a entrevista na pesquisa cartogrfica

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  • A entrevistA nA pesquisA cArtogrficA:a experincia do dizer

    Silvia Helena TedescoI H Christian SadeII HH Luciana Vieira CalimanIII HHHI Universidade Federal Fluminense, Niteri, RJ - BrasilII Universidade Salgado de Oliveira, Niteri, RJ, Brasil

    III Universidade Federal do Espirito Santo, Vitria, ES - Brasil

    resumoO artigo visa discutir a aplicao da entrevista, seja individual ou coletiva, em pesquisa, segundo a perspectiva do mtodo cartogrfico. No indica um modelo especfico de entrevista cartogrfica, mas um ethos cartogrfico como orientao geral dos procedimentos ligados sua construo. Apoiado nos estudos da pragmtica, afirma a importncia da montagem da entrevista como experincia compartilhada, entre entrevistador e entrevistado (s), estabelecida no domnio da linguagem. A questo do manejo examinada, tendo em vista o carter de interveno recproca entre signos e mundo. A partir de algunsexemplos empricos, procedimentos e propostas so apresentadas na direo da abertura da experincia, ali em jogo, aos processos de criao de si e de mundos.

    Palavras-chave: metodologia; entrevista; mtodo da cartografia.

    the interview in the cArtogrAphy reseArch:the experience of saying

    AbstrActsThis article aims to discuss the application of the interview, whatever individual or collective, according to the cartographic method. It does not indicate a specific pattern of cartographic, but a cartographic ethos as general guidance of the procedures connected with its construction. Based on the studies of the

    H Psicloga. Possui doutorado em Psicologia (Psicologia Clnica) pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo e ps-doutorado em Anlise Institucional pela Universit de Paris 8, Vincennes-Saint Denis, Frana. atualmente professora titular do Programa de Ps-graduao em psicologia da Universidade Federal Fluminense. Endereo: Universidade Federal Fluminense, Departamento de Psicologia-GSI. Campus Gragoat, Bloco O - 2 andar - So Domingos. Niteri, RJ Brasil. CEP: 24210350.E-mail: stedesco@novanet.com.br

    HH Psiclogo. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente professor do curso de Psicologia da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e atua em projeto de pesquisa do departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense.E-mail: christiansadevas@yahoo.com.br

    HHH Psicloga. Possui doutorado e mestrado em Sade Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ps-doutorado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. professora de psicologia da Universidade Federal do Espirito Santo e do Programa de Ps-graduao em Psicologia Institucional do Departamento de Psicologia da UFES - PPGPSI.E-mail: calimanluciana@gmail.com

  • Silvia Helena Tedesco; Christian Sade; Luciana Vieira Caliman

    pragmatic, it states the importance of the structure of the interview as a shared experience between interviewer and interviewee(s) established in the field of the language. The subject of the handling is analyzed, bearing in mind the character of reciprocal intervention between signs and the world. From some empirical examples, procedures and proposals are presented indirection of opening the remarked experience to the processes of self-creation and the creation of worlds.

    Keywords: methodology; interview; method of cartography.

    As questes so fabricadas como outra coisa qualquer. Se no deixam que voc fabrique suas questes, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a voc, no tem muito o que dizer [...] o objetivo no responder a questes, sair delas [...] uma entrevista poderia ser simplesmente o traado de um devir (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 09-10).

    Duas questes se impem quando estamos imersos na prtica da pesquisa: o que buscamos com a pesquisa e como alcan-lo? Nosso propsito neste texto ser desenvolver pistas sobre encaminhamentos da cartografia para essas duas questes, analisando, em especial, procedimentos da entrevista que a permitam exercer uma funo cartogrfica. Para tal, sem desconsiderar o atravessamento recproco entre todas as pistas enunciadas sobre o mtodo da cartografia (PASSOS; KASTRUP; ESCSSIA, 2009), partiremos de trs pistas: cartografar acompanhar processos (POZZANA; KASTRUP, 2009); a cartografia como mtodo de pesquisa-interven-o (PASSOS; BENEVIDES DE BARROS, 2009); e o coletivo de foras como plano de experincia cartogrfica (ESCSSIA; TEDESCO, 2009). A articulao dessas pistas nos ajudar a pensar qual o alvo da entrevista e como atingi-lo, atendendo o objetivo principal da cartografia de pesquisar a experincia, entendida como o plano no qual os processos a serem investigados efetivamente se realizam.

    Presente na primeira dessas trs pistas est a afirmao de que a realidade a ser investigada composta de processos e no s de objetos (coisas e estados de coisas) delimitados por contornos precisos e atemporais. Tentaremos mostrar que a entrevista acompanha o movimento e, mais especificamente, os instantes de ruptura, os momentos de mudana presentes nas falas. Passamos aqui para a segunda pista citada na qual sublinhado o carter de interveno da cartografia. No caso da entrevista, como procedimento cartogrfico, comentaremos como ela pode ser capaz no s de acompanhar processos como tambm, por meio de seu carter performativo, neles intervir, provocando mudanas, catalisando instantes de passagem, esses acontecimentos disruptivos que nos interessam conhecer. E, tomando a direo da terceira pista escolhida, segundo a qual os processos e suas transformaes consistem em foras cuja condio de possibilidade e efeitos sur-gem do plano coletivo, indicaremos ser a experincia, presente nesse plano de coengendramento entre pesquisador e campo problemtico, o principal objetivo da entrevista. Sem eliminar outros dispositivos, proporemos a entrevista como ferramenta eficaz na construo e acesso ao plano compartilhado da experincia.

    300 Fractal, Rev. Psicol., v. 25 n. 2, p. 299-322, Maio/Ago. 2013

  • A entrevista na pesquisa cartogrfica: a experincia do dizer

    Vale sublinhar que no indicamos um modelo de entrevista cartogrfica. Isto por dois motivos. Em primeiro lugar, falamos de entrevista na cartografia, pois a eficcia da entrevista na pesquisa dos processos est estreitamente ligada ao ethos cartogrfico que seria praticado, no apenas na entrevista, mas em toda a pesquisa, desde a construo inicial do campo problemtico narrativa utilizada no relatrio final. No entanto, cabe comentar alguns procedimentos pelos quais esse ethos comparece especificamente na entrevista. Como veremos, no existe entrevista cartogrfica, mas manejo cartogrfico da entrevista. Em segundo lugar, no falamos de uma tcnica fechada, de um mtodo soberano, mas de um ethos, a partir do qual escolhas tm lugar face s caractersticas de cada situao. Ou seja, o mtodo pensado na inverso do seu sentido etimolgico. Ao rachar a palavra mtodo ou met-hdos, percebemos que hdos (caminho) vem depois e inteira-mente condicionado pela met que o antecipa e o predetermina. Porm, pensemos no mtodo como hdos-met como uma aposta na experimentao do pensa-mento um mtodo no para ser aplicado, mas para ser experimentado (PAS-SOS; KASTRUP; ESCSSIA, 2009, p. 10). Ao mesmo tempo, lembremo-nos dos procedimentos metodolgicos presentes em nossas prticas (TEDESCO, 2008). Nestes tambm falamos de mtodos, de estratgias preferenciais. E ali tambm tomamos o cuidado de sublinhar, nessas posturas reiteradas, seu carter faculta-tivo e provisrio. No caso do mtodo e dos procedimentos, trata-se bem mais do compartilhamento de certa direo, de sugestes sobre modos de agir dirigidos instalao de graus de abertura indeterminao (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 217) e que, na nossa proposio, funciona como um conjunto aberto de pistas que servem para sugerir encaminhamentos, mas tambm para serem equivocadas, expostas como matria intensiva, como fragmentos reutilizveis nos ritornelos de criao. O cartgrafo no varia de mtodo, mas faz o mtodo variar.

    o que buscAmos com A entrevistA nA cArtogrAfiA?

    Como dissemos, a entrevista no visa objetos fixos, ou seja, no coleta in-formao relativa a referentes ligados a mundos pr-existentes. No buscamos o contedo da experincia (seja ela anterior ou subjacente ao momento da entrevis-ta), entendido como um conjunto de dados que a palavra traduziria na organizao transparente do relato. A entrevista no se dirige exclusivamente representao que os entrevistados fazem de objetos ou estados de coisa, os contedos das expe-rincias de cada um, frequentemente privilegiados nas pesquisas em geral.

    Diferentemente, a pesquisa cartogrfica visa o acompanhamento de pro-cessos e, se a entrevista na cartografia inclui trocas de informao ou acesso experincia vivida, importante ressaltar que esta no sua nica direo. A cartografia requer que a escuta e o olhar se ampliem, sigam para alm do puro contedo da experincia vivida, do vivido da experincia relatado na entrevista, e incluam seu aspecto gentico, a dimenso processual da experincia, apreendida em suas variaes. Alinhada abordagem enativa, a cartografia, sem eliminar os contedos informacionais, inclui a gnese desses contedos estabelecida na experincia compartilhada que responde pela coemergncia de si e de mundo (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 2003).

    Fractal, Rev. Psicol., v. 25 n. 2, p. 299-322, Maio/Ago. 2013 301

  • Silvia Helena Tedesco; Christian Sade; Luciana Vieira Caliman

    Nesse sentido, a entrevista na cartografia considera a inseparabilidade dos dois planos da experincia: a experincia de vida ou o vivido da experincia e a experincia pr-refletida ou ontolgica (EIRADO et al., 2010). O primeiro plano refere-se ao que usualmente chamamos experincias de vida, que advm da reflexo do sujeito sobre as suas vivncias e inclui seus relatos sobre histrias de vi

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