A GUERRA GRANDE (1839-1852) E OS BRUMMER: ?· a guerra grande (1839-1852) e os brummer: fronteira e…

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<ul><li><p>A GUERRA GRANDE (1839-1852) E OS BRUMMER: FRONTEIRA E IMIGRAO </p><p>GERMNICA NO RIO GRANDE DO SUL DO SC. XIX </p><p>CARLOS EDUARDO PIASSINI1 </p><p>MARIA MEDIANEIRA PADOIN2 </p><p>A concepo bsica norteadora do trabalho do historiador est expressa em uma ampla </p><p>dimenso, que seja: compreender a Histria como cincia do tempo presente. O uso de </p><p>mtodos, teorias e a pretenso de veracidade carregam em si o carter cientfico da pesquisa </p><p>histrica, enquanto a autorreflexo do mundo existente em volta do historiador lhe </p><p>proporciona a elaborao de questes relacionadas ao tempo presente, cujas respostas aludem </p><p>ao tempo que j se foi. Tal entendimento advm do trabalho de Rsen (2001), cujos esforos </p><p>voltados Teoria da Histria trouxeram valiosas contribuies para os historiadores </p><p>(re)pensarem seu oficio. Assim, a realidade vem tona como matria essencial para o </p><p>desenvolvimento das questes histricas e, tambm, para a interpretao dos eventos </p><p>encontrados no passado. Dessa forma, o momento atual intrinsecamente influencia na </p><p>construo do passado que se investiga, e este, passa a ter carter de presente. As trs </p><p>temporalidades acabam fortemente voltadas para uma delas: o presente. Ao passo que a </p><p>autorreflexo do presente leva a buscar respostas no passado, a expectativa do futuro move o </p><p>presente. </p><p>Ao aludir ao mundo no qual se vive o papel de gerador das questes a partir das quais </p><p>as pesquisas histricas tomam corpo, destacamos o tema da Fronteira como de suma </p><p>importncia para a atualidade e, portanto, fonte abundante pesquisa. Inseridos em uma </p><p>realidade caracterizada por Bauman3 (2001) como lquida, ou seja, ausente de materialidade </p><p>suficiente a manuteno duradoura de nossas referencias, sujeitas mudanas cada vez mais </p><p>rpidas que fazem nosso mundo escorrer pelas mos, o papel da referncia ganha destaque. A </p><p>fronteira, em seus diversos entendimentos, nos auxilia a digerir as mudanas ao nosso redor. </p><p>Tambm Maffesoli4 (2010) corrobora a percepo de um mundo singrado pelas mudanas, e </p><p>aplica o conceito de Saturao para tanto, isto , um processo quase qumico, baseado na </p><p> 1 Mestrando do Programa de Ps-Graduao em Histria da Universidade Federal de Santa Maria, na Linha de </p><p>Pesquisa Fronteira, Poltica e Sociedade; Bolsista CAPES/DS; cepiassini@yahoo.com.br. 2 Prof. Dr. Maria Medianeira Padoin; Coordenadora do Programa de Ps Graduao em Histria PPGH da </p><p>Universidade Federal de Santa Maria; mmpadoin@gmail.com. 3 ZYGMUNT, Bauman. Modernidade lquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 4 MAFFESOLI, Michel. Saturao. (Traduo Ana Goldberger). So Paulo: Iluminuras/Ita Cultural, 2010. </p><p>mailto:cepiassini@yahoo.com.brmailto:mmpadoin@gmail.com</p></li><li><p>2 </p><p>desestruturao de um corpo seguida pela reestruturao desse corpo com os mesmos </p><p>elementos daquilo que foi desconstrudo. O novo surge a partir do velho. Aquilo antes </p><p>conhecido deixa de ter preponderncia e, dessa forma, torna-se necessrio enfrentar a </p><p>mudana. Aqui faz-se importante a referencialidade, entendida como um ponto de apoio </p><p>frente a imprevisibilidade aguda do mundo atual. </p><p>O movimento causado pelas mudanas tornou a vida mais dinmica. Assim, inserido </p><p>nesse contexto, o conceito de Fronteira, como Rui Cunha Martins (2008) aponta, passou por </p><p>transformaes. Antes engessado em um modelo restrito, o conceito passou para o estatuto de </p><p>dispositivo, ou seja, adquiriu um carter plurifacetado e em adaptao permanente. Ainda </p><p>assim, continua apresentando grande potencial demarcador, o que o capacita a facilitar o </p><p>entendimento desse mundo irrestrito. Porm, a dimenso demarcatria da Fronteira tem </p><p>limites, uma vez que a referncia, isto , o espao demarcado e, por isso mesmo, uma criao, </p><p>entra em tenso com a contingncia, ou seja, com o imprevisvel do real. A Fronteira , pois, </p><p>enquanto conceito e espao real, dinmica. </p><p>Ao tratarmos da migrao de indivduos germnicos para a Provncia de Rio Grande </p><p>de So Pedro em meados do sc. XIX, especificamente do caso dos Brummer, abordamos a </p><p>questo da Fronteira, uma vez que, segundo nosso entendimento, esta foi um dos principais </p><p>elementos mobilizadores de tal deslocamento. Aqui, ao tratarmos da Guerra Grande (1839 </p><p>1852), vamos nos referir, sobretudo, ao espao fronteirio platino, entendido por Maria </p><p>Medianeira Padoin (2001) como um espao constitudo atravs de relaes sociais e </p><p>econmicas, com carter de regio, onde circularam homens, ideias, culturas e mercadorias. </p><p>No estava associado a delimitaes fsicas e polticas, caracterstica essa, segundo Khn5 </p><p>(2006), inerente Fronteira, pois enquanto territrio de circulao de pessoas e mercadorias, </p><p>ela no deve ser confundida com o limite poltico, definido pelos tratados internacionais. Esse </p><p>espao era dinmico e mutvel. Compreendeu o atual territrio de Buenos Aires e provncias </p><p>litorneas da Bacia do Prata, o territrio atual do Uruguai e a regio da Campanha do Rio </p><p>Grande do Sul. As relaes construdas nesta regio permitiram a circulao e a troca de </p><p>ideias, bem como a conscincia de autonomia poltica, de liberdade e de proteo, elementos </p><p>fundamentais para a difuso de ideias federalistas durante o conturbado perodo de construo </p><p>dos Estados Nacionais. </p><p> 5 KHN, Fbio. Gente da Fronteira: Famlia, Sociedade e Poder no Sul da Amrica Portuguesa Sculo </p><p>XVIII. 2006. 479 p. Tese (Doutorado em Histria) Universidade Federal Fluminense, UFF, Niteri. 2006. </p></li><li><p>3 </p><p>As polticas voltadas imigrao germnica para a colonizao de considerveis reas </p><p>sulinas durante o sc. XIX, de acordo com Jorge Luiz da Cunha (2006), visava, sobretudo, </p><p>aumentar consideravelmente a populao para promoo da riqueza e prosperidade do sul do </p><p>pas e a defesa das fronteiras em tempo de guerra. De fato, a Provncia de Rio Grande de So </p><p>Pedro, durante o referido sculo, fora palco de intensas disputas territoriais. A proteo de sua </p><p>posse era fundamental ao governo portugus e posteriormente ao imprio brasileiro, pois, </p><p>segundo Comissoli6 (2008), constitua-se como porta de acesso aos ricos mercados da regio </p><p>platina. Assim, o contexto fronteirio meridional contribuiu para a consolidao do </p><p>empreendimento migratrio e colonizador do Rio Grande do Sul durante o sculo XIX ao </p><p>instalar grupos de indivduos provenientes de regies europeias em seu territrio para a </p><p>manuteno de sua posse. </p><p>O caso dos Brummer possui especificidades, pois sua migrao ocorreu no ano de </p><p>1852 e esteve descolada do objetivo de fixao dos imigrantes em colnias para a produo de </p><p>alimentos e a proteo do territrio. Porm, ainda que a fixao no fosse o fim desejado </p><p>quando da contratao dos Brummer, a proteo do territrio foi fator fundamental. A legio </p><p>germnica engrossou as fileiras do exrcito brasileiro no conflito conhecido como Guerra </p><p>Grande (1839 1852). De acordo com Jose Pedro Barran (1979:5), ela pode ser definida </p><p>atravs de diversos ngulos, </p><p>[...] h sido definida como la lucha internacional entre la Amrica espaola </p><p>y la Europa industrial; pugna rio-platense, entre tendncias nacionalistas y </p><p>autoritrias enfrentadas com tendencias extranjerizantes y liberales; entre </p><p>federales y unitarios en Argentina; blancos y colorados en el Estado </p><p>Oriental; intentos hegemnicos tendientes a la reconstruccin del virreinato </p><p>de Buenos Aires, y combate por sobrevivir del Urugauay y Paraguay. [...] Lo </p><p>que comenz por ser un conflicto de bandos entre Oribe y Rivera en el </p><p>Estado Oriental, se transform con la cada de Oribe (octubre de 1838) en </p><p>guerra internacional.7 </p><p>Portanto, este conflito envolveu diversos Estados e adquiriu, assim, carter </p><p>internacional, envolvendo Buenos Aires, Corrientes, Santa F, Montevidu, Entre Rios e o </p><p> 6 COMISSOLI, Adriano. Os homens- bons e a Cmara Municipal de Porto Alegre (1767 1808). Porto </p><p>Alegre: Coleo Teses e Dissertaes, v.1. 2008. 7 [...] tem sido definida como a luta internacional entre a Amrica espanhola e a Europa industrial; conflito rio-</p><p>platense, entre tendncias nacionalistas e autoritrias contra tendncias favorveis a formas estrangeiras e </p><p>liberais; entre federalistas e unitrios na Argentina; blancos e colorados no Estado Oriental; tentativas </p><p>hegemnicas de reconstruo do vice-reinado de Buenos Aires, e o combate por sua sobrevivncia do Uruguai e </p><p>do Paraguai. [...] O que comeou como um conflito de bandos entre Oribe e Rivera no Estado Oriental, se </p><p>transformou aps Oribe cair (outubro de 1838) em uma guerra internacional. (Traduo nossa). </p></li><li><p>4 </p><p>Paraguai, assim como o Brasil, a Frana e a Inglaterra. De forma geral, dentre as motivaes </p><p>dos envolvidos, podemos citar os fortes interesses econmicos, a existncia de planos </p><p>expansionistas, e a defesa da autonomia e independncia de alguns deles (BARRAN, 1979; </p><p>BETTEL, 1991). </p><p>Figura central da Guerra Grande, Juan Manuel de Rosas, chegou ao poder na </p><p>Argentina, ento um emaranhado de provncias politicamente autnomas, em 1829, com o </p><p>apoio dos caudilhos do interior. De acordo com Bettel (1991), Rosas foi proprietrio de </p><p>grandes extenses de terra, teve muitos pees a seu servio, comandou milcias, e, ainda, </p><p>conseguiu adaptar seu discurso para falar de perto com indgenas, estancieiros, polticos e </p><p>pees. Enquanto governador de Buenos Aires, defendeu uma poltica de expanso e </p><p>colonizao, alm de privilegiar queles que o apoiavam, isto , um grupo formado </p><p>principalmente por proprietrios de terra. Como destaca Barran (1979: 15), ao citar </p><p>Sarmiento, </p><p> Quin era Rosas? Um proprietario de tierras. Qu acumul Rosas? Tierras. </p><p>Qu dio a sus sostenedores? Tierras. </p><p>Qu quit o confisco a sus adversrios? Tierras8. </p><p> Entre os anos 1832 e 1835, de acordo com Bettel (1991), durante os quais Rosas </p><p>esteve afastado do poder direto do cargo de governador de Buenos Aires, ele encabeou a </p><p>Campaa del Desierto (BETTEL, 1991: 282), empreendimento baseado no extermnio e, </p><p>algumas vezes, acordos com os indgenas do sul de Buenos Aires para a conquista de vastas </p><p>extenses de terra. O objetivo foi alcanado e teve xito em adicionar a Buenos Aires </p><p>milhares de quilmetros quadrados de terra. Grande parte das reas conquistadas foi </p><p>distribuda entre queles que haviam participado da campanha, principalmente aos capites, </p><p>coronis e generais. </p><p> A questo da terra teve espao destacado durante os anos do poderio de Rosas. </p><p>Segundo Bettel (1991), com o prestgio adquirido aps tal empreendimento, o retorno de </p><p>Rosas ao poder foi triunfal, sobretudo em vista da instabilidade de Buenos Aires e da </p><p>insubordinao das provncias que compunham a Confederao Argentina. Estes foram </p><p> 8 Quem era Rosas? Um Proprietrio de Terras. </p><p>O que Rosas acumulou? Terras. </p><p>O que deu a seus apoiadores? Terras. </p><p>O que tomou ou confiscou de seus adversrios? Terras. (Traduo nossa). </p></li><li><p>5 </p><p>pretextos suficientes para a interveno de Rosas e a manuteno de seu governo ao longo de </p><p>17 anos com poder ilimitado e total. Para Barran (1979), duas garantias foram exigidas a ele </p><p>pelos grupos que o apoiaram, em particular dos proprietrios de terra da campanha: paz e </p><p>terras. As terras ele conquistou e concedeu aos seus partidrios e a outros que por esse motivo </p><p>se inclinaram a apoi-lo. A paz ele tratou de obter eliminando todos aqueles que no seguiam </p><p>as diretrizes da faco poltica que representava, e nisso fracassou. Rosas aniquilou os </p><p>partidos, sobretudo o unitrio, como meio para unificar a nao e levar ordem. Usou do </p><p>terror, da perseguio aos inimigos polticos, e de smbolos e imagens para exaltar sua </p><p>imagem e seu governo. </p><p>Segundo Bettel (1991), durante o governo de Rosas, a terra pblica virou moeda de </p><p>troca. Ele deixou de lado o sistema de arrendamento de terras vigente no governo de seu </p><p>antecessor e colocou no mercado grandes quantidades de terra, compradas pelos mais ricos. </p><p>Ainda assim, a pouca procura deu pretexto a Rosas para passar a doar as terras pblicas. Fez </p><p>generosas concesses de terra aos apoiadores de seu governo, alm de valer-se das doaes </p><p>para garantir alianas e pagar salrios e penses. </p><p>De acordo com Barran (1979), o federalismo de Rosas foi peculiar, pois apesar de ter </p><p>permitido a autonomia poltica das provncias pertencentes Confederao Argentina, </p><p>guardou para si o domnio econmico da regio ao negar-se a abrir os portos do litoral ao </p><p>comrcio direto com a Europa e nacionalizar as rendas da aduana portenha. Frente a isso, </p><p>quando tiveram oportunidade, Corrientes, Entre Ros e Santa F trataram de combater a </p><p>hegemonia de Buenos Aires. Nesse sentido, para Bettel (1991), a razo pela qual Rosas </p><p>detestava os unitrios no dizia respeito ao desejo de obterem uma Argentina unida, mas por </p><p>que eram liberais que defendiam os valores seculares do humanismo e do progresso. Rosas os </p><p>identificava como maons e intelectuais, como subversivos que ameaavam a ordem e a </p><p>tradio. As doutrinas constitucionais dos partidos no o interessavam e nunca foi </p><p>verdadeiramente federalista. Apesar de fazer parte do partido federalista, pensava e governava </p><p>como um centralista, defendendo a hegemonia de Buenos Aires. </p><p>Enquanto Rosas governava Buenos Aires com poderes ditatoriais e mantinha o </p><p>monoplio econmico sobre a Confederao Argentina, o Estado Oriental passava por </p><p>turbulncias ocasionadas pela oposio de dois grupos, os blancos e os colorados. Segundo </p><p>Barran (1979), enquanto o primeiro grupo estava enraizado no meio rural, combatia a </p><p>interveno franco-inglesa, e permanecia fiel a tradio hispnica de ordem autoritria, o </p></li><li><p>6 </p><p>segundo grupo estava ligado ao meio urbano, compartilhava das ideias das correntes liberais </p><p>europeias e contava com o apoio dos imigrantes da Europa revolucionria, em particular </p><p>franceses e italianos, alm de ter o apoio brasileiro. Em 1839 Fructuoso Rivera, integrante do </p><p>grupo dos colorados, chegou presidncia do Estado Oriental. A tal ponto comprometido </p><p>com as foras que haviam o auxiliado a conquistar o poder (os farrapos rio-grandenses, os </p><p>emigrados unitrios argentinos e a esquadra francesa), foi forado a declarar guerra a Rosas. </p><p> Para esses aliados, Rosas era um empecilho, mas no somente a eles. Segundo Bettel </p><p>(1991), apesar de Rosas utilizar o aparato burocrtico, o exrcito e a polcia para exercer sua </p><p>soberania, ainda assim existiu certa oposio a ele. No mbito interno, a oposio partiu dos </p><p>unitrios e dos jovens reformistas. Os proprietrios de terra do sul da provncia constituram </p><p>um segundo foco de oposio interna, cujo ressentimento no se devia a questes ideolgicas, </p><p>mas a interesses econmicos. Sobrecarregados pelas exigncias que lhes eram feitas em </p><p>homens e recursos para proteger a fronteira, sofreram de forma especial as consequncias do </p><p>bloqueio comercial francs de 1838 (veremos adiante). Culparam Rosas. Por sua vez, houve </p><p>grande oposio exterior ao regime, em parte por algumas provncias da Confederao </p><p>Argentina, e em parte por potencias estrangeiras. </p><p>A Guerra Grande expos os interesses franco-ingleses na Regio Platina e, ao mesmo </p><p>tempo, freou e impulsionou seu intervencionismo nesse espao. Impulsionadas pela ideolo...</p></li></ul>