A EVOLUÇÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS NO BRASIL: UMA ?· setembro 1822, houve a proclamação da independência…

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  • A EVOLUO DOS DIREITOS POLTICOS NO BRASIL: UMA BREVE ANLISE

    DO PERODO COLONIAL AOS DIAS ATUAIS1

    Enver Souza Lima2

    RESUMO: Este trabalho apresenta uma anlise sobre a evoluo dos direitos polticos do

    Brasil desde o perodo colonial at as ltimas reformas eleitorais nos dias atuais. O pas

    passou por longos perodos de instabilidade dos direitos polticos, ocorrendo constantes

    progressos e retrocessos, mudanas que moldaram o nosso sistema eleitoral atual. Durante

    esse percurso evolutivo a sociedade lutou por seus direitos polticos, consequentemente por

    sua participao na conduo da coisa pblica, seu direito de votar e ser votado. Assim,

    buscar-se- desenvolver uma breve anlise acerca da importncia dos direitos polticos, da sua

    evoluo e das reformas eleitorais atuais.

    Palavras-chave: Direitos polticos; evoluo; sistema eleitoral; mudanas; reformas polticas.

    ABSTRACT: This paper presents an analysis of the evolution of the political rights of Brazil

    from the colonial period to the last electoral reforms in the present day. The country has gone

    through long periods of political rights instability, with constant progress and setbacks,

    changes that shaped our current electoral system. During this evolutionary course the citizen

    fought for his political rights, consequently by their participation in the conduct of the public

    thing, your right to vote and to be voted. Thus, a brief analysis will be developed on the

    importance of political rights, of its evolution and of the current electoral reforms

    Key-words: Rights policy; evolution; electoral system; changes; political reforms.

    Sumrio: Introduo. 1) Contexto histrico; 1.1) Perodo colonial; 1.2) Perodo Imperial; 1.2)

    Perodo Republicano; 1.3.1) Perodo ditatorial (1937-1945); 1.3.2) Perodo ditatorial (1964

    1985); 1.4) Nova repblica; 2) Direitos Polticos; 2.1) Relao entre os Direitos Polticos e os

    Direitos Fundamentais; 2.2) Classificao dos direitos polticos; 2.2.1) Direitos polticos

    positivos: sufrgio, plebiscito e referendo; 2.2.2) Direitos polticos negativos: inelegibilidade,

    perda e suspenso; 3) Reformas eleitorais; 3.1) Governo Lula; 3.1.1) Minirreforma eleitoral

    de 2006; 3.1.2) Minirreforma eleitoral de 2009; 3.2) Governo Dilma; 3.2.1) Minirreforma

    eleitoral de 2013; 3.2.2) Minirreforma eleitoral de 2015; Consideraes finais.

    1 Trabalho de Concluso de Curso (TCC) apresentado ao Curso de Direito/CERES/UFRN como exigncia

    parcial para a obteno do bacharelado em Direito, sob a orientao do Prof. Dr. Ubirathan Rogerio Soares. 2 Acadmico do Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

  • 2

    INTRODUO

    Os direitos polticos sempre fizeram parte do cotidiano da humanidade. Desde os

    primrdios da existncia humana, surgiu a necessidade de as pessoas fazerem escolhas e

    tomarem decises coletivas acerca de assuntos que envolviam os seus vilarejos, cidades ou

    aldeias.

    Porm, apesar de sempre fazer parte da vida em sociedade, tais direitos sempre

    desencadearam tenses e conflitos entre seus detentores. Especificamente no caso brasileiro,

    para que os direitos polticos fossem implantados no ordenamento jurdico ptrio, houveram

    lutas, progressos e regressos em prol do fortalecimento da democracia, sendo possvel a

    participao do cidado de maneira ativa, direta ou indireta da administrao pblica.

    A legislao eleitoral do Brasil passou por mudanas significativas durante os

    ltimos anos, reformas cujo o objetivo melhorar o sistema eleitoral nacional. A mudana

    mais recente foi em decorrncia da publicao da Lei n 13.165, em vigor desde o dia 29 de

    setembro de 2015 e aplicada pela primeira vez nas eleies municipais de 2016, que de

    acordo com seu texto, visa reduzir os custos das campanhas eleitorais, simplificar a

    administrao dos Partidos Polticos e incentivar a participao feminina.

    O presente estudo pretende, com base em uma metodologia de pesquisa

    bibliogrfica, gerar um estudo acerca da evoluo dos direitos polticos no pas, desde sua

    origem no perodo colonial at os dias de hoje. Para tanto, se faz necessria a explanao dos

    direitos polticos, fazendo a classificao destes, bem como esclarecer a ao das reformas

    eleitorais mais recentes no Brasil. Tais objetivos sero alcanados atravs de estudo associado

    prpria histria do Brasil, como tambm das diretrizes constitucionais, das normas

    infralegais e dos posicionamentos doutrinrios sobre o tema sob anlise.

    A estruturao do presente trabalho foi organizada da seguinte forma: no primeiro

    captulo, ser apresentada a evoluo histrica dos direitos polticos no mbito interno; j no

    segundo captulo, sero abordadas as peculiaridades acerca dos direitos polticos como parte

    dos direitos fundamentais; e por fim, no terceiro captulo, apresentar de maneira sucinta as

    reformas eleitorais articuladas durante os dois ltimos governos.

    Justifica-se o trabalho na necessidade de fazer um estudo doutrinrio, histrico e

    conceitual acerca da importncia dos direitos polticos na vida dos cidados brasileiros e o

    estudo das mais recentes reformas eleitorais, a ttulo de conhecimento do leitor.

  • 3

    1. CONTEXTO HISTRICO DOS DIREITOS POLTICOS NO BRASIL

    possvel afirmar que na atualidade vivemos uma fase em que os direitos

    polticos esto cada vez mais perto do ideal para garantir a soberania popular e a democracia,

    expressas na Constituio Federal de 1988. Porm, para que essa realidade se tornasse

    possvel, passamos por uma longa evoluo, que se iniciou nos primrdios do descobrimento

    do pas.

    A seguir, faremos um apanhado histrico do surgimento dos direitos polticos no

    Brasil, para assim compreender as razes de seu surgimento, analisar a influncia das

    transformaes para melhor compreender a realidade atual.

    1.1 PERODO COLONIAL (1500 1822)

    A primeira eleio no Brasil ocorreu em 23 de janeiro de 1532 e aconteceu de

    forma indireta na Vila de So Vicente, que era a sede da capitania hereditria de So Vicente,

    atual So Paulo. Seu objetivo principal era escolher o conselho administrativo da vila e

    somente seria disputada pelos chamados homens bons, que era uma expresso utilizada na

    poca para se referir a pessoas que tinham propriedades, bens ou fossem de famlias

    tradicionais. Outra regra da primeira eleio, era a proibio de autoridades do Reino nos

    locais de votao, para que no influenciasse o voto.

    Faoro3 (2001, p. 214), define bem os critrios de escolha dos homens bons:

    Na verdade, o escopo ntimo da superioridade institucional do homem bom ser o

    mesmo que inspira os conselhos portugueses: inscrever os proprietrios e burocratas

    em domiclio na terra, bem como seus descendentes, nos Livros da Nobreza,

    articulando-os, desta sorte, na mquina pblica e administrativa do imprio.

    Durante todo o perodo colonial as eleies tinham um carter local e municipal,

    sendo regidos pelo livro das ordenaes, uma legislao de Portugal, produzido no ano de

    1603. A ampliao das eleies para o mbito nacional surgiu em 1821, um ano antes da

    proclamao da independncia, e pode-se dizer que foi nossa primeira eleio nacional de

    acordo com os moldes atuais.

    Apresentando uma anlise mais precisa de como funcionaram as primeiras

    eleies em mbito nacional, Porto 4(2002, p.23 e 24) definiu que:

    3 FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formao do patronato poltico brasileiro. 3 ed. So Paulo: Globo,

    2001.

  • 4

    As Cortes de Lisboa eram uma assembleia constituinte com representantes do clero,

    nobreza e povo que culminaram com a aprovao da Constituio portuguesa de

    1822. Para a designao dos deputados para as Cortes, o processo eleitoral consistia

    numa complexa eleio em quatro graus para formao de juntas eleitorais de

    parquia, de comarca e de provncia. As primeiras se comporiam de todos os

    cidados da parquia que elegeriam onze compromissrios, e estes elegeriam o

    eleitor paroquial; as juntas de comarca se comporiam dos eleitores da parquia que

    elegeriam os eleitores de provncia que elegeriam os deputados de Cortes.

    Na ausncia de uma legislao eleitoral brasileira, utilizaram a Constituio

    Espanhola para reger o pleito, que trazia algumas novidades, como a possibilidade do

    analfabeto votar. Nesse pleito, 72 representantes do povo foram eleitos por homens livres.

    Algumas das instrues das eleies de 1821, apresentavam um sistema dividido

    em quatro graus: o povo, em massa, escolhia os compromissados; estes, escolhiam os

    eleitores de parquia, que, por sua vez, escolhiam os eleitores de comarca; finalmente, estes

    ltimos procediam eleio dos deputados. (FERREIRA 2005)5.

    Podemos assim concluir que as eleies no perodo colonial careciam da vontade

    da populao brasileira, devido ao total controle que as classes dominantes e religiosas tinham

    perante o eleitorado, baseando-se nas regras eleitorais europeias. Vejamos adiante a

    continuao da evoluo dos direitos polticos no Perodo Imperial.

    1.2 PERODO IMPERIAL (1822 1889)

    No ano posterior s primeiras eleies gerais da histria do pas, no dia 07 de

    setembro 1822, houve a proclamao da independncia do Brasil pelo ento prncipe regente

    Dom Pedro I. Sendo que em 03 de junho de 1822, o prncipe regente j estava convencido de

    que a independncia do Brasil de fato ocorreria naquele ano e, logo, fez a convocao de uma

    Assembleia Constituinte com o objetivo de elaborar uma Constituio para o novo Estado

    Soberano.

    A partir da Assembleia Constituinte alguns ideais foram estabelecidos em relao

    aos direitos polticos, um deles foi o voto censitrio, que seria o voto permissionrio a pessoas

    que possussem uma renda anual equivalente a 150 alqueires de farinha de mandioca ou fosse

    4 PORTO, Walter Costa. O voto no Brasil. Da Colnia 6 Repblica. 2 ed. Rio de Janeiro: Topbooks Editora,

    2002. 5 FERREIRA, Manoel Rodrigues, A evoluo do sistema eleitoral brasileiro. 2 ed. Tribunal Superior

    Eleitoral, 2005.

  • 5

    dono de grandes quantidades de terras. Devido a tal peculiaridade, o projeto passou a ser

    conhecido como Constituio da Mandioca (ARRUDA, PILETTI, 2001)6.

    A diviso dos poderes proposta pela Assembleia Constituinte contrariou os

    interesses de Dom Pedro I devido a predominncia do poder legislativo sobre o executivo,

    limitando o seu poder e desafiando as suas pretenses absolutistas. Tal fato o incentivou a

    dissolver da Assembleia Constituinte com o apoio militar, gerando o acontecimento

    conhecido como a Noite da Agonia.

    Em sua obra a evoluo constitucional do Brasil, Paulo Bonavides (2004, p.

    385)7, apresenta como foi a dissoluo da Assembleia Constituinte:

    Em 1823, o confronto dos dois poderes, em face da insubmisso do poder

    constituinte de direito, provocou uma coliso aberta e ostensiva, que teve por

    desfecho a queda da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa, dissolvida pela

    tropa sob o comando pessoal de D. Pedro I, e, a seguir, a outorga da Carta do

    Imprio

    Aps a dissoluo da Assembleia, D. Pedro I convocou seis ministros e quatro

    polticos de sua confiana para redigir junto com ele a nova Constituio Brasileira, que foi

    outorgada em 25 de maro de 1824, com o intuito de garantir o seu poder de imperador.

    Algumas das caractersticas da nova Constituio eram: a concentrao do poder nas mos do

    imperador, atravs do poder moderador, a excluso da maioria da populao brasileira do

    direito de votar, pois apenas o eleitor rico que comprovasse determinada renda teria esse

    direito, a criao do conselho de estado, onde os representantes eram escolhidos pelo

    imperador.

    O artigo 98 da Constituio do Imprio do Brasil de 1924, estabelecia nitidamente

    as caractersticas da constituio, cujo objetivo era concentrar o poder nas mos do imperador.

    Vejamos:

    Art. 98. O Poder Moderador a chave de toda a organisao Politica, e delegado

    privativamente ao Imperador, como Chefe Supremo da Nao, e seu Primeiro

    Representante, para que incessantemente vele sobre a manuteno da Independencia,

    equilibrio, e harmonia dos mais Poderes Politicos.

    Durante todo o perodo de imprio e colnia as fraudes eleitorais eram frequentes,

    pois alm de no haver uma fiscalizao eficiente eram permitidas aes que facilitavam as

    6 ARRUDA, Jos Jobson de A.; PILLETI, Nelson. Toda a Histria: Histria Geral e Histria do Brasil, 2001.

    11 edio. So Paulo: tica. 7 BONAVIDES, Paulo. A evoluo constitucional do Brasil. Estudos Avanados, So Paulo, v. 14, n. 40,

    p.155-176, 2000.

  • 6

    alteraes dos resultados. Uma das principais fraudes eleitorais decorreu da possibilidade do

    voto por procurao, onde pessoas no compareciam aos locais de votao e enviavam um

    representante munido de um instrumento de procurao para exercer o seu direito de voto.

    Alm disso no existia na poca ttulo eleitoral, as pessoas eram reconhecidas

    pelos integrantes da mesa apuradora e por testemunhas, o que facilitava a ao dos

    fraudadores, que contabilizavam votos de mortos, crianas e eleitores de outras cidades.

    O ano de 1881 trouxe grandes mudanas no sistema poltico da poca, nele foi

    institudo o Decreto n 3.029 de 9 de janeiro, conhecido como Lei Saraiva, em homenagem

    ao ento Ministro do Imprio Jos Antnio Saraiva. Tal Decreto trouxe considerveis avanos

    para as eleies nacionais, quais sejam: a instituio do ttulo de eleitor, eleies diretas para

    todos os cargos eletivos do imprio e possibilidade de um candidato no catlico disputar o

    pleito.

    Apesar dos avanos que proporcionou, o Decreto recebeu fortes crticas por seguir

    um carter de excluso social. Segundo Porto 8(2002, p. 100):

    O que se esperava com a eleio direta, segundo Rui Barbosa, que se exclusse o

    capanga, o cacetista, o biju, o xenxm, o bem-te-vi, o morte-certa, o c-te-espero, o

    mendigo, o analfabeto, o escravo, todos esses produtos da larga misria social, para

    abrir margem ao patriotismo, ilustrao, independncia, fortuna, experincia.

    A Lei Saraiva apresentou retrocessos ao impedir que os analfabetos exercessem o

    seu direito de voto, e ao condicionar a candidatura dos no catlicos que possussem renda

    inferior a duzentos mil reis. Mais uma vez, seguindo a caracterstica do perodo colonial, a

    legislao eleitoral era voltada para a manuteno da realidade social existente e respectivas

    injustias sociais, visto que exclua da vida poltica do pas parcela significativa da sociedade

    por critrios pautados no poder econmico dos indivduos.

    1.3 PERODO REPUBLICANO (1889 1930)

    Em 1891 foi promulgada a Constituio da Repblica dos Estados Unidos do

    Brasil, a primeira constituio republicana da histria do pas, tendo como principais

    contribuies as grandes modificaes no regime poltico e jurdico. A construo desta Carta

    8 PORTO, Walter Costa. O voto no Brasil. Da Colnia 6 Repblica. 2 ed. Rio de Janeiro: Topbooks

    Editora, 2002.

  • 7...

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