A fronteira amazônica brasileira produzindo desenvolvimento ?· da fronteira econômica na Amazônia…

Download A fronteira amazônica brasileira produzindo desenvolvimento ?· da fronteira econômica na Amazônia…

Post on 07-Feb-2019

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

<p>Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 1 </p> <p>A fronteira amaznica brasileira produzindo desenvolvimento econmico e </p> <p>mrtires </p> <p>VILMAR FERREIRA DOS SANTOS* </p> <p>OSNERA PINTO DA SILVA* </p> <p>Sobre diferentes formas de propriedade, sobre as </p> <p>condies sociais de existncia, ergue-se toda uma </p> <p>superestrutura de sentimentos, iluses, maneiras de </p> <p>pensar e concepes de vida distintas e peculiarmente </p> <p>constitudas. A classe inteira os cria e os forma sobre a </p> <p>base de suas condies materiais e das relaes sociais </p> <p>correspondentes. </p> <p> Karl Marx, O 18 Brumrio de Lus Bonaparte </p> <p>Conflitos Fundirios na fronteira </p> <p>Senhores Parlamentares, a violncia e impunidade no campo uma realidade </p> <p>permanente no sul e sudeste do Par1. Impossvel iniciar a escrita desse texto sem </p> <p>recordar o que a CPT-Comisso Pastoral da Terra investigou, refletiu e concluiu, em </p> <p>2004, ao escrever uma carta CPMI da Reforma Agrria relatando a situao de </p> <p>conflito fundirio nesta parte da Amaznia brasileira. Foi um documento corajoso, </p> <p>posto que estarrecedor, configurando os crimes no campo, os nomes, os histricos dos </p> <p>assassinos impunes, e ainda, o relatrio de terras onde h trabalho escravo2. </p> <p>As reflexes de Maria do Perptuo Socorro Chaves et al nos auxiliam no </p> <p>entendimento dos nexos que desencadearam o mapeamento demogrfico da Amaznia, </p> <p> * Graduado em Histria pela UFPA e aluno do Programa de Ps-graduao em Histria Social da </p> <p>Universidade Severino Sombra-USS/RJ. E-mail: vico.4@hotmail.com </p> <p>* Graduada em Histria pela UFPA/Campus de Marab e aluna do Programa de Ps-graduao em </p> <p>Histria Social da Universidade Severino Sombra-USS/RJ. E-mail: 13onix@bol.com.br </p> <p>1 Ver CPT. Um dossi dos crimes da terra. 2004, p. 1. Acesso em 10/03/2011. </p> <p>2 Idem. </p> <p>mailto:vico.4@hotmail.commailto:13onix@bol.com.br</p> <p>Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 2 </p> <p>desde o incio da sua ocupao, inferindo que os conflitos [...] ganharam visibilidade </p> <p>na Amaznia a partir da dcada de 60, com a implantao de grandes projetos </p> <p>desenvolvimentistas que acelerou a expanso urbano-industrial, e gerou um quadro de </p> <p>conflitos por toda a regio3. Aliada tragdia que representa o desflorestamento da </p> <p>Amaznia, nesse espao geogrfico que os interesses das populaes pobres de todos </p> <p>os cantos do Brasil vo colidir com a ganncia de grandes empresrios brasileiros e </p> <p>empresas multinacionais que, reservadas as devidas propores no que tange </p> <p>destinao do bem, ambas tratam de garantir para si uma poro de terra disposta. </p> <p>Nos interessa, particularmente, a forma como BARP et al (2003: 8) reconhece </p> <p>e analisa o processo de ocupao da Amaznia como espao social em formao e </p> <p>apresenta os atores sociais desta demanda. Assim, para ele: </p> <p>H uma forma de violncia de fronteira ligada a processos peculiares de </p> <p>acumulao de capital, [...]; a fronteira deve ser analisada como um espao </p> <p>de conflitos de interesse entre vrias categorias sociais, isto , como um </p> <p>espao contestado (SCHMINK e WOOD, 1992). Nesse espao contestado, o </p> <p>conflito nem sempre se manifesta entre classes sociais. Poderamos dizer que </p> <p>a Amaznia um espao social em formao, e ali, em vez de classes sociais, </p> <p>h grupos ou categorias sociais em disputa pelo espao. </p> <p>Quais seriam as categorias dispostas nesse processo? Postos anlise do </p> <p>processo, plenamente reconhecveis, para SANTOS (2010:9) no espao geopoltico </p> <p>da fronteira econmica na Amaznia que vamos encontrar o trabalhador rural </p> <p>(posseiro), o gato (pistoleiro) e o proprietrio (grileiro) de terras e de gentes4. Para </p> <p>a massa migrante, terra significa o espao para plantar bens de subsistncia e, </p> <p>exatamente por isso, torna-se indispensvel sobrevivncia da famlia. Para os altos </p> <p>empresrios e grandes empresas detentoras do capital internacional, terra objeto de </p> <p>especulao. HBETTE et al, fundamentado em MARTINS (1980: 34; 1991:43), luz </p> <p>de pesquisas de campo na fronteira amaznica, estabeleceu as categorias antagnicas </p> <p>terra de negcio e terra de trabalho, que caracterizariam as contradies </p> <p> 3 Ver CHAVES, Maria do Perptuo Socorro et al. Conflitos socioambientais e identidades polticas na </p> <p>Amaznia. Artigo. Disponvel em PDF. Acesso em 10/03/2011. </p> <p>4 Ver SANTOS, V. F. ferro e fogo: a destituio de poder de luta de uma mulher que se fez brasileira. </p> <p>Artigo, p. 9, 2010. </p> <p>Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 3 </p> <p>fundamentais da questo agrria no processo de luta pela terra5. E prossegue, as </p> <p>dcadas de 70 e 80 representam o marco da maior transformao social no campo </p> <p>paraense aps a Cabanagem (1835-1838)6. nesse espao de luta, onde consubstancia-</p> <p>se as ambies dos agentes sociais envolvidos, que ganha sentido quando afirmamos </p> <p>que o desenvolvimento da Amaznia produziu (e produz ainda) mrtires. </p> <p>Desde a dcada de 1970 que a poro oriental da Amaznia brasileira </p> <p>transformou-se no palco de uma guerra silenciosa que s vezes explode, expondo ao </p> <p>mundo o lado mais cruel da violncia: trabalho escravo, tortura, assassinatos e chacinas </p> <p>de homens, mulheres, crianas ou idosos, agricultores ou trabalhadores urbanos, </p> <p>indgenas, leigos ou religiosos. </p> <p>O governo brasileiro tinha a inteno de povoar a Amaznia e, para conseguir </p> <p>seus objetivos, utilizou de todos os artifcios, inclusive prometendo um pedao de terra </p> <p>a cada famlia pobre que atendessem seu apelo. O que se viu, foi uma corrida </p> <p>desenfreada para a Amaznia que teve povoada, de imediato, a sua parte leste, </p> <p>compreendida pelo sudoeste do estado do Maranho e pelo sudeste do estado do Par. </p> <p>Logo, essas regies passaro a ser conhecidas como espaos de produo de violncia </p> <p>no campo. Conforme SOUZA (2006:1) </p> <p>Nos ltimos vinte anos, mais de 500 pessoas, entre trabalhadores rurais, </p> <p>assentados, pequenos agricultores e lideranas do movimento em defesa da </p> <p>reforma agrria e dos direitos humanos, foram assassinados no Par, de </p> <p>acordo com a Comisso Pastoral da Terra (CPT). No mesmo perodo, cerca </p> <p>de 117,3 mil quilmetros quadrados de florestas foram desmatados no </p> <p>Estado, mais de duas vezes o territrio da Paraba. Sem relao aparente, os </p> <p>dois tristes nmeros fazem parte da mesma tragdia socioambiental </p> <p>encenada tambm em vrios outros locais da Amaznia. </p> <p>Foi montada uma grande estrutura de sustentao governamental ao processo </p> <p>de ocupao pretendido da Amaznia. Empresas de fomento ao desenvolvimento foram </p> <p>criadas e estradas construdas. </p> <p> 5 Ver HBETTE, et al. A marcha do trabalhador do campo rumo cidadania: domnio da terra e estrutura </p> <p>social no Par. Artigo disponvel em PDF. Acesso em 10/03/2011. </p> <p>6 Idem. </p> <p>Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 4 </p> <p>Esses processos de ocupao e de desenvolvimento impostos, via ao </p> <p>poltica de agncias governamentais como a Superintendncia de </p> <p>Desenvolvimento da Amaznia (SUDAM), Superintendncia de </p> <p>Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE), Superintendncia da Zona Franca de </p> <p>Manaus (SUFRAMA), dentre outros, deixaram marcas deletrias sobre o </p> <p>espao e os povos amaznicos, cujos impactos puderam ser notados nos </p> <p>ecossistemas regionais, nas formas de ocupao da regio e na organizao </p> <p>sociocultural das populaes amaznicas. </p> <p>Mas, sem dvida, a construo de rodovias7 era o carro-chefe do projeto de </p> <p>desenvolvimento do governo para a Amaznia. Rodovias federais e estaduais </p> <p>comearam a ser construdas e, medida em cortavam o territrio da Amaznia, iam </p> <p>estabelecendo populaes migrantes em povoados de pau-a-pique levantados s suas </p> <p>margens. So ilustrativas as sagas das famlias que, ao longo da Transamaznica, da </p> <p>Belm-Braslia e da PA-70, no ato de apossamento da terra, entraram em conflito com </p> <p>populaes indgenas e com grileiros que haviam se apossado de terras devolutas8. </p> <p>Para HBETTE et al, a deciso de abertura da rodovia Belm-Braslia, sob o governo </p> <p>de Juscelino Kubitschek, aceleraria a partilha das terras devolutas9. </p> <p>Autores como William Santos de Assis e Oswaldo Braga de Souza, so </p> <p>categricos em confirmar os efeitos catastrficos do projeto do Governo de </p> <p>desenvolvimento da Amaznica para as populaes pobres. Segundo ASSIS (2003: 5), </p> <p>O sudeste do Par, em especial, se torna um barril de plvora e a </p> <p>violncia passa a ser uma marca indelvel das relaes sociais envolvendo </p> <p>interessados na posse da terra. As polticas praticadas pelo governo federal </p> <p>no decorrer dos anos vo favorecer o aumento da prtica da violncia, </p> <p>especialmente, no meio rural. </p> <p> 7 A abertura da rodovia estadual PA-70, no final dos anos 60, e da Transamaznica, no incio dos anos 70. </p> <p>8 Em muitos casos o governo do Estado concedia a famlias ricas de um determinado lugar um documento </p> <p>que lhes dava o direito de explorar as riquezas vegetais numa gleba de terras. Geralmente esse </p> <p>documento era adulterado, seu carter modificado e seus limites alargados. Tambm era utilizado </p> <p>como arma para expulsar famlias migrantes que se apossavam de terras para produzir a subsistncia </p> <p>de suas famlias. </p> <p>9 Ver HBETTE, et al. A marcha do trabalhador do campo rumo cidadania: domnio da terra e estrutura </p> <p>social no Par, p. 123. Artigo disponvel em PDF. Acesso em 10/03/2011. </p> <p>Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 5 </p> <p>Sob o tom imposto pela grilagem10</p> <p> de terras no sudeste do Par, muitas </p> <p>famlias de posseiros foram desestruturadas violenta e injustamente, tornando-se no </p> <p>principal instrumento de violncia no campo. Para SOUZA (2006: 7) </p> <p>Depois de crescer sombra de polticas pblicas e leis equivocadas que </p> <p>perduraram por dcadas (algumas delas ainda vigentes), a grilagem </p> <p>reconhecida hoje como um dos principais motores do desflorestamento e dos </p> <p>conflitos fundirios que acabam resultando na violncia cometida contra </p> <p>populaes locais e tradicionais. </p> <p>Segundo relatrio da CPT, no sul e sudeste do Par, no perodo, 1986 a 2003, </p> <p>foram assassinados 419 trabalhadores rurais. Do total destes crimes, apenas sete foram </p> <p>definitivamente julgados, com responsabilizao judicial dos envolvidos11</p> <p>. no </p> <p>contexto da resistncia reconhecida na razo dos conflitos fundirios estabelecidos na </p> <p>fronteira econmica na Amaznia que um nmero considervel de homens e mulheres </p> <p>morreram e so mortos ainda hoje. Maria Joel da Costa ainda viva , esposa do </p> <p>sindicalista Dezinho, morto na embate com latifundirios, smbolo dessa capacidade </p> <p>(se bem que poderamos dizer, necessidade) de resistir. Ao assumir o posto de </p> <p>presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Par, categrica ao </p> <p>afirmar: eu vou continuar at o fim e quero que esta histria no seja uma histria de </p> <p>morte, mas uma histria de vida, da vida dos trabalhadores12</p> <p>. Outro exemplo de </p> <p>resistncia nos dado pela Irm Dorothy Stang, relativamente ao trabalho missionrio </p> <p>da Pastoral da Terra que vinha realizando no municpio de Anapu/PA, no que tange </p> <p>implementao dos Projetos de Desenvolvimento Sustentvel-PDS. SAUER (2005:13) </p> <p>transcreve: </p> <p>Eu moro na rea h vinte e dois anos. Eu trabalho com todo esse pessoal... </p> <p>Ns vimos ocupando a terra palmo a palmo, lutando... Ns procuramos esse </p> <p>PDS j em 1994, porque todo esse povo migrante e saiu de lugares onde </p> <p> 10 O termo grilo ou grilagem vem da prtica de fechar um ttulo de terra ou outro documento de </p> <p>carter fundirio falsificado com esse inseto de modo que ele se alimente do papel e deposite seus </p> <p>excrementos sobre ele, amarelando-o e dando a impresso de documento velho e possivelmente </p> <p>autntico. Ver SAUER, Srgio. Violao dos Direitos Humanos na Amaznia: conflito e violncia na </p> <p>fronteira paraense. Goinia: CPT; Rio de Janeiro: Justia Global; Curitiba: Terra de Direitos, 2005. </p> <p>11 Ver CPT. Um dossi dos crimes da terra. 2004, p. 7. Acesso em 10/03/2011. </p> <p>12 Ver SAUER, Srgio. Violao dos Direitos Humanos na Amaznia: conflito e violncia na fronteira </p> <p>paraense. Goinia: CPT; Rio de Janeiro: Justia Global; Curitiba: Terra de Direitos, 2005, p. 13. </p> <p>Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 6 </p> <p>no tm mais como sobreviver, como no Nordeste, porque a mata acabou. </p> <p>Ento, nosso plano, j de muitos anos, para criar uma rea sustentvel, </p> <p>onde se tenha futuro, onde a mata no acabe... Esse projeto, que o Incra </p> <p>endossa e nos deu toda a confiana, nos deu toda a razo para criarmos esse </p> <p>projeto, pelo qual o povo vai sobreviver de uma maneira digna. </p> <p>So mortes anunciadas e existem listas de marcados para morrer com valores </p> <p>estipulados para cada um. Fazendo um breve levantamento de mortes de lideranas de </p> <p>trabalhadores camponeses ocorridas neste contexto da dcada de 1980 para c, </p> <p>possvel anotar: Joo Canuto (Rio Maria, 1985), Expedito Ribeiro (Rio Maria, 1991), </p> <p>Arnaldo Delcdio Ferreira (Eldorado dos Carajs, 1993), Onalcio Arajo Barros o </p> <p>Fusquinha (1998), Valentim Serra o Doutor (1998), Euclides de Paula (Parauapebas, </p> <p>1999), Jos Dutra o Dezinho (Rondon do Par, 2000). Segundo ASSIS (2003:6), so </p> <p>esses nmeros que conferem ao estado do Par o ttulo de campeo nacional de </p> <p>violncia rural13</p> <p>. No podemos deixar de mencionar aqui os muitos padres e freiras que </p> <p>deram a vida em favor da luta dos oprimidos contra a opresso: Pe. Josimo (paraense), </p> <p>Ir. Adelaide Molinari (gacha) e Ir. Dorothy Stang (norteamericana). </p> <p>Romarias: uma homenagem aos mrtires da violncia na terra </p> <p>A primeira Romaria da Floresta14</p> <p> foi realizada do dia 22 a 25 de julho de 2006, </p> <p>em Anapu, no Par. Conforme a CPT de Anapu que organizou o evento, a Romaria quis </p> <p>celebrar o compromisso de defender a vida da floresta, do povo, do planeta. Irm Dorothy </p> <p>Stang viveu vinte e trs anos na Transamaznica e foi assassinada em Anapu, no dia 12 de </p> <p>fevereiro de 2005. A Romaria da Floresta faz parte de um quadro de atividades que so </p> <p>desenvolvidas pela CPT, conhecidas como Romarias da Terra e das guas. Nesse encontro os </p> <p>participantes realizaram uma caminhada de 55 quilmetros, saindo de Anapu, no dia 22, </p> <p>e chegando na tarde do dia 24 ao local onde Irm Dorothy Stang foi assassinada, o </p> <p>encontro tinha como objetivo refletir sobre os problemas ligados Floresta Amaznica15. </p> <p> 13 Ver ASSIS, William Santos de. Marcados para morrer: violncia contra lideranas rurais no sul e </p> <p>sudeste do Par. Belm, UFPA/NAEA, 2003, p. 6. </p> <p>14 De 2006 at o ano passado foram realizadas cinco romaria...</p>