a garota do outro lado da rua

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Mas será que esse conhecimento resultará em uma grande amizade? Será que o amor de Enzo sobreviverá além das aparências? Afinal, quem é verdadeiramente a garota do outro lado da rua?

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  • A garotado outro lado da rua

    Lycia Barros

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  • 7A BORBOLETA

    H momentos em que cruzamos linhas invisveis que jamais poderamos imaginar. Nunca imaginei que ele seria meu, ou que eu seria dele. Nunca imaginei que derrubaramos os muros que nos separavam por nossas

    fraquezas. Mas fico feliz que tenha sido desse jeito. Nin-

    gum me compreendia muito quando tudo aconteceu, eu

    tambm no conseguia explicar como me sentia. Na verda-

    de, a maioria das pessoas no estava disposta a me dar o

    tempo que eu precisava para falar. Houve noites com lgri-

    mas solitrias, houve dor, precisei esperar... Mas, quando

    enfim nos unimos, eu e ele j estvamos preparados para

    seguirmos em uma viagem sem volta. Uma viagem rumo

    felicidade, que s os puros de corao conseguiro alcan-

    ar. E ns dois felizmente conseguimos.

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  • 9ENZO

    Eu sempre havia percebido algo especial naquela me-nina, mas no apenas por ela ser bonita. Contudo, no nos conhecamos. No havia intimidade entre ns dois, nem sequer cordialidade. Nunca havamos trocado uma

    palavra sequer. Mas eu a observava frequentemente sair e

    entrar em casa com a me morava s com ela, o que vim

    a descobrir mais a frente. Entretanto, nunca nos cumpri-

    mentamos. s vezes, eu ficava durante horas sentado na

    calada com a minha caixa da coleo de insetos colocada

    entre os joelhos, pensando em cham -la para brincar, mas

    nunca tive coragem. Talvez porque, assim como meu pai,

    nunca fui muito dado a interagir com os vizinhos. Ao con-

    trrio, meu pai estava sempre resmungando sobre os maus

    hbitos alheios: seus cachorros latiam alto demais, suas

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  • 10

    festas eram muito barulhentas, todos estavam sempre es-

    tacionando na calada errada... Todavia, tenho dvidas se

    ele teve culpa de ficar assim. Desde que minha me se foi,

    h quatro anos, meu pai se despediu de qualquer alegria

    na vida. A nica coisa que lhe restou foi o prazer de pescar.

    Houve ocasies em que pensei que ele a esqueceria, mas

    percebi que isso no era algo que ele quisesse fazer; muito

    menos que simplesmente lhe acontecesse. E, de fato, no

    lhe ocorreu. Ainda assim, ele sempre foi um bom pai para

    mim. Preocupava -se demais, confesso, e com muita fre-

    quncia, com praticamente tudo. Mas sei que s tentava

    cumprir bem o seu papel.

    Comeamos a estudar juntos no quinto ano eu e Rafaela.

    Talvez tenha sido esse o ano em que tudo comeou. Nessa

    poca, eu sentava atrs dela na classe. Ficava olhando para

    sua cabea por trs e admirando seus cabelos, compridos,

    dourados e perfumados. Parecia uma sereia. Mas ramos

    incomunicveis, como se vivssemos em dois polos distan-

    tes. Ela era linda, desejada e popular, e eu era o quatro -olhos

    CDF da nossa turma. Na nica vez em que se virou para trs

    para me passar uma prova, senti minha cara ficar vermelha

    e meus culos escorregarem pelo nariz. Sua mo ficou ali,

    estendida, e Rafaela a me encarar. Acabou em cinco segun-

    dos. Quando olhei para a prova e a peguei, fitei as palavras,

    mas nada assimilei devido ao meu encantamento. Era como

    se aquela simples troca de olhares tivesse repentinamen-

    te nos tornado mais ntimos. Infelizmente, quando voltei a

    mim, dei -me conta do papel minha frente. impressionan-

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    te como uma prova de matemtica pode sugar at a ltima

    gota de felicidade da sua alma!

    Nesse tempo, comecei a sonhar acordado com Rafaela.

    Costumava imaginar -nos juntos e sentados em seu jardim,

    conversando sobre a natureza, e ela admirada com todo o

    meu conhecimento. Sempre tive certeza de que, se ela me

    conhecesse melhor, se compreendesse as minhas qualida-

    des, certamente gostaria de mim, mas nunca imaginei o

    que nos sucederia mais tarde. No pr do sol finalmente nos

    beijaramos, mas nunca imaginava nada indecente com ela.

    Pelo menos, no naquela poca.

    Quando estvamos de frias, no costumvamos nos ver

    muito, ou melhor, ela no me via, mesmo a minha casa sendo

    bem em frente dela. Rafaela s saa e entrava, rapidamen-

    te, geralmente acompanhada de suas espevitadas amigas,

    dando gargalhadinhas, ou ento com algum playboyzinho

    barulhento e espalhafatoso. O que, evidentemente, acabava

    me deixando verde de inveja e emburrado pelo resto do dia.

    Somente uma vez nas ltimas frias, pela janela do meu

    quarto no segundo andar, tive o privilgio de observ -la sen-

    tada no jardim e jogando um disco de frisbee1 para o seu

    yorkshire pegar. Foi uma das raras vezes em que no a vi

    maquiada. Ficou ali por cerca de meia hora. Provavelmente,

    ela havia acabado de sair da piscina, pois estava de biquni

    e com uma canga enrolada no quadril. O sol de fim de tarde

    reluzia em seus cabelos e sua pele era to dourada quanto o

    1 Frisbee: disco plstico usado para recreao (N. E.).

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    sol. Em certo momento, Rafaela deitou -se na grama e fechou

    os olhos para descansar. E ficou to linda que extraiu -me a

    respirao. Eu sabia que minha cmera estava ali na escriva-

    ninha, bem perto da minha mo, mas no me atrevi a us -la

    para bater uma foto. Sabia que no conseguiria capturar a

    beleza daquele momento, por isso preferi memoriz -lo.

    No oitavo ano, comecei a reparar que ela no parava de

    conversar com um garoto encorpado e com o cabelo espe-

    tado com gel: Mateus. Um dos meninos mais esnobes da

    nossa classe. Apesar de andarem sempre cercados de estu-

    dantes, eles frequentemente davam um jeito de conversar

    mais afastados dos outros alunos. Eu sempre ficava de lon-

    ge, observando -os, mas no me atrevia a examin -los muitas

    vezes, pois tinha medo que Rafaela reparasse.

    Mateus sempre foi o tipo de cara grosseiro e vulgar, e

    o linguajar que circulava entre seus amigos faria qualquer

    detento de Bangu I sentir -se ultrajado. Apesar de no nos

    falarmos, vira e mexe ele entrava na sala e me dava uma co-

    ronhada na nuca, no estilo e a, meu amigo?, mas eu sabia

    que era s para me humilhar. Porm, eu nunca fui esse tipo

    de idiota -agressivo que fazia de tudo para aparecer. Na ver-

    dade, sempre tive aspiraes mais elevadas. Talvez por isso

    no conseguisse me enturmar com facilidade. Mas Mateus

    sempre se achava na frente dos outros alunos: era o mais

    forte, o mais esportista, o com a melhor aparncia... Sempre

    achei que todos aqueles msculos lhe davam um ar imbecil.

    Estava na cara que ele andava tomando bomba. O tipo de

    sujeito que s posta fotos sem camisa no Facebook, pois

    o atributo que lhe resta. O problema era que, alm disso, ele

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    possua todos os bens durveis conhecido pelo homem, an-

    tes mesmo que chegassem ao Brasil. Por isso, vivia cercado

    de almofadinhas bajuladores.

    Quando pela primeira vez vi os dois se beijarem, me senti

    agoniado. Esmaguei meu celular com tanta fora que por

    pouco o coitado no tocou de desespero. Achei Mateus mui-

    to afobado. Se ele sentisse uma frao mnima do que eu

    sentia por Rafaela, jamais se atreveria a toc -la daquela ma-

    neira. Eu juro que tentei esquec -la, desarquiv -la da mem-

    ria, mas simplesmente no consegui. Comecei a acreditar

    que, assim como meu pai, eu no seria um homem de pular

    de galho em galho. Amaria minha escolhida para sempre.

    Que furada...

    claro que, com dezesseis anos, eu j havia beijado ou-

    tras garotas na vida. Na verdade, duas. Uma era minha prima

    Patrcia. Bem, ela no era minha prima de sangue, pois era

    adotada. Nosso beijo, entretanto, foi mais uma espcie de

    caridade que fiz quando ela confessou que era apaixonada

    por mim. Achei que como ramos parecidos, como tnhamos

    os mesmos interesses e ramos ambos negligenciados pela

    sociedade, aquilo poderia dar certo. Mas no consegui cor-

    responder aos seus sentimentos e acabei por perder a sua

    amizade. E ela ainda espalhou boatos maldosos na minha

    famlia e que fique bem claro, no verdadeiros sobre o

    meu hlito. Por isso meus primos me batizaram de boca de

    esgoto. A outra que beijei foi a irm mais velha do meu

    melhor amigo Leandro. Nesse caso, a caridade foi invertida.

    Mas acho que brincar de salada mista no conta muito.

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  • 14

    Sucedeu ento que teramos uma excurso ecolgica no

    colgio. Acordei angustiado naquela manh. Em qualquer ou-

    tra ocasio, eu amaria aquele passeio. J era um assduo pra-

    ticante de trekking,2 pois, assim como minha me, eu adorava

    a natureza, e j havia feito trilha centenas de vezes, apesar

    de nenhuma delas ser na Floresta da Tijuca. Contudo, passar

    um dia completo vendo aqueles dois se agarrando seria de-

    mais para mim. Pensei em no ir, mas sabia que a visita valia

    cinquenta por cento da avaliao de cincias e, para o meu

    embarao, e deleite do rest