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VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 1 A Etnografia no Estudo Turismo sob a Perspectiva Antropolgica Rosana Eduardo da Silva Leal1 Resumo A principal finalidade do artigo refletir sobre o papel do trabalho de campo antropolgico para o estudo do turismo, tendo como foco de discusso a etnografia. Para tanto, tratar inicialmente do processo de consolidao e legitimao do mtodo na Antropologia para, posteriormente, focalizar suas contribuies nos estudos da dinmica turstica em territrios, culturas e deslocamentos. Partimos do pressuposto de que a etnografia permite ao pesquisador vivenciar, participar e ser afetado pela rotina e dinmica local, possibilitando um registro detalhado e sistematizado do contexto pesquisado. Alm disso, tal recurso pode abarcar contextos ocidentais e no-ocidentais, urbanos e rurais, tradicionais e modernos, produzindo uma diversidade de olhares sobre os lugares e prticas tursticas. Por isso, conforme Pereiro (2010), o mtodo pode ser utilizado como uma ferramenta de relativizao cultural no mbito turstico, na medida em que estuda os fatos em seu prprio contexto sociocultural, sob o ponto de vista nativo. Trata-se de um modo de investigao capaz de trazer tona lugares, prticas, indivduos, grupos, culturas e redes de relao sociais, que participam diferentemente do mercado turstico. Palavras-chave: Pesquisa de campo antropolgica. Turismo. Etnografia O trabalho de campo antropolgico No fim do sculo XIX, a produo do conhecimento antropolgico estava intrinsecamente vinculada aos viajantes da poca. Naquele perodo, as investigaes eram produzidas atravs de subdivises de funes e tarefas que envolviam as figuras do observador, do pesquisador e do pesquisado. O trabalho de observao in loco e coleta de dados era realizado por viajantes, missionrios e administradores que, posteriormente repassavam o material de pesquisa aos antroplogos situados nas metrpoles, responsveis por analisar e interpretar os dados em seus respectivos gabinetes. 1 Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco. Docente do curso de Turismo da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: rosanaeduardo@yahoo.com.br VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 2 Neste perodo, nada poderia garantir o status do antroplogo como intrprete de culturas exticas em relao ao viajante, ao missionrio e ao administrador. Tal legitimao s ocorreu a partir de Malinowski, que desempenhou papel fundamental na construo da autoridade etnogrfica, na medida em que produziu uma ruptura metodolgica ao defender a sada dos pesquisadores de seus gabinetes em busca do compartilhamento da intimidade dos pesquisados. Assim, com a institucionalizao do trabalho de campo, a necessidade de diferenciar o conhecimento etnogrfico das informaes registradas por outros viajantes se fez cada vez mais presente, como estratgia de consolidao da investigao antropolgica. A viagem passou a fazer parte da pesquisa etnogrfica, servindo como meio de acesso ao campo e envolvendo circunstncias nem sempre fceis e tranqilas para os pesquisadores. Desde ento, tais deslocamentos transformaram-se em um ritual de passagem, cuja funo era a imerso total na cultura pesquisada, legitimando o sentido do estar l. O trabalho de campo tornou-se um habitus dos antroplogos, resultante de um conjunto de disposies e prticas corporais, cujo corpo normativo logo buscou diferenciar-se das observaes empreendidas pelas expedies ou viagens de reconhecimento. E por isso, qualquer tipo de parentesco ou semelhana com as narrativas de viagem passou a ser renegada, j que estas passaram a ser sinnimo de anlises romnticas, literrias e superficiais que traduziam as emoes, frustraes e toda sorte de experincias pessoais vividas pelos escritores. A imerso no campo transformou-se em um elemento identitrio da disciplina, tornando-se sinnimo de prtica cientfica de aprendizagem profunda, prolongada e intensiva, pautada no ideal de residncia temporria em um campo espacialmente delimitado. Sendo assim, no sculo XX, partir em direo a territrios longnquos em busca de conhecimentos sobre os modos de vida de povos exticos tornou-se uma experincia profissional quase sagrada para os antroplogos, vivenciada e difundida por pesquisadores como Malinowski, Franz Boas, Margaret Mead, Geertz e tantos outros. Longe de ser considerado como um conhecimento secundrio, o trabalho de campo passou a ser visto como a base da pesquisa antropolgica. E desde ento, distanciou-se do modelo investigativo anterior, passando a reunir as figuras do terico e do observador em um mesmo indivduo, ou seja, o antroplogo. Tal pensamento produziu o nascimento da etnografia profissional, que passou a servir como artifcio metodolgico que promoveu o VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 3 encontro intersubjetivo entre o pesquisador e o campo de estudo, aproximando as teorias dos objetos investigados. O trabalho de campo tornou-se fundamental para a orientao deste entendimento, na medida em que possibilitou o dilogo entre os conceitos tericos acumulados e a realidade pesquisada. O mtodo tornou-se uma experincia direta do mundo social, em que o etngrafo, ou a etnografia, participa, abertamente ou de maneira encoberta, da vida cotidiana de pessoas durante um tempo relativamente extenso, vendo o que passa, escutando o que se diz, perguntando coisas; ou seja, recorrendo todo tipo de dados acessveis para poder lanar luz aos temas que ele ou ela elegeu estudar (HAMMERSLEY; ATKINSON, 1994, p. 15). Ningum antes de Malinowski havia se esforado tanto em penetrar na realidade de povos pesquisados, ensinando vrias geraes de antroplogos a olhar, escrever e restituir as cenas da vida cotidiana, transformando a Antropologia (...) numa das disciplinas mais profundamente filosficas, esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa cientfica (DA MATTA, 1987, p. 144). Para Malinowski, qualquer sociedade deveria ser estudada em sua totalidade no momento em que foi observada, sendo necessrio observar fatos aparentemente minsculos e sem importncia, como meio fornecedor da compreenso do todo de uma dada sociedade estudada. Conforme Peirano (1991), a antropologia talvez seja a mais artesanal e ambiciosa das disciplinas das cincias sociais, justamente por no prender-se a grandes teorias nem arcabouos tericos. O conceito nativo ajuda a refletir e repensar os conceitos antropolgicos, servindo tambm para reavaliar as categorias existentes. Por isso, a Antropologia no pode ser reproduzida como uma cincia com paradigmas estabelecidos. Esta precisa ser considerada pela maneira peculiar de ligar teoria e pesquisa, uma vez que o estranhamento experimentado diante do contato com o outro o momento em que se d a auto-reflexo e o confronto com o arcabouo terico. De acordo com Geertz (1978), a importncia da etnografia est na sua complexidade que permite atualizar as teorias na medida em que so observadas na prtica. Tal mtodo est pautado na imerso no campo investigado em que o pesquisador vivencia, participa e afetado pela rotina e dinmica sociocultural local, possibilitando um registro detalhado e sistematizado de prticas e interaes sociais que ocorrem no cotidiano pesquisado. Para VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 4 tanto, utiliza-se de uma extensa variedade de fontes de informao, utilizando-se para isso uma gama de tcnicas de pesquisa (observao participante, aplicao de questionrios, anlise de arquivos, entrevista, histria de vida, gravao udio-visual, pesquisa documental e bibliogrfica). O trabalho de campo antropolgico no consiste apenas em coletar informaes, mas de impregnar-se do contexto social pesquisado, como estratgia de conhecimento sobre a cultura estudada. Neste mbito, o pesquisador precisa compartilhar da vida social dos indivduos ou grupos estudados (...) de modo artesanal e paciente, dependendo essencialmente de humores, temperamentos, fobias e todos os ingredientes das pessoas e do contato humano (DA MATTA, 1978, p. 27). Por isso, como esclarece Peirano (1992, p. 09) (...) no h como ensinar a fazer pesquisa de campo como se ensina, em outras cincias sociais, mtodos estatsticos, tcnicas de surveys, aplicao de questionrios. Na Antropologia a pesquisa depende, entre outras coisas, da biografia do pesquisador, das opes tericas da disciplina em determinado momento, do contexto histrico mais amplo e, no menos, das imprevisveis situaes que se configuram no dia-a-dia no local da pesquisa, entre pesquisador e pesquisados. Nas palavras de Da Matta, o ofcio do antropolgico est diretamente vinculado ao concreto, ao especfico. Trata-se de um modo de enxergar, perceber, estudar, classificar, interpretar, a partir de um conhecimento terico-intelectual sustentado por uma experincia pessoal, existencial e prtica que pode proporcionar uma viso holstica. Desse modo, as experincias vividas pelos pesquisadores constituem elementos importantes no processo investigativo, j que estes se tornam participantes dessa investigao (HAMMERSLEY; ATKINSON, 1994, p. 32). Como esclarece Peirano (1992), a pesquisa de campo revela no ao pesquisador, mas no pesquisador o resduo incompreensvel, porm significativo, entre os dados repassados pelos informantes e a observao do etngrafo. O que demonstra que, as impresses resultantes da experincia de campo no so apenas recebidas pelo intelecto, mas exercem um impacto na personalidade do pesquisador, fazendo com que diferentes culturas se comuniquem na experincia singular de uma nica pessoa. VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 5 O mtodo etnogrfico no estudo do turismo Aps a Segunda Guerra Mundial, as ex-colnias situadas no Caribe, frica e sia foram aconselhadas a assimilar o turismo como atividade econmica local, constituindo-se como fonte de gerao de divisas e empregos. Os primeiros estudos antropolgicos sobre o turismo, iniciados em 1960, buscaram analisar justamente os impactos causados nesta relao entre as ex-colnias e os centros geradores de fluxos tursticos. As primeiras incurses etnogrficas tinham tambm como mote o processo de aculturao resultante da presena dos turistas nos respectivos territrios, sendo o livro Host and guest: the anthropology of tourism de Valene Smith emblemtico neste aspecto, principalmente por ter agrupado um conjunto de estudos etnogrficos que seguiam esta tica. Para Pinto e Pereiro (2010, p.219), desde ento as pesquisas etnogrficas tm contribudo sobremaneira para o refinamento da pesquisa qualitativa no turismo, na medida em que possibilitam uma melhor compreenso da natureza dinmica, processual e sistmica da atividade, ajudando a compreender modelos que diferem da gide do mercado turstico. Tais investigaes abarcam contextos ocidentais e no-ocidentais, urbanos e rurais, tradicionais e modernos, produzindo uma diversidade de olhares sobre os lugares e prticas tursticas. O que possibilita trazer tona realidades distintas do eixo clssico que envolve Estados Unidos e Europa justamente porque (...) os antroplogos tambm realizaram pesquisa participante entre turistas chineses, japoneses, coreanos, laosianos, indonsios, indianos, brasileiros, mexicanos e do Oriente Mdio, tanto em viagens nacionais quanto internacionais (GRABURN, 2009, p. 14). A etnografia pode ser utilizada como uma opo metodolgica que vai de encontro a modelos desumanizados, superficiais e estreis de investigao, transformando-se em uma ferramenta de relativizao cultural, na medida em que estuda os fatos em seu prprio contexto, a partir do ponto de vista nativo (PEREIRO, 2010). Alm disso, pode contribuir tambm para a compreenso dos elementos materiais e simblicos que envolvem as formas de manipulao e resistncia; bem como contrastes, conflitos e assimetrias no interior da atividade turstica. O mtodo VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 6 (...) aprofunda a relativizao dos pontos de vista culturais, das relaes recprocas inerentes a cada grupo e das diferenas estratgicas de deciso dos atores, alm de tornar possvel considerar o carter no-racional de boa parte dos comportamentos nas e das sociedades, de grupos e de instituies envolvidas (SANTANA, 2009, p. 22-23). Conforme pontua Graxiola (2008, p. 202), o olhar relativista diante do turismo desenvolveu-se, sobretudo, a partir da escola israelita de Eric Cohen, a escola francesa de Jean Didier Urbain, a corrente anglosaxnica de Daniel Boorstins, bem como os estudos empreendidos por Jost Krippendorf e John Urry. Tais correntes tericas privilegiaram anlises qualitativas e interpretativas nos estudos referentes ao planejamento turstico, s polticas pblicas, o mercado e as comunidades locais, assumindo uma dimenso holstica que evidenciam aspectos polticos, culturais, ideolgicos, econmicos e sociais. Nesta perspectiva, o outro passa a ser o turista, o hspede, as populaes indgenas, os visitantes ou anfitries (SANTANA, 2009, p.21). Nesse sentido, o trabalho de campo antropolgico possibilita dar a ver pessoas, experincias, redes sociais e sistemas de trocas, que passam despercebidos dos olhares de longe e de fora de outros modelos metodolgicos, tornando-se tambm um meio de dar voz s populaes nativas que viabilizam e protagonizam o desenvolvimento turstico em seus territrios. Tal modo de investigao capaz de recuperar e trazer tona atores, deslocamentos e redes de relao sociais, que participam diferentemente do mercado turstico, abarcando tambm fenmenos sociais no-institucionalizadas inscritos no cotidiano, como demonstra o estudo de Cohen sobre o mercado informal de pacotes tursticos em Israel e a rede de turismo sexual na Tailndia. Desse modo, a contribuio principal da antropologia para os estudos do turismo reside na conjugao da descrio etnogrfica com uma abordagem terica compreensiva, o que permite delinear um modelo metodolgico totalizador do sistema turstico com vistas a superar as vises redutoras que confinam suas mltiplas dimenses e conseqncias em cunhos limitados como setor, indstria ou negcio (PINTO; PEREIRO, 2010, p. 225). Nos estudos vinculados aos deslocamentos tursticos, por exemplo, o olhar etnogrfico pode dar visibilidade a espaos de circulao transitria que acolhem provisoriamente os que esto em trnsito, transformando interiores de meios de transportes, postos de gasolina, meios de hospedagem, rodovirias e aeroportos em importantes espaos de pesquisa, inserindo-se no VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 7 que Aug (2007) intitula de Antropologia da Mobilidade. Tais pesquisas podem privilegiar o antes, o durante e o depois da viagem e, conforme os objetivos da investigao, trabalhar com distintos instrumentos de coleta de dados. O mtodo etnogrfico pode ainda servir como recurso de apoio Antropologia Aplicada, servindo como ferramenta para a concretizao de aes, pesquisas, projetos e polticas promovidas por instituies pblicas e privadas. Alm de embasar aes de associaes no-governamentais destinadas busca de um turismo responsvel e sustentvel, tornando-se um importante auxlio no processo de planejamento. Isso porque, o planejamento do turismo tem estado, historicamente, balizado por teorias e prticas da rea administrativa e por tcnicas publicitrias e de marketing; as primeiras desenvolvendo projees futuras com base nas tendncias de mercado, e as segundas criando hbitos de consumo (BARRETTO, 2003, p.22). Na opinio de Santana (2009, p.20-21), a Antropologia Aplicada pode aproximar a academia de outros setores da sociedade, auxiliando em planos de desenvolvimento; solues de conflitos; identificao de recursos; criao de produtos e revitalizao de destinos. Trata-se de um dilogo entre o fazer e refletir que, conforme Barretto, ainda encontra-se pendente. Como indica a autora, dada escassez de estudos, ainda no parece haver um corpo suficiente de comparaes para que nosso trabalho possa ser classificado propriamente de antropologia aplicada (2006, p. 12). A abordagem etnogrfica vem sendo aplicada em estudos sobre temas como a construo e inveno de culturas; as prticas sociais entre populao local, profissionais e turistas; o marketing turstico; o papel dos mediadores (imagens, guias, agncias); a anlise dos visitantes; a presena dos turistas nas comunidades residentes; a relao entre indivduos, comunidades e instituies; a transformao dos recursos naturais e culturais em produtos tursticos e o turismo como sistema promotor de significantes culturais em mbito global (PEREIRO, 2010, p. 180-181). Na relao global-local os lugares tursticos so pensados como parte de uma estrutura transnacional perpassada por fluxos de pessoas, mercadorias, imagens, finanas e tecnologia (Appadurai, 1998), sendo o estudo comparativo utilizado (...) como um recurso para a avaliao e mesura da atividade turstica em diversos contextos empricos, notadamente com nfase nos seus efeitos na sociedade receptora (PINTO; PEREIRO, 2010, p. 222). Trata-se VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 8 de uma metodologia que serve para confrontar sociedades, costumes, instituies, prticas e modelos tursticos em reas geogrficas distintas. A pesquisa contempornea situa o desenvolvimento do turismo em relao ao nexo local-global, revelando que as repercusses das relaes ps-coloniais e as interaes decorrentes com os turistas se tornam muito mais complexas em virtude de redes intersetoriais e intermedirias, assim como os circuitos globais de capital simblico, cultural e econmico (MEETHAN, 2001; NESS, 2003 apud GRABURN, 2009, p.20). Os dados coletados em campo muitas vezes ajudam a repensar a conduo do turismo em determinados contextos estudados. Tal situao foi relatada por Pereiro (2010, p. 184) em seu estudo desenvolvido no territrio indgena Kuna Yala, situados na costa do Caribe panamenho. Trata-se de uma comunidade tradicional que vem conduzindo e controlando o desenvolvimento turstico em sua localidade, a partir de um modelo etno-ecoturstico que resiste ao paradigma do turismo de massa. Conforme explicou o autor, a referida investigao tornou-se um guia para as autoridades, associaes e negcios tursticos locais, ajudando a planejar o futuro da atividade. Isso porque, a escrita etnogrfica tambm se apresenta como um mecanismo de fixao de acontecimentos e prticas, que podero ser pesquisados e comparados posteriormente. Sendo esta uma inscrio de um discurso social repleto de significados, que poder inclusive contribuir para entender outras dinmicas culturais em outros espaos geogrficos distintos. A experincia de Edward Bruner pode ser citada como uma situao exemplar de uso da etnografia no turismo. O pesquisador, um antroplogo americano que desenvolveu estudos etnogrficos na Indonsia por alguns anos, foi contratado por uma agncia de viagem para atuar como guia de turismo na dcada de 1980, devido o seu conhecimento terico e emprico sobre a realidade local. Seu papel constituiu-se em fazer uma leitura formal e interpretativa do que havia estudado sobre o lugar e sobre as pessoas, esclarecendo os questionamentos dos visitantes e acompanhando-os nos itinerrios para transmitir informaes sobre os ambientes visitados. Os grupos que conduzia eram formados por profissionais com formao universitria, bem como americanos de classe mdia alta, com faixa etria acima de cinqenta anos. Tratava-se de experientes viajantes que, em muitos casos, j haviam participado de itinerrios tursticos nos moldes do que estava sendo proposto. VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 9 Conforme salienta Bruner (2005, p.01) trabalhar como guia transformou-se em uma ferramenta metodolgica fundamental para sua pesquisa, na medida em que pde estudar o turismo sob o ponto de vista etnogrfico, mediante sua participao integral nos itinerrios de visitao e sua interao com os grupos de turistas. Durante os passeios, Bruner estava durante todo o tempo com seus interlocutores, podendo conversar, ouvir, comer e observar os comportamentos e reaes dos participantes. E ao retornar para a casa costumava escrever suas percepes acerca dos acontecimentos vividos em campo. Para ele, sua presena entre os grupos representava uma simultnea dualidade de papis, na medida em que se situava ora como antroplogo ora como guia. Durante os percursos, havia por parte do antroplogo a necessidade em utilizar seu ofcio de guia para promover uma auto-reflexo dos participantes enquanto turistas, bem como esclarecer de que forma a indstria do turismo se faz presente no mundo contemporneo, a partir de uma leitura antropolgica crtica. Nos passeios, o pesquisador tambm promovia momentos de anlise acerca do processo de manipulao das manifestaes culturais, que eram constantemente promovidas como autnticas e transformadas em atraes tursticas. Como esclarece o respectivo autor: As danas javanesas e balinesas, bem como todas as performances culturais, eram vistas como replicas da vida num presente etnogrfico esttico, sem histria, sem agncia, sem contexto. Minha narrativa, o qual esperava compartilhar com os turistas, era examinar as atraes tursticas no pelo que elas tinham assumido para representar, mas pelo que elas atualmente eram2 (BRUNER, 2005, p.04). A atitude em campo do pesquisador foi uma tentativa de trazer torna, diante dos olhos dos visitantes, o processo de construo de uma autenticidade encenada na perspectiva de MacCannell (2003). Como o prprio autor explica: meu objetivo era engajar os turistas em um dilogo do qual eles pudessem pensar de maneira mais profunda sobre conceitos como tradio, cultura e representao. Eu queria que eles se tornassem mais reflexivos sobre suas experincias tursticas3 (BRUNER, 2005, p. 03). Tal interveno logo lhe causou transtornos junto empresa que havia lhe contratado, cuja alegao era de que sua postura tornara-se inadequada ao perfil de guia desejado, demitindo-o posteriormente. 2 Traduo da autora 3 Traduo da autora VII Seminrio da Associao Brasileira de Pesquisa e Ps-Graduao em Turismo 20 e 21 de setembro de 2010 Universidade Anhembi Morumbi UAM/ So Paulo/SP 10 O conflito vivido pelo pesquisador apresentou-se como modo exemplar de identificao das distintas mentalidades que constitui as concepes mercantis da indstria turstica e a viso antropolgica sobre o fenmeno. Conforme Graburn (2002) h outras barreiras na pesquisa de campo antropolgica que so decorrentes da prpria especificidade da experincia turstica. A curta permanncia dos participantes nos ambientes visitados dificulta, muitas vezes, o aprofundamento da observao etnogrfica e o esclarecimento de questes sinalizadas pelos interlocutores j que quase sempre no h a possibilidade de acesso posterior aos pesquisados, posto que estes logo se dispersam e retornam ao ambiente de origem situao que inviabiliza, em grande medida, a compreenso do papel da viagem num contexto mais amplo da vida cotidiana desses indivduos. Outro fator que podemos citar a dificuldade em acessar os indivduos durante eventos, visitas e itinerrios tursticos, pelo incmodo causado nos visitantes em ter que parar suas atividades para dar ateno aos pesquisadores, o que muitas vezes produz a indisposio dos pesquisados em ser observados, entrevistados ou fotografados. Graburn (2002) acrescenta ainda que, as mudanas que ocorrem no comportamento do turista durante a viagem alteram o estado de conscincia, distanciando-os das caractersticas pessoais cotidianas. 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