pelas tropas regulares

    do Rio Grande do Sul, para roubo de gado a pretexto de defender os proprietrios brasileiros

    ali estabelecidos. Vtima da cobia do Imprio e da Argentina, ameaado durante toda a sua

    histria pelos grandes pases do continente, pela estruturao da sua economia e recolhimento

    poltico, que se aliaram a uma equilibrada diviso entre trabalho e renda uma soluo quase

    socialista [sic] e perfeita para as condies e a prpria poca [...].310

    308

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 44

    309 Id. Ibid p. 44

    310 CHIAVENATO, Jlio Jos. O negro no Brasil[...]Op Cit p. 195

  • 124

    Em La guerra del Paraguay: y las montoneras argentinas, de 1985, Jos Maria Rosa

    assinala: Paraguay era rico, riqusimo. [sic] Sus inmensos yerbatales abastecan la mayor

    parte del consumo del sur del continente, y sus maderas valiosas se exportaban a Europa. []

    Era un verdadero estado socialista [sic] la paternalista Repblica del Paraguay [] La

    afluencia de dinero ha modificado a Asuncin. En 1862 es una ciu[]. Pero tambin ha

    crecido en cultura, a pesar de que nos tiempos misioneros haba sido una tierra donde todos

    saben leer y escribir [].311

    Segundo o autor citado, o Paraguai com sua forma peculiar de desenvolvimento teria

    atrado a inimizade do pas mais poderoso na poca: a Inglaterra. El Paraguay de Lpez era

    un escndalo en Amrica. Un pas bastndose a s mismo, que nada traa de Inglaterra y se

    permita a detener a los hijos de ingleses, como en el caso de Constatt, con el pretexto de

    infringir las leyes del pas, debera necesaria y urgentemente ponerse a la altura de la

    Argentina de Mitre.312

    Para Rosa, a guerra teria aniquilado a mais prspera Repblica da

    Amrica do Sul. Y pocos aos no habra en Paraguay tarifas aduaneras, ni hornos de

    fundicin, ni caones de Humait, ni serenos preguntadores, ni paraguayos pecadores, ni ros

    clausurados al libre comercio, ni dictadura. [] Ni tampoco Paraguay.313

    Existem autores que discordam a respeito do suposto desenvolvimento paraguaio, sua

    auto-suficincia e o isolamento paraguaios. Em Guerra do Paraguai: escravido e cidadania

    na formao do exrcito, de 1990, o historiador Ricardo Sales escreve: Recentemente,

    diversos autores tm se dedicado a demolir os mitos oficiais da guerra do Paraguai. No raro,

    sem prejuzo do enorme mrito do seu trabalho, tm criado outros tantos mitos sobre o

    conflito: o Paraguai retratado como uma nao independente do imperialismo, com enorme

    progresso material e social. [...] O Paraguai sofria influncia do imperialismo, ainda que

    diferentemente de seus vizinhos da regio meridional da Amrica do Sul. Devido s

    peculiaridades de sua formao histrica colonial, baseada nas misses jesuticas, no se

    encontrava no centro seja das atenes coloniais, seja, mais tarde, das atenes imperialistas.

    Da a caracteriz-lo como uma nao independente do imperialismo, ou at como uma

    possibilidade de desenvolvimento autnomo da regio, vai uma longa distncia.314

    311

    ROSA, Jos Mara. La Guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 16

    312 Id. Ibid pp. 142-143

    313 Id. Ibid p. 143

    314 SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravismo [...] Op Cit pp 2-3

  • 125

    Segue o mesmo autor: A Repblica guarani e vista como um Estado nacionalista,

    antiimperialista, onde a classe dos proprietrios de terra, crioulos, havia sido praticamente

    exterminada e a terra explorada pelas comunidades guaranis. A existncia de algumas

    manufaturas considerada como sinal de uma poltica de desenvolvimento econmico

    nacionalista e contrria aos interesses do capitalismo ingls. O poder quase absoluto exercido

    sobre o aparelho de Estado e sobre o conjunto da sociedade pelos governantes que se sucedem

    independncia encarado como um paternalismo benevolente.315

    Nesse captulo, utilizamos o trabalho de Andrada e Silva para explicar a formao

    social sui-generis paraguaia, fortemente apoiada em sua populao camponesa. Dessa forma,

    procuramos esclarecer mais a respeito dessa repblica descrita pelos relatos apologticos

    como uma formao quase socialista, se no socialista, e, por outro, como regime

    ditatorial, autocrtico, rstico e atrasado..

    O autor Ricardo Salles aponta corretamente a influncia do imperialismo ingls, caso a

    compreenda como a presso que, exercida atravs de Buenos Aires, obrigava os governantes

    paraguaios a se manterem isolados para preservarem a independncia de fato da repblica

    guarani. Mas certamente inconteste que a organizao social paraguaia manteve a produo

    domstica artesanal e pequeno-manufatureira, arrasada na Argentina, no Uruguai e no Brasil,

    pela introduo macia de manufaturados ingleses. O que explica, igualmente, a capacidade

    de resistncia paraguaia, durante a guerra, sem praticamente qualquer importao. O pas

    manteve, igualmente, sua capacidade de acumulao, atravs do monoplio do comrcio

    exterior dos principais produtos de exportao, o que constitui, indiscutivelmente, nvel

    objetivo de autonomia diante do capitalismo ingls.

    Em Maldita Guerra, de 2002, Doratioto tambm se contrape viso de um Paraguai

    desenvolvido ou autnomo. fantasiosa a imagem construda por certo revisionismo

    histrico de que o Paraguai pr-1865 promoveu sua industrializao a partir de dentro, com

    seus prprios recursos, sem depender dos centros capitalistas, a ponto de supostamente tornar-

    se uma ameaa aos interesses da Inglaterra no Prata. Os projetos de infra-estrutura guarani

    foram atendidas por bens de capital ingleses e a maioria dos especialistas estrangeiros que os

    implementaram era britnica. As manufaturas oriundas da Inglaterra chegaram a cobrir, antes

    de 1865, 75% das importaes paraguaias, quase todas originadas de Buenos Aires, em

    operaes controladas por comerciantes britnicos ali instalados.316

    Segue Doratioto:

    315

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravismo [...] Op Cit p. 20

    316 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 30

  • 126

    Tambm equivocada a apresentao do Paraguai como um Estado onde haveria igualdade

    social e educao avanada. A realidade era bem outra e havia uma promscua relao entre

    os interesses do Estado e os da famlia Lpez, a qual soube se tornar a maior proprietria

    privada do pas enquanto esteve no poder. Os outros ncleos econmicos dependiam

    diretamente do aparelho de Estado para se apropriar de parte do excedente pela economia,

    como era o caso da nascente burguesia rural.317

    Em O expansionismo brasileiro e a Formao dos estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da trplice aliana, de 1995, Moniz Bandeira prope: Apesar de todo o

    progresso econmico e militar, o Paraguai conservara, entretanto, uma estrutura poltica

    bastante primitiva, que a absoro da tecnologia estrangeira, rebaixada em nvel geral de

    atraso e pobreza de suas relaes de produo, fortaleceu. O Estado, a baloiar-se sobre os

    self-sustaining members of community, resumia-se no poder onmodo e um homem, que,

    oriundo da rediviva oligarquia de latifundirios, debilitada por Francia, mas no extinta,

    exercia despoticamente a coero poltica, atravs de uma vasta rede de pyrage alcagetes

    infiltrados em todas as casas e locais de trabalho e administrava o pas como se sua

    propriedade privada fosse.318

    Viso que prope a necessidade de ultrapassar tambm nessa questo o nvel

    superficial dos fenmenos analisados.

    O precipitar-se da crise

    Em Solano Lpez o Napoleo do Prata, de 1970, Manilio Cancogni e Ivan Boris

    referem-se situao na dcada de 1860, da regio do rio da Prata, na qual o Uruguai se

    transformaria em uma espcie de barril de plvora, tendo em vista as lutas internas

    combinadas fomentadas por Mitre e concludas com o intervencionismo do Imprio e da

    Argentina mitrista. Nesse processo, o Paraguai envolver-se-ia na luta, em defesa de sada ao

    mar, da qual dependia sua autonomia, desencadeando a Guerra do Paraguai. Na Banda

    Oriental o poder estava nas mos dos conservadores (blancos), com Bernardo Berro na

    presidncia, enquanto os liberais (colorados) formavam a oposio, cujo chefe o general

    Venncio Flores encontrava-se exilado em Buenos Aires. Nos fatos, como vimos, Flores

    encontrava arrolado como oficial nas foras armadas mitristas.

    317

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 30

    318 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 181

  • 127

    Na Banda Oriental o poder estava nas mos dos conservadores (blancos), com

    Bernardo Berro na presidncia, enquanto os liberais (colorados) formavam a oposio, cujo

    chefe o general Venncio Flores encontrava-se exilado em Buenos Aires. Durante a guerra

    entre Urquiza e Mitre, Flores ajudara o segundo. A ele se devia em realidade a vitria em

    Pavn, onde os portenhos derrotaram os confederados. E agora o general Venncio Flores

    tinha a proteo de seus aliados. [...] Urquiza apoiava Bernardo Berro. Depois da guerra com

    Mitre, o velho general tornara-se mais cauteloso, contentando-se em reinar como um soberano

    na provncia de Entre Rios, com a tolerncia de Buenos Aires. Tambm Solano solidarizara-se

    com Berro, pois odiava os liberais e seu apoio assegurava a independncia do Paraguai. No

    caso da Argentina ou o Brasil se apoderaram de Montevidu, o Paraguai estaria

    irremediavelmente cercado.319

    Assim, perdia sua sada ao mar, do que dependiam suas

    exportaes.

    Sobre o governo ditatorial do Paraguai, o historiador argentino Miliciades Pea no

    livro La era de Mitre, de 1975, procura justificar a postura dos seus governantes da seguinte

    maneira: Por cierto que el gobierno paraguayo era desptico y unipersonal, no liberal como

    el de Mitre. Pero entre el despotismo de Lpez respaldado en la confianza de la mayora de la

    poblacin, y el liberalismo fullero de Mitre respaldado en las bayonetas del ejrcito de lnea

    contra la voluntad de la mayora de las provincias, la causa de progreso nacional estaba

    defendida por Lpez, no por Mitre.320

    Bandeira prope que, nesse difcil contexto, o Paraguai carecesse de um servio

    diplomtico eficiente e fosse incapaz de defrontar o Imprio. O Paraguai, efetivamente, no

    possua o potencial de presso diplomtica que pudesse influir sobre a ao dos demais pases

    da Bacia do Prata e alcanar parte dos resultados de uma guerra vitoriosa, sem necessidade de

    combater. No contava, alis, nem com o potencial de presso nem com o aparelho

    diplomtico para exprimir e impor uma audincia voz de Lpez, como ele queria. Apesar de

    seu relativo progresso econmico e de sua proporcional fora militar, o Paraguai no dispunha

    dos elementos que poderiam certificar-lhe, nos limites do previsvel, o triunfo contra o

    Brasil. 321

    Em todo caso, o ingresso do Paraguai na guerra deu-se, num sentido conjuntural,

    devido verdadeira armadilha urdida entre Mitre, ao autorizar a invaso do Uruguai pelo

    319

    CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 45

    320 PEA, Miliciades. La era de Mitre [...] Op Cit pp. 55-56

    321 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 184-185

  • 128

    Imprio, ao que todos os Estados do Prata sabiam j ter sido declarado casus belli pelo

    Paraguai. Razo pela qual muitos historiadores consideram a agresso imperial ao Uruguai

    como verdadeiro comeo da Guerra da Trplice Aliana. Uma guerra, portanto, que o Imprio,

    em conluio com a Argentina mitrista, teria procurado e motivado. Francisco Doratioto, que

    defende a tesa da responsabilidade paraguaia na guerra, escreve em Maldita Guerra, de

    2002, que o governo imperial teria dado pouca importncia ao aviso explcito da diplomacia

    paraguaia. Como veremos oportunamente, a tese de Doratioto difcil de ser aceita, diante do

    carter explcito daquele aviso.

    Mais do que a no considerao do aviso da situao de guerra, no caso de que

    invadisse o Uruguai, o governo imperial parece ter retido a viso de uma rpida e fcil vitria,

    sobre o pequeno pas, considerao expressada igualmente por Mitre, no incio do confronto:

    Apesar de isolado, sob a permanente vigilncia de espies e contando com base precria de

    informaes, Viana de Lima escreveu para Tamandar que uma tropa de 10 mil homens seria

    suficiente para derrotar, sem grande esforo, o exrcito de Solano Lpez. Repetia haver

    carncia de chefes militares paraguaios competentes, pois Solano Lpez, para manter seu

    poder, buscava anular aqueles que demonstrassem algum talento, reduzindo-os simples

    condio de seus lacaios.322

    E esse o Paraguai que inicia a guerra em 1864. Uma nao unificada desde o

    governo Francia, mas que precisava sair de seu isolamento para prosseguir seu

    desenvolvimento. Necessitava ampliar suas relaes comerciais. E foi exatamente essa

    necessidade, ao ser impugnada pela invaso imperial do Uruguai, que coloca o pas guarani

    em rota de coliso com o Imprio.

    Dentre as causas para o Imprio entrar em uma guerra contra o Paraguai, podemos

    enumerar: a vontade de reduzir ao Uruguai a uma espcie de protetorado, para obter

    vantagens comerciais, econmicas, fronteirias, etc.; a questo da fronteira entre os dois

    pases, que os imperiais insistiam em colocar no rio Apa; a questo econmica, sendo que o

    Paraguai havia perdido mercado no relativo erva-mate; alm do mais, temos a navegao

    dos rios Paran e Paraguai. E, como est assinalado no captulo O que se escreve sobre a

    Guerra do Paraguai e no referente ao Imprio, havia ainda a questo do expansionismo

    territorial aps a proibio do trfico transatlntico de trabalhadores escravizados.

    322

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 62

  • 129

    ressaltado que a crise da escravido levar os escravistas imperiais a se voltarem para a

    expanso sobretudo comercial.323

    E com relao Argentina, havia a questo do livre comrcio ambicionado pela

    oligarquia de Buenos Aires, liderada por Mitre. Ou seja, fim do monoplio das exportaes

    pelo Estado paraguaio. Os liberais portenhos consideravam igualmente o Paraguai provncia

    rebelde a ser reintegrada Argentina, em situao de subalternidade. Havia igualmente a

    rivalidade da oligarquia liberal-portenha com as foras federalistas das provncias do Interior

    e do Litoral. O Paraguai era, como o Uruguai, um aliado certo da luta das provncias

    interioranas argentina. Sem um e outro, teriam de aceitar a dominao de Buenos Aires

    inevitavelmente. A guerra contra o Paraguai seria a coroao da vitria liberal-portenha sobre

    o interior e o litoral.324

    Com a vitria de Bartolom Mitre na Argentina sobre Urquiza e com a deposio dos

    blancos no Uruguai, Solano Lpez estaria inevitavelmente cercado. Com suas aes no

    Uruguai, o Imprio e a Argentina de Mitre se cercavam literalmente o governo de Assuno,

    retirando-lhe qualquer sada para o mar. Punham fim tambm aos seus aliados federalistas.

    E por fim, em 1865, o Uruguai entraria na Guerra do Paraguai por apenas uma razo.

    O governo colorado de Venncio Flores devia ao Imprio o fato de estarem no poder.

    Tornava-se assim o homem do Imprio no Uruguai e em Montevidu.

    O centro desse trabalho so as questes em torno dessa guerra. Sendo assim, cumpre

    estudar agora, as diferentes teses a respeito da Guerra do Paraguai, segundo as diferentes

    vises que a estudam: a historiografia nacional-patritica, o revisionismo e o

    restauracionismo.

    323

    Cf. PEA, Miliciades. La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia. 3a ed. Buenos Aires:

    Ediciones Fichas, 1975.

    324 Cf. PEA, Miliciades. La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia. 3

    a ed. Buenos Aires:

    Ediciones Fichas, 1975

  • 130

    GUERRA DO PARAGUAI: DEBATES

    Introduo

    No presente captulo, comentaremos algumas diferentes vises a respeito da Guerra do

    Paraguai, mais especificamente sobre o que se tem escrito no tocante participao da

    Trplice Aliana e ao papel do Paraguai na Amrica Latina no perodo pr-guerra. Nossa

    discusso ser baseada no que escreveram os autores como Ricardo Salles, Francisco

    Doratioto, Jlio Jos Chiavenato, Len Pomer, Mrio Maestri, Moniz Bandeira Jos Maria

    Rosa, Manilio Cancogni e Ivan Boris, Juan E. OLeary, alm do autor Raul de Andrada e

    Silva.

    Pretendemos primeiramente nos distanciar das narrativas passionais que se criaram em

    torno do tema, demonstrando a inaplicabilidade tanto da narrativa tradicional, como da

    revisionista, tendo em vista que ambas fogem do real objetivo da histria. Sabemos que no

    podemos ser imparciais e narrar os acontecimentos tais como eles aconteceram, mas devemos

    buscar comprovar o que escrevemos nos documentos, praticando os questionamentos

    adequados. Quando nos dirigimos a algum texto, que relata o passado temos de pensar que ele

    foi escrito por algum que tinha uma viso de mundo e um objetivo. Precisamos realizar uma

    crtica tanto do que pode ser entendido na leitura superficial, como sobre o que interpretamos,

    ou lemos na entrelinhas.

    Assim, nossa principal finalidade enfatizar, que autores como Doratioto destacam o

    fato que na histria no existem bonzinhos ou malfeitores, mas sim diferentes classes

    sociais e blocos que, na direo de suas naes, impem seus interesses singulares

    comumente apresentados como nacionais. Desse modo, a guerra do Paraguai no ser

    retratada como um ato herico simplesmente dos membros das Foras Armadas imperiais,

    como proposto pela historiografia nacional-patritico ou nacional-restauracionista. Tampouco

    foram os governos dos pases da Trplice Aliana puros marionetes nas mos do capital ingls

    temeroso de uma concorrncia paraguaia para suas exportaes na Amrica Latina, como

    apresentado por parte da historiografia revisionista.

    Outro aspecto a ser destacado neste captulo a situao paraguaia no perodo pr-

    guerra. Parte da historiografia revisionista ressalta o fato de que o Paraguai era uma nao que

    conhecia um grande desenvolvimento, dirigida por um cone do anti-imperialismo, que

    contava com um Exrcito moderno. Ou em sentido contrrio, a historiografia nacional-

    patritica ou contempornea propem que era uma nao imperialista, fortemente armada,

    com objetivos hegemnicos no Prata.

  • 131

    Introduzindo ao estudo historiogrfico da guerra

    Escrever a histria, relatar o que se passou. Por muitos anos se acreditou que quem

    narrasse o que aconteceu deveria ser fiel ao que realmente se passou. Em pocas passadas se

    acreditou na neutralidade do historiador. No entanto, em nosso entendimento, hoje esse

    conceito inaplicvel. A histria j foi muita vezes utilizada para justificar governos ou para

    criar uma memria oficial, segundo a vontade de algum. O historiador Ricardo Salles no

    livro Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na formao do exrcito escreve que: A

    histria foi, durante muito tempo, o ofcio de eruditos refinados cujo trabalho recuperou e

    muitas vezes at criou uma memria oficial: a memria de fachada, de nossas instituies,

    to civilizadas e to distantes do cotidiano do povo, dos grandes vultos de discursos

    pomposos, dos grandes feitos. Enfim, uma memria que, aclarando a vida das elites,

    envergonhadas destas tristes passagens, pouco europias encobria a realidade do povo

    miservel.325

    Nosso trabalho nesse captulo analisar de forma sucinta algumas vises divergentes a

    respeito da Guerra do Paraguai. Para introduzir o assunto, vejamos o que o citado historiador

    escreve no mesmo livro: A guerra do Paraguai um dos muitos fatos esquecidos de nossa

    histria: ou retratada pela historiografia oficial, e, como tal, perde interesse, ou no tema

    daqueles que se dedicam reviso de nossa formao histrica. Paradoxalmente, quando

    lembrada, e abordada, causa imediatamente polmica: o Brasil apresentado como agente

    civilizatrio na regio ou como agente do imperialismo ingls; nossas tropas so as mais

    bravas ou as mais covardes; o Paraguai era governado por um tirano ou por um estadista

    esclarecido e antiimperialista; libertamos o Paraguai ou exterminamos sua populao.326

    Cremos necessrios destacar que, como veremos, houve tambm no Brasil uma historiografia

    de cunho revisionista, como a de Moniz Bandeira, que abordou a questo a partir de seu

    carter essencial, destacando o sentido imperialista do Brasil, sem fantasias sobre a funo

    inglesa essencial nessa questo, ao igual que outros autores crticos argentinos, como J. B.

    Alberdi, quando do conflito, ou mais tarde, Milcades Pea.

    Primeiramente faremos uma anlise introdutria a respeito de algumas obras que

    representam a guerra do Paraguai e sobre alguns conjuntos de autores que escrevem sobre este

    conflito. Para realizar este empreendimento contaremos faremos uso do texto A Guerra

    Contra o Paraguai: Histria e Historiografia: Da instaurao restaurao historiogrfica

    325 SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit p. 1

    326 Id. Ibid p. 2

  • 132

    [1871-2002], do Historiador Mrio Maestri327

    .Precisamente falando, a guerra do Paraguai foi

    o confronto armado mais significativo envolvendo pases da Amrica do Sul, por isso deu

    origem a diversas interpretaes: Ao lado da Descoberta e da Independncia, a Guerra do

    Paraguai foi objeto de representaes patriticas excelentes da pintura brasileira de fins do

    sculo 19 e incios do sculo 20.328

    Sendo assim, os historiadores que se reportam a este conflito armado so divididos em

    virtude de suas temticas, da forma como abordam seus personagens, bem como as principais

    batalhas e fatos que antecederam e que resultaram desta guerra. O primeiro grupo chamado

    de memorialista. Essas obras apresentam algumas caractersticas elencadas em comum, como:

    Tratam-se sobretudo de narrativas sobre o herosmo e a abnegao das foras armadas

    nacionais em defesa do Brasil e da civilizao, agredidos por barbrie corporificada no

    ditador paraguaio, responsabilizado exclusivamente pelo confronto.329

    Mrio Maestri tece um estudo a respeito da obra de Taunay A retirada de Laguna.

    Sobre esta obra, o historiador supracitado escreve: O relato desvela cenrios em contradio

    com a retrica patritico-militarista habitual nessa literatura: operao arriscada e mal

    planejada, decidida por oficiais sedentos de consagrao; o medo, o suicdio, a indisciplina e a

    desero; o abandono de combatentes pelos soldados e pelo comando; o hbito das tropas

    imperiais do saque, que o prprio Taunay justificou em alguns casos [...].330

    No podemos

    esquecer que as narrativas partem dos fatos: a invaso do Mato Grosso pelo Paraguai, que

    marcou o incio das hostilidades, segundo a viso do governo Imperial. Segundo muitos

    historiadores, como j vimos, a guerra iniciaria com a invaso-interveno do Imprio e da

    Argentina de Mitre no Uruguai, ao j declarada pelo governo do Paraguai como razo para

    guerra.

    No entanto, as diferenas costumam se organizar em torno dos motivos que levaram os

    paraguaios a tomarem esta atitude e das conseqncias que dela advieram. segundo Mrio

    Maestri, Taunay enfatiza os brios feridos, a honra nacional para justificar a guerra. A obra

    registra igualmente a apresentao habitual nessa produo memorialista da tese da defesa

    327

    MAESTRI, Mrio. A Guerra Contra o Paraguai: Histria e Historiografia: Da instaurao restaurao

    historiogrfica [1871-2002]. La Guerra del Paraguay: historiografas, representaciones, contextos Anual del

    CEL, Buenos Aires, 3-5 de noviembre de 2008, Museo Histrico Nacional, Defensa 1600 Nuevo

    Mundo/Mundos Nuevos. http://nuevomundo.revues.Org /55579. p. 2

    328 Id. Ibid p. 2

    329 Id. Ibid pp. 2-3

    330 Id. Ibid p. 3

    http://nuevomundo.revues/

  • 133

    intransigente pela oficialidade da honra e dos brios do pas feridos pela agresso paraguaia.

    Mesmo quando o autor critica oficiais da coluna, apresenta-os como abnegados patriotas

    uma outra caracterstica dessa primeira literatura sobre o confronto, ausente nas cartas de

    Benjamin Constant aos seus familiares e amigos, prenhes de duras crticas, sobretudo a

    Caxias, no h quase descries dos soldados, jamais mencionados, a no ser no geral, como

    combatentes, como doentes, como desertores, etc.331

    Os militares passaram a governar o Brasil no perodo republicano conhecido como

    Repblica da Espada. O Brasil foi encarado como um imprio da civilizao contra a

    barbrie. Segundo Mrio Maestri, essa historiografia buscou fazer uma apologia do Estado,

    das classes dominantes, das Foras Armadas: A historiografia republicana consolidou a

    instaurao da narrativa nacional-patritica construda atravs da seleo-organizao das

    apologias do Estado e das classes dominantes imperiais sobre o conflito. Essa produo

    despreocupou-se com as razes e os cenrios e nacionais da Guerra, privilegiando a

    apresentao cronolgica do confronto, definido como choque entre a civilizao e barbrie,

    promovido pela agresso ao Brasil motivada por Solano Lpez [...].332

    Maestri ainda destaca qual seria o incio do conflito segundo as diferentes vises

    historiogrficas. Para os nacional-patriticos, seria a priso do navio Marquez de Olinda e a

    invaso do Mato Grosso pelas tropas paraguaias. Por outro lado, o que teria principiado as

    hostilidades entre Brasil e Paraguai teria sido a interveno brasileira na Repblica Oriental.

    Conforme nos ensina Mrio Maestri: Para corroborar a viso de embate essencialmente

    querido pelo ditador paraguaio, essa historiografia consolidou comumente como ponto zero

    do confronto o aprisionamento do vapor mercante brasileiro Marqus de Olinda, em 12 de

    novembro de 1864, em guas brasileiras, sem declarao de guerra, e no a invaso pelo

    Imprio um ms antes, do Uruguai, apoiado pela Argentina mitrista, fato anunciado

    anteriormente pelo governo paraguaio com casus belli, pois condicionava a sada ao mar do

    Paraguai vontade do Imprio e da Argentina, nas mos da oligarquia bonaerense, naes

    com as quais possua problemas de fronteiras, de navegao dos grandes rios e de autonomia

    nacional.333

    No Paraguai, o revisionismo histrico procurou recuperar a Guerra do Paraguai

    trazendo novas interpretaes. Como sabemos, o fato pode ser nico, todavia, as formas de

    331

    MAESTRI, Mario. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit p. 3

    332 Id. Ibid pp. 4-5

    333 Id. Ibid p. 5

  • 134

    cont-lo so muitas, logicamente se afastando ou se aproximando da essncia dos fenmenos

    relatados. A guerra que antes era vista apenas como desejada por Francisco Solano Lpez, do

    ponto de vista dos apologistas dos Estados aliancistas, passa a ser vista como querida pelos

    governos do Brasil e da Argentina, em representao de classes e blocos de classes

    hegemnicos nessas naes. Mrio Maestri escreve: Em um sentido lato, o revisionismo

    historiogrfico, como interpretao contraditria s explicaes justificadoras do Imprio

    brasileiro e da Argentina mitrista, foi contemporneo prpria guerra, expressando-se

    poderosamente sobretudo atravs de intelectuais argentinos federalistas, como Juan Bautista

    Alberdi [1810-1884] e Jos Hernndez [1834-1886], que denunciaram o confronto como uma

    agresso do Imprio do Brasil e do Unitarismo liberal portenho contra os direitos provinciais

    argentinos e contra a autonomia uruguaia e paraguaia.334

    Parte desta historiografia destaca o

    indiscutvel herosmo do soldado paraguaio e eleva o prprio Francisco Solano Lpez a heri

    nacional, o que j bem mais discutvel, sobretudo ao individualizar os sucessos histricos.335

    Mrio Maestri se refere ao momento histrico que impulsionaram as produes

    revisionistas que mudaram o foco das narrativas a respeito da Guerra do Paraguai: Desde os

    anos 1950, no contexto de fenmenos mundiais essenciais como o fortalecimento do

    movimento de libertao nacional na sia e na frica; as revolues argelina, vietnamita e

    cubana; o fim da hegemonia stalinista nas cincias sociais marxistas; as jornadas mundiais de

    1968, etc., novas leituras revisionistas procuraram superar as narrativas patriticas das classes

    dominantes nacionais sobre a Grande Guerra Sul-Americana, desvelando suas causas

    essenciais partir da tica das classes subalternizadas, na construo de uma histria unitria

    dos povos americanos.336

    Boa parte destes autores revisionistas procuram enfatizar o crescimento conhecido

    pelo Paraguai antes da Guerra [1865-1870], atravs da ampla difuso da propriedade

    camponesa e do arrendamento de terras pblicas a baixo preo; a nacionalizao do comrcio

    exterior; a modernizao do pas apoiada em recursos prprios, com a construo de

    fundies, ferrovias e de telgrafos; o relativamente desenvolvido ensino pblico primrio,

    que permitiu que boa parte da populao paraguaia soubesse no mnimo ler. Esta tica

    334

    MAESTRI, Mario. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit p. 7

    335 Id. Ibid p. 7

    336 Id. Ibid p. 8

  • 135

    apresenta uma viso simptica aos paraguaios, sua nao, e ao seu padro de

    desenvolvimento econmico tendencialmente autnomo.337

    Len Pomer escreveria sobre o conflito armado entre o Imprio, a Argentina de Mitre

    e o Uruguai de Venncio Flores, dando mais importncia poltica, diplomacia do que s

    batalhas e aos personagens militares propriamente ditos. O que j era bastante inovador, em

    relao historiografia nacional-patritica: Em 1968, Len Pomer lanara na Argentina La

    guerra del Paraguay: gran negcio!, publicado no Brasil sob o ttulo A Guerra do Paraguai:

    a grande tragdia rioplatense, apenas em 1979. O livro se despreocupava dos confrontos

    blicos, empreendendo ampla anlise das razes polticas, diplomticas e econmicas da

    Guerra, destacando as contradies entre o carter autrquico e autnomo do Paraguai e as

    necessidades de penetrao do imperialismo no Prata, atravs das aes dos governos da

    Argentina e do Imprio do Brasil. Para o historiador marxista argentino, a Inglaterra seria a

    grande beneficiria da guerra.338

    O que no significa que a apresentasse como a causadora da mesma, como foi

    comumente proposto, e avanado por outros historiadores. Destaque-se que, j nos anos 1950,

    a historiografia revisionista argentina, ao abordar a Guerra do Paraguai, opusera-se

    terminantemente tese da Argentina mitrista e do Brasil imperial como simples marionetes da

    Inglaterra, como j proposto. Nesse sentido, prope o historiador marxista Milcades Pea, La

    era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia: La guerra contra el Paraguay fue

    la continuacin lgica y la ltima etapa de la guerra de la oligarqua mitrista contra el Litoral

    y las provincias interiores argentina [...]. Em forma mais explicita ainda, lembrava: La

    monarqua brasilea no actuaba por cuenta de Inglaterra contra el Paragay; actuaba por cuenta

    propia, impulsada por causas internas del Brasil, no por presiones externas.339

    Referindo-se ao Brasil, Mrio Maestri destaca que as vises crticas e revisionistas

    argentinas e paraguaias foram praticamente ignoradas, sob a hegemonia aplastante das leituras

    nacionais-patriticas: Em maro de 1979, com Genocdio americano: a Guerra do Paraguai,

    o jornalista Jlio Jos Chiavenato, retomando algumas das teses revisionistas, superava as

    apresentaes factuais nacional-patriticas dos combates com ampla discusso das razes do

    337

    MAESTRI, Mario. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit p. 10

    338 Id. Ibid p. 10

    339 PEA, Milicades. La era de Mitre [...] Op Cit pp. 47 e 61

  • 136

    confronto, apresentado como agresso do governo brasileiro e argentino contra a nao e o

    povo paraguaio, em vez de produto da vontade de lder desvairado.340

    Maestri destaca que a obra de Chiavenato sofreria duras crticas. Essas se apoiariam

    nas indiscutveis insuficincias do texto e no resgate da tese do Brasil e Argentina

    praticamente como marionetes inglesas.341

    Ainda sobre aquele livro, Mrio Maestri escreve:

    Genocdio americano foi o primeiro trabalho historiogrfico brasileiro a realizar crtica

    geral desde a tica das populaes envolvidas no confronto, desorganizando as representaes

    hegemnicas. Por alm dos lapsos e insuficincias assinalados e no assinalados [no artigo em

    questo], conformou o imaginrio histrico brasileiro porque galvanizou a difusa memria

    popular do rosrio de horrores que fora aquela guerra, semi-soterrada pelo discurso nacional-

    patritico.342

    No seu artigo, Mrio Maestri refere-se a todo um grupo de autores que escreve sobre a

    Guerra do Paraguai, em reao ruptura da hegemonia das interpretaes patriticas sobre o

    conflito, realizada por Chiavenato, que define como restauracionistas, com destaque para a

    obra de Francisco Doratioto, Maldita Guerra: Quanto guerra contra o Paraguai,

    movimento historiogrfico restauracionista apoiado pelas foras sociais triunfantes e

    impulsionado pela grande mdia, desqualificou igualmente [em bloco] o revisionismo anterior

    como um mero produto de ideologia autoritria, populista, socialista, etc. [...].Definimos

    esse processo de restauracionista pois, mesmo quando apoiado em recursos metodolgicos

    refinados e ampla informao factual, limitou-se essencialmente modernizao, atualizao

    e refinamento das narrativas inspiradas nas vises de mundo das classes dominantes das

    pocas dos sucessos, ancestrais sociolgicas dos segmentos hoje dominantes, devido

    dependncia ideolgica e epistemolgica a esses ltimos.343

    Ricardo Salles um dos autores citados nessa corrente historiogrfica. Mrio Maestri

    nos ensina que: Salles impugna a definio do Paraguai como nao independente do

    imperialismo e igualitria, ressaltando apenas sua diversidade em relao aos vizinhos, em

    especial do Brasil escravista. Assinala a incapacidade da elite crioula paraguaia de se impor

    quando da Independncia e o dinamismo da comunidade guarani, que prope em dissoluo

    tendencial durante os governos dos presidentes perptuos. No geral, apenas aponta no

    340

    MAESTRI, Mrio. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit p. 11

    341 Id. Ibid p. 12

    342 Id. Ibid p. 13

    343 Id. Ibid pp. 13-14

  • 137

    mesmo momento que elide o necessrio estudo da sociedade paraguaia para a compreenso

    dos sucessos em discusso.344

    Ricardo Salles contribuiria para com a historiografia da Guerra do Paraguai ao

    enfatizar a ordem escravista dominante no Brasil como um diferenciador em relao aos

    demais pases nela envolvidos. Ressalta em seu trabalho a fragilidade estrutural do Imprio,

    especialmente de suas Foras Armadas. Segundo Maestri, Salles retomaria porm algumas

    vises da historiografia nacional-patritica, defendendo que um exrcito profissional

    deveria surgir a partir do recrutamento da Guarda Nacional, dos corpos de polcia provinciais,

    alm da convocao dos Voluntrios da Ptria, levando o governo imperial a empreender um

    esforo de recrutamento nacional. Salles se ope tambm idia de recrutamento macio de

    trabalhadores escravizados, apoiado em razo lgica, pois segundo ele, isto abalaria a

    essncia do poder escravista.345

    Tambm faremos mais adiante uma abordagem mais aprofundada sobre o livro de

    Ricardo Salles Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na formao do exrcito.

    Mrio Maestri ainda escreve a respeito do autor Francisco Doratioto, de cujo autor analisa as

    obras suas trs obras sobre a guerra contra o Paraguai, apontando a evoluo interpretativa nas

    mesmas. Segundo Maestri: Na Introduo de A guerra do Paraguai: 2 Viso, Doratioto

    prometeu superar as limitaes da historiografia tradicional que personalizara a histria,

    ao apontar as ambies do ditador Solano Lpez como causadoras da guerra e da teoria

    imperialista, ento dominante, que responsabilizara a Inglaterra pelo confronto. Para o

    autor, o conflito seria essencialmente produto da formao e definio do carter dos Estados

    nacionais, em que setores da classe dominante seriam hegemnicos na organizao estatal e,

    portanto, mais beneficiados por ela, na regio do Rio da Prata.346

    Mrio Maestri desta que,

    neste trabalho, de 1991, Doratioto trabalhava com o conceito de governos hegemonizados por

    classes dominantes, responsveis por polticas nacionais, que abandonaria na sua opera

    magna.

    Mrio Maestri escreve que Doratioto, neste trabalho, realmente conseguiu superar o

    maniquesmo das representaes nacional-patriticas, uma vez que em Guerra do Paraguai:

    2a Viso no so encontradas as tradicionais demonizaes de Francisco Solano Lpez.

    Entretanto, retoma a crtica s teses do imperialismo britnico, defendida por Chiavenato, e

    344

    MAESTRI, Mrio. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit p. 14

    345 Id. Ibid pp. 14-15

    346 Id. Ibid p. 17

  • 138

    renegada por historiadores revisionistas, como determinante para o confronto. Citando

    Doratioto, Maestri escreve, junto com outros historiadores revisionistas, que ao enfatizarmos

    a influencia inglesa na Guerra do Paraguai, estamos retirando a capacidade dos povos

    perifricos de determinarem sua histria.347

    Em seu livro O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil que ser

    estudado mais adiante, Doratioto analisa de modo mais aprofundado o conflito propriamente

    dito. Segundo Mrio Maestri, o citado historiador, no segundo captulo, empreende

    apresentao das disputas do Prata anteriores ao confronto, sem destacar o amplo papel

    desempenhado pela oligarquia portenha no conflito do primeiro ensaio, no contexto de uma j

    permanente absolvio-relativizao das responsabilidades do Estado imperial, em geral

    atravs da ignorncia de questes fundamentais, como a disposio do Brasil em entrar em

    guerra com o Paraguai, muito anterior ao conflito, e a garantia da independncia uruguaia por

    aquele pas, como condio para sua autonomia nacional.348

    Maestri ressalta que Doratioto

    recua das posies desenvolvidas no primeiro ensaio e no enfatiza, nesse segundo, a

    descomunal diferena entre as Foras Armadas imperiais e as do pas guarani.

    O livro Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai analisado por Mrio

    Maestri como o ponto mais alto da historiografia nacional-restauracionista: Maldita guerra:

    Nova histria da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto, na sua parcialidade, constitui

    sobretudo uma narrativa dos sucessos no Prata de 1864-1870 desde os pontos de vista do

    Estado nacional brasileiro, ou seja, dos interesses gerais de suas classes dominantes, com um

    respeito apenas diplomtico para o antagonista do Imprio. Todos os atos e as razes do

    Imprio so justificados ou apresentados sob a melhor luz, usando-se para tal fortemente os

    recursos da narrativa.349

    Destaque-se, como apenas proposto, que, no seu primeiro ensaio

    sobre a guerra do Paraguai, Doratioto trabalhara com o conceito do Estado expressando os

    interesses das classes hegemnicas nacionais.

    Uma interpretao que muito prxima de Gilberto Luiz Alves e Carla Villamina

    Centeno, em A produo de manuais didticos de histria do Brasil: remontando ao sculo

    XIX e incio do sculo XX, em artigo de publicao posterior ao de Mrio Maestri. Aqueles

    autores destacam as duas tendncias da historiografia sobre a guerra do Paraguai a

    primeira, hegemonizada pela interpretao dos historiadores militares, dominante at a

    347

    MAESTRI, Mario. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit pp. 19-20

    348 Id. Ibid p. 20

    349 Id. Ibid p. 31

  • 139

    dcada de 1960, e a segunda, envolvendo estudiosos argentinos, uruguaios e brasileiros,

    que teve a virtude de mostrar o lado universal de um conflito at ento visto como de mbito

    local, ao destacar as determinaes econmicas gerais atadas dinmica da sociedade

    capitalista no sculo XIX e mediao poltica exercida pela Inglaterra [...]. No crem

    porm ter havido, at agora, uma terceira.

    No apenas mas sobretudo sobre a obra de Doratioto, Maldita Guerra, de 2002,

    aqueles dois autores escrevem. Alguns [autores] consideram ter sido inaugurada uma terceira

    tendncia, configurada em estudos nascentes na passagem da dcada de 1980 para a de 1990,

    que pretendem construir uma nova histria da guerra; dentre eles ganhou realce o de

    Francisco Doratioto (2002). Porm, assinalam: A pretexto de corrigir os desacertos

    explicativos da tendncia anterior [revisionismo], decorrente do nacionalismo e da teoria da

    dependncia, o que certo, parece que essa tendncia, justificando-se na necessidade de

    renovar estudos historiogrficos, acabou por recolocar em primeiro plano as velhas querelas

    locais para explicar o conflito, circunscrevendo suas anlises sobretudo instncia poltica.

    Nesse aspecto, aproxima-se da verso produzida pela histria militar, a despeito de seu

    discurso mais acadmico. 350

    Portanto, destaque-se a profunda concorrncia entre essa

    interpretao sinttica e a apresentada, anteriormente, por Mrio Maestri, em forma mais

    desenvolvida, sobre uma historiografia que este ltimo autor denominada de

    restauracionista, em relao sempre s leituras produzidas pela histria militar. Registre-

    se que os autores deste ensaio no citam o trabalho de Mrio Maestri.

    Como veremos no decorrer do texto, Francisco Doratioto ressalta o fato de no haver

    mocinhos e bandidos na histria. Maestri impugna essa viso, que identificaria a ao de

    todos os governos nacionais, representantes de classes hegemnicas, no geral, e a ao do

    Imprio de dom Pedro e da Argentina de Mitre na Guerra do Paraguai, nesse caso particular.

    No tribunal da histria, onde se julga a partir dos direitos dos povos, h, sim, o certo e o

    errado, o justo e o injusto. Nos anos 1860, o Paraguai tinha todo o direito de ter garantido o

    livre acesso ao mar, de ter resolvidas as questes de fronteira por arbitragem e de ter

    respeitado o seu governo, enquanto o Uruguai possua, igualmente, o direito de ter sua

    autonomia nacional intocada pelos poderosos vizinhos e que os criadores rio-grandense

    respeitassem as leis do pas. Ao desobedecerem esses direitos nacionais, o Estado imperial e

    350

    ALVES, Gilberto Luiz & CENTENO, Carla Villamina. A produo de manuais didticos de histria do

    Brasil: remontando ao sculo XIX e incio do sculo XX. Revista Brasileira de Educao. V. 14, n.42, sext./dez.

    2009.

  • 140

    argentino se comportaram, naquela ocasio, como Estados bandidos, segundo a categoria

    usada [por Doratioto].351

    Mrio Maestri tambm estuda o livro Ensaio sobre a ditadura do Paraguai, de Ral

    de Andrada e Silva, que ser melhor estudado neste texto adiante. J em 1979, no citado

    Ensaio sobre a Ditadura do Paraguai, Raul de Andrada e Silva dissertava longamente sobre a

    singularidade do exrcito paraguaio, um dos setores pblicos que mereceu preferencialmente

    os cuidados do governo do Paraguai independente, com os soldos superiores aos de

    qualquer categoria burocrtica. Tropas formadas atravs do recrutamento seletivo dos

    jovens mais fortes e bem apessoados de cada localidade, atravs de um pas essencialmente

    campons. Jovens que, ingressando nas tropas como soldados, podiam ascender aos postos

    da hierarquia, cujo maior grau era o de Capito.352

    A historiografia restauracionista: a reviso da reviso

    Como nosso objetivo neste trecho contrapor as divergncias historiogrficas, nos

    utilizaremos tambm dos autores Francisco Doratioto e Ricardo Salles que tecem comentrios

    a respeito das produes sobre a Guerra do Paraguai. Em Maldita Guerra: Nova histria da

    Guerra do Paraguai, de 2002, Francisco Doratioto prope-se definir duas formas de narrar a

    histria, se diferenciando de ambas: a tradicional e a revisionista, tese impugnada, como

    vimos, por Mrio Maestri, em forma ampla, e Gilberto Alves e Carla Centeno, em forma

    sinttica, que propem que retoma as grandes vises da historiografia nacional patritica ou

    da histria militar, a despeito de seu discurso mais acadmico. Precisamente devido ao

    carter sinttico da avaliao desses dois ltimos autores, no nos referiremos mais aos

    autores desse trabalho, compreendendo-o porm como parte dessa vertente analtica.

    Francisco Doratioto em seu livro Maldita Guerra: Nova histria da Guerra do

    Paraguai, de 2002 procura definir duas formas de narrar a histria, se diferenciando de ambas:

    a tradicional e a revisionista, como podemos ler no trecho que segue: Ficou claro que, desde

    o final da guerra, em 1870, a historiografia tradicional brasileira reduziu a importncia do

    aliado argentino para a vitria sobre Solano Lpez e minimizou, quando no esqueceu,

    importantes crticas atuao de chefes militares brasileiros no conflito. Em compensao,

    ficou evidente que Francisco Solano Lpez era um ditador quase caricato de um pas agrcola

    atrasado, autor de erros militares que custaram a vida de milhares de seus valentes soldados,

    351

    MAESTRI, Mrio. A Guerra Contra o Paraguai [...] Op Cit pp. 32-33

    352 Id. Ibid p. 22

  • 141

    mas que foram motivo de suspeito silncio de seus admiradores futuros, os revisionistas

    histricos. Nas ltimas dcadas do sculo XX, a histria da guerra foi retrabalhada pelo

    revisionismo populista, ao se criticar o mito de Solano Lpez grande chefe militar e,

    absurdamente, lder antiimperialista. Ao mesmo tempo, desqualificava-se a atuao dos

    Exrcitos aliados, a resistncia e o sacrifcio demonstrados por seus homens, lutando durante

    anos longe de seus pases. Na verdade, atos de desprendimento pessoal, de bravura, de

    covardia ou de crueldade ocorrem em ambos os lados da guerra.353

    No podemos nos esquecer, depois de ler este trecho, que: 1) as insuficincias da

    historiografia dita tradicional foram muito mais amplas do que as assinaladas. Como vimos,

    ela no abordou as razes profundas do conflito; no analisou as naes em luta; diabolizou

    os chefes e combatentes paraguaios e santificou os aliancistas; restringiu-se a descrio

    hagiogrfica dos combates militares, etc.; 2) se Solano Lpez era caricato, dom Pedro II

    tambm era retratado desta maneira pelos republicanos e pelos abolicionistas e foi

    apresentado, no sem razo, como o responsvel pela continuao da guerra at a exausto do

    Paraguai, da qual resultou dezenas de milhares de mortes de brasileiros; 3) Como tambm

    visto, em sentido amplo, a historiografia revisionista (em relao Aliancista)

    contempornea ao conflito (Juan Bautista Alberdi [1810-1884], Jos Hernndez [1834-1886],

    etc.) e, em sentido estrito, nasce em incios e no em fins do sculo 20 [Paraguai: Ceclio

    Baez (1862-1941); Manuel Domnguez (1868-1935); Blas Garay (1873-1899); Juan E.

    O'Leary (1879-1969)].354

    4) Alm disso, at mesmo historiadores revisionistas paraguaios

    destacaram os limitados dotes militares de Lopez e generais brasileiros foram responsveis

    por erros que retardaram prolongando a guerra e causando a morte de milhares de pessoas de

    ambos os lados. No cremos que a histria deva ser construda a partir desses qualificativos

    subjetivos pessoais.

    Em Maldita Guerra, Doratioto tece duras crticas tanto aos historiadores tradicionais

    como revisionistas nos seguintes termos: Na verdade, tanto a historiografia conservadora

    como o revisionismo simplificaram as causas e o desenrolar da Guerra do Paraguai, ao ignorar

    documentos e anestesiar o senso crtico. Ambos substituram a metodologia do trabalho

    histrico pelo emocionalismo fcil e pela denncia indignada. [...] o revisionismo, em sua

    353

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra[...] p. 18

    354 Cf. MAESTRI, Mrio. A Guerra Contra o Paraguai: Histria e Historiografia: Da instaurao restaurao

    historiogrfica [1871-2002]. La Guerra del Paraguay: historiografas, representaciones, contextos Anual del

    CEL, Buenos Aires, 3-5 de noviembre de 2008, Museo Histrico Nacional, Defensa 1600 Nuevo

    Mundo/Mundos Nuevos. http://nuevomundo.revues.Org /55579.

    http://nuevomundo.revues/

  • 142

    vertente antiimperialista, que tem a explic-lo o momento histrico em que foi gerado e se

    desenvolveu, nas dcadas de 1960 a 1980, quando as sociedades desta parte da Amrica do

    Sul viviam sob ditaduras militares, que, apesar de castradoras das liberdades civis,

    reivindicavam para si a defesa do pensamento liberal. Uma das formas de combater essas

    ditaduras era desmoralizar seus referenciais histricos, seus dolos na Argentina, Mitre; no

    Brasil, o duque de Caxias -, e seus alicerces ideolgicos. Da o esprito acrtico com que o

    mundo acadmico aceitou e reproduziu, naquele momento, publicaes revisionistas sobre a

    Guerra do Paraguai, mistificadoras de Solano Lpez, e que responsabilizavam o imperialismo

    britnico pelo conflito. Contudo, continuar a defender, hoje, essa interpretao pode ser

    resultado da ignorncia histrica ou, ento, da natural dificuldade de se reconhecer errado.355

    Como apenas assinalado, erro datar a gnese da historiografia revisionista sobre a

    guerra do Paraguai nos anos 1960 e 1980, cronologia apenas pertinente para o Brasil. Como

    tambm apenas proposto, essa reviso inicia-se no Paraguai em fins do sculo 19 e sobretudo

    comeos do sculo 20. Na Argentina, ela , como tambm proposto, contempornea guerra

    e tem importante salto de qualidade na dcada de 1950 Jos Maria Rosa, Milcades Pea,

    etc. momento anterior s ditaduras militares. igualmente impertinente, como tambm j

    assinalado, identificar as interpretaes revisionistas com a tese de guerra britnica, esposada

    por alguns historiadores daquela vertente.

    No livro Conflito com o Paraguai, de 1996, Doratioto no s faz essas crticas como

    tambm d a entender que seu trabalho superior tanto historiografia tradicional como ao

    revisionismo. A historiografia tradicional privilegia, como explicao para a abordagem da

    guerra do Paraguai, a ambio desmedida do chefe de Estado paraguaio, Francisco Solano

    Lpez, em uma personalizao do processo histrico. [...] Pela anlise revisionista, a guerra

    foi causada pelo imperialismo britnico, interessado em destruir a suposta tentativa de

    desenvolvimento autnomo paraguaio. Por esta perspectiva, o Imprio brasileiro e a

    Argentina foram instrumentos dessa ao imperialista, e Solano Lpez apresentado como

    uma espcie de paladino antiimperialista, vtima de uma conspirao internacional. Este livro

    discorda dessas interpretaes e localiza as origens da guerra do Paraguai no processo

    histrico da formao dos Estados nacionais da regio [...].356

    Ricardo Salles, em Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na formao do

    exrcito, faz a seguinte crtica aos historiadores tradicionais e apologticos que trabalham a

    355 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op. Cit p. 20

    356 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Conflito [...] Op. Cit p. 10

  • 143

    Guerra do Paraguai: A verso tradicional enfatiza o ataque paraguaio ao Brasil e d pouca

    importncia ou cobertura interveno militar brasileira no Uruguai. Quando no apresentada

    como uma questo independente, esta mostrada como um ltimo recurso do governo

    imperial ao no ter atendidos seus pedidos de reparao s agresses sofridas por brasileiros

    no Uruguai.357

    E segundo nosso entendimento, como j estava avisado que se atacasse o

    Uruguai, sofreria represlias de Solano Lpez, pensamos que a interveno ao Estado Oriental

    no pode ser apresentado como uma ao independente. Tambm entendemos que essa no se

    deu somente em virtude das ofensas sofridas pelos sditos do Imprio em territrio oriental,

    mas tambm para manter a relao de dependncia desse pas para com o Imprio, bem como

    os privilgios dos grandes criadores rio-grandenses que l habitavam, como veremos

    oportunamente.358

    Segundo Francisco Doratioto, depois da Guerra do Paraguai, o pas guarani estava

    fortemente destrudo tanto em termos materiais como humanos, mas tambm quanto ao

    aspecto moral. Em Maldita Guerra, prope: Aps a morte de Solano Lpez, na batalha de

    Cerro Cor, em maro de 1870, e at fins do sculo XIX, no se questionava o ter sido ele um

    ditador que, lanou seu pas em guerra imprudente contra vizinhos mais poderosos. 359

    Doratioto absolutiza indevidamente esse estado de esprito e no assinala que logo depois da

    guerra, ainda sob ocupao brasileira, um novo governo colaboracionista assumiria o controle

    do Paraguai [Legionrios], impondo literalmente aquela verso. Verso que jamais se

    constituiu como nica e exclusiva, pois questionada, mesmo no explicitamente, por soldados

    e oficiais veteranos, segmentos populares prejudicados pela nova ordem, etc. Segmentos nos

    quais se apoiaria, a seguir, o revisionismo paraguaio, em todas as suas vertentes.

    Na obra citada, lemos: Em primeiro, de agosto de 1869, do governo provisrio

    paraguaio [sic], declarou Francisco Solano Lpez traidor da ptria e fora-da-lei, de 19 de

    maro de 1870, embargou seus bens e os de seus familiares, inclusive da concubina Elisa

    Lynch, por serem de origem bastarda e ilegtima, resultantes do enriquecimento custa de

    propriedades pblicas. Um terceiro decreto, de maio de 1870, transferiu os bens de Solano

    Lpez para o Estado e aqueles que constavam como sendo de Elisa Lynch, anteriores a

    doaes ou compras no perodo final da guerra, foram embargados e ela devia ser

    357

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit p. 17

    358 Essa relao existente entre os criadores rio-grandenses e os uruguaios podem ser bem analisadas em obras

    como: DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai.

    So Paulo: Companhia das Letras, 2002; ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay: y las montoneras

    argentinas. -1a Ed.- Buenos Aires: Punto de Encuentro, 2008.

    359 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [] Op. Cit p. 79

  • 144

    submetida a julgamento para esclarecer seu enriquecimento. [...] Bloquearam-se dessa

    maneira, estratagemas jurdicos que seus herdeiros pudessem utilizar para reclamar essas

    propriedades.360

    No podemos nos esquecer, no entanto, que nessa poca, o Paraguai estava, como

    mencionado, sob ocupao brasileira. Sob esse aspecto, o historiador argentino Jos Maria

    Rosa em seu livro La guerra del Paraguay: y las montoneras argentinas escreve que: Bajo

    la vigilancia brasilea, se establece formalmente en Asuncin un gobierno democrtico de tres

    paraguayos libres: Cirilo Rivarola, Carlos Lizaga y Jos Das de Bedoya, inmediatamente

    reconocidos como gobierno legal por los vencedores. [...] El mariscal quedaba fuera de la ley.

    Por lo tanto, se autorizaba a brasileos a cazarlo a travs de las cordilleras y las selvas. Caxias

    no quiso, o no pudo cumplir la sentencia; lo reemplazar el yerno del imperador, Gastn

    Mara de Orleans, conde dEu.361

    Os paraguaios livres eram os que haviam colaborado

    com as tropas aliancistas, muitos deles na Legio Paraguaia.

    As condies para o surgimento de uma nova corrente historiogrfica passam a ser

    identificadas na situao em que se encontrava o pas aps o conflito: economicamente

    arruinado, destrudo e com o moral baixssimo. Segundo as palavras do historiador Francisco

    Doratioto em seu livro Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai, a situao no

    pas guarani era a seguinte: No final do sculo XIX, o Paraguai era um pas pauprrimo do

    ponto de vista econmico, praticamente sem auto-estima do passado e carente de heris

    paradigmticos. O Paraguai era apresentado como pais de dspotas e derrotado em uma

    guerra da qual fora o agressor. Ao mesmo tempo, despontava uma gerao de estudantes

    universitrios e secundaristas poucos e concentrados em Assuno -, desejosos de construir

    uma sociedade melhor, mas sem encontrar um pensamento que, recuperasse a auto-estima

    nacional que rompesse o sentimento de inferioridade em relao s outras naes, e apontasse

    para a superao da realidade miservel. Esses jovens necessitavam de heris que

    encarnassem os valores, supostos ou verdadeiros, da nacionalidade paraguaia. A educao

    liberal oferecia-lhes quase unicamente a denncia do passado e dos anti-heris, os trs

    ditadores que governaram o pas at 1870.362

    A uma descrio que seria importante agregar

    que a misria enorme devia-se a destruio e saque posterior do Paraguai sobretudo pelo

    360

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [] Op. Cit p. 83

    361 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 268-269

    362 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p.80

  • 145

    Imprio e Argentina. Destaque-se a proposta simplista do autor de uma necessidade de

    heris ptrios.

    Doratioto, na obra citada, segue destacando que: Essas circunstncias viabilizaram o

    nascimento, no Paraguai, do revisionismo histrico da figura de Solano Lpez, tambm

    conhecido como lopizmo. Esse movimento buscou transformar a imagem de Solano Lpez de

    ditador, responsvel pelo desencadear de uma guerra desastrosa para seu pas, em heri,

    vtima da agresso da Trplice Aliana e sinnimo de coragem e patriotismo. O intelectual

    responsvel pelo nascimento do revisionismo foi Juan Emiliano OLeary que, por recuperar

    a memria do falecido ditador, passou a ser conhecido por El Reivindicador.363

    As pessoas responsveis pelo fortalecimento do mito em torno de Francisco Solano

    Lpez no Paraguai teriam sido as seguintes, segundo Doratioto: O revisionismo lopizta

    adquiriu fora nas dcadas seguintes. Em 1936, o coronel Rafael Franco, que ascendeu ao

    poder derrubando o presidente eleito Eusbio Ayala, editou decreto que tornava Solano Lpez

    heri nacional. Sob as trs dcadas da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-89), o lopizmo

    tornou-se onipresente, apoiado pelo Estado, e intelectuais que ousaram questionar a

    glorificao de Solano Lpez foram perseguidos e, mesmo, exilados. Afinal, Stroessner

    apresentava-se como continuador da obra do general Bernardino Caballero, fundador do

    Partido Colorado em 1887 e, nos anos da guerra, expoente do Exrcito paraguaio e homem de

    confiana de Solano Lpez. O revisionismo paraguaio construiu, de Caballero, uma imagem

    militarista e de protegido e herdeiro poltico de Solano Lpez.364

    Os historiadores italianos Manilio Cancogni e Ivan Boris em seu livro Solano Lpez o

    Napoleo do Prata, de 1970, escreve a respeito do resgate feito em torno do personagem

    Francisco Solano Lpez da seguinte maneira: Em toda a Amrica do Sul, El Mariscal vem

    ganhando nova fama. Se o Lopizmo no ainda uma doutrina, comea a ser moda,

    particularmente entre a burguesia intelectual, que no sculo passado emitiu os mais duros

    juzos sobre o tirano de Assuno. [...] hoje, alm da tenacidade e da fora de vontade

    (virtudes que sempre lhe foram reconhecidas at pelos seus adversrios), se lhe atribuem

    capacidade de organizao, fantasia poltica [sic] e patriotismo. Os conservadores e certos

    grupos que se ocultam sob a vaga roupagem de Izquierda Nacional o consideram um

    363

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 80

    364 Id. Ibid p. 86

  • 146

    precursor. Omitem-se as suas atrocidades, os erros fatais, a megalomania; recorda-se apenas o

    lutador pela independncia nacional.365

    O historiador paraguaio Juan E. OLeary escreve em seu livro El mariscal Lpez, de

    1921 as definies dadas e esse estadista: Hoy padre de la patria; maana puesto fuera de la

    ley; hoy Leopoldo americano, salvador de los argentinos; maana tirano monstruoso; hoy

    ejemplo de cordura y patriotismo para los hombres de Amrica; maana afrenta de la

    civilizacin del Nuevo Mundo; para ste, superior a Bolvar y San Martn; para aqul,

    autcrata sin entraas de un pueblo embrutecido; para unos, hroe de la patria y mrtir de la

    Repblica; para otros, tirano abominable; para unos, genio de la guerra; para otros,

    mediocridad infatuada; para ste, acero y oro; para aqul, miseria humana; mulo de

    Lenidas y monstruo de San Fernando; grande y pequeo, honrado y ambicioso, cruel y

    magnnimo, vctima y victimario366

    Ainda em Maldita Guerra, Doratioto escreve que na Amrica do Sul, teria havido

    condies que possibilitariam o surgimento de um sentimento em prol de Solano Lpez, como

    podemos ler no trecho que segue: Os pressupostos e concluses desse revisionismo sofreram

    forte influncia do contexto histrico em que foram escritos. As dcadas de 1960 e 1970

    caracterizaram-se, na Amrica do Sul, por governos militares. Uma forma de se lutar contra o

    autoritarismo era minando suas bases ideolgicas. Da, em grande parte, a acolhida acrtica e

    o sucesso em meios intelectuais do revisionismo sobre a Guerra do Paraguai: por atacar o

    pensamento liberal, por denunciar a ao imperialista, e por criticar o desempenho dos chefes

    militares aliados, quando um deles, Bartolom Mitre, foi expoente do liberalismo argentino, e,

    no Brasil, Caxias e Tamandar tornaram-se, respectivamente, patronos do Exrcito e da

    Marinha. Nota-se, ainda, nas entrelinhas de trabalhos revisionistas, a construo de certo

    paralelismo entre a Cuba socialista, isolada no continente americano e hostilizada pelos

    Estados Unidos, e a apresentao de um Paraguai de ditaduras progressistas e vtima da

    ento potncia mais poderosa do planeta, a Gr Bretanha.367

    Destaque-se na interpretao de Doratioto o j assinalado erro de cronologia. As

    interpretaes revisionistas da historiografia nacional-patritica do Brasil e da Argentina

    [implantadas tambm no Paraguai aps a ocupao do pas] no se organizam nas dcadas de

    1960. Em sentido lato, so contemporneas guerra e, em sentido estrito, sobretudo de incios

    365

    CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 1

    366 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit pp. 9-10

    367 CANCOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 87

  • 147

    do sculo 20, no Paraguai. Na prpria Argentina, aps a crtica sobretudo de J. B. Alberdi, a

    historiografia revisionista desenvolveu-se fortemente na dcada de 1950, antes do ciclo

    militar dos anos 1960 e 1970. Doratioto estende a todo o movimento revisionista fenmenos

    prprios ao brasileiro, surgido em forma muito tardia, a partir de meados dos anos 1970, com

    as tradues da obra de Manilio Cancogni e Ivan Boris, Solano Lpez: o Napoleo do Prata;

    de Veias abertas da Amrica Latina; de Leon Pomer e, sobretudo, com a edio a clebre

    reportagem jornalstica de Jlio Jos Chiavenato, Genocdio Americano: a guerra do Paraguai,

    de 1979.

    Como tambm assinalado, aquele movimento no se reduz ao lopizmo de J. E.

    OLeary, nem este ltimo deveu-se essencialmente ao seu aproveitamento pelo Partido

    Colorado, inicialmente, e pela ditadura paraguaia de mesma cor, a seguir. Aproveitamento

    certamente indiscutvel. O revisionismo paraguaio e as orientaes que tomou constituem

    movimento de razes mais complexas, que exige explicaes menos simplistas e redutoras. O

    revisionismo paraguaio articulou-se substancialmente a partir da necessidade objetiva e

    subjetiva, consciente, semi-consciente e inconsciente, de reinterpretao da enorme agresso

    nacional sofrida pelo pas, durante e talvez sobretudo aps a guerra, no contexto da

    impressionante e inesperada resistncia nacional e popular em defesa do pas e, certamente, da

    situao que a populao conhecia nele. Fenmenos que ensejou explicaes que apontavam

    para um heri prometeico, para a raa paraguaia, etc., ao sabor da influncias das foras

    sociais capazes de determinar o movimento de construes das representaes do passado.

    Destaque-se que nessa discusso jamais surgiu interpretao assentando a resistncia

    paraguaia essencialmente na deciso e interesses de sua populao.

    Destaque-se que, segundo Mrio Maestri, em toda sua obra magna, Maldita Guerra,

    de 2002, Doratioto no aponta para a necessria e imprescindvel crtica da diabolizao ou

    santificao dos personagens histricos. Na qual cairia, no relativo a Lpez, diabolizado, e

    dos patronos militares brasileiros, santificados! Como na literatura nacional-patritica,

    Francisco Solano Lpez apostrofado [por Doratioto] como ditador quase caricato,

    ambicioso, tirnico, quase desequilibrado. Desqualificao pessoal extensiva igualmente

    a Elisa Lynch, descrita e tratada como cortes de luxo, ao igual do praticado pelos idelogos

    do Imprio e da Argentina liberal mitrista. E, nesse estrada, o autor, sem peias, identifica

    Francisco Solano Lpez, em singular modernizao, a Hitler, ingnua personificao moderna

    da violncia da sociedade de classes na histria.

  • 148

    O que foi a Guerra do Paraguai?

    Conforme j pudemos analisar, se a Guerra do Paraguai foi desencadeada por

    interesses, tentaremos analisar agora que interesses poderiam ser esses e quem eram os

    interessados. Ento, levantaremos algumas polmicas como: qual foi o real incio do

    confronto? Quem queria essa guerra? Quais os resultados dela para os envolvidos? Essas

    perguntas ns pretendemos responder, nem que seja de maneira sucinta.

    Antes de iniciarmos nossos estudos, interessante ressaltar que a rivalidade entre

    governos portugus e espanhol (representantes das classes dominantes desses pases), existia

    desde os perodos coloniais, causando inmeras disputas no que tange s fronteiras. Essa

    questo teria sido uma das causas que teria levado o Imprio a declarar guerra ao Paraguai,

    sendo que a fronteira entre esses dois pases, alm da navegao deram origem a disputas

    entre os dois governos. Segundo Jorge Caldeira, no livro Mau: empresrio do Imprio, de

    1995: Como os dois povos no conseguiam ocupar o mesmo lugar no espao, as diferenas

    se resolviam a bala. A divisa ficava no lugar determinado pelo ltimo combate, at que uma

    nova investida ou um novo tratado de paz negociado na Europa modificasse a situao. Nos

    150 anos anteriores guerra de 1801, os limites do Sul do Brasil se moveram como um fole.

    Em vrias ocasies, os portugueses tiveram, entre 1680 e 1777, um enclave fincado no limite

    que queriam: a Colnia do Sacramento, instalada margem do Prata bem em frente a Buenos

    Aires. Empurrando-os para longe, os espanhis chegaram a tomar a ilha de Santa Catarina, em

    1777, ficando bem perto de realizar seu intento. Mas nenhum dos dois lados conseguia

    consolidar as vitrias, e a fronteira alterava-se aps cada investida bem-sucedida do

    adversrio, at ser de novo empurrada para mais adiante.368

    Basicamente podemos dizer que a Guerra do Paraguai foi um confronto envolvendo

    exrcitos do Brasil, da Argentina, do Uruguai e o do Paraguai e, de certo modo, foi, ao mesmo

    tempo, parte da guerra civil uruguaia e argentina. Entretanto, devemos ter em mente que no

    foram as naes que se enfrentaram, mas sim exrcitos nacionais em obedincia aos governos

    que no eram porta-vozes diretos de suas populaes e, em alguns casos, sequer da totalidade

    de suas classes dominantes. No Brasil tnhamos um Imprio onde uma enorme parte da

    populao sobretudo trabalhadora vivia escravizada e o voto era censitrio no Uruguai e na

    Argentina, havia uma forte diviso social no quanto ao apoio dos imperiais e ao Paraguai.

    Tambm podemos concluir que foi o maior confronto envolvendo os pases latino-americanos

    368

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 37

  • 149

    apenas pelo tempo de durao [1865-1870]. claro que com esses marcos temporais, estamos

    partindo do princpio que a Guerra do Paraguai principiou com a assinatura do Tratado da

    Trplice Aliana.

    Seguindo o raciocnio de Francisco Doratioto, foi paradoxal para o Imprio, pois

    marcou seu apogeu e ao mesmo tempo, foi um dos fatores que teria precipitado sua queda.

    Esse conflito marcou o apogeu e, paradoxalmente, est entre os fatores que levaram ao fim

    do Estado monrquico brasileiro. Com ele o Imprio demonstrou sua capacidade de travar

    uma guerra com caractersticas inditas que o obrigaram a mobilizar recursos humanos e

    materiais em larga escala.369

    Porm, trata-se de proposta discutvel. Temos um quarto de

    sculo entre o comea da guerra e o fim da monarquia e esta ltima parece dever-se sobretudo

    ao fim da escravido, no havendo liame clara entre os dois eventos. O enorme perodo e

    gastos para se sobrepor a uma pequena nao tornam igualmente discutvel a proposta de que

    o Imprio demonstrou capacidade de gerenciamento de uma guerra em larga escala.

    Em seu livro Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai, Doratioto define

    a Guerra do Paraguai nos seguintes termos: Foi o conflito externo de maior repercusso para

    os pases envolvidos, quer quanto mobilizao e perda de homens, quer quanto aos aspectos

    polticos e financeiros. [...] A Guerra do Paraguai repercutiu na consolidao dos Estados

    nacionais argentino e uruguaio; foi o momento de apogeu da fora militar e da capacidade

    diplomtica do Imprio, mas, de forma paradoxal, contribuiu para o acirramento de

    contradies do Estado monrquico, enfraquecendo-o. O Paraguai, por sua vez, tornou-se a

    periferia da periferia, na medida em que sua economia se tornou satlite da economia da

    Argentina aps o trmino do conflito.370

    O jornalista Jlio Jos Chiavenato em seu livro O negro no Brasil. Da senzala

    Guerra do Paraguai, escrito em 1980, define a Guerra do Paraguai nos seguintes termos: A

    Guerra do Paraguai foi uma guerra de extermnio contra o nico povo livre da Amrica do

    Sul. O Paraguai era uma republica autnoma desde 1811, que no tinha dvida externa, que

    no tomava emprstimos e no precisava importar nada para o seu consumo. Quebrava assim

    o modelo de explorao imposto pelo imperialismo ingls. Com uma situao geogrfica

    incomoda, espremido entre o Brasil, a Bolvia e a Argentina tendo como nico aliado em

    1864 o Uruguai, um pas fraco cujas fronteiras eram freqentemente invadidas pelas tropas

    regulares do Rio Grande do Sul, para roubo de gado a pretexto de defender os proprietrios

    369 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 7

    370 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit pp. 17-18

  • 150

    brasileiros ali estabelecidos. Vtima da cobia do Imprio e da Argentina, ameaado durante

    toda a sua histria pelos grandes pases do continente, pela estruturao da sua economia e

    recolhimento poltico, que se aliaram a uma equilibrada diviso entre trabalho e renda uma

    soluo quase socialista [sic] e perfeita para as condies e a prpria poca -, mas

    despreparado diplomaticamente para enfrentar os representantes do imperialismo ingls, o

    Paraguai teria que sofrer na agudizao do processo espoliativo contra a Amrica do Sul a

    violncia das submetrpoles britnicas.371

    No devemos julgar o que os diferentes autores escreveram como totalmente correto

    ou errado. fato que o confronto envolveu naes em processo de formao, com disputas

    entre faces rivais em seu plano interno e ainda buscando uma hegemonia no plano platino.

    No podemos dizer no entanto que no havia o menor interesse dos ingleses na guerra, j que

    sempre se mobilizou contra o Paraguai, como estudaremos oportunamente. Ainda que

    indiscutivelmente as razes do conflito foram essencialmente regionais, determinadas pelos

    projetos de hegemonia do Imprio e da Argentina. J nos referimos igualmente

    caracterizao da ordem nacional paraguaia como socialista ou quase socialista.

    Quando iniciou a Guerra do Paraguai?

    O segundo ponto que analisaremos qual o incio da Guerra do Paraguai propriamente

    dito. H divergncias quanto ao fato que deu incio ao conflito. Tambm quanto declarao

    de guerra. Foi o Imprio juntamente com a Argentina e o Uruguai que declararam guerra ao

    Paraguai com a formao da Trplice Aliana ou o Paraguai que o fez aps a invaso

    brasileira ao territrio oriental?

    Em trecho j citado do livro Conflito com o Paraguai, Doratioto considera que a

    Guerra do Paraguai se deu entre 1865 e 1870. Sendo assim, o historiador considera como a

    historiografia nacional-patritica que este conflito ocorreu a partir da assinatura do Tratado da

    Trplice Aliana, ocorrido em primeiro de maio de 1865. Entretanto, o aprisionamento do

    navio Marquez de Olinda e a invaso ao Mato Grosso se deram em 1864 e, sobretudo, a

    interveno imperial no Uruguai, em coordenao com a invaso de Venncio Flores,

    igualmente apoiada pela Argentina mitrista, iniciou-se em 1863.

    Para Jos Maria Rosa, entretanto, a Guerra do Paraguai foi o desfecho de uma ao

    que vinha se processando na regio, avanada pela Argentina de Mitre e do Imprio de dom

    Pedro, iniciada com a queda de Oribe e Rosas. Em seu livro La guerra del Paraguay: y las

    371

    CHIAVENATO, Jlio Jos. O negro no Brasil. [...] Op Cit p. 195

  • 151

    montoneras argentinas, escrito em 1985, o historiador argentino define os marcos que para ele

    constituem a Guerra do Paraguai: La guerra del Paraguay fue un eplogo. El final de un

    drama cuyo primer acto est en Caseros el ao de 1852, el segundo en Cepeda el 59 con sus

    ribetes de comedia el pacto de San Jos de Flores el 11 de noviembre de ese ao, el tercero en

    Pavn, en 1861 y las expediciones punitivas, al interior, el cuarto en la invasin brasilea y

    mitrista al Estado Oriental con la epopeya de la heroica Paysand y el quinto y desenlace en

    larga agona de Paraguay entre 1865 y 1870 y la guerra de montoneras en la Argentina de

    1866 al 68.372

    Ento nos perguntamos: o que levou o governante do Paraguai Francisco Solano

    Lpez a atacar o territrio brasileiro? Quais as implicaes por trs dessa atitude? Como

    sabemos, para Jlio Jos Chiavenato, a Guerra do Paraguai fora planejada pela Inglaterra, tese

    largamente impugnada. O jornalista brasileiro na obra j citada escreve que: A guerra foi

    planejada pelos ingleses, que elaboraram o Tratado da Trplice Aliana, que alis uma farsa.

    Este tratado, formalmente assinado em 1 de maio de 1865, j estava pronto h mais de um

    ano, esperando a ocasio em que os ingleses decidissem us-lo para fazer a guerra ao

    Paraguai.373

    O historiador argentino Jos Maria Rosa escreve que o Imprio e a Argentina

    buscavam entendimento com um tratado de comrcio e sua obedincia pelo Paraguai. Em seu

    bojo o tratado trazia facilidades para o Brasil, no caso de uma guerra contra o Uruguai e o

    Paraguai. Registro de uma interveno-guerra planejada com anterioridade: [] el 7 de

    marzo de 1856 se firm el tratado de amistad y navegacin argentino-brasileo donde se

    estipulaba la libertad de Brasil para actuar en el Paraguay y Repblica Oriental, y tambin

    para navegar los ros Paran, Uruguay y Paraguay tanto embarcaciones mercantes como de

    guerra (art. 14), obligndose a emplear los medios a su alcance para que la Repblica del

    Paraguay adhiriera a las estipulaciones que preceden (art.20). Por las dudas de una guerra

    paraguayo-brasilea, quedaba permitido el trnsito y abastecimiento de la escuadra imperial

    por el Paran sin sufrir molestia (art.19). Adems, la Confederacin neutralizaba Martin

    Garca para mejor seguridad de la navegacin brasilea (art. 18).374

    Francisco Doratioto, em seu livro Maldita Guerra, a respeito deste Tratado escreve

    que: Ao propor ao governo argentino a aliana contra o Paraguai, Paranhos reivindicava a

    372

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 11

    373 CHIAVENATO, Jlio Jos. O negro no Brasil. [...] Op Cit p. 195

    374 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit pp. 33-34

  • 152

    aplicao do Tratado de 1857, assinado entre a Confederao Argentina e o Imprio. Por esse

    documento, os dois pases se comprometiam a agir de comum acordo se o governo paraguaio

    atacasse um deles.375

    Em verdade, tratava-se de tratado defensivo-ofensivo, firmado aps a

    expedio naval imperial do Imprio contra o Paraguai.

    O historiador brasileiro Moniz Bandeira, em seu livro O expansionismo brasileiro e

    a formao dos estados na Bacia do Prata: da colonizao guerra da trplice aliana, de

    1995 ressalta oportunamente que ainda havia questes econmicas entre o Imprio e o

    Paraguai. Assim: A erva-mate produzida no Brasil, principalmente, ocupara todos os

    mercados que o Paraguai perdera durante o longo perodo em que Buenos Aires, para anex-

    lo, e Francia, com o intuito de manter sua autonomia, conservaram-no enclausurado. Suas

    exportaes para Buenos Aires e Montevidu era volumosas. [...] Sob certo aspecto, a

    situao configurou-se ainda mais grave para o Paraguai, por constituir a erva-mate o item

    fundamental, quase absoluto, de sua pauta de exportaes, do qual a acumulao de capital e a

    correlata militarizao do pas, em larga medida, dependiam. [...] Era inevitvel, por

    conseguinte, que as tenses entre o Paraguai e o Imprio se reacendessem, tanto mais quanto

    outros acontecimentos sobrevieram, concorrendo para exacerbar, interna e externamente, as

    posies em todos os pases da Bacia do Prata.376

    Era preciso romper o isolamento que caracterizou o pas guarani na primeira metade

    do sculo 19. Francisco Doratioto em Maldita Guerra coloca nos seguintes termos a situao

    do Paraguai poca de Carlos Antonio Lpez: A ao no sentido de aumentar sua presena

    no Prata colocou Assuno em rota de coliso com o Imprio. Este buscava manter o status

    quo platino, que se caracterizava pelo desequilbrio favorvel ao Brasil, hegemnico na rea

    por ter sido, at ento, vitorioso em influir sobre os Estados da regio, por meio de um

    sistema de alianas. A falta de definio de limites era um elemento visvel de tenso entre o

    Paraguai e o Imprio.377

    Destaque-se, como visto, que a hegemonia do Imprio no Prata fora

    construda sobretudo atravs de concorrncia de aes militares e tratados diplomticos,

    impostos sobretudo Argentina e ao Uruguai. Apenas o Paraguai escapava poltica

    expansionista imperial.

    Segundo Doratioto, na obra citada, a situao no Uruguai seria a responsvel pela

    ecloso do maior conflito militar da Amrica do Sul. Ele escreve nos seguintes termos: O

    375

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 72

    376 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 169-170

    377 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 44

  • 153

    elemento catalisador de todas as divergncias foi a situao poltica no Uruguai, sob a

    presidncia, desde 1860, de Bernardo Berro. O porto de Montevidu apresentava-se como

    concorrente de seu congnere de Buenos Aires, pois Entre Rios e Corrientes dele se

    utilizavam como variante comercial para suas exportaes. Desse modo, a Repblica uruguaia

    estabeleceu relaes com a resistncia federalista contra Mitre.378

    Destaque-se mais uma vez

    a necessidade de precisar esse processo: a ecloso no se deveu situao poltica do

    Uruguai, como proposto por Doratioto, mas s polticas de hegemonia das classes dominantes

    bonaerenses, de um lado, e do Imprio, do outro, que promoveram em forma articulada a

    queda do governo constitucional uruguaio, atravs de interveno militar. Ao orientada

    igualmente contra o Paraguai, como tambm visto.

    Jos Maria Rosa ressalta o aviso explcito da diplomacia paraguaia para o caso de uma

    invaso imperial ao territrio do Uruguai. Ele deixava claro que uma interveno armada ao

    Estado Oriental seria encarado como uma declarao de guerra. O que, se correto, no

    deixaria dvidas a que o Imprio em aliana com a Argentina mitrista criaram as

    condies para que o Paraguai fosse obrigado a declarar guerra ao Imprio e, ao atravessar o

    territrio argentino, para apoiar o governo uruguaio, Argentina.379

    Todavia, Doratioto, em A

    Guerra do Paraguai, assim como em seus outros trabalhos, relata que a ameaa no teria

    sido levada a srio. Assim, os imperiais levaram a cabo sua poltica para o Uruguai e as

    esquadras comandadas por Tamandar adentraram no territrio uruguaio no levando a srio

    o aviso paraguaio.380

    Corroborando a idia de que o Imprio se preparava conscientemente para uma guerra

    contra o Paraguai, o historiador paraguaio Juan Emiliano OLeary, em seu livro El Mariscal

    Lpez, de 1921 que: Ya hemos dicho que la guerra al Paraguay para que le se preparaba

    desde 1858, segn el barn de Ro Branco fue considerada necesaria en el ao de 1862.381

    Portanto, ficava claro que a interveno imperial contra o governo constitucional

    uruguaio equivalia entrar em guerra com o Paraguai. No aceitvel que com todos os avisos,

    com toda a movimentao, com toda a diplomacia imperial, com o aviso explcito da

    diplomacia paraguaia, o governo imperial no levasse a srio as conseqncias da interveno

    militar no Uruguai. Com os dados mo, fica meridianamente claro que o Imprio teria

    378

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 45

    379 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 92

    380 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A Guerra do Paraguai. [...] Op Cit pp. 204-205

    381 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 130

  • 154

    procurado conscientemente a guerra com o Paraguai, ao intervir no Uruguai, ou considerado

    que aquele governo no respeitaria a aliana acordada com o governo blanco, o que pouco

    provvel.

    Portanto, fica a pergunta: como o governo imperial teria dado pouca importncia

    oposio peremptria paraguaia invaso do Uruguai? Resposta que Doratioto tenta dar em

    Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai, apoiando-se em questo marginal, ao

    propor que a ameaa que o Paraguai de Francisco Solano Lpez representava teria sido

    minimizada principalmente pela carncia de bons chefes militares guaranis. Nesse caso, o

    Imprio no teria dado pouca importncia ao aviso paraguaio das conseqncias da invaso

    do Uruguai. Teria, isso sim, se despreocupado com o resultado da guerra certa causada por

    aquela interveno, ao considerar que a venceria facilmente, sobretudo em aliana com a

    Argentina. 382

    O historiador argentino Jos Maria Rosa concorda com a tese de que a interveno

    imperial no Uruguai seria o primeiro passo para a destruio do Paraguai. Ou seja, encara esse

    ato como o incio da Guerra do Paraguai. Assim como a invaso pela Alemanha nazista da

    Polnia vista como o incio da II Guerra Mundial. Empezaba una guerra civil. Pero esta

    vez sera algo ms que una contienda entre colorados y blancos para disputarse la

    preeminencia poltica de sus fracciones a cargas de lanza. Ese 19 de abril se prendera la

    chispa de un incendio donde vendran a quemarse Brasil y la Argentina en apoyo de Flores, y

    Paraguay en socorro del gobierno legal. Los cuatro hombres llegados de Buenos Aires al

    Rincn de la Gallinas en las Brumas de un amanecer iniciaran una masacre que costara

    cientos de miles de vida y el aniquilamiento de las ms prspera repblica sudamericana.383

    Sobre o incio da Guerra do Paraguai, o historiador Robert Conrad, em Os ltimos

    anos da escravatura no Brasil, de 1978, escreve que: Em outubro de 1864, o exrcito

    brasileiro interveio numa disputa interna no Uruguai, fazendo com que o Presidente do

    Paraguai, Francisco Solano Lpez atacasse o Brasil, levando o Imprio a um conflito que viria

    a durar at a morte de Lpez em 1870.384

    O historiador argentino Miliciades Pea, em seu livro La era de Mitre: de Caseros a

    la Triple Infamia, de 1968, se junta aos que escrevem que o ataque imperial ao territrio

    382

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 62

    383 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 94

    384 CONRAD, Robert. Os ltimos anos da escravatura no Brasil [...] op Cit 1978 p. 93

  • 155

    uruguaio marcou as primeiras hostilidades da Guerra do Paraguai, sendo este o marco inicial

    da guerra. Assim, podemos ler no trecho que se segue: El ataque contra el Paraguay comenz

    en realidad por el ataque contra el ltimo aliado que le quedaba en el Plata despus de la

    derrota del Interior argentino y la neutralizacin del Litoral por el acuerdo de Urquiza con

    Mitre. Se trataba del gobierno uruguayo, por aquel entonces en manos del partido blanco,

    versin oriental del federalismo argentino. El Imperio brasileo y la oligarqua portea

    coincidieron en aplastar a este gobierno como primer paso de la destruccin del Paraguay, y

    procedieron con mtodos diversos, pero coincidentes: Brasil invadiendo el pas por mar y

    tierra, Mitre armando una revolucin encabezada por Venancio Flores, uno de los uruguayos

    que haban secundado a Mitre en su campaa de exterminio contra las masas del Interior

    argentino.385

    Como visto, o pretexto para a invaso imperial ao Estado Oriental teria sido os maus

    tratos sofridos pelos brasileiros residentes no norte do Uruguai, onde possuam enormes

    propriedades de terras e se comportavam como se vivessem no Imprio. Miliciades Pea

    escreve: [] las fuerzas armadas brasileas invadiesen un pas para proteger a ciudadanos

    brasileos que se haban radicado en este pas pero se negaban a aceptar sus leyes y, ms an,

    pretendan que el gobierno uruguayo devolviera a los explotadores brasileos los esclavos que

    fugaban y se refugiaban en el Uruguay.386

    E o citado autor afirma peremptoriamente que a invaso uruguaia teria sido o incio da

    Guerra do Paraguai nos seguintes termos: El golpe brasileo contra Uruguay era, a la vez

    que la primera fase de la accin contra el Paraguay, una directa provocacin contra el

    gobierno guaran. Paraguay decidi defender al gobierno del Uruguay y pegar primero,

    declarando la guerra al imperio donde nunca terminaba el carnaval. Era lo que procuraban los

    propietarios de esclavos del Brasil.387

    Em O expansionismo brasileiro e a formao dos Estados na Bacia do Prata: da

    colonizao guerra da Trplice Aliana, de 1995, Moniz Bandeira escreve que a situao da

    economia uruguaia era extremamente frgil em 1851, e o pas encontrava-se na condio de

    quase um protetorado do Imprio, graas aos tratados draconianos assinados por Andrs

    Lamas em 1851, aps a interveno militar imperial na regio.388

    Alm dos atos de

    385

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit pp. 63-64

    386 Id. Ibid p. 69

    387 Id. Ibid p. 70

    388 BANDEIRA, Moniz. O expansiosnismo brasileiro [...] Op Cit p. 113

  • 156

    pilhagem, as califrnias, os brasileiros retiravam, sistematicamente, o gado do Uruguai, sem

    pagar qualquer imposto aduaneiro, para abastecer as charqueadas do Rio Grande do Sul [...]

    Eles ocupavam uma faixa extensa e frtil do Uruguai, ao longo da fronteira com o Brasil,

    onde mantinham campos de criao e engorda de gado. [...] Cerca de 428 estncias,

    pertencentes a brasileiros, abrangiam a superfcie de 1.782 lguas quadradas, o equivalente a

    30% do territrio do Uruguai.389

    Segundo Bandeira, a invaso do territrio oriental, em 1864, pelo governo imperial,

    atendia a interesses econmicos e estratgicos dos grandes proprietrios escravistas. Os

    colorados eram mais flexveis aos interesses imperiais, permitindo restaurar a antiga situao

    de semi-protetorado. Alm do mais, no convinha aliana entre Montevidu, Paran e

    Assuno. A Mitre, tambm interessava um aliado-subordinado em Montevidu, de modo a

    garantir a hegemonia porturia de Buenos Aires, conter a Urquiza e as montoneras do interior.

    Assim, derrotar o Paraguai, seria acabar com um estmulo para as tendncia federalistas ainda

    vigorosas. 390

    Por outro lado, os liberais e bonaerenses esperavam com a guerra reduzir o

    Paraguai antiga situao de provncia, projeto perseguido desde 1811.

    Em 1864, o governo imperial, como se sabe, enviou um ultimtum ao governo

    uruguaio de Aguirre tendo como pretexto os maus tratos sofridos pelos cidados brasileiros

    residentes no Uruguai. J sabemos que na verdade eles retiravam o gado do Estado Oriental

    sem pagar tributos e no obedeciam as leis locais e podiam at mesmo utilizar o trabalho

    escravizado em um pas onde essa forma de explorao j no mais existia, devido extino

    da escravatura em 1842! Contudo, Bandeira ressalta qual a verdadeira inteno do governo

    imperial ao enviar o citado ultimtum. O objetivo da misso era evidentemente, criar

    condies polticas e justificar a invaso do Uruguai [...].391

    No se queria discutir, contornar

    uma situao, criava-se apenas as razes para a interveno.

    Vimos no captulo que versa sobre a situao do Uruguai nas vsperas da Guerra do

    Paraguai, que o Imprio havia mandado, por intermdio de Saraiva, ultimato exigido a

    reparao de supostos maus tratos sofridos por cidados brasileiros residentes no Estado

    Oriental, uma clara desculpa para criar condies para interveno imperial na Repblica

    Uruguaia. Lpez se via obrigado a tomar alguma iniciativa, conforme escrevem Cancogni e

    389 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit pp. 113-114

    390 Id. Ibid p. 172

    391 Id. Ibid p. 178

  • 157

    Boris: A notcia do ultimato brasileiro chegou ao conhecimento de Lpez no dia 24 de

    agosto, confirmando sua convico de que portanto, era chegada a hora de intervir. Enquanto

    se aceleravam os preparativos militares, encarregou Berges de mandar uma nota ao ministro

    brasileiro em Assuno Csar Sauvan Vianna de Lima para comunicar-lhe que o Paraguai

    jamais permitiria a ocupao mesmo temporria, da Banda Oriental. No fim da nota, o

    Paraguai eximia-se de toda a responsabilidade pelas conseqncias de qualquer ato de fora

    praticado pelo Brasil visando alterao do equilbrio na regio do Prata. Vianna de Lima

    respondeu que o Brasil agia em defesa de seus sagrados direitos. Berges replicou advertindo o

    ministro brasileiro de que se o Brasil levasse adiante seus ataques, o Paraguai levaria seus

    protestos a termos concretos.392

    Ou seja, dificilmente o Imprio no levou a srio essas

    afirmaes positivas.

    O que teria levado o governo paraguaio a interferir na questo entre o Imprio e o

    Uruguai, sendo que aparentemente nada tinha a ver com ela? Em El Mariscal Lpez, o

    historiador paraguaio OLeary cita a J.B. Alberdi: Montevideo es al Paraguay, por su

    posicin geogrfica, lo que es al interior del Brasil: la llave de su comunicacin con el mundo

    exterior. Tan sujetos estn los destinos del Paraguay a los de la Banda Oriental, que el da que

    el Brasil llegue a hacerse dueo de este pas, el Paraguay podra considerarse como colonia

    brasilea, aun conservando su independencia nominal. Esta identidad de causa entre el

    Paraguay y el Uruguay resulta probada por el manifest en que el Brasil acaba de anunciar a

    los pases amigos su determinacin de hacer la guerra al Paraguay.393

    Segundo o principal intelectual e analista federalista da poca, Paranhos reconheceria

    na nota que la cuestin de lmites era la causa principal de la contienda. Esa cuestin,

    que ya dos veces en los ltimos aos puso las armas en las manos del Brasil y que no est

    resuelta todava es la que quiere resolver de hecho, tomndole o Paraguay a la ventaja que l

    le lleva de estar ms debajo de Mato Grosso, con la ocupacin de la Banda Oriental que es la

    llave de la navegacin exterior del Paraguay. He aqu por qu el Paraguay ha visto en peligro

    inminente su libertad de navegacin desde que ha visto al Brasil en camino de apoderarse del

    Uruguay, como ya hizo en 1820. La complicidad de Buenos Aires con el Brasil en la

    ocupacin de la Banda Oriental no hace sino ms amenazante para el Paraguay la actitud del

    Imperio.394

    392

    CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit p. 47

    393 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 20

    394 CANCOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [...] Op Cit pp. 142-143

  • 158

    Dessa forma, a questo em torno da invaso imperial Cisplatina interessava

    diretamente a Solano Lpez, interessado em manter a independncia paraguaia, bem como

    suas relaes com o resto do mundo. Segundo OLeary: Fue en tales circunstancias cuando

    Solano Lpez dirigi al ministro brasileo en Asuncin la clebre protesta del 30 de agosto de

    1864. En ella invitaba al Brasil a no hacer efectivas las amenazas contenidas en el ultimtum

    de Saraiva, declarando que su Gobierno no podra consentir en la ocupacin militar del

    Uruguay, porque este hecho seria atentatorio al equilibrio del Rio de la Plata, que interesaba

    al Paraguay como garanta de su seguridad, protestando, desde ya, contra tal acto, y

    desagradndose de la responsabilidad de las ulterioridades de aquella declaracin.395

    Como Bandeira, Milcades Pea e Jos Maria Rosa, Jorge Caldeira concorda com a

    viso de que Mitre estaria interessado em criar as condies para o Imprio intervir no

    Uruguai e no Paraguai, para alcanar seus propsitos. Os alvos foram logo definidos: o

    Uruguai, sempre o Uruguai, com seu porto concorrente e ameaa permanente para o

    monoplio da capital sobre as provncias do interior, e tambm o Paraguai, uma espcie de

    fortaleza permanente da poltica federalista, nao obrigada a se fechar contra o exterior como

    forma de sobreviver ameaa eterna do barramento de sua nica via de comunicao com o

    mundo, o rio que passava por Buenos Aires. Para cada um desses adversrios Mitre preparou

    uma poltica bem a seu estilo: efetiva, maquiavlica ao extremo, com mensuras na superfcie e

    golpes por baixo da mesa. 396

    Segundo Caldeira, longe de manter sua neutralidade, Mitre teria manipulado a ao no

    Uruguai, atravs de Venncio Flores, possibilitando a queda de Oribe. As aes contra o

    Uruguai, apesar da permanente proclamao de neutralidade em relao aos seus

    adversrios do governo uruguaio viviam em Buenos Aires, e Mitre empregava alguns em seus

    prprios exrcitos. Deixando-os soltos para conjurar embora sempre afirmando ao governo

    uruguaio seu mais total apoio legalidade o presidente argentino comeou a alimentar um

    clima de tenso entre os dois pases. Um desses emigrados lhe interessava especialmente:

    Venncio Flores, ex-presidente da Repblica, e homem estreitamente ligado aos fazendeiros

    do interior mas tambm aos gachos [sic] [fazendeiros] do Rio Grande do Sul, pois estivera

    ao lado deles nos tempos da Revoluo Farroupilha. Alimentando seus projetos, Mitre

    estimulou-os a buscar apoio no interior, fornecendo uma base de apoio discreta e cuidando

    com carinho de todos os pedidos. E quando sentiu alguma chance, apesar de todas as suas

    395

    OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. pp. 144-145

    396 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 403

  • 159

    proclamaes de neutralidade, armou, equipou e fez desembarcar o exrcito guerrilheiro de

    Flores no territrio uruguaio, em abril de 1863.397

    A referncia do autor a Bartolom Mitre

    circunscreve no apenas a figura do presidente da Argentina, mas principalmente classe

    econmica que ele representava, os comerciantes da oligarquia importadora de Buenos Aires

    e, secundariamente, os grandes criadores e charqueadores bonaerenses.

    Caldeira escreve que o presidente argentino teria manipulado o governo imperial,

    levando-o a atacar os uruguaios, alegando que a honra do pas havia sido ferida. Alm disso,

    teria explorado uma rivalidade latente existente entre Mau, que defendia o progresso pela

    industrializao com o Imperador, que acreditava em uma poltica mais conservadora, ligada

    agricultura monocultora e escravista de exportao, e o banqueiro, que queria a paz e o

    reerguimento da economia uruguaia, onde tinha enormes interesses. [...] em janeiro, mandou

    um emissrio especial, o embaixador Marml, ao Rio de Janeiro. Sua misso: dizer ao

    imperador que, embora neutra, a Argentina veria com muito bons olhos uma interveno

    brasileira no Uruguai que salvasse a honra ferida do imperador e os direitos ofendidos dos

    brasileiros. E para oferecer argumentos adicionais contra o maior inimigo brasileiro do

    projeto, tratou de intrig-lo: mandou publicar algumas cartas secretas de Mau a Flores e ao

    governo argentino, escritas na poca em que tentava o acordo de paz. O contedo dessas

    cartas era pouco claro, mas isto vinha a propsito para sustentar a interpretao de que o

    banqueiro metia o nariz onde no deveria [...]. Enquanto colhia resultados no Brasil, Mitre

    reforou a poltica de provocaes e pequenos incidentes diplomticos no Uruguai para ter

    mais munio nas manobras de acossar o governo vizinho e vender ao governo brasileiro a

    verso de que eles, e no os argentinos eram os agressores na regio. Quando vinham

    reclamaes uruguaias, manifestava sempre sua mais completa neutralidade nas questes

    internas do pas e mandava cpias delas para Mrmol usar no Brasil.398

    Destaque-se que,

    como vimos, o governo imperial tinha enormes interesses na interveno no Uruguai e na

    submisso do governo paraguaio.

    O Brasil estaria em uma crise econmica aps a poltica de Itabora de restringir a

    circulao de moedas, contrariando a idia de Mau. A poltica econmica do gabinete

    conservador liderado por Itabora se revelou completamente equivocada. A restrio

    circulao de moedas demonstraram que o Imprio marchara em direo crise que estourou

    na metade da dcada de 1860 com a falncia da casa bancria de Antnio Jos Alves Souto.

    397 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit pp. 403-404

    398 Id. Ibid p. 410

  • 160

    Junto com a casa Souto muitas outras empresas seguiram o caminho da falncia e at Mau

    acabou sendo chamuscado pelo incndio. O governo teve de esquecer a poltica conservadora

    de conteno elaborada por Itabora e emitir dinheiro. Mas do Prata vieram notcias que

    mudaram as atenes do pas. Uma delas foi a vitria de Flores em 20 de fevereiro de 1865.

    Mas uma notcia ainda iria ser, para muitos, a sua salvao. A apreenso do navio Marqus de

    Olinda em 12 de novembro de 1864 por ordens do presidente paraguaio Solano Lpez.

    Notcia tambm, que muito convinha ao presidente argentino Mitre.399

    Seguindo o ponto de vista de Caldeira, a invaso do Mato Grosso por Lpez no teria

    sido uma agresso pura, mas sim um ato de defesa depois da queda de Oribe. O presidente

    do Paraguai, Francisco Solano Lpez, era a grande vtima da invaso. Sem o Uruguai, temia

    cair de vez em mos argentinas; com o rio aberto, temia o progresso do Mato Grosso,

    concorrente em tudo o que produzia. Para se livrar dos perigos, ousou: invadiu o Mato Grosso

    e a Argentina. No eram grandes invases, mas mais escaramuas de fronteira, que em outras

    circunstncias se resolveriam facilmente depois de umas tantas conversas diplomticas. Mas

    naquele momento, transformaram-se na grande oportunidade para desviar a ateno da crise,

    calar as discusses que comeavam, suspender a corrente mudancista, revigorar a fora dos

    amigos do governo. A poltica de agir para fora para livrar-se das discusses internas se

    justificavam mais do que nunca. O prprio imperador, depois de duas dcadas e meia de um

    governo entremeado por conferncias e deleites intelectuais, sentiu que tinha de agir

    pessoalmente para fazer o desvio [...]. No que ele gostasse muito da idia, mas sabia que no

    poderia ser diferente. Era melhor jogar o futuro de seu reinado nesta aventura que enfrentar a

    borrasca em casa.400

    Segundo Caldeira, para o Imperador convinha manter as atenes contra um inimigo

    externo, pois assim, os erros da poltica interna ficariam camuflados. Se bem que as

    necessidades polticas conjunturais do Imprio contriburam certamente para a guerra, no

    foram certamente as determinantes, em um processo que, como vimos, expressava polticas e

    necessidades gerais e antigas do grande Estado escravista.

    Tambm para Bandeira as reivindicaes do Paraguai sobre o Mato Grosso no eram

    despidas de razo, pois haviam sido terras claramente pertencentes aquele pas, no perodo

    colonial, ocupadas pela expanso da fronteira luso-brasileira. Dando lastro a essa assertiva,

    em seu livro El Mariscal Lpez, o historiador paraguaio Juan Emiliano OLeary escreve que

    399 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit pp. 420-422

    400 Id. Ibid pp. 422-423

  • 161

    quando da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso [1777] entre Portugal e Espanha, os

    territrios ocupados pelos portugueses foram devolvidos ao Paraguai. Seus domnios

    avanariam a sul dos limites do Mato Grosso. A partir daquele momento, os paraguaios

    seriam donos daquela regio territorial de fato e de direito. No entanto, sucessivamente, o

    Estado portugus, luso-brasileiro, e brasileiro sempre quiseram estender seus domnios at o

    rio Apa.401

    O encontro em Puntas Del Rosario

    Em 1864, h encontro em Puntas Del Rosario entre o argentino Rufino Elizade, o

    brasileiro Saraiva e o uruguaio Venncio Flores, que teria sido o momento em que o

    Argentina, Uruguai e Imprio decidem atacar o Paraguai. Alguns autores avanam que os

    termos do pacto da Trplice Aliana teriam sido discutidos ali, antes do incio da guerra,

    tornando-a uma clara agresso de conquista! O historiador argentino Jos Maria Rosa

    realmente pe nesses termos o pacto que definiu a Trplice Aliana: En 1894, Saraiva dir

    [] que la Trplice Alianza no surgi despus de la agresin paraguaya a la Argentina en

    abril del 65, sino en las Puntas del Rosario en junio del 64. 402

    E ainda prossegue: [] la

    alianza con la Argentina concertada en el campamento de Flores, en las Puntas del Rosario el

    18 de junio de 1864, fue el hecho que movi a Brasil a invadir la Repblica Oriental y acarre

    la reaccin de Paraguay. 403

    Devemos prestar ateno no momento em que ocorreu este encontro em Puntas del

    Rosario. Nunca demais recordar que o Uruguai se encontrava em guerra civil. O caudilho

    Venncio Flores estava em luta contra o presidente constitucional Anastasio Aguirre (ver

    captulo sobre o Uruguai). E o Imprio estava apoiando fortemente as tropas lideradas pelo

    caudilho colorado contra a autoridade legal, juntamente com Mitre, mesmo este se declarando

    neutro no conflito. El 6 de mayo de 1864 lleg a Montevideo don Jos Antonio Saraiva,

    presentando, como ministro plenipotenciario del Brasil, una enrgica reclamacin por los

    daos y prejuicios que, segn el haban sufrido los sbditos de su Soberano desde diez aos

    atrs. [] En este estado las cosas, lleg a Montevideo una famosa comisin pacificadora, de

    la que formaban parte Rufino Elizade y su suegro, el ministro ingls Eduardo Thorton. []La

    401

    OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 22

    402 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 135

    403 Id. Ibid p. 141

  • 162

    verdad era otra. Lo nico cierto era la guerra; pero la guerra en ms vastas proporciones, la

    guerra a muerte a todos los que se opusieron a los designios de un feroz imperialismo.404

    Olhando por este prisma, a possibilidade de um acordo firmado em Puntas del Rosario

    pode no parecer absurda. Devemos, como j escrevemos, observar a questo como um todo,

    e principalmente quais os interesses das classes envolvidas, tanto no Imprio, como na

    Argentina dividida e buscando a unificao e no Uruguai em plena guerra civil. Alm disso,

    analisando a relao do Estado Guarani com as principais potncias estrangeiras da poca

    destacando os Estados Unidos, como potncia do continente americano e a Gr Bretanha,

    como a grande potncia mundial.

    Para a historiografia patritica e ingnua, o grande motivo e incio da guerra seria o

    aprisionamento do pequeno navio imperial Marqus de Olinda, em guas paraguaias, em 11

    de novembro de 1864. Doratioto escreve que: Na madrugada de 11 de novembro, chegou a

    Assuno o navio brasileiro Marqus de Olinda, pequeno vapor de duzentas toneladas, com

    dois mastros vela e uma chamin, movido a rodas, pertencente Companhia de Navegao

    por Vapor do Alto Paraguai. [...] A embarcao levava o novo presidente de Mato Grosso,

    coronel Carneiro de Campos, acompanhado de alguns oficiais, e, horas aps partir de

    Assuno, o Marqus de Olinda foi alcanado pela canhoneira paraguaia Taquari e obrigado

    a retornar ao porto da capital.405

    O historiador argentino Jos Maria Rosa descreve da seguinte maneira a apreenso do

    navio Marquez de Olinda: cruza frente a Assuncin el vapor brasileo Marquez de Olinda de

    la lnea de Rio de Janeiro a Corumb: lleva a su bordo al nuevo presidente del Mato Grosso,

    Carneiro de Campos, con hombres y material de guerra a fin de reforzar las defensas del alto

    Paraguay. El 12, Lpez, desde su campamento de Cerro Len, ordena al Tacuar su

    apresamiento, que el buque de guerra cumple al da siguiente cincuenta leguas al norte de

    Asuncin. El vapor brasileo es incautado, as como el material de guerra; los tripulantes

    Carneiro Campos inclusive son retenidos como prisioneros de guerra. El ministro en

    Asuncin, Vianna de Lima protesta por el inslito hecho, y Bergs responde con irona que

    Paraguay obraba con mismo derecho del ejercido del Brasil al ocupar territorio oriental.406

    Assim, fica claro que os paraguaios vincularam a ao contra o Imprio invaso ao Uruguai.

    404

    OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit. p. 139

    405 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 66

    406 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 155

  • 163

    No entanto, Francisco Doratioto em seu livro Maldita Guerra: nova histria da

    Guerra do Paraguai, escreve que: O Imprio no declarara guerra ao Paraguai, mas Solano

    Lpez interpretava ou fingia crer que sim. [...] O governo imperial e a opinio pblica

    brasileira [sic] consideraram a captura um ato traioeiro de pirataria. [...] A Legao brasileira

    em Assuno protestou, em 13 de novembro, junto Chancelaria Paraguaia contra o

    aprisionamento do Marqus de Olinda, pedindo explicaes para o fato. Em resposta, o

    governo paraguaio entregou nota, datada do dia anterior, na qual rompia relaes com o

    Imprio.407

    Inicialmente, devemos ressaltar que, naquela poca, temos que nos referir com muito

    cuidado opinio pblica. Principalmente pelo fato que a participao poltica nos tempos

    imperiais era resumida essencialmente s classes dirigentes do pas. Parte significativa da

    populao escravos, libertos, livres-pobres, etc. viviam total ou parcialmente margem da

    vida civil. Em segundo lugar, cabe novamente a pergunta. O governo imperial no teria dado

    ateno ao aviso diplomtico paraguaio da interveno do Uruguai como casus belli? Com a

    invaso daquele pas o Paraguai no ficava sem sada ao mar, com Montevidu sob controle

    do Brasil e Buenos Aires sob as mos de Mitre?

    Doratioto apresenta verso substancialmente diversa dos fatos, da qual a guerra surge,

    no mnimo, de erro de avaliao de Solano Lpez: Ao considerar provvel uma guerra com o

    Brasil, Francisco Solano Lpez interpretou a interveno brasileira no Uruguai como

    prenncio de um ataque ao Paraguai, aps anexar parte do territrio uruguaio. [...] Eram

    equivocadas as interpretaes do governo paraguaio, quer quanto ameaa independncia

    uruguaia, quer quanto a ser o Paraguai alvo de ataque do Imprio, aps a interveno militar

    brasileira no Uruguai. [...] 408

    porm consenso historiogrfico que, com Montevidu nas

    mos do Imprio, a sada ao mar se cerrava para o Paraguai. O que, por si s, constitua j um

    ataque mortal quele pas. E com Venncio Flores, o Imprio estabeleceu novamente sua

    semi-suzerania sobre o pas.

    Para Doratioto, o erro paraguaio teria sido devido tambm sua falta de diplomacia:

    Contudo, o Paraguai carecia de um servio diplomtico [sic], requisito essencial para

    diminuir as margens de erro a montar uma estratgia de ao no Prata. Nessa regio, centro

    nevrlgico de seus interesses, o Paraguai no tinha representantes diplomticos, possuindo

    apenas um cnsul na cidade de Paran e agentes comerciais em Buenos Aires e Montevidu.

    407

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 67

    408 Id. Ibid p. 70

  • 164

    [...] Enquanto isso, o Imprio do Brasil possua experientes diplomatas nos principais pases

    europeus e americanos, que, durante a guerra, cumpriram importante papel de reforo poltico

    ao militar.409

    Segundo aquele autor, o erro paraguaio nasceria tambm de seu regime poltico:

    Tambm contribuiu para aqueles equvocos o fato de inexistir no Paraguai, em decorrncia

    de seu sistema poltico totalitrio, um processo de deciso em que vrias instncias

    avaliassem os diferentes aspectos do contexto platino. Isso impediu uma anlise mais realista

    da qual seria a possibilidade de vitria militar paraguaia sobre o Brasil e a relao

    custo/benefcio desse conflito. Essa avaliao foi feita basicamente por um homem, Francisco

    Solano Lpez, o que aumentava de forma dramtica a possibilidade de erro, ainda mais ao ser

    feita por uma personalidade acostumada a alcanar seus objetivos em uma realidade simples,

    a sociedade paraguaia, na qual no havia jornais (exceto um pequeno tablide oficial);

    inexistia um intercmbio de idias com o exterior e se desconhecia, partidos polticos. O

    autoritarismo no s anestesiou a populao paraguaia, alijada de uma participao ativa nos

    destinos do pas, como tambm cegou o prprio Solano Lpez: sua excessiva auto-confiana

    levou-o ao voluntarismo, a superestimar o poder nacional paraguaio e a fazer uma anlise

    equivocada da correlao de foras militares e polticas no Prata.410

    Francisco Doratioto ainda ressalta que o Paraguai poderia ter entrado no conflito com

    um armamento muito superior, enfatizando a incompetncia militar de Solano Lpez nos

    seguintes termos: Contudo, o Exrcito paraguaio poderia, sim, ter-se armado bem, se Solano

    Lpez no se tivesse precipitado em invadir o Mato Grosso. O Paraguai comprara

    armamentos na Europa e que estava prestes a ser entregue. Em novembro de 1864, antes de a

    Marinha brasileira bloquear o Prata para navios que fossem a Assuno, o governo paraguaio

    recebeu, da Inglaterra, 106 canhes com rifles e munies, alm de recursos humanos

    representados por trs mdicos e quatro tcnicos contratados, todos ingleses. [...] Nessas

    circunstncias, ostensivo quo absurdo foi o momento que Solano Lpez escolheu para

    atacar o Brasil. Se no o tivesse feito, em poucos meses o Paraguai teria armamento moderno

    que lhe permitiria alterar o equilbrio militar regional, ao garantir a navegao para seus

    barcos e tropas do rio Paran at, pelo menos, prximo de Buenos Aires. Contudo, com uma

    fora militar obsoleta e com um Estado cuja organizao podia satisfazer s demandas

    internas, mas era insuficiente para uma ao externa de envergadura. Solano Lpez lana-se

    409

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 70

    410 Id. Ibid pp. 70-71

  • 165

    numa aventura. Apesar da esmagadora inferioridade geogrfica, demogrfica e econmica, o

    governante paraguaio pretendeu enfrentar o Imprio, o mais povoado e rico dos Estados sul-

    americanos, aliado Argentina e ao Uruguai.411

    Em primeiro lugar, devemos destacar que se

    a ao militar do Paraguai ocorresse antes, poderia encontrar os blancos no governo uruguaio.

    Na Argentina Mitre ainda no teria esmagado a oposio federalista, de forma que Lpez

    conseguiria mais apoio.

    O historiador paraguaio OLeary ainda escreve em forma grandiloqente sobre as

    armas encomendadas por Solano Lpez: Antes de seguir adelante, hemos de dejar constancia

    de que, la conflagracin nos sorprendi sin material blico moderno, fue porque los

    acontecimientos se haban precipitado en forma inesperada. [...] El mariscal Lpez, al ver

    venir la tormenta, haba tratado de dotar a su pas de los ms poderosos elementos de defensa,

    mandando construir buque acorazados y ordenando a nuestra Legacin en Europa la

    adquisicin de caones, fusiles y proyectiles en abundancia. Desgraciadamente, el Imperio,

    que no ignoraba esto, y menos que con tales elementos seramos invencibles, obr de manera

    que no pudieran llegarnos a tiempo tan formidables armamentos, adelantndose a provocar la

    guerra, en la forma que hemos visto.412

    O Paraguai ataca...

    Outro ponto que gostaramos de destacar o ataque do Paraguai Argentina. Teria

    sido aps essa agresso que os argentinos teriam declarado guerra ao Paraguai. J citamos que

    tanto Jlio Jos Chiavenato como Jos Maria Rosa no concordam com essa verso,

    afirmando ambos que o Tratado da Trplice Aliana j estava pronto desde 1864, como j

    expomos oportunamente. No entanto, segundo o historiador argentino citado, foram vrios os

    passos que levaram invaso paraguaia ao territrio argentino. Puede conocerse el plan

    sometido por Urquiza a Lpez valindose de Caminos por la carta de Lpez a Urquiza del 26

    de febrero de 1865. 1o) el jefe del partido Federal hara una expresin pblica de solidaridad

    con los paraguayos y orientales, y exigira a Mitre el libre trnsito por territorio argentino del

    ejrcito de Lpez; 2o) rechazada, como era de descontarse, esta exigencia por Mitre, Urquiza

    se pronunciara y con el Partido Federal se pondra de parte del Paraguay combatiendo la

    411

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 93

    412 O LEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 174

  • 166

    poltica de Mitre.413

    No se tratava, portanto, de uma invaso, mas da articulao de uma

    aliana entre as foras paraguaias e das provncias de Entre Rios e Corrientes, sobretudo.

    Entretanto, o esperado pronunciamento de Urquiza no sai. Sendo assim: En 14 de

    enero, como el silencio de Urquiza sigue, Solano Lpez se decide a solicitar oficialmente al

    gobierno el paso por el territorio argentino, pues an se cree a tiempo de salvar Montevideo.

    Sabe perfectamente que la llegada de los contingentes paraguayos a Entre Ros arrastraran a

    todo el pueblo a los defensores de los orientales, y Urquiza no podra resistir a ese clamor.

    Adems, Mitre no puede negar ese trnsito sin revelar su parcialidad: la escuadra brasilea

    est en aguas argentinas, y desde ella ha bombardeado a Paysand con metralla entregada por

    el gobierno.414

    Jos Maria Rosa segue descrevendo as aes de Solano Lpez nos seguinte termos:

    Pasa el tiempo, y Urquiza no se pronuncia a pesar de su promesa. Entonces Solano Lpez

    solicita oficialmente el trnsito por territorio argentino, que producira la esperada repulsa del

    gobierno de Mitre, y por lo tanto, obligara al pronunciamiento de Urquiza. Por nota del 14

    de enero solicita el pase de sus ejrcitos para combatir a los brasileos que ocupan la

    Repblica Oriental.415

    Ainda segundo Rosa, Lpez ainda tentaria persuadir Urquiza a apoi-lo para que

    pudesse atravessar o territrio argentino para combater os imperiais no Uruguai: Solano

    Lpez mand a Urquiza una copia de s nota de 14 de enero solicitando el trnsito el terrestre,

    que fue contestada como hemos visto otorgndole el trnsito fluvial. De acuerdo a lo ofrecido

    por el mismo Urquiza, era la ocasin de ste para pronunciarse contra el rgimen mitrista.

    Pero Urquiza acababa de embolsar los 390 mil patacones brasileos y entregado a Osorio sus

    30 mil caballos: estaba por lo tanto de a pie y no poda hacer la guerra. Por lo tanto, se zaf de

    su promesa [].416

    Os historiadores Manilio Cancogni e Ivan Boris em Solano Lpez o Napoleo do

    Prata, de 1970, escrevem qual seria, segundo eles, a atitude que o presidente paraguaio

    esperava por parte de Justo Jos Urquiza nas seguintes palavras: Lpez dirigiu-se ao general

    Urquiza, propondo-lhe que separasse da Argentina as provncias de Corrientes e Entre Rios e

    se unisse a ele para marcharem juntos contra o Brasil. Urquiza elogiou o plano e lhe

    413 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 154

    414 Id. Ibid p. 169

    415 Id. Ibid p. 171

    416 Id. Ibid p. 174

  • 167

    assegurou seu apoio moral, mas no deu um passo. Em vista disso, Lpez resolveu intervir,

    mesmo sozinho. Estava convencido de que seu exrcito saberia enfrentar os brasileiros, bem

    mais numerosos, os colorados de Flores e, se necessrio, os argentinos, todos juntos.417

    Aps infrutferas tentativas de persuadir Urquiza a tomar posio pblica, a pacincia

    do governante paraguaio chega ao seu limite, devido urgncia do apoio a ser dado ao

    Uruguai. Segundo Rosa: Sometido el informe al Congreso, ste al da siguiente, 18 de

    marzo lo aprob, y autoriz por ley al presidente de la repblica a declarar la guerra al

    actual gobierno de la Repblica Argentina. Al da siguiente, Lpez promulg la declaracin

    que fue publicada en El Semanario el 23.418

    Destaque-se a necessidade de Lpez de

    conseguir a licena do Parlamento para tal medida, como presidente, em contradio com

    viso de uma ditadura absoluta sobre o pas.

    No entanto, Moniz Bandeira nos traz uma viso diferente a respeito do momento em

    que Solano Lpez declarou guerra Argentina de Mitre em seu livro O expansionismo

    brasileiro e a formao dos estados na Bacia do Prata: da colonizao guerra da trplice

    aliana, de 1995: Quando a Argentina no autorizou o trnsito de suas tropas, pelo territrio

    de Misiones na direo do Rio Grande do Sul, da mesma forma que negara ao Imprio do

    Brasil, ele no hesitou. Como no lhe bastava enfrentar apenas o Brasil e o Uruguai,

    convocou o congresso, que no se reunia havia mais de trs anos, e, com sua licena, o ttulo

    de Marechal, um soldo de 60.000 duros mensais (o pai nunca recebera mais de 4.000) e uma

    espada com empunhadura incrustada de brilhantes, declarou guerra Argentina, mandando-

    lhe uma comunicao em 29 de maro de 1865. Era o que Mitre esperava.419

    Quando lemos que a Argentina no autorizou o exrcito paraguaio o trnsito por suas

    terras, Mitre estava sendo incoerente, segundo uma poltica de neutralidade, mas coerente

    com os seus objetivos j descritos. O historiador paraguaio OLeary escreveu que: En 1855

    el Gobierno argentino haba permitido el paso de una escuadra y de un ejrcito brasileos

    contra el Paraguay, consintiendo que los expedicionarios acamparan en sus costas, para hacer

    ejercicios militares, y se proveyeran en sus puertos de todo lo necesario. [] Ms todava: en

    1858 consigui el Imperio que la Repblica Argentina se comprometiese a dar paso a sus

    ejrcitos contra el Paraguay. Es Mitre el que nos ha hecho esta revelacin.420

    Assim, em

    417

    CANCOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit p. 50

    418 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 188

    419 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [] Op Cit p. 193

    420 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit. p. 156

  • 168

    nosso entendimento possvel fazer a seguinte questo: por que motivo a Argentina daria

    autorizao para o Imprio transitar por seu territrio e no ao Paraguai, sendo que nesse

    perodo no havia guerra entre ambos? Se Mitre se declarava neutro? Pelo nosso ponto de

    vista, ele agiu utilizando pesos e medidas diferentes.

    Francisco Doratioto, em seu texto A Guerra do Paraguai, de 1998 escreve que na

    verdade, Mitre armou uma cilada para Solano Lpez, para poder viabilizar uma aliana com o

    Imprio, como podemos ler no trecho que segue: Ao atacar o territrio argentino, Solano

    Lpez fez o jogo de Mitre, que buscava, desde o ano anterior, uma aliana com o Imprio.

    Essa aliana proporcionaria a paz regional necessria para o governo argentino reforar seus

    laos comerciais com a Europa em 1865, a Argentina j era a maior exportadora mundial de

    l e, ainda, consolidou seu poder sobre o interior do pas.421

    O historiador argentino Jos Maria Rosa, em seu clebre estudo La Guerra del

    Paraguay: y las montoneras argentinas, de 1985 escreve que La inmensa mayora de los

    argentinos era partidaria de Paraguay en una guerra contra Brasil en defensa de la libre

    determinacin de los Estados del Plata. Solamente una minora (los liberales mitristas de

    Buenos Aires) queran enredar la repblica en la alianza con el imperio. Para amostrar a los

    argentinos a luchar contra Paraguay, haba que adobar las cosas. A eso consagr la diplomacia

    mitrista entre marzo y abril de 1865. Era necesario: 1o) Presentar la guerra como una lucha de

    la libertad contra la tirana, palabras que siempre rindieron buenos frutos. 2o) Ocultar la

    declaracin de guerra paraguaya, y cuando llegasen las noticias de las primeras operaciones

    blicas, presentadas como una inicua agresin del Atila de Amrica, que ambicionaba

    conquistar a la Argentina y haba ofendido en plena paz su pabelln.422

    O presidente da Argentina Barlotom Mitre, vendo que no teria apoio da populao

    em uma guerra contra o Paraguai, teria mentido para a mesma. Apresentando a ao de

    Solano Lpez como um ato traioeiro e como uma invaso em tempo de paz, uma aliana

    com o Imprio para derrotar o Estado guarani no sofreria impopularidade to marcante, e

    permitiria militarizar o pas, destruindo finamente em forma definitiva as foras federalistas

    das provncias do Interior e do Litoral e submetendo ao Uruguai, como realmente aconteceu.

    Em 1870, finalmente, Urquiza, o ex-caudilho federalista era assassinado.

    421

    DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A Guerra do Paraguai [...] Op Cit p. 206

    422 ROSA, Jos Maria. La guerra del Paraguay [] Op Cit p. 188

  • 169

    Nesse sentido, o historiador tambm argentino Miliciades Pea, em seu livro La era

    de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia, de 1968 refora a idia que Mitre

    enganou o povo argentino nos seguintes termos: Mitre enga la nacin desde el principio

    hasta el fin de la guerra del Paraguay, y el engao comenz desde la hora cero de la guerra,

    que Mitre logr presentar como un traicionero ataque paraguayo lanzado antes de la

    declaracin de guerra. [] Entre tantas otras mentiras, los textos siguen repitiendo que el

    Paraguay atac la Argentina sin previa declaracin de guerra pero el hecho es que el ataque se

    produjo 26 das despus de declarada la guerra.423

    No entanto, os historiadores Manilio Cancogni e Ivan Boris levantam uma hiptese

    diferente. Para eles, pode ser que eventualmente o presidente argentino Bartolom Mitre

    desconhecesse a declarao de guerra feita por Solano Lpez, conforme podemos ler no

    seguinte trecho: [...] a Argentina declarava que o Paraguai, por sua vez atacara sem prvia

    declarao de guerra; o Paraguai, por sua vez, afirmava que a declarao oficial remontava o

    dia 29 de maro, enquanto as primeiras aes militares em territrio argentino no foram

    iniciadas antes do dia 13 de abril. possvel que ambas as partes falassem a verdade. Berges,

    ministro do Exterior paraguaio, tinha enviado a seu colega argentino Elizade a declarao de

    guerra por intermdio de um oficial o tenente Valentino Ayalas; mas este fora detido pela

    polcia argentina antes de chegar a Buenos Aires e encarcerado sem ter cumprido a sua

    misso. Assim se explicaria o mal-entendido, embora seja difcil acreditar que o prisioneiro

    omitisse o fato de ser portador de uma carta de tal importncia. A menos que ignorasse seu

    contedo ou que, devido aos maus tratos sofridos, no tivesse condies de falar. No arquivo

    brasileiro existe um documento, com data de 29 de maro, mas poderia se tratar de uma

    falsificao; outro documento d a notcia da deteno de Ayalas.424

    No entanto, no devemos ignorar o fato que para Mitre e a oligarquia importadora

    bonaerense, uma guerra contra o Paraguai era interessante na poca. Temos que levar em

    conta que a Argentina se encontrava fortemente dividida, e que at 1861 estaria envolvida em

    uma guerra civil. O confronto armado contra o Paraguai seria uma tentativa de debelar

    qualquer modelo alternativo centralizao imposta pelo presidente Mitre, bem como por sua

    classe econmica. Segundo o historiador paraguaio OLeary em El Mariscal Lpez, de 1921:

    Desde 1860 repite, con una insistencia que trasunta su arraigada conviccin, que la guerra al

    Paraguay es as como una necesidad impuesta por la anarqua argentina como una panacea

    423

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [] Op Cit p. 75

    424 CANCOGNI, Manilio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit p. 70

  • 170

    imprescindible para el mal de sus luchas intestinas, ya que slo una guerra exterior podra

    operar el milagro de unirlos alrededor de una sola bandera.425

    A Trplice Aliana

    Em Maldita guerra, Doratioto conclui sobre a Trplice Aliana: O Tratado da

    Trplice Aliana contra o Paraguai, assinado em Buenos Aires em 1 de maio de 1865 entre

    Argentina, Brasil e Uruguai, somente se viabilizou com o erro poltico-militar de Solano

    Lpez de ordenar a invaso de Corrientes. [...] Solano Lpez desencadeou a guerra contra o

    Brasil e, em seguida, contra a Argentina, devido a uma percepo errnea do poderio nacional

    paraguaio. Erro esse compreensvel em uma cultura poltica como a paraguaia, ditatorial e

    isolacionista. 426

    J abordamos os limites de interpretao do conflito a partir da ao-deciso

    de um s homem e com o lovido da inevitabilidade da travessia do territrio argentino para ir

    em ajuda ao Uruguai, a grande questo do conflito, nesse momento. Tambm comentamos as

    razes das proposta sobre o isolacionismo e ditadura pessoal paraguaia.

    Em seu livro O conflito com o Paraguai, de 1996, Doratioto escreve como Solano

    Lpez pretendia equilibrar as foras em jogo com as seguintes palavras: Solano Lpez

    esperava obter apoio para uma ao militar dos blancos uruguaios e da oposio federalista da

    argentina. Esta, sublevando-se, imobilizaria Buenos Aires, deixando o Imprio do Brasil

    isolado para enfrentar o Paraguai. Nessa hiptese, seria difcil uma vitria militar brasileira,

    pois a situao geogrfica do pas guarani, no interior do continente, tornava-o acessvel por

    via fluvial, cujos portos estariam bloqueados pelos federalistas argentinos.427

    O governo

    paraguaio contava igualmente para vergar o Imprio com o eventual apoio de trabalhadores

    escravizados. Portanto, havia estratgia minimamente coerente do Paraguai que no se

    realizou devido aos percalos histricos que terminaram, eventualmente, materializando as

    eventuais tendncias dominantes do processo.

    Na mesma linha de raciocnio, o historiador argentino Jos Maria Rosa, em seu livro

    La Guerra del Paraguay: y las montoneras argentinas, de 1985 escreve nos seguintes

    termos: El mariscal Lpez inici la ofensiva porque tena su ejrcito preparado, mientras sus

    enemigos empezaban penosamente la conjuncin de los suyos. Era un golpe arriesgadsimo;

    pero solamente con riesgo y suerte poda logarse el triunfo. Si Robles completaba la

    425

    OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit. p. 123

    426 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [] Op Cit pp. 207-208

    427 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Conflito [] Op Cit p. 21

  • 171

    ocupacin de la Mesopotamia, era posible que Urquiza abandonase su brasileismo de

    conveniencia y volviese a su primitivo plan de ponerse a la cabeza del partido federal

    argentino y derrocar a Mitre. Si Estigarribia llegaba a la Repblica Oriental y la liberaba de

    brasileos, los blancos retornaran al gobierno de Montevideo. La guerra se convertira

    entonces en una Trplice Alianza contra Brasil, que ste no podra resistir en frente demasiado

    turbulento de Ro Grande.428

    Uma viso certamente incorreta no relativo ao Rio Grande do

    Sul, onde as classes pastoris encontravam-se unidas ao Imprio na interveno no Uruguai.

    A manobra pretendida pelo presidente paraguaio descrita em forma fortemente

    impressionista pelos historiadores italianos Manilio Cancogni e Ivan Boris: Lpez imaginava

    uma manobra grandiosa. Sem levar em conta distncias, clima, dificuldades de abastecimento,

    nem sequer os perigos de um solo inspito e pantanoso e sem considerar a vantagem do

    inimigo, que combatia em sua prpria casa, prximo s bases, lanava para o sul seus

    exrcitos como as hastes de uma tenaz com o objetivo de dominar as duas margens do

    Prata.429

    No entanto, Francisco Doratioto escreve no livro Conflito com o Paraguai os motivos

    que levaram ao fracasso essa tentativa de Solano Lpez da seguinte maneira: Contudo, foi o

    Paraguai que acabou isolado. Os blancos no tiveram condies de apoiar a ao paraguaia

    porque, pressionados pela Argentina e pelo Imprio brasileiro, assinaram, em fevereiro de

    1865, o Protocolo de Vila Unio, passando o poder ao colorado Venncio Flores. J os

    federalistas argentinos no se sublevaram, pois tinham mais a ganhar ficando do lado de

    Buenos Aires e do Brasil. De fato, o inevitvel bloqueio que a Marinha imperial imporia no

    Prata impediria o comrcio dos federalistas com o exterior, causando-lhes prejuzos.430

    Doratioto reduz incorretamente os federalistas argentinos aos criadores e charqueadores das

    provncias do Litoral. No prprio Litoral, a enorme cavalaria de Urquiza sublevou-se,

    desertando maciamente, duas vezes, para no combater o Paraguai. Nas provncias do

    Interior, houve extensas sublevaes que obrigaram literalmente os exrcitos argentinos a

    abandonarem o frente de batalha paraguaio.

    Assim, Doratioto, na obra citada, escreve como teria surgido o pacto da Trplice

    Aliana nas seguintes palavras: Em 1 de maio de 1865, em Buenos Aires, a Argentina, o

    Brasil e o Uruguai assinaram o Tratado da Trplice Aliana para enfrentar o Paraguai. Nele

    428

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 202-203

    429 CANCOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit p. 75

    430 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Conflito [] Op Cit p. 21

  • 172

    estabelecia-se que, enquanto Solano Lpez no fosse retirado do poder, os aliados no

    negociariam a paz. [...] O documento de 1 de maio de 1865 definia, ainda, as fronteiras do

    Paraguai com o Brasil e a Argentina no ps-guerra. Era determinado, tambm, que por ser o

    agressor o pas guarani, teria de indenizar as naes aliadas por todos os gastos e prejuzos

    resultantes da guerra.431

    Ou seja, previa o literal submetimento do pas Argentina e ao

    Brasil.

    O historiador argentino Jos Maria Rosa, em sua obra La Guerra del Paraguay: y las

    montoneras argentinas, de 1985 tece nos seguintes termos alguns comentrios a respeito do

    documento em que se definiu a Trplice Aliana: Los aliados se obligaban a respetar la

    independencia, soberana e integridad del Paraguay, dice el art. 8o. Dirase un prrafo de

    Mitre, si no tuviera la certeza de haber sido Octaviano su redactor. Pues continuacin se

    establecen como objetivos de guerra: [] Quitarle a Paraguay la soberana de sus ros (art.

    11). [] Cargar a lo que quedase de Paraguay con toda la deuda de la guerra (art. 14). []

    Repartirse entre Brasil y Argentina para evitar las discusiones que traen consigo quistiones

    de lmites una inmensa cantidad de territorio en litigio, o exclusivamente paraguayo (art.

    16). [] para evitar discusiones futuras los despojos del vencido, Brasil se regalaba sus

    exorbitantes pretensiones fronterizas (hasta el ro Apa por el lado del ro Paraguay, y el Igurey

    por el Paran) mientras Mitre se coma todo el Chaco paraguayo hasta la Baha Negra, (que

    no disputaba la Argentina sino Bolivia).432

    Tratava-se, portanto, de uma guerra

    indiscutivelmente imperialista, que nada tinha a ver com a honra imperial e nacional ofendida.

    No podemos negar que, em primeiro de maio de 1865, o Imprio, o Uruguai e a

    Argentina assinaram um acordo em que se estabelecia uma Trplice Aliana para combater o

    Paraguai de Solano Lpez. Documento em que se estabelecia alm da cooperao militar, o

    literal saque e submisso do pas, aps a derrota. Por seu contedo, o tratado deveria ter

    permanecido secreto.

    Sinteticamente, Francisco Doratioto escreve, em seu texto A Guerra do Paraguai, de

    1998, os resultados do confronto para os envolvidos nos seguintes termos: O Estado nacional

    paraguaio, nos moldes que conhecemos, foi destrudo; o pas perdeu recursos econmicos,

    territrios e populao, embora as perdas humanas da guerra estejam longe de terem

    alcanada a dimenso de genocdio, como apontaram o sensacionalismo de alguns

    revisionistas. A Argentina, por sua vez, saiu do conflito com ganhos territoriais; fortalecida

    431 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Conflito [] Op Cit p. 22

    432 ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit p. 193

  • 173

    politicamente, pois foram eliminados os aliados da oposio federalista a Buenos Aires; e

    fortalecidas economicamente, ao se beneficiar sua economia dos gastos brasileiros na compra

    de suprimentos destinados s foras imperiais (alimentos; animais de trao; carvo para os

    navios de guerra e bens de consumo geral). Para o Imprio do Brasil, essa guerra marcou seu

    apogeu, ao demonstr-lo capaz de travar e vencer um conflito com caractersticas inditas no

    Prata, e, dialeticamente, o incio de sua decadncia. Para vencer Solano Lpez, os governantes

    do Imprio tiveram que desviar sua ateno e recursos financeiros dos problemas internos,

    que erodiram, finalmente, o Estado Monrquico. O Brasil gastou na guerra a enorme quantia

    de 614 mil contos de ris onze vezes o oramento governamental para o ano de 1864

    criando um dficit pblico e uma dvida externa que persistiram at a Proclamao da

    Repblica brasileira em 1889.433

    Doratioto nega as avaliaes sobre a mortandade de alguns

    revisionistas, mas na apresenta, igualmente, estimativas mais precisas, apoiadas em

    levantamentos cientficos. No registra igualmente os enormes ganhos territoriais do Imprio;

    as pesadas indenizaes pagas pelo Paraguai ao Brasil, at a II Guerra Mundial; a situao de

    literal protetorado relativo que o pas caiu em relao sobretudo do Brasil, da qual surgiria, de

    certo modo, quase um sculo mais tarde, o prprio acordo da repressa de Itaip.

    A Inglaterra e a Guerra do Paraguai

    Agora faremos uma discusso a respeito de uma polmica que alcanou importncia

    que cremos indevida: o interesse ou no da grande potncia imperialista da poca, a

    Inglaterra. Seria ela a mo oculta por trs dos pases envolvidos na Guerra do Paraguai?

    No pretendemos colocar um ponto final na discusso, apenas mostrar rapidamente algumas

    opinies de diferentes autores a respeito do tema. Alm disso, quais eram as motivaes da

    Argentina, do Uruguai e do Imprio do Brasil em declarar guerra ao Paraguai?

    Em seu livro O negro no Brasil. Da senzala Guerra do Paraguai, de 1980,

    Chiavenato escreve com as seguintes palavras a respeito da Guerra do Paraguai: A Inglaterra

    bancou a guerra. Uma das mais graves conseqncias da Guerra do Paraguai para o Brasil

    que, depois dela, nunca mais o pas pde escapar dos juros e emprstimos ingleses, tornando-

    se presa eterna do imperialismo financeiro mundial, renegociando dvidas e financiamentos

    jamais chegando a saldar seus compromissos.434

    Em La Guerra do Paraguay: y las

    montoneras argentinas, de 1985, o historiador Jos Maria Rosa, escreve que os ingleses

    tinham motivos para reprovar o modo de desenvolvimento paraguaio. El Paraguay de Lpez

    433 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A Guerra do Paraguai [...] Op Cit pp. 214-215

    434 CHIAVENATO, Jlio Jos. O negro no Brasil [...] Op Cit p. 196

  • 174

    era un escndalo en Amrica. Un pas bastndose a s mismo, que nada traa de Inglaterra y se

    permita a detener a los hijos de ingleses, como en el caso de Constatt, con el pretexto de

    infringir las leyes del pas, debera necesaria y urgentemente ponerse a la altura de la

    Argentina de Mitre. Como la Home Fleet se vea trabada por los caones de Humait para dar

    a los paraguayos la consabida leccin de urbanidad, quedaba la tarea a cargo de los

    vecinos.435

    Alm de escrever que o Paraguai constitua um mau exemplo para os demais pases

    latino-americanos, cita o ministro Edward Thorton, como sendo a mo oculta por trs dos

    pases que teriam supostamente assinado o Tratado da Trplice Aliana no encontro em Puntas

    del Rosario, no acampamento de Flores. Sobre Thorton, Rosa, na obra citada, escreve que:

    Hay un documento elocuente de Thorton dirigido al Foregin Office desde Asuncin el 6 de

    setiembre de 1864. Describe con sombros colores la tirana paraguaya cuyos serenos

    asunceos si permitan detenerlo por la noche para exigirle papeles de identidad y formularle

    preguntas irritantes. [] Antes de dos meces Paraguay estar en guerra con Brasil, antes de

    seis con la Argentina. La semilla sembrada por Thorton en Montevideo y Buenos Aires daba

    sus frutos promisorios. Y pocos aos no habra en Paraguay tarifas aduaneras, ni hornos de

    fundicin, ni caones de Humait, ni serenos preguntadores, ni paraguayos pecadores, ni ros

    clausurados al libre comercio, ni dictadura. [] Ni tampoco Paraguay.436

    Na verdade, o Paraguai e a Gr-Bretanha estiveram envolvidos em questes

    diplomticas que podem sim ter interferido nas futuras relaes entre os dois pases. Questes

    essas que poderiam muito bem ter deixados os ingleses descontentes com o Estado Guarani.

    O primeiro envolveu o ataque de dois navios de guerra embarcao em que viajava o

    presidente paraguaio Solano Lpez aps a mediao de paz durante a guerra civil na

    Argentina. Esse ataque narrado pelo historiador paraguaio Juan E. OLeary no livro El

    Mariscal Lpez, de 1921. Pero he aqu, que, dentro todava de la rada de Buenos Aires, el

    Tacuar fue vctima de un inaudito atropello de dos poderosos buques de guerra de

    Inglaterra.437

    Inclusive, teria o presidente paraguaio sido avisado do perigo, mas nos conta o citado

    autor que ele sequer se preocupou com a hiptese de ser atacado, uma vez que no estavam

    435

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [] Op Cit pp. 142-143

    436 Id. Ibid p. 143

    437 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 96

  • 175

    em guerra com os britnicos. Nunca imaginaria uma ao dessas vindo de uma nao

    civilizada.438

    Segue o autor descrevendo o presente episdio: Lpez denunci lo sucedido al

    Gobierno de Buenos Aires, formulando su protesta en notas llenas de elocuencia y de

    indignacin, dirigindose despus por tierra hasta Paran, donde tom el Jeju, buque de la

    Armada nacional, prosiguiendo sin molestias su viaje hasta Asuncin.439

    Ainda destacamos mais um episdio envolvendo o embaixador britnico na Amrica

    do Sul, William Douglas Christie (o mesmo da Questo Christie no Imprio). No Paraguai ele

    tambm manifestou sua habilidade poltica, especialmente no trato com povos latino-

    americanos. Como afirma o citado autor, Christie costumava ser descomedido em suas

    exigncias, alm de sempre demonstrar um enorme desprezo para com os povos deste

    continente. Nesse caso no foi diferente.440

    Segundo o historiador OLeary: Pero en el Paraguay se estrell contra la altivez

    irreductible de nuestros gobernantes, retirando-se disgustado de Asuncin por no haber

    podido finiquitar un Tratado en veinte das y no haber conseguido entenderse directamente

    con el Presidente de la Repblica, pasando por encima del ministro de Relaciones

    Exteriores.441

    William Christie no conseguiu impor um tratado ao governo paraguaio, sequer

    conseguiu tratar diretamente com o presidente, mas com ministros apenas. Isso fez com que

    se retirasse do pas Guarani extremamente desgostoso. No entanto, Christie teria passado a

    guardar um profundo dio aos paraguaios e buscaria um motivo para se vingar. Ocasio que

    viria em 1859, quando de um atentado contra a vida do presidente paraguaio Carlos Antonio

    Lpez. Estava envolvido um senhor chamado Santiago Constatt, que chegara ao Paraguai em

    1852, se declarando uruguaio. Teria ele pedido garantias ao governo ingls, representado pelo

    ministro Henderson, que pediu sua liberdade e uma reparao. Todavia, o governo paraguaio

    no aceitou as exigncias do ministro ingls, querendo tratar diretamente com o governo da

    Gr-Bretanha. Em primeiro de agosto, o Cnsul ingls exigiu novamente a soltura de

    Constatt, alm de satisfaes a Sua Majestade pela falta de respeito para com ele. No

    julgamento, Constatt, junto com outros quatro conspiradores foram condenados morte. O

    438 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 96

    439 Id. Ibid p. 97

    440 Id. Ibid p. 98

    441 Id. Ibid p. 98

  • 176

    presidente Lpez, todavia, lhes deu um indulto, inclusive ao suposto sdito ingls. Porm,

    essa medida, no ps fim ao conflito com a Inglaterra.442

    No podemos deixar de levar em considerao outros pases que tambm tinham

    divergncias com o Paraguai. Destacamos aqui os Estados Unidos, que esteve envolvido

    tambm em duas questes. Segundo OLeary, questes menores, mas que acabaram com

    grandes propores: o caso Eduardo Hopkins e o Water Wittch.443

    Segundo Juan E. OLeary:

    Un sujeto llamado Eduardo Augusto Hopkins, cnsul norteamericano, haba fundado en

    1853, en Asuncin, la Compaa de Navegacin de Estados Unidos en el Paraguay,

    obteniendo de nuestro Gobierno un prstamo de diez mil pesos oro, sin ninguna garanta,

    aparte de otros servicios y privilegios.444

    Segue o autor: Ms o menos en la misma poca ocurra la enojosa cuestin del Water

    Witch. [] Un buque americano de este nombre haba solicitado permiso para explorar, con

    fines especficos, el Alto Paraguay. Y despus de subir hasta Baha Negra, regres a nuestra

    capital, donde su capitn correspondi a las deferencias de nuestro Gobierno abrazando

    pblicamente la causa de Hopkins y manifestndose en forma agresiva contra nuestras

    autoridades, sin ser molestado por nadie. [] Y no contento con esto, ya de regreso, violando

    expresas prohibiciones, intent navegar por un brazo del Paran, exclusivamente nuestro, que,

    por razones estratgicas, estaba cerrado a las banderas extranjeras. La fortaleza de Itapir le

    orden que se detuviera, y como siguiese avanzando, le hizo fuego, causndole algunas

    averas y obligndole a retroceder malparado.445

    Por essas razes, os paraguaios no

    mantinham boas relaes nem com a Inglaterra nem com os Estados Unidos. No podemos

    ignorar questes como essas ao analisar a poltica externa, principalmente no perodo em

    questo (o sculo 19).

    Os historiadores italianos Manilio Cancogni e Ivan Boris no livro Solano Lpez o

    Napoleo do Prata, datado de 1970 escrevem a respeito da atitude dos pases europeus com

    relao Guerra do Paraguai nos seguintes termos: As potncias, especialmente a Inglaterra,

    tinham grandes interesses no Prata. Os governos, exceo do Frances, eram favorveis

    Aliana; e se verdade que ofereciam os seus servios para conseguir uma paz de

    442

    OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit pp. 98-100

    443 Id. Ibid p. 47

    444 Id. Ibid p. 47

    445 Id. Ibid p. 48

  • 177

    compromisso, sempre o fizeram com escasso empenho. Queriam o Paraguai derrotado, Lpez

    fora de cena.446

    Ao que nos parece, no seria sem fundamento, ento escrever que haveria um conjunto

    de interesses em torno de uma guerra contra o Paraguai. Como escreve Juan OLeary: Parece

    que contando con las cuestiones que el Paraguay sostena con los Estados Unidos e Inglaterra

    deca el doctor Lorenzo Torres, en carta de 5 de noviembre de 1860 tambin la

    Confederacin Argentina haba resuelto traerle la guerra al Paraguay, y, al efecto, dispona

    reservadamente, los medios a que deba echar mano. En las altas regiones argentinas se cree

    que una guerra extranjera distraer y amortiguar los odios que ha dejado la antigua divisin

    de partidos y no se ha encontrado un remedio ms eficaz para cicatrizar las heridas dejadas

    por las luchas intestinas que trae la guerra al pueblo generoso que con tanto empeo ha

    contribuido a la unin de la nacin argentina.447

    Segundo Francisco Doratioto, em A Guerra do Paraguai, de 1998: As relaes do

    Paraguai com a Gr-Bretanha no se tinham caracterizado, como se viu pela cordialidade. O

    mesmo, porm, pode ser dito em relao ao Brasil que, inclusive, rompeu relaes

    diplomticas com Londres em 1862, restabelecendo-as trs anos depois, quando j estava em

    curso a guerra com o Paraguai.448

    Doratioto na citao se refere Questo Christie [1862-1865], envolvendo Brasil e

    Inglaterra em meados da dcada de 1860. Sobre essa questo, temos o livro de Rosa que

    coloca a crise nos seguintes termos: Las cosas se complicaron con el naufragio de una

    barcaza mercante inglesa en las costas del Albardn. Christie acus a los habitantes del litoral

    de apoderarse de los restos del naufragio exigiendo al gobierno brasileo el reemplazo de

    6.525 libras esterlinas en que tasaba la carga. Abrants demostr que la carga haba

    desaparecido con el naufragio y no exista apoderamiento alguno por los habitantes de la

    costa. [] No haban dado en Rio de Janeiro importancia a los reclamos exagerados de

    Christie, cuando se present en la baha de Guanabara una escuadra inglesa al mando del

    almirante Richard Warren y empez a apoderarse, en represalias, de navos brasileos. []

    Ahora, en 1862, los atropellos de la escuadra de Warren en la baha de Rio de Janeiro

    volvieron a conmover a los brasileos; hubo manifestaciones callejas, se apedre a la legacin

    inglesa y los sbditos britnicos fueron invitados a permanecer en sus domicilios como

    446

    CANCOGNI, Manlio; BORIS, Ivan. Solano Lpez [] Op Cit pp. 1-2

    447 OLEARY, Juan E. El Mariscal [] Op Cit p. 123

    448 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A Guerra do Paraguai [...] Op Cit p. 209

  • 178

    medida de seguridad. [] Las relaciones diplomticas con Inglaterra quedaron interrumpidas

    a la espera del fallo del rey de Blgica. En 18 de junio de 1863, el rey Leopoldo, hizo conocer

    su fallo: no haba tales agravios de Brasil a Inglaterra y tacaba a esta reanudar relaciones

    diplomticas.449

    No entanto, em nosso entendimento, devemos analisar com muito cuidado a Questo

    Christie, que nos parece ter sido um problema originado pela falta de habilidade poltica do

    embaixador ingls no Imprio. Afirma o jornalista brasileiro Jorge Caleira em Mau:

    empresrio do Imprio: O embaixador, desde 1859, era William Douglas Christie [...]. Logo

    que desembarcou, apresentou suas primeiras reivindicaes: queria a abertura da navegao

    de cabotagem para embarcaes estrangeiras (o transporte interno era um monoplio

    nacional), a abertura do Amazonas para a navegao internacional, uma definio do governo

    sobre o estatuto jurdico dos escravos desembarcados no pas depois de 1831 e o domnio do

    mercado naval para os estaleiros ingleses.450

    Segundo Caldeira, a falta de destreza poltica de Christie fica explicitada nos dois

    casos envolvendo o Imprio e a Inglaterra. Segundo Caldeira: medida que ia percebendo

    que lidava com um governo inerte e perdido, o embaixador ingls foi ficando cada vez mais

    parecido com seus precursores. Tornou-se insolente nas exigncias, cido nas crticas e cultor

    de um enorme desprezo pelos brasileiros em geral. Comeou a aproveitar qualquer evento

    marginal para espicaar o ministro do Exterior [...] e fazer reivindicaes descabidas e

    ameaas de uso da fora. No fim, abandonou o principal para se divertir com um evento

    secundrio. No final de 1861 naufragou o navio Prince of Wales, numa regio deserta da costa

    do Rio Grande do Sul. Depois de alguns meses, chegaram ao Rio de Janeiro notcias que

    sugeriam que algum poderia ter pego parte da carga, espalhada pela costa. Christie resolveu

    transformar o fato numa questo diplomtica, e exigiu do governo brasileiro compensaes

    para o proprietrio do navio, para os parentes dos marinheiros mortos, punio para os

    funcionrios brasileiros que registraram o caso tudo isso baseado em suspeitas vagas.451

    Segue o autor: No dia 2 de julho de 1862, a polcia prendeu trs bbados que

    importunavam mulheres e chutavam escravos numa rua da Tijuca. Os trs eram marinheiros

    do navio ingls Forte, que estava atracado no porto. O embaixador interpretou o grotesco

    episdio como um caso srio e um ultraje Inglaterra. Para reparar a ofensa, exigiu do

    449

    ROSA, Jos Mara. La guerra del Paraguay [...] Op Cit pp. 52-53-54

    450 CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 392

    451 Id. Ibid p. 396

  • 179

    governo brasileiro a demisso do oficial que ordenara a priso, desculpas pblicas e uma

    censura escrita ao chefe da polcia da Corte. Como o governo brasileiro se recusou a atender

    s exigncias britnicas tanto num caso como no outro, no dia 31 de dezembro de 1862,

    Christie simplesmente mandou o comandante da esquadra britnica no Rio de Janeiro

    bloquear o porto da cidade e prender todos os navios brasileiros que chegassem.452

    O que pe em dvida a posio oficial dos ingleses na Questo Christie, foi a recepo

    que o embaixador teve quando retornou sua terra natal. Christie voltou para a Inglaterra

    debaixo de crticas dos comerciantes ingleses, que consideravam seu modo de agir exagerado

    e imprudente. Recebeu uma fria defesa oficial, que significava praticamente o fim de sua

    carreira.453

    Nunca demais lembrarmos que foi o governo imperial que rompeu as relaes

    com a Inglaterra depois das atitudes tomadas pelo embaixador Christie.

    Moniz Bandeira em seu livro O expansionismo brasileiro e a formao dos estados

    na Bacia do Prata: da colonizao guerra da trplice aliana, de 1995 escreve, concordando

    com Chiavenato, que os banqueiros britnicos se encarregaram de financiar a campanha

    contra o Paraguai.454

    No entanto, o mesmo Bandeira na obra citada enfatiza que: Porm,

    no se pode, absolutamente, creditar a supostos interesses da Gr-Bretanha por trs do

    Imprio do Brasil a responsabilidade pela erupo da guerra com o Paraguai, a fim de

    incorpor-lo ao mercado mundial, destruir um possvel modelo de desenvolvimento

    econmico alternativo para o capitalismo e/ou buscar terras para o cultivo de algodo. Este

    um teorema que nem a lgica nem os fatos comprovaram. A guerra, evidentemente, acelerou

    a integrao do Paraguai, como, alis, dos outros pases da Bacia do Prata, na economia

    capitalista, medida que o processo de acumulao de capital, cujo centro mais importante se

    localizava, quela poca, na Gr-Bretanha, impunha a dissoluo progressiva e contnua das

    formaes pr-capitalistas. A integrao do Paraguai, iniciada nos tempos de Carlos Antonio

    Lpez, completar-se-ia, no entanto, mais cedo ou mais tarde, em funo das prprias

    exigncias internas de acumulao de capital, sem a necessidade de uma guerra, que

    destruiria, como destruiu, as potencialidades de mercado e de suas foras produtivas.455

    A respeito dos bancos ingleses, o jornalista brasileiro Jorge Caldeira escreve que:

    Dois grandes bancos se destacaram no negcio, atuando como agentes capazes de reunir

    452

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 396

    453 Id. Ibid p. 397

    454 BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 196

    455 Id. Ibid p. 197

  • 180

    capitais para montar os empreendimentos, depois como banqueiros deles, e por fim, como

    investidores na fiscalizao de sua gesto. Formavam o topo da pirmide na poca, e atuavam

    basicamente em trs reas: ferrovias, grandes empreitadas (obras como o canal de Suez, por

    exemplo) e governos [...] financiavam guerras, levantavam capital para emprstimos,

    bancavam a compra de grandes territrios e para realizar os negcios colocavam e tiravam

    governantes do poder, faziam espionagem, substituam diplomatas em acordos secretos,

    subornavam polticos. O primeiro desses bancos era o Baring Brothers, que tinha em seu

    portflio a compra da Louisiana pelos Estados Unidos, o financiamento da Frana depois de

    Waterloo e outras contas dos governos dos Estados Unidos, Rssia, Canad, Austrlia,

    Argentina, Chile e Noruega.456

    Segue o autor: Alm do Baring, um outro conjunto de bancos dominava a cena. Eram

    os Rotschild, uma famlia de banqueiros com empresas espalhadas pela Inglaterra, Frana e

    ustria. No portflio dos Rotschild londrinos estavam o financiamento da campanha de

    Wellington, o da Guerra da Crimia, a tomada de controle do Canal de Suez pela Inglaterra,

    as construes de ferrovias na Frana e na ustria, a conta de governos como o da Inglaterra,

    Npoles e Duas Siclia e do Brasil. Enquanto isso seus primos cuidavam dos destinos da

    economia de todo o Imprio austro-hngaro, de parte da Alemanha, alm de influir bastante

    no destino dos negcios franceses.457

    Caldeira lembra que o governo imperial era nada mais que um dos clientes do banco

    de Lionel Rotschild. Os Baring e os Rotschild costumavam tratar os governos que se serviam

    deles como aos clientes normais, ou seja, como algum que deve seguir obedientemente seus

    conselhos. Assim funcionavam ora como agentes do Tesouro, ora como bancos centrais ou

    ministrios da Defesa de muitos pases e este era seu grande negcio. [...] Nesse mundo

    difcil, o caso do cliente do Brasil, era uma conta obtida ainda nos tempos de dom Pedro I,

    eram um dos mais simples. O governo brasileiro nunca discordava de seu banqueiro

    [Rotschild] [...].458

    Bandeira, na obra apenas citada, conclui seu pensamento, ainda ressaltando o fato de

    que o Imprio e a Inglaterra haviam rompido relaes diplomticas nas seguintes palavras: A

    Gr-Bretanha no possua, entretanto, nenhum interesse especfico to grande, nem mesmo a

    procura de terras para o cultivo do algodo, que justificasse a preparao da guerra contra o

    456

    CALDEIRA, Jorge. Mau: empresrio [...] Op Cit p. 359

    457 Id. Ibid p. 359

    458 Id. Ibid p. 360

  • 181

    Paraguai, mormente usando um pas, como o Brasil, com o qual suas relaes diplomticas

    estavam rompidas desde 1863. Quando o conflito na Bacia do Prata irrompeu, em incio de

    1864, a Guerra de Secesso nos Estados Unidos terminava e j se previa o colapso no

    mercado do algodo, cujo preo cairia de 27 pence a libra para 15,2 e, finalmente para 6

    pense.459

    Francisco Doratioto, em seu texto A Guerra do Paraguai, de 1996, vai mais longe ao

    afirmar que a Inglaterra no s no teria motivos para lanar uma guerra na Amrica do Sul,

    como se manteve neutra durante o conflito. Gr-Bretanha e Frana, as duas maiores

    potncias europias, mantiveram a neutralidade na guerra entre a Trplice Aliana e o

    Paraguai. fato que os banqueiros britnicos concederam emprstimos ao governo brasileiro

    durante o conflito. Tais emprstimos, no entanto, constituam iniciativa privada e seguiam a

    lgica empresarial de buscar a melhor remunerao ao capital com menor risco, pois, afinal

    de contas, a correlao de foras era favorvel ao Brasil e seus aliados e no ao Paraguai.460

    A respeito dos emprstimos feitos pelos ingleses aos aliados, Doratioto, em Maldita

    Guerra, escreve que: Durante a guerra, os aliados obtiveram emprstimos de banqueiros

    ingleses. O capital no tem ideologia. remunerao associada ao menor risco. Fazer

    emprstimos ao governo de Solano Lpez seria, pela lgica empresarial, uma atitude

    arriscada, pois, desde o segundo semestre de 1865, era evidente a impossibilidade de o

    Paraguai vencer a guerra.461

    Nos parece pertinente ressaltar que a Gr-Bretanha no

    construiu a Guerra do Paraguai, mas que no lhe desgostava a idia de um conflito contra esse

    pas. Assim, eles financiaram e apoiaram diplomaticamente os aliados e no se opuseram

    guerra.

    Ricardo Salles, em seu livro Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na

    formao do exrcito, de 1990, tambm enfatiza os emprstimos feitos pelos ingleses aos

    aliados, sob a seguinte ptica: H ainda a questo dos emprstimos ingleses ao governo

    imperial e conseqente dependncia deste em relao Inglaterra como argumento

    demonstrativo do dedo oculto de Londres por trs das aes brasileiras. Com efeito, o

    conflito do Paraguai acarretou a necessidade de enormes gastos por parte do governo imperial

    para cobrir as necessidades de material blico e organizao de um exrcito nacional. Nesse

    sentido, a guerra aprofundou essa dependncia que j havia se estabelecido a partir de 1822 e

    459

    BANDEIRA, Moniz. O expansionismo brasileiro [...] Op Cit p. 200

    460 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. A Guerra do Paraguai [...] Op Cit p. 210

    461 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra [...] Op Cit p. 91

  • 182

    continuaria depois da guerra. A vinculao da guerra a interesses ingleses no sentido da

    efetivao dos emprstimos, no entanto, no tem maiores evidncias e desprovida de

    sentido. Os emprstimos so decorrentes da guerra e no o contrrio. Imputar a interesses

    ingleses a deflagrao do conflito apoiando-se no fato de que o esforo de guerra baseou-se

    em emprstimos junto a bancos ingleses (de resto, j uma tradio do governo imperial)

    uma concluso que inverte os nexos de causalidade entre os dois fatos.462

    Todavia, Salles, na obra citada, reconhece que os ingleses poderiam sim ter uma

    poltica para a Amrica do Sul, com podemos observar no trecho que segue: possvel que o

    objetivo ingls com essa participao fosse o de contribuir com uma poltica (que de qualquer

    forma j vinha sendo levada a cabo pelo Imprio) no sentido de garantir em Montevidu um

    governo colorado, mais afinado aos interesses comerciais britnicos e, juntamente com seus

    vizinhos Argentina e Brasil, favorvel livre navegao. Um governo que comporia um

    quadro de paz [sic] necessrio ao bom desenvolvimento do comrcio na regio platina. [...]

    Nunca demais afirmar que a poltica britnica na regio tinha como linha condutora impedir

    a formao de uma potncia regional hegemnica, fosse esta o Brasil ou a Argentina.463

    Como j explicitamente destacado, em meados dos anos 1950, ao abordar as razes da

    Guerra do Paraguai e o papel da Inglaterra, o argentino Milcades Pea impugnara

    terminantemente a tese do Brasil de dom Pedro e da Argentina de Mitre como meros

    marionetes ingleses. Em La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia o

    historiador marxista lembrava: La guerra contra el Paraguay fue la continuacin lgica y la

    ltima etapa de la guerra de la oligarqua mitrista contra el Litoral y las provincias interiores

    argentina [...]. Propunha, em forma ainda mais direta: La monarqua brasilea no actuaba

    por cuenta de Inglaterra contra el Paragay; actuaba por cuenta propia, impulsada por causas

    internas del Brasil, no por presiones externas.464

    Em nossa opinio, no procederia a viso

    de guerra organizada pela Inglaterra ou da neutralidade da Inglaterra no conflito.

    Quais os interesses em jogo na Guerra do Paraguai?

    Quais pretenses motivaram a Argentina a entrar nesse conflito? Antes de qualquer

    anlise, temos de ter em mente que no foram os argentinos que desejaram o confronto contra

    o Paraguai, mas sim a oligarquia portenha, sob a liderana do presidente Bartolom Mitre.

    Assim, o historiador argentino Miliciades Pea escreve quais foram os fatores que pesaram

    462

    SALES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravido [...] Op Cit pp. 34-35

    463 Id. Ibid pp. 35-36

    464 PEA, Milicades. La era de Mitre [...] Op Cit pp. 47 e 61

  • 183

    para essa guerra, depois de se consolidar com a vitria na batalha de Pavn nos seguintes

    termos: Las provincias interiores no tenan ninguna salida independiente que oferecer a la

    sumisin a Buenos Aires, excepto sucumbir peleando. No podan aportar ninguna

    organizacin del pas superior a la oligarqua portea. El Litoral argentino, por su parte,

    ofreca una organizacin que era en esencia similar a la que promova Buenos Aires, con la

    diferencia de que su eje no hubiera sido la oligarqua portea sino los estancieros del Litoral.

    Paraguay, en cambio, ofreca una alternativa distinta a la de la oligarqua portea y superior a

    ella, como que se basaba en el desarrollo autnomo de la economa nacional, en base a todas

    las conquistas de la civilizacin europea, industrial y capitalista. Por eso la Guerra de la Triple

    Infamia es tan siniestramente reaccionaria.465

    Pea segue escrevendo a respeito dos objetivos da oligarquia de Buenos Aires quanto

    Guerra do Paraguai, conforme podemos ler no trecho que segue: El objetivo fundamental

    de la guerra mitrista contra el Paraguay era liquidar aquel foco que en cualquier momento

    poda aglutinar a las derrotadas provincias del Interior y a los estancieros del Litoral no del

    todo decididos todava a perder la supremaca lograda bajo la Confederacin presidida por

    Urquiza.466

    Ainda a respeito da Argentina de Mitre, devemos nos lembrar que o confronto

    foi mascarado como luta da liberdade contra a tirania, da civilizao contra a barbrie. Mas,

    na verdade, os interesses dos unitaristas eram no mercado e nos territrios paraguaios, por um

    lado, e com a destruio do federalismo, por outro.

    Miliciades Pea escreve, nesse sentido: La guerra civilizadora era la forma de hincar

    el diente en el mercado paraguayo. En ese objetivo la burguesa portea contaba con el apoyo

    de los lamentables retoos de la burguesa comercial paraguaya, clase parsita que no tena

    lugar, o lo tenia de sirvienta en la economa paraguaya, orientada por el Estado hacia la

    produccin estimulada por las ganancias del comercio exterior, que el Estado monopolizaba y

    distribua entre toda la economa.467

    Alm do que o Paraguai poderia, sendo um pas que

    conseguira um desenvolvimento autnomo, ser uma alternativa vivel ao desenvolvimento

    liberal baseado em importaes da oligarquia de Buenos Aires, alm de um estmulo para as

    provncias derrotadas se revoltarem contra o domnio portenho, como assinalado.468

    465 PEA, Miliciades. La era de Mitre [...] Op Cit p. 57

    466 Id. Ibid p. 58

    467 Id. Ibid p. 59

    468 Id. Ibid pp. 47-48

  • 184

    Quanto s razes do Imprio do Brasil, Miliciades Pea vai contra a tese de que a Gr-

    Bretanha quem teria real interesse no conflito, financiando os aliados. Ressalta os interesses

    imperiais na regio, e que o Imprio teria agido por conta prpria, sem ser fantoche dos

    interesses imperialistas estrangeiros, conforme podemos ler no trecho que segue: La guerra

    del Paraguay se produce precisamente en una poca en que las relaciones entre la monarqua

    brasilea e a Inglaterra no eran cordiales, porque a Inglaterra protega la produccin azucarera

    de sus colonias en detrimento de la produccin brasilea y bloqueaba los puertos del Brasil

    para impedir la introduccin de esclavos clandestinos a la oligarqua de plantadores brasileos

    lo cual hunda a stos y favoreca a los plantadores britnicos con propiedades en las

    Antillas. [] Y la diplomacia britnica actu ms bien en el sentido de frenar la ofensiva

    brasilea contra el Paraguay que de impulsarla, porque el dominio brasileo sobre Paraguay a

    debilitar la influencia directa de Inglaterra en el Ro de la Plata puesto que una vez implantada

    su soberana completa sobre el Paran y el Uruguay la monarqua brasilea hubiera sido

    mucho ms esquiva a las imposiciones britnicas. La monarqua brasilea no actuaba por

    cuenta de Inglaterra contra el Paraguay; actuaba por cuenta propia, impulsada por causas

    internas del Brasil, no por presiones externas.469

    Pea aponta uma razo totalmente diferente para a declarao de guerra por parte do

    Imprio. At ento analisamos a questo da navegao dos rios Paran e Paraguai, a questo

    relativa s fronteiras e ainda a influncia externa leia-se, britnica. No entanto, o historiador

    argentino demonstra que havia a questo da escravido a ser defendida e compara o Imprio

    Rssia Czarista, que criava inimigos externos para expandir seus territrios e aliviar as

    presses internas na defesa de sistemas produtivos anacrnicos. Como j assinalado, a guerra

    contra o Paraguai permitiu ao governo imperial e a dom Pedro desarmar o forte movimento

    emancipacionista e abolicionista que se estabelecera a partir dos anos 1860. Uma razo que se

    agregaria aos motivos estruturais e profundos do Estado imperial escravista, em relao ao

    Prata.

    Registra o autor argentino: La economa brasilea, sustentada en la produccin de

    caf y azcar en base al trabajo esclavo, padeca la crisis de este sistema de produccin, cada

    vez ms costoso e ineficiente. La crisis era crnica hacia 1865, y como la nica solucin que

    era liquidar la esclavitud chocaba con los intereses de los plantadores, se buscaba una

    solucin alternativa en la expansin territorial a expensas de los vecinos, con tendencia a

    dominar toda la zona del Plata. En esto como en muchas otras cosas la monarqua aldeana de

    469

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [...] Op Cit p. 61

  • 185

    Brasil se pareca con la autocracia zarista y justificaba el calificativo de Rusia de Amrica. Al

    igual que el zarismo trataba de remediar con la expansin territorial la insoluble crisis de un

    sistema de produccin anacrnico que las clases privilegiadas se negaban a abandonar.470

    A

    respeito da relao escravido e Guerra do Paraguai, analisamos melhor a questo no captulo

    Imprio do Brasil: a monarquia escravista.

    Para Miliciades Pea, houve uma convergncia de interesses. Primeiramente, a

    necessidade da oligarquia portenha em impedir a existncia de um possvel foco de resistncia

    contra seu liberalismo e, se possvel, recolonizar econmica ou territorialmente a provncia

    perdida. Em segundo lugar, a necessidade de expanso territorial e comercial do Imprio

    escravista do Brasil, com destaque para a questo a livre navegao do rio Paraguai. Tudo isso

    com a ajuda dos emprstimos feitos pelos banqueiros ingleses. Esses trs fatores confluram

    para aniquilarem a independncia, a terra e a populao do Paraguai.471

    A questo da navegao dos rios Paran e Paraguai muito mais importante do que

    muitas vezes se cr. Na verdade, j era motivo de discordncias e acirramento dos nimos

    entre as duas naes desde o reconhecimento da independncia paraguaia depois da queda de

    Rosas. Jos Honrio Rodrigues e Ricardo Seitenfus em Uma histria diplomtica do Brasil,

    1531-1945, de 1995, escreve que: Depois dos acontecimentos de 1851 e 1852 a

    independncia do Paraguai reconhecida pela Confederao Argentina (17 de julho de 1852),

    Reino Unido e vrias naes europias no haviam aderido ao pedido de reconhecimento. As

    manifestaes de considerao partidas do Brasil, que fora o primeiro a reconhecer-lhe a

    Independncia, faziam supor que se poderia chegar a um acordo sobre as vrias questes

    pendentes e conseqentes aos Tratado de 25 de dezembro de 1850, especialmente quanto

    navegao dos rios, do comrcio e limites. Mandou o governo Felipe Jos Pereira Leal com

    instrues (29 de maio de 1852) para resolver os casos importantes e esse encontrou os

    maiores embaraos. [...] Nosso representante ouviu as mais graves acusaes e a 12 de agosto

    de 1853 o governo paraguaio mandava-lhe entregar os passaportes.472

    Joaquim Nabuco, em Um estadista no Imprio, de 1899, em um relato mais prximo

    do ocorrido, escreve nos seguintes termos o ocorrido: Em agosto de 1853, Lopez I tinha

    mandado os passaportes ao ministro brasileiro, Leal, acusando-o em nota de dedicar-se

    470

    PEA, Miliciades. La era de Mitre [...] Op Cit p. 62

    471 Id. Ibid p. 63

    472 RODRIGUES, Jos Honrio; SEITENFUS, Ricardo. Uma histria diplomtica do Brasil, 1531-1945. Rio

    de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1995 pp. 187-188

  • 186

    intriga e impostura em dio ao Supremo Governo do Estado e de levantar atrozes calnias

    contra ele. [...] Para exigir uma satisfao do presidente do Paraguay pela ofensa feita ao

    nosso ministro o governo mandou a Assumpo uma esquadra sob o comando do chefe

    Pedro Ferreira, que ia como plenipotencirio. A esquadra parou, por intimao, na

    embocadura do Paraguay, seguindo o chefe em um s vapor, o Amazonas, o qual encalhou

    antes de Assumpo. [...] Negada a satisfao ou recusando o livre transito aos nossos navios

    para o Matogrosso, o almirante tinha no s autorizao, mas at ordem para forar a

    passagem [...]. A misso de Pedro Ferreira foi, em todo o caso, um desastre diplomtico. Esse

    desastre o ministrio reconheceu, recusando a ratificar as convenes que ele celebrou,

    alegando terem sido feitas sem haver ele, primeiro, obtido o livre transito do Paraguay,

    garantido ao Brasil no tratado de 25 de Dezembro de 1830.473

    Suspensas as relaes comerciais, o Imprio tentaria novas negociaes para uma

    abertura da navegao dos rios Paran e Paraguai junto ao governo paraguaio, como nos

    relatam Jos Honrio Rodrigues e Ricardo Seitenfus: As relaes estavam suspensas.

    Paulino, com sua previso de sempre, j dizia nesse ano que s a guerra poderia no s

    desatar, mas cortar essas dificuldades. Alm disso, o governo encarregou de uma misso

    especial o chefe da esquadra Pedro Ferreira de Oliveira (10 de dezembro de 1854). O motivo

    da misso era especificamente solicitar o efetivo cumprimento do art. 3 da Conveno de 25

    de dezembro de 1850 que assegurava a livre navegao do rio Paran at o rio da Prata. A

    navegao do Paran estava aberta a todas as naes pelos dois governos de Buenos Aires e a

    Confederao Argentina, mas os barcos brasileiros no podiam chegar provncia de Mato

    Grosso, porque o Paraguai lhe proibia o trfego pelos seus rios.474

    Mas o que levava o governo paraguaio a agir dessa maneira? Seria uma forma de

    defesa. Segundo os autores citados: Julgava Lpez que se o tratado de comrcio e navegao

    fosse ratificado logo e posto em execuo, no conseguiria a Repblica ajustar e conduzir o

    de limites numa base razovel e justa, pois teria aberto mo de sua posio de segurana e

    defesa.475

    As negociaes em torno da questo da navegao dos rios Paran e Paraguai

    continuaram, vinculadas com os desentendimentos a respeito dos limites entre ambos Estados,

    473

    NABUCO, Joaquim. Um estadista do Imprio: Nabuco de Araujo: sua vida, suas opinies, sua poca / por

    seu filho Joaquim Nabuco. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1899-1900 pp. 218-219-220

    474 RODRIGUES, Jos Honrio; SEITENFUS, Ricardo. Uma histria [...] Op Cit p. 188

    475 Id. Ibid p. 189

  • 187

    como citam Jos Honrio Rodrigues e Ricardo Seitenfus, que chegam a mencionar a palavra

    chantagem ao que o governo paraguaio impunha para negociar ambos: Na resposta e na

    sua proposta de uma nova negociao j se viam os sinistros desgnios que alimentava o

    governo paraguaio de ganhar tempo e no nos conceder o que havia a vrias naes,

    desenvolvendo um tremendo complexo de inferioridade diante do Imprio. Lpez, novamente

    para ganhar tempo, destacou ento, em misso especial ao Rio de Janeiro Jos Borges, que foi

    apresentado a S. M a 5 de maro de 1856 e a 9 iniciava a negociao, terminada a 6 de abril.

    Nesta data assinou-se um tratado desenvolvendo os mesmos princpios do de 25 de dezembro

    de 1850, franqueando-se a navegao do Paraguai. Paranhos fora nosso negociador. Sempre

    se teimava em no aceitar a fronteira sobre o Apa mas sobre o rio Blanco. [...] A 'chantagem'

    estava evidente; s se concederia o livre trnsito se os limites fossem os que eles queriam

    impor.476

    O ano de 1862 assinala no Paraguai a mudana de governo, com a morte de Carlos

    Antonio Lpez e a ascenso de seu filho Francisco Solano Lpez a cargo mximo do pas

    guarani. Nesse ano tambm venceu o prazo do tratado de seis anos negociado entre o Imprio

    e o Paraguai em 1856 que tratava da navegao e da questo de limites. Os imperiais

    reclamavam o uti-possidetis para se estabelecer at o rio Apa, enquanto que os paraguaios se

    apoiavam em tratados ainda da poca colonial para exigir as fronteiras do rio Blanco como

    limite entre os dois Estados.477

    A crise se agravaria novamente em 1864, tendo como catalisador a situao do pas

    oriental. Escrevem Jos Honrio Rodrigues e Ricardo Seitenfus: A questo se abria de novo

    quando da crise brasileiro-uruguaia de 1864, pois imediatamente se dirigia o governo

    paraguaio oferecendo sua mediao. Saraiva no acolheu a oferta e pouco depois do ultimato

    deste a 30 de agosto de 1865 protestou contra a poltica brasileira, declarando no consentir

    na ocupao do territrio oriental. A 12 de setembro de 1864 considerava o governo

    paraguaio rotas as relaes diplomticas entre os dois pases e impedia a navegao das guas

    do Paraguai para as bandeiras de guerra e mercante do Brasil. Os atos de guerra se iniciavam

    logo em seguida com a deteno do vapor brasileiro 'Marqus de Olinda' (o protesto brasileiro

    de 14 de novembro), a entrega do passaporte ao nosso diplomata sem a permisso de sada,

    e a invaso do Mato Grosso, iniciada a 15 de dezembro com o ataque ao forte Coimbra a 27

    476

    RODRIGUES, Jos Honrio; SEITENFUS, Ricardo. Uma histria [...] Op Cit pp. 189-190-191

    477 Id. Ibid p. 193

  • 188

    de dezembro.478

    Podemos perceber ento, que as questes de limites e de navegao,

    interligadas esto na gnese das disputas e desentendimentos entre o Imprio e o Paraguai, e

    acabariam por levar a este sangrento conflito que objeto de estudo de nosso trabalho.

    Mas e o Uruguai? Quais seriam as motivaes para mover essa guerra? Na obra La

    era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia, de 1968, podemos ler que:

    Impuesto en el gobierno del Uruguay por los caones brasileos de Tamandare, Venancio

    Flores se comprometi a apoyar al Brasil en la guerra contra el Paraguay, que Paraguay haba

    declarado al imperio esclavista en defensa del gobierno legtimo del Uruguay.479

    Em suma, o Uruguai de Venncio Flores entraria na Guerra do Paraguai no por

    motivaes prprias, mas sobretudo por causa de um compromisso com o Imprio. O

    presidente colorado declararia guerra ao Paraguai por dever aos imperiais sua ascenso ao

    poder no Estado Oriental.

    478

    RODRIGUES, Jos Honrio; SEITENFUS, Ricardo. Uma histria [...] Op Cit p. 194

    479 PEA, Miliciades. La era de Mitre [...] Op Cit p. 66

  • 189

    CONSIDERAES FINAIS

    Chegamos ao final do trabalho e nosso objetivo, que era sobretudo, fazer uma anlise a

    respeito das diferentes vises historiogrficas a respeito da Guerra do Paraguai foi alcanado,

    segundo nosso entendimento. claro que no procuramos esgotar o assunto, pois sabemos

    que isso impossvel, mas procuramos trazer algumas vises diferentes a respeito do tema

    estudado, bem como deixar a oportunidade para fazermos uma continuao desse estudo em

    oportunidades posteriores, onde poderemos fazer um estudo mais acurado sobre mais

    correntes historiogrficas e inclusive ampliar o perodo estudado.

    Nesse trabalho de Dissertao de Mestrado, procuramos enfatizar os processos de

    construo dos Estados Nacionais da bacia do rio da Prata, mais o Imprio brasileiro, pois em

    nosso entendimento, essas condies nos do base para entender as contradies, rivalidades e

    disputas que levaram deflagrao da Guerra do Paraguai. Rivalidades e contradies, que

    como explicitamos no decorrer do trabalho, no devem ser vistas somente de pases uns

    contra os outros, inclusive pelo motivo de nem eles mesmos estarem totalmente consolidados.

    Essas rivalidades eram muitas vezes endgenas, entre faces ou partidos polticos dentro de

    um mesmo pas que o levavam a adotar uma postura ou outra com relao aos seus vizinhos.

    Alm disso, pensamos ser importante no vincularmos as aes de grupos sociais ou

    mesmo de governantes com os dos pases. Na poca estudada, os governos no eram

    necessariamente a representao da vontade nacional, mas sim, das classes dominantes.

    Assim, tambm pertinente no pensarmos nas aes como sendo de homens iluminados, ou

    de grande personalidade que resolveram mudar os destinos de suas naes. Devemos ver os

    personagens como pertencentes ou representantes de uma classe social, e que na verdade, seus

    objetivos so mais especificamente de consolidar a posio dessa classe frente s demais e

    mesmo dos demais pases. Assim, podemos compreender o porqu que quando um

    determinado partido domina um pas, por exemplo, ele ter uma atitude em sua poltica

    externa, que poder mudar radicalmente quando esse grupo deixa o poder.

    Mas antes de tudo, nosso trabalho pretendia trazer a baila as diferenas nas

    interpretaes da histria da Guerra do Paraguai. Como dito oportunamente, esse

    basicamente uma anlise historiogrfica, onde pretendamos expor as diferentes formas como

    esse conflito, bem como suas causas so elucidadas pelas diferentes correntes da

    historiografia de diferentes pases.

    No pretendemos trazer aqui uma anlise nica ou dizer que uma ou outra corrente

    historiogrfica est correta ou errada. Queremos sim, demonstrar que existem vises

  • 190

    diferentes, historiografias diferentes a respeito dos temas que compem o estudo da Guerra do

    Paraguai. A partir dessa anlise, o leitor poder tirar suas prprias concluses, mas no iremos

    apontar uma especificamente para apontar como a a verdade.

    claro que e em determinados momentos, nossa opinio apareceu, mas ainda assim,

    procuramos deixar explcito no decorrer do texto que no pretendemos fazer acusaes contra

    nenhuma corrente historiogrfica em especial. Penso, no entanto, como j citado, que nosso

    trabalho atingiu as expectativas a que se props, que foi analisar algumas das diferentes

    formas de explicar a Guerra do Paraguai, conflito nico. Conflito que marcou todos os

    envolvidos, no s o Paraguai, pela destruio, mas onde inclusive os vencedores perderam.

    Onde os vencedores enfrentaram problemas e inclusive passaram por assassinatos de

    presidentes e mudanas de regime poltico. Uma guerra que ainda polmica, e que ainda

    gera debates apaixonados nas diferentes historiografias, nas diferentes discusses a respeito

    desse tema.

    Pensamos ser pertinente destacarmos a obra de Francisco Doratioto, uma vez que

    tivemos a oportunidade de estudar diferentes textos do mesmo autor. Assim, nos foi possvel

    analisar sua evoluo historiogrfica.

    Em nosso entendimento, na seqncia de seus trabalhos O Conflito com o Paraguai

    [1996]; A Guerra do Paraguai [1998]; Maldita Guerra: nova histria da Guerra do

    Paraguai [2002], podemos notar que ele fez uma anlise mais profunda. No entanto,

    ressaltamos que no mudou necessariamente de foco. Doratioto escreve que pretende superar

    as vises tradicional [nacional-patritica] e a revisionista, reescrevendo a Guerra do Paraguai

    sob uma nova perspectiva. No tem por finalidade demonizar o presidente Solano Lpez,

    tampouco agigantar os interesses e a participao da Gr-Bretanha no conflito. Defende que

    no h bandidos e mocinhos na histria.

    No entanto, nas trs obras analisadas, Doratioto nos parece muito prximo das

    narrativas nacional-patriticas. Se ele realmente no acredita em maniquesmos, quem l seus

    livros no ver Solano Lpez de outra forma, pois escreve que foi o soberano paraguaio quem

    lanou seu pas em uma guerra contra adversrios mais poderosos em uma manobra mal

    calculada e precipitada. Alm do mais, nos parece que Doratioto no d a devida importncia

    invaso imperial ao territrio oriental para a ecloso do conflito. O prprio Ricardo Salles,

    em Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na formao do exrcito, de 1990, ressalta

    que a historiografia tradicional quando apresenta essa ao no Uruguai a demonstra como

    independente da Guerra do Paraguai. As advertncias feitas por Solano Lpez tambm no

  • 191

    merecem o devido destaque nas obras de Doratioto, que nas trs defende a idia em que o

    governo imperial teria dado pouca importncia ameaa que o Paraguai representaria, o que

    nos parece fantasioso, levando em considerao os tratados ofensivo-defensivos assinados

    com a Argentina na dcada de 1850.

    Mas as obras de Francisco Doratioto so de fundamental importncia, tendo em vista a

    riqueza de detalhes a respeito da reviso historiogrfica feita pelo citado autor. Alm disso,

    no podemos deixar de ressaltar que Doratioto faz um resgate precioso no s dos

    antecedentes da Guerra do Paraguai, como das batalhas e dos resultados da mesma.

    Procuramos no captulo sobre o Uruguai, trazer mesmo que de relance algumas

    caractersticas de formao dos pases envolvidos na Guerra do Paraguai, pois em nosso

    entendimento elas que foram determinantes para a ecloso do conflito.

    Descrevemos rapidamente a diviso no Uruguai entre blancos e colorados, uma vez

    que esse confronto envolveu os demais pases platinos, e terminaria por lanar o Paraguai a

    uma investida contra o Imprio. Enfim, nossa finalidade nesse estudo era demonstrar como as

    contradies internas, as divises entre faces rivais dentro dos Estados da regio do rio da

    Prata, as questes de navegao dos rios interiores, de fronteira e de comrcio pesaram para

    iniciara o maior confronto armado da Amrica do Sul.

    ponto comum entre os historiadores que a situao do Uruguai era crtica e ela que

    nos ajuda a entender o incio deste conflito. Como para muitos, foi a invaso brasileira ao

    Estado Oriental o incio da Guerra do Paraguai, procuramos neste captulo, apresentar as

    circunstncias em que se processou esta invaso, bem como suas conseqncias para o futuro

    no s do Uruguai, como da Argentina, do Imprio e do Paraguai. Procuramos demonstrar

    tambm como era a situao uruguaia na guerra, pois temos de destacar que no foi o pas que

    declarou guerra ao pas guarani, mas sim a classe dirigente, uma vez que o governo colorado

    estava no poder graas interveno imperial. Sendo assim, essa aliana fora feita com Flores

    e seus correligionrios, sem a aprovao dos blancos.

    No captulo sobre a Argentina, procuramos aprofundar as questes relativas ao

    processo de consolidao do Estado Argentino e suas implicaes nas relaes com os

    vizinhos, e como essas relaes acabariam por desembocar na Guerra do Paraguai.

    No mago da questo, colocamos a contradio existente entre as provncias

    interioranas e a oligarquia de Buenos Aires. Levando em considerao que nas primeiras, as

    classes econmicas predominantes eram os estancieiros, que desejavam maior autonomia

  • 192

    provincial, ao passo que a oligarquia importadora portenha desejava uma unificao

    centralizadora. No entanto, destacamos que apesar de rivais, no tinham objetivos econmicos

    to distintos, tanto que na batalha de Pavn, Urquiza, que representava as provncias e a

    Confederao entregou a vitria a Mitre, representante da oligarquia liberal de Buenos Aires.

    Um ponto que chamou nossa ateno foi o fato que Miliciades Pea apontou que no

    havia sada para as provncias se no sucumbir diante de Buenos Aires. No entanto, ele

    mesmo ressalta que o Paraguai poderia sim ser uma alternativa vivel ao liberalismo proposto

    pelos portenhos. E ainda poderia estimular e apoiar revoltas das provncias litorneas contra

    Buenos Aires, sendo essa uma das razes que levou Mitre a se aliar ao Imprio contra o

    Paraguai.

    Um Estado argentino unificado aps a batalha de Pavn, que no chegara a um

    consenso a respeito do apoio na Guerra do Paraguai, estando fortemente dividido. To

    dividido que o prprio presidente teria de se retirar da guerra, entregando o comando aliado

    aos imperiais. Um pas que entrou na guerra com o seu governo apoiando um lado e a maior

    parte de seu povo o outro. Que via no Imprio o inimigo, e no no Paraguai de Solano Lpez,

    a que Mitre chamava de brbaro.

    No captulo sobre o Imprio do Brasil, trabalhamos ento, com o pas que diferenciou

    dos demais na Amrica do Sul. Primeiramente pelo fato de ter conseguido o que nenhum

    outro conseguiu: manter a unidade de suas partes. Os demais acabaram por se separar em

    pequenas repblicas. Esse foi o segundo ponto de diferenciao do Brasil. O fato de ter

    mantido um membro da antiga metrpole, no caso da Casa de Bragana, no comando do pas

    e um sistema monrquico. O Brasil era a nica monarquia da Amrica.

    Ainda temos mais um ponto em destaque: a questo da escravido. O Imprio manteve

    as tradies do tempo de colnia. A escravido era justificada pela superioridade de

    nascimento, e se manteve arraigada no seio da sociedade brasileira at meados do sculo 19.

    Muito mais do que uma instituio produtiva, mas principalmente como meio de dar status

    aos donos de escravos, ela s passou a ser questionada a partir de 1860.

    Nesse ponto, destacamos a obra de Ricardo Salles, Guerra do Paraguai: escravido e

    cidadania na formao do exrcito. Nesse livro, o citado autor escreve como era feito o

    recrutamento para a guerra, sem contar que a condio de escravizados implicava na forma de

    tratamento dos soldados, inclusive no que diz respeito promoo. Assim, fundamental

  • 193

    lermos esse livro para compreendermos como se deu a formao dos contingentes militares no

    perodo escravocrata.

    Assim, destacamos que o Imprio, aps um perodo de turbulncias, conseguiu uma

    estabilidade econmica e social no atingida por nenhum de seus vizinhos. Enquanto Uruguai

    e Paraguai procuravam se consolidar e a Argentina se debatia em uma guerra civil entre a

    Confederao e Buenos Aires, o Imprio se encontrava com suas instituies econmicas e

    socais definidas. Isso lhe permitiu se voltar para uma poltica externa agressiva, interferindo

    nos pases vizinhos, em uma poltica claramente imperialista. E essa poltica imperialista

    que acabaria sendo uma das principais causas do incio da Guerra do Paraguai.

    Ento no captulo em que escrevemos sobre o Paraguai, nos perguntamos: que pas

    esse? Uma ditadura de poder unipessoal, governado por dspotas eleitos pelo voto quase

    universal, que no permitiam que circulassem livros e que a populao soubesse o que

    acontecia alm das suas fronteiras? Mas um pas onde muitos sabiam ler e escrever,

    diferentemente de seus vizinhos, principalmente no Imprio. Sobretudo, um pas onde

    subsistia uma enorme populao livre, proprietria ou arrendatrio, enquanto que na

    Argentina e no Uruguai as populaes livres eram reprimidas e batidas, atravs da

    implantao crescente do peonasgo, enquanto no Brasil reinava ainda em forma hegemnica a

    produo escravista.

    Foi este peculiar pas que chamou nossa ateno neste captulo. Onde as condies

    favoreceram o aparecimento de um despotismo liderado pelo dr. Francia, que exerceu seu

    poder de forma ilimitada. No entanto, apesar de ter mantido seu pas isolado dos demais,

    garantiu a independncia, e os confiscos feitos aos seus adversrios polticos criaram uma

    enorme base camponesa de apoio para o regime, possibilitando a acumulao endgena de

    capitais e a posterior importao de tecnologias feita pelos Lpez anos mais tarde.

    E assim, temos na obra de Ral de Andrada e Silva Ensaios sobre a ditadura no

    Paraguai, o resgate das razes do desenvolvimento paraguaio no perodo de Jos Gaspar

    Rodrigues de Francia. Nessa obra, podemos analisar como se deu o isolamento paraguaio, a

    resistncia do soldado guarani, bem como as razes de esta nao ter se tornado uma ditadura

    unipessoal.

    Ento no captulo em que escrevemos sobre o Paraguai, nos perguntamos: que pas

    esse? Uma ditadura de poder unipessoal, governado por dspotas eleitos pelo voto quase

    universal, que no permitiam que circulassem livros e que a populao soubesse o que

  • 194

    acontecia alm das suas fronteiras? Mas um pas onde muitos sabiam ler e escrever,

    diferentemente de seus vizinhos, principalmente no Imprio. Sobretudo, um pas onde

    subsistia uma enorme populao livre, proprietria ou arrendatria, enquanto que na

    Argentina e no Uruguai as populaes livres eram reprimidas e batidas, atravs da

    implantao crescente do peonasgo, enquanto no Brasil reinava ainda em forma hegemnica a

    produo escravista.

    Foi este peculiar pas que chamou nossa ateno neste captulo. Onde as condies

    favoreceram o aparecimento de um despotismo liderado pelo dr. Francia, que exerceu seu

    poder de forma ilimitada. No entanto, apesar de ter mantido seu pas isolado dos demais,

    garantiu a independncia, e os confiscos feitos aos seus adversrios polticos criaram uma

    enorme base camponesa de apoio para o regime, possibilitando a acumulao endgena de

    capitais e a posterior importao de tecnologias feita pelos Lpez anos mais tarde.

    As obras de Manilio Cancogni e Ivan Bris Solano Lpez: o Napoleo do Prata; e de

    Juan Emiliano OLeary El Mariscal Lpez nos auxiliam a compreender melhor essa singular

    personalidade. importante analisarmos esses livros, sem deixar de levar em considerao

    suas vises de mundo. Mas com eles que podemos ter uma viso, mesmo que extremada do

    desenvolvimento paraguaio antes da Guerra do Paraguai. Tambm podemos encontrar as

    contradies da nao guarani com seus vizinhos, bem como com as naes europias.

    Nosso objetivo captulo com a discusso historiogrfica, era fazer uma discusso

    historiogrfica com autores diferentes que tm vises opostas a respeito da Guerra do

    Paraguai que, como Ricardo Salles escreve em trecho citado, um fato esquecido, mas que

    quando abordado causa polmica.

    Assim, procuramos trazer o entendimento de correntes historiogrficas diversas em

    seu modo de pensar o conflito, sem dizer que uma ou outra est correta. Os fatos concretos

    so que: foi o maior conflito armado envolvendo os pases da Amrica do Sul. Para alguns,

    teria se iniciado em 1864, para outros, em 1865. Como vimos, para alguns o Tratado da

    Trplice Aliana foi redigido aps a agresso ordenada por Solano Lpez Argentina; para

    outros, no acampamento de Flores no encontro de Puntas del Rosario. Para uns a Inglaterra

    tinha maior interesse em abrir os mercados da Amrica do Sul, inclusive o do Paraguai que

    estava fechado, bem como evitar o mau exemplo do pas guarani. Para outros, o mercado

    consumidor paraguaio era diminuto e no justificaria uma guerra, e apesar de o liberalismo ter

    triunfado com a vitria militar dos aliados, o Paraguai teria de se abrir ao mercado mais cedo

    ou mais tarde para continuar seu desenvolvimento. Para alguns, os emprstimos feitos pelos

  • 195

    ingleses so a prova de seu comprometimento na guerra. Para outros, so de origem privada e

    no tm a ver com a poltica do governo ingls, e se foram feitos aos aliados, seria pelo fato

    de que era mais seguro emprestar dinheiro para o lado que desde a batalha do Riachuelo, em

    1865 estava com a vitria garantida, afinal se tornara impossvel uma virada no conflito em

    favor do pas guarani.

    Gostaramos de destacar algumas semelhanas e diferenas entre as interpretaes dos

    autores destacados acima. Primeiramente, ponto comum que o Imprio e o Paraguai tinham

    divergncias tanto quanto navegao dos rios Paran e Paraguai, alm das fronteiras.

    ponto comum que a Argentina de Mitre tambm tinha rivalidades com os paraguaios desde os

    tempos coloniais, no que diz respeito aos tributos cobrados por Buenos Aires. Mitre era

    favorvel adoo de uma poltica de livre cambismo no rio da Prata. No se discute tambm

    que a situao do Uruguai era um elemento catalisador de divergncias entre o Imprio, a

    Argentina dividida e o Paraguai de Lpez, sendo que este pequeno pas acabaria por

    precipitar o conflito.

    Os autores argentinos Jos Maria Rosa e Miliciades Pea destacam que a invaso do

    Uruguai pelas Foras Armadas imperiais foi o incio da Guerra do Paraguai, levando em

    considerao que havia uma ameaa clara e explcita de Solano Lpez ao Imprio caso

    tomassem essa atitude. Robert Conrad tambm partilha dessa opinio. Francisco Doratioto

    reconhece a importncia da ao no Uruguai, juntamente com Ricardo Salles, no entanto,

    ambos demarcam o incio da Guerra do Paraguai na invaso do Mato Grosso em fins de 1864,

    com o que ele denominou de Guerra Relmpago. Uma aluso famosa Blitzkrieg nazista

    que seria usada muitos anos depois?

    Para ns, a importncia de Moniz Bandeira em sua obra O expansionismo brasileiro

    e a formao dos Estados na bacia do Prata: da colonizao guerra da Trplice Aliana se

    deve ao fato de este autor colocar a devida importncia das classes sociais. Retira-se a Guerra

    do Paraguai apenas do mbito das conscincias e das personalidades para o dos estratos

    sociais, com seus interesses. E so essas classes que exigem determinadas atitudes dos

    governantes, como seus representantes.

    Dessa forma, pensamos ter alcanado nosso objetivo que era, a discusso

    historiogrfica entre as diversas vises a respeito da Guerra do Paraguai, depois de ter

    analisado as diferentes concepes sobre a formao dos pases da bacia do Prata e como

    essas formaes acabaram por se refletir no s nas suas relaes com os vizinhos, como

    explicam seus papis na Guerra do Paraguai.

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