a filosofia do direito em kant

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    A Filosofia do Direito em Kant

    Renato Vasconcelos Magalhes

    I - INTRODUO

    O presente trabalho visa, de forma despretensiosa, contribuir no sentido de

    trazer lume alguns tpicos da filosofia do Direito na obra de Immanuel Kant,

    fazendo com que o legado jusfilosfico deste "Coprnico" venha, de alguma forma,

    contribuir no s para o desenvolvimento da problemtica jurdica enquanto

    questo essencialmente terica, como tambm na aplicao do Direito enquanto

    realizao do justo, entendido tal conceito na forma esboada por

    ROBERTO AGUIAR (1).

    Cumpre-nos, inicialmente, situar Kant dentro do panorama

    filosfico de sua poca para que possamos ter uma viso

    contextualizada da importncia de sua obra. Nascido em

    Koenisgberg, na Alemanha, em 22 de abril de 1724, e educado sob o

    esprito pietista que caracterizava o protestantismo alemo da

    poca, em 1740 ingressa na Universidade de Koenigsberg, dedicando-

    se inicialmente a Teologia e posteriormente s Matemticas, s

    Cincias Naturais e Filosofia. Passado alguns anos, por volta de

    1770, nomeado para a ctedra de Matemtica, na mesma

    Universidade, que mais tarde trocaria pela de Lgica e pela de

    Metafsica, lecionando durante 26 anos e falecendo em 12 de

    fevereiro de 1804.

    II - O DESENVOLVIMENTO FILOSFICO

    O filsofo das trs crticas, como mais tarde viria a ser conhecido,

    inspirou-se para a construo do seu sistema filosfico nas correntes

    que, at ento, predominavam: o Racionalismo dogmtico de

    DESCARTES, LEIBNIZ E ESPINOZA e o Empirismo ctico de BACON,

    HUME E LOCKE. Os racionalistas acreditavam que a busca das

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    verdades absolutas poderia (e deveria) ser feita sem a interveno

    dos sentidos que, de certa forma, obstaculizavam o conhecimento e,

    por conseguinte, obscureciam a verdade. O conhecimento, para a

    doutrina racionalista, seria fruto de uma simples faculdade, a razo.

    ESPINOZA professava que "se encontrar a possibilidade de atingir

    as coisas particulares partindo do todo concreto, em que no haver

    mais a dualidade de sujeito e objeto, pois no todo estes dois so

    idnticos" (2). Partindo deste raciocnio chegaramos concluso

    que o todo na filosofia de LEIBNIZ corresponderia figura de Deus

    que, atravs do seu conceito, unificaria as idias e os seus objetos, o

    que dispensaria a causalidade entre as coisas e o conhecimento. Por

    outro lado, os empiristas creditavam todo o sucesso das suas

    investigaes filosficas experincia. Quanto mais prximos dos

    sentidos e, logicamente, mais distantes da razo, mais seguro seria o

    conhecimento. Com os empiristas e, precisamente com BACON, no

    se colocaria mais o problema do conhecimento da "coisa em si",

    porque o intelecto somente conseguiria atingir, atravs da

    experincia, os fenmenos, aquilo que se perceberia sensorialmente.

    Da o ceticismo desta corrente. Assim, para os empiristas, o

    conhecimento seria fruto de uma outra faculdade, a sensibilidade.

    Durante a primeira parte de sua atividade filosfica, que alguns

    autores costumam dividir em quatro (3), Kant deixou-se levar pelo

    racionalismo dogmtico tendo, mais tarde, sido desperto deste sono

    atravs do empirismo ctico.

    Ocorre que nenhuma destas correntes, se vistas isoladamente,

    responderia ao anseio filosfico de Kant. A primeira corrente, ao se

    ater somente razo humana, no conseguiu criar uma teoria que

    explicasse a prpria razo como elemento inconteste de todo o

    conhecimento, como assevera IRINEU STRENGER: "tecia uma rede

    metafsica e racional em torno do conhecimento de Deus, do mundo e

    da alma humana, sem ocorrer uma averiguao indagando com que

    direito confiava cegamente na pura razo humana em assuntos que

    sobrepassam todo os limites da experincia possvel" (4). Cria-se na

    razo como uma f. A Segunda corrente, por seu turno, afirmava que

    todo o conhecimento partiria da experincia, contudo no formulava

    princpios seguros que embasassem sua teoria: tendo a matemtica e

    a fsica verdades necessrias e universais e sendo os dados da

    experincia contigentes e particulares, essa necessidade e

    universalidade no derivaria da experincia, teriam uma outra fonte

    e qual seria esta? (5)

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    exatamente neste ponto do seu desenvolvimento filosfico que

    Kant aparece com suas trs Crticas, fazendo confluir as doutrinas

    filosficas anteriores, procurando uma resposta ao problema que ora

    se colocava: como chegar ao conhecimento sem cair nas antpodas

    do racionalismo e do empirismo. A resposta vem com a Crtica da

    Razo Pura (1781), Crtica da Razo Prtica (1788) e Crtica do Juzo

    (1790). Com estas trs obras Kant procura tanto responder a uma

    filosofia especulativa, essencialmente teortica, quanto uma filosofia

    prtica.

    Superficialmente, j que nosso intuito no precisamente esboar a

    teoria filosfica de Kant, mas to somente verificar a contribuio de

    seu pensamento para a filosofia do Direito, arriscamo-nos a

    comentar, em sntese apertada, que dentro do sistema kantiano a

    razo pura haveria de ser um conjunto de conceitos puros "a priori",

    deduzidos pela razo da experincia, enquanto que a razo prtica

    deveria abranger os princpios puros do exerccio da razo pura

    prtica no campo da Moral e do Direito.

    Assim, a doutrina do Direito encontra-se inserta na obra kantiana na

    efetivao da razo prtica, que proporciona os princpios bsicos de

    sustentao a uma metafsica dos costumes. Ao justificar esta

    metafsica Kant assevera: "se um sistema de conhecimento a priori

    por puros conceitos se chama metafsica, uma filosofia prtica, que

    no tem por objeto a natureza, mas a liberdade do arbtrio,

    pressupor e requerer uma metafsica dos costumes" (6)

    Vista como uma sntese da sensibilidade e do entendimento o

    conhecimento em Kant corresponde a uma correlao entre o sujeito

    e o objeto. "Nessa relao os dados objetivos no so captados por

    nossa mente tais quais so (a coisa em si), mas configurados pelo

    modo com que a sensibilidade e o entendimento os apreendem.

    Assim, a coisa em si, o nmeno, o absoluto, incognoscvel. S

    apreendemos o ser das coisas na medida em que se nos aparecem,

    isto , enquanto fenmeno." (7). No conhecemos a realidade

    essencial, apenas a manifestao fenomenolgica das coisas,

    adaptando-se estas nossa faculdade e no o contrrio (revoluo

    corpernicana). A problemtica do conhecimento em Kant colocada

    de forma clara na obra de HABERMAS : "Com Kant, a tarefa

    prescutora das possibilidades do conhecimento delimitou o alcance

    da cincia - da crtica - fundando uma teoria do conhecimento

    imune s questes da compreenso do ser inscritas no indizvel,

    indecifrvel e ilimitado mundo metafsico. Desta forma a filosofia se

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    presume um conhecimento antes do conhecimento, abrindo entre si

    e as cincias um domnio prprio do qual se vale para passar a

    exercer funes de dominao" (8). Veremos mais adiante que esta

    revoluo copernicana opera-se com Kant principalmente na tica.

    Cria-se, assim, um fosso intransponvel entre a "coisa em si" e o

    fenmeno. Na palavras de CARLOS LOPES DE MATOS :"Dos

    fenmenos para uma realidade essencial h um passo que no

    podemos dar na hiptese do realismo mediato: esta realidade fica

    sendo incognoscvel. Em concluso, apenas as cincias tem valor. A

    metafsica terica torna-se impossvel, s se refazendo as verdade

    metafsicas por exigncia da razo prtica: o dever supe a alma

    imortal, a liberdade e Deus" (9).

    Esta ruptura laborada por Kant, colocando o ser como inatingvel

    pelo pensamento humano, vem influenciar de forma explcita o

    pensamento jurdico de sua poca, j que aquele permanece

    prisioneiro de suas prprias formas subjetivas de pensar, enquanto

    que o dever ser impe-se vontade humana. (10). Os filsofos do

    Direito aps Kant passam a se posicionar ou segundo este, reduzindo

    o Direito a um mero dever ser, sem relao com o ser, como o fez

    brilhantemente KELSEN (11), ou buscando uma sada para a

    superao desta dicotomia, tentando deduzir o dever ser do ser,

    j que para Kant isto seria impossvel: "Para Kant, pois, o dever ser

    no pode ser deduzido do ser, no se assenta na estrutura do fato,

    mas na racionalidade do Subjetivo" (12).

    Somente com HUSSERL, atravs da fenomenologia jurdica, que se

    vai superar a ruptura kantiana, tentando relacionar os dois mundos

    separados, permitindo uma correspondncia entre o ser e o dever

    ser, ou mais precisamente, entre o ser e o pensar. O Ego, agora com

    HUSSERL, volta-se intencionalmente para os objetos individuais,

    colocando-os em parnteses e, podendo desta forma captar o eidos, a

    essncia ideal do objeto. Esta tentativa de superao da dicotomia

    kantiana,