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Download A Evoluo da Sociedade Tim Ingold - Pedro P. Ferreira A EVOLUO DA SOCIEDADE Tim Ingold EVOLUO H muitos anos participei de uma palestra a respeito de evoluo dada por um ilustre geneticista

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    A EVOLUO DA SOCIEDADE

    Tim Ingold

    EVOLUO

    H muitos anos participei de uma palestra a respeito de evoluo dada

    por um ilustre geneticista. Segurando uma pedra em sua mo, ele observou

    que, caso ele a soltasse, haveria uma certeza de que ela cairia no cho. Estou

    certo de que cada um em sua audincia concordou com aquilo. Do mesmo

    modo, ele ento declarou que as espcies tambm evoluem. Desde ento, esta

    falsa analogia fixou-se em minha mente por trs razes. Primeiro, as

    declaraes de um fato indiscutvel parecem um lugar estranho para se

    comear a fazer cincia. Afinal, foi somente porque DARWlN se recusou a

    aceitar que as espcies tinham sido criadas pela ordem divina que temos a

    teoria da evoluo. Segundo, veio em minha mente a objeo apresentada por

    CANON KINGSLEY, de mais de um sculo atrs, a respeito da alegao de

    que havia uma inevitabilidade similar a respeito da evoluo da sociedade.

    Uma pedra lanada, KINGSLEY observou, necessariamente no atingiria o

    solo se algum decidisse apanh-la. Seu ponto de vista, naturalmente, era de

    que a liberdade humana poderia no ser prontamente compreendida dentro de

    uma estrutura de lei mecnica. Terceiro, fui levado a pensar que se no fosse

    devido a um grande mal-entendido na histria a respeito de suas questes,

    trazidos tona mediante uma extenso no crtica de idias amplamente

    aceitas, a respeito da evoluo social quanto ao domnio dos seres orgnicos,

    os bilogos contemporneos estariam, agora, nos dizendo que acreditar que as

    espcies evoluem profundamente errneo. Deixe-me explicar.

    O verbo "evoluir", do latim evolvere, originalmente significava estender

    ou desdobrar. DARWIN, como bem sabido, usa a palavra somente uma vez

    na primeira edio do livro A origem das espcies. , de fato, a ltima palavra

    do livro e usada no seu sentido original para transmitir a idia da histria

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    como uma grande procisso de formas se desdobrando, diante da interminvel

    contemplao dos naturalistas observadores. Assim como a Terra gira em sua

    rotao, segundo as leis gravitacionais fixas, escreveu DARWIN, "infinitas

    formas das mais belas e maravilhosas tm sido e esto sendo desenvolvidas".

    Esta apenas mais uma imagem metafrica - um preldio final num trabalho

    em que proliferam tais imagens. Quando chega nas mudanas atuais

    desempenhadas pelas espcies, mudanas que ele procurou explicar mediante

    sua teoria da variao sob a seleo natural, DARWIN foi bem mais preciso.

    Ele no falou de evoluo, mas de "descendncia com modificao",

    mostrando por meio disso a gerao seqencial das formas genealogicamente

    conectadas, diferentes a cada minuto daquelas que precedem e das que

    seguem. Na verdade, ele teria boas razes para ter evitado o conceito de

    evoluo. Por ter primeiramente entrado na Biologia com a teoria do

    homnculo de CHARLES BONNET de pr-formao embrionria, o conceito

    tinha acabado de ser sabotado pelo filsofo social HERBERT SPENCER num

    sentido totalmente diferente, todavia, de uma forma no menos alheia s

    premissas que fundamentaram a teoria de DARWIN.

    SPENCER tomou conhecimento, em segunda mo, a respeito do

    trabalho do embriologista alemo KARL ERNST RITTER VON BAER, que

    havia apresentado a alegao de que o desenvolvimento de qualquer

    organismo consistia num processo de diferenciao estrutural dominante, na

    apresentao de SPENCER, "de uma homogeneidade incoerente a uma

    heterogeneidade coerente". Num artigo datado de 1857, dois anos antes de

    DARWIN ter publicado o livro que marcou a sua poca, SPENCER especulou

    que este princpio de desenvolvimento poderia governar no somente a

    constituio dos seres vivos a partir de suas clulas, mas tambm a

    constituio das sociedades a partir de seus membros individuais, das mentes

    a partir dos elementos da conscincia e, na verdade, de todo o universo a partir

    dos constituintes bsicos da matria. Tendo, originalmente, chamado seu

    princpio de "lei do progresso", ele rapidamente substituiu "evoluo" por

    "progresso", com base que o ltimo termo estava mais adequadamente

    associado s teorias de desenvolvimento exclusivamente humano. Na viso de

    SPENCER, o progresso da humanidade foi parte essencial de todo um avano

    de vida, que por sua vez foi parte integrante do desenvolvimento do cosmos

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    como um todo. Na leitura subseqente de DARWIN, SPENCER estava

    convencido que tinha encontrado uma confirmao independente, de dentro do

    campo da Biologia, de sua lei evolucionria. Na verdade, SPENCER nunca

    considerou o trabalho de DARWIN alm de um acessrio para a sua prpria

    filosofia sinttica.

    Parece que DARWIN no estava muito impressionado com o estilo

    grandioso da especulao filosfica de SPENCER. No obstante, impelido pelo

    co-descobridor da seleo natural, ALFRED RUSSELL W ALLACE, foi

    persuadido a tomar a frase de SPENCER, "a sobrevivncia do mais apto",

    como uma alternativa possvel para a "seleo natural" nas edies posteriores

    de Origin. Ele no poderia, entretanto, aceitar que a modificao das espcies

    mediante a seleo natural necessariamente vinculasse o progresso ou o

    avano em qualquer sentido absoluto. Segundo sua teoria, os organismos

    devem se adaptar em quaisquer que sejam as condies prevalecentes de vida

    e se no processo tivessem avanado em termos de diferenciao estrutural ou

    complexidade total, as razes eram para ser encontradas nas condies

    particulares, no no mecanismo geral. No fundo, DARWIN simplesmente no

    estava preocupado com a evoluo da vida como SPENCER o tinha julgado -

    ou seja, como uma fase de um movimento csmico que continuamente se

    constri, mediante suas propriedades particulares de auto-organizao

    dinmica, em estruturas sempre novas e cada vez mais complexas. Seu

    propsito era muito mais modesto: compreender os ajustamentos,

    remodelagens e refinamentos interminveis daquelas mltiplas e engenhosas

    maquinaes, pelas quais a vida presente - "tendo sido originalmente soprada",

    como ele o colocou, "em algumas poucas formas ou em apenas uma" - foi

    levada para cada canto e espao do mundo habitvel. Foi SPENCER e no

    DARWIN que viu neste processo de modificao adaptativa a mo da evoluo

    em ao. E ao assim fazer, ele iniciou uma confuso que tem sido perpetuada

    pelas geraes de bilogos, at arquitetos da "sntese moderna" como

    THEODOSIUS DOBZHANSKY e JULIAN HUXLEY.

    til especular o que poderia ter acontecido se esta confuso nunca

    tivesse acontecido. Em lugar da biologia evolucionria de hoje, com suas

    alegaes exageradas para ter produzido nada menos que uma completa

    explicao a respeito da vida, teramos um ramo da cincia biolgica mais

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    estreito e com menos suposies, tratando especialmente com os mecanismos

    de adaptao orgnica. Seguindo os passos de DARWIN, seus seguidores se

    julgariam como estudantes da descendncia com modificao, que para

    manter com o esprito dos tempos modernos, eles certamente pegaram o

    hbito da abreviao do termo para DCM. No h dvidas de que a nova

    gerao dos tericos da DCM estaria ansiosa para corrigir qualquer insensato

    que achasse que a modificao adaptativa das espcies equivaleria a um tipo

    de evoluo. Isso, diriam eles, para confundir a mudana filogentica com o

    desenvolvimento ontognico. Somente o ltimo, subscrito como est, mediante

    um nico programa codificado na carga gentica do organismo, tem o carter

    do desdobramento progressivo da complexidade organizada, para o qual o

    conceito de evoluo se aplica adequadamente. A descendncia com

    modificao no segue um programa, em vez disso, ocorre por causa das

    imperfeies no mecanismo por onde as informaes so copiadas de uma

    gerao para outra. Isso assegura que, no desenvolvimento dos organismos,

    dois programas no so idnticos. Quando se chega questo debatida de a

    evoluo ocorrer ou no no domnio, uma vez chamado "superorgnico" -

    agora mais comumente conhecido como "sociocultural" - os nossos tericos da

    DCM permaneceriam no compromissados. Eles no mostrariam, no entanto, a

    intolerncia marcada que seus homlogos (ou seja, bilogos evolucionrios

    modernos) da vida real teriam mostrado em direo aos cientistas sociais, que

    continuam a associar a idia de evoluo com aquela de um movimento de

    desenvolvimento progressivo na cultura ou sociedade. Longe de repreenderem

    estes cientistas sociais pelo mal-entendido, a respeito da natureza da evoluo,

    os tericos da DCM observariam que os mtodos e conceitos do paradigma

    darwiniano so aplicveis na explicao de mudana social e cultural, somente

    na extenso de que o ltimo no seja um processo evolucionrio.

    Para continuar com este cenrio: vamos supor que tenham me pedido

    para contribuir com um captulo sobre a evoluo da sociedade. Voc e eu

    certamente esperaramos, como os nossos predecessores de um sculo atrs,

    que o captulo fizesse a alegao de que a vida social caracterizada por um

    processo irreversvel de crescimento e desenvolvimento, no diferente daquele

    do organismo individual. Convencido como estou de que a vida social

    integrante ao movimento total da vida orgnica, em vez de conduzido em um

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    nvel superior de existncia, poderia ter apresentado a vocs uma proposta

    para uma nova sntese sociobiolgica. A biologia que mostraria, entretanto, no

    seria parte da teoria da