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  • *Aluna especial do Mestrado em Educao da Universidade Tiradentes. Especialista em Psicopedagogia Pedagoga do Instituto Federal de Educao, Cincia e Tecnologia de Sergipe e Membro do Grupo de Pesquisa Economia e Desenvolvimento na linha de pesquisa Educao e Desenvolvimento (CNPq/IFS). Email: clamed.lima@hotmail.com

    A EMANCIPAO NA EDUCAO TCNICA PROFISSIONAL SOB O

    OLHAR DA ARTE E A CONCEPO DE PENSAMENTO CRIATIVO

    Claudia de Medeiros Lima*

    EIXO TEMTICO: Educao, Trabalho e Juventude

    RESUMO

    Este artigo prope uma discusso sobre a influncia do pensamento como ato criativo no processo de emancipao do aluno da educao tcnica profissional, a partir do pensamento de Jacques Rancire. A anlise de contedos sob enfoque qualitativo adota a pesquisa bibliogrfica e documental para promover investigao acerca da temtica. Apresenta-se um breve histrico da educao tcnica profissional e seu compromisso com a formao dos mais pobres e segue-se com a discusso sobre a emancipao, destacando a potncia individual e a inteligncia dissociada das relaes hierrquicas de saber. Buscam-se aproximaes com o devir do pensamento de Gilles Deleuze e com o olhar artstico de Pablo Picasso, na relao com a complexidade do pensar, com a criao, como algo transformador, que no deseja sujeitar-se a ningum, nem to pouco sujeitar algum a si mesmo, numa relao de liberdade. PALAVRAS-CHAVE: emancipao, pensamento criativo, educao tcnica profissional.

    THE EMANCIPATION IN THE TECHNICAL VOCATIONAL

    EDUCATION IN THE EYE OF ART AND DESIGN CREATIVE

    THINKING

    ABSTRACT

    This article proposes a discussion on the influence of thought as creative act in the process of emancipation of the student's professional technical education, from the thought of Jacques Rancire. The content analysis in qualitative approach adopts the bibliographic and documentary research to promote research on the subject. It presents a brief history of professional technical education and its commitment to the formation of the poorest and follows with a discussion on emancipation, emphasizing individual power and intelligence

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    separate from hierarchical relationships to know. Approaches are sought with the becoming of thought of Gilles Deleuze and the artistic look of Pablo Picasso, in relation to the complexity of thinking, creating, transforming as something that does not want to subject himself to anyone, nor subject someone yourself in a relationship of freedom. KEYWORDS: empowerment, creative thinking, professional technical education. INTRODUO

    Este artigo busca uma compreenso da possvel relao entre emancipao,

    pensamento e criatividade na educao tcnica profissional. A anlise de contedos sob

    enfoque qualitativo adota a pesquisa bibliogrfica e documental para promover investigao

    acerca da temtica. Adota-se o conceito de emancipao ranceriano, em: O mestre ignorante.

    Tambm so elementos importantes para esta discusso, a ideia do pensamento como ato

    criativo deleuziano; o fazer artstico de Pablo Picasso no filme: O mistrio de Picasso, de

    1956 e o breve resgate da histria da educao tcnica profissional.

    No Mistrio de Picasso, o cineasta Henri Georges Clouzot registra o momento criativo

    do pintor. Utilizando uma tela branca e uma cmera por trs, traos vo surgindo como se

    fossem mgicos. Estaria Clouzot filmando o avesso do processo? Ou seria outro ponto de

    vista que os espectadores estariam experimentando, diferentemente, inclusive, do olhar de

    quem cria? Mas ainda que se estivesse olhando a tela de frente conseguir-se-ia ter a mesma

    percepo de Picasso? A viso, ou ideia de quem assiste seria a mesma do autor? No se

    pretende responder a nenhuma dessas perguntas, nem mesmo se sabe a existncia de alguma

    resposta. A questo que depois de estudar as referidas teorias, toda velha opinio formada

    sobre tudo, parafraseando Raul Seixas, cai por terra. Mas de quais velhas idias se quer

    tratar? Ou melhor, no se quer. Muito j se discutiu e se discute sobre elas. Prope-se uma

    discusso sobre a influncia do pensamento como ato criativo no processo de emancipao do

    aluno da educao tcnica profissional, a partir do pensamento rancieriano.

    A PROFISSIONALIZAO DOS MENOS AFORTUNADOS

    A histria da educao revela que ainda na antiguidade a instruo profissional,

    aprendizagem e exerccio de um ofcio esteve associada aos menos afortunados, enquanto a

    formao poltica e intelectual elite. Na Grcia antiga, assim como em Roma, por exemplo,

    dever dos pais ensinar seus ofcios aos filhos. O costume de treinar escravos em escolas para

    exercer determinadas profisses tambm grego. Os patres passam a enviar os escravos para

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    as escolas e pagar sua instruo. Neste costume Roma cria as corporaes de ofcio para

    instruo profissional Collegia Artificium, formada por plebeus livres que migram para a

    cidade. Percebe-se que a instruo profissional, aprendizagem e exerccio de um ofcio

    tornam-se caracterstico de escravos e plebeus, enquanto a formao poltica e intelectual fica

    restrita nobreza, aos futuros ocupantes dos cargos de governo. Data de longo perodo a

    dissociao das atividades intelectuais dos trabalhos braais.

    Na idade mdia com os novos modos de produo, desenvolvimento da cincia e de

    uma burguesia urbana, a relao dos aprendizes comparada a de um discpulo. Os

    adolescentes freqentam o mesmo ambiente de trabalho de seus mestres e l obtm

    conhecimentos e habilidades da profisso. Os contratos variam de quatro a dez anos e o

    prprio aprendiz realiza pagamentos ao mestre pela instruo Na impossibilidade de faz-los,

    submete-se a mais tempo de servios prestados.

    Diante do nascimento do mundo moderno surge um outro sentido para a preparao

    profissional. Na Inglaterra do sc. XVII, as novas classes dirigentes inspiradas por Locke,

    oferecem s classes populares as escolas de trabalho, Workhouse-schools, preparando as

    crianas para a indstria txtil de l. na Frana, todavia, numa escola crist de tica

    protestante, So Joo Batista de La Salle, que nasce o esboo das primeiras escolas tcnico-

    profissionais, instruindo profisses artesanais mercantis. Com o aceleramento industrial e o

    desenvolvimento das fbricas, as oficinas artesanais sob controle das Corporaes de Artes e

    Ofcios desaparecem, cedendo espao para a instituio escola, que passa a atender s classes

    produtoras, atravs de contedos tcnico-cientficos.

    Sculos se passaram, o mundo moderno criou as primeiras escolas tcnico-

    profissionais e com o Brasil no foi diferente, a educao profissionalizante permaneceu

    reservada aos menos favorecidos. No pas, os aprendizes ganham espao nas corporaes de

    ofcios que surgem no perodo colonial. Em 1826, um projeto de lei sobre instruo pblica

    no imprio do Brasil apresenta uma nova organizao para a aprendizagem de ofcios,

    instituindo a obrigatoriedade do ensino de costura e bordado para as meninas e, para os

    meninos, desenho direcionado s artes e ofcios, ministrados nos liceus.

    Com o desenvolvimento industrial surge o primeiro Liceu de Artes e Ofcios (1858),

    na cidade do Rio de Janeiro, destinado a dar instruo artstica e tcnica classe operria,

    objetivando a formao de mo-de-obra para o mercado de trabalho. J em 1909, o ento

    presidente, Nilo Peanha, baixa o Decreto n 7.556 criando 19 escolas de Aprendizes e

    Artfices em todo o pas. Essas escolas do preferncia aos menos favorecidos.

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    A partir da dcada de 1930, com a expanso industrial e urbana brasileira, novas

    estratgias surgem para adquirir mo-de-obra qualificada. O ensino profissional industrial

    amplia seus espaos e cria-se o SENAI - Servio Nacional de Aprendizagem Industrial, no

    ano de 1942. O objetivo preparar, de maneira mais rpida possvel, aprendizes para insero

    nas indstrias.

    Em 1971, em pleno aceleramento industrial, a Lei de Diretrizes e Bases 5.692

    estabelece a habilitao profissional compulsria. A dicotomia existente entre ensino

    propedutico e profissional se torna ainda mais acentuada, sendo o segundo muito

    prejudicado por falta de recursos materiais e professores qualificados. Foge a esta regra as

    Escolas Tcnicas Federais que colocam no mercado de trabalho milhares de tcnicos,

    chegando saturao na dcada de 1980.

    Somente aps meados da dcada de 1990, com a LDB 9.394/1996 que surgem

    propostas de reformulao da formao profissional e passa agregar a formao cultural e

    cidad ao currculo 1 at ento, meramente tecnicista. Mas ainda assim, evidente a

    destinao da formao tcnica para os pobres, e aliado a isso, a proposta de ascenso social

    [aos institutos federais cabe, oferecer] educao profissional e tecnolgica em todo o territrio

    nacional, articulando-a com aes de desenvolvimento territorial sustentvel e orientando-a

    para a formao integral de cidados-trabalhadores emancipados2. (BRASIL, 2010)

    Este breve resgate histrico aponta para uma formao destinada aos mais pobres que

    acompanha o desenvolvimento econmico e sua necessidade de mo-de-obra.

    A tendncia tecnicista resulta da tentativa de aplicar na escola o modelo empresarial, que se baseia na racionalizao, prpria do sistema de produo capitalista. Um dos objetivos tericos dessa linha , portanto, adequar a educao s exigncias da sociedade industrial e tecnolgica, evidentemente com economia de tempo, esforos e custos. (ARANHA, 1996, p. 213)

    A EMANCIPAO E A RELAO COM O DEVIR DO PENSAMENTO

    Reformulam-se os currculos, transformam-se os discursos, a escola e suas prticas de

    ensino