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  • A festa em perspectiva antropolgica : carnaval e os folguedos do boi no Brasil.

    Extrait du Artelogie

    http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article183

    Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti

    A festa em perspectiva

    antropolgica : carnaval e os

    folguedos do boi no Brasil. - Numro 4 -

    Date de mise en ligne : samedi 19 janvier 2013

    Description :

    Festa, ritual, etnografia, carnaval, escolas de samba, folguedos do boi, boi-bumb

    Artelogie

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  • A festa em perspectiva antropolgica : carnaval e os folguedos do boi no Brasil.

    O artigo compreende a festa no contexto das teorias antropolgicas da cultura e dos rituais.Sugerem-se dois fatores histrico-culturais relevantes para a compreenso da riqueza ediversidade das festas no mundo social brasileiro : o catolicismo de tradio ibrica, e onacionalismo cultural inclusivo do modernismo brasileiro. Indica-se a continuidade dosestudos das festas, dos estudos de folclore antropologia atual. O carnaval e os folguedos doboi so ento abordados em dois de seus desdobramentos contemporneos : o desfile dasescolas de samba no Rio de Janeiro e o festival dos Bois Bumbs de Parintins, Amazonas.Esse breve exame busca indicar a heterogeneidade e complexidade interna desses universosfestivos.

    I. As festas em perspectiva antropolgica

    O espectro de teorias da festa amplo, pois o tema mobiliza as disciplinas humanas de modo geral. Em Freud(2005 [1913]), a ideia de festa associa-se aos excessos e transgresses permitidas que estariam na base dasexpresses coletivas de alegria ;em Durkheim (1996 [1912]) fora criadora exercida pela efervescncia socialsobre a prpria conscincia humana. Em Bataille (1967), o excesso e a transgresso festivos, vistos como eclosesdo que ordinariamente suprimido na calculista sociedade burguesa, revelariam o potencial revolucionrio da festa ;em Callois (1950), a festa liga-se ao sacrifcio e ao efeito catrtico da violncia acumulada pela sociedade que nelase libera. Para Bakhtin (1987), a festa, intimamente ligada ideia de carnaval, forma primordial da civilizaohumana a abrigar o princpio transcendente do cmico grotesco. Nesse vasto emaranhado, este artigo prope acompreenso da festa, no como instituio autnoma, mas como atividade ritual por excelncia a compartilharcaractersticas chaves com outras atividades e condutas simblicas. A compreenso de sua natureza, e mesmo deseus traos peculiares, inscrevem-se, assim, no amplo campo das teorias antropolgicas do ritual.ii

    Nessa tica, alguns pressupostos bsicos conformam um fecundo ponto de partida na abordagem das festas e tmsido experimentados de modo criativo na antropologia brasileira. So eles : a ideia de que os rituais so portas deentrada privilegiadas para a compreenso das sociedades humanas e de que o mundo festivo e o mundo cotidianose complementam de modo mltiplo nas festas (DaMatta, 1973, 1979) ; a natureza cultural pblica e coletiva dasfestas (Geertz, 1973) ; sua forte relao com as formas sociais de organizao do tempo (Hubert e Mauss, 1909) ;sua sobreposio com os domnios do ldico e do esttico e sua intensa afetividade e materialidade (Cavalcanti,1999, 2000, 2002, 2006a ; Cavalcanti e Gonalves, 2009).

    Como rituais, isto , agregados de comportamentos simblicos, as festas, realizam, com a linguagem dos smbolos,o trabalho dos ritos (Valeri, 1994a) : articulam, desarticulam e rearticulam aspectos do cotidiano, de experinciashistricas, de correntes de tradio, e operam de forma mltipla e involuntria na experincia social. Ao final, sempre a pesquisa e a anlise etnogrfica que iro nos propor as chaves de sua compreenso. Elas podemestimular de modo mais ou menos consciente o trabalho reflexivo, produzir reinterpretaes, crticas, reformulaes,ou reiteraes ; propiciar aprendizagem de cdigos sociais ; estimular a produo de novas informaes eperspectivas. Atraem, encantam e integram participantes e admiradores. Envolvem ricos e pobres ; brancos,mulatos, caboclos, negros ; distintas origens tnicas ; sagrado e profano. No resolvem conflitos e desigualdadessociais, mas expressam uma face das coletividades que se superpe a essas diferenas.

    Algumas reflexes sobre as festas expressam um tom profundamente nostlgico. Trata-se, de certa forma, delamentos sobre a reduo do vnculo social razo utilitarista pela ideologia burguesa. Leia-se, por exemplo, aprimeira frase do verbete sobre festa na enciclopdia Einaudi (Valeri, 1994, p. 403-413) : "As nossas festas estoreduzidas a uma sombra do que foram : cocktails, recepes - fechados como doenas contagiosas nos frreos

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    limites de um tempo e de um espao medidos com avareza - reenviam a sua imagem empobrecida, ressudam oenfado da excitao bem calculada, a que se segue o clculo angustiado dos sucessos e dos falsos passos", quereafirma, no correr do texto "a festa j no faz parte da nossa experincia, a no ser em casos espordicos.

    A experincia brasileira das festas emerge como muito diversa e contrasta fortemente com tal paisagem nostlgica.A vitalidade contempornea das festas na cultura popular brasileira deita razes na histria mesma da constituiodo pas como nao. Vale mencionar, ainda que brevemente, dois fatores notveis na conformao dessapeculiaridade.

    I.1 O catolicismo ibrico

    Num pequeno e luminoso artigo, Gilberto Freyre (1975) chamou a ateno para a particularidade da noo de tempodos ibricos nos sculos XVI e XVII. J seria sabido e aceito que os ibricos, descobridores e navegadorespioneiros, detinham um sentido de espao mais avanado e cientfico, diverso da maior parte dos demais europeusde ento. Sua noo de tempo, entretanto, seria tambm peculiar e defasada com relao de espao, poisoperaria dentro de parmetros muito mais tradicionais, aproximando-os do sentido de tempo arcaico, prximo dotempo cclico do homem "primitivo" (Eliade, 1991). O argumento de Freyre desenvolve-se na direo do conhecidoelogio da colonizao ibrica que teria trazido vantagens culturais e psicossociais do ponto de vista do contatohumano no contexto do empreendimento colonial.iii Interessa aqui, entretanto, o ponto, fortemente antropolgico,das consequncias sociolgicas da existncia em ato de uma certa noo de tempo. Ao contrrio do tempo veloz ecronometrado, de ritmo constante e progressivo, consagrado na ideia do "tempo dinheiro", o tempo agido pelosibricos seria o tempo a servio do homem. Fluindo lentamente e na ausncia de sistema predeterminado, essanoo de tempo teria permitido o surgimento de novas modalidades culturais no contato com os povos noeuropeus, em contraste com o que Freyre chamou de "exclusividade pan-europia sistemtica dos demaiseuropeus". O cristianismo catlico dos ibricos - que diante dos demais povos teriam enfatizado, acima de suacondio europeia e nacional, sua condio sociologicamente crist - os teria aproximado dos povos no europeuspor meio de um tempo que no era simples adequao ao trabalho contnuo ; mas um tempo em que muitaalternao entre trabalho e lazer, dana e labor, era propiciado pela prpria igreja. Produziu-se assim umatemporalidade que remeteria a uma srie de ritos relacionados renovao da vida, uma vida qualitativa, concebidade modo diverso de uma srie de atividades lgica e quantitativamente valorveis.

    Ora, efetivamente, o calendrio cosmolgico do catolicismo ibrico foi, como j chamou a ateno Mrio de Andrade(1982) uma espcie de nicho na configurao das festas e expresses populares brasileiras que acolheramdiferentes correntes de tradies tnicas e culturais (Mello Moraes Filho, 1999 ; Abreu ,1998 ; Carneiro,1982 ;Jancs e Kantor, 2001, v. 1 e 2 ; Santiago, 2009). notvel a presena das festas de diferentes conformaes nosrelatos dos viajantes, e Cmara Cascudo (1965) compilou-os e comentou-os em trabalho exemplar. Nos anos 1970,a relevncia dos rituais festivos foi retomada de modo inovador por DaMatta (1979) para a compreenso dosdilemas constitutivos da sociedade brasileira. Mais recentemente, diversos autores vem assinalando a existnciamesma de um "ethos festivo" que impregnaria as construes identitrias nacionais (Amaral, 1998 ; Perez, 2002 ;Montes e Meyer, 1985) e Encontros e Colquios sobre festas e sociabilidades tm sido organizados regularmente(Santos, 2006), revelando a fora desse campo de estudos no Pas.

    I.2 Modernismo, estudos de folclore e as festas nas cincias sociais

    Em suas anlises sobre o Modernismo, Moraes considerou Mrio de Andrade o representante de uma "via depesquisa, no sentido quase universitrio da palavra" (1978, p. 93), demonstrando, com particular clareza, o lugarestratgico ocupado pela categoria "folclore" na proposta de nacionalismo cultural do autor. Merquior (1981), por suavez, chamou ateno para o carter fortemente inclusivo do nacionalismo andradiano. Esse vis etnogrfico domodernismo brasileiro herdeiro da grande tradio romntica que valoriza a diferena e a particularidade,

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    consagrando o povo como objeto de interesse intelectual e que, no campo nacional, deita razes nos trabalhospioneiros de intelectuais como Slvio Romero (1851-1914), Amadeu Amaral (1875-1929), Celso Magalhes(1849-1879).

    Essa vertente mais etnogrfica do nacionalismo cultural inspirou tambm desde cedo, a prpria constituio dealgumas instituies culturais republicanas a partir dos anos 1930,iv e est na origem do amplo movimentointelectual - o Movimento Folclrico Brasileiro - em prol do estudo e da defesa do folclore que teve sua pujana entreos anos 1940-1960 (Vilhena, 1997, Cavalcanti, 2012). Por esse vis, essa viso de mundo integrou a prpriaconformao das instituies culturais de diferentes regies brasileiras, entre elas museus, centros e secretarias decultura e de turismo municipais e estaduais.

    O impacto da atuao do Movimento Folclrico Brasileiro foi grande e consagrou certas expresses populares comoespecialmente caractersticas de uma originalidade cultural nacional. No amplo conjunto de iniciativas entoempreendidas em prol do conhecimento e valorizao das expresses populares, vale destacar a relevncia doestudo dos folguedos, compreendidos como uma totalidade viva que articulava no ambiente festivo uma variedadede formas expressivas : poesia oral, dana, msica, artesanias, culinrias, tradies religiosas. O estudo dosfolguedos permitia a apreenso da dinmica e do carter contemporneo das expresses festivas, mostrando acultura popular como um todo integrado, inseparvel da vida cotidiana (Carneiro, 1982). Eram o objeto em ao,aberto e contraditrio, ligado ao passado e continuamente adaptado ao presente ; um caminho privilegiado paracaptar a originalidade do processo de formao da cultura brasileira e seu movimento.

    O interesse pelos temas e assuntos do folclore e da cultura popular j estava tambm presente na primeira fase dainstitucionalizao das cincias sociais brasileiras iniciada nos anos 1930, quando o interesse pela pesquisaetnogrfica aproximava uma rede de pesquisadores e estudiosos do folclore. A colaborao de pesquisa queresultou em "A Festa de Bom Jesus de Pirapora", de Mrio Wagner Vieira da Cunha (que logo seria assistente deSociologia na Faculdade de Filosofia da USP e estudante de Donald Pierson na Escola Livre de Sociologia ePoltica/SP), e "Samba rural paulista", de Mrio de Andrade (na poca Diretor do Departamento de Cultura daSecretaria Municipal de SP), ambos artigos reunidos na Revista do Arquivo Municipal Paulista, n. 41, de 1937,expressa exemplarmente a proximidade entre o enfoque antropolgico e o interesse cultural modernista pelasexpresses e festas populares. No menos notvel o grande interesse pelas festas evidenciado em muitos dosautores dos chamados estudos de comunidade que, tambm entre os anos 1930 e 1960, marcaram poca no Pas(Galvo, 1976 ; Thales de Azevedo, 2004). Trabalhos como A dana do Llee Tambor de crioulade Srgio Ferretti(1978, 2002), ou A taieira de Sergipee A dana de So Gonalo, de Beatriz Ges Dantas (1972, 1976),v o exemplarOs homens de Deus, de Alba Zaluar (1982), e o gosto de Carlos Rodrigues Brando pelo estudo das festasreligiosas (1974, 1977, 1978, 1985),vi realizados entre os anos 1970/80 atestam a continuidade desse interesse queganha ateno central na antropologia brasileira com Carnavais, malandros e heris, de Roberto DaMatta (1979).

    Dos anos 1980 em diante, o estudo do vasto universo festivo brasileiro, com sua riqueza, variedade eheterogeneidade interna, vem se expandindo de modo notvel na antropologia brasileira, em especial, a partir doano 2000, a expanso e reconfigurao dos discursos de patrimnio abarcaram decididamente o tema reforando ointeresse antropolgico pelo assunto. viiMais ou menos religiosas, mais ou menos profanas, sejam elas urbanas oururais, possvel dizer que, no Brasil, grande parte das festas encontrou abrigo e ambiente de formao no quadrotemporal do calendrio cristo de fundo catlico, ao qual se acomodaram diferentes tradies tnicas e culturais(Ferretti, 1995). A variedade das festas abrange vastos universos bibliogrficos e contextos histricos e etnogrficosmuito particulares. Sem pretenso de exaurir o tema, examino a seguir dois universos festivos contemporneos - ocarnaval e os folguedos do boi - em dois de seus desdobramentos contemporneos : o desfile das escolas desamba no Rio de Janeiro e o festival dos Bois Bumbs de Parintins, Amazonas. Esse breve exame busca indicar aheterogeneidade e complexidade interna desses universos festivos.

    II. O carnaval e os folguedos do boi

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    II.1. O carnaval

    A dimenso civilizatria e universalizante do carnaval, seu papel ativo na conformao da cultura festiva e grotescamedieval (Bakthin, 1987), seu lugar mesmo na prpria constituio da noo de cultura popular no Ocidente (Burke,1989) inscreve o carnaval brasileiro num amplo quadro comparativo. Festa pblica e urbana por excelncia, ocarnaval conclama os cidados a reivindicarem territrios para a folia - rua, avenida, passarela, pista, quadra,terreiro, praa, salo, palco, terrao, onde quer que se possa acender sua fasca.

    No que tange ao carnaval, ou melhor, aos carnavais brasileiros, sua abordagem contempornea pelas cinciassociais encontra dois marcos importantes de referncia. O j mencionado livro de Roberto DaMatta, Carnavais,malandros e heris (1979) examinou o dilema da sociedade brasileira, dividida entre o mundo holista e hierrquicoregido pelo cdigo da "patronagem" e do "jeitinho", e o mundo democrtico e fragmentado, regido pelos valoresindividualistas. Sua anlise tem como porta de entrada a dimenso sincrnica, csmica e ritual do carnaval, poisnesse plano da ao coletiva se encontrariam dramatizados os valores centrais e duradouros da vida social. MariaIsaura Pereira de Queiroz, por sua vez, trouxe com Carnaval brasileiro : o vivido e o mito(1992), anliseshistrico-sociolgicas. Significativamente, ambos enfatizam o lugar das escolas de samba do Rio de Janeiro emsuas abordagens. Queiroz examinou a chegada da festa europeia aos trpicos via Pennsula Ibrica, e indicou opapel decisivo da cidade do Rio de Janeiro como ncleo disseminador dos folguedos no Pas, ao longo dos sculosXIX e XX. No sculo XIX, com o entrudo, a folia se transforma com a chegada do "grande carnaval" (bailes egrandes sociedades) e do "pequeno carnaval" (ranchos e blocos) em fins do sculo XIX e incio do sculo XX, atchegar ao Carnaval popular. Este, nascido com as escolas de samba, se espraia pelo Brasil desde a terceira dcadado sculo XX at os dias de hoje.

    II.1.a O carnaval das escolas de samba

    As escolas de samba so associaes populares que se apresentam em desfile festivo durante o perodocarnavalesco no s no Rio de Janeiro como em diversas cidades brasileiras como So Paulo (So Paulo), PortoAlegre (Rio Grande do Sul),Uruguaiana (Rio Grande do Sul), So Luis (Maranho), Manaus (Amazonas), Belm(Par).

    Seu bero histrico foi a cidade do Rio de Janeiro, onde as primeiras agremiaes despontaram nos anos 1920. ORio de Janeiro foi uma referncia na vida nacional e, em fins do sculo XIX, seu carnaval j era dinmico ediversificado. Na terceira dcada do sculo XX, num contexto de modernizao e expanso urbana, as escolas desamba emergiram como uma forma cultural capaz de articular, de modo notvel, a heterogeneidade scio-cultural jcaracterstica da cidade. Nas primeiras dcadas do sculo XX, concursos incentivados ou mesmo promovidos pelosjornais e pela municipalidade j animavam a programao carnavalesca. Os ranchos e as grandes sociedadestinham suas prprias competies (Gonalves, 2007 e Ferreira, 2005). As escolas de samba nascentes organizaramseu primeiro desfile em 1932 e, em 1935, viram-no includo na programao oficial, com direito a subvenogovernamental. A fora aglutinadora da nova forma de organizao popular estimulou o surgimento de um nmerocrescente de agremiaes. As escolas de samba logo se estabeleceram como formas primordiais de lazer e desociabilidade populares, e acompanharam a expanso demogrfica e espacial da cidade rumo aos subrbios. J em1934, associaram-se na Unio Geral das Escolas de Samba. Em 1947, fun-dou-se a Federao das Escolas deSamba e, em 1951, a Confederao das Escolas de Samba. Em 1952, quando 49 escolas de sambas participavamdo carnaval, as associaes fundiram-se na Associao das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

    Nos anos 1950, a forma esttica do desfile estabilizou-se, com a generalizao da vinculao do samba ao tema doenredo, fato indicativo da tendncia integrao dramtica. As escolas definiram ento a forma esttica que ascaracteriza : a transformao de um enredo, anualmente renovado, na linguagem plstica e visual das alegorias efantasias e na linguagem rtmico-musical do samba acompanhado pela poderosa orquestra de percusso

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    denominada de bateria. Nesse mesmo perodo, a ampliao da base social das escolas incluiu a participaocres-cente das camadas mdias, e abriu espao para a atuao de cengrafos e artistas plsticos na produo dosdesfiles carnavalescos. Em 1962, iniciou-se a irreversvel comercializao do desfile com a venda de ingressos aopblico para as arquibancadas desmontveis, erguidas para os desfiles ento realizados na Avenida Rio Branco,depois na Avenida Presidente Vargas e mais tarde na Avenida Marqus de Sapuca, todas localizadas na regiourbana central. Ano a ano, as arquibancadas aumentavam em altura e extenso, atestando o sucesso crescente dasescolas. A Riotur (Empresa de Turismo do Municpio do Rio de Janeiro, de capital misto) foi criada em 1972, e, em1975, um acordo entre a empresa e o presidente da Associao das Escolas de Samba, Amauri Jrio, substituiu ahabitual subveno por um contrato de prestao de servios. Os sambas-enredo, por sua vez, comearam a sergravados para comercializao em 1972. Em 1983, celebrou-se o primeiro contrato da Associao com a televisopara a transmisso do desfile.

    O desenvolvimento clere da comercializao e a expanso da base social dos desfiles produziram uma claradiferenciao entre as escolas de samba. O elenco de quesitos de julgamento dos desfiles, que orienta tambm acomposio do gradiente hierrquico das escolas de samba, sofisticou-se e ampliou-se ao longo das dcadas. Noincio dos anos 1980, no conjunto das 43 agremiaes ento existentes destacou-se com nitidez o grupo das'grandes' escolas, que constituiu um modelo almejado pelas demais. Em 1984, a inaugurao da Passarela doSamba, na Avenida Marqus de Sapuca na regio central da cidade do Rio de Janeiro, coroou essa evoluo.

    A Passarela do Samba, logo popularizada como "Sambdromo", foi um projeto do arquiteto Oscar Niemeyerimplementado pelo Governo do Estado quando o antroplogo Darcy Ribeiro era Secretrio de Cultura. Suainaugurao representou a um s tempo o reconhecimento e a extraordinria ampliao do poten-cial econmico eturstico dos desfiles. Nesse local planejado, que abriga uma escola pblica em seu funcionamento cotidiano,desfilam, desde ento, os trs primeiros grupos da hierarquia carnavalesca das escolas de samba cariocas.

    Ainda em 1984, um grupo de dez agremiaes criou a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA, ousimplesmente Liga). Atualmente, um contrato anual de prestao de servios entre a Prefeitura Municipal e a Ligaorganiza o desfile das 12 escolas de samba situadas no primeiro rankingdo carnaval carioca. Esse desfile, tambmconhecido como o desfile do grupo especial, tem grande visibilidade na mdia nacional e internacional e o foco dointeresse turstico. Vale observar que a Liga Independente foi fundada pelos principais patronos do Jogo do Bicho(um jogo de apostas clandestino que associa uma srie de bichos a uma srie numrica) na cidade, e permaneceassociada a eles. Vale lembrar tambm que existem hoje, no Rio de Janeiro, cerca de setenta escolas de sambaque, distribudas em sete grupos hierrquicos, apresentam-se em desfiles festivos em diferentes locais. O regimecompetitivo dos desfiles permite a ascenso e o descenso de escolas no gradiente hierrquico. Enquanto algumasescolas de samba decaem, e no limite desaparecem, novas escolas continuam a surgir, atestando o dinamismo dacompetio carnavalesca e a fora cultural das escolas de samba na vida da cidade. Em 2005, um novoequipamento urbano, a "Cidade do Samba", foi construdo pela Prefeitura no bairro da Gamboa, em um vastoterreno outrora pertencente Rede Ferroviria Federal. Distribudos ao redor de uma praa central, l se encontramamplos galpes destinados confeco das alegorias carnavalescas das escolas que desfilam no grupo especial.Para essas escolas, as condies outrora precrias de seus "Barraces" foram substitudas por boas acomodaese por uma sofisticada infra-estrutura. O interior desses novos galpes pode ser visualizado por visitantes e turistas.A administrao da Cidade do Samba foi entregue pela Prefeitura Liga Independente das Escolas de Samba.

    A arte dos desfiles

    A vida de uma escola de samba regida pela produo do desfile festivo na sucesso dos carnavais. O desfile dasescolas de samba uma forma de arte coletiva e sofisticada que elabora um enredo, cujo contedo variaanualmente, na linguagem rtmica e musical do samba enredo e na linguagem plstica e visual das fantasias eadereos. Em O carnaval carioca : dos bastidores ao desfile(Cavalcanti, 2006) abordei em detalhes o multifacetadoprocesso de confeco do desfile por uma grande escola de samba. O enredo o elemento expressivo bsico do

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    desfile. , tambm, o elo de ligao entre as diferentes dimenses artsticasda produo de um desfile.O enredo geralmente proposto pelo carnavalesco, ou por um grupo de pessoas responsvel pela produo artstica do desfile.Tanto o tema de um enredo como os sambas-enredo decorrentesenvolvem pesquisas e uma ampla circulao deidias nas quais ecoam e se reinterpretam os mais diversos tpicos do imaginrio social nacional. At a dcada de1950, os enredos e sambas-enredo traziam como tema visesoficiais da histria e do folclore brasileirosre-elaboradas com liberdade carnavalesca.Na dcada de 1960, os enredos se abriram para vises alternativas deBrasil, em espe-cial para a temtica negra de inspirao afro-brasileira. A partir de 1970, o universo temticodiversificou-se com a introduo de temas onricos. Atualmente, os enredos e seus respectivos sambas elaboram osmais diferentes assuntos que mantm, entretanto, a valorizao da idia de "razes" ou "influncias" da culturabrasileira.

    Os sambas-enredos entoados pelas escolas de samba num desfile so os vencedores de uma acirrada competiointerna promovida pelas diversas escolas em seus ensaios de quadra que ocorrem geralmente entre os meses deagosto e outubro. Depois da eleio do samba campeo, seu "hino" no desfile festivo, a escola torna-se umaunidade coesa, apta para o confronto ritual com as demais escolas no carnaval. As baterias, as grandes orquestraspercussivas que so o corao rtmico dos desfiles, comeam, ento, efetivamente seus ensaios e os casais demestres-sala e porta-bandeiras trazem o smbolo mximo da escola - sua bandeira - para a dana cerimonial naquadra (Gonalves, 2010).

    O enredo transforma-se tambm na linguagem plstica e visual das fantasias, adereos e alegorias. Algumasfantasias so especialmente elaboradas, como as da Comisso de frente, que abre o desfile da escola ; ou aquelada Ala das Baianas, composta por mulheres que evolui girando simultaneamente, ao som do refro do samba, emtorno do prprio corpo (Cavalcanti, 2011a). As alegorias, em especial, so um sorvedouro de recursos financeiros econfiguram uma extraordinria forma de arte coletiva e popular contempornea (Cavalcanti, 2011b). Arte ritual porexcelncia, pois seu destino o consumo festivo. Terminados os desfiles, alguns de seus elementos decorativossero reaproveitados em futuros carnavais de outras escolas de samba da cidade ou mesmo de outros estados,mobilizando um amplo circuito de trocas, favores e relaes sociais.

    As grandes escolas de samba confeccionam oito carros alegricos que elaboram tpicos desdobrados do enredo emobilizam artistas e especialistas em uma necessria sequncia de produo. A estrutura do carro, feita emferragem, montada sobre eixos de caminhes, com tantas rodas quan-tas necessrias para um movimentoequilibrado. Essa base forrada de madeira e sobre ela erguem-se elementos cnicos, em especial as grandesesculturas em isopor ou fibra de vidro, decoradas com tecidos, plsticos, acetatos, pintura, espelhos. H ainda,muitas vezes, efeitos especiais de movimento e ilu-minao. No desfile, destaques e brincantes fantasiadoscomplementam os cenrios alegricos.

    Atualmente, o desfile de uma grande escola de samba dura atualmente cerca de 80 minutos. Ao longo dessaefmera passagem pela passarela festiva, a escola integrar a visualidade das coloridas fantasias e dos expressivoscarros alegricos ao ritmo envolvente de seu samba que, entoado por seu 'puxador', acompanhado pelo cantocoral das alas que evoluem danando. Ao articular festa e espetculo, o desfile das escolas de samba integra, demodo tenso e vivaz, aspectos comunitrios e tradicionais a dimenses comercializadas e cosmopolitas e ergue-secomo um dos principais rituais festivos da cultura brasileira contempornea.

    II.2 Os folguedos do boi e o Festival dos Bois bumbas de Parintins/Amazonas

    A brincadeira do boi foi consagrada como manifestao brasileira tradicional pelo lugar que foi chamada a ocuparem especial a partir da obra folclrica de Mrio de Andrade, que nela viu "a mais exemplar, original e estranha" denossas danas (Andrade,1982 ; Cavalcanti, 2012).

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    A brincadeira tem fascinado geraes de estudiosos, tanto pelo lugar de honra ocupado no pensamento modernistae folclrico, como por sua grande maleabilidade a diferentes contextos socioculturais. Tornou-se efetivamente mparentre os folguedos, pois existe Brasil afora e seus nomes diferem, grosso modo, conforme suas variaes regionais."boi-bumb", no Amazonas e no Par ; "bumba meu boi", no Maranho ; "boi calemba", no Rio Grande do Norte ;"cavalo-marinho", na Paraba ; "bumba de reis" ou "reis de boi", no Esprito Santo ; "boi pintadinho", no Rio deJaneiro ; "boi de mamo", em Santa Catarina. Sua insero no calendrio festivo anual do catolicismo popular tambm diferenciada e ela marca presena nos trs ciclos festivos mais importantes do Pas : no Norte, o folguedoacontece no ciclo junino ; no Nordeste, encontra abrigo no ciclo natalino. No Sudeste, especialmente no Rio deJaneiro, ele ocorre muitas vezes durante o carnaval (Cavalcanti, 2000).

    Vicente Salles (1970) ligou o folguedo presena do negro na Amaznia. O bumb teria se estruturado na primeirametade do sculo XIX, antes da revolta popular da Cabanagem, numa poca de precria estabilizao do regimeescravista na regio e teria resistido desorganizao do regime servil, espraiando-se pela sociedade. De fato, jna primeira metade do sculo XIX, breves notcias em jornais ou relatos de viajantes registraram o folguedo em SoLus (Maranho), bidos e Belm (Par) e Manaus (Amazonas). Sua designao j era clara : um "bomba" ou"bumbah". Palavras de expressiva etimologia cuja ambivalncia vale assinalar : bumba ou bumb = surrar, bater edanar (Cascudo, 1984).

    Tudo indica o surgimento simultneo ou a rpida difuso do folguedo a partir do Norte/Nordeste (Salles, 1970 ;Cascudo, 1984). Porm, em cada lugar ou reas distintos, a evoluo da brincadeira seguiu desde sempre cursosdiversos. Consideraremos aqui, neste breve exame, apenas os folguedos da regio Norte, nela includo o estadolimtrofe entre Norte/Nordeste, o Maranho. Nessa regio, a brincadeira ocorre na estao seca, por ocasio dasfestas em homenagem aos santos juninos Joo, Pedro e Maral. Os laos da brincadeira com a religiosidadepopular so muitos e, independentemente da crena religiosa, os folguedos do boi fornecem amplo repertriosimblico capaz de expressar muitos sentimentos, mensagens e experincias sociais. Suas caractersticastradicionais se articulam a aspectos modernos e, frequentemente, seu ciclo festivo integra o calendrio tursticoregional (Pinho de Carvalho, 1995 ; Marques, 1999). Sua maleabilidade a diferentes contextos socioculturais gerouum dinamismo avesso a normas nicas e uma grande riqueza de matizes e expresses.

    Algumas confluncias podem, entretanto, ser encontradas no folguedo. Em ruas, terreiros, ptios, praas, e mesmoem arenas especiais, o centro das atenes um boi-artefato, que brinca animado por pessoas que dentro dele seenfiam. Os brincantes que o cercam - que variam em nmero e organizao interna - chamam-se de "bois", eatribuem-se nomes individuais tpicos : "boi misterioso", "tira-teima", "cana-verde", "mimo de So Joo", "f emDeus", entre tantos outros. Um "boi" uma organizao local, geralmente urbana, de um bairro e seus arredores.Uma forte afetividade permeia o grupo e um "Boi" chama outros, pois rivalizar parte importante da brincadeira.

    O boi-emblema do grupo brincante muitas vezes figurado em objetos, desenhos, pinturas e bordados. Aindumentria do grupo sempre cuidadosamente elaborada, como nas esmeradas fantasias com motivos indgenasdas tribos dos Bumbs de Parintins, ou nas peas ricamente bordadas da farda dos grupos maranhenses. Toadasde variados ritmos e conjuntos instrumentais acompanham a farra. Nos dias atuais, os principais gruposfrequentemente gravam e lanam seus CDs. H, por vezes, bailados com coreografias e performances especficas,e, por vezes, uma elaborada produo de bordados e mscaras. Em alguns casos, como no boi de orquestramaranhense ou nos bois bumbs de Parintins, o pblico participa ativamente da dana. Em outros casos, como nosbois de matraca de So Luis do Maranho, quem leva e toca uma matraca pode integrar a percusso da massa emfesta pelas ruas da cidade.

    Muitas vezes, h sequncias de aes dramticas. No h necessariamente ordem ou contedo padro para isso.Essas sequncias podem ser cmicas, como ocorre nos bois de zabumba da cidade de Mirinzal no Maranho, onde"palhaceiros" criam divertidas histrias para as matanas do boi (Carvalho, 2011). Podem tambm articular-se emtorno de personagens com indumentrias tpicas, cuja importncia, nomes e funes na brincadeira variam : amo do

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    boi, vaqueiros, ndios e ndias, tuxuas, paj, Pai Francisco, Bastio e/ou Mateus, Me Catirina, Cazumbs,sinhazinhas. Cada grupo de boi organiza de modo relativamente livre o seu conjunto cnico, incorporando emodificando temas e personagens.

    Um rico universo narrativo associa-se s diversas formas da brincadeira. Lendas e fabulaes emergem na poesiadas toadas e nas histrias relatadas pelos prprios brincantes e organizadores que buscam as razes de ser dofolguedo anualmente vivido com tanta animao. Dentre elas, destacam-se as narrativas que tematizam a morte eressurreio do boi e marcaram especialmente a compreenso do folguedo no Pas. Essas narrativas comearam aser recolhidas por estudiosos em meados do sculo XX, no bojo do interesse pelos fatos populares estimulado peloMovimento Folclrico Brasileiro. O ncleo de suas tramas a morte de um boi precioso pertencente a um ricofazendeiro por um vaqueiro (Pai Francisco, ou nego Chico) premido pelo desejo de sua mulher grvida de comer alngua do dito boi. Essa "traio" ao amo, que ao mesmo tempo "lealdade" esposa, provoca um terrvel impassequando descoberta. Um mdico e um padre tentam a ressurreio do bicho, finalmente obtida por um paj. A ento,nos dizem essas narrativas, "o grupo todo celebra em festa".

    As muitas verses dessa lenda abrigam um tenso universo de relaes sociais e ocultam grande riqueza designificados simblicos. Essas narrativas no so, entretanto, uma explicao direta do que deveria ocorrer naencenao do folguedo, como se a lenda correspondesse ao roteiro de um suposto auto popular originrio. Elas nocorrespondem a uma autntica verdade histrica. Trata-se antes de narrativas de origem de natureza mtica(Cavalcanti, 2006a, 2012). Uma temporalidade diversa daquela da rotina cotidiana instaura-se quando essa histriade fundo relatada (e no necessariamente encenada), ou quando as encenaes do folguedo a ela aludem, aindaque por meio de frouxos laos. A lenda traz consigo o tempo extraordinrio e ldico da festa, o tempo cclico docalendrio ritual no qual, assim como o boi mtico que morreu e ressuscitou, cada grupo de boi renova a busca desua prpria continuidade ao longo dos anos que correm.

    II.2.a. O Festival dos Bois Bumbs de Parintins, Amazonas

    O festival dos Bois-Bumbs uma variante espetacular e massiva do ciclo tradicional dos folguedos do boi(Cavalcanti, 2000 e 2002). Realiza-se anualmente na cidade de Parintins, situada na ilha Tupinambarana, na regiodo Mdio Rio Amazonas, bem prxima fronteira do Amazonas com o Par. A cidade tem cerca de 50.000habitantes e o municpio, do mesmo nome, cerca de 65.000. Sua principal atividade econmica a pecuria bovinae bubalina e, nas ltimas dcadas, o prprio turismo estimulado pelo festival.

    Conta a tradio que o primeiro Boi, o Garantido - o boi branco, cujas cores emblemticas so o vermelho e obranco - foi criado em 1913. Logo seguiu-se a criao do outro boi , o Caprichoso - o boi preto, cujas coresemblemticas so o azul e o branco. Outros bois so lembrados, mas apenas esses dois vingaram, catalizando asafeies dos cidados e estabelecendo entre si a forte rivalidade que anima o festival.

    As bases territoriais das redes de relaes dos grupos Garantido e Caprichoso, respectivamente situadas a oeste ea leste da cidade, tornaram-se aos poucos uma oposio importante na morfologia e organizao social urbanas.Parintins, cidade totalmente plana, pensa-se em relao ao leito do rio, distinguindo entre a parte de 'baixo' (jusante)e a parte de 'cima' (montante) que congregam redes de famlias e parentelas distintas. A sociabilidade dos doisgrupos de Bois agregou essas diferentes redes de relaes.

    Desde sua fundao at a dcada de 1960, os dois grupos apresentaram-se na forma tradicional, percorrendo asruas da cidade nos dias do santos juninos e enfrentando-se em brigas severas que deixaram marca na memrialocal. No se destacavam, ento, dos demais folguedos existentes, como as quadrilhas juninas e as pastorinhasnatalinas. Em 1965, um grupo de jovens catlicos que visavam reanimar as brincadeiras locais criou o FestivalFolclrico de Parintins. Num primeiro momento, Caprichoso e Garantido participavam como coadjuvantes. Porm,

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    ao formalizar o confronto entre os dois grupos, o festival trouxe um processo de mtua emulao, tornando-se elemesmo um sucesso na medida em que os Bois tornavam-se a sua principal atrao. Ocupando agora o tablado, eum pouco mais tarde a arena, a tradicional rivalidade entre os Bois passou a expressar-se atravs de umapadronizao artstica que no parou, desde ento, de se sofisticar. O confronto, agora festivo, entre os dois Boisassociou-se, assim, fortemente representao da unidade da cidade, e a fama da festa - alimentada pelacomposio de muitas toadas e grupos musicais que percorrem a regio - chegou capital estadual, Manaus,espalhando-se em todo o norte amaznico.

    Na geografia urbana, ainda nos dias de hoje, oeste, ou montante do rio Amazonas, situa-se o Boi Garantido, seuCurral (a quadra de ensaios) e seus QGs (Quartis-Generais, as oficinas de confeco das alegorias e das fantasiasdos grupos). No lado leste, ou jusante do rio Amazonas, fica o Boi Caprichoso, seu Curral e QGs. De tal modoque, caminhar para um ou outro lado nas ruas de Parintins, adentrar a rede de relaes de um dos Bois Bumbs,embora certamente de forma no to arriscada como outrora (Valentin, 2005).

    A construo do Bumbdromo, em 1988, consagrou essa dualidade. O estdio uma estrutura de concreto armado,com cerca de 45.000 lugares nas arquibancadas erguidas ao redor de uma arena. Situado na rea urbana central, oBumbdromo alinhou-se com o cemitrio local, a catedral de Nossa Senhora do Carmo (a santa padroeira dacidade), a praa municipal e o porto, traando uma linha imaginria que divide Parintins ao meio. A arena e asarquibancadas do estdio espelham a diviso exterior do espao urbano. A metade oeste, pertencente galeravermelha, abriga os torcedores do Garantido. A metade leste, pertencente galera azul, os torcedores do BoiCaprichoso. Essas galeras so verdadeiras organizaes de jovens que, com seus lderes e smbolos prprios, vmde Manaus, Santarm e cidades circunvizinhas para participar da festa. Nos dias das apresentaes, posicionadasem suas respectivas metades do estdio, as galeras preparam-se para saudar o seu Boi, com cantos danas emuitos efeitos especiais.

    No Festival dos Bois Bumbsde Parintins, o tema de fundo da morte e ressurreio do boi precioso, que atravessaas formas tradicionais do folguedo no pas, expandiu-se, incorporando em seu universo simblico no s imaginriolendrio e mtico amaznico como a moderna bandeira ecolgica e indianista : a defesa da mata tropical, a memriae a histria dos diversos grupos indgenas regionais e da populao ribeirinha. As apresentaes anuais dosBois-Bumbssuperpem ento, ao tema da morte e da ressurreio do boi, um tema anual, extrado desseimaginrio regional, produzindo uma festa de surpreendente fora e beleza.

    As performances festivas

    Nas trs noites da festa, Caprichosoe Garantidorevezam-se na arena do estdio, em espetculos de duas horas emeia de durao. A limitao da competio a dois contendores foi contrabalanada, ao longo dos anos, pelagrande elaborao artstica das apresentaes. A cada noite os grupos renovam suas fantasias, carros alegricos elendas, preenchendo de modo circular e gradual a arena do estdio.

    Um componente notvel das apresentaes a participao das galeras. Os assentos destinados a elas sogratuitos e correspondem a 80% do espao disponvel. De suas respectivas metades, as galeras - um quesito dejulgamento - sadam o seu boi, cantando, danando e produzindo muitos efeitos especiais. Na hora do espetculodo oponente, a galera contrria permanece sentada, em silncio profundo (ela perderia pontos importantes seprejudicasse o rival). Assim que, do ponto de vista do torcedor, h duas formas alternadas de participao : ouvoc canta, dana e produz efeitos visuais, ou voc escuta e aprecia quieta, cuidadosa e muito criticamenteenquanto o oponente preenche, de modo gradual, a totalidade da arena. Por isso, na formulao benvola de umcompositor de toadas, em Parintins, "ama-se um boi e admira-se o outro."

    Afora a galera (que j est l aguardando a entrada de seu boi desde muito cedo em cada dia de performance), o

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    apresentador (o primeiro a entrar em cena), o levantador de toadas (o segundo a entrar em cena) seguido pelasorquestras de percusso (batucada no Garantido ou marujada no Caprichoso), no h ordem fixa para a entradados demais personagens. Toadas diversas acompanham os diferentes momentos cnicos, e a apresentaoconclui-se sempre com uma seqncia dramtica denominada ritual. Para alm disso, as demais cenas, incluindo aentrada na arena do boi-artefato - que em Parintins tambm o emblema vivo do grupo - cercado pelo conjunto dospersonagens alusivos lenda da morte e ressurreio do boi - Pai Francisco, Me Catirina, Amo do Boi, sinhazinhada fazenda - so livremente encadeadas. Os personagens individuais - a Cunh Poranga (moa bonita em tupi), asinhazinha da fazenda, o boi, a rainha do folclore, e o paj - geralmente entram em cena trazidos por alegorias eacompanhados por toadas especficas. Sua apario sempre saudada com foguetrio e efeitos especiais. Algunselementos, como os maravilhosos tuxuas, cujas fantasias so em si mesmas pequenas alegorias, adentram aarena, desfilam e se vo. A maior parte dos brincantes, entretanto, permanece na arena, especialmente as tribosmasculinas e femininas, grupos de jovens com fantasias de inspirao indgena que, com coreografias definidas,gradualmente preenchem a arena, ocupando integralmente o espao disponvel com o seu Boi. Quando a arenaest cheia, comea o ritual, o apogeu da apresentao que geralmente encena uma lenda de fundo indgena ecorresponde principal atuao do paj, sempre um extraordinrio bailarino. Depois disso, todo o grupo,movimentando-se em crculos, retira-se da arena, cedendo a vez ao boi contrrio. Tudo recomea nas noitesseguintes.

    Ao longo de sua histria, o Bumb de Parintins expandiu consideravelmente a brincadeira, imprimindo-lhe novossignificados. Obviamente, o boipermanece um elemento central, pois o espetculo se desenvolve em torno doenfrentamento festivo dos dois grupos de Bois na arena. Garantido e Caprichoso so, antes de mais nada, oemblema identitrio dos dois grupos de brincantes, e o boi-artefato, que dana animado pelo tripa, permanecesendo um quesito nico, cuidado com especial carinho e ateno. Pai Francisco e Me Catirina tambmpermanecem em cena, contracenando jocosamente com o boi, dando-lhe capim e sal, saltitando e caindo a suavolta.Porm, na ltima dcada, o folguedo abriu-se decididamente em direo aos temas amaznicos. Elementos jpresentes no folclore regional encontraram abrigo na festa - os temas regionais, de fundo indgena e caboclo,uniram-se bandeira ambientalista contempornea e configuram hoje o plo simblico mais forte da festa. Nos diasatuais, em especial um personagem ofusca o boi na arena : o Paj, cuja entrada em cena, comemorada comintensos efeitos especiais de luz e som, inicia a celebrao do "ritual", a cena dramtica que marca o apogeu decada apresentao.

    Ao eleger os temas amaznicos como smbolos da identidade regional, o Boi-Bumbde Parintins emerge assimcomo um desenvolvimento mpar do folguedo do boi. Com sua festa, a pequena cidade, e com ela toda a regionorte, como que aspira (e tem conseguido com razovel sucesso) comunicar-se com o pas e com o mundo.

    ***O carnaval e os folguedos do boi configuramuniversos rituais heterogneos e complexos que indicam a amplavariedade e a grande heterogeneidade interna das festas contemporneas na cultura popular brasileira.

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    TURNER, Victor. Floresta de smbolos.Niteri : UFF, 2005 [1968].

    VALENTIN, Andras. Contrrios. A celebrao da rivalidade dos bois-bumbs de Parintins.Rio de Janeiro : Valer,2002.

    VALERI, V. Rito. Enciclopdia Einaudi. Lisboa : Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1994a. p. 325-359. v. 30.

    ______. Festa. Enciclopdia Einaudi. Lisboa : Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1994b. p. 402-414. v. 30.

    Copyright Artelogie Page 15/16

    http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article183http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article183

  • A festa em perspectiva antropolgica : carnaval e os folguedos do boi no Brasil.

    VIEIRA DA CUNHA, Mrio Wagner. A Festa de Bom Jesus de Pirapora. Revista do Arquivo Municipal Paulista, SoPaulo, Departamento de Cultura da Secretaria Municipal, n. 41, 1937.

    VILHENA, Luis Rodolfo. Projeto e misso : o movimento folclrico brasileiro (1947-1964). Rio de Janeiro : Funarte ;Fundao Getlio Vargas, 1997.

    ZALUAR, Alba. Os homens de Deus. Rio de Janeiro : Zahar, 1982.

    Post-scriptum :

    L'article envisage la fte lappui des thories anthropologiques de la culture et des rituels. Deux facteurs d'ordre historique et culturel sont pris

    en considration pour la comprhension de la richesse et de la diversit des ftes au Brsil : le catholicisme de tradition ibrique et le nationalisme

    culturel inclusif caractristique du modernisme brsilien. On discute la continuit de la recherche sur les ftes, des tudes du folklore

    l'anthropologie actuelle. Le carnaval et les danses du boeuf [folguedos do boi] sont analyss par deux de ses dveloppements actuels : le dfil

    des coles de samba Rio de Janeiro et le festival des "BoisBumbs" de Parintins, Amazonas. Ce bref examen suggre la complexit et la

    diversit interne de ces festivits.

    Copyright Artelogie Page 16/16

    http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article183

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