A Grande Guerra Em Moçambique

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  • Fernando Abecassis et al.

    A Grande Guerra Em

    Moambique

    Fernando A

    becassis et al.

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    m M

    oambique

  • A Grande Guerra Em

    Moambique

  • Fernando Abecassis et al.

    A Grande Guerra Em

    Moambique

    Seco de Cincias Militares2014

  • Apresentao

    O conflito que havia de tomar a designao de Grande Guerra, World War I em ingls, ou de a Primeira Guerra Mundial e que, iniciada na Europa haveria de alastrar a todo o mundo, eclodiu em Agosto de 1914, concretamente a 4 de Agosto, data da declarao do estado de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha.

    Vo cumprir-se 100 anos desde o seu incio. Efemride que no tem nada para se comemorar ou para celebrar, a no ser para se concluir dos terrveis erros que a ela conduziram, da sua inutilidade e, sobretudo, do erro que constituiu o desejo e a esperana de absoro, pela guerra, das tenses sociais que grassavam nas sociedades mais avanadas.

    Nesse sentido, e para entender a marcha dos acontecimentos em territrios que foram, desde sempre, o objecto da ateno da Sociedade de Geografia de Lisboa, resolveu a sua seco de Cincias Militares proceder a uma compilao do que foi a campanha da Grande Guerra nos territrios portugueses do norte de Moambique.

    Este trabalho, como se disse uma compilao, tomar o aspecto de uma narrativa; narrativa sem comentrios ideolgicos ou interpretaes escatolgicas sobre o fluir dos acontecimentos, antes focando os aspectos prcticos do que foi uma campanha muito sria nos seus desenvolvimentos militares.

    Esta narrativa ser ilustrada por comentrios, ou simplesmente por descries, dos governantes e chefes militares portugueses que, por terem sido escritos anos mais tarde, num quadro de memrias, quer individuais quer coletivas, j vm emocionalmente depuradas, porventura mais objectivas e de maior valor testemunhal.

    Tudo est escrito sobre a campanha da Grande Guerra no norte de Moambique e estudados os seus enquadramento estratgico e desenvolvimentos tcticos.

    Ficha tcnica

    TtuloA Grande Guerra Em Moambique

    AutorFernando Abecassis et al.

    EdioSociedade de Geografia de Lisboa

    Comisso Portuguesa de Histria Militar

    CapaJorge Silva Rocha (CPHM)

    Impresso e AcabamentoRainho & Neves, LDASanta Maria da Feira

    Tiragem250 Exemplares

    DataOutubro de 2014

    Depsito Legal

    ISBN978-989-98649-1-7

    Imagem da capa: Travessia do Rovuma, Arquivo Histrico Militar

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    Apresentao

    O conflito que havia de tomar a designao de Grande Guerra, World War I em ingls, ou de a Primeira Guerra Mundial e que, iniciada na Europa haveria de alastrar a todo o mundo, eclodiu em Agosto de 1914, concretamente a 4 de Agosto, data da declarao do estado de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha.

    Vo cumprir-se 100 anos desde o seu incio. Efemride que no tem nada para se comemorar ou para celebrar, a no ser para se concluir dos terrveis erros que a ela conduziram, da sua inutilidade e, sobretudo, do erro que constituiu o desejo e a esperana de absoro, pela guerra, das tenses sociais que grassavam nas sociedades mais avanadas.

    Nesse sentido, e para entender a marcha dos acontecimentos em territrios que foram, desde sempre, o objecto da ateno da Sociedade de Geografia de Lisboa, resolveu a sua seco de Cincias Militares proceder a uma compilao do que foi a campanha da Grande Guerra nos territrios portugueses do norte de Moambique.

    Este trabalho, como se disse uma compilao, tomar o aspecto de uma narrativa; narrativa sem comentrios ideolgicos ou interpretaes escatolgicas sobre o fluir dos acontecimentos, antes focando os aspectos prcticos do que foi uma campanha muito sria nos seus desenvolvimentos militares.

    Esta narrativa ser ilustrada por comentrios, ou simplesmente por descries, dos governantes e chefes militares portugueses que, por terem sido escritos anos mais tarde, num quadro de memrias, quer individuais quer coletivas, j vm emocionalmente depuradas, porventura mais objectivas e de maior valor testemunhal.

    Tudo est escrito sobre a campanha da Grande Guerra no norte de Moambique e estudados os seus enquadramento estratgico e desenvolvimentos tcticos.

    Ficha tcnica

    TtuloA Grande Guerra Em Moambique

    AutorFernando Abecassis et al.

    EdioSociedade de Geografia de Lisboa

    Comisso Portuguesa de Histria Militar

    CapaJorge Silva Rocha (CPHM)

    Impresso e AcabamentoRainho & Neves, LDASanta Maria da Feira

    Tiragem250 Exemplares

    DataOutubro de 2014

    Depsito Legal

    ISBN978-989-98649-1-7

    Imagem da capa: Travessia do Rovuma, Arquivo Histrico Militar

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    A Grande Guerra

    Seguimos um fio condutor na descrio dos acontecimentos como narrados por Manuel Amaral no Portal da Histria.

    Solicitada a concordncia do historiador utilizao dos seus textos, Manuel Amaral deu o seu acordo em termos encomisticos, citamos: claro que no precisa de pedir autorizao para utilizar o que quer que seja do Portal da Histria. S existe para isso mesmo: para usar, abusar e deliciar quem o quiser. Obrigado pelo seu pedido..

    Esta narrativa ser iluminada por flashes sobre as condies especiais da campanha, como ataques, tentativas de ocupao, cercos e retiradas, que permitam entender os aspectos do dia-a-dia das tropas envolvidas e dos seus comandantes, bem como do comportamento das suas tropas em combate que, em muitos aspectos assumiram laivos de herosmo.

    Ser mantida uma narrativa paralela do desenvolvimento do conflito na colnia alem da AOA, frica Oriental Alem, e, naturalmente, a narrativa da improvvel tentativa de ocupao do territrio de Moambique pelas foras alems do general von Lettow, data tenente-coronel, e da sua retirada para os territrios que haviam sido os seus at ao Armistcio.

    A narrativa ser, nalguns pontos reforada com textos escritos pelo Ten General Antnio Bispo, da direco da Sociedade de Geografia de Lisboas; o Ten General Joo Carlos Geraldes, presidente da Seco de Cincias Militares daquela Sociedade, assina o postfcio: ambos acompanharam de perto este trabalho, e as suas contribuies iro sendo assinaladas ao longo do livro. Sem a sua colaborao este livro no estaria agora nas vossas mos.

    Em Portugal viviam-se os tempos complicados da mudana de regime, mudana essa que arrasta sempre consigo conflitos improvveis e impensveis que vo desde a questo da bandeira at questo religiosa, passando pela questo colonial.

    Em 1914 era Presidente da Repblica Manuel da Arriaga e, desde Fevereiro, primeiro-ministro Bernardino Machado.

    Mas a partir de Dezembro tudo se complicou, em 6 meses dois

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    em Moambique

    governos caram, os liderados por Azevedo Coutinho e Pimenta de Castro, at que, em 14 de Maio de 1915 um golpe de extrema violncia levou ao poder o partido Democrtico, a primeiro-ministro Joo Chagas e a Presidente da Repblica Bernardino Machado.

    De acordo com o pedido feito pelos ingleses, logo no incio da guerra, e transmitido ao governo portugus pelo ministro ingls em Lisboa, Lancelot Carnegie, em nome do ministro dos estrangeiros britnico, Eyre Crowe, Portugal absteve-se de se declarar neutral. Portugal colocou-se, assim numa posio muito ambgua de aliado no-beligerante.

    O governo de Joo Chagas era claramente a favor da participao de Portugal na guerra!

    Esta foi-nos declarada unilateralmente pela Alemanha em 9 de Maro de 1916, na sequncia da requisio pelas autoridades nacionais, e a pedido da Inglaterra, de todos os navios mercantes alemes refugiados em portos portugueses, quer continentais, insulares ou ultramarinos, uma clara provocao!

    Vale a pena ler a declarao de guerra da Alemanha a Portugal.

    Declarao de Guerra da Alemanha a Portugal

    Entregue por Friedrich von Rosen a Augusto Soares, ministro portugus dos negcios estrangeiros.

    Senhor Ministro, estou encarregado pelo meu alto Governo de fazer a V. Exa a declarao seguinte: O Governo portugus apoiou, desde o comeo da guerra, os inimigos do imprio Alemo por actos contrrios neutralidade. Em quatro casos foi permitida a passagem de tropas inglesas por Moambique. Foi proibido abastecer de carvo os navios alemes. Aos navios de guerra ingleses foi permitida a larga permanncia em portos portugueses, contrria neutralidade, bem

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    A Grande Guerra

    como ainda foi consentido que a Inglaterra utilizasse a Madeira como base naval. Canhes e material de guerra de diferentes espcies foram vendidos s Potncias da Entente, e, alm disso, Inglaterra um destruidor de torpedeiros. O arquivo do consulado imperial em Momedes foi apreendido.

    Alm disso, foram enviadas expedies a Africa, e foi dito ento abertamente que estas eram dirigidas contra a Alemanha.

    O governador alemo do distrito, Dr. Schultz-Jena, bem como dois oficiais e algumas praas, em 19 de Outubro de 1914, na fronteira do Sudoeste Africano alemo e Angola, foram atrados, por meio de convite, a Naulila, e ali declarados presos sem motivo justificado, e como procurassem subtrair-se priso, foram, em parte, mortos a tiro enquanto os sobreviventes foram fora feitos prisioneiros.

    Seguiram-se medidas de reforo da tropa colonial. A tropa colonial, isolada da Alemanha, procedeu na suposio, originada pelo acto portugus, de que Portugal se achava em estado de guerra com o Imprio Alemo. O Governo portugus fez representaes por motivo das ltimas ocorrncias, sem, todavia, se referir s primeiras. Nem sequer respondeu ao pedido que apresentmos de ser intermedirio numa livre troca de telegramas em cifra com os nossos funcionrios coloniais, para esclarecimento do estado da questo.

    A imprensa e o Parlamento, durante todo o de curso da guerra, entregaram-se a grosseiras ofensas ao povo alemo, com a complacncia, mais ou menos notria, do Governo portugus. O chefe do Partido dos Evolucionistas pronunciou na sesso do Congresso de 23 de Novembro de 1914, na presena dos ministros portugueses, assim como na de diplomatas estrangeiros, graves insultos contra o imperador da Alemanha, sem que por parte do presidente da Cmara, ou dalgum dos ministros presentes, se seguisse um protesto. s suas repre sentaes, o enviado imperial recebeu apenas a resposta que no boletim oficial das sesses no se encontrava a passagem em questo.

    Contra estas ocorrncias protestmos em cada um dos casos em especial, assim como por vrias vezes apresentmos as mais srias representaes e tornmos o Governo portugus responsvel por todas

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    em Moambique

    as consequncias. No se deu, porm, nenhum remdio. Contudo, o Governo Imperial, considerando com longanimidade a difcil situao de Portugal, evitou ento tirar mais srias consequncias da atitude do Governo portugus.

    Por ltimo, a 23 de Fevereiro de 1916, fundada num decreto do mesmo dia, sem que antes tivesse havido negociaes, seguiu-se a apreenso dos navios alemes, sendo estes ocupados militarmente e as tripulaes mandadas sair de bordo. Contra esta flagrante violao de direito protestou o Governo Imperial e pediu que fosse levantada a apreenso dos navios.

    O Governo portugus no atendeu este pedido e procurou fundamentar o seu acto violento em consideraes jurdicas. Delas tira a concluso que os nossos navios imobilizados por motivo da guerra nos portos portugueses, em consequncia desta imobilizao, no esto sujeitos ao artigo 2 do tratado de comrcio e navegao luso-alemo, mas sim ilimitada soberania de Portugal, e, portanto, ao ilimitado direito de apropriao do Governo portugus, da mesma forma que qualquer outra propriedade existente no pais. Alm disso, opina o Governo portugus ter procedido adentro dos limites desse artigo, visto a requisio dos navios corresponder a uma urgente necessidade econmica, e tambm no decreto de apropriao estar prevista uma indemnizao cujo total deveria mais tarde ser fixado.

    Estas consideraes aparecem como vagos subterfgios. O artigo 2 do tratado do comrcio e navegao refere-se a qualquer requisio de propriedade alem em territrio portugus. Pode ainda assim haver dvidas sobre se a circunstncia de os navios alemes se encontrarem pretendidamente imobilizados em portos portugueses modificou a sua situao de direito. O Governo portugus violou, porm, o citado artigo em dois sentidos, primeiramente no se mantm na requisio dentro dos limites traados no tratado, pois que o artigo 2 pressupe a satisfao duma necessidade do Estado, enquanto que a apreenso, como notrio, estendeu-se a um nmero de navios alemes em

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    A Grande Guerra

    desproporo com o que era necessrio a Portugal para suprir a falta de tonelagem. Mas, alm disso, o mencionado artigo torna a apreenso dos navios dependente dum prvio acordo com os interessados sobre a indemnizao a conceder-lhes, enquanto que o Governo portugus nem sequer fez a tentativa de se entender quer directamente, quer por intermdio do Governo alemo, com as companhias de navegao. Desta forma apresenta-se todo o procedimento do Governo portugus como uma grave violao do Direito e do Tratado.

    Por este procedimento o Governo portugus deu a conhecer que se considera como vassalo da Inglaterra, que subordina todas as outras consideraes aos interesses e desejos ingleses. Finalmente a apreenso dos navios realizou-se sob formas em que deve ver-se uma intencional provocao Alemanha. A bandeira alem foi arriada dos navios alemes e em seu lugar foi posta a bandeira portuguesa com flmula de guerra. O navio almirante salvou por esta ocasio.

    O Governo Imperial v-se forado a tirar as necessrias consequncias do procedimento do Governo portugus. Considera-se de agora em diante como achando-se em estado de guerra com o Governo portugus.

    Ao levar o que precede, segundo me foi determinado, ao conhecimento de V. Excia tenho a honra de exprimir a V. Excia a minha distinta considerao. Lisboa, 9 de Maro de 1916

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    Prefcio

    pelo Prof. Eng. Lus Aires de BarrosPresidente da Sociedade de Geografia de Lisboa.

    comum afirmar-se que o perodo de 1914 a 1918 em que decorreu a designada Grande Guerra ou se quiserem a 1 Guerra Mundial, marca a fronteira entre o sculo XIX e o advento do sculo XX.Esta afirmao consolida a realidade de que a vida no s europeia, como mundial, mudou radicalmente com os acontecimentos daquele lapso de tempo.Na realidade muito e muito profundamente a Europa e, por arrasto e difuso de ideias, o Mundo, mudaram.Foi uma guerra que englobou os exrcitos de terra, mar e ar com a hecatombe de milhes de mortos no s militares, mas ainda civis. Nos teatros de guerra tudo mudou: em terra nasceu a guerra das trincheiras com todas as consequncias ambientais que as tropas sofreram em condies posicionais enormemente penosas. Aparece o tanque de guerra, a artilharia massacrante. No mar aparecem os vasos de guerra movidos a combustveis de origem em hidrocarbonetos que vencem pela mobilidade os que se movem a carvo. Esta mudana veio ajudar a mudar a economia mundial que viu chegar e generalizar-se o consumo dos combustveis hidrocarbonetos. No ar nasciam as frotas de aeronaves.Assim a guerra ampliava os seus teatros e aumentava as suas consequncias nas populaes civis.Mas os efeitos scio-econmicos tomavam enormes consequncias penalizadoras. Para comear o aparecimento da famigerada epidemia da gripe (a designada pneumnica) que depauperou os pases europeus (e Portugal de modo feroz).

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    A Grande Guerra

    Concomitantemente assiste-se ao fim de um equilbrio scio-econmico-diplomtico gerido com algum xito, por relaes familiares das casas reinantes na Inglaterra e no seu vasto imprio, na Alemanha unida pelo brao de ferro de Bismark, na Rssia em vias de acordar para novas faanhas agora de consequncias terrveis, no Imprio Austro-Hngaro a chegar ao fim aps longos sculos de existncia. Uma Frana irrequieta desde Napoleo e amesquinhada em 1870 era um actor importante na conjuntura. Os Estados Unidos olhavam admitindo que seria o seu campo de aco aps o desenvolvimento scio-econmico que estavam vivendo. neste mundo de equilbrios periclitantes que a fasca surgida em Serajevo abalou o arcaico imprio dos Habsburgos e lanou a Europa e, de seguida o mundo mais evoludo, numa guerra com vrios teatros.Foi uma guerra terrvel, em que no houve cargas de cavalaria e no se defenderam fronteiras demarcadas por fortalezas. Foi uma guerra de fcies apocalptica em que apareceram novos mecanismos em terra, no mar e no ar com o seu enorme poderio mortfero. Foram os tanques, os zepelins e avies a que se juntaram os submarinos e produtos qumicos gasosos letais. numa conflagrao como esta que Portugal chamado a participar. Como ele se vai comportar e entrar neste novo mundo blico e porqu?Como muito bem define o autor do postfcio desta obra Tenente General Joo Carlos Geraldes, o grande desgnio nacional era a manuteno dos vastos espaos do ultramar, com nfase para os situados na frica subsaariana, cobiados e ameaados, desde o tempo de paz, por amigos e inimigos. A evoluo politico-estratgica na Europa, os confrontos de interesses das Grandes Potncias nos espaos coloniais, as exigncias inglesas e francesas, as nossas vulnerabilidades endmicas e circunstncias e, no limite, o imperativo ditado pela defesa de Angola e de Moambique aconselharam e obrigaram entrada de Portugal na Guerra com o estatuto de potncia beligerante. um pas sado da Conferncia de Berlim de 1884-85, de um ultimato de marcas indelveis (1891) e de uma mudana de regime que

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    substituiu uma monarquia sem vigor por uma repblica irrequieta que tardava a encontrar rumo certo.Passaram cem anos sobre o incio desta guerra feroz e no faltam evocaes deste acontecimento no pas e em especial, no estrangeiro, envolvendo os principais beligerantes de ento.Na Sociedade de Geografia de Lisboa, a sua Seco de Cincias Militares a que o autor desta obra Doutor Engenheiro Fernando Abecassis pertence, vem dedicando a este evento a sua ateno. A actividade scio-cultural e cientfica da Sociedade de Geografia de Lisboa suporta-se na actividade das suas vrias Comisses Gerais e Seces Profissionais, suporta-se na sua actividade interna de estudo e manifesta-se sociedade civil pelas sesses de vrios tipo que estas Comisses e Seces organizam e promovem quer internamente, quer para o exterior, abertas ao pblico em geral.O livro do Doutor Engenheiro Fernando Abecassis A Grande Guerra em Moambique integra-se nesta actividade, o produto do labor da Seco de Cincias Militares agora na sequncia de um projecto de investigao conduzido por este nosso scio.A publicao deste livro uma edio conjunta da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Comisso Portuguesa de Histria Militar, a cujo presidente, o Senhor Tenente-General Alexandre de Sousa Pinto, estamos gratos por esta pronta e eficaz colaborao.O livro que o Doutor Engenheiro Fernando Abecassis et al. nos do a ler tem gnese e caractersticas peculiares. Quanto gnese, Fernando Abecassis sentiu as vivncias dos combatentes de 1916 e 1917 quando, nos mesmos locais, sofreu as agruras da situao similar e foi passando ao papel os seus sentimentos e rememorando conhecimentos. Dezenas de anos depois, como membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, retomou essas vivncias e em tessitura original e bem conseguida preparou o texto que nos oferece.Das caractersticas do livro permito-me salientar algumas que particularmente me sensibilizaram. Assim:O livro escrito em estilo vivo e intercalando, quando adequado, depoimentos da poca motivador, contem descries de ambientes, a

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    A Grande Guerra

    um lado inspitos, mas belos e, por vezes de imponncia paisagstica; a par das vivncias do autor nas suas misses militares, leva-nos, em diversas ocasies, aos relatos dos que estiveram, muitas vezes nos mesmos locais e a combateram e sofreram as agruras do clima e da sede.As descries que podemos ler so impressionantes e calam fundo quando acompanhamos os nossos heris nas suas marchas, nos seus combates e na sua prpria maneira de morrer. Fica claro, citando Fernando Abecassis (p.163) bastantes figuras da nossa campanha de Moambique so dignas de estudos biogrficos e bastantes episdios sero dignos de monografia, pois muito se poder aprender com tais estudos.H figuras que emergem das descries feitas que se nos impem pela sua grandeza. Recordo, entre outros, o designado condestvel do Rovuma capito Francisco Pedro Curado.Ao longo da leitura desta obra vamos deparando, no s com nomes cimeiros de militares de eleio, como ainda com nomes de combates que ficaram assinalados com as designaes das localidades ou acidentes geogrficos onde se realizaram.E assim surgem os combates de Namaca, de Mata, os de Nevala e a feroz luta pelos seus poos de gua. Negomano nome ligado a funesto inxito das nossas tropas; j o combate da Serra Mecula evidencia a forte resistncia das nossas foras comandadas pelo capito Curado. Em Nhamacurra os alemes invasores eram combatidos a 40 km de Quelimane no centro de Moambique. Temos, assim, ideia da vastido da rea por onde se desenvolveram as aces militares luso-germnicas.O esforo que a nao fez com a sua participao na Grande Guerra nos trs teatros em que teve intervenes foi enorme. Nos teatros ultramarinos acresciam as condies adversas de um clima inspito e uma formao insuficiente das foras expedicionrias.Tenha-se em ateno que no cmputo das baixas portuguesas em campanha do norte de Moambique, o nmero dos combatentes que perderam a vida em combate foi de 6,1% do total das baixas e

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    em Moambique

    consequentemente 93,9% perderam a vida por doena!Tomo agora as palavras do Governador-Geral major lvaro de Castro que afirmou: evocar a campanha no norte da Provncia de Moambique recordar um doloroso perodo de patritico esforo onde se manifestaram com singular relevo, soberbas figuras de soldados.Foi esta evocao realizada com xito por Fernando Abecassis na sua bem conseguida obra sobre factos singulares que recordou e reviveu quando nas mesmas plagas territoriais servia as Foras Armadas Portuguesas e que, agora, como scio da Sociedade de Geografia de Lisboa, nos oferece.

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    em Moambique

    Captulo 1

    Envolvente

    O sculo que vai de Waterloo, em 1815, at Sarajevo, em 1914, foi um sculo de profundas transformaes sociais e polticas induzidas por avanos tecnolgicos e cientficos at a insuspeitos e a um ritmo que nunca se houvera visto. Avanos estes que tiveram mais influncia no dia-a-dia das pessoas, no modo como viviam e como pensavam do que todas as inovaes dos sculos seguintes por mais esmagadoras que elas se viessem a ter revelado. Falamos da mquina a vapor e do motor de combusto e da electricidade, logo do automvel, do caminho-de-ferro, do telgrafo e do telefone, da fotografia e do cinema, dos tremendos avanos na medicina e na farmacologia, do servio postal e do selo, do sistema mtrico decimal, do conhecimento do interior de frica e do lanamento do mais pesado do que o ar, do beto armado, etc., etc..

    Este desenvolvimento exigiu e promoveu novos tipos de emprego, novas definies profissionais, novos tipos de empresrios numa nova organizao industrial e, sobretudo, de novos consumidores com apetncia para os novos produtos que a indstria transformadora ia produzindo para o consumo dirio. As novas tcnicas de produo em massa viriam a exigir, tambm, novos mercados de consumo em massa, mercados esses conseguidos pelo emprego generalizado na indstria e nos novos servios, com salrios com cada vez maior poder aquisitivo, que o aumento da produtividade permitia e fomentava.

    Estes progressos no universo da cincia e da tecnologia sugeriam uma mobilidade social tal que permitisse o aparecimento daqueles novos profissionais e novos gestores, incompatvel com a rigidez da estrutura social que a Europa apresentava.

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    Apesar dos grandes movimentos sociais do sculo, do movimento constitucionalista que se espalhou por toda a Europa, que chegou a incluir a outorga de uma carta constitucional aos territrios pontifcios, da formao de novos estados soberanos a partir da federao de pequenos principados e cidades-estado, como a Itlia e a Alemanha, apesar da abertura da aristocracia a novos recm chegados e do avano dos movimentos democrtico-liberais, apesar do manifesto comunista de 1848 e da comuna de Paris em 1870, a estrutura social permanecia teimosamente imobilista, com uma praticamente total impermeabilidade passagem das classes mais baixas atravs da tessitura dos grupos sociais que lhes barravam o caminho.

    Vrias formulaes foram interpretando estas tenses, que tomaram o nome genrico de luta de classes, e propondo solues e panaceias que se reflectiram nos movimentos e doutrinas socialistas e libertrias que se foram desenvolvendo ao longo de todo o sc. XIX, particularmente na sua segunda metade a partir dos movimentos de inspirao marxista.

    O perodo que vai de 1815 a 1914 na Europa, outrossim, caracterizado pelas lutas nacionalistas, pelo ajustamento dos Estados com as Naes, que se cifraram num nmero elevado de guerras civis, internas, com ou sem a interveno de grandes potncias. Por outro lado, a existncia dos imprios europeus consolidados pressupunha o exerccio da balana de poderes. do cruzamento daquelas duas linhas de fora que surge a exploso inadvertida da Grande Guerra.

    Finalmente as tenses acumuladas explodiram e deram lugar a dois episdios extremamente violentos, as guerras europeias de 14-18 e de 39-45, com um perodo de 20 anos entre os dois episdios em que se tentaram impor algumas experincias duma enorme violncia interclassista.

    A partir de 1917 surgem em fora os movimentos ideolgicos, primeiro o comunismo e a seguir, em reaco, o nacional-socialismo e o fascismo, para alm, naturalmente, da democracia representativa. Foi este choque, conjugado com o problema da hierarquizao das

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    potncias que originou a segunda guerra mundial.O perodo de 1914 a 1945 no foi mais do que uma longa

    guerra civil europeia de 30 anos, em que, aps uma primeira exploso alguns movimentos de classe se apoderaram do poder em nome de um particular grupo social, prometendo guind-lo proeminncia do controlo do Estado e da governao. Foi assim com o movimento comunista, que prometia levar a classe operria e camponesa ao poder, bem como com os movimentos nacional-socialista e fascista que actuavam em nome das pequena e mdia burguesias ascendentes.

    Desiludidos com 100 anos de democracia representativa e do seu rotativismo parlamentar, aqueles movimentos propuseram ditaduras de classe, ferozes, impiedosas e violentas que levaram ao estertor final, no perodo de 1939 a 1945.

    E eis que, finda a guerra civil, as naes que voltaram democracia formal e parlamentar verificaram, com algum espanto, que as barreiras mobilidade social tinham sido completamente abolidas e que se encontravam perante sociedades homogneas no que toca igualdade de oportunidades e possibilidade de os seus indivduos, homens e mulheres, migrarem no sentido ascendente da escala social.

    J as razes prximas para a abertura das hostilidades surgem, luz da histria, como um emaranhado de atitudes, passos e declaraes irresponsveis, levando a situaes de facto que escaparam ao controlo das potncias envolvidas. Potncias estas, com particular destaque para a Alemanha e para o imprio Austro-Hngaro, que no tero querido mais do que a conquista de algumas posies de prestgio e influncia que, ao derraparem para envolvimentos irreversveis, deram lugar ao desastre que viria a ser a Grande Guerra.

    Tudo andava volta do desfazer do domnio turco sobre a regio dos Balcs. Os turcos haviam conservado a Macednia como a ltima das suas provncias na regio, perante a gradual consolidao da Srvia como potncia regional emergente. At que em 1912 a Turquia abandonou a Macednia, que foi dividida entre a Bulgria e a Srvia. O conjunto das ex-provncias turcas nos Balcs, Crocia, Bsnia Herzegovina, Albnia, Kosovo, Montenegro e Macednia, formavam,

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    A Grande Guerra

    agora, um imenso pot tnico, sob a crescente hegemonia Srvia. O imprio Austro-Hngaro assumia-se como o patrono e

    protector dos novos estados numa lgica de conteno da expanso Srvia, no vendo com muito bons olhos os esforos do governo de Belgrado tendo em vista a constituio da Grande Srvia em volta do seu ncleo aglutinador, substituindo-se ustria-Hungria na sua influncia nos Balcs.

    Entretanto a agitao social grassava com violncia por toda a Europa, particularmente na Rssia, na Alemanha, nas provncias checas da ustria-Hungria e nas prprias ustria e Hungria.

    At que, em 28 de Junho de 1914, um estudante radical, Gavrila Princip, matou a tiro o herdeiro da coroa Austro-Hngara, o arquiduque Francisco Fernando, quando este visitava Sarajevo, capital da Bsnia. Para o governo do imprio este assassinato foi o pretexto para colocar a Srvia no seu lugar, o que poderia ir de uma simples admoestao at uma interveno armada contra Belgrado, com a anexao da Srvia ao imprio. A 23 de Julho o concelho de ministros da ustria decidiu fazer um ultimato Srvia, ultimato este de uma extrema exigncia no que toca a cedncias parte Austro-Hngara.

    A Srvia capitulou e aceitou todas as exigncias do governo Austro-Hngaro. Perante isto, o imprio foi mais longe e exigiu que o exrcito austraco ocupasse temporariamente Belgrado como garantia!. Entretanto a Alemanha insistia com o imprio para uma interveno militar imediata nos Balcs, e prometeu apoio total ao governo austro-hngaro. A 29 de Julho a ustria declarou guerra Srvia no que pretendia ser uma manifestao de fora de pouca durao.

    O Czar entrou em pnico, porque tinha dado a garantia de apoio Srvia e temia que um conflito com a Alemanha levasse esta a anexar as provncias polacas do imprio russo. Com uma agitao social extremamente radicalizada, decretou a mobilizao geral, numa mostra de fora, tentando evitar que a Alemanha entrasse no conflito. Em resposta o governo alemo enviou um ultimato ao governo

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    russo intimando-o a desmobilizar todas as medidas de guerra j em curso contra a ustria-Hungria, bem como a desqualificar todas as manifestaes belicosas e demonstraes de fora nas suas prprias fronteiras. Os russos no desmobilizaram e, ao invs, reforaram as suas posies blicas face Alemanha, en attente, enquanto apoiavam a Srvia no terreno. O Estado-maior alemo declarou-se ento em estado de guerra com a Rssia. A Frana alinhou com a Rssia, com quem havia assinado pouco tempo antes um tratado de defesa e amizade, contra a Alemanha. Esta declarou guerra Frana a 3 de Agosto de 1914, iniciando de imediato o seu ataque quele pas, o que se propunha fazer atravs da Blgica. A violao da neutralidade da Blgica daria Gr-Bretanha o direito de declarar guerra Alemanha, o que esta fez em 4 de Agosto s 23H00.

    Estava consumado o desastre, que haveria de conduzir ao fim das trs monarquias centro europeias, a Alem, a Russa e a Austro-Hngara, no que ficaria tambm conhecido como a queda das guias, numa aluso aos seus smbolos imperiais, a guia. No que toca a Portugal e sua envolvente histrica recente, acompanhemos a narrativa do general Antnio Bispo, citamos: A deciso do Governo Portugus de 28 de Agosto de 1914, em enviar duas expedies militares para Angola e Moambique cujo embarque se verifi cou menos de um ms depois, obteve a concordncia de todas as foras po lticas e um amplo apoio popular, mesmo entusiasta. Ao contrrio, a parti ci pao das foras militares portuguesas no teatro de operaes europeu, foi objecto de grande controvrsia com clivagens profundas entre intervencionistas e no-beligerantes; o processo decisrio passou por ambiguidades, no s no plano interno como na relao com os aliados, particularmente no que Inglaterra se refere. A declarao de neutralidade, inicialmente que rida por Portugal mas travada pela Inglaterra, assim como a participa o efectiva na Flandres agora decidida por Portugal com a resistncia bri t ni ca, foram dois exemplos ambguos que haveriam de ter consequncias na Con fe rn cia de Paz de 1919.Este tema est devidamente tratado pela historiografia portuguesa.

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    A Grande Guerra

    No se acrescentando nada de novo, e recolhendo a informao contida nas teses dos historiadores, julga-se de interesse relembrar o enquadra men to que sus citou tanto entusiasmo na defesa dos territrios portugueses em frica, e os argumentos principais utilizados para justificar o envolvi men to das for as portuguesas na guerra europeia.

    A Conferncia de Berlim de 1884/5, proposta pela diplomacia portuguesa e or ga ni zada pelo Chanceler Alemo com a participao de vrios Estados Eu ropeus e dos Estados Unidos, teve como objectivo regular as condies para ocupao da fri ca pelas potncias coloniais, para alm da partilha de territrios ou definio de fronteiras. Apesar dos resultados da Conferncia te rem garantido os direitos portugueses historicamente adquiridos, o que da ria uma certa tranquilidade, a verdade que na corrida para frica das po tn cias europeias poderiam surgir novas dis pu tas de interesses e, logo, novas ameaas e riscos face poltica realista ento seguida; parece razo vel que se tivesse admitido que tal poderia ocorrer, dadas as disparidades de poder.

    O Ultimato e a reaco que se seguiu tiveram como resultado, a nvel inter no, um reforo da conscincia nacional, por um lado, e um sentimento ou cons ta ta o de dependncia re al, por outro. Es ta situao paradoxal deveria ser obviamente contrariada, o que levou constituio de Ligas Patriticas pa ra congregar esforos no sentido da reconquista da independncia polti ca e econmica que entretanto tinha sido posta em causa. Contu do, apesar destes apelos no houve a capacidade para evitar a bancarrota que viria a ter lugar logo em 1892.

    As sucessivas Constituies Portuguesas especificavam com clareza as partes integrantes do territrio nacional nos vrios continentes. Existia o sentimento arreigado na sociedade portuguesa de que Portugal no poderia alienar qualquer uma dessas partes, o que justificava o empenhamento na sua defesa.

    Face situao das finanas pblicas, Portugal teve que recorrer a um pedi do de emprstimo, dirigindo-se para esse efeito, em primeiro lugar, sua ali ada, a Gr-Bretanha. Tendo conhecimento deste facto, a Alemanha a pres sou-se a querer partilhar o crdito, que deveria ser pago com os direi tos alfandegrios das colnias portuguesas; a garantia

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    seria a prpria colnia. evidente que ambos os potenciais credores acreditavam que o emprsti mo no iria ser pago. neste contexto que surgem as negociaes entre a Inglaterra e a Alemanha para a partilha dos territrios portugueses, mar gem de Portugal, negociaes que culminam num acordo em 1898. De notar, como adiante se refere que j em 1894 a Alemanha se apoderara do territrio Quionga, em Moambique, como prenncio do que poderia vir a seguir de forma pacfica; neste acordo, Angola, na sua quase totalidade, e a zona de Niassa em Mo am bique ficariam para a Alemanha, e Moambique e uma zona no Sul de Angola passariam para a posse da Inglaterra. Portu gal ter-se- apercebi do desta possvel usura, e retirou o pedido de crdito, anulando o fundamento do acordo. Contudo, a ideia da partilha permaneceu na inteno daquelas potncias, agora j de forma mais despudorada, com base apenas nas negociaes estratgicas entre os dois Estados, sem ter em considerao aspectos ticos ou legais: segundo a proposta britnica a partilha seria aceite, nos moldes j definidos do anterior, se a Aleman ha condicionasse o seu reequipamento naval. Os territrios ultramarinos portugueses seriam a moeda de troca deste negcio estratgico anglo-alemo. Assim se fabricou um novo acordo em 1913, em tudo semelhante ao de 1898, retirando-lhe os pressupostos iniciais, que agora eram irrelevantes. Estas tentativas foram goradas, por que houve mudana de ministrio em Inglaterra, e porque se verificaram atrasos burocrticos provocados por presses exteriores para a publicitao do acordo com posies diferentes entre a Inglaterra e a Alemanha sobre esta matria; entretanto o ambiente de pr guerra adensou-se e a viabilidade do acordo seria naturalmente posta em causa.

    Criou-se portanto a percepo de que os territrios portugueses em frica estavam em risco, e foi a vontade de os manter que justificou a motivao para o envio das expedies militares, e a aceitao generalizada desta de ci so. Acreditava-se que a legitimidade da aco e as capacidades militares portuguesas seriam os elementos funda-men tais para a defesa daqueles terri t rios. Sabia-se que a estratgia alem seria indirecta, e que o destino dos im prios iria ser decidido

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    A Grande Guerra

    na Europa, onde o esforo militar deveria ser de ter mi nante. Vencida a guerra na Euro pa, o Ultramar viria por arrasta men to; em frica havia que garantir sobera nia, desafiar a soberania dos pode res vizinhos e incentivar terceiras partes a desgastar estes poderes.

    As autoridades portuguesas, numa determinada altura, entenderam que no poderiam defender frica sem participarem no conflito que ento se desen ro la va na Europa. A deciso sobre participao portuguesa na guerra euro peia foi justificada por razes de afirmao nacional e defesa da inde pen dncia, por se ter formado a percepo de que as suas fronteiras poderiam estar em ris co, no Continente e no Ultramar, quan do se viesse a fazer a no va reconfigu-ra o territorial no final da guerra eu ro peia. O objectivo nacional era o de participar como actor respeitvel e de pleno direito na construo da paz, atravs da presena nas negociaes finais. Reconhecendo as suas limitaes de poder, e a legitimidade dos seus objectivos, Portugal conduziu toda a sua aco poltica, diplomtica e estratgica no enquadra mento da aliana com a Inglaterra. A defesa dos territrios ultramarinos foi assim uma das razes principais que levou as Foras Armadas Portuguesas aos campos da Flandres. Fim de citao.

    Desde 1880 que a Alemanha administrava, como potncia colonial, um vasto territrio na frica oriental, a nascente dos Grandes Lagos, englobando os territrios do Tanganika, do Burundi e do Rwanda, sob a designao de frica Oriental Alem. Este vasto territrio, com cerca de 1,0 milhes de Km2, faz fronteira com Moambique, do qual separado pelo rio Rovuma, sua fronteira norte, e inclui todo o territrio entre o lago Tanganika, o rio Rovuma e o mar, no que , hoje em dia, designado por Tanzania.

    A Alemanha nunca fez segredo da ambio que ela alimentava sobre os territrios portugueses de Moambique e de Angola, estes ltimos a partir da sua colnia na costa ocidental de frica, o Sudoeste africano, hoje em dia Nambia.

    Usando do princpio consagrado na conferncia de Berlim, em 1885, que substitui, no que toca titularidade territorial, o direito da descoberta pelo direito da ocupao, e embora nunca ningum tenha

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    definido como se conforma e no que consiste este direito, a Inglaterra tinha-se apropriado dos imensos territrios que se situam entre Angola e Moambique, e que mereceram a designao de Federao das Rodsia e Niassalndia, englobando o que so hoje em dia a Zmbia, o Zimbabwe e o Malawi.

    A Alemanha tinha, inclusive, iniciado vrios movimentos tendentes desapropriao de Portugal das suas colnias. Foi assim que o primeiro-ministro ingls, lord Balfour, e o alemo conde de Azfeld entraram em negociaes tendo em vista a partilha do patrimnio colonial portugus. Como os Estados Unidos da Amrica tambm estivessem interessados em parte do esplio, designadamente no arquiplago dos Aores, a operao foi adiada. Mais tarde, em 1904, um acordo secreto entre a Itlia, a Frana, a Rssia e a Alemanha, no mbito da guerra russo-japonesa, estipulava, entre outras coisas, que as colnias portuguesas de Angola e Moambique seriam colocadas sob administrao alem.

    Mais tarde, em 1912, o velho sonho alemo ressurgiu quando o ministro da Alemanha em Londres, Lachnowsky, negociou com lord Haldane, ministro dos estrangeiros britnico, um pacto sobre a diviso entre os dois pases das colnias portuguesas. Pacto esse que no chegou a ser assinado porque lord Haldane foi substitudo por sir Edward Grey na secretaria britnica dos estrangeiros.

    Entretanto, em 1894, a Alemanha apropriou-se do pequeno territrio de Quionga, na margem sul do rio Rovuma, junto foz, incorporando-o na sua colnia do Tanganika. A posse do territrio de Quionga, um pequeno tringulo com cerca de 3.000 Km2, na foz do rio Rovuma, permitia Alemanha reclamar-se do controle da foz daquele rio, retirando aos portugueses o acesso, no s ao magnfico porto que a embocadura oferecia, como o acesso ao curso principal do rio, navegvel at uma larga distncia para o interior. Funcionava como funcionou o enclave de Cabinda, que permitia aos portugueses reclamarem-se do controlo da foz do Zaire, at que os belgas foraram a internacionalizao dum estreito canal ao longo do rio, canal esse do qual Portugal no detinha a soberania. E transformando Cabinda de

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    um territrio angolano sem soluo de continuidade para um enclave numa colnia estrangeira.

    Em 1940 o General Norton de Matos, um dos homens com maior e melhor conhecimento do ultramar portugus e da sua importncia fundamental para prover ao desenvolvimento econmico e social da Metrpole, faz o elogio da participao de Portugal na Grande Guerra. Tanto tempo depois dos acontecimentos e assente a poeira das recriminaes, queixumes e da critica ao poder, emerge a defesa das colnias como o grande objectivo da poltica portuguesa, permitindo-lhe mesmo afirmar: todos os objectivos que ento se tiveram em vista se conseguiram!:

    Transcrevemos, pela sua importncia o artigo do Gen. Norton de Matos:

    A Grande Guerra e as Colnias Portuguesaspor Jos Maria Norton de Matos

    Revestiu a entrada de Portugal na guerra mundial a forma to frequente na nossa his tria de expedies militares por via martima.

    Possuamos ento um exrcito que, sendo pouco diferente, em orgnica e armamento, dos exrcitos das naes em guerra, permitiu que essas expedies se organizassem rapidamente, que as foras portuguesas que as compunham tomassem lugar, realizando plena-mente a misso que a nao delas esperava, nas linhas de frente das grandes batalhas.

    Se fosse possvel, nos limites do espao destinado este texto, recordar em breve discurso as expedies militares martimas portuguesas, reconheceramos que h pontos de ana logia e de contacto entre todas elas, do que ressalta ntida esta verdade: o que h de admir vel na nossa histria resulta da aco que soubemos exercer, sempre na hora precisa, fora do territrio da nao, para mantermos ou tentarmos manter a sua integridade.

    Portugal mobilizou, armou, instruiu e organizou durante

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    a Grande Guerra foras mili tares considerveis, com as quais constituram corpos expedicionrios que, por mar, enviou para Frana e para Africa, destinados uns a combater, ao lado dos seus aliados, contra a Alemanha, e outros a defenderem os seus territrios ultramarinos dos ataques de tropas daquela nao. Digamos, num trao e sem desnecessrios pormenores, em que consistiu este extraordinrio esforo nacional.

    Tudo estava preparado, ao findar o ano de 1917, para se enviar para Frana, durante o ano de 1918, um segundo Corpo de Exrcito Portugus e para render nesse mesmo ano, nos campos de ba talha de Frana, aproximadamente quarenta por cento dos combatentes portugueses. As bata lhas de frica terminadas antes do fim de 1917, pela derrota dos alemes e ocupao dos seus territrios do ultramar, facilitavam a execuo desta segunda parte do programa ex pedicionrio.

    Pode considerar-se como sendo de 200.000 homens a fora combatente mobilizada por Portugal para a sua interveno na Grande Guerra. No se limitou, porm, ao que indicado fica o esforo de Portugal em mobilizao de homens para exercer na guerra a aco que lhes competia. A pedido das naes aliadas, consentiu Portugal que essas naes contratassem muitas centenas de operrios portugueses que seguiram para Frana e para a Inglaterra. Quanto a indgenas, o nmero de carregadores de que Portugal careceu para os servios das suas tropas de frica e para os das tropas britnicas que naquele continente combatiam excedeu a cifra de 180.000..

    Perdeu Portugal na Grande Guerra 20 por cento dos seus combatentes!

    Mas quem viveu na frica, quem sabe o que so campanhas naqueles meios de civilizao primitiva, quem conhece o que se passou nas povoaes indgenas de Angola e Moambique naqueles perturbados tempos de 1914 a 1918, que pode avaliar a que nmero fantstico subiram as perdas de vidas dos indgenas, em consequncia do recrutamento de car regadores, da desagregao das sociedades africanas, das fomes, das doenas, da mais negra misria, das revoltas

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    A Grande Guerra

    resultantes das lutas de brancos contra brancos, da inteira subverso da ordem material e espiritual, que tantos sculos tinham levado a implantar naquelas remotas pa ragens.

    Juntamente com o do Exrcito de assinalar o papel que a Marinha de Guerra Portuguesa desempenhou na interveno de Portugal na Grande Guerra. Era ela bem diminuta nesse tempo, mas apesar disso pode desempenhar cabalmente as funes que competem s marinhas de guerra dos pequenos pases nas ocasies bloqueios continentais e das grandes batalhas martimas que abrangem mares e oceanos inteiros. E assim, a vigilncia na costa portuguesa dos submarinos inimigos, tendo principalmente em vista evitar o seu abastecimento no mar, os servios de minas, a guarda dos cabos submarinos que amarravam em territrio nacional, o servio de patrulhas martimas, a defesa naval dos Aores e a serena ocupao dos 36 navios mercantes inimigos, que se encontravam no Tejo, tudo foram actos da Marinha de Guerra Portuguesa. Foram os nossos navios que acompanharam as expedies militares que Portugal mandou Africa. O servio de escolta dos comboios de navios portugueses e ingleses que trans portaram tropas para Frana, foi feito sempre por contratorpedeiros portugueses e ingleses.

    marinha mercante portuguesa prestaram os navios de guerra de Portugal a mais va liosa proteco. No mar dos Aores uma velha e mal armada embarcao portuguesa, trans formada em caa-minas, lanou-se contra um potente submarino alemo para proteger um na vio portugus que transportava passageiros e carga. Travou-se renhido combate, morreram muitos marinheiros portugueses e entre eles o heroico comandante do caa-minas, o 1 tenente Carvalho Arajo, e o pequeno navio de Guerra portugus foi afundado, ficando avariado o sub marino alemo. O navio mercante portugus seguiu so e salvo, com a sua preciosa carga de vidas portuguesas, ao seu destino. Como sempre, a armada portuguesa cumpriu na Grande Guerra o seu dever.

    Iniciou-se em Portugal com a Grande Guerra, como com outras naes aconteceu, a aviao militar e nela encontraram

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    a morte oficiais portugueses, entre os quais sobreleva o heroico Monteiro Torres.

    Grandes foram as despesas que Portugal fez e aquelas a que se aventurou, com a sua interveno na Grande Guerra. Bem sabemos que muitas foram levadas conta das inde mnizaes que a Alemanha foi obrigada a pagar-nos; mas a maior soma delas caram e esto pesando ainda sobre a nao. Depois, que dinheiro poder pagar vidas humanas, a incapacidade que prostrou tantos homens vlidos, os tremendos males, materiais e espirituais, guerra devidos.

    Tenho de parar. No visa este estudo a descrever o que foi a interveno de Portugal na Grande Guerra: apenas me podia abalanar a traar curtas e imperfeitas linhas de um quadro nacional que ainda no encontrou, pelo que diz respeito ao aspecto moral da interven o, quem o desenhasse com o vigor necessrio.

    No que deixei dito j h o bastante para que possamos colocar a interveno de Portu gal na Grande Guerra no lugar que lhe cabe entre as suas expedies militares. Mas no quero deixar de dizer que no quadro a pintar tem de existir um fundo de sublime grandeza que dominar, explicando-as, todas as aces e todas as atitudes: a deciso, a tenacidade e o poder nacional de organizao; uma sublimada e serena, qusi escondida, heroicidade; a au sncia completa de exibicionismo, o dever cumprido em silncio, sem propagandas humilhan tes, sem solicitaes de elogios; a conscincia ou instinto, como se queira, da Nao a indicar seguramente o nico caminho a seguir; a mais severa economia e a mais pura das honestidades em todas as despesas de guerra; as minorias truculentas representantes das divises histri cas; e os erros, sem dvida, tambm. Naquele fundo de grandeza que enche e domina o qua dro, esboam-se, perdidos no tempo e no espao, todos os episdios da histria gloriosa do pas, em que se traduz o seu esforo para a expanso e para o engrandecimento. Mas o pouco espao disponvel obriga a condensar. A interveno de Portugal na Grande Guerra est intimamente ligada s grandes expedies do passado; ainda cedo, porm, para lhe fixar o lugar na linha de grandeza dos seus feitos. To grande esforo como

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    o que acabo de esboar, realizado de Agosto de 1914 a No vembro de 1918, no podia ter-se levado a cabo, se a Nao inteira no tivesse sentido a sua inelutvel necessidade. Mas tambm, s uma nao que se sentisse forte, cheia de vitalidade e de energias, poderia abalanar-se a to avantajado feito. Era, sem dvida, em 1914, Portugal um recetculo de ponderadas aspiraes e de seguras tendncias de engrandecimento, como raras vezes se tinha dado no decorrer. da sua histria. A fulminante proclamao da Repblica tinha, na primeira hora, assustado muita gente. Como ser este movimento encarado e rece bido por outras naes? Como reagir o povo portugus perante to grande abalo? Vencero os republicanos na luta que fatalmente tero de travar com tremendos e fortes interesses internos e externos? Daro as novas instituies provas cabais de poder de administrao, de severa mo ralidade, de organizao e progresso? Saber a Repblica abrir o caminho que conduza a um Portugal maior? Perguntava-se em Outubro de 1910. Ora todas estas preguntas, e o programa de Nova Ordem que elas traduziam, iam tendo firme e favorvel resposta nos quatro anos decorridos desde a queda da monarquia ao rebentar da Grande Guerra. A confiana esta beleceu-se e desta confiana ia nascendo a largos passos a prosperidade. As finanas pblicas saneavam-se, tratava-se da instruo e da sade pblica, o exrcito organizava-se com sbias medidas, na administrao colonial ia-se produzindo uma transformao radical, uma quase revoluo, nas suas normas de governo e no tratamento dos indgenas, que as iam levando rapidamente sua valorizao, ao aproveitamento das suas enormes riquezas latentes. Atenuavam-se, graas s boas vontades dos dois lados, as lutas religiosas, em torno das quais to s pera tinha sido a luta contra as instituies monrquicas e a nao inteira sentia que uma nova poca de ordem, de tranquilidade, de paz, de harmonia e prosperidade se rasgava no seu horizonte. Seria apenas uma iluso, diro alguns. Mas se iluso se supunha, era num instante des feita pelas realidades presentes. A nao sentia-se forte e capaz de grandes empreendimentos. Desta exuberncia nacional no me resta a menor dvida, a mim que tanto a escutei e que tanto a vivi.

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    Um ponto negro havia, porm, no horizonte da nao: as ameaas que pairavam sobre o nosso domnio colonial, e que surgiram do outro lado do Reno, quando a Alemanha pretendeu constitur em frica um grande imprio colonial que rivalizasse com o britnico e que o aniquilasse num futuro prximo. Todo o nosso grandioso esforo em Angola, em Moambique e na Guin, desde 1885 Grande Guerra, a saber, heroicidade militar como poucas vezes foi vista em terras de frica, uma organizao administrativa que me receu ser apresentada como modelo por muitas naes coloniais e uma poltica indgena que sobreleva a todas que nos ltimos tempos foram seguidas, tudo isto foi devido necessidade que Portugal sentia de afastar o perigo que o ameaava.

    A interveno de Portugal na Grande Guerra resultou exclusivamente da existncia deste formidvel perigo que impendia sobre as colnias portuguesas. Para terminar este es tudo tenho, portanto, de dizer como esse perigo se manifestava e se revelava nos anos imediatamente anteriores ao rebentar da Grande Guerra.

    Proclamada a Repblica em 5 de Outubro de 1910, tentou a Alemanha, como diz o prncipe de Bulow, fazer acordar a questo adormecida das colnias portuguesas. E tentou-o, desde a primeira hora, visto que, poucos dias depois da proclamao da Repblica, levan tava a Alemanha perante ns a questo da zona neutra e a do trnsito livre atravs de Angola.

    Em fins de 1911 principiaram a circular em Portugal notcias idnticas s que se espa lharam em fins de 1898: uma nova tentativa de partilha das colnias portuguesas se estava a combinar em Londres, entre a Inglaterra e a Alemanha, dizia-se,

    Em 15 de Maro de 1912 o Presidente do Conselho e Ministro dos Negcios Estrangeiros do Governo Portugus declarava no Parlamento que o governo da Repblica sabia no existir tratado algum entre a Inglaterra e a Alemanha, que contivesse fosse o que fosse de natureza a ameaar a independncia, a integridade ou os interesses de Portugal ou de uma parte qualquer dos seus domnios. E concluiu dizendo: Fao ao parlamento do nosso pas esta de-

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    clarao com o assentimento dos gabinetes de Londres e de Berlim. Esta declarao no tranquilizou a opinio pblica, produzindo efeito contrrio ao que se desejava. O tratado, inteiramente desconhecido, ento, pelo povo portugus, assinado em 1898, no se tinha rasgado, e se novo tratado, pior que o anterior, se no fizera ainda, estava por certo a elaborar-se. Tudo o indicava.

    A precipitada visita de lord Haldane, Ministro da Guerra do governo ingls a Berlim em Fevereiro de 1912 e tudo o que a respeito dessa diligncia diplomtica se propalou, muito esclareceu a opinio pblica portuguesa. Era indispensvel evitar o conflito iminente, e Haldane levava para esse fim latos poderes: em breve transpirou terem ficado assentes em Berlim as bases gerais de novos acordos para a distribuio das zonas de influncia das duas potncias, na sia e na frica. As colnias portuguesas mais uma vez estavam em jogo, era esta a convico geral em Portugal aps as declaraes feitas pelo governo da Repblica, em Maro de 1912.

    A publicao das Memrias do prncipe Lichnowsky, embaixador da Alemanha em Londres, de 1912 a 1914, e o que se soube depois de terminada a Grande Guerra, mostra ram bem quanta razo tinha Portugal para se alarmar.

    A estas informaes, vindas no se sabe bem donde, outras se vieram juntar, e o mal -estar foi-se tornando cada vez maior em Portugal, a partir dos primeiros meses de 1912 at aos meados de1914. Tudo parecia indicar que um grave atentado se tinha consumado contra as colnias portuguesas. Estabeleciam-se planos gigantes de fomento de Angola, que se apresentavam como devendo ser financiados e dirigidos por alemes; gizavam-se largos projectos de colonizao, escrevendo em Agosto de 1913 um jornal alemo que ao longo da linha frrea de Benguela se podiam estabelecer 3 milhes de europeus e uma companhia de navegao alem j tinha afirmado meses antes, no seu relatrio anual, ser necessrio ir preparando transportes para futuros colonos, pois que a Alemanha seria em breve admitida a compartilhar das possesses de Portugal na costa ocidental. Em Junho de 1913 comentava o jornal o Sculo

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    um artigo do dirio alemo a Gazeta da Colnia, que desenvolvia um plano de trabalhos destinados a aproveitar as frteis terras de Angola. Outro facto mais grave, e do qual tive conhecimento em Angola, dando dele imediata informao ao governo da Metrpole, foi o da tentativa de transferncia da influn cia de carcter poltico-financeiro que a Inglaterra tinha ento na Companhia do Caminho de Ferro de Benguela, para um grupo financeiro alemo. Felizmente Robert William, o conces sionrio do C. F. B., tudo fez para conservar a concesso nas suas mos, honrando o solene compromisso que tinha tomado com Teixeira de Sousa.

    Nas colnias portuguesas mais do que na metrpole se sentiam as ameaas e os peri gos, que a todos traziam preocupados. Naquele meio, onde as questes de poltica partidria nenhum interesse tinham, onde se pensava sem cessar no que representariam para a nao a perda dos seus territrios do ultramar, onde os colonos alemes, bem informados por certo, blasonavam de uma prxima ocupao germnica e para ela se preparavam ostensivamente, animados por visitas amiudadas de navios de guerra do seu pas, que constituam em regra um pesadelo para as autoridades superiores coloniais, colocados em face de solicitaes que, a serem satisfeitas, representariam graves quebras da soberania nacional, o estado de esprito dos portugueses passara a ser de verdadeira indignao, qusi de revolta, perante o que se es tava dando.

    Foi nesta altura, ao findar de Julho de 1914, que rebentou a Grande Guerra. Dada a transcendncia politica do acontecimento e sentindo-se quanto o nosso destino dele podia de pender, logo se agitou a opinio pblica do pas que ento se manifestava livremente, abertamente, e muitas vezes ruidosamente, pela imprensa, pelos comcios e pelos centros polticos que funcionavam, de norte a sul, em todas as localidades mais importantes, e no tardou a manifestar-se o Parlamento, que, constitudo pelas duas Cmaras, estava funcionando, em li gao constante com o governo e com o Presidente da Repblica.

    Tudo o que acabo de escrever, desde a primeira linha, e o muito mais que no soube ou no pude dizer, estava no esprito e

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    A Grande Guerra

    no corao do povo portugus. O sentimento nacional manifestou-se imediatamente e unanimemente naquela primeira hora: na contenda que se tinha aberto o pas era inteiramente contrrio Alemanha.

    Cumpria aos poderes Executivo e Legislativo da Repblica encontrar a melhor forma de traduzir esse sentimento nacional.

    Tratava-se das colnias portuguesas, nunca ser demais repeti-lo, Se Portugal se con servasse neutral e no entrasse na Guerra, o risco de perder as colnias adquiria a probabilidade mxima, fosse qual fosse a nao vitoriosa. Perd-las-ia imediatamente, no caso da vitria ale m; meses ou poucos anos depois, se os ingleses vencessem. Assim se pensava naquele tempo e os factos que se deram na Conferncia da Paz mostraram que se pensava bem.

    No declarar a neutralidade e fazer o possvel para no entrar na Guerra, seria indigno do pas.

    Tnhamos, porm, de manter a aliana com a Inglaterra e de caminhar, sem a menor quebra da dignidade nacional, de acordo com essa aliana.

    A ocasio era de molde a produzir o nosso engrandecimento, a aumentar o nosso prestgio, a conseguir paridade absoluta entre as duas partes nas nossas relaes com Gr-Breta nha, a firmar para sempre a nossa posse sobre os territrios ultramarinos.

    Foram estes os pensamentos, os princpios e os raciocnios orientadores do Parlamento e do Governo Portugus, de Agosto de 1914, e dos portugueses representantes da opinio pblica, que mais de perto cercavam estas duas entidades.

    Em 4 de Agosto o governo britnico comunicava ao governo portugus que, em caso de ataque pela Alemanha contra qualquer possesso portuguesa, se consideraria ligado pelas estipulaes da aliana anglo-portuguesa, e que ficaria satisfeito se o governo portugus se abstivesse de proclamar a sua neutralidade. Organizaram-se sem demora as primeiras expedies para Angola e Moambique, de ram-se em Portugal os primeiros passos para a constituio de um corpo expedicionrio para os campos de batalha da Europa, seguiu para Londres uma misso de oficiais para se pr em contacto com

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    o Ministrio da Guerra ingls, fornecemos Frana e frica do Sul armamento de artilharia e de infantaria que nos fora pedido e uma grande actividade militar passava a exercer-se na metrpole e no ultramar.

    Em Agosto de 1914 rebentaram as hostilidades entre Portugal e a Alemanha, sendo este ltimo pas o agressor. Em Moambique foi atacado e arrasado, sendo morta a sua guarnio, o posto de Mazia, na fronteira lusa-alem. Em Outubro do mesmo ano atacado por surpresa o posto do Guangar, sendo trucidada a sua guarnio. No mesmo ms ocupa ram foras alems os fortes do Dirico e do Mucasso. Em meados de Dezembro fortes colunas militares alems atravessam o Cunene e trava-se o combate de Naulila que obrigou as foras portuguesas a retirar, ficando, porm, os alemes em estado de no poder fazer qualquer perseguio.

    Todas estas agresses mostraram evidncia que para a Alemanha a guerra em Africa seria principalmente uma guerra de conquista das colnias portuguesas.

    Para os portugueses a guerra teria de ser tambm uma guerra colonial em Africa, e na metrpole uma guerra onde com o seu esforo e com o seu sangue ganhassem o prestgio necessrio para poderem manter a integridade dos seus territrios coloniais.

    Todos os objectivos que ento, se tiveram em vista se conseguiram. No fim da Guerra tnhamos pleno poder em todos os nossos territrios do ultramar e conseguramos aquele pres tgio, ganho nos campos de batalha da Africa e da Europa, que ainda hoje est servindo de apoio nossa poltica internacional. Lisboa, 1940

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    Captulo 2

    As expedies a Moambique

    No obstante a discusso no seio do governo, em Lisboa, da utilidade, necessidade oportunidade e interesse da participao de Portugal na Grande Guerra e da definio do estatuto algo contraditrio de aliado no-beligerante da Inglaterra e das potncias que alinharam contra a Alemanha e contra a ustria Hungria, o governo da Repblica tinha, desde logo, realizado que a inteno da Alemanha era a de conduzir um estado de beligerncia intensa nas suas fronteiras coloniais.

    Era sabido que a Alemanha pensava aproveitar o estado de guerra para aumentar o seu patrimnio colonial e que s o poderia fazer a partir de territrios vizinhos dos por si administrados que, logo quisera o destino, eram administrados por um estado no-beligerante.

    A Alemanha no iria, como no o fez, respeitar a neutralidade de Portugal.

    A prov-lo est o ataque alemo ao posto fronteirio de Mazia. Tratou-se de um golpe de mo de natureza meramente provocatria, sem qualquer intento de obter ganhos territoriais na margem portuguesa do rio Rovuma, e que no se revestiu de qualquer glria militar, antes no a teve porque foi um acto de mero banditismo blico.

    O posto de Mazia era uma sentinela perdida junto da fronteira, a meio curso do Rovuma e cerca do meridiano 37 Leste, a quatrocentos quilmetros de Porto Amlia, por caminhos arenosos. Chefiava o posto um europeu, 2. sargento do servio de sade, de apelido Costa, tendo sob o seu comando meia dzia de soldados indgenas do corpo de polcia da Companhia do Niassa, que viviam em palhotas com as suas mulheres. A construo dos postos era primitiva, limitando-se a

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    um cercado com parapeito e fosso, alm dum pequeno campo de tiro, sendo o posto de Mazia, pela distncia a que se encontrava, um dos mais pobremente instalados.

    Mazia estaria colocado onde se situam, hoje em dia (2014) os postos fronteirios de Candulo, do lado moambicano, e Chamba, do lado tanzaniano.

    Pela morosidade das comunicaes, o comandante do posto certamente ignorava que a guerra tivesse comeado na Europa em princpios de Agosto, e as instrues gerais que lhe tinham sido distribudas, analogamente a todos os postos da fronteira, eram no sentido de evitar conflitos.

    Pelo contrrio, do lado da fronteira alem as instrues eram tendentes a tomar a iniciativa do ataque, porquanto em cpias de documentao foram encontradas vrias referncias ao incidente de Mazia, onde foi vertido o primeiro sangue portugus, antes da declarao de guerra.

    Num dirio oficial da guerra, atribudo ao comando alemo, encontra-se a cpia de um telegrama datado de 10 de Agosto de 1914, para a autoridade de Lindi, distrito junto foz do Rovuma, onde se recomendava arranjar tropas auxiliares para fazer uma invaso Africa Oriental Portuguesa. Depois, sobre o ataque ao posto de Mazia encontram-se ali duas referncias, uma denunciando que se tencionava atac-lo e outra anunciando j a realizao do ataque, em que foi morto o sargento comandante e destrudo o posto.

    0 ataque foi, de facto, efectuado em 24 de Agosto, sendo massacrados os indgenas que se encontravam dentro do posto; e das averiguaes a que procedeu o administrador da Circunscrio de Metarica, qual o posto pertencia, e dos protestos feitos pelas nossas autoridades, ficou confirmada a premeditao do ataque, alis sem consequncias devido ao isolamento do posto, mas revelando, j, os propsitos ofensivos do adversrio.

    A situao geogrfica de Moambique no lhe permitia conservar-se alheia a uma grande guerra que envolvesse a frica do Sul; de facto, desde logo, nos primeiros dias de Agosto de 1914, se

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    acastelaram prenncios de tempestades por todas as fronteiras de Moambique. No sul, anunciava-se a revolta ber, para dominar a qual a Inglaterra nos pediria espingardas; ela pedir-nos-ia tambm a passagem de tropas inglesas pela Beira, enquanto na Niassalndia se desenhavam movimentos nativistas e na fronteira do Rovuma se dava, a 24 de Agosto, o referido ataque dos alemes ao nosso posto fronteirio de Mazia.

    Compreende-se, portanto, que era necessrio logo ao comear a guerra, que desde 4 de Agosto j envolvia a nossa poderosa aliada, guarnecer com foras militares a grande zona dos territrios da antiga Companhia do Niassa, que s tinha uma ilusria rede de ocupao administrativa. Em 18 de Agosto foi decretado enviar uma expedio de 1.500 homens para Moambique, sendo o ncleo do destacamento misto constitudo pelo 3. batalho do regimento de infantaria n. 15, regimento que ento tinha a sua guarnio em Tomar.

    De improviso, sem obedecer s regras de mobilizao, organizaram-se o batalho e outras pequenas fraces do destacamento. A lei facultava aceitar como voluntrios praas licenciadas e graduados oferecidos, pelo que se tirou s unidades esprito de corpo e se recebeu pessoal mal comportado. Na verdade o batalho s contava duzentos homens do regimento de Tomar, enquanto os outros oitocentos vieram oferecidos de vrias provenincias, mal conhecendo os oficiais e com deficiente instruo militar. A sua robustez deixava muito a desejar, sendo insuficiente para suportar um clima tropical.

    A alma da expedio foi o seu comandante, tenente-coronel Massano de Amorim, oficial j experimentado em campanhas coloniais e que fora governador do distrito de Moambique, muito tendo contribudo para a sua ocupao em 1910; tambm desempenhara as funes de chefe da repartio militar no Ministrio das Colnias.

    A falta de instruo militar das unidades que formavam o destacamento no podia, pela urgncia, ser remediada na metrpole e foi preciso em terras de frica comear com a instruo elementar, que quase todos os licenciados tinham esquecido.

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    Imagem 1 Instruo de metralhadoras em Moambique

    Pior do que o analfabetismo, dificultando a instruo militar, foi a ignorncia da higiene, a falta mais prejudicial para esta e outras expedies, como se manifestou pelos desfalques observados nos efectivos, causados pelas doenas.

    Onde a improvisao tambm acarretou muitas dificuldades foi nos fardamentos que foram fornecidos pressa e de m qualidade, desfiando-se o cotim de algodo s primeiras lavagens e perdendo a consistncia e a cor. Os capacetes de feltro deformavam-se logo que apanhavam chuva, e o calado era fraco e descosia-se.

    A improvisao fez-se, ainda, sentir nas disposies para o embarque da 1. expedio para Moambique, porque, falta de navios nacionais, foi contratado para a viagem um paquete ingls Durham Castle que foi escoltado pelo cruzador Almirante Reis. Sendo o transporte num navio Ingls, quando os alemes ainda tinham no mar alguns cruzadores, essa viagem foi uma temeridade, no obstante se ter solicitado e obtido a proteco dos navios de guerra britnicos.

    A viagem foi muito incmoda, pelo grande nmero de solpedes que o navio transportava, e, chegando o barco a Loureno

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    Marques em 16 de Outubro, a expedio teve de passar para o vapor Moambique, desembarcando em Porto Amlia a 1 de Novembro. Foi grande a decepo dos expedicionrios quando viram que nada estava preparado para os acolher. Novamente se tinha de improvisar. De Lisboa fora pedido que se preparasse o estacionamento da expedio, mas, por falta de recursos da Companhia do Niassa, que nenhum auxlio prestou, porquanto as suas autoridades no tinham suficiente domnio sobre os indgenas e nem carregadores forneciam, nada se encontrava preparado. Esta impreparao foi repetida, sendo constantemente necessrio improvisar instalaes, porque as mesmas faltas de organizao se repetiram nas expedies seguintes.

    Nesse tempo os alemes tinham deslocado para a nossa fronteira algumas foras para observarem os nossos movimentos, tendo este deslocamento sido til para aliviar os aliados britnicos e belgas, que nos primeiros encontros com o adversrio tinham sido batidos. Um bom servio desta 1 expedio foi submeter ao nosso convvio os indgenas macondes, abrindo estradas e montando linhas telegrficas para a fronteira do Rovuma, que um improvisado plano de operaes viria a pretender transpor em tom de guerra, para ocupar uma faixa de territrio inimigo, como veremos

    Evidenciou-se, porm, a falta de preparao das tropas portuguesas, em contraste com as da Blgica, que viria a ganhar uma personalidade colonial vigorosa. Com efeito esta bem se preparou para uma prova de competncia que lhe valeu um mandato colonial no fim da guerra.

    Nos primeiros tempos da guerra as foras alems tiveram superioridade numrica e de organizao sobre as foras aliadas e tomaram a ofensiva, atravessando a fronteira norte e invadindo a frica Oriental Inglesa, apossando-se de Taveta e procurando controlar o caminho-de-ferro de Mombaa.

    Semelhantemente tomaram a ofensiva contra os belgas, atravessando o Lago Tanganica e atacando o Congo Belga nessa fronteira, por terem o domnio desse lago, onde dispunham de alguns barcos artilhados.

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    Os ingleses fizeram vir reforos da ndia e os combates de fronteira sucederam-se at chegar ali uma importante expedio que tentou um desembarque ao norte da colnia alem, no porto de Tanga, em 2 de Novembro de 1914, protegidos por dois cruzadores. Intimados, ento, a renderem-se, os alemes conseguiram ganhar tempo e concentrar mil e quinhentos homens, principalmente de tropas indgenas, com que obrigaram a reembarcar os indianos e ingleses, que sofreram largas perdas em pessoal e material. Esta aco conferiu um grande prestgio ao Comandante alemo, tenente-coronel Paul mil von Lettow-Vorbeck (mais tarde promovido a general), que manteve a superioridade de foras em 1915, em consequncia desta vitria.

    Pela descrio deste combate nas Memrias do General von Lettow verifica-se que este conhecia a falta de habilidade com que as tropas inglesas manobravam e dessa falta conseguiu tirar partido no contra-ataque que preparou. Os ingleses perderam no combate 500 espingardas e 16 metralhadoras.

    A hbil movimentao para entrar em combate ou recus-lo, a manobra engenhosa e rpida para tirar vantagens dos pontos fracos do adversrio, foram, durante toda a campanha, factores de superioridade tctica do lado dos alemes. Factores estes, nitidamente evidenciados no combate de Tanga, que foi um dos mais decisivos, paralisando os ingleses durante ano e meio at virem as foras sul-africanas sob o comando do General Smuts, em 1916. Estima-se que a qualidade das tropas alems compensou a sua pequena quantidade, um soldado indgena bem treinado, os askaris valendo por seis soldados indgenas portugueses, os cipaios, mal treinados; este o ensinamento que se colhe daquele combate cujo xito deveremos atribuir instruo do comando, dos graduados e das tropas alems. Para o conjunto da campanha na frica Oriental, em resultado do combate de Tanga, em Novembro de 1914, o ano de 1915 pode considerar-se neutro.

    Cedo os governos da repblica e da colnia tinham acordado num objectivo mnimo para a racionalizao da campanha no norte de Moambique, objectivo que parecia razovel em termos quer militares quer polticos, pelo posicionamento de que Portugal poderia vir a

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    beneficiar numa eventual conferncia de paz subsequente guerra, que todos queriam ganha pela aliana anglo-franco-russa.

    O objectivo estratgico mnimo era, de facto, um objectivo tctico duplo: a reocupao do tringulo de Quionga, permitindo a Portugal partilhar da foz do rio Rovuma, e a ocupao de uma faixa de terreno na sua margem norte, esquerda, tal que Portugal partisse para uma conferncia de paz como um ocupante de territrio do adversrio.

    J a 15 de Junho de 1915, o Governador-geral de Moambique transmitira ao comandante da expedio a misso que o Governo da Metrpole tinha em vista de, como ficou dito, reocupar Quionga e invadir a colnia alem, ocupando uma faixa de terreno na margem norte do rio Rovuma.

    Aspirao que parecia claramente desproporcionada para a nossa capacidade, no s militar mas sobretudo de aco administrativa correlativa.

    Estranhamente, diversa correspondncia consta do relatrio do comandante da expedio salientando e insistindo sobretudo na falta duma orientao definida pelo governo da Metrpole. Assim, em 8 de Agosto, o comandante renova para Lisboa o pedido de instrues sobre a orientao a seguir mas, naturalmente, recebe um telegrama do Ministro anunciando-lhe que vai render a expedio (em 23 de Agosto de 1915). O comandante ainda se ofereceu para comandar a nova expedio, mas no foi atendido.

    Acompanhou a 2. expedio a Moambique o Governador-geral, lvaro de Castro, capito de infantaria, bacharel em direito e professor das escolas militar e colonial, entusiasta republicano desde rapaz no Colgio Militar, sugestionado pela Histria dos Girondinos, de Lamartine e pelas estrofes inflamadas de Vtor Hugo. lvaro de Castro, que j fora ministro e presidente do conselho, estava nessa poca na plenitude das suas faculdades, com 36 anos, e tinha a grande ambio de bem servir a Repblica, a qual apaixonadamente identificava com a Ptria.

    0 comandante da expedio, major de artilharia Moura Mendes, era um oficial disciplinador, mas no tinha experincia colonial, nem

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    temperamento ou preparao para as responsabilidades que um tal comando exigia. O relatrio e a correspondncia do Governador-geral, lvaro de Castro, constituram a fonte mais valiosa para colher uma ideia desse momento histrico, que em Moambique antecede a declarao de guerra e vai at primeira tentativa de atravessamento do Rovuma.

    Como em geral tinha vindo a suceder, o Governador-geral embarcou sem instrues do ministro. Foi ento muito laboriosa a colheita de informaes para se improvisar um novo plano de campanha. data da declarao de guerra, em 9 de Maro de 1916, diz no seu relatrio o governador: o comandante da expedio nada me dissera ainda sobre a situao militar da fronteira, sobre o plano a adoptar em qualquer caso superveniente, ou sobre os reforos necessrios.

    O Governo da Metrpole, s aps a declarao de guerra e conforme as propostas do Governador-geral, define a sua atitude num telegrama datado de 30 de Maro, julgando conveniente ao interesse nacional e nossa prpria defesa, invadir e ocupar a colnia alem at rio Rufigi, sem prejuzo de ulterior cooperao com os ingleses ao norte do Lago Niassa.

    O ncleo da 2. expedio foi o 3. batalho de infantaria 21, de guarnio em Penamacor, mobilizado, como as restantes foras, da mesma maneira improvisada e, por isso, sem coeso nem apurada instruo.

    Alm deste batalho, o destacamento era constitudo por 1 bateria de artilharia de montanha, 1 esquadro de cavalaria e elementos dos servios de sade e administrativos. Reforado com oficiais e praas de sapadores mineiros, telegrafistas e administrao militar, o seu efectivo elevou-se a 50 oficiais, 1.477 praas e 322 solpedes.

    A expedio, organizada por decreto de 11 de Setembro de 1915, seguiu de Lisboa no vapor Moambique, com o Governador-geral que ficou em Loureno Marques, e desembarcava em Porto Amlia em 7 de Novembro, na poca das chuvas, que naquela regio caem torrencialmente de Dezembro a Maro, sobretudo no litoral.

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    O clima de Porto Amlia, local que por tradio era apontado como bom para sanatrio, no foi to favorvel s tropas que lhes no trouxesse um estado sanitrio bastante precrio, ao fim de dois meses de estacionamento.

    A expedio teve a vantagem de aproveitar as instalaes deixadas pela anterior e de encontrar j abertas duas estradas para a fronteira que eram, no tempo seco, viveis para automveis.

    A ocupao da fronteira do Rovuma fora organizada em duas zonas: a primeira, indo desde a foz do Rio Rovuma at sua confluncia com o Rio Lugenda, era uma zona melhor conhecida relativamente segunda, que se prolongava para poente, at ao Lago Niassa.

    A primeira zona foi subdividida em dois comandos militares, um com a sede em Palma outro com a sede em Mocmboa do Rovuma, sendo guarnecidos estes comandos com duas companhias de infantaria indgena da colnia, outras duas organizadas (ou antes improvisadas) com praas indgenas da companhia do Niassa que quase no tinham valor militar, e mais cem indgenas do corpo de polcia da Companhia, sendo estes cipaios indgenas reservados para a segunda zona, com quinhentos quilmetros de fronteira. Distncias enormes, que smente boas tropas poderiam vigiar, patrulhando os grandes intervalos entre os postos de fronteira. Mas nem mesmo a 17. companhia indgena, que fora destinada para a guarnio da estrema poente, junto do Lago, passou alm de um quinto do itinerrio.

    A fronteira entre o Oceano ndico e o lago Niassa tinha uma frente sinuosa avaliada pelo comando num desenvolvimento de cerca de 650 quilmetros; mas to vasta frente somente apresenta trs zonas de penetrao, correspondendo s faixas do litoral do Oceano e do lago Niassa, sendo a central a correspondente ao vale do rio Lugenda, pelo que as comunicaes dessas trs zonas deveriam ser guarnecidas retaguarda, limitando-se a vigilncia a patrulhas. A experincia mostrou que para as comunicaes se deveriam aproveitar a via martima, pelo oceano, junto costa, e fluvial, pelo lago, enquanto para guardar o vale do Lugenda se apresentava como centro favorvel a Serra Mecula.

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    To grande desenvolvimento de fronteira exigia uma capacidade excepcional para ser vigiada com eficcia.

    Diz o Governador-geral, lvaro de Castro: O destacamento expedicionrio de 1915 no estudou a situao militar da fronteira e no preparou a resposta a qualquer eventualidade que surgisse; a declarao de guerra encontrou-o inteiramente desprevenido na sua misso.

    Depois da beligerncia declarada, os seus trabalhos de preparao das operaes no corresponderam pela qualidade, nem pela rapidez, ao que as circunstncias exigiam. Tais so as razes do aparecimento das minhas ideias e da sua apresentao, como plano geral de operaes.

    Esse plano geral de operaes continha os seguintes objectivos, j identificados e atrs referidos:

    1) Objectivo imediato, a ocupao de Quionga;2) Objectivo geogrfico e poltico, obter uma situao

    internacional que nos desse um lugar de destaque ao lado das naes Aliadas, isto , ocupar com urgncia uma parcela de terreno ao sul da colnia alem.

    O Governador-geral, desde a sua chegada colnia que insiste preocupado em dizer para o governo central: convm no perder tempo.

    O governo da colnia de Moambique tinha-se visto a braos, em 1891, com a fixao das suas fronteiras. Defrontando-nos ao norte com a nascente e ambiciosa colnia alem, foram muitas as dificuldades levantadas para a fixao da fronteira. Demoradas negociaes diplomticas se arrastaram at que em 1894, o Governador da frica Oriental Alem fez arvorar a bandeira do seu pas na baa de Quionga, nica povoao de importncia, no chamado tringulo de Quionga. Este tinha uma rea aproximada de 450 quilmetros quadrados, de terrenos relativamente valiosos para culturas de palmares e arrozais, rea pequena mas valorizada por abranger a margem sul da foz do Rovuma, ficando a entrada do grande rio fronteirio integralmente na mo dos alemes

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    O interesse do governo da Metrpole e do Governador Geral de Moambique, em que a expedio tomasse como objectivo imediato a ocupao de Quionga, era compreensvel, no s para reparar uma afronta, mas tambm para atingir o objectivo militar de cooperar com os ingleses, ocupando a margem sul do Rovuma na sua parte mais rica junto sua foz, tendo em vista passar para a margem norte, ocupar territrio inimigo e, sobretudo, partilhar da foz do grande rio.

    A zona de operaes de fronteira, definida pelo rio Rovuma, sendo enorme, ficou marcada aqui e acol por alguns episdios e aces de campanha falhos de ligao; em regra, os alemes abandonaram, numa e noutra margem do Rovuma, as regies do litoral, onde os Aliados dispunham das comunicaes martimas para o transporte e abastecimento das tropas, preferindo retirar para combater no interior, onde marchavam desembaraadamente, enquanto os Aliados se arrastavam com lentido.

    Conhecida em Moambique a declarao de guerra da Alemanha a Portugal, feita a 9 de Maro de 1916, logo o Governador comeou com mais insistncia a incitar aco. Os termos categricos ordeno V. Ex. faa directa e telegraficamente Lisboa pedidos necessrios mobilizao de foras... constam de um telegrama datado do dia seguinte para o comandante da expedio.

    Em fins de Maro organizou-se em Porto Amlia um pequeno destacamento misto, sob o comando do major Portugal da Silveira, com uma companhia de infantaria, uma bateria de artilharia de montanha e um peloto de cavalaria, tendo por fim ocupar Quionga e fazer um reconhecimento ofensivo na direco de Mikindani, Lindi, tentando fixar-se nestas cidades inimigas. O destacamento foi transportado, em princpios de Abril, no nosso pequeno vapor Lumbo, at Palma, onde incorporou foras indgenas. O major Silveira marchou pelo caminho arenoso de Palma para Quionga, cerca de 12 quilmetros, com as referidas foras e uma companhia indgena, ocupando, em 10 de Abril de 1916, esta localidade que os alemes tinham abandonado, deixando no entanto algumas trincheiras construdas.

    Em 23 de Abril embarcaram em Porto Amlia, com destino

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    a Palma, onde chegaram em 24, as restantes foras da expedio, excepo de grande parte do esquadro de cavalaria, por falta de acomodaes para o gado a bordo do Lumbo. Depois da reocupao de Quionga, tratou-se de efectivar a ocupao do chamado tringulo de Quionga, terreno abandonado pelo inimigo, para o que se estabeleceram na margem direita do Rovuma os postos auxiliares de Namaca, Namiranga, Namto e Nachinamoca. Estes postos, com o de Nhica, 34 quilmetros a montante deste ltimo, constituram uma linha ele postos de cobertura com uma frente de uns 50 quilmetros at ao mar, que devia servir de base para a nossa ofensiva, cujo objectivo seriam as cidades de Mikindani e Lindi, no litoral alemo, respectivamente a 25 e 60 quilmetros da foz do Rovuma. Em frente dos nossos citados postos, encontravam-se na margem esquerda do rio, os postos inimigos da Fbrica, Migomba, Mchinga, Marunga e Tchidia. O desembarque em Palma e a marcha para Quionga, por terrenos alagados pelas recentes chuvas, exigiram um grande esforo, enchendo desde logo os hospitais improvisados. Quionga possua trs casas comerciais e uma centena de palhotas. Assim como os seus palmares tinham uma aparncia de jardim, mas um clima mortfero, tambm esta aparentemente fcil ocupao de Quionga e dos postos militares de vigilncia no Rio Rovuma levara aos hospitais quase todas as praas da expedio. To pequeno avano representava um esforo balizado por trs hospitais, acrescentando um peso morto que paralisava a expedio. A povoao e palmar de Quionga eram de tal modo insalubres que para levantar os barraces para hospital foi escolhida uma ponta arenosa junto do mar, mas sem gua potvel.

    Umas 400 espingardas, artilharia, metralhadoras e cavalaria, ocuparam o tringulo de Quionga; 545 doentes, julgados incapazes pelas juntas de sade, retiraram de l trs meses depois, embarcando em 29 de Julho, no Zaire, que os foi buscar baa de Quionga, onde foi este, provavelmente, o maior navio que at ento ali tinha entrado.

    Os estudiosos no encontram relatrios do Servio de Sade: estes servios parece terem sido ainda mais improvisados do que as

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    tropas combatentes, mas os ensinamentos colhidos de tanta misria no foram esquecidos. Com efeito os servios de sade das tropas coloniais vieram a encontrar-se eficazmente organizados nas nossas grandes colnias africanas.

    Ns tnhamos proporcionalmente muitssimo mais doentes europeus do que os aliados ou o adversrio, porque os nossos soldados no tinham a mnima ideia de higiene e nos graduados, era aterrador o nmero de sifilticos, tuberculosos e impaludados; bocas inteis na campanha e embarao constante para os alimentar e transportar. Os nossos soldados no queriam beber gua fervida, porque lhes repugnava o cheiro e sabor, que no mato se lhe no pode tirar; para tomarem quinino era preciso obrig-los. Se o vapor Zaire no fosse busc-los a Quionga, mais de metade dos doentes l ficariam sepultados.

    Na vspera da chegada das nossas tropas os alemes tinham abandonado Quionga e passado para a margem norte do Rovuma.

    No obstante todos os incitamentos feitos pelo Governador-geral com o fim de se tomar a ofensiva, o comando da 2. expedio dispersava as foras por numerosos postos de vigilncia da extensa linha fronteiria, tirando expedio a possibilidade de exercer uma aco ofensiva oportuna e cuja possibilidade de xito era de prever, porquanto os alemes, em consequncia dos resultados eficazes da aco das tropas britnicas no litoral, no estavam em condies de oferecer enrgica resistncia.

    No domingo de Pscoa de 1916 (23 de Abril) os alemes fizeram fogo de metralhadoras, da margem norte do Rovuma, sobre o nosso posto de Namoto, o que deu lugar ao abandono precipitado deste posto pelo peloto que o guarnecia, constitudo por landins, que mau grado seu e com visvel indignao seguiram o exemplo dos seus graduados europeus, retirando para Quionga. A foi reorganizado o peloto que, com outros graduados, voltou a ocupar o posto.

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    Imagem 2 Posio de combate das foras portuguesas na margem do Rovuma

    Nos primeiros dias de Maio foi este reforado com duas peas de artilharia que para ali marcharam, de Quionga, onde se encontravam desde 21 de Abril, sob o comando do tenente Ferreira da Fonseca. Foi esta artilharia que, contra a opinio sensata do seu comandante mas em cumprimento de ordens superiores, bombardeou em 7 de Maio e dias depois, com granadas com balas, porque outras no podia utilizar, os postos alemes da Fbrica e de Naurunga, com resultados, como era de prever, absolutamente nulos.

    A 18 de Maio o Governador-geral embarcou em Loureno Marques para o Rovuma acompanhando os reforos que conseguira mobilizar na colnia, formando uma companhia europeia de infantaria montada da Guarda Republicana de Loureno Marques e uma companhia indgena da mesma unidade (a qual era considerada de elite, tendo todos os seus oficiais o curso da sua arma), outra companhia indgena e uma bateria de artilharia de montanha. O nosso cruzador Adamastor chegou baa do Rovuma em 19 de Maio e desde logo comeou a cooperar com a expedio nos reconhecimentos para a passagem do rio com pequenas embarcaes, sendo nesse servio auxiliado pela canhoneira Chaimite. Em 21, duas lanchas a

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    vapor do Adamastor entraram no Rovuma e, subindo o rio fazendo continuamente fogo sobre a margem inimiga, atracaram a esta margem. Uma pequena fora de marinha desembarcou junto do posto da Fbrica (fbrica alem de preparao de algodo) e incendiou tudo quanto era combustvel, palhotas e cercados, sem que o inimigo disparasse um tiro. O Adamastor e a Chaimite cooperaram, com a sua artilharia, bombardeando a fbrica. Entretanto, alguns pangaios com tropas e abastecimentos nossos entravam pelo rio para reforar e reabastecer os postos militares da margem sul, suprindo a falta dos nossos elementos de transporte que foram sempre escassos.

    A 23, tentou a marinha, com as suas lanchas, novo desembarque no mesmo posto, mas foi alvejada pelas metralhadoras alems, pelo que teve de retirar com trs mortos e seis feridos. Foi ento resolvido tentar-se a passagem do Rovuma, em fora, com a cooperao da marinha. Assim, em 27 de Maio, tenta-se uma passagem viva fora, sob o comando do major Moura Mendes, assistindo o Governador de bordo do cruzador Adamastor. Organizaram-se duas colunas na margem sul, para atravessarem o rio, tendo por objectivo principal a Fbrica na margem alem. As baleeiras do Adamastor rebocadas pelos seus dois vapores armados de peas de 37 mm e metralhadoras, transportaram as foras nos pontos da travessia onde no havia vau. Antes de se tentar a passagem, efectuou-se uma preparao de artilharia, das 8 s 9 horas, com as duas baterias de montanha, cooperando as artilharias do Adamastor e da Chaimite. Assim foi bombardeada a margem inimiga, nas imediaes da Fbrica, cabendo bateria Canet, que apoiava o avano da coluna da esquerda, a frente inimiga a montante deste posto alemo. s 9 horas tentou-se a passagem do rio embarcando em baleeiras a coluna da direita, de jusante, formada por uma companhia europeia e outra indgena, que atravessaram o rio naquele local livre de ilhas.

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    Imagem 3 Cruzador Adamastor

    A coluna da esquerda que, entre as duas margens, tinha, para apoiar o seu ataque, quatro ilhas dispostas em escalo, avanou de ilha para ilha, atravessando os canais, ora a vau ora em baleeiras, e conseguiu atingir a ltima ilha, a uns 150 metros da margem alem. Foi ento alvejada por intenso fogo de metralhadoras que uma seco de artilharia Canet, sob o comando do prprio comandante da bateria, capito Mota Marques, conseguiu calar, da primeira ilha, para onde tinha avanado e onde tomara posio. Mas quando as baleeiras da coluna da direita se aproximaram a 200 metros da margem norte, os alemes abriram um intenso fogo de duas metralhadoras, que dizimou as nossas tropas fazendo encalhar as baleeiras e desorganizando a flotilha que retirou com trs oficiais e trinta praas mortos, quatro oficiais e vinte praas feridos; dois oficiais e seis praas ficaram prisioneiros.

    A artilharia que apoiava esta coluna foi impotente, pela deficincia do seu material, para realizar eficazmente este apoio; a bateria de Namaca, do comando do tenente Ferreira da Fonseca, dispunha de 4 velhas peas de bronze funcionando pessimamente e duas das quais se inutilizaram durante o combate; as munies de artilharia da Chaimite (47 mm) no eram tambm as prprias para apoiar uma ofensiva desta natureza.

    Em vista do malogro da coluna da direita, foi dada ordem de

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    retirada coluna da esquerda, retirada que uma metralhadora alem ainda teria incomodado se a seco avanada de artilharia, acima citada, no a tivesse calado ao terceiro tiro.

    O combate, que alguns chamam de Namiranga, outros talvez mais propriamente, de Namaca por ter tido maior intensidade em frente do posto deste nome, terminou s 15 h 30 m.

    O relato que se segue, feito por um oficial mdico estacionado em Mocmboa da Praia, o ten-coronel mdico Amrico Pires de Lima, revela bem a ligeireza com que as tropas portuguesas organizavam os seus movimentos de combate, sem ter em conta que estavam perante um inimigo aguerrido, bem organizado, tcticamente bem comandado e disposto a bater-se com muita violncia, se fosse preciso. Quando chegmos a Palma, em princpios de Julho de 1916, a expedio do ano anterior estava exausta. Na sua aco destacava-se uma vitria e um desastre, que chegaram Metrpole to deformados pela distncia, ou por outros motivos, que mal pode riam reconhecer-se: a conquista de Quionga e o desastre do Rovuma. Lisboa pareceu delirar com a vitria de Quionga, mas o que certo que essa vitria foi adquirida sem um tiro. Os alemes, aproximao da coluna portuguesa, tendo pela rectaguarda o caudaloso Rovuma, retiraram em boa ordem, sem esperar pelo ataque. Isso no obstou a que o indgena de Lisboa pusesse luminrias. O desastre, infelizmente muito mais sangrento, foi causado, em parte, pela facilidade e felicidade dessa primeira empresa. Constou efetivamente que os alemes tinham abandonado a margem esquerda do Rovuma, onde existia uma fbrica de preparar algodo. Alguns atrevidos marinheiros portugueses tinham ido at margem alem e, audaciosamente, chegaram a desembarcar e a explorar os arredores. Voltaram alvoroadamente com a notcia, que causou a maior sensao: os alemes tinham retirado. Combinaram logo as foras de terra e mar executar um golpe, que daria brado em Lisboa. Atravessar o Rovuma e ocupar a margem alem, invadindo

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    A Grande Guerra

    assim o territrio inimigo. Embarcaram em lanchas uma companhia indgena, uma bateria de metralhadoras, uma fora de marinheiros e no sei que mais. E l foi o comb6io de lanchas, a abarrotar de soldados, lentamente, a reboque de um gasolina. Da margem portuguesa, no se avistava viva alma do lado alemo. E era tal a tranquilidade e a despreocupao, que o chefe do Estado Maior teria dito, pesaroso: que pena no haver uns tiritos para animar! Os alemes, astutos, ocultos nas suas trincheiras, fizeram-lhe a vontade. Mas no foram uns tiritos; foram sucessivas rajadas de metralhadora, que vindimaram com facilidade e preciso os verdadeiros cachos humanos acumulados nas lanchas. Os nossos, no meio do rio, completamente a descoberto e sem defesa, foram literalmente truci-dados, e, dentro em poucos minutos daquela tropa confiante, s restavam montes de cadveres nos barcos, que derivavam pelo rio abaixo, ao sabor da corrente... Nem todos morreram, pois um oficial sobrevivente (nico creio eu) conheci, que teve a sorte de ser ferido em primeiro lugar, caindo no fundo do seu barco, atravessado por trs balas. Por cima dele formou-se uma barreira de cadveres, que o salvou de uma morte certa. Teve a felicidade de a corrente empur rar a lancha para a margem portuguesa, onde foi recolhido e pensado. E assim terminou a primeira tentativa da passagem do Rovuma.

    Representou um grande esforo, bem executado mas mal sucedido. Este insucesso paralisou a 2. expedio durante quatro meses e inutilizou a sua aco ofensiva, mantendo-se contudo a reocupao da margem sul do Rovuma.

    Numerosas aces se registaram neste perodo posterior declarao de guerra, tendo esses pequenos combates o mesmo aspecto do ataque alemo ao nosso posto de Mazia.

    Pequenas foras alems vinham atacar os nossos postos desde o Oceano ndico at ao Lago Niassa e com fortuna vria terminavam os assaltos, que no podiam ter continuidade em vista do isolamento dos postos, mas conseguiam do lado alemo manter o esprito ofensivo,

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    em Moambique

    enquanto do nosso lado nos enervavam fazendo-nos enfraquecer o esprito combativo.

    O Governador-geral lvaro de Castro diz, com desolao, no seu relatrio, que os factos denunciaram do nosso lado uma situao passiva, de inaco, desgastando terrivelmente a capacidade fsica e o estado moral das tropas.

    No obstante, a nossa artilharia conseguiu fazer malograr algumas tentativas de ataque dos alemes, nomeadamente as que tiveram por objectivo Namto, nos dias 6, 13 e 19 de Junho e 1 de Julho.

    O Governador, com o seu entusiasmo patritico, iludira-se dando ao valor numrico das tropas uma capacidade ofensiva que a expedio estava longe de atingir. Foi ele que deu o maior impulso para a imediata passagem do Rovuma, antes mesmo de chegar a Guarda Republicana de Loureno Marques, que era a tropa com melhor esprito de corpo. Ele tambm contrariou o telegrama de Lisboa em que se aconselhava no iniciar a ofensiva antes da chegada ao Rovuma das foras expedicionrias, que nesse ms de Maio deviam embarcar em Lisboa.

    Do insucesso da tentativa resultou maior prudncia e demoradas preparaes para a passagem do rio que ia tentar-se novamente em Setembro prximo.

    Em 26 de Junho, a Legao Britnica em Lisboa pedia ao governo portugus que fossem recrutadas foras indgenas em Loureno Marques para ficarem sob as ordens do General Smuts. E na mesma data, o Ministrio da Guerra informava no haver inconveniente, antes muito desejava prestar mais esse concurso para o fim comum que os dois Governos tinham em vista.

    Enquanto os nossos Aliados assim pretendiam utilizar ao mximo foras indgenas (como os alemes utilizaram, com tanto xito, os seus ascaris), Portugal persistia em enviar sucessivas expedies de tropas da Metrpole, fracamente preparadas para resistirem ao clima numa campanha prolongada como esta.

    Assim ia partir, em meados de 1916, a 3. expedio de foras

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    A Grande Guerra

    metropolitanas para a nossa frica Oriental.Foi a mais forte expedio que, concentrada, envimos ao

    Ultramar. Os trs batalhes dos regimentos de infantaria n. 23, 24 e 28, recrutados em Coimbra, Aveiro e Figueira da Foz, deviam ter uma certa coeso regional, pelas suas tradies e costumes, mas infelizmente esse regionalismo foi antes uma origem de insubordinao. Tinha sido resolvido, para remediar a falta de instruo militar. que os trs batalhes se concentrassem na Escola de Infantaria, em Mafra, para serem submetidos a uma intensiva instruo; como, porm, fosse preciso improvisar graduados, tiraram-se aos batalhes os mancebos ilustrados, para se formarem com eles escolas de quadros. Entretanto o batalho de Coimbra, onde existe sempre latente a rivalidade entre estudantes e futricas, teve a impresso de que o favoritismo era o motivo para excluir os estudantes de marcharem para a frica, pelo que se propagou logo uma insubordinao de protesto contra o rancho, em todos os batalhes, os quais apressadamente foram ento mandados para Lisboa, onde se distraram mas no receberam instruo e ficaram impunes, dando assim uma fraca impresso de disciplina. A preocupao de manter a disciplina levou o Governo a nomear para Comandante da 3. expedio o General Ferreira Gil, que no tinha experincia colonial, nem os seus estudos profissionais se orientavam nesse ramo de conhecimentos militares, como ele diz no seu relatrio com que esclareceu o Ministro quando foi nomeado para o Comando. Era, porm, o referido oficial considerado muito disciplinador, tendo obtido a medalha de Valor Militar, por ter dominado uma insubordinao ocorrida no regimento de infantaria 29, na qual fora ferido.

    A particularidade mais relevante da organizao desta expedio era incorporarem-se nela as foras da expedio anterior, que j estavam completamente esgotadas.

    Sendo a baa de Palma, ao Sul de Quionga, muito assoreada e sem cais, foram extenuantes os servios de desembarque, alis dirigidos infatigavelmente pelo tenente de marinha Joo Belo, devendo ainda notar-se que aproveitmos muito material apreendido aos prprios alemes nos nossos portos.

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    Reconhecendo-se que as tropas brancas resistiam mal ao clima, comemos a improvisar dez companhias indgenas com uma instruo de recrutas de quatro meses, quando, segundo as tradies, eram precisos quatro anos para formar um bom soldado indgena.

    A alimentao das tropas indgenas e europeias foi um difcil problema que teve de se resolver na ocasio, havendo infelizmente muitos abusos dos fornecedores de vveres. A alimentao, sendo intimamente ligada higiene, foi sempre uma causa de baixas nos efectivos por doenas. Os chefes dos servios administrativos e de sade tinham boa vontade de acertar, mas era a primeira vez que iam s colnias e estavam fatigados, no chegando a demorar-se ali seno cinco meses.

    semelhana das expedies anteriores, tambm desta nada consta em registos, relatrios ou publicaes acerca dos servios de sade to importantes em campanhas coloniais. Isto sintomtico, e assim se poder compreender o fraco rendimento destas expedies, que se assemelhavam a castelos de cartas, desmoronando-se pela falta de coeso, logo ao primeiro choque, enquanto o Governo de Lisboa, olhando simplesmente aos efectivos, incitava para se tomar a ofensiva e invadir a colnia alem.

    As foras expedicionrias de 1916 sairam de Lisboa nos vapores Portugal a 28 de Maio, Moambique a 3 de Junho, Zaire a 24 de Junho, Machico a 28 de Junho e Amarante a 8 de Julho. Depois no vapor Beira embarcaram mais, de improviso, 432 praas de infantaria 21, transferidas para as Colnias, nos termos do Regulamento Disciplinar, por se terem insubordinado; estes homens formavam duas companhias, s com 8 sargentos castigados e sem enquadramento de oficiais, apresentando-se sem capacetes de feltro e s com os fatos de mescla com que deviam seguir para Frana.

    Conforme as palavras do General, revestiram um carcter de pessimismo verdadeiramente alarmante as deficincias de organizao; contudo, para fazer embarcar a expedio, desenvolveram-se actividades febris na improvisao de recursos, porque os assuntos previamente estudados eram nulos e tudo, ou quase tudo, era preciso

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    improvisar. Em 3 e 5 de Julho de 1916 chegam a Palma, onde nada estava

    preparado para o desembarque, os vapores Portugal e Moambique com os batalhes de infantaria 24 e 23, transportando o Moambique tambm o Quartel-general. Diz o general no seu relatrio: impressionou-me o pouco ou nenhum cuidado em cumprir as ordens do Ministro das Colnias, tendentes a beneficiarem as tropas e resguardarem haveres da Fazenda Nacional.

    Entretanto, em 1916, os ingleses, com um maior ncleo de tropas sul-africanas, tendo no ano anterior ultimado a conquista do Sudoeste Africano Alemo, lanam uma grande ofensiva, vindo do Norte, com trs reduzidas Divises, e de Maro a Setembro de 1916 varrem os alemes da parte mais rica da colnia, tomando-lhes o grande caminho-de-ferro central, de 1.268 quilmetros, que liga o Oceano ndico ao Lago Tanganica, e ocupando a capital administrativa Dar-es-Salam, em 4 de Setembro.

    Todas as informaes inglesas eram unnimes em considerar a campanha terminada. Parece agora oportuno dedicar alguma ateno ao esforo belga, que nesta campanha da frica Oriental evidenciou uma personalidade militar e colonial, para ns exemplar.

    Depois de o governo belga ter procurado, por intermdio da Frana e Inglaterra, manter a neutralidade da bacia do Congo, vendo frustrada essa orientao pelos ingleses, que disseram ser conveniente bater a Alemanha em toda a parte onde pudesse ser atingida, comeou um notvel trabalho de organizao militar no Congo Belga.

    Para comandante das foras belgas foi escolhido em 1914 o Major Tombeur, sendo-lhe dadas sucessivas promoes at entrar em operaes, j General, em 1916. As foras belgas mobilizadas no Congo so elevadas a 23.000 indgenas. A linha de comunicaes subia o Rio Zaire ou Congo, aproveitando alguns troos de caminho-de-ferro, e tinha a extraordinria extenso de dois mil quilmetros desde o Oceano Atlntico at ao Lago Tanganica. S com uma ntima cooperao de autoridades administrativas, dotadas de grande capacidade, se poderiam movimentar mais de 30.000 homens numa

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    em Moambique

    ofensiva sobre a colnia alem. Os belgas organizaram duas brigadas a dois regimentos de

    trs batalhes a trs companhias. Cada regimento dispunha de 9.000 carregadores e um hospital mvel. 0 servio de sade foi dirigido em campanha por um professor da Universidade de Lovaina.

    0 movimento ofensivo dos belgas foi dirigido, em 1916, sobre a capital histrica da colnia, Tabora, onde entraram primeiro do que os ingleses, em 19 de Setembro, data da nossa passagem do Rovuma. Os belgas tambm consideravam a campanha terminada.

    Para ns, portugueses, ela ia comear e duramente.To duramente que o comandante da 3 expedio, o general

    Ferreira Gil, faz um elogio rasgado s tropas portuguesas que combateram em Moambique. Transcrevemos:

    Merecida Homenagempor Ferreira Gil, General.

    um dever, sublime dever patritico, no deixar no olvido a grandeza e elevao do nobre esforo dos soldados de Portugal nos campos de batalha da Europa e da Africa nessa homrica e emocionante contenda, a que nenhu ma outra pode comparar-se, que foi a Grande Guerra, a qual por mais de quatro anos convulsionou o mundo. Esse dever impe-se, porm, com maior evidncia aos que nela exerceram o mando das hostes lusitanas em qualquer dos campos, visto terem tido ensejo de mais de perto, conhecerem e admi rarem predicados dos guerreiros da gente portuguesa, as suas sublimes vir tudes patriticas, o seu jamais ultrapassado valor e pico herosmo.

    Porque assim o pensmos, entendemos no podermos esquivar-nos ao cativante convite que nos dirige a Comisso Tcnica de Infantaria para nos associarmos consagrao dos mortos da arma nessa inolvidvel luta, colaborando no Livro de Ouro da Infantaria Portuguesa, e isto por nos ter cabido a honrosa parte na difcil misso

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    A Grande Guerra

    de dirigir uma das expedi es destinadas a operar contra os alemes na sua antiga colonia da Africa Oriental, a qual honra lhes seja, se desempenhou do seu mandato sem nunca desmentir o brio e valor da nossa raa, raa de heris.

    Procurarei pois exaltar quanto nas minhas apoucadas foras caiba, com justia e verdade, os relevantes servios que ptria prestou a rainha das batalhas, naquela hora trgica, mais pelo quinho de sacrifcios que lhe coube, do que pelo fulgor das glorias conquistadas, que bem maiores podiam ter sido apesar da pequenez da hoste batalhadora e dos minguados recursos de que dispunha; e, sobretudo, irei juntar as minhas homenagens e o preito de viva saudade dos mortos e de respeitosa admirao pelos que l se cobriram de glria, j que, decerto, outros mais ilustres camaradas, todo o exrcito e a Nao em peso, lhe no regatearo. A Ptria Portuguesa nunca negou aos seus filhos o merecido galardo.

    Em todas as fases dessa luta, que nos empenhmos no s para hon rarmos velhas alianas mas tambm para defendermos a autonomia sagrada do nosso patrimnio colonial, cobiado por tantos, e que foi bem mais difcil e perigosa do que aquelas que, anteriormente se haviam efectuado, com exilo famoso e brilhante, no Continente Negro, mais urna vez se paten tearam, com deslumbramento, a lendria resistncia, inexcedvel valentia a admirvel sobriedade do nosso soldado.

    Constituem mais uma pgina brilhante da histria da infantaria portu guesa, que, como a de todo o exrcito , ao mesmo tempo, a essncia heroica da historia de Portugal, e um capitulo deslumbrante da historia da humanidade.

    No so demasiados todos os louvores e glorificaes aos vrios compo nentes da pequena expedio a Moambique em 1916, durante a laboriosa preparao da travessia do Rovuma, na qual, muito embora sobrelevem aos demais os assinalados servios da engenharia, todos os oficiais e praas, num verdadeiro ardor patritico, procuraram, com notvel anseio e fervor, cumprir o seu dever e colaborar, do corao, nessa cruzada que para alguns se

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    em Moambique

    afigurava irrealizvel. Jamais se apagar do meu espirito o espetculo emocionante

    e gran dioso ao mesmo tempo, da travessia a vau, com agua peIos peitos, do caudaloso rio africano, pelas vrias colunas constitudas principalmente por infantaria e metralhadoras, que o transpuseram numa inolvidvel manh de 19 de Setembro de1916, janto a Namto. As tropas mal esboadas nos alvores da madrugada, avanavam para os vus, caminhavam para o desco nhecido com o entusiasmo de sempre, atirando-se agua denodadamente, e, apesar de esperarem ser, a cada momento, alvejadas pelas balas do cruel adversrio, progrediam sem uma hesitao e com uma energia e vigor admirveis.

    Com no menor ardor guerreiro procedeu o destacamento que transps aquele rio, no dia 18, a montante de Nhica.

    Nos vrios e mortferos recontros que se seguiram a esta operao de guerra, por todos os ttulos digna de registo, durante o movimento ofensivo dos portugueses, como foram: os combates de Mahuta, e da ribeira de Nevala, a tomada de Nevala, o raid audacioso da nossa cavalaria que atingiu a vasta regio de Lulindi repelindo o inimigo, e depois a renhida aco de Kiwambo, nos quais levmos de vencida um adversrio cheio de energia e heroicidade nunca ultrapassadas, procederam os nossos sempre, nos lances mais difceis, com suprema tenacidade, abnegao e valor. No menos bri-lho tiveram vrias refregas de pequena guerra que fulguram nos anais dessa campanha memorvel.

    E at mesmo depois, nas horas dolorosas do cerco e da retirada, supor taram os nossos infantes, com estoica resignao todas as privaes, todos os infortnios, sem que todavia esse passageiro contratempo, resultante dos azares da guerra, atormentasse por tal forma a alma dos nossos soldados, afeitos a todos os sofrimentos, de maneira a amortecer nela as sublimes virtudes patriticas e valorosas que deram aos antigos guerreiros lusitanos a grandeza de semi - deuses e do aos modernos a bravura dos heris.

    Breve se evolou a nuvem negra que ofuscara momentaneamente o bri lho fascinador das vitorias com tanto sacrifcio alcanadas.

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    A Grande Guerra

    E fizeram tudo isto, com a coragem e resignao prprias de portugue ses, nas condies mais desfavorveis, em asprrima luta com a aco danificadora do clima, com uma natureza to opulenta e exuberante de vida como profundamente devastadora e cruel, que no s conduz incapaci dade fsica como, tambm, o que bem pior, mais terrvel e intensa depresso moral e inutiliza as maiores e mais provadas energias.

    E depois no devemos esquecer nunca, para bem se poder avaliar quo admirvel foi o ardor e esforo desse punhado de bravos, que as longas e penosas marchas efetuadas, dias e dias atravs dos matagais africanos, em que a viso se limitava a alguns metros apenas em que o perigo sempre se ocultava prximo, sem nunca se tornar visvel, constitui urna to dura prova que excede os maiores sofrimentos humanos.

    Mostraram bem os infantes que lutaram nas mortferas regies do Niassa contra os alemes, que mantinham bem vvidas as tradies heroicas dos antepassados: dos soldados que arrancaram supremacia de Castela o torro sagrado dos nossos lares, que colheram os louros de Montijo e Mon tes Claros, vencendo a mais intrpida e brilhante infantaria do seculo XVII; dos aventureiros imortais que arrancaram Prsia o imprio de Ormuz a cidade das perolas, e haviam rasgado sob os baluartes de Chaul o doirado estandarte de Nizam. O seu caracter de rija tempera, bem o mesmo dos valentes que acaudilhados pelo marqus das Minas entraram em Madrid, a capital da orgulhosa Espanha, depois duma altiva marcha triunfal; e dos bravos que na memorvel campanha da Pennsula, depois de darem lies aos veteranos da ltima Albion, que por muitas vezes, como nos Arapiles, e em Albuera se mostraram deslumbrados pela sua bravura e energia, esfar raparam a lenda napolenica nessa serie de batalhas da Rolia ao Bussaco e de Vitoria a Tolosa, ofuscando o brilho intenso do sol de Austerlitz. Foram dignos mulos dos famosos lutadores que constituram os lendrios quadrados de Marracuene, Magul e Coelela, que podemos relembrar envaidecidos, com tanto orgulho, como os inglezes lembram os de Waterloo e os franceses os

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    em Moambique

    das plancies de Gizeh. At parece o reviver das faanhas do Indosto nas lagunas do Continente Negro. pois bem verdade que a subli-midade do esforo portugus na Grande Guer:a constitui a prova provada de que nos fastos militares das outras naes aliadas que nela se empenharam, mais altivas da sua grandeza e mais poderosas, refulgem, decerto, triunfo de exrcitos maiores pelo nmero, mas no h, porque no pode haver, tradies de abnegao, sacrifcio e herosmo que excedam o da gente por tuguesa, nos momentos mais crticos da luta, tanto na Flandres como na Africa, como alis sempre aconteceu no nosso passado glorioso. O santo entusiasmo, o respeitvel desvanecimento que esse passado nos inspira, reala mais pela pequenez do pas que tanto adoramos.

    A todos os que combateram em defesa do solo amado da Ptria Portu guesa, aos que souberam tornar mais uma vez gloriosa no fragor dos com bates a bandeira das quinas, aos que verteram o seu sangue generoso no campo da honra, e memoria daqueles que ali perderam a vida, o tributo humilde mas sincero, entusistico e respeitoso, da nossa admirao, o testemunho vivo das nossas homenagens mais eloquentes e da mais pun gente saudade.

    Bem hajam os que num altivo fervor patritico, digno de admirao, procuram comemorar condignamente os feitos dos infantes portugueses inscrevendo num Livro de Ouro os nomes dos que sacrificaram a sua vida no Altar da Ptria e que to nobilissimamente cumpriram o mais sagrado dos deveres.

    Honra pois aos nossos mortos na Grande Guerra! Lisboa, 30 de Maio de 1920.

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    em Moambique

    Captulo 3

    Nevala

    Se at aqui apontmos muitas faltas no esforo colectivo de se improvisarem foras militares sem preparao, poderemos tambm salientar actos de valor individual que, fossem eles coordenados, justificavam a mais ardente f nos nossos destinos nacionais. Dizia o general comandante da expedio, no seu relatrio, que eram muitas as deficincias e que, ao assumir a grave responsabilidade do comando, no desconhecia que a luta, na qual nos amos empenhar era bem mais difcil e perigosa do que aquelas que anteriormente se haviam efectuado, com xito glorioso e brilhante, no continente negro, mas que contava e devia contar com as virtudes ingnitas na lusa gente, nunca at hoje desmentidas e nunca at hoje ultrapassadas.

    Mais pelo instinto do que pela preparao, vamos sentir, efectivamente, palpitar dedicaes nas gentes das fileiras, afirmando estar ainda viva aquela antiga f patritica dos tempos das descobertas e das conquistas.

    Nos primeiros reconhecimentos para a travessia do Rovuma encontramos logo Jorge de Castilho. Na madrugada de 15 de Agosto de 1916, nos reconhecimentos dos vaus do Rovuma, marchou ele todo o dia, a p, com um sol criador de insolaes, em socorro de uma pequena fora. Foram louvados neste lano um soldado e um sargento de infantaria 24, tendo cado morto o cabo que comandava a guarda avanada da pequena escolta. A escolta foi reforada por dois pelotes vindos dos postos vizinhos, tendo apresentado o relatrio acerca do reconhecimento do vau o alferes Pais de Ramos, que comandava o peloto da Guarda Republicana e que, tendo desmaiado quando dentro do rio procedia ao seu reconhecimento, foi salvo por dois soldados

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    indgenas debaixo do fogo do inimigo. O oficial e os indgenas tiveram a Cruz de Guerra. Esta episdica aco permitiu descobrir um vau do Rovuma, no tringulo de Quionga, abandonado pelos alemes, descoberta valiosa, porque a topografia do rio nos era completamente desconhecida e os reconhecimentos tinham de ser feitos de noite, s vezes debaixo de fogo da margem norte e sob a ameaa constante dos crocodilos que infestavam o rio.

    O tenente Viriato de Lacerda, morto depois na Serra Mecula, comeou a distinguir-se nestes reconhecimentos do rio, de noite, pelo esprito alegre com que animava os camaradas, quando um europeu se enterrava num charco ou um indgena, medindo o vau na gua, se mostrava menos arrojado. Tambm neste perodo de reconhecimentos houve um forte ataque dos alemes ao nosso posto de Nangadi, n de comunicaes, onde comandava o capito Curado, cuja figura havia de ficar, pela sua bravura, to popular nesta campanha. Lembrar estes nomes animador e justo.

    Refere ainda o general no seu relatrio que o reconhecimento dos vaus no Rovuma fora um estudo cuidado e completo, sendo-lhe apresentado um sucinto mas conceituoso relatrio, inteligentemente elaborado, em que se forneciam preciosos dados.

    Foram fixados os vaus de Nacoa e Namoto. Entretanto no mdio Rovuma no s reocupvamos Mazia, onde framos afrontados, mas atravessvamos esse rio, sendo louvados nesta aco um tenente e um sargento.

    A situao militar nas duas margens do Rovuma, junto da foz, era de estreito contacto com o adversrio, trocando-se tiroteio com frequncia e vindo ele atacar-nos com uma audcia e valor, que as nossas tropas mal possuam. Tudo aconselhava a maior concentrao das nossas foras, considerando o malogro da tentativa de passagem do rio em 27 de Maio; por isso resistiu o general aos pedidos de reforos dos postos a montante, porque entendia que a aco decisiva seria junto foz, onde havia recursos apreciveis. Todavia, preparou movimentos ofensivos simultneos em Mocmboa do Rovuma e no Unde, alm de dotar tambm com alguns meios a coluna do Lago, entregando

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    em Moambique

    iniciativa dos comandantes esses movimentos, que considerava terem um papel secundrio, mas de til cooperao. Se a sorte das armas nos fosse favorvel e se revelasse algum notvel condutor de homens, poder-se-iam atingir alguns daqueles objectivos secundrios como Songea, localidade importante na vasta regio pobre a sudoeste da colnia alem.

    Registemos, agora, um dos contratempos que surgia expedio e paralisava a ofensiva. S no dia 6 de Setembro tinha chegado base em Palma o vapor Beira, desembarcando a companhia de transportes, que deveria ser das primeiras a desembarcar mas fora demorada em Lisboa por vrios transtornos, incluindo a greve dos operrios metalrgicos.

    Durante os dois meses de demora na base em Palma, aguardando os transportes que s chegaram em Setembro, as tropas no estiveram ociosas, porque o tempo foi dedicado instruo militar e ao levantamento de barraces para armazenar vveres e todo o material, que ficou a coberto. Os navios levavam por vezes quinze dias a descarregar, sendo em Setembro tambm empregados os soldados brancos na descarga dos cunhetes, trabalho muito fatigante naquele clima. O desembarque de 1.500 solpedes representou tambm um grande esforo.

    Entretanto os telegramas do Governo da Metrpole e do Governador da Colnia eram constantes no sentido de incitar a expedio a tomar a ofensiva. A 5 de Setembro o Governador-geral telegrafava dizendo que o cnsul ingls o informava dever acabar a campanha nesse ms. E a 9, o Governo de Lisboa dizia: ser indispensvel no esperar o desembarque dos navios, nem a chegada dos camies para comear a ofensiva, porque carecia evitar que a guerra acabasse estando ns parados. Respondendo a estas imperiosas determinaes, objectava o General comandante que no tinha naquele momento os meios para poder avanar, mas j marcara os dias 17 e 19 para a travessia do Rovuma, apesar de lhe faltarem viaturas para transporte da alimentao. Em 19 de Setembro os barcos com vveres esperavam na foz do rio o resultado da segunda tentativa.

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    Em 27 de Maio no se esperou pela Guarda Republicana, que era a melhor tropa colonial, mas em Setembro o General no quis repetir essa falta imperdovel de no concentrar as suas foras para uma operao decisiva como era a passagem do rio.

    O ano de 1916 foi o de maior movimentao na campanha da frica Oriental. Assinalmos j que 1915 fora um ano neutro, mas permitira s foras alems tomar flego e receber dois navios vindos da Alemanha com material diverso, forando o bloqueio dos barcos de guerra britnicos. Eram agora relativamente em menor nmero as foras alems, que mal chegavam a 3.100 europeus e 13.000 indgenas, formados em companhias que, sendo conveniente, se agrupavam em duas ou trs. A capacidade de manobra dessas tropas estava, porm, muito apurada. A densidade da resistncia alem fora decrescendo desde a fronteira norte, em face dos ingleses, at ao sul na fronteira do Rovuma, onde tinham, nesta zona secundria de operaes, numerosos postos e duas companhias de reserva muito retaguarda. Os entrincheiramentos alemes junto da foz do Rovuma tinham uma capacidade para cerca de mil homens.

    A passagem do Rovuma, junto foz, pela expedio portuguesa na sua mxima fora, sob o comando directo do general, foi o fruto daquela instruo militar de dois meses realizada na base em Palma, enquanto se esperava o material de transportes. A passagem efectuada em 19 de Setembro foi uma operao de relativo valor para a nossa vulgar preparao militar. Assim o entendeu o General, que mandou louvar as tropas.

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    em Moambique

    Imagem 4 - Travessia do Rovuma

    A cooperao da marinha fez-se sentir pela presena do Adamastor na foz do rio, protegendo o comboio de vveres martimo e fazendo um pequeno bombardeamento da margem alem. Entretanto os alemes na vspera tinham evacuado aquela zona e retirado para montante, abandonando os seus postos militares.

    Fazendo uma finta, a coluna chamada de negra, organizada com duas companhias indgenas, uma companhia europeia de infantaria, uma bateria de quatro metralhadoras, duas peas e um peloto de infantaria montada, sob o comando do capito Gordo, realizava a travessia do rio a 40 quilmetros da foz, no dia 18 de

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    A Grande Guerra

    Setembro, tendo tido algum tiroteio no reconhecimento efectuado na vspera no vau de Nhica, com os alemes do posto de Tchidia.

    Aqui foi o baptismo de fogo de alguns europeus e tudo correu bem, remediando-se alguns percalos o melhor que se pode. A guarda avanada do comando do capito Demony atravessou o rio em Mayembe e iou a bandeira portuguesa na margem alem, sinal para que as restantes foras efectuassem por sua vez a travessia, que se levou a efeito sem um tiro.

    A coluna negra seguiu para Migomba, em frente de Namoto, aonde todas as foras deviam dirigir-se.

    A fora portuguesa concentrada para a passagem do Rovuma junto foz, na madrugada de 19 de Setembro, contava 120 oficiais e 4.060 praas, apresentando na linha de fogo 2.682 espingardas, 10 metralhadoras, 12 peas de montanha de tiro rpido e uma pea de marinha de 10,5, trazida com grande dificuldade at o posto dominante de Namoto.

    Organizadas trs colunas e uma de reserva, as duas colunas a montante passaram o rio a vau e a coluna de jusante passou em jangadas construdas pela companhia de engenharia, retaguarda de parapeitos, que se abateram de noite para as lanar gua; operao que foi bem conduzida pelo capito Antnio de Melo, apesar de nessa noite, nas trincheiras prximas, ter surgido um pnico, que, porm, no se generalizou. As trs colunas atravessaram o rio simultaneamente, em 19, com o auxlio de um fraco luar e na mar baixa. Nas duas colunas da esquerda e centro a altura das guas era pelo peito; o percurso era cortado por ilhas na coluna da esquerda e, na do centro, o rio tinha uma largura atravessando um brao profundo do rio por meio de jangadas, tinha depois a percorrer um grande areal bastante fatigante. As trs colunas tinham objectivos em ligao, de modo a cooperarem no seu avano e, quando, ao nascer do sol, j as colunas pisavam a margem norte, foi dada ordem cavalaria para explorar a distncia e reserva para rapidamente atravessar o rio nas jangadas. A despeito das ordens relativas a esta operao interessante ser registar que as tropas nessa noite j com dificuldade mantinham as prescries de segurana

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    regulamentares, convencidas de que a campanha terminara. Aps a travessia do Rovuma foi enviado um reconhecimento

    de oficiais e escolta a povoao de Mikindani, a 60 quilmetros, sendo estabelecida a ligao com o batalho de tropas indianas que a ocupava; e, no desejo de colaborar eficazmente com o comando britnico, a expedio estabeleceu uma linha telegrfica at Mikindani com um posto militar guardando a estrada. No local da travessia por jangadas foi lanada uma boa ponte sobre o Rovuma.

    Propondo-se o general prosseguir na ofensiva, para valorizar o esforo da expedio e, conforme o desejo do Alto Comando britnico, procurando operar pelo vale do Rovuma e depois para o norte na direco de Liwale, onde se supunha estarem guardados os portugueses feitos prisioneiros, foram tomadas disposies nesse sentido.

    As comunicaes estendiam-se por Nevala e Massassi, localidades que desce logo foram indicadas como objectivos. Newala era um centro administrativo e de recrutamento, cujo fortim de alvenaria era apontado pelos indgenas como difcil de atacar por estar situado num planalto bem defendido.

    Para ocupar o terreno que o adversrio nos fosse abandonando, foi enviado um reconhecimento a Nevala (capito Liberato Pinto), que marchou. em 25 de Setembro de Migomba pela margem Norte do Rovuma. A escolta do reconhecimento era formada por trs companhias indgenas e uma bateria de metralhadoras, com o fim de ir guarnecendo os postos abandonados e ter capacidade para ir varrendo as patrulhas adversas: No podia ser mais numerosa a nossa tropa, porque nos faltavam transportes para a abastecer; mas ainda essa foi reduzida a duas companhias, porque a outra recebeu ordem para ficar em Nichichira.

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    Imagem 5 Infantaria 30 guarnecendo as trincheiras

    Em Mata, cerca de 2 km a Leste de Nevala, os alemes tinham preparado uma posio que cortava a estrada de marcha e conseguiram surpreender a nossa extrema guarda-avanada, num combate a 4 de Outubro, ficando perdido o alferes Camiso que a comandava. A guarda-avanada era formada pela 21. companhia indgena (capito Curado); a 24. (capito Demony), no grosso da coluna, ia intercalada a bateria de metralhadoras (tenente Jlio Csar de Almeida) e uns centos de carregadores.

    Era propcio para o ataque o ponto escolhido pelos alemes: uma curva da estrada de marcha estreita, tendo na esquerda um escarpado de grande altura e na direita uma mata densa e impenetrvel. O fogo de metralhadoras, varrendo a estrada, produziu o pnico nas muares e nos carregadores que debandaram. As companhias envolveram o terreno e as metralhadoras, conduzidas mo para a linha de atiradores e providas de gua, ainda prestaram bom servio, causando bastantes baixas ao inimigo. Tambm as houve do nosso lado e perderam-se alguns cunhetes com munies e algumas espingardas, mas no se perderam as 5 metralhadoras, como alguns supem. O combate de

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    Mata comeara ao cair da tarde, pelo que teve curta durao, pois, ao anoitecer e por ordem do Comando, as foras retiraram para um local um pouco retaguarda, onde se entrincheiraram.

    O dia 4 de Outubro fora de sol excepcionalmente ardente e de calor intensssimo. A absoluta falta de gua levou o comando da coluna a ordenar a retirada das foras, ainda nessa noite, para o posto de Nichichira, a 30 km retaguarda, onde se aguardaram reforos que o General se apressara a enviar-lhes.

    Ao reconhecimento de Nevala seguia-se o apoio e o reforo da coluna de Massassi, marcando-lhe este nome o seu objectivo imediato. Infelizmente essa fora, que, incorporando a anterior, ficava elevada a cinco companhias indgenas, duas companhias europeias de infantaria, duas baterias de metralhadoras, quatro peas de montanha, um peloto de infantaria montada e os servios de sade e administrativos, coluna sob o comando do major Jos Pires, no teve a capacidade de combate que era necessria para rapidamente avanar.

    A coluna de Massassi parecia corporizar a falta de entusiasmo das foras expedicionrias de Moambique. Todavia foi ela que susteve a retirada do reconhecimento de Nevala; prestou esse servio, mas foi pouco mais alm. Foi com dificuldade que esta coluna iniciou a marcha, tendo reunido previamente um conselho de oficiais, que se manifestaram contra o avano, por falta de vveres, at que o provisor capito Seixas afirmou dispor de dois dias de alimentao. Ento arrastou-se a coluna no pelo itinerrio marcado na ordem de marcha, mas sim ao longo do Rovuma e retaguarda da escolta, deixando assim de efectuar a manobra ordenada de atacar Nevala por Leste, simultaneamente com a escolta que atacaria pelo Sul.

    A ordem determinava coluna de Massassi que enviasse um reconhecimento de oficial no dia 18 de Outubro pela estrada para Nevala, mas a essa determinao no foi dada execuo, sendo a seco de telegrafistas sem fios, do tenente Moreira de S, a primeira tropa portuguesa a marchar por essa estrada, depois da tomada de Nevala.

    Alguns tiroteios com patrulhas alems demoraram a coluna, que s chegou defronte de Nevala em 26 de Outubro, quando poderia,

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    conforme a ordem para a marcha, chegar a 18, numa etapa de trinta quilmetros por estrada vivel a camies.

    Em telegrama de Lisboa, o Governo tomava a responsabilidade de afirmar que, naquele momento, prefervel era afrontar uma batalha difcil e perigosa do que ficar parado. Esta razo suprema fez lanar as ordens de marcha e fazer das fraquezas foras, para se avanar, embora com uma disciplina frouxa e sem vontade de combater.

    Desconhecia-se completamente o territrio inimigo; e a espionagem que se organizara era, em princpios de 1916, dirigida por um boer que fora apanhado a fazer sinais ao adversrio, sendo julgado em Palma, mas absolvido por falta de provas; depois foi a espionagem dirigida por um mestio e, em 1917 e 1918, por um oficial ingls, a ttulo provisrio. No estvamos melhor a respeito de organizao civil, porque, ao atravessar o Rovuma, foi nomeado comissrio dos territrios ocupados um dos intrpretes da expedio e, tendo este adoecido, outro funcionrio mais modesto o substituiu. Os servios civis de Moambique no se encontravam habilitados para prestar qualquer auxlio expedio.

    Falhando o plano de avanar pelo litoral, com o auxlio dos transportes de vveres de porto em porto, como sucedera de Porto Amlia para Palma, e depois para a foz do Rovuma, tnhamos de marchar pelas estradas alems, para montante do Rovuma at Newala, e depois pelos caminhos secundrios at o vale definido pelo rio Lukuledi.

    Dando o exemplo, a escolta do comando do chefe do Estado Maior avanara, com dois capites na flecha bem compenetrados das preocupaes do governo central de que, como foi dito, naquele momento, prefervel era afrontar uma batalha difcil e perigosa do que ficar parado. Esses oficiais tinham os seus lugares retaguarda, um como ajudante do General, o capito Joel Vieira, outro como comandante da zona de Mocmboa do Rovuma, o capito Torre do Vale, mas ambos compreendiam o dever que se lhes impunha naquele momento difcil. Evidenciaram-se as dificuldades dos abastecimentos, sendo de notar que foi necessrio passar em jangadas alguns camies

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    para a margem norte do Rovuma, para aproveitar a estrada que o marginava em territrio alemo, enquanto no se conseguia abrir comunicaes pela nossa margem em relativas condies de segurana.

    Felizmente os indgenas daquela zona de operaes foram-nos sempre favorveis (atribuindo-se essa enorme vantagem revolta contra os alemes em 1905) e espontaneamente nos davam informaes dos movimentos alemes.

    Imagem 6 Ponto de reconhecimento e vigilancia

    Um grande esforo foi improvisado, mas desconexo, para defender e assegurar o nosso patrimnio colonial que, desde o ultimato de 1891, aspirava a ressurgir. A verdade que, pelas informaes, a campanha estava a acabar e o general, impulsionando as foras at Nevala, queria l chegar antes dos ingleses, para que ns ocupssemos a tal faixa em territrio inimigo, conforme o Governo desejava, e no sucedesse o mesmo que no litoral, onde a ocupao de Mikindane pelos ingleses nos tolheu os passos.

    As tropas, porm, sentiram por instinto que a contenda seria resolvida na Europa, faltando-lhes a f e o entusiasmo necessrio para arrostar com a dureza da campanha. Escasseava-lhes, na verdade,

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    aquele dio ao alemo, que a proclamao ao exrcito preconizava: esse dio patritico no existia.

    A disciplina militar era frouxa, reflexo inevitvel da disciplina nacional.

    O avano para Nevala foi directamente impulsionado por aqueles dois capites da flecha da escolta. O choque com os alemes deu-se uma lgua ao sul de Nevala, junto dos poos que eles defendiam. Foi em 22 que se deu o combate da Ribeira de Nevala, onde tivemos dois europeus mortos e doze indgenas feridos, tratados pelo cabo enfermeiro Coelho, porque a escolta no tinha mdico. Repelidos os alemes, a escolta ocupou os poos, entrincheirou-se vista de Nevala, a dois quilmetros ao sul, e esperou a coluna de Massassi desde 22 a 26 de Outubro.

    A coluna, como dissemos, em lugar de vir pelo planalto a leste de Nevala, executando a manobra determinada, veio a aparecer pela retaguarda da escolta. Desde logo, sem descanso se organizaram trs colunas para investir Nevala. Depois de uma troca de tiros de artilharia, os alemes abandonavam a praa e tarde ocupvamos o fortim e as trincheiras que o rodeavam, sendo a companhia indgena a primeira a entrar nele. Todos estavam fatigadssimos. A bandeira foi erguida no mastro do fortim e as duas melhores companhias indgenas e a da Guarda Republicana de Loureno Marques foram para os postos avanados.

    Para perseguir o inimigo foram nomeadas duas companhias de infantaria, duas companhias indgenas, um peloto de cavalaria e outro de infantaria montada, que marchariam para Norte, na direco de Massassi. A 10 quilmetros de marcha os alemes barravam a estrada e uma aco se seguiu, comandada pelo alferes Carlos Afonso dos Santos, a qual durou toda a tarde, tendo ns perdido trs brancos e no chegando a entrar em fogo a infantaria indgena, que ficou abrigada retaguarda. Retirou a fora para Nevala, no obstante ter instrues para se aproximar de Massassi. Outros pequenos reconhecimentos foram lanados, mas sem resultado.

    O novo comandante da coluna de Massassi, major Leopoldo

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    Silva, oficial distinto, competente e enrgico, ao assumir o comando, quis ouvir, antes de marchar, o capito Curado, que lhe disse ter a sua companhia extenuada e andrajosa, com os seus oficiais h quatro meses dormindo no cho dos bivaques; observou mais o capito Curado que, no se conseguindo abastecer as tropas em Nevala, menos ainda se conseguiria no avano em territrio inimigo, onde a linha de comunicaes no tinha proteco possvel; contudo o comandante podia contar incondicionalmente com a companhia e com os seus oficiais.

    O major Leopoldo Silva, depois de ouvir o capito Curado, ficou meditando e passou uma noite agitada, segundo disseram os camaradas que o admiravam. Certamente, o dever militar de cumprir as ordens, nos termos categricos que os Governos de Lisboa e de Moambique insistiam em salientar, obrigou moralmente o novo comandante a manter a ordem de marcha sobre Massassi, procurando atingir o objectivo designado.

    A marcha foi iniciada em 8 de Novembro, e nesse mesmo dia chocou a coluna com o inimigo, que lhe cortava a estrada em Lulindi (Quivambo).

    Tomado o primeiro contacto com o inimigo, duas peas de montanha e as nossas metralhadoras apoiaram o fogo da infantaria indgena da guarda avanada, comandada pelo capito de engenharia Antnio de Melo. Generalizado o combate, combate de Lulindi ou de Quivambo, uma metralhadora alem, que enfiava a estrada, dificultava o remuniciamento, e o comandante da coluna, para dar o exemplo, aproximou-se da linha de fogo com um cunhete, sendo atingido, eram treze horas, por duas balas, vindo a morrer dois dias depois em Nevala.

    Embora os alemes fossem forados a retirar, foi-nos adversa a sorte das armas, tendo ficado ferido, mortalmente, o prestigioso comandante logo no seu primeiro combate, quando as suas qualidades excepcionais poderiam galvanizar as nossas tropas, perseguindo o adversrio e coroando o herico esforo do bravo capito Curado com a sua companhia e alguns bons pelotes indgenas, um dos quais da Guarda Republicana. Alguns destes haviam j participado num

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    A Grande Guerra

    renhido combate de guarda avanada, que bem merecia as honras duma monografia.

    Com a morte do major Leopoldo Silva a coluna estacionou, perdendo o flego, vista dos rochedos de Massassi. J corriam boatos de que os alemes se concentravam para virem em fora contra ns. A 15 de Novembro assume o comando da coluna o major Aristides Cunha, que em breve, informado do avano de algumas companhias alems, fez reunir o conselho de oficiais, que votou pela retirada para Nevala. A coluna contava ento 486 espingardas, mas com um diminuto valor militar perante o adversrio, que, reforado, tomava a contra-ofensiva, incorporando os marinheiros do cruzador Koenisberg, com o seu antigo comandante capito Loof.

    Retirou a coluna em 19, e em 22 de manh estabeleceu-se o contacto com os alemes que atacaram logo de madrugada os defensores dos depsitos de gua, no sop do planalto. Comandava o posto da gua o tenente Montanha, com uma companhia indgena e um peloto de infantaria.

    Semelhantemente ao que pensramos precisamente um ms antes, tambm os alemes entendiam que a gua era a vida do fortim. Houve um combate renhido que durou todo o dia, faltando uma eficiente cooperao da nossa artilharia de Nevala, porquanto a visibilidade era dificultada pelo denso mato onde se tinham desenvolvido os alemes, que atacaram principalmente as faces Oeste e Norte dos entrincheiramentos da gua. A nossa resistncia foi at ao esgotamento das munies tendo sido morto o alferes Matos e aprisionado o comandante, tenente Montanha, quando cobria a retirada dos seus homens atravs do mato at ao Rovuma. Os entrincheiramentos do nosso posto, com os seus trs poos da preciosa gua, foram tomados de assalto.

    De 22 a 28 de Novembro sofreram bastante nas trincheiras os sitiados de Nevala, porquanto a rao de gua era insuficiente, no obstante se ter procurado encher a cisterna, pagando-se aos indgenas locais o transporte de gua.

    Em 28 uma coluna de socorro a Nevala, sob o comando do

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    capito A. Benedito de Azevedo, penosamente organizada, saindo o comandante do hospital e incorporando os homens que se tinham escapado do combate da gua, dias antes, foi lanada de Mata sobre Nevala, com um total de 11 oficiais e 252 praas entre europeus e indgenas tendo sido determinado pela telegrafia sem fios que de Nevala sasse uma fora, para cooperar em ligao com essa coluna. A dez quilmetros de Nevala coluna de socorro foi barrada a passagem pelos alemes, cuja infantaria dispersa pelo mato, bem oculta, desenvolve intensa fuzilaria, atingindo a guarda avanada. Numa volta da estrada, mais alm, a flecha descobre duas metralhadoras que imediatamente ataca.

    Imagem 7 Deslocamento de foras portuguesas nas trincheiras

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    O inimigo responde, a coluna faz alto, e o combate generaliza-se, evidenciando-se a superioridade numrica e as melhores condies da parte do ataque. Num ltimo esforo, porque as munies iam falhando, manda-se armar baioneta! O cornetim toca carga! Os soldados landins rompem o seu canto guerreiro, que se perde no mato selvagem. Mas um emaranhado de trepadeiras e de espinheiros formando mato cerrado impenetrvel carga. Aproximando-se a medo, sem se achar o inimigo, resolve-se a retirada que duas metralhadoras procuram cobrir. Assim retirou a coluna de socorro, sem que se tivesse efectivado a ligao com Nevala, ainda -que um peloto chegasse a sair das trincheiras com esse fim.

    Em vista deste fracasso e estando j doente o major Aristides Cunha, foi reunido o conselho de oficiais em Nevala e resolvido que pela noite de 28 se abandonasse o fortim. Nessa tarde choveu em Nevala, dando alento essa gua providencial s tropas sitiadas. Destruiu-se o material pesado, incluindo quatro peas de montanha. E a famosa retirada de Nevala, em direco ao Rovuma, iniciou-se pelas 22 horas, constituindo a guarda da retaguarda o capito Curado com a sua companhia.

    Afirma o capito Curado, no seu relatrio, que atravs de muitas dificuldades e apesar de haver muitos extraviados, dentre os quais ficou prisioneiro um tenente de artilharia, a regularidade da operao foi mantida, no s at ao Rovuma, que era atravessado em 30 de Novembro, mas ainda mais alm.

    Os alemes, que nesse dia 28 tinham conseguido meter em bateria contra Nevala uma pea comprida de marinha de 10,5 trazida com grandes dificuldades do Rufigi, e que esperavam, por terem cortado a gua aos portugueses, que os defensores de Nevala se rendessem sem condies, ficaram logrados com a retirada (que s perceberam s 8h30 de 29) e lanaram-se logo numa tenaz perseguio com patrulhas na direco sul e com as tropas pelo planalto, onde perdamos sucessivamente os nossos postos das etapas que havamos feito na margem norte do Rovuma, na direco da sua foz.

    Perdeu-se muito material, mas na sua maioria incapaz. A

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    seco de telegrafia sem fios funcionou at dar o ltimo sinal, com o motor esburacado e as bobines queimadas. O seu comandante, tenente Moreira de S, obrou prodgios de habilidade e valor para consertar os motores quando, depois de vrias tentativas em que se distinguiu um peloto de infantaria 28, a estao foi removida, debaixo de fogo, para dentro do recinto dos entrincheiramentos.

    A perseguio dos alemes pelo planalto fez-se mais sentir em 1 de Dezembro pelo meio-dia, quando a pea de 10,5 do cruzador Koenisberg comeou a bater com certeira pontaria o posto de Nangadi, que em breve incendiava. Em Nangadi procurava-se organizar uma defesa, mas as tropas estavam sem fora moral. Houve algumas represses violentas para se formarem unidades, distinguindo-se nelas pela sua energia o tenente Gemeniano Saraiva. A companhia do comando do capito Curado novamente formou a guarda da retaguarda, enquanto o chefe do estado-maior da expedio, com patrulhas, ia at ao Rovuma e ficava alguns dias no Alto da Serra, na crista militar do planalto da margem Sul do Rovuma.

    No Alto da Serra foi adoptada a tctica alem, de activo servio de patrulhas, de preferncia a abrir um campo de tiro. Nesse servio de patrulhas distinguiu-se o alferes Viriato de Lacerda, conseguindo tirar bom partido dos dedicados cipaios.

    Contudo os alemes passaram um destacamento de perseguio para a margem sul, o qual teve um encontro com a companhia do capito Curado, que, entre outras perdas, ficou sem o capito mdico Silva Pereira, desaparecido e dado por morto no mato.

    Naquela incerteza das comunicaes, que caracterstica das campanhas coloniais, foi morto, em 7 de Janeiro de 1917, o capito de cavalaria Ferreira da Silva, com algumas praas, quando retirava de noite num camio, depois de desempenhar uma misso de parlamentrio, afirmando a patrulha alem, que fizera a emboscada, desconhecer a qualidade de parlamentrio de quem passava.

    O Ten Coronel de infantaria, Rafael da Cunha, apresenta mais tarde, j em 1921, o seguinte relato do quase desastre de Nevala, citamos:

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    foram duas as aces da Expedio a Moambique de 1916, que glorificaram o Exercito e dignificaram as tropas que nelas tomaram parte, pelo valor, espirito de sacrifcio e estoica resignao de que deram provas. Durante sete dias sofreram os nossos em Nevala as mais duras priva es resultantes do cerco: dispondo cada um de 3 decilitros de agua por dia nos primeiros trs dias e 5 nos restantes, quase no podiam comer de se quiosos que estavam, sofrem uma sede que desvaria, que mata; mas aos constantes ataques do inimigo, muito superior em nmero e na qualidade do material, resistiam sempre com admirvel valentia! A coluna dispunha a princpio apenas de 486 espingardas, que continuamente diminuam, em consequncia das constantes baixas por ferimentos em combates e pela aco do clima. Por isso o comandante determinou que 87 dos doentes existentes na enfermaria dali sassem, e fossem guarnecer uma trincheira; este punhado de homens, sem hesitao e com valor admirvel, ali se conservou. Depois de um combate de doze horas em que os nossos, que guarneciam, a 2,5 quilmetros, o posto da Ribeira de Nevala, de onde do Forte se abasteciam de gua, praticaram actos de verdadeiro herosmo, foi o posto tomado pelos alemes, ficando os do Forte somente com uma reduzidssima quantidade de agua das cisternas, que no ultimo dia teve at de ser tirada a panos. Os de Nevala desesperadamente se defendem, e numa esperana de receberem reforos resistem sempre, sofrendo as mais horrorosas privaes que excedem os limites das foras humanas: duas vezes tentam os nossos da retaguarda romper o cerco para restabelecer as comunicaes com Nevala, no o conseguindo, apesar do grande valor com que se houveram, sendo obrigados a retirar depois de algumas horas de renhido combate. Esgotada de todo a agua e depois de grande nmero de homens terem cado nas trincheiras sequiosos, j se no podia mais, preciso era tomar uma resoluo e esta, unanime, foi a mais audaz, a mais heroica: romper o cerco e retirar. A retirada de Nevala foi uma aco executada para obstar a que a guar nio, de h muito j exausta, casse prisioneira dos alemes, posto que com nenhuns reforos ou qualquer auxilio

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    se poderia contar; foi uma reti rada celebre, em que as nossas tropas embrenhadas no mato, perseguidas freneticamente pelo inimigo, revelaram ainda, com a maior disciplina, as suas tradicionais qualidades de energia, sobriedade, grande valor, resignao e acendrado patriotismo.

    Cessara o avano dos portugueses em territrio alemo, sendo seguido por uma rpida retirada, somente restando na margem Norte do Rovuma o posto colocado na Fbrica, junto foz do rio, posto que foi evacuado meses depois, por desnecessrio e fatigante para a guarnio.

    Nos meados de Dezembro comearam as chuvas torrenciais naquela regio e logo subiram as guas rapidamente constituindo o rio um fosso insupervel. Esta circunstncia permitiu que as nossas tropas tomassem flego; uma melhor alimentao foi dada aos soldados indgenas distribuindo-se-lhes caf de manh e assim voltaram a ser reocupados os nossos postos da margem sul, sendo a primeira companhia a dar o exemplo de marcha, a do capito Curado.

    E o General Antnio Bispo continua: citamos:A Aviao Militar Portuguesa tinha sido criada em Maio de

    1914 por diploma legal. O seu primeiro objectivo foi o de proceder formao de pi lo tos; altura j existiam em depsito alguns avies, adquiridos por enti da des particulares. Assim, foram enviados para Frana, Inglaterra e Estados Unidos alguns oficiais para formao em pilotagem e destinados a serem os futuros oficiais instrutores. Decorreram entretanto cerca de dois anos at que a Escola comeasse a funcionar em Vila Nova da Rainha; os primeiros pilotos militares ali formados receberam os seus diplomas no dia 10 de Maio de 1917 em cerimnia realizada na Socie da de de Geografia de Lisboa e promovida pelo Aero Clube de Portu gal. Logo de seguida, com esta capacidade inicialmente adquirida, foi decidido destacar para Moambique ( e tambm para Angola) uma esquadrilha de aviao para apoio das foras terrestres, e neste sentido foram adquiridos em Frana quatro avies Far man F40; acabariam por ir s trs aeronaves, retiradas da

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    Escola de Vila No va da Rainha, dado o atraso no fornecimento do material. Este avio, com 130 hp de potncia estava armado com uma metralhadora Lewis 7,7 mm podendo tambm lanar bombas; tinha uma autonomia de duas horas e vinte minutos, uma velocidade mxima de 110 km/h. Os avies seguiram por barco para Moambique em 2 de Julho de 1917. O pessoal inicialmente atri budo era o seguinte: Cap. Cav Ferreira dos Santos, Ten. Cav. Sousa Gorgulho, Ten. Art. Santos Guerra, Alf. Inf. Pinheiro Corra, Mecnico Norberto Gonal-ves e dois mecnicos franceses contratados firma Far man. Em 3 de Agosto chegaram a Mocimboa da Praia. Desde aqui at pis ta de operao (Mahunda) no planalto dos Macondes, todo o material foi transportado por carregadores. A 7 de Setembro realizou-se o primeiro voo de teste a cargo do Tenente Gorgulho; no segundo voo efectuado pelo mesmo piloto no dia seguinte, o avio entrou em perda e colidiu com o solo, incendiando-se e provocando a morte do piloto. O Tenente Gorgulho pertencia ao primeiro ncleo de oficiais aviadores formados em Portugal, como acima se referiu; tinha pouco mais de trinta horas de voo, o que para a poca se considerava uma experincia suficiente. A actividade area s foi retomada em De zem bro, por falta de pilotos, e em Fevereiro do ano seguin te foram realiza dos cerca de quarenta voos, sempre a partir da mesma base de operaes. Em Dezembro a Esquadrilha foi transferida para Loureno Marques, tendo sido extinta em 1920. Fim de citao.

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    Imagem 8 Avio Farman F-40 em Moambique

    O episdio descrito a seguir, pelo j citado Ten. Coronel mdico Amrico Pires de Lima, como um fait divers, mostra bem as consequncias do exibicionismo gratuito que considera um acto de coragem o no cumprir regras, o no cumprir com instrues tcnicas ou com a simples prudncia. Consequncias caras em vidas e material. Quando, em princpio de Dezembro de 1916, Palma esteve em risco iminente de ser atacada pelos alemes vieram dois cruzadores ingleses fundear na baa do Tungue. Um deles trazia um hidroavio, que nalguns voos tirou fotografias dos nossos postos, fez largas exploraes e deixou cair algumas bombas no acampamento alemo. Era digna de ver-se a admirao dos indgenas perante os mo vimentos majestosos daquela grande ave estranha. Baptizaram logo, imaginosamente, o aparelho de cucuta (automvel) do ar. Um pouco sofreu o nosso brio de portugueses perante eles, pois no pde deixar de os impressionar que ns precisssemos de pedir aos ingleses aquela mquina extraordinria.Foi por isso com prazer que vi, no ano seguinte, desembarcarem em Mocmboa da Praia os primeiros aviadores portugueses, que chegaram quelas paragens. Um deles, o piloto, rapaz robusto, de olhar retilineo e aspecto decidido, estou a v-lo saltar do lancho

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    para a ponte de desembarque. Era o alferes Gorgulho. O outro era Pinheiro Correia, que mais tarde tanto devia honrar a aviao portuguesa. O avio foi armado num alpendre junto do imenso campo adrede preparado. Veio um mecnico francs para a montagem; e, quando ele, afinal, se elevou majestosamente no ar, todos ns sentimos orgulho em que o cu africano fsse violado por asas portuguesas. S um homem abanava a cabea, apreensivo, perante as arrojadas manobras do aviador portugus. Era o mecnico. Quando lhe gabaram a coragem e a percia do piloto, le limitou-se a responder: on ne fait pas cela!O primeiro voo de ensaio correu excelentemente. Mas, na manh seguinte, estando eu no hospital da Ponta Vermelha ouvi o inconfundvel rudo do motor. Momentos depois, uma grande deto-nao surda fez-me refluir o sangue ao corao. Uma catstrofe se tinha produzido, cujo horror logo foi confirmado pelo telefone. No incio de uma ascenso audaciosa, o aparelho viera estate lar-se no solo, explodindo e ficando envolto em chamas. Acorre ram os assistentes desvairados, vendo sair cambaleante, de entre os destroos ardentes, o infeliz aviador, a arder ele prprio como um archote. O resto foi uma lenta e atroz agonia. E assim tombaram as primeiras asas portuguesas, que ousaram sulcar o cu azul de Moambique. E assim, tambm, acabou tragicamente, naquele dia aziago, o magnfico rapaz de porte altivo e olhar retilineo, que eu vi desembarcar na ponte de Mocmboa; o primeiro que mostrou aos negros assombrados, que os portugueses tambm sabiam voar.

    O general comandante da expedio tinha adoecido gravemente e o Governo autorizara o seu regresso Metrpole. A campanha estava num ponto morto, os sul-africanos iam retirar em grande nmero, sendo substitudos por tropas negras inglesas vindas da frica Central. Aquela insistente informao de que a guerra estava a acabar, no se confirmava.

    Mas, assim como, ao referirmo-nos ao combate de Tanga,

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    observmos que esse sucesso dos alemes conseguira neutralizar os ingleses durante o ano de 1915, assim tambm agora, depois de Nevala, termo das operaes na zona secundria do Rovuma em 1916, podemos repetir que os alemes conseguiram neutralizar a ofensiva portuguesa na fronteira do Rovuma durante o ano de 1917, ano em que comandou as nossas foras o Governador-geral, lvaro de Castro, que consumiu o primeiro semestre num trabalho lento de indispensvel reorganizao.

    Em Setembro de 1917 assume o comando da expedio o coronel Sousa Rosa, oficial sem experincia colonial. As instrues do Governo fixavam-lhe o Quartel-general em Chomba, num planalto a 140 quilmetros do litoral.

    O coronel Sousa Rosa projectava uma ofensiva para a qual no tinha elementos. Dispunha de 26 camies, mas somente de 6 condutores. Entretanto um telegrama de Lisboa, datado de 14 de Outubro, determinava que o melhor servio a prestar seria guarnecer a fronteira do Rovuma, afirmando que o governo ingls reputava desastrosa, naquele momento, qualquer ofensiva portuguesa.

    Diz o coronel Sousa Rosa, no seu relatrio, os ingleses julgavam que s suas aspiraes de grande ofensiva no corresponderia da nossa parte nenhuma aco de relevo. E, assim como o comandante da expedio anterior, ele atribua aos nossos aliados o deliberado propsito de nos impedir a ofensiva pelo litoral, onde nos seria mais vivel uma ofensiva.

    A expedio de 1917 foi para Portugal um esforo muito maior do que o realizado com a expedio de 1916, porque ento j tnhamos tambm tropas em Frana e maior foi portanto a improvisao. O Governador, lvaro de Castro, teve ainda de dominar, em 1917, uma revolta indgena no Baru, empregando nessa campanha algumas companhias indgenas.

    Sucessivamente embarcaram na metrpole quadros para a organizao de 20 companhias indgenas e de um esquadro, e ainda de servios de sade e de administrao militar, num efectivo total de 209 oficiais e 5.058 praas.

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    A Grande Guerra

    Como reforos para completar os quadros da expedio anterior, seguiram ainda mais 108 oficiais e 4.401 praas, que embarcaram em quatro vapores at Outubro de 1917.

    Alm do material correspondente a este pessoal, embarcaram 55 camies, 4 postos de telegrafia sem fios e uma esquadrilha de aviao.

    O rendimento destas improvisadas foras foi desolador. Na aviao, aos primeiros voos incendiou-se o aparelho do tenente Gorgulho, que morreu logo; adoeceu o mecnico francs contratado e os aparelhos vieram para Loureno Marques. O batalho do 31, do Porto, sem sair da base martima, foi aniquilado pelas doenas.

    Pior que as outras, esta expedio no teve impulso nem alma. O comandante, enrgico e cheio de boa vontade, quis aplicar o regulamento disciplinar, mas esse esforo foi contraproducente porque se levantaram terrveis resistncias.

    Diz a Comisso de inqurito Nas condies em que o coronel Sousa Rosa assumiu o

    comando da expedio, j no seria fcil evitar que erros e deficincias anteriores viessem a ter uma perniciosa influncia no prosseguimento das operaes. E, se preciso for justificar esta nossa apreciao com outras opinies, poderemos citar, ainda que com desgosto, a opinio dum oficial ingls: Se ns observamos os portugueses, veremos tropas europeias fatigadas antes de haverem combatido... A f e o entusiasmo faltam completamente nos graduados...

    Apesar disso, a manobra de entrar por territrio alemo, tentando ocupar uma larga faixa na margem norte do Rovuma, foi uma tentativa militarmente bem concebida que, infelizmente, se saldou por uma retirada, uma quase fuga, como conta o Tenente Sota, que nela participou:

    A Retirada de Nevalapor Jos Rodrigues Sota, Tenente de infantaria

    So vinte horas pouco mais ou menos. A lua acaba de se

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    esconder no longnquo horizonte. Tudo se prepara para a retirada. As culatras das peas so enterradas, bem como as munies, os vveres inutilizados com petrleo. Os bornais atulham-se de latas de leite condensado e de conservas vrias. O corao aperta-se porque sente o risco temerrio da aventura. Mas qu? Entre o morrer de sede ou o capitular em massa, antes romper o cerco e lutar em campo raso.

    Uma ordem circula, veloz, repetida por centenas de bocas. As primeiras unidades j saram. A minha companhia vai

    sair tambm. No largo fronteiro, est tudo formado mas a noite to escura que a dois passos no se distingue ningum. Avanamos a um de fundo. Em breve estamos embrenhados em espesso matagal, to denso, que a mido temos que nos baixar para passar. A ligao s se mantm segurando as abas do dolman de quem vai na frente. Eu caminho ao lado do meu comandante de Companhia, o capito Jos Maria Pereira, do subalterno da mesma alferes Joo de Sousa Matheus e do tenente de infantaria Jos de Magalhes Queiroz de Abreu Coutinho e a bicha enorme, silenciosa, deslisa serpenteando por montes e vales.

    Agora vamos atravessando uma plancie coberta de orvalhado capim. Um tiro sa ao longe, nas trevas. Pouco depois um outro, mais perto, para a esquerda. Que ser? As armas aperram-se. O estalido seco das patilhas produz calafrios.

    Foi um momento, o bastante para ao retomarmos a marcha, nos encon trarmos sem ligao com a frente.

    Tento restabelec-la, correndo no escuro algumas dezenas de metros, sem resultado. Volto, corro retaguarda e noto que a ligao com ela est tambm cortada. O monstro enorme, quilomtrico est esfacelado, feito bocados.

    Um ncleo de 40 a 50 praas encontra-se isolado no meio das trevas, sem saber para onde avanar. Tantos montes haviam sido coleados, tantos tortuosos vales demandados que nos encontrvamos desorientados. A manh vem rompendo porque para as bandas do oriente se distingue j uma baa claridade. E a caravana avana. No caminho

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    cruzmo-nos com duas indgenas. Falamos-lhes no nos entendem. De sbito da direita, da esquerda e da frente atiram sobre ns,

    furiosamente. o inimigo, a quinze metros, porque bem o distinguimos no ma tagal. H um momento de pnico. A voz imperiosa dos meus bravos oficiais, restabelece o sossego. Respondemos com um fogo to vivo, que s o nervosismo de que nos achamos possudos o justifica. A direita e a esquerda j cederam. A frente, est renitente. Bem sabe ela que nos barra o caminho que conduz liberdade.

    A voz forte do tenente Coutinho impe-se. Para a frente, rapazes Retroceder morrer! E num repelo, oficiais frente, a um de fundo, que mais no comporta o estreito carreiro, disparando para a direita, para a esquerda, para a frente, tudo carrega sobre aquela muralha de balas que nos barra o caminho libertador, a estrada que conduz ao Rovuma, onde a gua, cristalina e fresca, espera as nossas gargantas sequiosas. Os askaris cedem. Os sequiosos de Nevala que durante o cerco suplicavam de olhos esgazeados (valham-me as fontes da minha terra), vo enfim poder saciar a sede que os devora.

    .Mais uma pequena escaramua e o grupo, reduzido agora a metade porque a outra metade se perderam no mato quando do primeiro encontro atravessa clareiras, embrenha-se no matagal, desce a escarpada verter duma cordilheira e chega plancie, onde, a quatro ou cinco quilmetros mais frente serpenteia a gua desejada. O sol de novembro quase sufoca

    A mido humedeo os lbios num decilitro de gua que levo no cantil a rao do dia anterior. O caderno de campanha no seu estojo de lata, s costas, pesa como chumbo. A espingarda, apanhada do cho na ocasio da primeira escaramua para substituir a minha pistola encravada, essa, pesa um mundo. O alferes Matheus est extenuado de cansao e morre de sede Senta-se a cada passo. Pede-me que siga e que o deixe sombra de qualquer rvore. Dou-lhe as ltimas gotas de gua do meu cantil e amparo-o para que possa caminhar. Caminhando cinco minutos descansando dez, consigo chegar com ele s margens do Rovuma, seriam 12 horas.

    Cair de borco na primeira poa, sorver com sofreguido a

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    gua morna, mal cheirosa, que contm, descansar um pouco, tornar a sorv-la novamente, na nsia doida de querer bebe-la toda, foi um momento que jamais esquecerei. Rivane-Inhambane, 16 de Agosto de 1920.

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    Captulo 4

    A invaso alem

    Se o ano de 1916 foi um ano de grande atividade para as tropas portuguesas e um ano de fortes envolvimentos das tropas dos dois pases, agora beligerantes, na zona de fronteira entre os territrios do Tanganica e de Moambique, se bem que sem grande sucesso no que toca s iniciativas portuguesas, j no ano de 1917 se assistiu a um grande sucesso na poltica colonial britnica, que foi a limpeza da frica Oriental Alem. Tinha passado mais de um ano sobre o insucesso britnico em Tanga, antes de se fazer mais uma tentativa sria de tomar a ltima fortaleza alem na costa africana.

    Em Fevereiro de 1916 o general Smuts fora nomeado para comandar a expedio, e ele estabeleceu um plano para uma operao do Norte ao Sul, atravs do difcil interior do pas afim de evitar os pntanos da costa. Em conjuno com esta presso ao centro, as foras belgas sob o comando do, agora, general Tombeur deveriam avanar do lago Tanganica para leste e as foras britnicas deveriam atacar a sudoeste, a partir da Niassalndia.

    Os alemes, comandados pelo general von Lettow Vorbeck, no incorporavam grandes efectivos, mas mesmo estas pequenas foras foram movimentadas com mo de mestre. Tinham do lado deles todas as vantagens dum clima equatorial e operavam uma regio imensa sem estradas, por vezes montanhosa e coberta de espessas matas e florestas que s poderiam ajudar a dificultar a marcha dos invasores. De Dar es Salam, na costa, at Oudjidji, no lago Tanganica, corria a nica via de verdadeiras comunicaes, a via-frrea atravs do centro da colnia. Depois de ter empurrado os alemes para o interior do territrio, Smuts avanou directamente sobre o caminho-de-ferro,

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    em Morogoro, a mais de 480 kms. Ao mesmo tempo enviou as foras sob o comando do general van Deventer executar uma vasta volta por Oeste para poder controlar o caminho-de-ferro mais a montante, juntando-se ento a ele em Morogoro. Von Lettow tentou retardar esta manobra provocando um confronto com van Deventer, mas o avano rpido de Smuts obrigou-o a retirar precipitadamente para trs, o que permitiu a van Deventer tomar o controlo da linha frrea.

    Entretanto o general von Lettow Vorbeck conseguiu evitar ser envolvido e retirou-se, em Setembro para as montanhas Uluguru, a sul. J os belgas tinham limpo toda a regio ocidental e as suas foras empurraram von Lettow para os terrenos do sudeste da colnia. No comeo de 1917 Smuts regressou a Inglaterra e van Deventer conduziu as operaes finais, em que von Lettow conseguiu evitar deixar-se envolver e escapou-se para sul, para o territrio da frica Oriental Portuguesa, Moambique. Von Lettow no dispunha de mais do que 5.000 homens, dos quais 5% europeus.

    Em 21 de Novembro de 1917, o comandante von Lettow marcha de Nevala com 2.200 espingardas, 300 europeus e 3.000 carregadores, formando quinze companhias, seguindo para Oeste pela margem norte do Rovuma. Em 25 de Novembro encontra o posto portugus de Negomano, sob o comando do major Teixeira Pinto, distinto oficial, com bastante experincia colonial, que se havia distinguido na Guin, onde lhe foi dedicado um monumento pelos seus servios militares na pacificao dessa colnia.

    Aos portugueses escasseavam ferramentas e alimentao para os indgenas e, se estavam prevenidos da marcha das foras alems, tambm estavam convencidos de que a campanha ia terminar em breve, no havendo mais lugar a combates. As nossas foras estacionadas em Negomano eram formadas por seis companhias indgenas e seis metralhadoras.

    Como curiosidade refira-se a visita que o autor deste livro, o ento Tenente Miliciano de Engenharia Fernando Abecassis, fez ao local, 47 anos depois, em Novembro de 1964:

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    Antnio Junqueiro ganhava a vida, metade por gosto e metade por necessidade, como caador profissional, abatendo para o abastecimento das populaes indgenas. Na ocasio andava a caar na regio de Negomano e convidou-nos para ir ter com ele, tendo ns aceitado o seu convite num fim-de-semana grande. J o caminho foi uma aventura pois a picada sumia-se no mato, sendo por vezes apenas referenciada por cortes de catana nas rvores, feitos pelos seus batedores para nos guiar. Fomos recebidos lindamente no seu acampamento de caa, alis quase sumptuoso. Uma grande tenda central, que fazia de centro social, abrigava todos os confortos possveis de imaginar numa tal situao, como frigorfico, cadeiras de lona e uma mesa irrepreensivelmente posta, e, naturalmente, ptimo whisky. O acampamento situava-se numa pequena elevao na margem direita do Lugenda, uns 200 metros a montante da sua confluncia com o Rovuma, donde se avistava a vastssima rea de contacto dos dois rios. Aos nossos ps o Lugenda era um rio grande, largo e assoreado e nas praias de areia creme-claro que se estendiam ao longo das margens viam-se grupos de hipoptamos que se refastelavam, pachorrentos, ou passeavam entre os vrios bancos de areia que emergiam no meio do rio. Tommos deliciosos banhos naquelas praias e passemos de piroga por entre os hipoptamos, num dos cenrios mais espantosos e bonitos que tenho visto!

    Nunca tive jantares to civilizados como aqueles jantares ao pr-do-Sol, j lavados e de roupa mudada, confortavelmente instalados, servidos das melhores peas de caa e desfrutando da estupenda paisagem em frente de ns. O acampamento de caa situava-se no preciso local onde 47 anos antes havia estado implantado o aquartelamento das foras portuguesas sob o comando do major Teixeira Pinto. Este aquartelamento fora completamente destrudo pelas foras alems do general von Lettow. Subsistia, em 1964, em muito mau estado, um pequeno padro a celebrar os terrveis acontecimentos daquele dia 28 de Novembro de 1917.

    Acompanhemos a narrativa do comandante alemo:

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    Na madrugada de 25 de Novembro de 1917, a nossa guarda avanada passou a vau o Rovuma, um pouco a montante da confluncia do Lugenda. O grosso da coluna, com nove companhias, atravessou o Rio durante a tarde daquele dia, seguido pela guarda da retaguarda distncia de dois dias de marcha. O capito Goering, com trs companhias, tinha atravessado o rio muito mais a jusante, com o fim de surpreender o acampamento portugus. No havia notcias do capito Tafel que muito provavelmente viria a alcanar o Rovuma muito mais para Oeste.

    Durante a passagem do Rio aproveitaram muitos a oportunidade de tomarem um belo banho, mesmo s vistas do inimigo, e com tal descaramento que, por vezes, foram necessrios grandes esforos para lhes lazer compreender as exigncias que a guerra lhes impunha. Entrmos em fogo aps a nossa chegada margem sul do Rovuma. A companhia da guarda avanada teve alguns encontros com patrulhas inimigas e fez algumas baixas. Enquanto as tropas atravessavam gradualmente o vau e protegiam a travessia das restantes, ocupei as poucas horas disponveis em reconhecer a situao. No muito longe da nossa frente, na margem do Lugenda, ouviam-se sinais e distinguiam-se pessoas. Aproximmo-nos mais do acampamento inimigo, e vimos homens vestidos de branco dum lado para o outro, a uma distncia de algumas centenas de metros. Estavam procedendo construo de abrigos e organizando uma coluna de transportes. Estas tropas eram certamente de grande efectivo, e enquanto pensava na hiptese de as atacar, vejo sair do acampamento inimigo uma coluna de askaris, fardados de kaki, tomando a direco das nossas foras. Era aproximadamente uma companhia. Presumindo que o inimigo ia ajuizadamente atacar-nos com o mximo do seu efectivo enquanto as nossas foras estavam ainda ocupadas na travessia do rio, corri retaguarda e ordenei que as companhias que j o haviam atravessado se estabelecessem em posio defensiva. Tivemos a felicidade do inimigo no ter aproveitado esta favorvel oportunidade; o inimigo no apareceu, e fiquei novamente a pensar no que havia de fazer. Tinha dvidas se, em vista do nosso grande nmero de carregadores, no

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    seria melhor expediente marchar em frente do inimigo estacionado em Negomano e estabelecer-me mais para montante do rio Lugenda. Ou o inimigo no nos incomodaria, ou, caso contrrio, teria que sair dos seus entrincheiramentos, resolvendo-se a fazer um ataque difcil. Por outro lado, no era de todo impossvel que um ataque ao acampamento inimigo no viesse a ser bem sucedido, porque as suas defesas no eram ainda muito fortes. Sabia, alm disso, pelos reconhecimentos, que na margem oposta do rio Lugenda existia uma faixa de floresta muito espessa e que chegava at ao acampamento, oferecendo-nos portanto a probabilidade de cairmos de surpresa sobre o inimigo, atacando-o duma maneira decisiva. No estava ainda resolvido a faz-lo quando o capito Muller me convenceu a tomar finalmente aquela deciso, que apesar de muito arriscada nos fornecia a perspectiva dum sucesso completo, h tanto tempo desejado: a captura de munies e de material de guerra, que para ns constitua uma necessidade urgente. No havia, pois, tempo a perder.

    O ataque fez-se, por consequncia, enquanto parte das foras estavam ainda atravessando o Rovuma. Enquanto a nossa pequena pea de artilharia de montanha rompia fogo sobre os entrincheiramentos inimigos e, ao mesmo tempo, algumas companhias o empenhavam de oeste e norte, o destacamento do capito Koehl atravessava o Lugenda, uma milha a montante de Negomano, e marchava atravs da alta floresta daquela margem, atacando com determinao as posies inimigas pelo sul. Tomei posio num pequeno cabeo a oeste do acampamento, junto da artilharia. A ltima companhia das foras do general Wahle avanava num vale minha retaguarda para atravessar o rio. Em frente, observava perfeitamente os entrincheiramentos do inimigo cujas metralhadoras, funcionando bem, dirigiam por vezes o seu fogo para o nosso cabeo arenoso, obrigando-me a ordenar a alguns europeus e askaris que se cobrissem por estarem demasiadamente expostos. O timbre ntido das espingardas inimigas que j tnhamos notado anteriormente, bem como a ausncia de morteiros de trincheira, levaram-me a crer que eram os portugueses os nossos inimigos. Havamos aprendido a distinguir as detonaes das nossas espingardas

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    71 e o rudo sibilante da nossa S-rifle, da dupla detonao da espingarda inglesa e o ntido timbre da espingarda portuguesa dum calibre pouco superior a 6 mm. Mesmo os askaris, em pequenas escaramuas haviam notado rapidamente a velocidade embaraosa com que os morteiros de trincheira alcanavam as nossas posies. No nos podamos precaver contra os inconvenientes da grande quantidade de fumo produzido pelas nossas espingardas 71. Contudo, no caso presente no havia morteiros, e o fumo traioeiro das nossas boas espingardas velhas no nos era to prejudicial. E depois, quando elas acertavam de facto no alvo a mossa produzida era sempre de respeito. Deste modo, os nossos askaris reconheceram rapidamente que neste dia a sua superioridade como soldados compensaria facilmente a inferioridade das suas armas. Hoje o dia das velhas espingardas! - gritavam eles aos chefes alemes e da minha posio vi dentro em pouco a linha de atiradores do destacamento de Koehl carregar em filas cerradas os entrincheiramentos inimigos e tom-los. Foi este o sinal de ataque para as outras frentes. Carregaram por todos os lados o inimigo que era abalado com violncia pela densidade do fogo.

    Do seu efectivo de 1.000 homens no sobreviveram mais que 200. Na nsia do saque, os nossos askaris lanavam-se cada vez mais violentamente e sem interrupo sobre o inimigo que fazia fogo ainda! Imagine-se ainda uma multido de carregadores e moleques que, aproveitando-se da situao, correram ao acampamento saqueando tudo que encontravam roubando o que podiam para em seguida deitaram fora em presena de alguma coisa mais luzente e atractiva. Foi uma horrorosa mele. At os askaris portugueses, depois de feitos prisioneiros, compartilharam da pilhagem feita aos seus prprios vveres. No havia remdio seno intervir energicamente. Fiz uso de toda a minha eloquncia e, para exemplo, castiguei pelo menos sete vezes um carregador que eu conhecia, mas que todas as vezes me fugiu para continuar a pilhagem noutro stio qualquer. Finalmente consegui restaurar a disciplina.

    Enterrmos cerca de 200 mortos inimigos e fizemos 150 prisioneiros que foram postos em liberdade depois de se terem

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    comprometido sob palavra a no mais combaterem durante esta guerra, contra os alemes ou seus aliados. Capturmos algumas centenas de askaris, grande quantidade de medicamentos de valor que to necessrios eram, todos de excelente qualidade, o que era de esperar pela experincia de sculos dos portugueses em campanhas coloniais, e ainda alguns milhares de quilos de vveres europeus, grande nmero de espingardas, seis metralhadoras e cerca de trinta cavalos. No havia infelizmente vveres para indgenas. Rearmmos quase metade das nossas tropas com espingardas portuguesas, e fez-se uma lauta distribuio de munies. Apodermo-nos de cerca de 250.000 carregadores, nmero que se elevou a um milho durante o ms de Dezembro. Soubemos depois, por documentos apreendidos, que as companhias europeias portuguesas haviam chegado havia poucos dias a Negomano, com o fim de executarem uma ordem impossvel dos ingleses: evitar a travessia do Rovuma pelos alemes. Foi realmente um grande milagre que estas tropas no tivessem chegado a tempo, e tivessem tomado uma posio to proveitosa para ns. E foi assim que, dum s golpe, nos libertmos duma grande parte das nossas dificuldades.

    Havia ainda uma grande necessidade a satisfazer e que nos obrigava a avanar desumanamente: a de procurar alimentao para o nosso grande nmero de indgenas. Continumos para montante do Lugenda com este fim. Dias aps dia, as nossas patrulhas procuravam guias e provises, no sendo bem-sucedidas a princpio. Os indgenas, normalmente pouco numerosos nesta regio, tinham fugido perante o avano dos portugueses, receosos da sua rudeza e crueldade e haviam escondido as provises que possuam. E assim, as mulas e os cavalos, um aps outro, iam encontrando o seu triste fim no fundo dos nossos caldeiros. Felizmente este distrito muito rico em caa, e o caador consegue sempre matar uma galinha-do-mato ou qualquer dos numerosos antlopes que ali abundam.

    Embora as nossas colunas de marcha fossem, a princpio, demasiadamente compridas e vagarosas, mais uma vez a quase perfeio foi atingida com a prtica. Os carregadores, os moleques,

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    A Grande Guerra

    as mulheres e as crianas aprenderam depressa a conservar o passo e a manter as distncias, tal qual como os askaris. A coluna serpenteava ao longo de estreitos caminhos com regularidade e boa ordem, ainda mesmo atravs do mato denso e emaranhado e de terras desconhecidas. Faziam-se geralmente seis horas de marcha por dia, ou seja, cerca de quinze a vinte milhas, havendo um alto de uma hora depois de cada duas horas de marcha. A maior parte da fora estava fraccionada em destacamentos de trs companhias, cada um com o seu trem de vveres e um hospital de campanha. O destacamento mais avanado precedia o ncleo principal das foras de um dia de marcha sua frente, e o mais atrasado, um dia de marcha retaguarda. frente de cada destacamento marchavam as companhias de combate com as suas metralhadoras, e levando consigo somente as munies e medicamentos necessrios, sendo permitido aos europeus transportarem um volume de coisas mais indispensveis.

    Os askaris marchavam alegremente na frente, direitos como lanas, com as espingardas invertidas sobre os ombros, como era costume nos regimentos de infantaria. Conversavam sempre animadamente, e em seguida pilhagem de qualquer acampamento inimigo que, em regra, lhes proporcionava boas pechinchas, o fumo dos cigarros surgia de todos os lados. Os pequenos recrutas sinaleiros alargavam estoicamente o passo, vestidos com o uniforme askari, e transportando quase todos a sua nica riqueza do mundo numa trouxa que transportavam cabea. Os askaris conservavam uma vigilncia rigorosa e o mnimo movimento no mato no lograva escapar aos seus olhos de lince.

    A testa da coluna examinava todos os rastos e vestgios, deduzindo destes o efectivo e a distncia provvel do inimigo. Os carregadores de metralhadoras estavam igualmente militarizados. As companhias, como os destacamentos, eram seguidos pelos carregadores que transportavam vveres, bagagens, material de bivaque, etc. As suas cargas de 25 quilos, eram levadas simultaneamente aos ombros e cabea.

    No obstante o sou trabalho rduo e mortificante, estes homens

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    sentiam-se cada vez mais ligados s tropas. Muitos marchavam descalos e com os ps ensanguentados. Frequentemente se observava um deles puxando com prontido duma navalha para cortar um pedacinho de carne dum p j muito ferido, e iniciar seguidamente a marcha sem um queixume.

    Os carregadores eram seguidos pelas mulheres e pelos Bibi, tal como os askaris, sucedendo muitas vezes nascerem-lhes os filhos durante as marchas. Cada mulher transportava cabea no s os seus haveres como os do seu senhor. Era frequente v-las com as crianas de peito, s costas, com as cabecitas encarapinhadas espreitando do pano em que as enrolavam. Marchavam sempre com ordem, protegidas por um europeu, em geral, um ex-sargento com um askari para o auxiliar. Formavam assim durante as marchas um comboio muito extenso que, em virtude da sua predileco pelas cores berrantes, dava bem a ideia dum interminvel cortejo carnavalesco, especialmente depois de qualquer captura importante.

    O acima citado, ento tenente miliciano de Engenharia, Fernando Abecassis, em operaes de busca de 2 soldados desaparecidos a nascente do rio Lugenda, em Novembro de 1964, comenta assim as marchas de trabalho:

    O grupo de socorro foi equipado para a eventualidade de ter que andar vrios dias no mato e foi formado por duas praas, um cabo rdio operador, um cabo maqueiro, um furriel enfermeiro, um caador, o chefe de posto de Balama e eu prprio. Foi decidido partir de Nacohocoho para onde, depois de equipados, nos dirigimos ao fim da tarde. Samos no domingo, ao romper do dia. A equipa levava consigo 50 indgenas, como auxiliares e carregadores, tendo feito rumo ao local, nas margens do Ruaa, onde nos preparmos para acampar. O aspecto de conjunto desta coluna de socorro era impressionante e fazia-nos lembrar as histrias das grandes travessias de frica, por Capelo e Ivens ou Livingstone e Stanley, passe a imodstia. Como seguamos relativamente perto do Ruaa o caminho no era fcil, a mata por vezes densa, por vezes aberta,

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    A Grande Guerra

    em savana.Deslocvamo-nos em fila indiana e, pela primeira vez,

    apercebi-me de porqu as marchas de trabalho serem feitas um indivduo atrs do outro. Com efeito o facto de seguir o homem da frente automatiza a marcha, tornando-a quase hipntica e poupando quer ao fsico quer ao crebro o trabalho de saber por onde fazer o prximo passo. apenas necessrio mudar o testa de fila de quando em quando, o que ns fazamos de meia em meia hora.

    Retomemos a narrativa do comandante alemo:Mesmo durante as marchas tnhamos que atender aquisio

    de vveres. As patrulhas de caadores marchavam pelo mato, frente e nos flancos da coluna. Permaneciam por vezes junto dos locais de acampamento j abandonados, se observavam vestgios de caa grossa. Outras patrulhas seguiam pelos caminhos de preto que conduziam s povoaes, onde requisitavam gneros.

    Quando chegvamos aos locais de estacionamento, quatro askaris e o meu moleque Serubiti cortavam os ramos precisos para me construrem o esqueleto duma palhota ou duma tenda que era dividida em vrias seces. Em seguida o meu cozinheiro, o Baba, com umas grandes barbas, dava as suas instrues rigorosas para o arranjo da cozinha. Vrios carregadores iam buscar a gua necessria e cortavam o capim e a lenha para o lume com as suas prprias navalhas. Chegavam em seguida os caadores com a caa e, dentro de pouco tempo, o acampamento era invadido por todos os lados pelo agradvel cheiro a cozinhado. Entretanto chegavam os grupos de carregadores que haviam ficado nas povoaes limpando o trigo. Este era depois pisado nos kinos (piles) com o auxlio de paus muito grossos, o que produz um som caracterstico do mato africano que se houve a distncias muito grandes. Comeava depois a chuva de despachos, relatrios de reconhecimentos, documentos apreendidos, e qualquer caixote sombra duma rvore me servia de secretria. Quando os altos eram maiores construa-se uma mesa, mais apropriada com estacas e ramaria.

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    em Moambique

    A refeio da noite era tomada em volta do lume com os amigos, sentados em bancos improvisados pelos moleques. Os mais fidalgos, claro, possuam cadeiras de bordo. Depois, v de deitar, dentro de mosquiteiros, e de manh, muito cedo ainda, l amos mais uma vez para o desconhecido. Encontraramos que comer? Esta incerteza preocupou-me dia aps dia, semana aps semana, ms aps ms. As marchas contnuas no eram feitas, como se compreende, por mero prazer.

    Quando alcanmos a confluncia do Chiulezi, as dificuldades de vveres aumentaram extraordinariamente. A regio que at ali era muito frtil tornava-se agora to diferente, que me vi na necessidade de ordenar a reunio das foras, como alis j era minha inteno. Sob o ponto de vista tctico era-me impossvel faz-lo no momento presente. No esperava uma presso muito forte da parte dos ingleses porque a sua linha de penetrao crescia dia a dia e, consequentemente, aumentavam as suas necessidades de transportes.

    Foi-me enviada, sob a proteco da bandeira branca, uma mensagem escrita do Comandante em Chefe ingls, general van Deventer, na qual me convidava a render-me. Mais se intensificou no meu esprito que a nossa fuga os tinha surpreendido a valer, e de que a nossa invaso do territrio portugus os embaraava muito.

    Nunca este nem o general Smuts se tinham lembrado de me fazer um convite idntico quando a situao lhes era favorvel. Porque o faziam agora, nas circunstncias presentes, idnticas s de Setembro de 1916, em Kissaki? No era difcil de compreender que o inimigo comeava a desanimar. Faltava pouco tempo para o comeo da poca das chuvas e, portanto, para a preparao de novas operaes, e depois daquelas comearem, os transportes inimigos, na maioria em automveis, teriam que lutar com grandes dificuldades.

    Tnhamos por isso muito tempo para nos podermos dividir em vrias colunas sem hesitao. Nada tinha a recear da perda temporria do contacto entre cada uma das fraces. E assim, o destacamento do General WahIe separou-se das foras restantes e marchou atravs das montanhas Mecula, enquanto eu me dirigi para nordeste do Lugenda.

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    Aquela rendio intensificou a minha relutncia em destacar outra parte da minha fora, pois apesar da minha proximidade, a juno que ambos tnhamos em vista no foi possvel efectivar-se. Senti-me torturado pela falta de notcias do destacamento de Goering com o qual mantive o contacto, por meio de patrulhas, quando estava em Negomano. Durante a marcha para montante do Lugenda, enquanto tivemos que conservar os destacamentos e companhias mais afastados, por forma a facilitar o nosso aprovisionamento, foi necessrio insistir com os chefes acerca da necessidade imperiosa de conservarem o contacto. Todavia, no era de esperar que estes oficiais, que mais tarde executaram to excelente trabalho como comandantes de destacamentos, sendo to bem sucedidos em cooperao com os outros, possussem logo de comeo o treino necessrio.

    natural que naquela ocasio nem sempre fosse amvel e contemporizador para com os que me cercavam. Acontecendo que os prprios oficiais do Estado-Maior que estavam trabalhando com a maior devoo pela causa comum, pelo que mereciam o meu reconhecimento, foram alvo de muitas censuras injustificadas. So por isso merecedores da minha particular gratido, pois nunca se consideraram ofendidos, no tendo a minha m disposio concorrido para prejudicar a boa continuidade dos seus trabalhos. Foi devido ao seu trabalho, executado muitas vezes em circunstncias difceis, que alcanmos o triunfo que o pblico com a sua generosidade me atribua apenas a mim. Eu, que tantas vezes tenho apreciado a boa camaradagem que existe na nossa corporao de oficiais, no gostava certamente desta atmosfera de impertinncia e procura de faltas. Felizmente esta fase foi apenas passageira.

    A nossa situao agora era tal que no podamos reconhecer as foras inimigas se viesse a dar-se qualquer encontro. No tnhamos tempo para reconhecimentos longos. A determinao com que atacvamos as foras portuguesas onde quer que as encontrvamos atestada pelo facto de que, durante Dezembro, foram sucessivamente tomadas, aos portugueses mais trs posies fortificadas. A personalidade do oficial comandante que primeiro encontrava o inimigo tinha uma importncia

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    capital e decisiva naquelas aces, porque, no tendo tempo a perder, no podia esperar por ordens.

    Em 2 de Novembro, o tenente Kempner, comandante da 11. Companhia, que fazia parte da guarda avanada da coluna que marchava para montante do Lugenda, encontrou um acampamento fortificado portugus, em Nangwale. Como na maioria dos casos, este acampamento ficava situado num monte desarborizado e com um bom campo de tiro. A valente 11. Companhia desenvolveu-se imediatamente ao longo da orla da floresta, e avanou para o ataque atravs duma zona de 300 metros de terreno descoberto, expondo-se completamente ao fogo inimigo. Os askaris, que transportavam os seus equipamentos de marcha completos, no puderam acompanhar o seu comandante europeu e o seu Effendi (oficial indgena). O tenente Kempner e o Effendi saltaram sobre a obra principal do inimigo e daqui para os seus entrincheiramentos, encontrando-se ambos ss durante algum tempo entre a guarnio inimiga, que tinha o efectivo de um peloto. Estes ficaram estupefactos ao ouvirem os gritos de entusiasmo dos askaris que iam chegando e obedeceram prontamente ordem para deporem as armas. Caiu em nosso poder um nmero considervel de munies e raes suficientes para alimentar a fora durante alguns dias. Quando o oficial portugus convidou o tenente Kempner para tomar um clice de boa aguardente teve muita razo em ficar surpreendido por encontrar a garrafa vazia, ficando, por sua vez, o seu inimigo igualmente pasmado: Um Ombascha (cabo indgena) j se havia adiantado naquela operao.

    Estava numa ansiedade grande acerca da sorte do capito Goering de quem no havia notcias. Quanto fora do general Wahle, que havia marchado para montante do rio Chiulezi, soubemos depois que tinha atacado e aniquilado uma fora de vrias companhias portuguesas que estavam entrincheiradas fortemente nas montanhas de Mecula.

    As frequentes tentativas para estabelecer comunicaes com as foras de Wahle por meio do heligrafo resultaram infrutferas, embora os portugueses tivessem observado de Mecula os sinais feitos

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    de Nangwale. Os portugueses europeus capturados em Mecula pelo nosso destacamento recusavam-se a dar a sua palavra de no mais tornarem a combater nesta guerra, mas foram postos em liberdade e enviados para o Rovuma pelo general Wahle, devido dificuldade que havia em os sustentar.

    O capito Stermmermann foi igualmente bem-sucedido, capturando uma outra posio, tambm muito forte, que foi valente e vigorosamente defendida, depois de a cercar durante dias. Como a violncia do seu ataque no oferecia probabilidades de vitria para o inimigo e ainda porque a posio se tornou insustentvel por lhe ter sido cortada a gua, o inimigo foi forado a render-se. Entre as nossas baixas, infelizmente, contavam-se muitos oficiais indgenas bons. No estive presente no combate de Nangwale porque andava empenhado em normalizar de vez a marcha das nossas companhias da retaguarda. Contudo, em dois dias de marcha com etapa dupla consegui chegar a Nangwale a tempo de superintender na diviso das provises capturadas. Nas circunstncias mais favorveis vivamos de gneros ocasionais. A situao em Nangwale, onde h seis meses as nossas tropas haviam encontrado uma to rica vizinhana, era agora completamente diferente. Alm das provises referidas no havia mais nada, e at a caa grossa rareava numa grande rea em volta, por ter sido assustada ou dizimada. Sofri uma grande decepo, porque esperava justamente o contrrio, e as foras tiveram que partir. Soubemos pelas informaes dos prisioneiros e documentos apreendidos que a guarnio de Nangwale era abastecida por colunas de carregadores que vinham de muito longe, talvez das proximidades do Mwalia, onde provavelmente alguma coisa haveria.

    Em 5 de Dezembro, o capito Koehl, com 5 companhias, uma pea e uma coluna de munies, partiu de Nangwale em direco ao distrito de Mwalia-Mdo. Quanto a mim, continuei a marcha pelo Lugenda e, felizmente, as boas informaes do tenente Scherbning e doutros europeus que tinham patrulhado aquela regio foram absolutamente confirmadas. Estas provises, contudo, no eram excessivas, mas podiam ser completadas com a caa, com muita

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    satisfao nossa. Em vista do grande nmero de hipoptamos que existiam perto de Nangwale, muitas vezes em grupos de 15 a 20, levaram-nos a aproveit-los para o nosso prato dirio. Eu mesmo no pude resistir tentao de atirar contra um dos gigantescos animais: submergiu imediatamente, fazendo redemoinhar a gua como se fosse um barco a afundar-se para depois de algum tempo voltar superfcie, de barriga para o ar, no se movendo mais. Foi depois puxado com uma corda para a margem do rio. O grande nmero de crocodilos obrigam-nos a ser cautelosos, e algumas vezes perdemos boas presas por causa deles. A carne do hipoptamo parecida com a da vaca ordinria, mas a lngua particularmente saborosa. O mais valioso produto que dele se aproveita , sem dvida, a excelente manteiga que os soldados aprenderam rapidamente a preparar. Tinha uma cor branca de neve e a sua aparncia contrastava bastante com a daquela que havamos fabricado nas primeiras tentativas no Rufiji. As caadas na floresta e os reconhecimentos que fazia acompanhado por askaris, revelavam-me grande nmero de segredos da vida do mato. Aprendemos a fazer belo esparregado com folhas de certas plantas (chamadas Mlenda), e a conhecer diferentes espcies de frutos silvestres muito bons. Tambm verificmos que a semente dos frutos Mbinji, cuja polpa contm cido prssico, completamente isenta de cido e, quando assada, proporciona um prato excepcionalmente delicado e saboroso, semelhante ao das avels.

    O Quartel-general chegou a Chirumba (Mtakira) em 17 de Dezembro de 1917. O tenente Ruckteschell tinha continuado a marcha em frente com a sua companhia e repelido alguns pequenos postos portugueses, da Companhia Portuguesa do Niassa, que administrava a parte norte da Provncia de Moambique. Mais para o sul, a administrao desta est tambm nas mos de Companhias particulares. A autoridade portuguesa em Chirumba, de nome Fernandes, parecia ter sido muito competente. Os grandes edifcios da sua residncia, situados no cume do monte desarborizado, estavam rigorosamente limpos, protegidos contra qualquer surpresa com uma trincheira em volta. Ao longo da margem do Lugenda estendiam-se

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    grandes quintas com rvores de fruto e vegetais. As estradas eram ladeadas com amoreiras e mangueiras formando lindas avenidas. Em volta da residncia, como nos subrbios das povoaes indgenas, encontravam-se muitas espcies daquelas mangas, conhecidas pelo nome indgena Emben. Os frutos comeavam agora a amadurecer e eram to abundantes que valia a pena colh-los. Evitou-se quanto possvel o desperdcio natural dos indgenas. Os frutos, doces e belos, foram apreciados por todos os europeus e grande maioria dos indgenas, e em vista da falta de acar, constituram um complemento valioso para a nossa alimentao, durante semanas. Quando entrei na varanda da casa europeia, ao chegar a Chirumba, o tenente Ruckteschell ps-me em frente dos olhos um pedao de manteiga de porco, coisa que j no via h muito tempo. Aqui, como em muitos outros estabelecimentos portugueses, tinha havido porcos. Ficmos aqui durante algumas semanas. Marchou para montante um destacamento que se apossou da residncia de Luambala. Ao mesmo tempo o general Wahle marchou para a prspera propriedade de Mwemba, j nossa conhecida. O tringulo, ricamente cultivado, Chirumba-Luambala-Mwemba, e alm fronteira, era percorrido pelas nossas patrulhas de reconhecimento. Os indgenas desta regio, na sua maioria, mostravam-se amveis e inteligentes: sabiam bem que nada tinham a recear dos alemes. Apesar de tudo, haviam escondido as suas provises no mato e pouco ou nada nos proporcionavam. Contudo, os nossos homens j tinham a experincia precisa para examinarem minuciosamente, por exemplo, um tronco de rvore de aspecto suspeito, embora bem dissimulado, onde encontravam um esconderijo de gneros. Outros sondavam o terreno recentemente mexido com paus, e assim se encontraram tantas provises, que no Natal, quando nos sentmos para jantar numa grande palhota, sentimo-nos aliviados da falta de alimentos. Segundo a descrio dos nossos soldados, o rio Lugenda era, durante alguns meses do ano, to abundante em peixe, que este se podia pescar com cestos, mas infelizmente no era esta a ocasio prpria. Os peixes que conseguimos pescar eram muito delgados, como linguados com dezoito polegadas de cumprimento, e outros mais pequenos, prprios

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    para fritar. Apesar de poucos, ainda concorreram para melhorar as nossas raes.

    Conservou-se o contacto com o destacamento de Koehl nas proximidades de Mdo. Julguei muito natural que o inimigo, seguindo a sua tctica usual, se estivesse preparando para um grande movimento de concentrao contra ns, e como este no estaria pronto dentro do espao dum ms, podamos bem descansar at que terminassem as chuvas, nos fins de Fevereiro. Prximo desta poca tencionava concentrar as minhas foras nas proximidades de Nanungu, devendo at l economizar quanto possvel os gneros daquela regio, vivendo daqueles que se obtivessem na zona exterior. A princpio no apanhmos muita caa em Chirumba, mas a abastana foi grande quando descobrimos os grandes rebanhos de antlopes na margem leste do Lugenda e especialmente mais para montante. Durante o resto da estao seca, e enquanto o rio estava baixo, os comboios de carregadores atravessavam continuamente o rio em diversos pontos, transportando as suas cargas para a margem leste. Eram aproveitados na travessia do rio alguns dongos (pequenas canoas feitas dos troncos das rvores). Eram enviadas patrulhas, que se demoravam semanas, para requisio de gneros e reconhecimentos. O tenente Scherbening fez uma expedio de meses com a sua patrulha, marchando de Chirumba, via Mitenda, Mahua e finalmente para o sul, pelo rio Lurio, e depois para Malema. Nos princpios de Janeiro de 1918, os ingleses comearam a mover-se. O 1. e 2. batalhes do Kings African Rifles que ocupavam o ngulo sueste do Lago Niassa, iniciaram o avano sobre o destacamento do capito Goering que se havia reunido a ns e ocupava o ngulo agudo formado pelos rios Luhambala e Lugenda, cobrindo os depsitos de subsistncias a montante deste rio.

    Na manh de 19 de Janeiro, derrotmos um destacamento isolado do inimigo. Quando este contra-atacou, tarde, depois de reforado, e ao mesmo tempo que outra fora inimiga nos empurrava para o norte, em direco s escavaes da margem leste, o capito Goering passou para esta margem com o grosso das suas foras. Ficou apenas uma forte patrulha na margem oeste, que deteve a marcha do

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    inimigo. Simultaneamente, outra fora inimiga, o 2nd Cape Corps da frica do Sul (tropas de cor), avanava sobre Mwembe. Tiveram ento lugar pequenas escaramuas e aces entre patrulhas, que muitas vezes nos colocaram em pssimas circunstncias devido impossibilidade de protegermos os nossos comboios de carregadores. Os ingleses aproveitaram-se muito habilmente da oportunidade para contaminarem a lealdade dos nossos askaris. Muitos deles estavam exaustos da guerra e todos perante a incerteza do fim que esta teria. Grande nmero deles fugiu para as suas terras, dizendo consigo prprios: Se avanamos mais entramos em terras desconhecidas. Agora sabemos o caminho para casa, e mais tarde nem isso. A propaganda inglesa, feita pela palavra e por panfletos, caa, na maioria dos casos, em terreno propcio, e o resultado foi desertar um grande nmero de askaris e at de sargentos. Tudo concorria para a sua desero, especialmente a persuaso das mulheres. Os indgenas so por natureza muito sensveis insinuao. Contudo, se o coronel ingls se pode vangloriar de ter abatido o moral de certos elementos, a verdade que foi apenas durante um curto espao de tempo. O antigo desejo de combater e a velha lealdade voltaram novamente, mesmo para aqueles que j haviam comeado a desanimar. O exemplo dos askaris fiis, que se riram dos montes de ouro que os ingleses lhes prometiam no caso de desertarem, frutificou. Numa campanha to longa e difcil como esta, o moral das tropas susceptvel de diminuir. Mas de nada servia desanimar e era necessrio combater a valer esse desnimo.

    Retomemos, agora, a narrativa do autor:O combate de Negomano foi duma extrema violncia,

    traioeiro e desigual. Mostrava um desejo de prosseguir uma poltica de terrorismo blico ou terra queimada, que levasse os portugueses a desocupar as suas terras e a abandon-las ao inimigo. No havia de ser! Vejamos o combate de Negomano:

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    Negomanopor Jos Feio Quaresma, Tenente Coronel

    Esta palavra percute tristemente a nossos ouvidos como um plangente dobre de finados e no entanto quantos actos de valor mesmo de verdadeiro heroismo, no foram praticados nesse combate realizado em 25 de novembro de 1917 ao norte da provincia de Moambique entre as nossas foras e as tropas alems: foi um dia de luto certo para o nosso exrcito mas verdade tambm que as armas por tuguesas embora vencidas, se cobriram de glria pelo gigantesco esforo conscientemente despendido contra um inimigo mais numeroso e aguerrido e melhor armado e municiado, experimentado j em quatro longos anos de guerra. Se no pelo saber de duras experiencias feito, pelo menos de fonte autorizada, creio que no h hoje quem no conhea a escassez, morosidade e dificuldade com que se fazem os abas tecimentos das colunas que operam em Africa em regies desprovidas de recursos, de vias de comunicao e meios de transporte, em que este, por via de regra feito a lombo de carregadores numa interminvel fila indiana, processo este que numa zona de guerra sempre objecto de extenuante vigilncia, no s pelos perigos que oferece como ainda pela relutncia com que o carregador faz o servio que no abandona s6 se para isso no tiver oportuno ensejo.

    A nossa coluna estava pobremente municiada, apenas 300 cartuchos por praa, ficando o posto de reabastecimento mais prximo a 132 quilmetros. Pode dizer-se afoitamente que ia s6mente armada com prestgio honradamente ganho numa longa, trabalhosa e brilhante vida colonial do seu comandante o destemido e heroico major Joo Teixeira Pinto, e do zelo dedicao e boa vontade dos seus oficiais, cooperadores que ele escolhera para compartilharem da boa fortuna que at ali o acompanhara. Como se a falta de munies e distncia a que se encontrava da coluna o respectivo depsito de reabastecimento, fosse pequeno percalo. A agravar a situao j inquietadora, as comu nicaes encontravam-se cortadas pelas guardas de flanco do

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    inimigo. Estas eram dum efectivo de 6 companhias e o grosso da coluna que nos atacou compunha-se aproximadamente de dois mil aguerridos askaris, cem europeus, com doze metralhadoras e bastas granadas de mo. O combate foi iniciado de surpresa s 7 horas da manh pelas patrulhas alems.

    Dado o alarme pelos nossos corneteiros, rpida e valorosamente os nossos correram aos seus postos resolvidos a vender cara a sua vida. Como a maior parte dos indgenas das nossas foras fosse a pri meira vez que entrava em fogo, para lhes dar animo mandou-se-Ihes abrir trincheiras com os sabres-baionetas pois que a coluna ia desprovida de material de sapadores, alm de muitas outras faltas que seria ocioso, e doloroso, relembrar.

    Recebemos o inimigo debaixo de quadrado sendo a posio por ns ocupada muito inferior sua, pois que o inimigo aproveitando habilmente a orla do mato que nos circundava nos atacou vivamente com nutridos fogos de infantaria e metralhadoras que dizimaram para cima de um tero do nosso efectivo. O combate prolongou-se at perto das 16 horas tendo o quadrado, alem de envolvido, sido roto numa das suas faces o que obrigou as duas contiguas a voltarem-se para o expulsar do acampamento, chegando uma metralhadora e uma seco de infantaria a fazer fogo para dentro do quadrado com o fim de repelir os alemes e os askaris qne nos atacavam j pejas costas. As munies estavam quase esgotadas e as baixas eram j muitas, facto que conhecido pelo inimigo o levou a lanar-se ao assalto com invulgar impetuosidade com tropas escolhidas, as quais inutilizaram a j fraca resistncia nossa.

    As baixas que tivemos dizem bem alto a importncia dessa aco que em esforo e herosmo no desmerece doutras sustentadas por portugueses em qualquer outro campo de batalha. Assim, tivemos cinco oficiais mortos e trs feridos; trs sargentos europeus mortos e trs feridos e 286 soldados indgenas postos fora de combate mortos ou feridos. As baixas do inimigo foram tambm importantes, confessando-nos os oficiais e sargentos alemes, quando estivemos prisioneiros, que tinham tido 300 askaris mortos ou feridos e trs

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    oficiais mortos e dois feridos. A sentinela de Pompeia proclama bem alto atravs dos seculos,

    pala voz da histria, que os soldados caidos conscienciosa e heroica-mente no campo da honra no morrem, pois seus nomes evocam sem-pre os seus brilhantes feitos, praticados em prol da Ptria que estreme-ceram a ponto de por Ela sacrificarem a prpria vida. Permita-se-me pois que evoque piedosamente os nomes daqueles que em Negomano pela linda terra portuguesa deram a vida. Foram eles: Major Luis de Avelar Pinto Tavares, prestimoso colonial, Tenente Ponces de Carvalho, Major Joo Teixeira Pinto, j conhecido e respeitado batalhador em Angola e na Guin, ferido mortalmente quando empunhando uma metralhadora fazia fogo sobre o inimigo, Alferes Adrio Lucas, morto j depois dos seus soldados terem esgotado as munies. Alferes Levindo Vaz, ferido mortalmente quando incitava os seus soldados no cumprimento do dever e ele prprio distribua os cartu chos que conseguiu arranjar. Segundos sargentos Carvalho Pratas e Francisco Antonio. Soldados da bataria de metralhadoras Augusto Ferreira de Pinho, Manuel Isidoro e Jos Aniceto Junior. Que os seus nomes sejam esculpidos em letras de ouro entre os daqueles que bem serviram a Ptra pois o inimigo foi o primeiro a render homenagem tenacidade, esforo e herosmo com que a honraram.

    Voltamos ao combate de Negomano, descrito pelas foras portuguesas: ao meio dia foi estabelecido o contacto com os alemes na margem Norte do Rovuma e s 12 horas e 45 minutos abriam eles fogos com uma pea sobre o dispositivo portugus, cujos entrincheiramentos insuficientes eram em semicrculo apoiado no Lugenda, dispositivo que depois se tornou circular, apresentando um grande alvo ao adversrio

    Os alemes executaram uma manobra que levou deciso do combate. Enquanto atacavam a nossa face voltada ao Norte, um destacamento de trs companhias atravessava o Rovuma e o Lugenda a um quilmetro da sua confluncia e, desfilando essas trs companhias

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    abrigadas pelo arvoredo, vinham atacar as nossas foras pelo sul, onde a companhia indgena, recuando desmoralizada, deu ensejo ao assalto geral dos alemes, que com as suas doze companhias cercaram completamente as nossas seis, que entravam pela primeira vez em fogo defrontando to aguerridos adversrios.

    Tivemos 5 oficiais mortos, entre eles o major Teixeira Pinto, 14 europeus e 208 indgenas; mais de 70 feridos graves e 550 prisioneiros entre os quais 31 oficiais.

    Aps o combate, em que do lado portugus se repetiram as mesmas faltas de ligao, alm de pouca combatividade, os alemes no se demoraram, em consequncia de no terem alimentao para os indgenas e depois de se apossarem dos despojos formaram duas colunas, marchando cada uma pela sua margem do Lugenda. Todos os prisioneiros foram soltos. Dizem as memrias do general von Lettow que ele ao iniciar o combate no sabia se tinha a defrontar ingleses ou portugueses, reconhecendo depois serem estes pelo som das espingardas e que se decidiu a combater para conseguir munies e abastecimentos. J em 1916 os alemes tinham atacado, em 29 de Agosto, o pequeno posto de Negomano, sendo repelidos. Foi nessa ocasio que o alferes Marcos, saindo para fora da trincheira, recolheu aos ombros um cabo indgena ferido.

    Curioso se torna observar, quanto s operaes portuguesas, que este segundo combate de Negomano, em 25 de Novembro de 1917, parece suceder ao de Nevala, como se entre os dois no tivesse decorrido um ano. Ns supnhamos a campanha a terminar, mas, se tivssemos avanado, em ligao com os ingleses, talvez fossem cercados em Nevala os alemes. A manobra foi proposta, com duas companhias portuguesas que atravessariam o Rovuma, mas os ingleses consideraram essa fora muito fraca, e a operao no se realizou.

    Os alemes escapam-se de Nevala, onde estavam quase cercados pelos ingleses, batem-nos em Negomano e internam-se no territrio portugus, conseguindo prolongar a campanha at o Armistcio.

    Na grande circunscrio de Metarica, a poente do Rio

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    Lugenda, a Serra Mecula, constituda por alturas pedregosas dalgumas centenas de metros, com uma frente favorvel ocupao duma companhia indgena e uma bateria de metralhadoras cobria os nossos abastecimentos concentrados em Nanguar, interceptando os caminhos para o Sul.

    O capito Curado, que comandava essa fora, deixaria um oficial com instrues para destruir esses abastecimentos, se os alemes aparecessem, e ele prprio avanaria com as reduzidas foras para tentar deter o adversrio. Em 1 de Dezembro de 1917 comeou a abrir os entrincheiramentos nas posies que dominavam os caminhos de acesso do adversrio, apesar de serem poucas as ferramentas de que dispunha.

    s 5 horas da manh de 3 de Dezembro deu-se o contacto, tendo pelo dia adiante os alemes reforado as suas foras e sucessivamente varrido os nossos postos avanados de combate; mas aps sete horas de fogo, retiravam com bastantes baixas, perante a resistncia tenaz e persistente dos defensores, os quais, depois de refeitos, com energia melhoraram os seus entrincheiramentos durante os dias 4 e 5 de Dezembro.

    No dia 6 os alemes voltaram ao ataque com maior nmero de metralhadoras e maiores efectivos, visando em especial as metralhadoras dos defensores da posio da Serra Mecula. No combate deste dia empregaram patrulhas e prolongaram o tiroteio at ao pr-do-sol.

    Aproveitando a noite conseguiram fazer avanar as suas patrulhas de modo que, ao romper novamente o fogo na manh do dia 7, j se encontravam em estreito contacto com os defensores, mas a disciplina e o cruzamento dos nossos fogos conseguia det-los mais um dia.

    Finalmente, na manh do dia 8 j traziam ao combate duas peas de artilharia, alvejando com as suas granadas as nossas trincheiras e, com maiores efectivos, conseguiam envolver as posies em que os portugueses se encontravam ento encurralados. Com esse avano conseguiam os alemes apoderar-se das fontes que abasteciam

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    de gua as nossas tropas e os refrigeradores das metralhadoras, que escaldavam pelo intenso fogo.

    Ao meio-dia apoderam-se duma parte das nossas trincheiras. Mas ainda assim, a luta durou mais duma hora at que eles se lanaram ao assalto, decidindo o combate. Foi ento que morreu um dos oficiais novos, que j tinha um nome prestigiado, o tenente Viriato de Lacerda, ferido mortalmente quando destrua a metralhadora que lhe restava, para que ela no casse em poder d inimigo. Ao ser enterrado este oficial, os alemes prestaram-lhe honras, dando um peloto as descargas do estilo e sendo acompanhado pelos seus camaradas, amigos e inimigos at ao coval. O governador da colnia alem Dr. Schnee, que acompanhou sempre as suas tropas em 1917 e 1918, assistiu ao funeral. Comandava o destacamento inimigo o general de reserva Wahle, figura tpica do valor militar dos nossos adversrios; visitava a colnia alem quando rebentou a guerra e, voluntariamente, serviu em importantes comandos subordinados ao, ento tenente-coronel, von Lettow.

    Depois foi comunicado ao comandante das nossas foras, capito Curado, que os alemes tinham resolvido dar a liberdade aos prisioneiros, mas como garantia exigiam aos oficiais o compromisso de honra de no voltarem a combater os imprios centrais e, aos outros graduados europeus, que no combatessem mais em frica. Como os nossos se recusassem a tomar esse compromisso, a que se opem os regulamentos, os alemes acataram com apreo essa resoluo, dando-lhes liberdade incondicional.

    Tudo se passou assim:O capito de infantaria Francisco Pedro Curado, cujos actos de coragem, deciso e de excepcional tacto no comando de pequenas unidades nas ante riores campanhas lhe haviam grangeado um prestigio, justamente merecido, comandava no fim de 1917 o sector de defesa a oeste do Lugenda, tendo o seu deposito de viveres e munies em Nanguar. Para guarnecer este sector, cuja frente era extensissima,

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    dispunha o capito Curado de foras de infantaria e metralhadoras de efectivo no supe rior a 250 homens. Com a experiencia adquirida nas guerras de Afrca, o capito Curado escolheu na serra Mecula posio conveniente, em harmonia com to exiguo efectivo. No dia 3 de Dezembro, um nucleo importante de askaris, com quadros alemes, dirigiu o primeiro ataque posio portuguesa. Encontrando uma tenaz resistencia dos defensores teve, porem, de bater em retirada depois de haver experimentado sensiveis perdas.O General alemo von Lettow, aquilatando o efetivo das foras portuguesas em Mecula pela importncia do revs sofrido, fez organizar sem demora um forte destacamento de 2.000 askaris, 250 alemes, com 10 metralhadoras, que sob o comando do general Whale, dirigiu na madrugada de 6 de Dezembro um violentssimo ataque posio de Mecula. As metralhadoras alems produzindo uma grande massa de fogos procuravam facilitar o envolvimento desta posio pela infantaria africana, os askaris, disciplinados e habilmente dirigidos por oficiais e sargentos europeus. Todas as tentativas do atacante foram, porm, baldadas perante a firmeza, a energia viril e a admirvel resistncia dos portugueses. Combateu-se ininterrompida e encarniadamente nos dias 6 e 7, sem que os persistentes esforos dos alemes conseguissem fazer arredar p aos corajosos portugueses, a quem a enrgica atitude do intemerato capito Curado, com a aurola do seu prestigio crescente, insuflava novas foras, nimos novos para resistirem s violentas investidas dum tenaz adversrio. No entretanto o sagaz general von Lettow, posto em cheque por um punhado de portugueses e duas centenas de recrutas indgenas, compreendera a necessidade impretervel de congregar mais elementos para decidir o teme roso pleito em que o prestigio alemo em terras de Africa estava prestes a soobrar. Novos reforos acorreram ao campo da luta e, na manh de 8 de De zembro, a artilharia alem troou retumbantemente pelas serranias de Mecula, tornadas baluarte inexpugnvel da heroicidade portuguesa.

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    A Grande Guerra

    No s as trincheiras, mas ainda os abrigos blindados das metralhado ras comearam a ser atingidos pelas granadas alems; nobre sangue portugus correu abundantemente assinalando com largas manchas rubras o terreno do combate. Mas ningum vacilou. A febre, a sobrexcitao heroica, prprias das grandes crises, apossara-se de todos os combatentes, que obravam prodgios de bravura. Parece que um fludo estranho eletrizara as fileiras portuguesas, como que pairando nelas o espirito guerreiro que imortalizara os nossos avs em Ormuz, em Malaca e em Ceilo. Todavia, a crise no podia prolongar-se. A aco mortifera da artilharia inimiga permitira que a infantaria, a rainha das batalhas, a arma da deciso, se infiltrasse pelas ravinas, por todas as anfractuosidades da montanha e a posio dos heroicos portugueses fosse envolvida por foras dez vezes superiores ao exguo nmero dos seus valorosos defensores. A resistncia prosseguia, porm enrgica, feroz, encarniada. Nem a defeco da infantaria indgena, apavorada pelo estampido ater rador da exploso das granadas, nem a perda dos importantes pontos de apoio, que o inimigo conquistara ponta da baioneta, conseguem abater, abalar sequer, a poderosa fora moral que animava os denodados sobreviventes daquela luta homrica, s comparvel em grandeza pica ao desesperado batalhar de AIcacer Kibir. O nervosismo da luta empolgara todas as almas. Agarrados s metralhadoras, cujo crepitar foi incessante em sete horas de luta porfiada, os portugueses prosseguiam na sua obra de devastao e de morte, ceifando a vida de centenares de askaris, que numa avalanche teme rosa se precipitam sobre o ultimo reduto de defesa. As vagas de assaltantes, constantemente renovadas, tornam-se um verdadeiro furaco, contra o qual o punhado de portuguese enfurecidos na luta era, visivelmente, impotente. Cercados, envolvidos por todos os lados num estreito crculo de ferro e de fogo cada vez mais apertado, os restos gloriosos dos heroicos defensores de Mecula, so, enfim, aprisionados. Eram eles, o indmito, o heroico capito Curado, 8 subalternos, 17 sargentos, os cabos e soldados europeus sobreviventes e 36 praas indgenas!

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    em Moambique

    O heroico capito Curado e os seus bravos companheiros haviam salvo briosa e altivamente a honra da bandeira portuguesa. E a mais alta e irrefragvel prova de apreo, em que foram aquilatados por estrangeiros os actos de bravura, de abnegao e de heroicidade praticados por portugueses em trs dias de porfiada e ingente luta no serto de Africa, encontra-se nas prprias manifestaes do inimigo, na grande surpresa e profunda admirao que testemunharam ao constatar como um punhado de bravos, verdadeiros heris, havia resistido to corajosa e ardentemente s furiosas investidas de milhares de homens congregados para os bater. E to gloriosa e singular foi a influencia exercida sobre os generais Whale e von Lettow por estes rasgos de extremado valor, que, no meio das mais altas provas de considerao e apreo, lhes concederam a liberdade sem condio alguma, levando a sua requintada galhardia ao ponto de os fazer acompanhar at s extremas linhas ocupadas pelos askaris por uma fora alem, que os protegeu da fria dos selvagens e os restituiu inclumes ptria, que tanto nobilitaram na heroica defesa de Mecula

    O combate da Serra Mecula, essa resistncia tenaz durante quatro dias, at que a companhia e a bateria de metralhadoras ficaram reduzidas a 36 indgenas, depois do assalto, foi uma das aces mais impressionantes da campanha, dando novo realce figura prestigiosa do valoroso comandante, capito Curado, a quem chamaram o condestvel do Rovuma e que contudo s foi promovido por distino mais de dois anos depois.

    O comunicado dos aliados, em 4 de Dezembro de 1917, dizia: Uma pequena fora alem refugiou-se em territrio portugus, tendo j sido tomadas todas as providncias para a sua perseguio. A este tempo o coronel Sousa Rosa recebia ordem para evacuar Porto Amlia, que constituiria uma nova base das foras inglesas, as quais, conquanto cooperando na defesa da nossa colnia no ficariam subordinadas ao Comando portugus.

    Conforme o relatrio do general ber van Deventer, comandante

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    A Grande Guerra

    em chefe dos Aliados, a situao era por ele interpretada, quanto aos alemes, supondo-se que os seus propsitos seriam prolongar a campanha, evitando empenhar-se a fundo, para poder durar por mais tempo, enquanto do lado dos aliados o plano de campanha a efectivar nos primeiros meses de 1918, aps as chuvas que em regra calam em Maro, seria cercar os alemes que se mantinham no centro dos territrios da Companhia do Niassa, entre os rios Rovuma e Lrio.

    A 13 de Dezembro de 1917 chegam os transportes ingleses a Porto Amlia e comea a morosa organizao duma coluna inglesa, sob o comando do coronel Rose, enquanto o general van Deventer vai a Loureno Marques conferenciar com o governador-geral interino da nossa colnia, porquanto o governador lvaro de Castro retirara para a Metrpole. Em meados de Abril de 1918 todas as foras inglesas desembarcadas em Porto Amlia ficam sob o comando do general Edwards e tomam o contacto com os alemes, que combatem sucessivamente em todas as frentes com sensveis perdas de ambos os lados, atingindo por vezes um dcimo dos efectivos. No ms de Maio o cerco aos alemes mais apertado; os portugueses continuam em Chomba e no rio Lrio, enquanto os generais Edwards e Hawthorn, este vindo do Niassa, estabelecem ligao entre si. Mas os alemes conseguem escapar-se para o Sul atravessando o rio Lrio em diversos vaus e abandonando duas ambulncias carregadas de doentes e feridos, para tornar mais mveis as suas foras, e assim, em Junho surpreendem algumas foras portuguesas j no distrito de Quelimane, dizendo nas suas memrias o comandante que os oficiais estavam tomando caf na varanda do posto.

    A ignorncia do servio de patrulhas foi a nossa maior deficincia tctica, deixando-nos surpreender com frequncia e tolhendo-nos os movimentos. Semelhantemente os ingleses muito sofreram pela mesma falta das suas tropas.

    Em vista da ameaa alem sobre Quelimane, o dispositivo aliado desloca-se para o Sul. O coronel Sousa Rosa muda o seu Quartel-general para Quelimane e o general Edwards transfere o seu para Moambique. Os cruzadores Adamastor e Thistle protegem

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    em Moambique

    a vila de Quelimane, sendo ali os portugueses reforados por um batalho de trs companhias indgenas inglesas.

    Os alemes marchavam com um grupo de trs companhias em guarda avanada seguida pelo grosso das foras a um dia de marcha e a guarda da retaguarda a duas etapas depois. As instrues de von Lettow tinham por fim procurar munies

    O nosso servio de segurana continuava entregue provisoriamente ao oficial ingls, o qual em 30 de Junho, vspera do combate de Nhamacurra, dizia: No h notcias do inimigo. O Rio Licungo no vadevel. Pois no dia seguinte, 1 de Julho, os alemes da guarda avanada atravessavam a vau o Licungo; verdade que os homens tinham gua pelo pescoo e a operao da travessia do rio levou horas a executar.

    Nhamacurra, 40 quilmetros a Norte de Quelimane, um grande depsito duma Companhia Aucareira, estao do caminho-de-ferro de Quelimane, depsito tambm servido por um rio navegvel; os depsitos tinham trezentas toneladas de acar e outros gneros.

    O comando das foras aliadas pertencia a um major portugus, mas por fim coube a um tenente-coronel ingls Brown, promovido na ocasio. A posio das trincheiras, com trs quilmetros de desenvolvimento, era cortada por uma difcil linha de gua, tendo sido guarnecida por trs companhias portuguesas e duas inglesas. Conforme o relatrio do comandante em chefe van Deventer, na tarde de 1 de Julho, o sector Oeste da posio foi surpreendido e torneado, e, apesar de os oficiais e sargentos portugueses terem combatido durante trs horas com bravura, todo o sector, com duas peas de tiro rpido, caiu em poder do inimigo, tendo os portugueses dois oficiais e um sargento mortos, muitos feridos e onze oficiais prisioneiros.

    No dia 2 os alemes voltam a atacar, j com o grosso sob o comando de von Lettow, mas so repelidos. s 6 horas da manh do dia 3, repetem o ataque com maior intensidade e s 15 horas abrem fogo com a artilharia, provocando desordem o aparecimento de civis nas trincheiras, e o pnico rebenta fugindo as tropas para o rio, onde morrem afogados o comandante ingls Brown e muitas praas, devido

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    A Grande Guerra

    forte corrente e largura do rio avaliada em 80 metros. Dos europeus ficaram prisioneiros, quase todos feridos, 5 ingleses e 117 portugueses, conseguindo evadir-se de noite cerca de 55 portugueses. Alm das duas peas desmanteladas, os alemes tomaram 7 metralhadoras pesadas e 350 espingardas portuguesas e inglesas.

    Depois deste renhido combate de Nhamacurra, ainda apareceu subindo o rio um vapor com munies e abastecimentos, o qual foi tambm capturado pelos alemes, que j no tinham carregadores que pudessem transportar to valiosas presas.

    Os alemes fizeram depois correr o boato de que iam atacar Quelimane, tornando assim inquietante a situao da vila, onde foi logo dada ordem para o embarque nos cruzadores, das mulheres e crianas bem como dos valores do Banco, e se tomaram disposies de defesa, contra a possibilidade daquele ataque.

    Nhamacurra foi, talvez, o comeo da derrota das foras alems em Moambique. Foi uma vitria das tropas portuguesas no s porque resistiram com valor, mas porque obrigaram os alemes a retirar, a repensar as suas intenes de prosseguir com o seu avano no territrio de Moambique e a inverter a sua marcha e a regressar ao Tanganica.

    Nhamacurrapor Antnio Jos de Campos Rego, Alferes de infantaria

    Aps o combate de Negomano, os alemes de von Lettow, prosseguindo na sua incurso atravs do norte da colnia de Moambique, pelos fins de junho de 1918 tinham conseguido penetrar na regio de Quelimane, arrasando culturas e assolando povoaes, no tendo as colunas anglo-portuguesas lanadas no seu encalo, apesar de grandes esforos, logrado det-los no seu avano rpido e impetuoso.

    No dia 26 foi assinalada a sua presena ao norte do rio Licungo, pelo que o comando das foras aliadas deliberou opor-lhe a possivel resistncia. Com esse fim 2 companhias indgenas de infantaria, uma

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    divi so de artilharia e duas outras companhias britnicas do King Army Rifles foram concentradas em Nhamacurra tendo como misso barrar ao invasor a marcha sobre Quelimane, protegendo assim a cidade dos perigos de um ataque inevitvel e desastroso atentas as diminutas condies de defesa.

    Desde 29 de Junho comeou a faina dos trabalhos de execuo dos abri gos e das trincheiras.

    Exigiu o comando das foras que no dia 2 de julho, pela manh, fossem guarnecidos devidamente todos os postos de defesa. Desde a madrugada de 1, portanto, em todos os sectores se trabalhou intensamente, decorrendo os trabalhos sem novidade e nada fazendo prever a lamentvel tragdia prxima.

    Do inimigo continuava a saber-se que permanecia na mesma regio.

    Um reconhecimento nosso lanado na antevspera confirmara estas sus peies.

    Cerca das 16 horas, quando se ultimavam os perfis dos entrincheiramen tos e se procedia colocao das metralhadoras em banquetas apropriadas, repentinamente, sobre a esquerda da companhia, soaram muitas detona es.

    Nada demonstrava que fosse o inimigo, pois que o julgvamos bem longe. Na previso, porm, de qualquer anormalidade, deu-se ordem s praas para ocuparem os seus lugares de combate, frente ao inimigo, dedo no gatilho.

    O tiroteio era terrvel, momento esse de incerteza bem angustiosa! De sbito alguns soldados indgenas correndo para o local onde se achava a postos a nossa guarnio deram o grito de alarme. o inimigo que surge, atacando-nos de surpresa pela esquerda e rectaguarda, traioeiramente, conhecendo as nossas posies devido ao seu maravilhoso servio de espiona gem. grave o perigo que nos ameaa, envolvidos como estamos sendo. Num relance as praas saltam dos abrigos e, invertendo a posio de defesa, fa zem das terras do parapeito um improvisado abrigo, dirigindo logo fogo intensssimo sobre o boche que, agora, avanando para ns, mascarado com o

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    A Grande Guerra

    sisal e com os morros de salal, aproveita a vantagem da sua situao e nos fuzila com rajadas de metralhadora e fogos de espingarda.

    Tombam os primeiros mortos. Situao bem angustiosa aquela: Na nossa frente os alemes

    em ban dos numerosos, resolutos e audazes, no seu ataque varrem a nossa trincheira com rajadas intensssimas; esquerda um rio largo e profundo, dificultando nos a retirada na outra margem, sem poder-nos socorrer sequer, a 21.a Companhia e as duas companhias do K A. R. e finalmente, na nossa retaguarda, o mistrio do serto e a ameaa sria de sermos atacados por mais foras alems postadas em reserva.

    A nossa artilharia, frente agora de ns, e sob a direco do heroico alferes Lemond, sofre tambm os embates impetuosos do boche ripostando ao ataque ainda com duas granadas.

    Tardio esforo! O alemo, emboscado no meio do sisal, rompem uma nutrida fuzilaria contra as guarnies das peas, matando vrias praas e prostrando com uma bala no ventre o bravo alferes Lemond, quando frente das peas se preparava para as encravar. Outro tanto sucede ao alfe res Campos Rego quando, com o peloto de reserva, iniciava, num arranco he roico, um contra-ataque que resultou infrutfero. Mando o bravo soldado indgena Tabu, minha ordenana, ir frente do nosso abrigo ver de que lado se pronuncia mais vigorosamente o ataque, para se procurar avaliar as foras contrrias e estabelecer a ligao com o nosso comando. O valente negro, resoluto, rastejando qual reptil pelo meio do sisal, demora-se uns mi nutos, voltando depois a trazer-nos a triste nova de que a nossa companhia, completamente envolvida pelos inimigos, impotente para resistir e que o reforo da posio era impossvel.

    Maldio! Sobre ns as balas silvam implacavelmente. Corre j em abundancia na trincheira o sangue generoso de mortos e feridos. A meu lado, imperturbvel, o alferes Mrias descarrega com fria a sua metralhadora s bre os alemes. A fuzilaria cada vez mais temerosa. J estamos exaustos de munies e com a retirada cortada. Ningum acode ao nosso peloto, nesta hora de crudelssima incerteza. O que vai ser de ns?

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    E urgente tomar uma resoluo. E ambos, eu e o alferes Mrias, ordenamos a destruio das metralhadoras que possumos e mandamos quebrar as culatras s espingardas, o que tudo se fez rpidamente.

    Os alemes, calado o nosso fogo e certos j da nossa impotncia, sa bendo-nos sem reforo nem remuniciamento possivel, avanam agora ao as salto em massa compacta, ululantes, as cornetas tocando vibrantemente carga. De que serve resistir, sem glria, se no temos munies? com lgrimas de raiva correndo-nos a todos pelas faces requeimadas que vemos chegar trincheira, cercando-a completamente, os askaris alemes, verdadeiras feras, de olhos esgazeados, matando e ferindo doida os nossos bravos landins.

    De repente, no momento em que empunhava a pistola para derribar um askari que pretendia liquidar-me sumriamente, uma mo pesada e brutal esmaga-me o pulso. um hauptmann, especie de gigante alto e ruivo, que, em voz rouca, me grita: Vous tes prisonnier, Mr.

    No resisto. De que serve tal se a trincheira atulhada de mortos e de feridos atesta bem que todos ns cumprimos o dever at onde era possvel?

    Os poucos soldados que restam so imediatamente aprisionados. Peo ao oficial inimigo que seja humano para aqueles que pela bandeira de Por tugal souberam cumprir o seu dever.

    E ao passarmos ambos pelo local onde, com o peito esburacado por uma bala inimiga, jaz inanimado o meu pobre irmo, peo-lhe mais que me deixe despedir dele, prestar-lhe ali a ltima homenagem de fraternal sau dade.

    O haupfmann acede minha splica. E choca-me a sua correco quando, ante o cadver ainda quente do oficial inimigo que pouco antes to valorosamente hostilizara os seus, o boche, por seu turno, se perfila e faz uma impecvel continncia.

    Afinal de que valeu o combate de Nhamacrra sob o ponto de vista tctico? De nada qusi, em verdade o dizemos. justo porm considerar que foi aqui, nesta dura tape de valor e sacrifcio para

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    A Grande Guerra

    as nossas armas, que sofreu um duro choque a investida alem, reconhecendo von Lettow as dificuldades insuperveis da empresa de investir Quelimane e resolvendo-se a retirar sem atingir o seu objetivo.

    As nossas tropas, muito em especial a infantaria, apesar de inferior em nmero aos alemes, conseguiram parar, embora com doloroso sacrifcio, a tenaz e audaciosa ofensiva de von Lettow.

    Ali, como sempre, a tropa de frica conquistou merecido renome, sabendo morrer com honra.

    A infantaria negra teve ali uma das mais belas pginas da sua epopeia de valor e sofrimento, sabendo ser valente at ao sacrifcio e merecendo bem da Ptria. Os 46 mortos e 66 feridos desta dura refrega atestam bem o va lor e mais palavras no sero precisas para afirmar o brio e o patriotismo que ali manifestaram sobejamente todos aqueles que, nesta hora pungente de sacrifcio, souberam at ltima gota de sangue cumprir o seu dever apesar de a sua aco ser ainda, por mal de nossos costumes, incertamente conhe cida e apreciada pelas instancias oficiais. Lisboa, 7 de Maio de 1920

    Em Nhamacurra verificou o comandante von Lettow que muitos soldados indgenas dos ingleses eram j recrutados na frica Oriental Alem, incluindo tambm bastantes antigos soldados alemes, donde se prova a facilidade com que um soldado indgena se pode alistar sob diferentes bandeiras, continuando a ser bom soldado.

    Para ns, verificou-se neste combate a dificuldade de cooperao com os ingleses, resultante do nosso infeliz desconhecimento mtuo.

    O combate de Nhamacurra foi a ltima aco importante dos portugueses no perodo do comando do coronel Sousa Rosa, que em 7 de Julho regressava Metrpole. Foi nomeado comandante em sua substituio o general Gomes da Costa, meses antes regressado da Frana, o qual, porm, s chegou a assumir o comando em 21 de Dezembro, depois do armistcio.

    Nunca se percebeu muito bem qual foi a inteno do General

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    von Lettow ao invadir Moambique, atacando os postos portugueses com extrema violncia, deambulando pelo territrio do norte de Moambique quase um ano, retirando-se de novo para o territrio do Tanganica, ao norte do Rovuma.

    No vero de 1917 o desfecho da guerra no estava ainda claramente definido. A vitria s se tornou clara para os aliados j em 1918, graas ao esforo americano.

    Pensamos que, por ordens recebidas ou por sua iniciativa prpria, von Lettow quis oferecer a uma Alemanha vitoriosa os territrios de Moambique ao norte do rio Zambeze efectivamente ocupados para os poder reclamar mesa das negociaes de paz.

    S assim se entende a disperso das suas foras em duas grandes colunas, uma sob o seu comando pessoal e a outra sob o comando do general Wahle. Von Lettow atacou os postos portugueses de Negomano e de Mecula com extrema violncia, mas, estranhamente, no os deixou guarnecidos, provavelmente porque se situavam em terra de ningum. S em Nhamacurra as tropas luso britnicas ofereceram uma resistncia inesperada, impedindo-o de ocupar Quelimane, a nica cidade cabea de territrio cuja ocupao poderia justificar um claim sobre os territrios do Norte, uma vez que Porto Amlia estava guarnecida com tropas anglo portuguesas e Nampula no existia.

    A derrota de Nhamacurra e o desenvolver da guerra fizeram o resto, e von Lettow viu-se obrigado a abandonar o seu amigo, o general Wahle, e acabou por receber as ordens de rendio j de novo nos territrios do Tanganica, nas margens do lago Niassa, agora ocupado pelos ingleses.

    O governador da colnia, major lvaro de Castro, que acompanhou de perto todas as operaes no norte de Moambique, tendo sido um dos principais entusiastas da passagem das tropas portuguesas margem esquerda do rio Rovuma, faz a seguinte

    evocao do que foi aquela campanha:

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    A Grande Guerra

    Evocaespor lvaro de Castro, Major de infantaria.

    Evocar a campanha no norte da Provncia de Moambique recordar um doloroso perodo de patritico esforo onde se manifestaram, com singular relevo, soberbas figuras de soldados. E agora, que j o tempo vai apagando a nitidez fotogrfica das imagens e dos factos, na bruma mental das coisas confusas do passado, uma ou outra figura avulta com uma preciso estranha e singular, como num vasto areal deserto se destaca esguia e airosa uma palmeira solitria: so os heris temerrios ou tenazes, que ao servio da Ptria puseram toda a sua energia e vitalidade lusitana.

    Todas as armas, todos os servios tiveram heris. A infantaria pode orgulhar-se dos seus.

    Perpassam na minha mente vertiginosamente a imagem dos factos, das pessoas e das coisas.

    Terminou o combate no dia 27 de Maio de i916, que fora travado para tentar a passagem do Rovuma.

    A bordo do Adamastor, onde me encontrava, sem interveno na direo da luta que se travara, iam chegando as noticias, os feridos e os mortos. Anoitecia lentamente. Sabia-se que o flanco esquerdo, auxiliado na travessia pelo desembarao e valentia do aspirante Prestes Salgueiro, coman dado o troo da vanguarda pelo capito Torres e protegido o avano pela artilharia do capito Mota Marques, conseguira atingir a margem inimiga, recebendo, quase simultaneamente a ordem de retirar porque o flanco direito fora totalmente rechaado. A temeridade do capito Alpoim colocara as baleeiras na zona mortfera das metralhadoras inimigas. Na margem inimiga ficara a baleeira da Chaimite do comando de Matos Preto. Matos Preto, alma de heri de rara tempera, inabalvel como o destino e sombrio como o remorso, decidiu reaver sozinho a baleeira. Marchou. Um tiro isolado na noite deu base noticia que Matos Preto fora morto ao aproximar-se da margem alem. Passou um ano, to grande foi o perodo de cativeiro, antes que eu tivesse o prazer de o

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    abraar. E falando neste soberbo marinheiro no posso esquecer

    o comandante Joo Belo, o comandante Brito (Brito dAngnia), aspirante Maia Rebelo, os maquinistas Ferreira, Veiga, Ribeiro, etc.

    Que beIa tempera de patriotas! E o major de artilharia Leopoldo da Silva mortalmente ferido

    em Sucumbiriro, num rude combate de algumas horas, depois da ocupao de Nevala? Distinto oficial, militar de alta envergadura, vontade de ao.

    Ia j longo o combate, as baixas eram em nmero elevado, faltavam mu nies nas metralhadoras e no havia serventes. O major Leopoldo da Silva, natureza superior de comando, num relance v o perigo, e, com a rara co ragem dos que tm f e espirito de sacrifcio, carregando cunhetes, remunicia as metralhadoras, enquanto uma bala de efeitos mortais o no atinge. Os oficiais que tiveram conhecimento do trgico acontecimento ocultaram-no para que o combate continuasse e terminasse, assegurando-nos a vitria.

    E a infantaria? Ocorre-me o major Teixeira Pinto, o primeiro morto do

    combate de Ne gomano; e, o tenente Viriato Correia de Lacerda, o ultimo morto do combate na serra Mecula. As foras do comando do major Teixeira Pinto tinham atingido Nego mano, na margem do Rovuma e preparavam os seus acampamentos e defesas. As foras alems, no mximo dos seus efetivos, com o governador da co lonia alem, comeam a atravessar o Rovuma em direo ao sul, quando, pela explorao de flanco, se apercebem da presena das tropas portuguesas. Hesitam, mas o comando toma uma deciso e, ainda em meio da tra vessia; cai a fundo sobre as nossas foras. O coberto do terreno permi te-lhes a aproximao das foras portuguesas sem perigo. O major Teixeira Pinto, o heri da Guin, sobe a um montculo, cercado pelo zumbir das balas mortferas, para com um exemplo de coragem exaltar a coragem dos seus soldados. No teve tempo de articular uma palavra. Foi um gesto de heroicidade antiga que a guerra moderna j no admite, mas que o nosso entusiasmo aplaude

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    com vivacidade. Francisco Pedro Curado, ao tempo capito de infantaria, de

    energia j revelada, assinalou a campanha do norte de Moambique com uma pgina duma rara gloria que jamais se apagar da nossa histria militar.

    Serra Mecula um nome que Curado e os seus companheiros (Viriato Lacerda, Rego, Guedes, Pimenta, etc.), com singular coragem e nobre pa triotismo, transformaram dum vago lugar dos territrios da Companhia do Niassa num monumento energia e ao valor das tropas portuguesas.

    Na Serra Mecula travam-se os combates de 3, 6, 7 e 8 de Dezembro de 1917. Comanda as foras portuguesas, num total de 250 espingardas e 5 metralhadoras o capito Curado. Comanda as foras alems, no mximo dos seus efetivos (8 companhias, metralhadoras, alm da diviso de arti lharia e foras de reserva), o general Wahle, acompanhado de von Letow e o governador von Schnee.

    A resistncia da pequena coluna portuguesa foi levada ao extremo de sacrifcio, devido s superiores qualidades do comando e das tropas. Sem reservas, abandonada das foras inglsas, que se encontravam a menos de 3 dias de viagem, teve o desenlace inevitvel, previsto desde o primeiro dia de combate. O comando alemo no queria acreditar que se batera com uma to reduzida fora e s ficou convencido quando, com minucia e detalhe, passou revista aos reduzidos entrincheiramentos. Ento compreendeu que tinha na sua frente verdadeiros heris e teve para eles requintes de genti leza, deixando-os seguir livres com as suas armas e bagagens.

    O funeral do tenente de infantaria 21 Viriato Sertorio da Rocha Portugal Correia de Lacerda foi uma consagrao. Teve lugar s 8 e 1/2 do dia 9. O funeral foi dirigido em pessoa pelo governador Schnee, acompanhado do seu chefe de estado-maior. O governador abria o cortejo, seguindo-se os oficiais portugueses, vindo depois todos os graduados duma companhia ini miga. Junto do coval, abrem-se alas e o cadver do oficial portugus, conduzido por quatro europeus, passa por entre fileiras de amigos e inimigos, em rigorosa continncia. A

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    em Moambique

    fora alem deu as descargas do estilo. Um a um os oficiais alemes lanam sobre a sepultura um punhado de terra. O governador Schnee apresenta os seus psames aos oficiais portugueses.

    Dos que combateram em frica quem no recorda, com respeito e saudade, o capito Humberto da Atade?

    o heri digno de figurar nas pginas de ouro das nossas glrias orientais. Depois duma gloriosa vida militar em campanha reedita o gesto de Silva Porto, suicidando-se, para que os seus olhos de portugus no vejam o que ao seu corao de patriota e de militar se afigurou uma desonra. Asdesataviadaspalavrasqueaficam,soassingelasfloresde saudade e mgoa que eu, com profunda emoo, lano nas vagas e dispersas sepulturas dos nossos mortos de frica, como preito da minha mais alta admirao e do meu mais profundo respeito.

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    em Moambique

    Captulo 5

    O armistcio

    0s planos do comandante von Lettow foram sempre derivados das circunstncias, mas confiando na sorte da guerra. E assim, ele diz que se demorou em Nhamacurra para poder fazer uma demonstrao na direco de Moambique, onde havia grandes depsitos dos Aliados. Em Agosto, o plano geral de Von Lettow era marchar para Oeste, em direco a Blantyre na Niassalandia, mas os obstculos de rios e pntanos ao Sul do Lago Niassa fizeram-no preferir retirar para a antiga colnia alem e perturbar os ingleses, que suporiam que ele se dirigia sobre Tabora. No ms de Agosto continuam os alemes os seus movimentos com vrias surpresas e recontros, onde colhem alguns reabastecimentos; e no ms de Setembro, seguindo francamente a direco Norte, atravessam o Rovuma, na confluncia do Luchulingo, em 28, contando ainda efectivos de 176 europeus, 1.487 soldados indgenas, com uma pequena pea, 40 metralhadoras e 3.000 carregadores indgenas.

    Agora o cerco planeado pelos ingleses tem de se transferir para o Norte do Rovuma.

    Pelo Lago Niassa os ingleses transportam as tropas de Oeste, sob o comando do general Hawthorn, enquanto que por Leste as foras do general Edwards desembarcam em Dar-es-Salam e seguem pelo caminho-de-ferro para Tabora. A 4 de Outubro estabeleceu-se o contacto. A 18, os alemes abandonam por doente, com uma ambulncia de feridos e doentes, o velho general Wahle. As etapas alems eram de 30 a 35 quilmetros e assim entraram na Rodsia atacando em 2 de Novembro, pilhando os depsitos ingleses e apossando-se de 4 000 bois. Em 11 de Novembro de 1918 as foras de polcia da Rodsia

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    A Grande Guerra

    eram apressadamente mobilizadas e os belgas organizavam, por seu lado, uma coluna de perseguio contra os alemes, mas estes, infatigveis, marchavam pela linha de comunicaes inglesa, numa situao bizarra e imprevista, servindo-se da prpria linha telegrfica britnica.

    Em 12, quando o comandante von Lettow marchava em bicicleta, foi-lhe transmitida a primeira notcia do armistcio por um motociclista vindo das foras inglesas com bandeira branca. A confirmao foi-lhe entregue depois, meia-noite, dizendo o telegrama do ministro da guerra ingls que a clusula 17. do armistcio, pedido pelo Governo alemo, previa a rendio, sem condies, de todas as foras alems que operavam na frica Oriental.

    Nas condies impostas pelo Comandante em chefe dos Aliados, general van Deventer, era permitido aos europeus alemes conservarem, de momento, as suas armas pessoais, considerando o valor com que tinham combatido.

    Em 13, caso curioso, ao comunicar com as tropas Inglesas que o perseguiam, ainda o comandante alemo lhes teve de ceder algumas cabeas de gado apreendidas, com o fim de os ingleses se poderem alimentar. Em 14 de Novembro, os alemes ficaram subordinados ao comissrio civil ingls em Kasama, H. C. Croad, e a cerimnia da rendio das foras alems realizou-se em Abercorn, ao sul do Lago Tanganica, em 25 de Novembro, perante o general Edwards, lendo a declarao o comandante von Lettow.

    As foras alems compreendiam: O comandante, o governador da colnia e um oficial superior;

    20 oficiais, 5 mdicos civis e 1 militar, 1 veterinrio, 1 farmacutico e 1 oficial de telegrafia de campanha; 125 europeus de vrias graduaes; 1.156 soldados indgenas; 1.598 carregadores.

    A pequena fora alem que, diz o seu comandante, nunca contara maior efectivo que 300 europeus e 11.000 soldados indgenas, dera que fazer a uma fora inimiga que mobilizara 137 generais e cerca de 300.000 homens, segundo os oficiais ingleses lhe disseram. Poder nestes nmeros haver exagero, mas do uma ideia relativa das

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    em Moambique

    foras em presena. As foras portuguesas vindas sucessivamente da Metrpole atingiram 18.613 praas, enquadradas por 825 oficiais.

    As 30 companhias indgenas e as 6 baterias indgenas de metralhadoras mobilizaram 303 oficiais, 682 graduados europeus e 10.278 soldados indgenas, havendo mais a contar duas baterias de montanha e uma companhia montada da Guarda Republicana de Loureno Marques. As foras de marinha mobilizaram um batalho de duas companhias. Mobilizaram-se tambm 8.000 auxiliares indgenas das capitanias mores de Moambique.

    Assim as nossas foras mobilizadas atingiram nesta colnia um total de 39.201 homens.

    Os carregadores portugueses fornecidos s tropas inglesas elevaram-se a 30.000 e os empregados pelas nossas tropas atingiram 60.000; as perdas totais na nossa populao indgena de Moambique deviam ter-se aproximado de 100.000 almas.

    Foram os nossos batalhes de infantaria 21 e 31, das guarnies de Penamacor, Covilh e Porto, as unidades que maior desfalque sofreram por doenas. Da expedio que ocupou Quionga e qual pertencia infantaria 21, regressaram em 1916, somente 300 praas das 1.500 que tinham embarcado, no mesmo vapor Moambique, um ano antes.

    Armistcio encontrou as nossas tropas fatigadas e inertes, mas com dez milhes de cartuchos nos depsitos, mostrando bem que se pode comprar material, mas no se compram nem se improvisam a robustez e instruo militar, que exigem principalmente metdica preparao.

    A campanha dos portugueses em Moambique fora entretanto uma parcela aprecivel no esforo dos Aliados para a conquista da frica Oriental Alem, embora circunstncias desfavorveis tivessem diminudo o brilho das primeiras operaes levadas a efeito em territrio alemo por tropas improvisadas, e tivessem prejudicado a eficincia das tropas indgenas, precipitadamente recrutadas e instrudas, com graduados, em grande nmero, sem experincia colonial.

    Do outro lado h muito que aprender, aplicvel em campanhas

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    A Grande Guerra

    coloniais. Foi aquela defesa da colnia alem um manancial de ensinamentos na arte da guerra, mostrando quanto se poder conseguir de boas tropas indgenas. Todavia, como sntese devemos notar que, quando aps a guerra, o comandante alemo von Lettow publicou as suas memrias, nelas se limitava a salientar que o notvel esforo das suas tropas fora devido aos sentimentos de mtua e firme cooperao, sem os quais a vitria no possvel.

    O Armistcio encontrou as tropas alems numa situao curiosa, apossando-se dos abastecimentos duma linha de comunicaes inglesa e assim colhendo o fruto da grande capacidade militar do seu comandante e da perfeita preparao dos graduados que enquadravam os seus soldados indgenas, sendo hoje opinio formada que essas tropas marchavam sobre Angola, confirmando a afirmao de Antnio Enes, na Guerra de frica de 1895, que em frica ou se fazem milagres ou no se faz nada

    Portugal queria conservar as suas colnias, e para esse fim ns portugueses participmos na guerra e improvismos precipitadamente tudo que estava ao nosso alcance. Mas em Moambique debatamo-nos, sobretudo, num clima difcil e na falta de preparao militar para uma campanha to tenaz. Para as nossas foras, as operaes decorridas em trs anos de guerra e os sacrifcios impostos pelo clima, devero contudo merecer o respeito das geraes nacionais vindouras. Bastantes figuras da nossa campanha de Moambique sero dignas de estudos biogrficos e bastantes episdios sero dignos de monografias, com o fim de mais concretamente se apontarem as faltas a remediar no futuro. Continua o General Bispo, citamos: O Armistcio com a Alemanha teve lugar a 11 de Novembro de 1918, e s a 18 de Janeiro de 1919 teve incio a Conferncia de Paz em Paris; a ra zo des te atraso ficou a dever-se realizao de eleies gerais na Inglater ra pa ra legitimar o mandato dos seus delegados. A Conferncia revestiu-se de grande complexidade, pela natureza dos temas a tratar, e seguiu um princ pio rgido de hierarquizao; de facto, foi estabelecido um Conselho Supre-mo composto pelas quatro maiores potncias (Estados Unidos, Ingla-

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    em Moambique

    terra, Frana e Itlia; para alguns temas mais o Japo), e constitudas onze comis ses especializadas (organizao da Sociedade das Naes, responsabilida des da guerra e garantias de paz, reparaes, legislao internacional do tra balho, portos internacionais, vias de comunicaes, questes financeiras, ques tes econmicas permanentes, aviao, assuntos navais e militares e ques tes territoriais), algumas delas com vrias subcomisses. As potncias de menor poder sofreram naturalmente as consequncias deste princpio organizativo; a delegao portuguesa teve que lutar com insistncia para ocu par lugares nas comisses de maior interesse, embora os outros mem bros tenham posteriormente reconhecido a importncia dos seus contribu-tos. Por ou tro la do, as potn cias organizadoras tiveram a ambio de, ao mesmo tem po que pretendiam resolver as penalizaes e os termos da der rota das po tn cias centrais, criar uma organizao internacional com a fina li da de de regular a relao inter na ci o nal no sentido de resolver conflitos e garantir a Paz, no futuro. Uma das comisses tratou apenas do Pacto das Naes, ou seja, da criao da Liga das Naes, estabelecendo-se assim esta grande diviso de temas.O Acordo da Liga das Naes foi finalizado em 28 de Abril de 1919 e o Tratado de Versailles (termos da paz com a Ale man ha) em 28 de Junho de 1919, os outros tratados com as restantes potn cias centrais foram sendo sucessivamente assinados.A delegao portuguesa sofreu uma alterao significativa na sua composio durante o perodo das negociaes, por razes polticas internas; contudo a orientao dada inicialmente no foi alterada. Essa orientao consistiu essencialmente no seguinte: procurar seguir as posies inglesas no sentido de encontrar por essa via as foras que melhor defendessem as posies nacionais (tentar conciliar propostas com o aliado); salvaguardar a integridade territorial e procurar os melhores resultados quanto a reparaes e indemnizaes; em particular participar na distribuio de material militar alemo e recuperar os navios alemes apresados em 1916 e que entretanto estavam ao servio dos aliados. evidente que a questo colonial estava no centro da agenda portuguesa. Portugal foi a Paris procurar prestgio e

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    reconhecimento internacional, essencialmente; nesta matria no ser possvel afirmar que o objectivo tenha sido plenamente alcanado, assim como tambm no se poder dizer que houve uma degradao significativa, o estatuto de muito pequena potncia independente manteve-se. Numa tentativa de conciliao de posies a delegao portuguesa passou por Londres antes de se dirigir a Paris, embora os resul ta dos obtidos com esta estratgia nem sempre ten ham sido os esperados. As negociaes no fo ram fceis, porque no seu decorrer foram produzidos incidentes artificial men te colocados, que teriam preju di ca do o interesse nacional se no tives sem sido desmontados, conforme ficou patente pelos vrios protestos apre sen tados pela delegao portuguesa.Desde logo, a definio de um estatuto que correspondesse ao esforo rela ti vo de guerra e s consequncias materiais e em baixas humanas, consti tua um objectivo prioritrio. O discur so oficial de abertura do Presidente Francs no foi favorvel quando referiu que Portugal era um dos pases que tinha transitado de uma situao inicial de neutralidade para uma inter veno tardia; obviamente que esta declarao prejudicava o estatuto de Portugal, o que obrigou a uma reaco da delegao para demonstrar a sua impreciso.Entre outros problemas, a delegao portuguesa sentiu que o territrio colo nial poderia vir a estar em risco. No caso de Moambique sobressaiu uma dvida quanto posse de Quionga, muito embora tenha sido reconquistada aos alemes antes do fim da guerra; no fim prevaleceu a verdade dos factos e foi reconhecido como territrio portugus. Por outro lado, as Companhias Majestticas do Niassa e de Moambique, de capitais maioritariamente es tran gei ros, nem sempre se comportaram de forma a salvaguardar a sobera nia portuguesa. A posio idealista do Presidente Americano e a proposta poltica dos mandatos obri gou a que Portugal tivesse que apresentar um Pla no Administrativo para as Colnias e que o tivesse defendido com muita determinao. Pelo meio desta negociao, certamente em ambiente de guer ra de informao, surge a acusao de tortura pelas foras portuguesas contra indgenas, que obrigou a vrios inquritos, e a uma

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    contra acusao dirigida s foras inglesas de teor idntico. A presso da Unio Sul Africa na, exigindo parte do territrio de Moambique, foi outro factor contra o qual se teve que lutar, dentro e fora do local das negocia es.No mbito do objectivo de reforo de reconhecimento internacional, a dele gao desenvolveu uma sria de aces para garantir um lugar na Comisso Executiva da futura Liga das Naes; foi surpreendida, no final com a atribuio desse lugar a um Pas que tinha sido neutral, a Espanha, o que deu origem a um forte protesto. Refira-se a propsito que a primeira presi dn cia da Assembleia Geral veio a ser atribuda ao Chefe da Delegao Portuguesa Conferncia de Paz.Quanto a reparaes de guerra e indemnizaes Portugal esperava que lhe fosse atribudo um montante correspondente ao seu esforo, e sua situ ao econmica depois da guerra. Os critrios definidos pelo Conselho Su pre mo obrigaram apresentao de vrias propostas de listas e de justifica es, mas no permitiram que a compensao final no tivesse ido alm dos 0,75% do montante global atribudo ao conjunto dos aliados, ou seja, 49,5 milhes de libras, o que no dava sequer para pagar a dvida contrada para a participao na guerra. Para alm deste facto, mencione-se que os pa ga mentos inicialmente progra ma dos no se realizaram conforme acorda do, dado que a dvida alem foi reestruturada por duas vezes at 1933.Tendo em conta o realismo que caracterizou a Conferncia, ao contrrio do idealismo expresso do Presidente Americano, parece poder concluir-se que os objectivos da delegao portuguesa foram razoavelmente alcanados, pe se embora a frustrao sentida pelos seus membros.No final, a delegao portuguesa colocou a hiptese de no assinatura do Tratado de Paz, pelas razes acima referidas. Numa segunda anlise, con cluiu que seria mais prudente proceder assinatura, tendo em conta o que poderia vir a estar em jogo. A afirmao de um dos membros da delegao resume as concluses da participao portuguesa: se as concluses finais no tiveram em devida conta a situao portuguesa, o que teria acontecido se no tivssemos estado presentes? A grande

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    vitria de Portugal foi, sem sombra de qualquer dvida, a manuteno dos seus territrios e das suas fronteiras, tanto na Metrpole como no Ultramar.Em concluso, vale a pena reproduzir extractos do discurso final de protes to do chefe da delegao, com traduo livre, na sesso da Conferncia de 25 de Abril de 1919 :fiquei um pouco surpreendido ao ver ser apresentada hoje, hora a que iam co mear os nossos trabalhos, a proposta do Senhor Presidente Wilson ten dente nomeao dos quatro membros do Conselho Executivo da Soci eda de das Naes. No podemos, desde logo, designar nenhum Represen tan te dum Pas neutro para o Conselho Executivo, por fora do artigo 4 do Pacto. Penso que uma proposta prematura e que hoje no podemos nome ar seno quatro delegados que pertenam Conferncia de Paz, isto , aos Estados beligerantes aliados e associados, e no de Estados que ainda no so membros da Sociedade das Naes, como o caso vertente. A Delega o Portuguesa apresenta to das as suas reservas designao pela Confe-rn cia de Paz de Represen tan tes dum Pas neutro qualquer, como Membro Executivo da Sociedade das Naes.A Delegao Portuguesa no pode aceitar clusulas do Tratado de Paz re lativas s reparaes que no refiram o reembolso dos prejuzos econ mi cos directamente impostos pela Alemanha aos pases que ela colocou na impossibilidade de se reabastecerem em condies suport-veis e de prosseguir o seu comrcio de exportao, tal como aconteceu com Por tugal, assim como o reembolso dos gastos da guerra. Portugal ao reagir declara o de guerra que a Alemanha lhe declarou no teve outra soluo que no fosse defender a sua existncia e a sua integrida-de, sem vislumbrar alarga men to territorial ou quaisquer ambies de ex pan so comercial ou de outra natureza.A Delegao Portuguesa reclama que seja inscrita no Tratado de Paz uma clusula especial tornando obrigatrio para a Comisso de Reparaes a afectao de somas provenientes da Alemanha, com destino prioritrio aos pequenos pases que a guerra arruinou e que esto impedidos de se recupe ra rem pelos seus meios.

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    A Delegao Portuguesa reclama para o seu Delegado o direito de voto na Co misso de Reparaes nas mesmas condies em que ele poder ser exer cido por qualquer outra Nao aliada ou associada.O Tratado de Paz no tem em mnima conta a situao em que se encontra Portugal por virtude da guerra.A declarao de guerra declarada pela Alemanha imps a Portugal a inter ven o militar. Se os custos de guerra e os prejuzos econmicos no forem pagos, a situao financeira de Portugal ser agravada consideravelmente e a reconstituio financeira e econmica do Pas tornar-se- impossvel pelos seus meios.Ningum melhor que ns ps em prtica, desde 1914, as ideias do Direito que o Senhor Wilson se declara como campeo. Ns estamos de acordo que necessrio criar uma sociedade baseada sobre a Justia, mas este Tratado de Paz no que concerne ao que se chama de reparaes o mais formidvel modelo de injustia jamais produzido. fim de citao

    O coronel Pires Monteiro, um estudioso da conferncia de paz, faz o seguinte relato do ambiente poltico que se vivia em Paris, onde todos queriam tirar alguma vantagem, mesmo pstuma, do desastre que se tinha abatido sobre a Europa.

    Na conferncia de pazpor Henrique Pires Monteiro, Coronel

    So hoje bem conhecidas, em seus mais insignificantes detalhes, as dificuldades que houve na organizao da notvel Conferncia de Paris, que deu fim Grande Guerra. S em 18 de Janeiro se iniciaram os trabalhos, havendo um comit de dez ple nipotencirios, representando as cinco principais potncias que permitia a reunio das sesses plenrias de todos os outros Estados de interesses limitados que foram beligerantes efectivos ou... tericos. Esses Estados, onde se inclua Portugal, constituam a Petite table. Foram

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    lentos os trabalhos da conferncia e para os apressar, ainda em 23 de Maro o Conselho dos Quatro substitui os 10 plenipotencirios. S em 7 de Maio os delegados alemes receberam a minuta do Tratado de Paz, e aps a resposta categrica dos aliados, dada em 16 de Ju-nho, contraproposta alem, foi assinado, em 28 de Junho de 1919, na Galeria dos Es pelhos do Palcio de Versalhes, o to discu tido Tratado de Versalhes.

    Portugal fez-se representar na Conferncia de Paz como era seu direito de Estado beligerante. Se no tivssemos entrado na guerra, j hoje no teramos as nossas colnias, repetia recentemente o general Norton de Matos.

    Se tivssemos sido neutros, no caso da vitria dos Imprios Centrais, perderamos totalmente as nossas Colnias, e at talvez a metrpole, como de resto se depreende de curiosos documentos j publicados, como as memrias de von Bulow; no caso da vit ria dos aliados, sofreramos a perda de uma parte dos domnios ultramarinos, se no de todos eles, o que no difcil acreditar, se atendermos aos incidentes que depois se ve rificaram na Conferncia da Paz, quando se fizeram aluses necessidade de dar compen saes a determinadas potncias.

    A nossa representao teve grandes difi culdades. O auxlio dos nossos marinheiros e dos nossos soldados, em frica e em Frana, a cooperao dada no Atlntico, eram apreciveis ttulos, que tinham sido regista dos com apreo. O circunspecto Times, referindo-se nossa interveno militar em Moambique, exaltava o esforo portugus e conclua: os alemes na frica Oriental ficaram privados de toda a probabilidade de imitar o exemplo dos seus camaradas da colnia alem do Camaro, na frica Equatorial, onde no foram aprisionados pela proteo no territrio da vizinha colnia espanhola, que era neutral. Essa aco militar facilitava a misso dos nossos delegados. A contrari-la, havia as constantes flutuaes da nossa poltica, que tinha produzido, du rante o perodo da guerra, 13 mudanas ministeriais com a subs tituio ditatorial da Constituio Poltica da Repblica, em 30 de Maro de 1918, por um inadaptvel

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    regime presidencialista, que du rou oito meses. Dado embora aquele esforo militar, limitmo -nos, pois,

    frmula tmida do statu quo ante bellum, e se as nossas tropas s tivessem luta do nas colnias portu guesas e no cooperassem na Europa, talvez nos ti vesse sido recusado lugar na conferncia de Paris.

    O Governo da Unio Sagrada na sua proclamao, disse: No somos levados nem pela nsia de conquistas, nem pela sede

    de recompensas, e assim as nossas pretenses no foram exageradas. Alm de uma retificao de fronteira no Norte de Moambique com a restituio de Quionga, que, h tempos, os alemes nos arrebataram e que nada representa como valor, sendo antes uma satisfao da opinio pblica portuguesa, nada desejamos das colonias alems.

    No pedimos nenhuma indemnizao pelo nosso esforo, nem nenhum pagamento dos servios que prestamos. Somente desejamos que, admitindo o princpio justo da reparao dos prejuzos que o inimigo causou, essa reparao nos seja dada.

    O escritor francs Paul Gaultier que se referiu resistncia belga, coragem francesa, honra inglesa, obsti nao srvia, ao despertar italiano, ao misticismo russo, fidelidade romena e ao idealismo americano, poderia fazer-nos a justia de aludir ao brio portugus.

    O Tratado de Paz, nas disposies genricas do seu artigo 118.0, restituiu-nos Quionga, que por lei de 2 de Abril de 1920 foi novamente incorporado nos domnios portugueses e constitura a nossa nica aspirao territorial, expressa logo em 13 de agosto de 1914 pelo ministro de Portugal em Londres. No consta de quaisquer documentos pblicos que tivssemos outras pretenses territoriais. O general Mardacq, na sua obra sobre o governo de Clemenceau, diz-nos: na primavera de 1919 a conferncia de Paz tinha atrado a Paris uma multido de diplomatas e chefes de Governo que, no pertencendo conferncia, sentiram, todavia, a necessidade de vir defender os interesses dos seus respectivos pases junto do Conselho dos Quatro. Alguns soberanos no hesitaram nesta viagem. Diz isto a

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    pro psito da visita do rei de Espanha em Maio de 1919, que to pouco agradvel foi a Clemenceau: Que interesses da Espanha, o ento seu rei pretenderia defender? A simples catego ria de bom neu tro, que lhe deu entrada na So ciedade das Na es como Esta do membro fundador? Tal vez!

    A alma nacional vibrou intensa mente. O povo portugus no tem instintos guerreiros, no tem ambies de conquistas, nem orgulhos de irritante na cionalismo. simplesmente patriota. Foi patritico o seu esforo. Sem he sitaes,100.000 homens aceita ram o cumpri mento do maior dever cvico e mais de 30.000 sacrificaram as suas vidas ou verteram o seu sangue pela honra da Bandeira. Atravs dos oito sculos da sua existncia, tem sido sempre assim o povo portugus.

    Soldados portugueses, como era seu le gtimo direito, tomaram parte na Festa da Vitria, em 14 de Julho de 1919, passando sob o Arco do Triunfo, de Paris.

    Logo no incio da entrada de Portugal na Grande Guerra a iniciativa particular secun dou maravilhosamente a aco governativa. Seis dias depois da declarao de guerra, estabelece-se na cidade do Porto a Junta Pa tritica do Norte, que, em menos de um ano, cria a Casa dos Filhos dos Soldados Portu gueses, de proteo aos rfos de guerra.

    Na mesma ocasio, surge em Lisboa a Cruzada das Mulheres Portuguesas, destinada a prestar assistncia material e moral aos que dela neces sitassem por motivo da guer ra com a Ale manha, e que depressa reuniu 9.000 Afilhados de Guerra e deu auxlio a cente nas de rfos. Os portugue ses residentes no Brasil renem-se, consti tuindo a Comis so Pr Ptria, padro edifi cante do que pode produzir, em toda a esfera do esforo mo ral e material, a unio de seiscentas mil ener gias animadas por um s co rao, no qual se consubstanciaram seiscentos mil cora es. O ano de 1916 foi, para os portugueses do Brasil, o ano da implantao de uma s poltica: a da Ptria. A guerra foi para a Colnia portuguesa a sua paz. A Cruz Vermelha Portuguesa exerce as suas humanitrias funes em Lisboa e mobiliza ncleos

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    sanitrios para Frana e para as Co lnias. Constitui-se um grupo de capeles catlicos para a assistncia religiosa dos soldados que professassem essa religio. Pro slitos de outros credos tinham a devida assistncia espiritual. O Tringulo Vermelho Portugus, a instituio das Bibliotecas M veis e outras deram a indispensvel assistncia laica. Em Lausanne, o ministro de Por tugal, Dr. Bartolomeu Ferreira, constituiu um C0mit de auxlio aos prisioneiros de guerra, internados na Alemanha.

    A chamada mobilizao moral foi, pois. devidamente cuidada. Acabada a guerra, recordam-se os seus Mrtires. Erguem-se

    monumentos em todos os C:mcelhos portugueses, colocam-se lpidas nos quartis e nas escolas. Uma comisso designada por Padres da Grande Guerra, er gue, no antigo sector portugus, sete pequenos marcos idnticos aos que existem da Sua ao Mar do Norte, com a legenda igual; ici fut repouss lenvahisseur e a dedicatria Don de Portugal; eleva em LaCouture, no prprio local do reduto histrico de 9 de Abril de 1918, o Padro de Portugal e em Ponta Delgada, Luanda e Loureno Marques outros Padres de Grande Guerra. Em Richebourg IAvou existe um cemitrio militar portu gus, onde se renem 2.818 mortos da Grande Guerra.

    Em 9 de Abril de 1921 foi solenemente conduzido ao Mosteiro da Batalha o Soldado Desconhecido Portugus, onde jaz em tmulo raso e humilde com o epitfio: Portugal eterno nos mares, nos continentes e nas raas ao seu soldado desconhecido, morto da Grande Guerra.

    Todos os anos se realizam cerimnias co memorativas e nas datas de 9 de Abril e 11 de Novembro, so evocados os gloriosos combatentes da Grande Guerra em Dois mi nutos de Silncio na Terra Portuguesa.

    Em uma sesso comemorativa, o Presidente da Repblica, Teixeira Gomes, disse estas palavras de evocao:

    No conseguiu a Grande Guerra internacionalizar a Europa e aqui nos encontramos ns, portugueses como dantes., e mais necessitados do que nunca, de nos lembrarmos que portugueses somos e seremos.

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    A Grande Guerra

    Oxal que o sangue vertido pelos soldados portugueses em terra alheia, nos sirva para nunca esquecer o que nossa prpria terra devemos.

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    em Moambique

    Postfcio

    Operaes em Moambique

    pelo Tenente General Joo Carlos de Azevedo de Arajo Geraldes, presidente da seco de Cincias Militares da Sociedade de Geografia de Lisboa.

    Tomando por base a evoluo histrica da Estratgia, da Tctica e da Logstica e a considerao dos actuais condicionalismos geopolticos, a Seco de Cincias Militares da Sociedade de Geografia de Lisboa procura projectar, no futuro, ensinamentos colhidos em experincias vividas. O objectivo da Seco consiste na procura de desenvolver o conhecimento sobre o contributo da Instituio Militar para a sustentabilidade e sobrevivncia das sociedades humanas na poca ps moderna. Foi neste contexto que surgiu a ideia de, no mbito das comemoraes do primeiro centenrio da Grande Guerra, revisitar as campanhas militares no Norte de Moambique, parte daquele sangrento conflito intraeuropeu que acabou por se estender s vastas regies do Mundo abrangidas pelos interesses imperiais das potncias beligerantes.A sobrevivncia de uma pequena potncia europeia nunca foi tarefa fcil e Portugal disso exemplo, tendo sido a sua afirmao, no espao europeu e no mundo, conseguida, sempre, custa de uma vontade indmita e de um esgotante dispndio de recursos. No seu percurso histrico, os perodos de desnorte organizativo, de convulso poltica, de abulia e de desleixo foram sempre pagos com elevadssimos custos materiais e humanos que teriam sido evitados, na sua maior extenso, se a inteligncia atenta e o trabalho perseverante tivessem contribudo para combater a negligncia e a incria tendencialmente prevalecentes.

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    Em Estratgia a lassido paga-se com sangue. O incio do sculo passado , para Portugal, paradigmtico, quando acossado pelos interesses de amigos e inimigos, convergentes na satisfao das suas ambies custa do que o Pas considerava ser o seu patrimnio multisecular, acabou por ter que se envolver no confronto dominante, onde as grandes potncias europeias procuravam impr as suas vontades. Esta a razo pela qual, passado um sculo, num outro momento que se nos afigura propcio subalternizao da Estratgia, nos pareceu oportuna a reflexo sobre o preo pago na defesa dos interesses vitais do Pas contra a avidez que o sobre poder agua e o vazio de poder consente.Centrmo-nos, ento, em Moambique, a ento frica Oriental Portuguesa, frente secundria nos vastos espaos africanos que ingleses, alemes, sul-africanos e belgas disputavam, num imenso e quase vazio Teatro de Operaes j de si secundrio, tambm, no sangrento conflito que de 1914 a 1918 assolou a Europa.Uma imagem da Zona de Operaes do Niassa e da rea da Retaguarda em Moambique, cuja fronteira Norte com a frica Oriental Alem se estende do lago Niassa ao Oceano ndico, por 650 quilmetros ao longo do leito do Rio Rovuma, ficou bem expressa no relatrio do Coronel Massano de Amorim, aquando da sua chegada ao Teatro de Operaes no comando da primeira expedio enviada pelo Governo da Repblica: sem caminho-de-ferro, que aqui considerado um bluff, sem linhas telegrficas, sem estradas, sem fora militar com ratoneiros e bandidos em vez de polcias e cipaios, sem proteco de espcie alguma aos indgenas no para admirar que data da chegada da expedio do meu comando aos territrios da companhia do Niassa os postos administrativos fossem uma vergonha, os militares uma irriso, a ocupao uma mistificao, a cobrana de impostos uma violncia a subordinao do gentio uma utopia e a viao um esforo grosseiro. Entre o incio da guerra na Europa e 1917, Portugal enviou para Moambique, com destino ao Niassa, quatro expedies. As duas

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    primeiras, ainda com o Pas com estatuto neutral perante o conflito, no entraram em contacto directo com as tropas alems, nem mesmo aquando da reocupao de Quionga j que a posio havia sido, previamente, abandonada pelos alemes. As outras duas expedies, que, partem de Lisboa j aps a Alemanha ter declarado Guerra a Portugal, chegam ao Norte de Moambique, a terceira em 1916 e a quarta em 1917. No seu todo, os efectivos envolvidos incluram 825 Oficiais e 18273 Praas nestes quatro contingentes e o reforo, no Teatro, em europeus, de 303 Oficiais e 682 Praas, acrescido de 10778 indgenas. Deste total, das tropas europeias perderam a vida 143 militares em combate e 2173 por doena, baixas estas nas nossas foras acrescidas por um total de 2487 indgenas mortos.A ideia de manobra do Governo de ento era salvaguardar o estatuto de neutralidade sem comprometer a proteco dos territrios ultramarinos que a aliana inglesa poderia apoiar. Portugal, em transio de regime, com problemas financeiros e de equilbrios polticos internos complicados, procurou enquanto pode, atravs da aco diplomtica, defender os seus interesses no seio dos Aliados, evitando aces provocatrias em relao Alemanha. O grande desgnio nacional era a manuteno dos vastos espaos do ultramar, com nfase para os situados na frica subsaariana, cobiados e ameaados, desde o tempo de paz, por amigos e inimigos. A evoluo poltico-estratgica na Europa, os confrontos de interesses das Grandes Potncias nos espaos coloniais, as exigncias inglesas e francesas, as nossas vulnerabilidades endmicas e circunstanciais e, no limite, o imperativo ditado pela defesa de Angola e de Moambique aconselharam e obrigaram entrada de Portugal na Guerra com o estatuto de potncia beligerante.No que ao Teatro de Operaes de Moambique diz respeito, o conceito estratgico prevalecente visava a afirmao da soberania, a segurana da fronteira Norte com a frica Oriental Alem e alcanar, por transposio do Rio Rovuma, objectivos limitados em territrio sob administrao alem. Portugal procurava, assim, numa fase j adiantada do conflito europeu, conjugar os seus objectivos com os

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    dos aliados naquela importante regio da frica, atravs de aces defensivas e ofensivas que, fixando foras inimigas, contribussem para facilitar a manobra combinada de ingleses, franceses, belgas e sul-africanos. O objectivo poltico a atingir, atravs deste esforo de guerra naquele Teatro secundrio, era garantir voz com algum ganho que pudesse constituir vantagem nas negociaes diplomticas do ps-guerra. atrio provocada pelas condies fsicas inspitas, pelo clima adverso, pela enorme dimenso e pelo isolamento da Zona de Operaes, pela escassez de recursos no Teatro de Operaes e pela extenso das Linhas de Comunicaes, impreparao e consequente desmotivao das tropas expedicionrias e complexidade que a distncia e o desconhecimento introduziram nos canais da direco poltica e comando militar, acresceram limitaes tcticas impostas pelos interesses, na rea, da Inglaterra. Sem prejuzo do sangue derramado e do sacrifcio e valor sobejamente demonstrados pelos militares portugueses e auxiliares indgenas, onde no faltaram actos individuais de conduta heroica, os factores enunciados foram condicionantes que muito contriburam para limitar ou mesmo impedir o xito das operaes militares. Em Moambique, o resultado da aco militar no foi alm da fixao de foras inimigas numa demonstrao ostensiva de vontade na participao no esforo de Guerra, com uma presena de fora armada que, evitando um vazio de poder, esvaziou ambies alheias e contribuiu, decisivamente, para a afirmao da soberania.Sobre como decorreram as operaes fala-nos o autor deste livro, o Professor Engenheiro Fernando Abecassis que , tambm, o Director do Projecto da Seco de Cincias Militares onde a obra se inscreve. Experimentado conhecedor da rea de Operaes, que percorreu como Engenheiro Militar quando, nos anos sessenta foi chamado para, como cidado, servir o Pas no cumprimento das suas obrigaes militares, voluntariou-se para, com o seu conhecimento e experincia, explorar o acervo bibliogrfico da Sociedade de Geografia de Lisboa, numa procura de melhor fundamentar o propsito da Seco.

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    em Moambique

    As aces militares conduzidas pelas Foras Armadas Portuguesas em campanhas no ultramar, posteriores Grande Guerra, ao inclurem nas suas prioridades a construo de infraestruturas para apoio da Segurana e Desenvolvimento do territrio e para a melhoria das condies de vida e do bem-estar das populaes, so a demonstrao de que os sacrifcios passados valeram, j que as lies foram, neste caso, aprendidas.

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    em Moambique

    Cronologia da participao portuguesa na defesa de Moambique

    191418 de Agosto

    decidida a organizao de uma expedio militar com destino a Angola e a Moambique.

    25 de Agosto Em Moambique d-se o primeiro incidente de fronteira, com o ataque alemo ao posto fronteirio de Mazia, na fronteira do Rovuma, tendo sido morto o chefe do posto e sendo incendiado o posto e as palhotas vizinhas.

    11 de Setembro Partida do corpo expedicionrio para Moambique, comandado pelo tenente-coronel Massano de Amorim.

    1 de Novembro A primeira expedio portuguesa para Moambique desembarca em Porto Amlia, no norte da colnia. Era composta por 1 batalho, 1 bateria e 1 esquadro.

    2 de Novembro Uma tentativa de desembarque de foras militares britnicas, vindas da ndia, em Tanga, no norte da frica Oriental Alem, repelida, sofrendo a fora invasora pesadas baixas.

    1915Junho

    O governador de Moambique informa o tenente-coronel Amorim de que o governo portugus pretendia que se reocupasse Quionga, ocupada pelos alemes em 1894, e se invadisse o territrio da frica Oriental Alem.

    7 de Novembro Uma segunda expedio a Moambique, comandada pelo major de artilharia Moura Mendes chega a Porto Amlia. Era composta por 1 batalho, 1 bateria e um esquadro, assim como de tropas

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    A Grande Guerra

    de engenharia, de sade e de servios.

    19169 de Maro

    A Alemanha declara a guerra a Portugal. 27 de Maio

    Combate de Namaca. As foras expedicionrias portuguesas, reforadas por foras da Guarda Republicana de Loureno Marques, levadas para o Norte de Moambique pelo governador lvaro de Castro, tentam a passagem do Rovuma sendo rechaados violentamente pelas foras alems.

    Julho A terceira fora expedicionria portuguesa, a Moambique, chega a Palma, a norte de Porto Amlia. Comandada pelo general Ferreira Gil. Era composta por 3 batalhes de infantaria, 3 baterias de metralhadoras, 3 baterias de artilharia, 1 companhia de engenharia mista e unidades de servios.

    19 de Setembro Travessia do Rovuma pela fora expedicionria portuguesa a Moambique. A frica Oriental Alem invadida.

    4 de Outubro Combate de Mata. Uma fora de reconhecimento comandada pelo capito Liberato Pinto surpreendida em Mata e obrigada a retirar de regresso fronteira de Moambique. Ser acompanhada pela coluna que a seguia.

    22 de Outubro Combate da Ribeira de Nevala. As foras do comando do chefe de estado-maior da fora expedicionria a Moambique, coronel Azambuja Martins, encontram-se com as foras alems junto aos poos de gua de Nevala. As foras alems retiram.

    8 de Novembro Combate de Quivambo. A coluna do comando do major Leopoldo da Silva, que aps a tomada de Nevala, na frica Oriental Alem, se dirigia para Mikindani, interceptada pelas foras

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    em Moambique

    alems. Leopoldo da Silva foi morto, e o novo comandante, major Aristides Cunha, decidiu retirar.

    22 de Novembro Combate da gua de Nevala. As foras alems, reforadas por marinheiros do cruzador Koenigsberg, no seguimento do combate de Quivambo, atacam e ocupam o posto da gua de Nevala aps um ataque baioneta.

    28 de Novembro As foras portuguesas abandonam o fortim de Nevala, e retiram para a fronteira, depois de uma coluna de socorro ter sido rechaada pelas foras alems.

    1 de Dezembro O posto de Nangadi incendiado por fogo de artilharia alemo, impedindo que se organizasse ali uma linha de defesa de Moambique.

    191721 de Novembro

    As foras alems do comando de von Lettow-Vorbeck saindo de Nevala dirigem-se para a fronteira com Moambique.

    28 de Novembro Combate de Negomano. Os alemes supreendem as foras portuguesas em Negomano, provocando um verdadeiro massacre. Morreram 5 oficiais e 14 soldados europeus, assim como 208 soldados africanos, ficando feridos mais de 70, e prisioneiros 550 homens, entre os quais se contavam 31 oficiais que foram libertados posteriormente.

    3 a 8 de Dezembro Combate da Serra Mecula. As foras comandadas pelo capito Francisco Pedro Curado, compostas por uma bateria de artilharia e uma companhia de tropas africanas, resistem de 3 a 8 de Dezembro coluna de tropas alems comandada pelo general Wahle, que separada da coluna principal se dirigia mais para o interior de Moambique. O capito Curado ficar conhecido

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    A Grande Guerra

    pelo none de Condestvel do Rovuma.

    19181 a 3 de Julho

    Combate de Nhamacurra. As tropas alems chegando a 40 km de Quelimane, no centro de Moambique, atacam o depsito de uma grande companhia aucareira, defendido por tropas anglo-portuguesas comandadas pelo tenente-coronel britnico Brown, que morto.

    28 de Setembro As tropas alems atravessam de novo o Rovuma, abandonando Moambique. As tropas alems entram na Rodsia do Norte.

    12 de NovembroO comandante alemo von Lettow-Vorbeck tem conhecimento do Armistcio celebrado na vspera em Frana, e rende-se.

    191928 de Junho

    assinado em Versalhes o Tratado de Paz que pe fim Primeira Guerra Mundial. Quionga, reocupada em Abril de 1916, formalmente restituda a Portugal.

    12 de Julho Na Conferncia Colonial, realizada em Londres, perguntado a Portugal se aceitava um mandato de administrao do territrio de Quionga, estendendo-se este mandato igualmente a toda a provncia de Moambique. A resposta negativa.

    25 de Setembro Quionga restituda a Portugal por deciso do Conselho Supremo das Potncias Aliadas e Associadas.

    1920

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    em Moambique

    4 de Dezembro Por portaria provincial Quionga volta a ter um comando militar

    portugus, a marcar a soberania perdida em 1894.

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    Bibliografia

    Abecassis, Fernando; Os Desaparecidos, A memria dAfrica; Perspectivas e Realidades; Lisboa 1987.

    Amaral, Manuel; A guerra em Moambique;n 1: Antes da declarao de guerra de guerra da Alemanha,n 2: Depois da declarao de guerra a Portugal, n 3: A ofensiva dos portugueses e a contra ofensiva alem,n 4: A invaso do territrio portugus,n 5: A ltima fase da campanha, Cronologia da participao portuguesa na primeira guerra mundial; O Portal da Histria, 2000-201

    Cann, Jonh P.; Moambique, frica Oriental Alem e a Grande Guerra in Revista Militar, vol 54, Maio 2002.

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    Costa, Mrio; Cartas de Moambique, de tudo um pouco; Prefcio de Joo Azevedo Coutinho; Lisboa, 1934.

    Enciclopdia pela Imagem; Os Portugueses na Grande Guerra; edio da livraria Lello Limitada, Porto,1931.

    Fraga, Luis Alves de; A Grande Guerra nas Colnias Portuguesas; in Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Jan-Dez de 2011.

    Livro de Ouro da Infantaria; Comisso Tcnica da Arma de Infantaria (testemunhos diversos); 1922

    Monteiro, Henrique Pires; A Grande Guerra na frica Portuguesa; in Revista Militar 9-10; Lisboa, 1923.

    Norton de Matos, Jos Maria M. R.; A grande Guerra e as Colnias Portuguesas; in Histria da Expanso Portuguesa no Mundo; vol III, cap. VI; Editorial tica; Lisboa, 1940.

    Pires de Lima, Amrico; Na Costa de frica (memrias de um mdico expedicionrio a Moambique); prefcio por Ricardo Jorge; Edies Ptria; Gaia, Portugal, 1933.

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    em Moambique

    Rego, Antnio Jos de Campos; Reminiscncias de um Combatente da Grande Guerra na frica Oriental; in Revista Militar, n. 11-12, Lisboa, 1924.

    von Lettow Vorbeck, Paul Emil; La Guerre dans la brousse; Editions Payot; Paris, 1933.

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    em Moambique

    ndice Geral

    Apresentao 5 Declarao de Guerra da Alemanha a Portugal 7

    Prefcio 11Captulo 1 17 Envolvente 17

    A Grande Guerra e as Colnias Portuguesas 26

    Captulo 2 37 As expedies a Moambique 37

    Merecida Homenagem 59

    Captulo 3 65 Nevala 65

    A Retirada de Nevala 88

    Captulo 4 93 A invaso alem 93

    Negomano 111

    Nhamacurra 122

    Evocaes 128

    Captulo 5 133 O armistcio 133

    Na conferncia de paz 141

    Postfcio 147 Operaes em Moambique 147

    Cronologia 153Bibliografia 158ndice geral 161ndice de imagens 162Mapas 163

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    A Grande Guerra

    ndice de imagens

    Imagem 1 Instruo de metralhadoras em Moambique 40

    Imagem 2 Posio de combate das foras portuguesas ... 50

    Imagem 3 Cruzador Adamastor 52

    Imagem 4 - Travessia do Rovuma 69

    Imagem 5 Infantaria 30 guarnecendo as trincheiras 72

    Imagem 6 Ponto de reconhecimento e vigilancia 75

    Imagem 7 Deslocamento de foras portuguesas nas trincheiras 79

    Imagem 8 Avio Farman F-40 em Moambique 85

    Imagem 9 - O rio Rovuma visto em Negomano... 163

    Crditos das imagensArquivo Histrico Militar imagem da capa, imagens 1, 2, 4, 5, 6, e 7. Do autor imagem 9. Autores desconhecidos imagens 3 e 8.

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    em Moambique

    Mapas

    1 - Mapa poltico da regio dos grandes lagos com indicao dos principais movimentos das tropas inglesas e alems em presena; esquisso do prprio gen von Lettow Vorbeck. (ver bibliografia).

    2 - Fronteira Leste do rio Rovuma com o Tanganika,3 - Movimentos de tropas ao longo da fronteira do Rovuma: a preto, tropas

    portuguesas; a vermelho, tropas alems, esquisso do autor. 4 - Detalhe dos movimentos de tropas alems, sob o comando do gen von

    Lettow Vorbeck, e portuguesas, ao longo da fronteira do Rovuma; esquisso do autor.

    5 - Deambulaes das tropas alems, sob o comando do gen von Lettow Vorbeck, em territrio Moambicano; esquisso do prprio gen von Lettow Vorbeck. (ver bibliografia).

    Imagem 9 - O rio Rovuma visto em Negomano na zona de confluncia com o rio Lugenda

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    Mapa 1

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    em Moambique

    Mapa 2

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    Mapa 3

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    Mapa 4

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    Mapa 5

  • Fernando A

    becassis et al.

    A G

    rande Guerra E

    m M

    oambique

    O livro escrito em estilo vivo e intercalando, quando adequado, depoimen-tos da poca motivador, contem descries de ambientes, a um lado inspi-tos, mas belos e, por vezes de imponncia paisagstica; a par das vivncias do autor nas suas misses militares, leva-nos, em diversas ocasies, aos relatos dos que estiveram, muitas vezes nos mesmos locais e a combateram e sofre-ram as agruras do clima e da sede.As descries que podemos ler so impressionantes e calam fundo quando acompanhamos os nossos heris nas suas marchas, nos seus combates e na sua prpria maneira de morrer.

    Prof. Eng. Lus Aires de Barros, in PrefcioPresidente da Sociedade de Geografia de Lisboa

    Comisso Portuguesa de Histria MilitarS. G. L

    Seco de Cincias Militares

    2014