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    A FORMAO MILITAR E POLTICA DE ALFONSO X, O SBIO,

    REI DE CASTELA E LEO

    REIS, Jaime Estevo dos (DHI/UEM)

    Este texto tem como objetivo discutir a formao militar e poltica de Alfonso X, o

    Sbio, rei de Castela e Leo (1252 1284). Ocupar-nos-emos em analisar a vida de Alfonso

    X desde o nascimento at a ascenso como monarca do trono da Coroa de Castela, em 1252.

    Num primeiro momento, acompanharemos a educao recebida por Alfonso X de seus

    preceptores. Os ensinamentos referentes s regras de conduta e a educao cavaleiresca do

    futuro monarca. Num segundo momento, discutiremos suas experincias militares, quando, a

    partir dos dez anos de idade, comea a participar das campanhas contra os muulmanos. Por

    ltimo, abordaremos as experincias polticas de Alfonso X, quando este passa a estabelecer,

    em nome de seu pai, Fernando III, acordos de paz entre cristos e muulmanos, como o

    acordo de vassalagem estabelecido com reino muulmano de Murcia, alm de acordos com os

    prprios cristos, como o importante Tratado de Almizra, que estabeleceu com o rei de

    Arago e seu futuro sogro, Jaime I.

    1. Nascimento e educao.

    Alfonso X, o Sbio (1221-1284), era filho de Fernando III (1217-1252), rei de Castela

    e Leo, e de Beatriz da Subia, neta dos imperadores, Frederico I, do Ocidente, e Isaac

    Angelos, do Oriente. O monarca nasceu no dia 23 de novembro de 1221, data em que se

    comemora o dia de So Clemente. Era o primognito dos dez filhos que tiveram Fernando III

    e Beatriz.

    Segundo as fontes alfonsinas, a rainha Beatriz acompanhava Fernando III em uma

    viagem ao sul de Castela para conter a rebelio de um nobre, o senhor de Molina, quando teve

    que recolher-se em Toledo, por ocasio do parto. Na comitiva estava presente a influente av

    materna do futuro rei de Castela e Leo, Berenguela, que sugeriu o nome Alfonso em

    homenagem a seu pai, Alfonso VIII (1155-1214), rei de Castela, vencedor da batalha de Las

    Navas de Tolosa (1212).

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    Logo que nasceu foi entregue aos cuidados de uma ama de leite, uma nobre, chamada

    Urraca Prez e de seu marido, Dom Garca lvarez de Toledo, muito prximos ao rei

    Fernando III. As Siete Partidas registram o costume de se entregar as crianas da nobreza em

    seus primeiros dias de vida, a uma ama de leite. De acordo com este importante cdigo

    jurdico alfonsino, os reis devem se preocupar em dar aos filhos e principalmente ao herdeiro

    do trono,

    [] amas sanas e bien acostumbradas, pues bien as como el nio se gobierna, e se cra en el cuerpo de la madre hasta que nace, otros se gobierna y se cra del ama desde que le da la teta hasta que se la cambia []. De donde los sabios antguos, que hablaron en estas cosas, naturalmente dijeron que los hijos de los reyes deben haber tales amas que hayan leche asaz, e sean bien acostumbradas, e sanas, e hermosas, e de buen linaje, e de buenas costumbres (P. II, T. VII, L.III).

    Com apenas trs meses de idade Alfonso foi retirado do convvio com os pais e levado

    para Burgos, em companhia de lvarez de Toledo e de sua esposa. Nesta cidade tiveram

    incio as aparies pblicas do prncipe herdeiro. Em 1222, Alfonso recebeu homenagem dos

    nobres e representantes da cidade que lhes prestaram juramento de fidelidade.

    Quando Alfonso completou dois anos de idade foi colocado sob a tutela de um

    preceptor Dom Garca Fernndez de Villamayor, e de sua esposa Mayor Arias. Garca

    Fernndez havia sido mordomo da me da rainha Berenguela, av de Alfonso, e depois, dela

    mesma. Este nobre foi encarregado da educao cavaleiresca de Alfonso X.

    O costume dos reis castelhanos de criar seus filhos longe das agitaes da corte

    lembrado por Dom Juan Manuel, sobrinho de Alfonso X:

    Et porque estonce non era costumbre de criar los fijos de los reyes con tan grand locura nin con tand ufaia como agora, toviendo que las grandes costas que las debian poner en servicio de Dios et en acrecentamiento de la santa fe et del regno, et que lo que se podia excusar de la costa que lo debian guardar para esto, criaban sus fijos guardando la salud de sus cuerpos lo mas simplemente que podian; as que, luego que los podian sacar de aquel logar que nascian, luego los daban alguno que los criase en su casa (DON JUAN MANUEL, 1952, p. 258).

    O objetivo era proteger o prncipe herdeiro dos riscos da convivncia em uma corte

    itinerante, pouco propcia ao seu desenvolvimento fsico e mental. Preferia-se o convvio em

    aldeias pequenas, a vida tranqila do campo e o contato com a natureza.

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    Entretanto, pouco se sabe a respeito da infncia de Alfonso X, apenas que viveu sob a

    proteo e os ensinamentos de seu preceptor dos dois aos treze anos, rodeado de sua famlia,

    participando de jogos e aventuras infantis, e acompanhando-os em viagens s suas

    propriedades e nas visitas corte.

    Entre os companheiros de Alfonso, alm dos filhos de Garca Fernndez,

    encontravam-se os seus irmos, que pouco a pouco foram se juntando a ele, e os filhos de

    outros nobres, como Nuo Gonzlez de Lara, um dos melhores amigos de Alfonso X durante

    o seu reinado, sobrinho de Dom lvaro Gonzlez de Lara, que tambm estava sendo criado

    nas propriedades que os Lara possuam prximo s de Villadelmiro e Celada, que pertenciam

    ao tutor de Alfonso.

    Visitas Galcia, terra natal de Mayor Aras, esposa do seu preceptor, possibilitaram a

    Alfonso o aprendizado do Galego, e o contato com a poesia, a msica dos trovadores e as

    lendas populares clebres na literatura galega. Em Burgos, familiarizou-se com a lngua

    castelhana, que seria a lngua oficial de seus reinos e com a qual escreveria toda a sua obra em

    prosa.

    O prncipe recebeu de Garca Fernndez, ensinamentos especficos sobre a arte da

    guerra, sobre os costumes cavaleirescos, as boas maneiras e como tratar os sditos. Uma

    testemunha da infncia de Alfonso X, o frade Juan Gil de Zamora, tece elogios ao seu

    comportamento. Segundo esse contemporneo, Alfonso era inteligente, aplicado nos estudos,

    tinha uma memria brilhante, era discreto ao falar, modesto ao rir, elegante ao vestir-se, simples

    no andar e moderado ao comer e beber ( Apud GONZLEZ JIMNEZ, 2004, p. 20).

    Essas qualidades so reproduzidas pelo monarca em suas Partidas. Ao tratar das boas

    maneiras que devem possuir os filhos dos reis, Alfonso X determina que:

    [...] los ayos que han de guardar los hijos de los reyes deben pugnar en mostrrselo e hacerles que lo usen; e dbenlos apercibir que cuando alguna cosa les dijeren, que lo no escuchen teniendo la boca abierta [...] que anden apuestamente, no muy enhiestos de ms, ni otros, corvos, ni mucho aprisa, ni mucho de vagar [...]. E cuando quisiese sentarse, que no se dejen caer a so hora, ni se levanten, otros, rebatosamente. Otros, en el vestir le deben mostrar que se vistan de nobles paos [...]. E eso mismo decimos de los frenos, e de las sillas, e de las bestias en que los trajeren, pues todas estas cosas deben ser apuestas e muy limpias (P. II, T.VII, L. VIII).

    Na corte, Alfonso recebeu a formao humanstica caracterstica da Idade Mdia,

    conhecida como as sete artes liberais: o trivium (gramtica, retrica e dialtica) e o

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    quadrivium (aritimtica, geometria, msica e astronomia). No se tem um registro exato de

    quem foram os seus primeiros mestres; certamente, algumas personalidades que freqentavam

    a corte de Fernando III, como o jurista italiano Jacobo de las Leyes, autor de um tratado

    dedicado a ele, intitulado Flores de las Leyes.

    Na anlise crtica que precede a edio do Fuero Real de Alfonso X, elaborada por

    Gonzalo Martnez Dez, este autor apresenta a dedicatria que Jacobo de las Leyes fez ao

    infante Alfonso:

    Al muy noble et mucho ondrado sennor don Alfonso Ffernandez, fiyo del muy noble et bien auenturado sennor don Fernando, por la gracia de Dios Rey de Castiella et de Len, yo maestre Jacobo de las leyes, uestra fiel cosa, uos enbio este libro pequenno, en lo qual me encomiendo en uestra gracia, como de sennor de que atiendo bien et merced (Apud MARTNEZ DEZ, 1998, p. 94).

    Alfonso teve uma educao diferente da adquirida por seus irmos, Felipe e Enrique, que

    freqentaram a Universidade de Paris. Salvador Martnez, considerando o perfil religioso de Fernando

    III, acredita que, primeira vista, a educao humanstica dada pelo monarca ao prncipe herdeiro

    pode parecer paradoxal:

    El rey ms religioso de la Espaa medieval, y el nico que ha tenido el honor de llegar a los altares, no quiso que su primognito fuese educado al abrigo de un monasterio, o bajo la tutela de algn insigne prelado y ni siquiera por los grandes maestros de la escuela de artes o la Escolstica parisina. Por el contrario, todo parece indicar que la educacin de Alfonso fue encomendada a figuras laicas, por cierto, ms conocidas por sus virtudes guerreras, que como letrados (SALVADOR MARTNEZ, 2003, p. 54).

    Tal educao se justifica se considerarmos que, na Idade Mdia, criar e educar um

    futuro rei significava, antes de tudo, formar um guerreiro e ao mesmo tempo um perfeito

    cavaleiro cristo. Nas Partidas, o prprio Alfonso define que os cavaleiros devem, por uma

    parte, ser [...] fuertes e bravos, e de outra parte mansos, e humildes (P. II, T.XXI, L.VII).

    Encerrada a fase de aprendizagem Alfonso comea a empregar, na prtica, os

    ensinamentos recebidos de seus preceptores e dos mestres, na corte. Se Fernando III desejou

    que Alfonso tivesse uma formao mais cavaleiresca do que religiosa, compreensvel que o

    monarca o levasse, desde cedo, em suas campanhas militares contra os muulmanos.

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    2. As primeiras experincias militares.

    A participao de Alfonso nas campanhas militares de Reconquista inicia-se,

    efetivamente, em 1231. Foi nesse ano, quando ele atingiu 10 anos, que comearam suas

    primeiras experincias militares.

    Segundo a Primera Crnica General de Espaa, enquanto Fernando III se ocupava da

    organizao do reino de Leo, recm-incorporado Castela,

    [...] mando a su fijo el infante don Alfonso que fuese en caualgada correr tierra de moros; et mando a don Aluar Perez de Castro el Castellano que fuese con el, para guarda del infante, et por cabdiello de la hueste, ca el infante era muy moo aun et non era tan esforado, et don Aluar Perez era omme deferido et muy esforzado (PCG, 1955, p. 724).

    O objetivo dessa campanha era manter o controle dos lugares conquistados na Baixa

    Andaluzia. Uma das principais aes ocorreu nas cercanias de Jerez, quando as tropas

    comandadas por lvar Prez de Castro enfrentaram as de Ibn Hud, emir de Murcia. A

    Primera Crnica General de Espaa relata a cavalgada de Jerez em detalhes:

    El infante don Alfonso [...] et don Aluar Perez el Castellano con el, et don Gil Marrique [...] salieron de Salamanca [...] con su hueste [...] et llegaron a Anduiar. Et desque llegaron, don Aluar Perez, que yua por mayoral, fizo mouer la hueste de alli, et derramar sus algaras por todas las partidas desa tierra; et fueron contra Cordoua, quemando et destroyendo et acogiendo entre si quanto alcanar podien. Et asi esto faziendo pasaron por Cordoua, et llegaron a Palma et tomaronla por fuera, combatiendola muy de rezio de todas partes, et mataron quantos moros fallaron dentro, que sol vno non dexaron a uida. Mouieron de alli et fueronse acostando contra Seuilla, faziendo todas estas estruyiones; et pasaron por Seuilla, et fueron contra Xerez, et tendieronse las algaras contra Beger et por todas esas partidas, et corrieron et acogieron quanto y fallaron, et tornaronse con todo su hueste. El infante don Alfonso et don Aluar Perez mandaron fincar las tiendas en Guadalete, y cabo de Xerez, et fizeron llegar su presa derredor de si (PCG, 1955, p. 725).

    De acordo com essa fonte, foi durante tal cavalgada que Alfonso vivenciou um dos

    episdios mais marcantes de suas primeiras experincias militares: a decapitao de

    quinhentos muulmanos presos sob sua escolta: El infante tenie la aga et traye y quinientos

    moros catiuos que desa caualgada tomaron, et enbiol don Aluar Perez dezir, que traya la

    delantera, que fezies descabear los catiuos todos; e fizeronlo asi (PCG, 1955, p. 726).

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    A prtica da decapitao era uma punio comum na Espanha medieval, sobretudo nos

    reinos de Castela e Leo. Era imposta tanto nos crimes de traio entre a nobreza, por

    exemplo, nos casos de rebelio contra o rei, bem como nos caos em que os inimigos,

    notadamente os muulmanos, ao invs de se renderem enfrentavam os reis cristos at a perda

    da batalha.

    A Crnica de Veinte Reyes destaca o impacto psicolgico que esse acontecimento teve

    sobre os muulmanos de Jerez:

    [...] la cosa del mundo que ms quebrant a los moros, por que el Andaluza ouieron a perder e la ganaron los christianos dellos, fue esta caualgada de Xerez, ca de guisa fincaron quebrantados los moros, que non pudieron despus auer el atreuimiento nin el esfuero que ante aven contra los cristianos; tamao fue el espanto e el miedo que tomaron desa vez (CVR, 1991, p. 309).

    De acordo com a Primera Crnica General de Espaa, finalizada a cavalgada de

    Jerez, o [...] infante et don Aluar Perez fueronse para Palencia o era el rey, et fueron bien

    reibidos (PCG, 1955, p. 729).

    Aps essa primeira experincia, Alfonso voltou a participar das campanhas militares

    em 1236, aos quatorze anos, quando ocorreu um novo cerco cidade de Crdoba. Novamente

    a Primeira Crnica General de Espaa que fornece as informaes mais precisas sobre essa

    segunda experincia do infante, dessa vez ao lado de seu pai:

    [...] el noble rey don Fernando torno a Cordoua otra uez con don Alfonso et com don Fernando sus fijos, que escomenauan estones a ser manebos et auien sabor de salir et cometer grandes fechos como su padre el rey don Fernando [...] et corrieron tierra de moros a todas partes, et robaron et quebrantaron et fizieron quanto quisieron (PCG, 1955, p. 729).

    Em 1240, aos dezenove anos, Alfonso foi alado publicamente condio de prncipe

    herdeiro do trono de Castela, dispondo de casa, rendas e servidores prprios. A inteno de

    Fernando III era de que o infante adquirisse experincia administrativa e maturidade poltica.

    Segundo Manuel Gonzlez Jimnez:

    El ncleo principal del infantado de Alfonso se localizaba en el sector meridional del reino de Len y parece que comprenda las villas y ciudades de Alba de Tormes, Ciudad Rodrigo, Salamanca, Len y Toro. Da, por tanto, la impresin de que Fernando III, adems de dotar al herdero de

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    rentas y seoros leoneses, le confi el gobierno y la representacin regia en todo el reino de Len. Se trataba de que el infante herdero adquiriese experiencia en el manejo de los asuntos de gobierno, pero, al mismo tiempo, el encargo no estaba exento de un alto significado poltico pensado para dar seguridades y atencin a un sector del reino, recientemente unido a Castilla (GONZLEZ JIMNEZ, 2004, p. 22).

    Alfonso exercia, em nome de Fernando III, poderes judiciais em todo o reino de Leo.

    Em documento emitido em 1240, ordenou a seu mordomo-mor e aos juzes de Capranes que

    protegessem os bens que dona Mayor lvarez, mulher de Gil Gonzlez, um vassalo seu,

    possua em Astrias. Outro documento revela que um pleito que envolvia o Conselho leons e

    o monastrio de San Isidoro foi resolvido mediante sua interveno (GUERRERO DE LA

    FUENTE, 1972, p. 10).

    Alfonso tambm exercia poderes judiciais em Castela. O Libro de los Fueros de

    Castilla relata, em sua Lei 302, uma condenao proferida por ele:

    Querellse una maneba de un omne de Castro Ordiales quel ava forada e quel ava quebrantado su natura con la mano e era apreiada como era derecho. Et juzgaron en casa del infante don Alfonso, su fijo del rrey don Ferrando, quel cortasen la mano e despus quel enforcasen (LFC, 2004, p. 352-353).

    Em 1241, Alfonso desempenha o papel de mediador entre seu pai e Diego Lpez de

    Haro As crnicas no apontam claramente as razes que levaram esse nobre a se rebelar

    contra o monarca. Deduz-se que Lpez de Haro, que exercia o cargo de alfrez do rei, teria

    cometido graves improbidades nas terras do monarca, localizadas na regio do senro de

    Viscaya, pertencente a ele, e que, portanto, estavam sob sua proteo.

    Fernando III, assim que soube dos desmandos de Diego Lpez, destruiu o castelo de

    Briones e alguns outros que esse nobre possua na regio de Haro. Ao retornar para Burgos,

    deixou Alfonso como frontero em Medina.

    Diego Lpez, que havia se retirado para evitar o confronto direto com o rei, assim que

    soube da presena do infante Alfonso em suas terras, [...] vinose para el, et el leuou consigo

    para Miranda; et el rey acogiol, et dende mouieron todos en vno et venieronse para Burgos,

    et dende a Valladolit (PCG, 1955, p. 741).

    No retorno para suas terras, Lpez de Haro foi seguido de perto pelo rei e por Alfonso.

    O objetivo do monarca era evitar que o vassalo provocasse destruies nos territrios por

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    onde passasse. Alfonso assumiu novamente a funo de portero que executava mandados

    reais -, dessa vez em Vitria, prximo ao seoro de Lopez de Haro.

    Segundo a Primera Crnica General de Espaa, Diego Lpez, ao perceber que estava

    sendo monitorado por Alfonso, retornou ao rei [...] et metios en su mered et en su poder; et

    non fue y mal acordado, ca todo fue crecimiento de su pro et escusamiento de su danno

    (PCG, 1955, p. 741).

    3. As experincias polticas.

    A partir de 1243, a participao de Alfonso no governo do reino se tornou muito mais

    freqente. Um dos motivos teria sido a doena de Fernando III, que o impediu de realizar

    pessoalmente novas operaes militares. No incio desse ano, enquanto Alfonso preparava em

    Toledo uma nova interveno em Granada, recebeu os mensageiros do rei de Murcia,

    Muhammad Buha al-Dawla, o Abenhudiel citado nas crnicas castelhanas, os quais se

    dirigiam a Burgos para negociar com Fernando III [...] en pleytesia de Murcia et de todas las

    otras uillas et castiellos dese regno, que se querien dar al rey don Fernando su padre et

    meterse en su mered (PCG, 1955, p741).

    Segundo Gonzlez Jimnez, a solicitao de ajuda por parte do rei de Murcia estava

    mais que justificada, uma vez que:

    [...] a la debilidad de su posicin personal en Murcia, comprobada a los pocos meses del inicio de su reinado cuando fue depueso por Ibn Jattab, en agosto de 1238, se aadan otros factores amenazantes como la presencia de la Orden de Santiago en el flanco suroccidental del reino. A ello se una la profunda divisin interna de los caudillos murcianos, partidarios unos del acercamiento a Castilla y otros de la integracin en la Granada de Ibn al Ahmar (GONZLEZ JIMNEZ, 2006, p. 185).

    Portanto, no restava ao rei de Murcia outra sada a no ser solicitar a proteo de

    Fernando III, ainda que isso implicasse a renncia de sua independncia e o pagamento de

    rendas, tornando-se assim seu vassalo.

    Alfonso impediu que os enviados do rei murciano seguissem para Burgos, e pediu-lhes

    que retornassem a Murcia e aguardassem o contato do monarca.

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    Impossibilitado de cavalgar de Burgos at a fronteira com Murcia, Fernando III

    ordenou que Alfonso suspendesse os planos de atacar Granada, deixasse Toledo e cuidasse,

    ele prprio, das negociaes.

    Segundo a Crnica de Alfonso X,

    [...] don Alfonso [...] desque ouo esta mandadera de los moros de Muria, fue all con mandado et voluntad del rey don Fernando, su padre, et recibironlo por sennor et entregronle la ibdat e todos los castillos et fincaron todos las fortalezas en poder de los christianos, e la ibdat de Murcia e todos los otros lugares fincaron poblados de moros (CAX, 1998, p. 29).

    Desse modo, o reino de Murcia tornou-se um protetorado de Castela, e os muulmanos

    continuaram na posse de suas propriedades e no comando da economia e da poltica interna

    do reino. Os castelhanos limitaram-se a manter guarnies militares nas principais fortalezas

    do territrio murciano.

    A Primera Crnica General de Espaa registra que o acordo foi fechado em Alcaraz,

    na fronteira de Castela, com o reino de Murcia, em 1243, na presena do emissrio do rei de

    Murcia, dos arraeces das cidades de Crevillente, Alicante, Elche, Orihuela, Alhana, Aledo,

    Val de Ricote, Cieza [...] et de todos los otros logares del reyno de Muria que eran

    sennoreados sobre si (PCG, 1955, p. 742).

    Estabelecido o acordo de vassalagem de Murcia, Alfonso voltou para Burgos para,

    juntamente com seu pai, dar prosseguimento s negociaes de seu casamento com a infanta

    Violante, filha de Jaime I, de Arago. O matrimnio dependia da resoluo de alguns

    conflitos relativos disputa de territrios entre Castela e Arago.

    Esse foi, precisamente, o motivo da segunda viagem que Alfonso fez Murcia, ou

    seja, estabelecer um tratado de fronteira entre Castela e Arago e definir os limites de

    expanso de cada reino, na faixa situada entre os reinos de Valncia, conquistado por Jaime I,

    e Murcia, agora incorporado Castela.

    O encontro entre Alfonso e Jaime I ocorreu em 1244, e foi relatado pelo monarca aragons em

    seu livro de memrias:

    Al cabo de unos quince das nos envi mensaje el infante don Alfonso diciendo que quera vernos y nos rog que le salisemos al encuentro en Almizra. [...] Tuvimos la entrevista entre Almizra y Caudete, donde l haba puesto sus tiendas; Nos las tenamos en Almizra. Nos llevbamos una tercera parte ms de caballeros de los que l llevaba. Y nos vimos. Despus

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    de entrevistarnos, vino a nuestra hueste para ver la reina, nuestra mujer. Y Nos le quisimos ofrecer el castillo y la villa de Almizra para que se aposentase, pero l no quiso hacerlo. Y se aposent fuera, al pie del cerro de Almizra, donde haba hecho plantar sus tiendas. Y aqu departimos muy amistosamente (LIBRO DE LOS HECHOS, 2003, p. 388-389).

    Nesse encontro foi firmado um tratado no qual Jaime I reconheceu como pertencentes

    Castela, os castelos e as vilas de Alicante, Aiora, Villena e Busot at o porto de Biar. Alfonso

    reconheceu como pertencentes a Arago os castelos de Castalla, Biar, Almizra e Jtiva, conforme se

    observa na figura a baixo.

    Mapa: Tratado de Almizra (1244). Fonte: Villacaas (2003).

    o prprio rei de Arago quem relata a assinatura do acordo: E hicimos nuestras

    escrituras, con bulas, entre Nos y el infante don Alfonso, separndonos amistosamente,

    devolviendo cada uno lo que tena y no le correspondia (LIBRO DE LOS HECHOS, 2003, p.

    392-393).

    Alfonso permaneceu em Murcia tratando de questes relativas ocupao do

    territrio. Em 15 de abril emitiu uma srie de privilegios entregando aos nobres castelhanos a

    tenencia e o seoro de vrias vilas. A vila de Elda foi entregue a Guilln, o alemo; as vilas

    de Alpera e Carceln, a Pedro Lpez de Arana; a vila de Jumilla, a Alfonso Tllez de

    Meneses; e a de Aldarache, a Sancho de Entelln. Tambm foram entregues algumas vilas

    Ordem dos Templrios, como as de Caravaca e Cehegn.

    Essas outorgas revelam a poltica centralizadora adotada pelo prncipe herdeiro do trono de

    Castela e Leo, ou seja, a de no permitir que a nobreza laica ou eclesistica se apoderasse de

    territrios, castelos ou quaisquer outras fortalezas recm-conquistadas, sem a devida autorizao, o

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    que implicava na prestao de homenagem a ele ou a Fernando III.

    Alfonso tratou tambm de resolver algumas questes pendentes, como a resistncia

    apresentada pelos arraeces chefes militares muulmanos - de Mula, Lorca e Cartagena, que

    se recusavam a aceitar o tratado de Alcaraz, de 1243, ou seja, o da anexao de Murcia

    Castela. De acordo com a Primera Crnica General, o infante empreendeu algumas

    campanhas militares e [...] corrio Mula et Lorca et Cartagena et esos logares rebeldes que se

    le non querien dar, et tirolas et astragolas todas (PCG, 1955, p. 744).

    Em Crdoba, Fernando III recebeu a notcia das conquistas de Alfonso:

    Et el estando y con la reyna su muger et con sus gentes [...] llegol mandado de don Alfonso su fijo, que el enbiara al reyno de Muria, en commo ganara Mula et que fuera bien andante contra esos moros que tan rebeldes estauan, et de commo quebrantara otrosi los moros de Lorca et de Cartagena; al rey su padre plogo mucho con las nuevas (PCG, 1955, p. 744).

    Encerram-se, assim, as fases de aprendizagem e de treinamento militar e poltico do

    prncipe Alfonso, perodos importantes na vida do futuro monarca porque lhe permitiram

    adquirir uma valiosa experincia na arte da guerra, na administrao e na poltica. A

    cavalgada de Jerez (1231) e o cerco cidade de Crdoba (1236) introduziram-no na prtica

    das campanhas militares. Os tratados de Alcaraz (1243) e de Almizra (1244) comprovam sua

    capacidade de negociao. O controle dos castelos de Murcia e a conquista das cidades

    muulmanas de Mula, Lorca e Cartagena, demonstram sua habilidade para organizar o

    exrcito e comand-lo com eficincia. A distribuio das fortalezas conquistadas aos seus

    colaboradores mais prximos, mediante a prestao de homenagem, revela a inteno de

    construir a base de apoio nobilirio de que iria precisar quando chegasse a hora de assumir o

    trono de Castela e Leo.

    Em 1252, quando ascendeu ao trono de Castela e Leo, Alfonso X era um monarca

    bastante experiente e conhecia a fundo a realidade econmica, social e poltica de seus reinos.

    Esse conhecimento permitiu-lhe dar continuidade poltica administrativa de seu pai,

    Fernando III, sobretudo no que diz respeito ao processo da Reconquista e centralizao

    monrquica, aspectos fundamentais do reinado de Alfonso X, cognominado, o Sbio.

    Referncias

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    Fontes Impressas:

    ALFONSO X. Las Siete Partidas. Madrid: Editorial Reus, 2004.

    ALFONSO X. Primera crnica general de Espaa que mando componer Alfonso el

    Sabio y se continuaba bajo Sancho IV en 1289. Madrid: Gredos, 1955, v. 2.

    CRNICA DE ALFONSO X. Murcia: Real Academia Alfonso X el Sabio, 1998.

    CRNICA DE VEINTE REYES. Burgos: Ayuntamiento, 1991.

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