A FIESP e a política econômica do governo Castelo Branco ... ?· A FIESP e a política econômica…

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A FIESP e a poltica econmica do governo Castelo Branco antes do PAEG

Ulisses Rubio Urbano da Silva

IE/UNICAMP

ulisses.rubio@gmail.com

Resumo

A primeira metade da dcada de 1960 foi marcada pela instabilidade e polarizao

polticas. No plano econmico existia a tendncia de desacelerao, e depois recesso,

econmica com acelerao da inflao. Por tal cenrio ter-se caminhado para o golpe civil-

militar, tem-se entendido que as reformas e polticas econmicas dos diferentes governos

militares foram coerentes e expresso do projeto da parcela da sociedade que articulou o

golpe. Os estudos que defendem a existncia de continuidade entre as medidas econmicas

adotadas por Campos-Bulhes e Delfim Netto argumentam que a economia brasileira foi

direcionada para se tornar uma economia de mercado e aberta ao exterior. Alguns estudos, no

entanto, apontam para cises entre as polticas econmicas de Campos-Bulhes e Delfim

Netto, bem como para o fracasso da articulao entre economia e sociedade planejada pelo

primeiro governo militar no Brasil ps-1964. Entendemos que o fracasso e mudana na

conduo da poltica econmica significariam alteraes tambm nas composies entre as

fraes de classe na formao do Estado durante a gesto destes dois ministrios distintos.

Sendo assim, a unidade entre diferentes setores da sociedade que conspiravam contra Goulart

se realizou mais em torno de interesses contrrios situao do que em torno de medidas

especficas que formariam um projeto consensual. Com o objetivo de melhor entender o lugar

de diferentes interesses na formao do governo Castelo Branco, analisaremos uma frao da

sociedade de inegvel representao econmica e que participou do movimento golpista, a

FIESP/CIESP, buscando entender como se comportava. Ser dada nfase nas discusses em

torno das exportaes de produtos manufaturados e da poltica monetria sem, com isso,

desconsiderar que a adoo de novas medidas nestas reas significaria tambm uma nova

concepo de Estado.

Introduo

Humberto Castelo Branco assumiu a presidncia da Repblica do Brasil em 15 de abril

de 1964. A sua escolha ocorreu aps o golpe civil-militar dado sobre o governo Joo Goulart.

A crise poltica em torno do governo de Jango se deu em meio a uma crise tambm

econmica, que se iniciou em 1962 e inclua acelerao inflacionria com estagnao do

crescimento econmico (RESENDE, 1982, p. 771-772). O encaminhamento de solues para

mailto:ulisses.rubio@gmail.com

a crise criou uma acentuada polarizao poltica, na qual luta de classes no Brasil alcanou

um de seus momentos mais intensos, dinmicos e significativos (TOLEDO, 2004, p. 14). De

um lado estavam os setores de esquerda que apoiavam as chamadas reformas de base e,

embora heterogneos, formavam o que Argelina Figueiredo chamou coalizo radical pr-

reformas (FERREIRA, 2004, p. 184). Pronunciamentos radicais de algumas lideranas

destes segmentos de esquerda unificaram a direita civil e militar. Esta unidade, entretanto,

deve ser vista mais em torno de um veto em vrios mbitos do que em torno de um projeto,

como bem observou Caio Navarro de Toledo sobre o depoimento de Ernesto Geisel: [p]ara o

vitorioso de 1964, o movimento se fez contra Goulart, contra a corrupo, contra a

subverso. Estritamente falando, afirmou o general, o movimento liderado pelas Foras

Armadas no era a favor de algo novo no pas (TOLEDO, 2004, p. 14-15).

A afirmao de que no havia proposta de algo novo para o pas deve ser melhor

qualificada. Como mostra Dreifuss, a elite orgnica concentrada em torno do complexo

IPES/IBAD tinha suas propostas de reforma de base e organizava um programa de governo

(DREIFUSS, 1986, p. 237 e 244). Mas isto no deve ser entendido como consenso entre todos

os setores que eram contra o governo Goulart. O que queremos ponderar que a unidade entre

parcelas da sociedade que eram contrrias a Goulart se realizava mais em torno do contra

do que em torno de um projeto consensual para o aps-golpe.

Em realidade, o contra significava, em um grau elevado de generalizao, o modelo

que seria construdo. Este modelo, segundo Carlos Estevam Martins, significava excluir a

classe trabalhadora da vida poltica, suprimir os movimentos populares e beneficiar todas as

classes proprietrias (MARTINS, 1977, p.208-210). Por isto que a parcela do movimento

golpista com mpetos liberalizantes-jurisdicistas foi banida logo aps o golpe (CARDOSO,

1975, p. 198-199).

Desta forma, torna-se difcil acreditar que houve um consenso, entre os que

conspiravam contra Goulart, em relao poltica econmica e s reformas implementadas

durante o governo Castelo Branco. Ou ainda, que os diferentes governos militares no Brasil

ps-1964 seguissem, em detalhes, um projeto elaborado anteriormente ao golpe. Ou seja, a

unidade do movimento golpista se realizou atravs de interesses com elevado nvel de

generalizao que colocavam as divergncias internas em segundo plano. Com os interesses

comuns assegurados, abria-se margem, depois do golpe, para que divergncias internas em

relao a interesses mais especficos ganhassem maior relevncia. No caso dos empresrios, a

observao de Sebastio Velasco Cruz muito ilustrativa:

[e]videntemente, o 'empresariado', como tal, uma abstrao apenas em situaes muito

excepcionais se apresenta de forma coesa na arena poltica. No que tange s posies do

empresariado face poltica econmica nos anos em pauta [1965-1966], elas iro variar em

funes de setores, regies, graus diferentes de concentrao de capital, nveis de acesso ao

mercado financeiro internacional para obteno de crdito, etc, e, no tempo, segundo as oscilaes

conjunturais imprimidas na conduo da poltica monetria e creditcia (Cruz, 1997, p. 33).

As alteraes promovidas pelo governo Costa e Silva apontam para o que temos

argumentado.

No plano poltico, o Governo Costa e Silva reagrupou a oposio poltica Castelo:

a parte do pessedismo marginalizado, o empresariado nacional contrariado pela poltica econmica

de Campos, a linha dura, que tambm queria humanizar a poltica econmica e se aliava aos

setores estatistas contra o favorecimento das empresas estrangeiras realizado no governo anterior, e

at setores sindicais da cpula neo-peleguista que estavam contra o arrocho salarial e, no podendo

voltar pela base poltica populista, via na honomia presidencial um sinal de paternalismo

distribucionista (CARDOSO, 1975, p. 201).

Tambm em relao poltica econmica o governo Costa e Silva divergia de seu

antecessor. Costa e Silva nomeou Delfim Netto a ministro da Fazenda. O novo ministro,

diferentemente da dupla Campos-Bulhes, acreditava que a causa da inflao se encontrava

mais nos custos do que na demanda1. A partir deste diagnstico Delfim praticamente inverteu

a poltica econmica, aumentando o dficit pblico, a expanso monetria e o crdito ao setor

privado, bem como reajustando os salrios mais prximos ao aumento do custo de vida

(KORNIS, 1984, p.131-132).

No entanto, alguns autores defendem a existncia de continuidade, e causalidade, entre

as medidas econmicas implementadas durante o governo Castelo Branco e o milagre

brasileiro (governos Costa e Silva e Mdici). Mrio Henrique Simonsen e Roberto Campos,

por exemplo, defendem que o milagre foi em parte determinado pelas reformas econmicas

do governo Castelo Branco. Estas reformas tinham o objetivo de transformar a economia

brasileira numa economia de mercado e aberta ao exterior. Simonsen e Campos ainda

defendiam que o desempenho da economia entre 1964 e 1967 deveu-se a sacrifcios

necessrios ao controle inflacionrio, ao equilbrio do balano de pagamentos e retomada

dos investimentos (GIAMBIGI et al., 2008, p. 223). Werner Baer tambm encontra nas

reformas institucionais no sistema financeiro, bem como nos projetos de infra-estrutura, as

causas do desempenho da economia brasileira durante o milagre. O autor concorda que as

1 Atualmente difcil aceitar-se que um excesso de demanda possa ser a explicao nica para a inflao

brasileira. A existncia simultnea de elevao geral de preos e estagnao demonstra uma inconsistncia no diagnstico da inflao de demanda, cuja caracterstica principal seria o aumento de preos acompanhado de nveis elevados de utilizao da capacidade produtiva (Delfim Netto, 1967, p. 2, apud MACARINI, 2000, p. 4).

polticas ps-1964 tenha direcionado a economia brasileira abertura, mas acredita que a

melhor alocao de recursos deve-se atuao do Estado e no s foras do mercado (BAER,

1977, p. 11-15).

No o intuito deste trabalho discutir se as reformas fiscais/tributrias e financeiras

implementadas durante do governo Castelo Branco tm relao ou no com o desempenho da

economia brasileira nos anos posteriores. Interessa-nos ressaltar dois pontos dentro desta

discusso: primeiro que, ao menos na poltica econmica e na conformao de interesses, o

governo Costa e Silva marca diferena em relao a Castelo; segundo, que a discusso em

torno das reformas deve considerar os diferentes interesses das classes dominantes e no

somente o projeto do governo. A reforma financeira, por exemplo, no se efetivou em

conformidade com o que planejara o governo, mas foi alterada sob presso das financeiras e

bancos comerciais (ALMEIDA, 1984, p. 40-49). Para Kornis, isto significaria que o governo

Castelo Branco fracassou em sua articulao entre economia e sociedade (KORNIS, 1984, p.

172).

Portanto, torna-se importante conhecer os interesses da sociedade, em particular das

classes dominantes, para entender as relaes entre estado, sociedade e economia em face s

implementaes de reformas e de poltica econmicas durante o governo Castelo Branco. O

presente artigo reflete o incio de uma pesquisa que pretende analisar o comportamento da

FIESP, bem como a aproximao de suas ideias s medidas econmicas adotadas pelo

governo, durante todo o perodo em que Castelo Branco foi presidente.

A atuao da FIESP e as polticas econmicas

A Federao das Indstrias do Estado de So Paulo e o Centro das Indstrias do Estado

de So Paulo, tomadas aqui como representativas dos interesses industriais paulistas,

estiveram amplamente envolvidas no movimento que culminou no golpe civil-militar de

1964. Por volta de 1963, trs dos principais rgos do IPES (Instituto de Pesquisas

Econmicas e Sociais) compreendiam 27 dos 36 lderes da FIESP e 21 dos 24 lderes do

CIESP (DREIFUSS, 1986, p. 173). Ademais, o presidente da FIESP/CIESP, Raphael

Noschese, era tambm membro do CONCLAP (Conselho das Classes Produtoras). Tanto o

CONCLAP quanto a FIESP serviam de intermdio para que contribuies de seus associados

ao IPES fossem disfaradas (DREIFUSS, 1986, p. 209).

A FIESP-CIESP j havia assinalado, no ltimo ms de 1961, para o basta em relao

s atitudes do executivo federal atravs de um manifesto que marcaria o incio de uma nova

posio da indstria paulista em face dos rumos que os acontecimentos esta[vam] tomando2.

Mas foi somente a eleio da nova diretoria pela qual Raphael Noschese tornou-se

presidente das entidades que passou a ser encarada como representativa de uma nova

tendncia entre os industriais paulistas: a preocupao pelo social, pelos problemas polticos

em seu conceito mais elevado e pela democracia. E o discurso de posse do novo presidente

marcava a deciso de participar da luta contra o que estes industriais entendiam por foras

contrrias sociedade livre3. Imediatamente aps o golpe, os industriais paulistas, pelo

pronunciamento de seu presidente, declaravam-se alinhados ao movimento. Numa das

reunies da diretoria plenria, Raphael Noschese leu telegrama enviado pelo General Amaury

Kruel, comandante do II Exrcito. O general agradecia a FIESP pela colaborao que as

indstrias paulistas deram s Foras Armadas. Durante o movimento, os industriais paulistas e

as Foras Armadas criaram o Grupo de Mobilizao Industrial para integrar fbricas s

operaes militares na mobilizao de recursos que fossem necessrios4. Logo aps o

golpe, a FIESP/CIESP afirmava seu desejo de que o Congresso Nacional escolhesse para

presidente um chefe militar que tivesse o seu passado dado atuao firme e decisiva em

defesa da democracia, argumentando que seria um elemento apoltico5. No percebiam a

contradio, pois qualquer personagem que atuasse em defesa do que os industriais entendiam

por democracia no poderia ser um elemento apoltico. Na realidade, os industriais tentavam,

com isto, passar a impresso de que as autoridades militares teriam o carter de poder

moderador, dissimulando as relaes entre as fraes da classe burguesa6.

No plano econmico, a primeira medida que parece ter chamado a ateno da FIESP foi

a instruo 270 da SUMOC, de 9 de maio de 19647. Esta instruo, em seu item I, alterava a

Instruo 163, de 19 de fevereiro de 19648. Pela instruo 163, institua-se que a importao

2 O basta da indstria, p. 244-245. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, ano XIII, vol. LXIX, n 639. So

Paulo, 3/10/1962. 3Opinio, p. 524-524 Boletim Informativo do CIESP/FIESP. Ano XIII, vol. LXXIV, n 679. So Paulo,

10/10/1962. 4Atividades da Federao e do Centro das Indstrias do Estado de So Paulo, p. 16-19. Boletim Informativo do

CIESP/FIESP. Ano XV, vol. LXXXIV, n 758. So Paulo, 15/04/1964. 5Atividades da Federao e do Centro das Indstrias do Estado de So Paulo, p. 16. Boletim informativo do

CIESP/FIESP. Ano XV, vol. LXXXIII, n 757. So Paulo, 08/04/1964. 6Quando a interveno militar se efetivou em resposta a incapacidade civil de resolver a crise que destrua o

regime poltico tal como havia sido definido pela constituio de 1946, o que aparentemente se deu foi um

momento histrico de Bonapartismo clssico. Mas era somente um momento, e como tal enganador, no

desdobrar de um processo determinado pela disposio das foras polticas em seu conjunto. [] Ao proteger a

burguesia atravs de sua ao moderadora, os militares mostraram a sua prpria essncia: o poder de classe

preparado previamente no interior do Estado. O Bonapartismo constitucional dava lugar a um poder dirigente

paisana (DREIFUSS, 1986, p.143). 7Instruo 270, Revista do Conselho Nacional de Economia. Ano XIII (2), out. 1964, p. 327.

8 Instruo 163, Revista do Conselho Nacional de Economia. Ano XIII (1), jan-set 1964, p.206.

de trigo, petrleo e papel de imprensa seria feita taxa cambial de Cr$620,00 por dlar. Desta

forma, o governo subsidiava a importao destes produtos, uma vez que adquiria os dlares

dos exportadores a uma taxa cambial superior a Cr$620,00 por dlar. Pela alterao

perpetrada pela instruo 270, as importaes destes produtos passavam a serem efetivadas

pela taxa cambial convencionada entre as partes contratantes isto , pelo cmbio livre

significando o fim do subsdio governamental a estes produtos. No dia seguinte ao da adoo

da medida, o preo da gasolina em So Paulo foi a Cr$85,69. A julgar pelos aumentos do

preo da gasolina no Rio de Janeiro, o aumento do preo deste combustvel em So Paulo foi

superior a 70%. Mas os assessores do Ministrio do Planejamento consideravam que era a

elevao do custo de vida que imprimia a necessidade de reajuste do preo desta mercadoria,

e no o contrrio10

.

Pelo diagnstico do PAEG, a inconsistncia distributiva permitia que o gasto do

governo fosse maior que sua arrecadao. O dficit resultante pressionava a expanso

monetria que, por sua vez, sancionava a presso inflacionria (KORNIS, 1982, p. 52-54).

Segundo Bulhes, o fim destes subsdios eliminaria uma despesa de Cr$180 bilhes e

provocaria um aumento da arrecadao de impostos no montante de Cr$100 bilhes,

resultando na reduo do dficit do governo em torno de Cr$300 bilhes11

. A eliminao dos

subsdios j havia sido feita tanto pela instruo 204, durante o governo de Jnio Quadros,

quanto pelo Plano Trienal. Os impactos sobre o salrio resultante do aumento dos preos aps

o Plano Trienal efetuar o fim dos subsdios levou alguns segmentos da esquerda a perpetrarem

severas crticas ao Plano e abalou o apoio inicial dos empresrios industriais dado ao Plano

(TOLEDO, 2004, p. 16-17). Os industriais paulistas admitiam a possibilidade de que a

Instruo 270 viesse a ser uma medida impopular e que o povo teria que enfrentar dias

difceis para mudar a maneira de combater inflao. Srgio Roberto Ugoline, diretor do

Departamento de Economia das entidades, estimava que, pela experincia da instruo 204, o

fim desses subsdios implicaria em elevao no nvel geral de preos em torno de 6 a 7%. Mas

o diretor tambm advertia que o impacto seria mais ou menos intenso em preos de produtos

especficos na medida em que estes produtos dependessem das matrias-primas que tiveram

os subsdios eliminados. Por outro lado, o efeito da medida sobre a reduo da expanso

monetria, antes realizadas para financiar os subsdios, implicaria em reduo da inflao

maior do que o impacto direto do fim dos subsdios sobre os preos. Por isto a medida estaria

9 Folha de So Paulo, primeira pgina, 12/05/1964.

10 Instruo 270 corta subsdios ao trigo, petrleo e papel. Jornal do Brasil, 10/05/1964, caderno 1, p. 5

11Bulhes: eliminao dos subsdios reduzir dficit em Cr$300 bilhes. Jornal do Brasil 12/05/1964, caderno 1,

p.10.

alinhada ao objetivo de reduzir a inflao proposto pelo novo governo e, assim, merecia o

apoio dos industriais paulistas12. Entretanto, o efeito da medida sobre a reduo da inflao,

segundo o ministro do planejamento, s seria sentido aps o perodo aproximado de um ano13.

Um assunto de maior interesse para estes industriais se referia s exportaes. As

reivindicaes neste quesito parecem que se acumulava h algum tempo. Segundo Maria

Antonieta Leopoldi, ainda durante o Governo Juscelino Kubitschek a CACEX prometia

incentivos comerciais e cambiais para exportaes de manufaturados sem, contudo

implement-los, apesar das reclamaes das associaes de indstrias (LEOPOLDI, 2000, p.

250). A FIESP-CIESP defendia, durante o governo Joo Goulart, medidas referentes a

melhoramento dos portos, financiamento, cmbio realista e condizente com a elevao dos

custos internos, e incentivos fiscais por meio de ressarcimento de impostos pagos sobre

produtos exportados. Em relao a taxa de cmbio, os industriais sentiram-se ouvidos ainda

durante o governo Goulart quando o ento Ministro da Fazenda, Carvalho Pinto, implementou

a Instruo 258 da SUMOC, de 29 de novembro de 196314

. Esta Instruo determinava que as

cambiais em moedas estrangeiras referentes exportao de manufaturados fossem adquiridas

pela Carteira de Cmbio do Banco do Brasil a uma taxa de cmbio fixada entre Cr$600 e

Cr$620 por dlar, segundo o item I da instruo 239, de 22 de abril de 196315

. Estas cambiais

seriam pagas ao exportador acrescentadas de uma bonificao correspondente elevao

geral do custo de produo, medido pelo ndice de elevao de preos, ocorrida entre abril de

1963 ms da Instruo 239 e o ms anterior data de liquidao das referentes cambiais,

mais uma bonificao de 10% sobre o total apurado. Segundo os industriais da FIESP, atravs

desta medida a taxa cambial seria reajustada mensalmente de acordo com o aumento dos

custos. Nesta ocasio, as reivindicaes dos industriais foram apresentadas pelo ministro

como uma das justificativas para a medida (SILVA, 2008, p.14-18).

Durante o governo de Castelo Branco, as preocupaes com incentivos s exportaes

de manufaturados continuaram. J em maio de 1964, num encontro entre representantes da

FIESP-CIESP e da CNI com o recm-empossado Ministro da Indstria e Comrcio, Daniel

12

Opinio: A Instruo 270 e a indstria, p. 4-5; Atividades da Federao e do Centro das Indstrias do Estado e

So Paulo: Consideraes sobre a Instruo 270, p.16 e 21. Boletim informativo do FIESP-CIESP. Ano XV,

vol. LXXXIV. So Paulo, 20/05/1964. 13

Instruo 270 corta subsdios ao trigo, petrleo e papel, op cit. 14

Instruo 258, Revista do Conselho Nacional de Economia. Ano XIII (1), jan-set 1964, p. 204-205. 15

Instruo 239, Revista do Conselho Nacional de Economia. Ano XII (2), mar-ago 1963, p. 395-396.

Faraco, foi entregue a este um memorial apresentando sugestes para o desenvolvimento

das exportaes de manufaturados16

. Estas medidas se dividiam em nove pontos:

1. Taxa cambial: reiterava que esta deveria ser realista, correspondendo elevao dos

custos internos de produo. Argumentava que o problema no existia no momento devido

situao criada pela Instruo 263 da SUMOC e que, se necessrio, poderia usar os

mecanismos da Instruo 258.

2. Problemas nas importaes: sugeria a simplificao dos mecanismos de draw-back

estipulados pelo decreto 50485, do poder executivo federal, de 25 de abril de 1961; e iseno

de depsito compulsrio para importao de materiais usados na produo de produtos para

exportao.

3. Iseno de impostos federais, estaduais e municipais que recaem sobre os produtos

exportados: destacava o imposto sobre vendas e consignaes (estadual), do slo e de

exportao.

4. Utilizao de divisas: propunha que parte das divisas, num limite de 50%, gerada por

uma indstria deveria ser destinada importao de matrias-primas e equipamentos

utilizados por esta indstria, bem como no atendimento de seus compromissos no exterior.

Segundo o memorial, a Instruo 258 da SUMOC atendia a isto parcialmente, pois s

contemplava o fabricante do produto final, excluindo os fabricantes de produtos

intermedirios. A preocupao quanto ao pagamento de compromissos no exterior se referia

aos pagamentos de royalities, que se no efetuados prejudicariam as exportaes, e s

despesas de assistncia tcnica, que limitariam o progresso tcnico. Os pagamentos de

compromissos no exterior tambm poderiam ter soluo pela alterao na lei de remessa de

lucros.

5. Financiamento externo: instituir um sistema de crdito a mdio e longo prazos,

aproveitando, inclusive, recursos externos capazes de atender ao financiamento de vendas de

bens de capital e consumo durvel.

6. Remessas de amostras ao exterior.

7. Transportes e fretes: as medidas se resumiam a melhorias em portos, sistemas

ferrovirio, rodovirio e hidrovirio, e a criao de uma linha circular sul-americana para

penetrao de produtos brasileiros na Amrica Latina, aproveitando vantagens da ALALC.

8. Simplificaes burocrticas.

16

Representando a FIESP/CIESP estavam: Jos E. Midilim, diretor em exerccio; Benedicto de Sanctis, Chefe do Departamento de Comrcio Exterior destas entidades. Representando a CNI: Guilherme Levy e Fbio Egipto

da Silva, respectivamente presidente e membro do Conselho de Comrcio Exterior desta entidade.

9. Promoo e divulgao: atravs principalmente de propaganda no exterior e,

internamente, mostrar que as exportaes eram para o Brasil naquele momento uma questo

de sobrevivncia.

Por fim, reivindicava tambm um espao maior para a participao das classes

produtoras na recm criada Comisso de Comrcio Exterior atravs de colaboraes diretas

na elaborao e debate das proposies, e no somente audincia no exame de eventuais

propostas17

. Em outro momento, Humberto Dantas apoiou-se na fala de Carlos Lacerda, pela

qual este indagava se no era o momento de aceitar a participao de empresrios que

tratassem em bases prticas os negcios brasileiros, para defender a participao dos

industriais no s no Conselho de Comrcio Exterior, mas tambm no Conselho de

Desenvolvimento Industrial18

.

Algumas das propostas da FIESP-CIESP parecem que estavam alinhadas s de

representantes do governo. Numa reunio realizada no dia 22 de maio de 1964, no salo

Roberto Simonsen, Roberto Campos, representando o ministro da Indstria e Comrcio

Exterior Daniel Faraco, pedia aos industriais que se empenhassem num esforo exportador.

Campos dizia que o caminho para independncia da economia brasileira passaria pelo

aumento das exportaes de produtos industrializados uma vez que este garantiria as divisas

necessrias s importaes do pas a qual tambm possibilitaria compensar uma eventual

queda da produo industrial no decurso da poltica anti-inflacionria embora argumentasse

que esta poltica, por visar a reduo da inflao e no a deflao, no deveria prejudicar o

desempenho da indstria. As medidas estudadas pelo governo para incentivar as exportaes

de produtos manufaturados se relacionavam ao mecanismo de draw-back e cambio ainda mais

realista. A primeira era considerada remanescente reforma fiscal. Naquele momento a

reforma fiscal teria como objetivo, ao mesmo tempo em que era entendida como meio,

estimular a economia. As medidas neste sentido abrangiam

facilidades e isenes tributrias para reavaliao dos ativos das empresas, permisso de dedues

defensivas da descapitalizao das empresas em decorrncia da inflao, tudo para que se consiga a

evoluo de um situao nominalista para realista19

.

Os industriais comemoraram a assinatura, pelo presidente da repblica, do decreto

53.967 de 16 de junho de 1964 por entenderem que atendia s necessidades de simplificao

do mecanismo de draw-back. Este decreto dava nova regulamentao ao artigo 37 da lei 3244

17

Indstria paulista apresenta sugestes para o desenvolvimento das exportaes brasileiras, p. 7-13. Boletim

Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXIV, n 764. So Paulo, 27/05/1964. 18

Opinio: A colaborao da elite empresarial na poltica econmica nacional, p. 4-5. Boletim Informativo do

CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXIV, n 766. So Paulo, 10/06/1964. 19

Ministro do Planejamento lana em So Paulo a bandeira da conquista dos mercados exteriores, p. 31-35.

Boletim Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXIV, n 766. So Paulo, 10/06/1964.

de 14 de agosto de 1957. Este artigo fora regulamentado anteriormente pelo decreto 50485 de

25 de abril de 1961, mas o ministro Bulhes, em sua exposio de motivos, alegava que os

resultados obtidos durante os trs anos posteriores a esta regulamentao aconselhavam

alteraes. A nova regulamentao definia as trs hipteses sob as quais seria concedida a

remisso, total ou parcial, do imposto de importao incidente sobre mercadorias utilizadas

na composio de outras a serem exportadas (draw-back):

a) s matrias primas e produtos semimanufaturados utilizados diretamente na fabricao de

mercadorias destinadas exportao;

b) s peas, partes, utenslios, dispositivos, aparelhos e mquinas, quando complementares de

aparelhos, mquinas, veculos ou equipamentos destinados exportao;

c) s mercadorias ou materiais para utilizao em embalagem, acondicionamento ou apresentao

de produtos a serem exportados20

.

O governo do estado de So Paulo tambm atendia aos pedidos da FIESP-CIESP

aprovando uma lei que concedia um prmio ao exportador equivalente ao imposto de vendas e

consignaes incidido sobre as operaes de exportao. Os industriais, pela palavra de

Raphael Noschese, haviam colaborado para a elaborao da medida. No entanto, Humberto

Dantas reclamava da inexistncia de financiamento s exportaes brasileiras em condies

de prazo e facilidade iguais s verificadas em outros pases21

. A questo do financiamento

tambm era uma reivindicao existente j nos primeiros anos da dcada de 1960 e que os

industriais de So Paulo esperavam que fosse resolvido atravs da reforma bancria. Os

industriais programavam at a criao de um Banco de Exportao em seu estudo sobre esta

reforma22

.

No campo da iseno de depsitos compulsrios para importaes, os industriais

paulistas reivindicavam no somente a iseno destes para importaes de produtos e

materiais usados para a fabricao de manufaturados exportados, como tambm para

importao de matrias-primas no produzidas no Brasil. Mas estes industriais precisariam

um pouco mais de tempo para ver tais medidas serem efetivadas. Neste perodo de

20

Decreto 53967 de 16/06/1964, in

http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=185871&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=P

UB; Decreto 50485 de 25/04/1961, in

http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=180930&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=P

UB; Castelo Branco d nova regulamentao lei que criou o drawback. Jornal do Brasil, 17/06/1964,

caderno 1, p.11. 21

Opinio: Uma receita para exportaes de manufaturas, p. 4-5; Atividades da Federao e do Centro das

Indstrias do Estado de So Paulo, p. 27. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXV, n 769.

So Paulo, 01/07/1964. Marco histrico: a iseno do IVC para exportao, p. 22-23. Ano XV, vol. LXXXV, n

774. So Paulo, 05/08/1964. 22

A estabilizao econmica e os recursos da economia popular, p. 3 e 6-11. Boletim Informativo do

CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXV, n 769. So Paulo, 01/07/1964. A conscincia exportadora da indstria

nacional, p. 11-12. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXVI, n 778. So Paulo,

02/09/1964.

http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=185871&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=PUBhttp://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=185871&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=PUBhttp://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=180930&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=PUBhttp://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=180930&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=PUB

introspeco criadora apenas ouviram do Ministro da Indstria e Comrcio Daniel Faraco, a

promessa de que a iseno dos depsitos compulsrios ocorreria, mas no naquele momento

para evitar novas emisses de moedas pelo governo23. Pela Instruo 275 da SUMOC, de 3 de

agosto de 1964, os depsitos foram reduzidos de 100% para 60%, mas a presso financeira

sobre a empresa que esta medida poderia causar foi anulada pelo acrscimo do custo de

cmbio de 8% para 20%. Assim, os industriais deslocaram sua reivindicao para a reduo

desta alquota24

. A iseno dos depsitos compulsrios foi realizada atravs da Instruo 279

da SUMOC, de 10 de setembro de 1964, mas somente para empresas industriais, que

poderiam utilizar at 50% das divisas obtidas com exportaes para importar matrias-primas

e equipamentos, entre outros, sem similar nacional. Alm da iseno do depsito compulsrio

a Instruo 279 tambm deixava de exigir o encargo financeiro de 20%, institudo pela

Instruo 275, sobre as divisas obtidas com exportaes e que seriam utilizadas, at o limite

de 50%, para importaes25

.

Como vimos acima, a utilizao de divisas resultantes de suas prprias exportaes era

uma reivindicao no s para importaes, mas tambm para pagamento de compromissos

no exterior: royalities e assistncia tcnica. Segundo os industriais paulistas, isto poderia ser

resolvido tambm por modificao na Lei de Remessa de Lucros, de 3 de setembro de 1962.

No projeto de reforma desta lei enviado pelo presidente Castelo Branco Cmara dos

Deputados em 23 de junho de 1964, era proposta a eliminao do 3 do artigo 12, o qual

estabelecia que

as despesas de assistncia tcnica, cientfica, administrativa e semelhantes, somente podero ser

deduzidas nos cinco primeiros anos do funcionamento da empresa ou da introduo de processo

especial de produo, quando demonstrada sua necessidade, podendo este prazo ser prorrogado at

mais cinco anos, por autorizao do Conselho da Superintendncia do Conselho da

Superintendncia da Moeda e do Crdito26

.

No entanto, esta alterao no se realizou pela lei 4390 de 29 de agosto de 1964, a qual

fazia alteraes na lei de 1962. A sada parece ter sido mesmo atravs da Instruo 279, que,

assim como fizera para as importaes, permitia, em seu item I.b, a utilizao, pela empresa

industrial exportadora, das divisas resultantes de sua exportao at o limite de 50%, e com

23

Ibdem. 24

A FIESP mantm-se atenta ao combate inflao, p. 7. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol.

LXXXV, n 777. So Paulo, 26/08/1964. 25

Reservada importao de matrias-primas e equipamento a metade das divisas obtidas com as exportaes.

Boletim Informativo do CIESP/FIESP, ano XVI, vol. LXXXIX, n 801, p. 13-15. So Paulo, 10/02/1965;

Instruo 279, Revista do Conselho Nacional de economia, ano XV (1), jan-abr 1965, p. 184. 26

Lei 4131 de 03/09/1962, in http://www6.senado.gov.br.

iseno do recolhimento compulsrio, para pagamento de obrigaes financeiras no

exterior27

.

Por fim, quando da exposio do Plano de Ao do Governo (PAEG) pelo Ministro do

Planejamento Roberto de Oliveira Campos, foi feito, a pedido do presidente da FIESP-CIESP

Raphael Noschese, um relatrio pelo Departamento de Economia da FIESP. Este relatrio foi

lido durante a reunio do dia 19 de agosto de 1964. No que se referia exportao, o relatrio

dizia que as medidas coincidiam com as preconizadas pela FIESP, inclusive as que expomos

nos nove pontos acima constantes no memorial entregue a Daniel Faraco28

.

Apesar de estas medidas serem adotadas ao longo dos cinco primeiros meses do novo

governo, este, j ao final de junho, anunciava que a dinamizao das exportaes brasileiras

era devida s suas medidas:

manuteno de taxa cambial flexivel e realista; regulamentao do draw back; regulamentao do

seguro de crdito para exportao; estabelecimento do imposto do selo para documentos de

exportao; estabelecimento de obrigatoriedade para o Petrobrs conceder preferncia aos contratos

de importao de petrleo s empresas que se comprometerem a exportar pelo menos 20% do valor

importado em produtos manufaturados; determinao ao Banco do Brasil para que se de maiores

facilidades no financiamento de exportaes e, finalmente, estudos de simplificao burocrtica do

processo de exportao29

.

Menos voltada s alteraes estruturais, a posio da FIESP-CIESP perante a poltica

monetria e, principalmente, creditcia variou mais diante da conjuntura. Os industriais diziam

que o processo inflacionrio era utilizado pelo governo de Joo Goulart como uma maneira de

incentivar a subverso. Por outro lado, a inflao implicava em comprometer grande volume

de recursos das empresas com o capital de giro, impedindo o direcionamento desses recursos

para novos investimentos. Assim, os industriais de So Paulo se posicionavam favorveis s

medidas de combate inflao, mas faziam algumas restries importantes: que as polticas

de estabilizao no prejudicassem o desenvolvimento econmico; e que no se tentasse

acabar com a inflao atravs do controle dos preos. Em relao primeira restrio, os

industriais paulistas ouviam do governo que no faltaria crdito produo. A FIESP pedia

aos seus associados que ajudassem o governo no combate a inflao evitando as sonegaes,

pois o governo necessitava de recursos30

. Implcito neste argumento estava a ideia de que a

27

Instruo 279, op cit. 28

Aspectos positivos do programa econmico do governo, p. 15 e 21-22. Boletim Informativo do CIESP/FIESP,

Ano XV, vol. LXXXVI, n 778. So Paulo, 02/09/1964. 29

Governo acha que aumento das exportaes reflexo do programa financeiro. Jornal do Brasil, 01/07/1964,

caderno 1, p. 11. 30

Opinio: Pronunciamento preciso e oportuno, p. 4-5; Presidente da FIESP fixa a posio da indstria na obra

de reconstruo democrtica do pas, p. 16-19. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXIII,

n 758. So Paulo, 15/04/1964. Opinio: Que cada um carrega a sua pedra, p. 4-5. Boletim Informativo do

CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXIII, n 759. So Paulo, 22/04/1964.

principal causa da inflao era o dficit pblico e que o equilbrio oramentrio do governo

deveria ser perseguido atravs do aumento da eficincia na arrecadao dos tributos e no

pelo aumento das alquotas destes.

Mas no tardou muito para que estes industriais sentissem os efeitos das primeiras

medidas governamentais em direo reduo da expanso monetria. Em julho de 1964

defendiam a importncia da ampliao do crdito, pois permitiria criar e circular maior

volume de riquezas. Severino Silvino Pereira, diretor do CIESP, dizia que o novo governo

no poderia se enganar como o governo anterior, com San Thiago Dantas no Ministrio da

Fazenda, que promoveu a generalizao do pnico resultando em declnio da produo por

restringir o crdito. Por isto, postulava Severino, o governo precisava atender s necessidades

das indstrias, inclusive diminuindo o redesconto para os bancos particulares. Em reunio,

Srgio Roberto Ugolini disse estar atento para os reflexos das medidas adotas pelo governo

para estabilizao monetria sobre o crdito e Raphael Noschese declarou que a instituio

havia recebido de seus associados relatrios a respeito da poltica creditcia. Nesta ocasio, o

presidente emrito da FIESP e do CIESP, Nadir Dias de Figueiredo, disse que entrara em

contato com o Ministro da Fazenda31

. Tambm o presidente Raphael Noschese contatou o

presidente da Repblica, Castelo Branco, e o presidente do Banco do Brasil, Luiz de Moraes

Barros, para expor as dificuldades que a indstria paulista enfrentava em relao ao crdito.

Na oportunidade, Noschese recebeu a promessa de uma visita de Moraes Barros para estudar

possibilidades de soluo destas dificuldades32

. Posteriormente, Humberto Dantas relatava

que Luiz de Moraes visitara So Paulo. Mas, ao mesmo tempo, Dantas se mostrava indignado

por ter o Ministro da Fazenda se encontrado com banqueiros em So Paulo no dia 13 de

agosto de 1964 sem aproveitar para se encontrar tambm com representantes da indstria.

Dantas ainda argumentava que a diminuio da produo provocada pela poltica creditcia

colocaria em risco a inteno do governo em perseguir a desinflao com desenvolvimento33

.

A preocupao quanto a capacidade, ou possibilidade, de o governo obter sucesso no

combate inflao e promover, simultaneamente, o crescimento econmico o que

pressupunha o crescimento da produo de produtos industrializados apareceu tambm na

exposio da anlise feita pelo departamento de economia da FIESP sobre o Plano de Ao do

Governo exposto por Roberto Campos Cmara Federal. Nesta anlise os industriais

31

Crdito industrial: aumento da produo e reduo dos custos, p. 15; Atividades do Centro e Federao das

indstrias. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, Ano XV, vol. LXXXV, n 772. So Paulo, 22/07/1964. 32

Atividades da Federao e do Centro das indstrias do estado de So Paulo, p. 16. Boletim Informativo do

CIESP/FIESP, ano XV, vol. LXXXV, n 773. So Paulo, 29/07/1964. 33

Opinio: Crdito para a produo, p. 4-5. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, ano XV, vol. LXXXV, n

776. So Paulo, 19/08/1964.

consideravam que os meios necessrios para atingir os nveis de crescimento econmico de

dcadas anteriores eram conflitantes com os meios indicados para a poltica de estabilizao e

se perguntavam se o prazo de 18 meses estabelecido pelo Plano para reduzir a inflao a 10%

ao ano no seria muito curto. A anlise tambm advertia para o fato de que a expanso do

crdito ao setor privado esperada para os ltimos meses de 1964 seria menor que a expanso

esperada dos custos nestes meses34

.

A FIESP publicava um suplemento estatstico mensal ao seu boletim Informativo. Os

ndices de meios de pagamento e emprstimos fornecidos por este suplemento (ver anexo I)

mostram que, os meios de pagamento no Brasil se expandiram entre julho e agosto, mas os

emprstimos totais decaram. No entanto, os emprstimos totais no diminuram no estado de

So Paulo. Mais ainda, para a indstria, especificamente, os emprstimos entre julho e agosto

no decaram. Conclumos que a anlise destas reclamaes deve se pautar por um estudo

mais profundo sobre as caractersticas das indstrias e os tipos de crdito, algo que no

preocupao do presente trabalho.

H ainda um ltimo aspecto das polticas econmicas do governo de Humberto

Castelo Branco que foi abordada pelos representantes da FIESP-CIESP para tratarmos aqui: o

que se refere reforma fiscal. Podemos dividir os aspectos desta reforma em duas frentes: o

que se refere ao financiamento dos gastos do governo; os que se refere aos incentivos

produo industrial. J dissemos que um dos fatores centrais causa da inflao brasileira nos

anos 1960, segundo o PAEG, era o financiamento dos gastos do governo atravs da expanso

monetria. Por isto, o governo previa no s o aumento da arrecadao, mas tambm um

estmulo aos emprstimos voluntrios. A Lei n 4.357 de 16 de julho de 1964, conhecida como

reforma fiscal de emergncia, buscava alteraes em direo s duas frentes as quais nos

referimos acima. Em relao ao financiamento dos gastos do governo, institua as Obrigaes

do Tesouro Nacional que passaram a ter seus valores atualizados trimestralmente podendo,

segundo anlise da FIESP, tornarem-se muito vantajosas em relao a outros ttulos no

mercado, no fora seu vencimento previsto para 3 anos. Tambm trimestralmente seriam

reavaliados os dbitos fiscais vencidos. Mas os industriais esperavam ainda a anunciada

reduo do encargo fiscal em 1965 e 1966 pois o aumento percentual da arrecadao pelo

governo tinha para a FIESP o carter temporrio face s necessidades de ajuste oramentrio

do governo. Contudo, aps a apresentao do PAEG, os industriais paulistas se defrontavam

com a possibilidade de aumento dos encargos fiscais ainda em 1965 e preconizavam que o

34

Aspectos positivos do programa econmico do governo, op cit.

aumento da arrecadao deveria ser feito pela melhoria da eficincia fiscal e no pelo

aumento das alquotas. Preocupavam-se ainda os industriais de So Paulo com a competio

do setor pblico por fundos de emprstimos: as companhias de financiamento financeiras

seriam as fornecedoras em potencial de fundos aos emprstimos voluntrios ao governo, mas

eram destas companhias que se originavam os financiamentos indstria. Como concluso, o

relatrio do departamento de economia da FIESP dizia que os efeitos sobre o setor privado

seriam reduo no valor real dos emprstimos, aumento dos encargos tributrios, queda

progressiva da taxa de lucro e a impossibilidade de financiamento dos estoques a se

acumularem. O relatrio aconselhava, diante disto, uma reduo dos prazos estimados para

diminuir os dficits das autarquias, transferncias de empresas estatais que no eram

pioneiras e nem tinham a funo de regular custo ao setor privado e reduo do prazo de

compresso do setor privado. Por fim, reafirmando o apoio ao programa de estabilizao de

preos sob a condicionalidade de permitir tambm o crescimento econmico, os industriais

afirmavam que a empresa privada deve se sacrificar em prol do fim do processo

inflacionrio, mas sacrifcio tem limite35

.

Na segunda frente incentivos a produo a reforma fiscal de emergncia institua

duas medidas h muito reclamada pelos industriais da FIESP: a reavaliao do ativo

imobilizado e a excluso da parcela do lucro referente correo monetria do capital de giro

para efeito de tributao do lucro. Esta segunda medida, segundo os industriais paulistas,

corrigia uma injustia sobre as empresas36

.

Cabe-nos, agora, tentar encontrar coerncia entre as medidas, aparentemente tpicas,

preconizadas pela FIESP-CIESP de modo a possibilitar-nos a encontrar um tipo de projeto,

plano ou programa, que estas instituies representativas dos industriais de So Paulo tinham

para o pas. Do que expomos acima, fica claro que esta frao dos empresrios tinha motivos

para apoiar o combate inflao, pois esta chegara a tal nvel que colocava dificuldades ao

processo de investimentos. Por outro lado, este combate no poderia ser to rigoroso talvez

possamos dizer no to ortodoxo a ponto de comprometer o aumento das atividades

industriais. Por isto a poltica de crdito deveria atender as necessidades da expanso destas

atividades, recaindo o aperto da poltica monetria e creditcia sobre o governo. Isto poderia

ser alcanado atravs da transferncia de empresas estatais ao setor privado, o que reduziria o

35

Suplemento especial do CIESP/FIESP, p. 1-6. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, ano XV, n 774. So

Paulo, 05/08/1964. Aspectos positivos do programa econmico do governo, op cit. Apoio da indstria paulista

ao programa anti-inflacionrio do governo, p. 15-18. Boletim Informativo do CIESP/FIESP, ano XV, vol.

LXXXVI, n 779. So Paulo, 09/09/1964. 36

Suplemento especial do CIESP/FIESP, op cit.

dficit pblico em montante igual aos dficits destas empresas, e melhor eficincia na

arrecadao, evitando que o aumento dos encargos tributrios pesasse ainda mais sobre as

empresas e a iniciativa privada em geral. De qualquer maneira, a produo de manufaturas

deveria ser impulsionada pela conquista dos mercados exteriores, a qual precisava de

incentivos do governo atravs de isenes de impostos e de financiamento. Esperava-se que

este ltimo fosse oferecido atravs da reforma bancria, mas ao mesmo tempo lanava no s

a indstria, mas a iniciativa privada em geral, a preocupar-se quanto a possibilidade de o

governo disputar por fundos para tal financiamento atravs das Obrigaes do Tesouro

Nacional. Em suma, concebia o Estado como subvencionador da iniciativa privada, possuindo

empresas apenas tratando-se de caso de pioneirismo ou se fossem controladoras de custos e

incentivando a produo atravs de mecanismos fiscais e cambiais. No entanto, em relao ao

financiamento, concebia um Estado competidor por fundos tanto atravs da arrecadao

tributria quanto pela colocao de ttulos. Ou seja, o Estado era complementar iniciativa

privada, mas este complemento no poderia ultrapassar o limite a partir do qual o Estado

poderia se tornar um entrave iniciativa privada.

Concluso

Uma breve discusso da bibliografia que aborda o governo Castelo Branco permitiu-nos

concluir que o golpe civil-militar sobre Goulart assegurava os interesses mais gerais das

classes dominantes. A unidade destas classes que ocorrera imediatamente antes do golpe

deveu-se tentativa de defender estes interesses mais genricos. Dado o golpe, abria-se

margem para divergncias internas aos setores golpistas perante as medidas mais especficas.

Analisando o caso da FIESP/CIESP durante os primeiros meses do governo Castelo Branco,

foi possvel perceber, como principais concluses, que os industriais paulistas apoiavam o

governo nas medidas adotadas para incentivar a exportao de produtos manufaturados e,

embora dissessem concordarem com a poltica anti-inflacionria, no estavam dispostos a

aceitar que o objetivo de conter a inflao implicasse em reduo das atividades das

indstrias.

Bibliografia

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Fontes

Boletim Informativo do CIESP/FIESP, abril-agosto 1964.

Jornal do Brasil, abril-agosto 1964.

Revista do Conselho Nacional de Economia.

Anexo I: Panorama Estatstico n 66. Suplemento do Boletim Informativo do CIESP/FIESP,

ano XVI, vol. XCI, n 815, jun 1965. (grficos meus)

Tabela 1. Emprstimos e depsitos. Base: mdia mensal de 1956 = 100

Perodo

Brasil Estado de So Paulo

Emprstimos Depsitos

(total)

Emprstimos Depsitos

(total) Total

indstria

ao

comrcio Total

indstria

ao

comrcio

Mdia

mensal

1956 100 100 100 100 100 100 100 100

1957 127 125 115 126 119 134 117 123

1958 162 157 142 163 145 170 147 164

1959 174 196 169 198 175 218 172 222

1960 250 257 232 273 228 291 240 312

1961 384 358 303 389 304 413 311 445

1962 623 540 446 638 345 615 456 702

1963 1054 843 619 1997 669 942 635 1110

1964

janeiro 1473 1126 846 1510 942 1258 929 1446

fevereiro 1525 1138 866 1541 951 1247 935 1504

maro 1603 1182 904 1642 991 1301 966 1527

abril 1645 1239 910 1668 1025 1389 960 1582

maio 1748 1325 942 1687 1092 1484 1022 1664

junho 1905 1442 987 1909 1130 1588 1024 1812

julho 2393 1495 1051 2391 1213 1671 1088 1846

agosto 2179 1468 1112 2149 1298 1796 1135 1938

setembro 1629 1567 1184 2488 1375 1878 1209 2085

outubro 1768 1662 1251 2785 1445 1989 1262 2136

novembro - - - - 1494 2064 1262 2177

dezembro - - - - 1552 2162 1248 2429

Grfico 1. Emprstimos indstria.

Emprstimo indstria - 1964

1000

12001400

16001800

20002200

2400

janei

ro

feve

reiro

mar

oab

rilm

aio

junh

oju

lho

agos

to

sete

mbr

o

outu

bro

nove

mbr

o

deze

mbr

o

Brasil Estado de So Paulo

Tabela 2. Meios de pagamento. Base: mdia mensal de 1956=100

Perodo

Brasil

Meios de

pagamento

Meio

circulante

Moeda

escritural

Moeda

em

poder

do

pblico

Mdia

mensal

1956 100 100 100 100

1957 124 117 126 118

1958 165 143 174 145

1959 209 178 22 179

1960 289 233 317 231

1961 419 341 457 332

1962 643 493 711 493

1963 1018 842 1126 803

1964

maro 1556 1328 1675 1292

abril 1593 1383 1714 1324

maio 1684 1403 1810 1403

jun 1842 1465 2035 1410

julho 1875 1520 2060 1463

agosto 1936 1568 2208 1546*

setembro 2003 1624 2399 1555

outubro 2126 1686 2539 1656

novembro 2314 1789 2669 1759

dezembro 2482 1933 2984 1880

1965 jan 2482 1961 - -

fev 2641 1961 - -

*O valor encontrado no documento era 2546.

Grfico 2. Moeda, meios de pagamento e meio circulante durante 1964.

1964

1000

1500

2000

2500

3000

mar

oab

rilm

aio

jun

julh

o

agos

to

sete

mbr

o

outu

bro

nove

mbr

o

deze

mbr

o

Meios de pagamento meio circulante

moeda escritural moeda em poder do pblico

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