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197 Cad.Cat.Ens.Fis., v.13,n3: p.197-218, dez.1996.

A FILOSOFIA DA CINCIA DE KARL POPPER: O RACIONA-LISMO CRTICO1

Fernando Lang da SilveiraInstituto de Fsica - UFRGSPorto Alegre, RS

Resumo

A filosofia de Karl Popper - o racionalismo crtico - apresentada.Para ele todo o conhecimento falvel e corregvel, virtualmenteprovisrio. O conhecimento cientfico criado, construdo e nodescoberto em conjuntos de dados empricos. A refutabilidade demarcaa cincia da no-cincia e a atitude de colocar sob crtica toda equalquer teoria permite o aprimoramento do conhecimento cientfico. A teoria do conhecimento, dos Trs Mundos e o problema crebro-menteso discutidos.

I. Introduo

No dia 17 de setembro de 1994, aos noventa e dois anos de idade, faleceuna Inglaterra o clebre filsofo Karl Popper. Austraco de nascimento, imigrou nos anos 30, fugindo do nazismo; inicialmente esteve na Nova Zelndia, estabelecendo-se depoisna Inglaterra. Na London School of Economics foi professor de Filosofia da Cincia;em 1964 recebeu o ttulo de cavaleiro (Sir).

A filosofia de Popper, o racionalismo crtico, ocupa-se primordialmente dequestes relativas teoria do conhecimento, epistemologia. Ainda na ustria, em1934, foi publicado o seu primeiro livro, Logic der Forschung ( A Lgica da PesquisaCientfica (Popper, 1985), na verso brasileira), que se constituiu em uma crtica aopositivismo lgico do Crculo de Viena, defendendo a concepo de que todo oconhecimento falvel e corrigvel, virtualmente provisrio.

O pensamento de Popper tambm abrangeu a esfera da poltica e dasociedade. Em A Sociedade Aberta e seus Inimigos (Popper, 1987b e 1987c) e Amisria do Historicismo (Popper, 1980b) transpe seus ensinamentos epistemolgicospara o campo da ao poltica racional. Como todo o nosso conhecimento imperfeito,estando sempre sujeito a revises crticas, qualquer mudana na sociedade dever

1 Trabalho parcialmente publicado em Scientia, So Leopoldo, 5 (2) : 9-28, 1994.

Silveira, F.L. da 198

ocorrer de maneira gradual para que os erros possam ser corrigidos sem causar grandesdanos. A idia de uma sociedade perfeita, atingvel atravs de uma revoluo social, criticada e considerada irracional.

Nos ocuparemos a seguir das idias de Popper sobre a teoria doconhecimento, a epistemologia e sobre o problema crebro-mente. No apresentaremossuas idias poltico-sociais.

II. As explicas cientficas e a lgica dedutiva

Uma das tarefas da cincias a explicao. Ao longo da histria da prticada explicao, muitos mtodos e tipos diferentes foram tidos como aceitveis, mastodos eles tm algo em comum: consistem todos de uma deduo lgica; umadeduo cuja concluso o explicandum - uma assero da coisa a ser explicada(Popper, 1982, p. 321) e de um conjunto de premissas - o explicans - constitudo porleis e condies especficas.

Qualquer explicao envolve no mnimo um enunciado universal (lei) que,combinada com as condies especficas, permite deduzir o que se deseja explicar.Apenas condies especficas no so suficientes para se produzir uma explicao. Porexemplo, se quisermos explicar o aumento da resistncia eltrica de um fio de cobrepela elevao da temperatura, podemos supor um enunciado universal que afirma queos condutores metlicos possuem resistncia variando com a temperatura.

Lei: a resistncia eltrica dos condutores metlicos varia com atemperatura.

Condies especficas: a temperatura do fio de cobre variou de 20 C para6 C.

Concluso: a resistncia eltrica deste fio de cobre variou.Obviamente que esta no a nica explicao possvel. Outras explicaes

mais profundas e complexas recorreriam a leis e condies especficas sobre a estruturada matria, justificando o fenmeno macroscpico (a variao da resistncia) a partirdeste nvel microscpico. Uma explicao desta ordem envolveria uma longa cadeiadedutiva para finalmente atingir o explicandum. O importante na presente discusso oaspecto dedutivo das explicaes e a necessidade de se recorrer a no mnimo uma lei es condies especficas.

Outras tarefas da cincia, como a derivao de predies e aplicaestcnicas, tambm podem ser analisadas por meio de esquema lgico queapresentamos para analisar a explicao (Popper, 1982, p. 324).

A derivao de predies parte do suposto conhecimento das leis e dascondies especficas, obtendo-se algo que ainda no foi observado. Nas aplicaestcnicas so especificados os resultados a serem obtidos, como, por exemplo, a

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construo de uma ponte, e so admitidas certas leis e teorias relevantes. O que seprocura ento so condies especficas que possam ser tecnicamente realizadas.

A lgica dedutiva desempenha um papel de grande importncia noconhecimento cientfico. Segundo Popper, ela :

transmissora da verdade.retransmissora da falsidade.no-retransmissora da verdade.

Ela transmite a verdade do explicans para o explicandum, ou seja, sendoverdadeiras as leis e as condies especficas, ser necessariamente verdadeira aconcluso.

Ela retransmite a falsidade do explicandum para o explicans, ou seja, se aconcluso falsa, ento uma ou mais premissas so falsas.

Ela no retransmite a verdade do explicandum para o explicans, ou seja,sendo a concluso verdadeira, poder ser parcialmente ou totalmente falso o explicans.Em outras palavras, de premissas falsas possvel se obterem concluses verdadeiras.

Essas trs propriedades da lgica dedutiva podem ser exemplificadasatravs do raciocnio dedutivo abaixo:

Primeira premissa: todos os A so B.Segunda premissa: X A.Concluso: X B.A transmisso da verdade das premissas para a concluso ocorre no

seguinte exemplo onde as premissas so verdadeiras:Primeira premissa: todos os metais so condutores eltricos.Segunda premissa: o cobre metal.Concluso: o cobre condutor eltrico.A retransmisso da falsidade da concluso para as premissas ocorre no

seguinte exemplo onde a concluso falsa porque a segunda premissa falsa:Primeira premissa: todos os metais so condutores eltricos.Segunda premissa: o vidro metal.Concluso: o vidro condutor eltrico.A no-retransmisso da verdade da concluso para as premissas ocorre

no seguinte exemplo onde a primeira premissa e a concluso so verdadeiras e asegunda premissa falsa:

Primeira premissa: todos os metais so condutores.Segunda premissa: o carvo metal.Concluso: o carvo condutor eltrico.A estrutura dedutiva das explicaes cientficas e as propriedades da lgica

dedutiva so importantes para a filosofia da cincia de Popper, em especial no mtodocrtico exposto mais adiante.

Silveira, F.L. da 200

III. O problema da induo

Um dos problemas da filosofia da cincia investigado por Popper ochamado problema da induo . Acreditavam os indutivistas ser possvel justificarlogicamente a obteno das leis, das teorias cientficas a partir dos fatos; poder-se-ia,utilizando a lgica indutiva, chegar s leis universais, s teorias cientficas.

" comum dizer-se indutiva uma inferncia, caso ela conduza deenunciados singulares (...), tais como descries dos resultados deobservaes ou experimentos, para enunciados universais, taiscomo hipteses ou teorias.

Ora, est longe de ser bvio, de um ponto de vista lgico, haverjustificativa no inferir enunciados universais de enunciadossingulares, independentemente de quo numerosos sejam estes; com efeito, qualquer concluso colhida desse modo sempre poderevelar-se falsa; independentemente de quantos cisnes brancospossamos observar, isso no justifica a concluso de que todos oscisnes so brancos" (Popper, 1985, p. 27/28).

O problema da induo tambm pode ser formulado de outra maneira: hleis universais certamente verdadeiras ou provavelmente verdadeiras? possvel sejustificar a alegao de que uma teoria verdadeira ou provavelmente verdadeira apartir de resultados experimentais ou de observaes?

Aqui tambm a resposta de Popper negativa. No importa quantasasseres de teste (resultados experimentais ou de observaes) se tenha, no possveljustificar a verdade de uma teoria, pois a lgica dedutiva no retransmite a verdade. Oconfronto da teoria com as asseres de teste nunca direta; h necessidade de secombinar as leis universais com condies especficas e derivar dedutivamentehipteses ou concluses com baixo nvel de generalidade. Estas podem, em princpio,serem confrontadas com os fatos. Se os fatos apoiarem as concluses, se as conclusesforem dadas como verdadeiras, no h retransmisso da verdade para as hipteses comalto nvel de generalidade (as leis universais).

No importando quantas confirmaes de uma teoria tenham sidoobtidas, sempre logicamente possvel que, no futuro, se derive uma concluso que no venha a ser confirmada. Conforme o exposto na seco anterior, possvel, depremissas falsas, obter-se concluses verdadeiras.

Outra razo contra a existncia da lgica indutiva est em que um conjuntode fatos sempre compatvel com mais de uma generalizao (rigorosamente com umnmero infinito de generalizaes). Por exemplo, se todos os cisnes at hoje observados so brancos, algumas possveis generalizaes so as seguintes:

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Todos os cisnes so brancos. Todos os cisnes so brancos ou negros. Todos os cisnes so brancos ou vermelhos ou azuis.

Qualquer enunciado que afirma o observado e um pouco mais (ou muitomais) ser compatvel com as observaes ocorridas.

Estes aspectos lgicos que contraditam a existncia da lgica indutiva sero complementados nas seces seguintes com outros que se apiam na histria da cincia. A histria da cincia mostra exemplos de teorias que passaram a corrigir os