a evicÇÃo no contexto da fraude contra .a evicÇÃo no contexto da fraude contra credores e fraude

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A EVICO NO CONTEXTO DA FRAUDE CONTRA CREDORES E FRAUDE

EXECUO E OS RISCOS IMPUTADOS AO ADQUIRENTE DE IMVEL1

Fabrcio Pedroso Cardoso2

SUMRIO:1 INTRODUO; 2 PROPRIEDADE E EVICO, 2.1 PROPRIEDADE, 2.2 FORMAS DE AQUISIO DE BEM IMVEL, 2.3 EVICO; 3 FRAUDE CONTRA CREDORES E FRAUDE EXECUO; 3.1 FRAUDE CONTRA CREDORES, 3.2 RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL, 3.3 FRAUDE EXECUO; 4. A BOA-F NA FRAUDE CONTRA CREDORES E NA FRAUDE EXECUO, 4.1 A BOA-F NA FRAUDE CONTRA CREDORES, 4.2 A BOA-F NA FRAUDE EXECUO E A LEI 13.097/2015; 5 CONCLUSO; REFERNCIAS.

RESUMO: A evico consiste na perda total ou parcial do bem em decorrncia de sentena que reconhece o direito real outra pessoa, em razo de negcio jurdico anterior. A fraude contra credores defeito do negcio jurdico e a fraude execuo ato atentatria dignidade da justia, sendo que ambos os institutos visam proteger o credor de condutas maliciosas do devedor. O adquirente deve promover diligncias para tornar sua boa-f inconteste, evitando incidir nas referidas fraudes e sofrer os efeitos da evico. A smula 375 do STJ dispe que para o reconhecimento da fraude execuo dever existir o registro da penhora ou a prova de m-f do terceiro adquirente. Assim, em analisar o sistema vigente antes do Novo Cdigo de Processo Civil e da Lei 13.097/2015 pode-se concluir que o nus da prova da m-f era do credor, m-f que poderia ser provada por meios diversos caso inexistente o registro na matrcula. Essas leis transmitem a ideia equivocada de que no estando na matrcula a situao no oponvel ao adquirente de imvel. Na verdade a m-f continua podendo ser comprovada por meio diverso, em determinados casos. O que se tentou normatizar j estava operante no sistema jurdico. O Juspositivismo o referencial terico adotado no presente estudo, que aborda institutos conexos ao tema e aponta a possibilidade de alcance das alteraes legislativas, delimitando alguns dos pontos controvertidos. Esclarece os riscos do adquirente nesse contexto, sem contudo esgotar o tema, que ainda carece de doutrina e jurisprudncia.

PALAVRAS-CHAVES: evico, propriedade imobiliria, fraude, boa-f.

ABSTRACT: Eviction consists on the total or partial loss of the asset due to the sentence that recognizes the right in rem to another person because of previous legal business. Fraud against creditors is a flaw of the legal business and fraud enforcement detrimental act to the dignity of justice, and both institutes aim to protect

1Trabalho de Concluso de Curso apresentado como requisito parcial obteno do grau de

Bacharel em Direito, do Curso de Direito da Faculdade do Norte Novo de Apucarana FACNOPAR. Orientao a cargo do Prof. Esp. Paulo Rossano dos Santos Gabardo Jnior. 2 Acadmico do Curso de Direito da Faculdade do Norte Novo de Apucarana FACNOPAR. Turma

do primeiro semestre do ano de 2012. E-mail para contato: cardoso.1979@gmail.com.

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the creditor of the debtor malicious conduct. The acquirer must take such steps to make your undoubted good faith, avoiding focus in the referred fraud and suffering the effects of eviction. A summary of the 375 Supreme Court establishes that the recognition of the fraud enforcement should be the record of the attachment or evidence of in bad faith acquiring third part. The analysis of the current system before the New Civil Procedure Code and Law 13,097/2015 concludes that the burden of proof of bad faith must be taken by the creditor, bad faith that could be proved by means many not constant case in enrollment. The Acts conveys the misguided idea that not being in registration the situation is not enforceable against the acquirer. In fact bad faith can still be certified,in certain cases,by diverse means and what it attempted regulate had already been functioning in the legal system. The Juspositivism is the theoretical framework adopted in this study, which addresses related institutes to the subject and points to the possibility range of legislative changes, outlining some of the controversial points. Clarifies the risk of the purchaser in this context, without exhausting the subject, which still lacks doctrine and jurisprudence.

KEY-WORDS: Eviction, Landproperty, Fraud, Good Faith.

1 INTRODUO

A evico consiste na perda de direito real sobre a coisa, em razo

de sentena judicial que reconhece o direito anterior de outra pessoa.O direito de

propriedade previsto na Constituio da Repblica Federativa do Brasil de 1988

como sendo fundamental e evoluiu a partir da, adequando-se ao princpio da funo

social da propriedade, adquirindo sentido menos individualista e absoluto.

O dano causado ao adquirente evicto, sendo ele detentor de boa-f,

vai alm da perda da coisa, atentando contra sua paz. Os litgios nos quais se

discute a evico e posteriormente se busca a tutela jurisdicional, notoriamente

morosa no Brasil, para responsabilizao do alienante e reparao do dano, so

caminhos longos, rduos e incertos, notadamente na rida seara dos contumazes

fraudadores. Disseminar boas prticas, por meio da prvia anlise do sistema legal,

importante para que as reflexes acerca do tema sejam melhor fundamentadas.

O estudo da fraude contra credores e da fraude execuo,contexto

no qual se insere a boa-f e a m-f do adquirente, vital para a compreenso da

evico, sendo que as mudanas legislativas ocorridas recentemente, mais

precisamente com o advento do Novo Cdigo de Processo Civil e da Lei

13.097/2015, alteraram o panorama dos referidos institutos, porm, nem tanto como

a interpretao literal sugere, tendo em vista, ainda, entendimento que j estava

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consagrado na smula 375 do STJ, que dispe que o reconhecimento da fraude

execuo depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de

m-f do terceiro adquirente.Desta forma, o novel regramento pode confundir

alguns, como j o fez, pois a partir de uma interpretao literal e no sistemtica, a

ideia que se tem de que se no averbadas na matrcula as situaes descritas na

lei, elas nunca sero oponveis ao adquirente. Porm, sendo o adquirente de m-f,

ou seja, tendo cincia de que sobre o bem havia situao jurdica que poderia afetar

o negcio, plenamente possvel que em determinadas hipteses, sob a tica de

uma interpretao mais apurada, mesmo no averbada a informao na matrcula

do imvel, o ato jurdico precedente alcance aquele negcio com a comprovao da

m-f de forma diversa do registro pblico. Divergncias doutrinrias j

despontaram.

So objetivos do presente trabalho, portanto, a anlise da evico

imobiliria, da fraude contra credores e da fraude execuo, no contexto da

recente legislao, com o fim de descrever as alteraes ocorridas e abordar as

controvrsias existentes. Primeiramente so descritos alguns elementos da

propriedade do bem imvel, as suas formas de aquisio e negcios jurdicos que

possam envolv-lo nas fraudes em estudo, e por conseguinte na evico. A fraude

contra credores no apresenta controvrcias a serem tratadas e seuestudo

necessrio compreenso da fraude execuo.No soabordadas as relaes

nas quais o Estado e as pessoas jurdicas de direito pblico figuram, ante as

prerrogativas prprias do regime jurdico-administrativo.Da mesma forma, por

merecer foco especfico, tambm no sopostas em anliseas relaes de

consumo.

2 PROPRIEDADE E EVICO

Primeiramente necessrio esclarecer o significado e a extenso de

alguns institutos do Direito das Coisas, tambm denominado como Direito Real.

2.1 PROPRIEDADE

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O conceito de propriedade encontra-se insculpido no art. 1.228 do

Cdigo Civil Brasileiro Flvio Tartuceo delineia da seguinte forma:

A partir de todas essas construes, pode-se definir a propriedade como direito que algum possui em relao a um bem determinado. Trata-se de um direito fundamental, protegido no art. 5., inc. XXII, da Constituio Federal, mas que deve sempre atender a uma funo social, em prol de toda a coletividade. A propriedade preenchida a partir dos atributos que constam do Cdigo Civil de 2002 (art. 1.228), sem perder de vista outros

direitos, sobretudo aqueles com substrato constitucional (2016, p. 954).

A propriedade um instituto jurdico que bastante reflete o momento

histrico da sociedade. Conforme se extrai do trecho acima, a funo social da

propriedade (da coletividade, portanto) e os direitos fundamentais so hoje melhor

considerados para fins de relativizao da ideia de propriedade.

A propriedade era revestida de individualismo no direito romano,

sendo que na Idade Mdia passou por fase peculiar, na qual havia uma dualidade de

sujeitos: o dono e a pessoa que explorava economicamente o imvel, este pagando

quele pela utilizao. O sistema hereditrio garantia a permanncia do domnio do

bem nas mos de determinada famlia, de forma que esta no perdesse poder no

contexto poltico. Posteriormente Revoluo Francesa, a propriedade assumiu

contornos marcadamente individualistas, entretanto, no sculo passado o carter

social da propriedade ganhou relevo, sendo que a Constituio Federal dispe sobre

o atendimento, pela propriedade, de sua funo social (art. 5, XXIII) e tambm

impe a observncia dessa funo social pela ordem econmica, impondo limites

atividade empresarial (art. 170, III). Na mesma esteira so as disposies do Cdigo

Civil de 2002, no art. 1.228, que, inclusive, inovou o sistema jurdico ptrio com base

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