A educação no Portugal dos anos 60: uma análise do ... ?· Os anos 60 representam hoje um paradigma…

Download A educação no Portugal dos anos 60: uma análise do ... ?· Os anos 60 representam hoje um paradigma…

Post on 17-Sep-2018

213 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

A educao no Portugal dos anos 60: uma anlise do discurso ideolgico dos parlamentares da ditadura na assembleia nacional (1961 - 1964) 2 Graa Anbal ULHT CeiEF A EDUCAO NO PORTUGAL DOS ANOS 60: UMA ANLISE DO DISCURSO IDEOLGICO DOS PARLAMENTARES DA DITADURA NA ASSEMBLEIA NACIONAL (1961 - 1964) Resumo Neste trabalho procurmos utilizar como mtodo de descodificao do texto a anlise crtica do discurso, tendo subjacente a noo de que qualquer discurso moldado por relaes de poder e por ideologias. Considermos como corpus de anlise os discursos dos parlamentares portugueses sobre educao no perodo de 1961 a 1964, perodo em que se realizam dois debates no mbito da educao: a proposta de lei do plano de construes para o ensino primrio (em 1961) e o aviso prvio sobre educao nacional (em 1964). Num regime poltico de partido nico como era ento o portugus, os deputados eleitos pertenciam s listas desse partido partido nico, pelo que os debates no constituiam momentos de confrontao de posies significativamente divergentes. Sendo o discurso um instrumento privilegiado de interaco social, procurmos analisar como a classe dominante, mesmo quando utiliza os aparelhos repressivos do Estado, recorre a estratgias de persuaso para criao do consenso como meio de legitimao do poder. Por outro lado o sistema escolar e mais concretamente a escola, na sua acepo mais ampla de instituio socializadora, foi (e ) naturalmente entendida como podendo ter um papel fomentador de ideologias de que a classe dominante procura benefciar. Os textos do corpus que analismos so, assim, entendidos como produto da aco elocutria de agentes sociais, operando com possibilidade de escolhas, de acordo com a sua natureza de actor ideolgico, numa estrutura de poder e dominao. A anlise no visa apenas descrever o corpus lingustico de um sistema abstracto, mas entender como as escolhas lingusticas correspondem s posies ideacionais assumidas pelos falantes em determinados contextos sociais, polticos e ideolgicos, escolhas essas que so estratgias ideolgicas reveladoras de uma representao do mundo e da percepo de si e do outro. Palavras-chave: anlise crtica do discurso; ideologia; dominao; contexto poltico; discurso parlamentar 3Abstract This paper intends to use critical discourse analysis as a method of text decodification. It develops an analysis of the Portuguese parliamentary discourses on education between 1961 and 1964. At that time there was a single party system in Portugal, so the political power was concentrated solely within the ruling party. The deputies were elected within these party lists. We tried to analyse how the dominant political class use strategies of persuasion to build consensus and to legitimate power, even when using state repression. The analysed texts are products of the elocutionary action of social actors according to their ideological nature in a structure of power and domination. Keywords: critical discourse analysis; ideology; domination; political context; parliamentary discourse 4 1. Introduo 1.1. Os anos 60 o tempo que mudou o mundo Os anos 60 representam hoje um paradigma de mudana que a gerao jovem de ento teria produzido, transfigurados no tempo numa poca excepcional pelo fascnio que ainda inspiram. Efectivamente a dimenso utpica que a ruptura social e cultural, baseada na valorizao da libertao do corpo e da mente e expressa por manifestaes pela paz e pelo amor, atingiu, mitificou esses anos. E, no entanto, contraditoriamente, o mundo foi ento atravessado por acontecimentos polticos violentos. Na Histria do Ocidente dois momentos so marcos indelveis da moldura geopoltica dos anos 60 determinados e determinantes da tenso entre as duas potncias mundiais EUA e URSS: a construo do Muro de Berlim em 1961 e, no mesmo ano, a invaso da Baa dos Porcos, tentativa americana fracassada de derrubar Fidel Castro, seguida da reaco sovitica de instalao de msseis nucleares em Cuba. A crise dos msseis em Cuba e uma clara tendncia proliferao dos arsenais nucleares levaram a que os Estados Unidos, a Unio Sovitica e a Gr- Bretanha assinassem, um acordo que proibia testes nucleares em 1963 e em 1964 o Tratado de No-Proliferao de Armas Nucleares. Os dois Estados, superpotncias, afirmavam, desde o fim da 2 Guerra Mundial, em variadas instncias e latitudes, o seu poder com o propsito de garantir o domnio no espao geopoltico que cada um controlava. neste quadro que se inclui a desastrosa interveno no Vietnam, opo estadunidense para evitar que o Vietnam se tornasse comunista e, acima de tudo, atalhar o possvel efeito domin, isto , que pases vizinhos lhe seguissem o exemplo. Esta competio geoestratgica no se ficava pelo desejo de domnio poltico. Era tambm no desenvolvimento tcnico e tecnolgico. Foi ela o principal impulsionador da conquista do espao numa corrida que, se pareceu nos primeiros tempos alcanar o impossvel, demonstrou por fim poucos avanos significativos e enormes e insuportveis despesas. 5A dcada registou efectivamente notveis progressos tcnicos e as ento novas tecnologias electrnicas geraram um crescimento econmico no ocidente e um aumento dos benefcios sociais. Apesar do equilbrio precrio em que a tenso entre EUA e URSS fazia o mundo viver foi um tempo de acontecimentos que provocaram mudanas e roturas fundamentais: a independncia da maioria dos pases africanos, malgrado a resistncia dos colonos ao reconhecimento deste direito aos povos da frica Austral e o incio do caminho para a unio da Europa na Comunidade europeia (tratado de Roma, 1957) e na EFTA (1960). Foi tambm tempo de lutas por causas sociais: o direito igualdade de que foram irreversveis desencadeadores o movimento massivo liderado por Luther King nos EUA (prmio Nobel da Paz em 1964) e os movimentos feministas. A comercializao da primeira plula contraceptiva veio contribuir para uma marcada evoluo da sociedade. Mas o mito dos anos 60 deve-se sobretudo a uma cultura jovem, contestatria e reivindicativa que, a par dos movimentos emancipatrios de cariz social, se afirmou atravs de mudanas de comportamento como a contracultura e o pacifismo, a transformao na moda, as manifestaes culturais como o Woodstock, expresses de uma nova acepo social e artstica de caractersticas globalizantes, pondo em causa a sociedade criada pelas geraes anteriores. defesa pela liberdade de expresso correspondia um novo modo de estar, de agir e de pensar que ansiava por romper com o mundo preconceituoso herdado da gerao que, no entanto, tambm construira com o seu sangue os caminhos da democracia. Em contramo, alguns regimes totalitrios ainda sobreviviam. 1.2. Portugal nos anos 60 1.2.1. Dos perfis institucionais e dos modelos de gesto do Estado s opes financeiras de despesa dos dinheiros pblicos Salazar institucionaliza, desde o incio das suas funes como Presidente do Conselho a 5 de Julho de 1932, a coordenao e direco da actividade de todos os Ministros e Ministrios que, alis, respondem politicamente perante ele pelos seus actos e f-lo em 11 reas: Interior, Justia, Finanas, Guerra, Marinha, Negcios Estrangeiros, Obras Pblicas e Comunicaes, Comrcio e Indstria, Agricultura, 6Instruo Pblica e Colnias. nesta moldura institucional governativa que o novo Estado que se auto-denomina Estado Novo vai organizar a sua interveno constrangedora e omnipresente na Sociedade Portuguesa, designadamente em 5 vertentes: i) interveno na economia proteccionista e administrativista com estreiteza no investimento pblico em todas as dimenses das infra-estruturas bsicas, rodovirias, ferrovirias, redes de comunicaes; ii) interveno nas relaes laborais formalmente estatutria, corporativa e at arbitral, mas com desvalorizao, aos limites da sobrevivncia, do factor trabalho e com presena unilateral e repressiva na conflitualidade emergente, ao lado dos empregadores; iii) presena prevalente das Foras Armadas e designadamente do Exrcito, no consulado de Santos Costa, nos interiores do aparelho de Estado (Salazar, em prefcio obra de Antnio Ferro (1933) sublinha que o Exrcito rgo da Nao, que interveio no sentido de criar as condies necessrias para a existncia de um Governo antipartidrio e nacional); iv) interveno social e de segurana social minimizada e deixada ao caritativo e avulso das Organizaes ligadas s Misericrdias e Igreja Catlica; v) desinvestimento na Instruo Pblica, na sua estrutura curricular (que fora lida, por forma culta, na 1 Repblica, que criara, alis, o Ministrio da Instruo Pblica, pela Lei n 12 de 7 de Julho de 1913 ) e assumir emblemtico de opes ideolgicas marcadas pelo seguidismo aos modelos (des) educativos nazi e fascista contemporneos. Esta institucionalizao prevalente deste Estado sobre esta Sociedade ancorada - convir sempre record-lo e enfatiz-lo no silenciamento, pela priso, pela(s) Censura(s), pela perseguio da(s) Oposio(es), mesmo aps 1945 e a derrota e desmascaramento do nazismo e fascismo. Ao fazer tais opes o Estado vai procurando moldar, atravs da educao dita nacional, em modelos e paradigmas de matriz ideolgico-conceptual, novas geraes por forma que os prprios pensadores do regime consideraro insuficiente, como veremos no estudo que desenvolvemos. As opes institucionais e administrativas que so percorridas pelo Estado Novo, reflectem-se, desde o primeiro momento da presena de Salazar nas Finanas Pblicas, nos Oramentos do Estado - ento designados por Oramentos Gerais do Estado e, tambm, a partir de 1953, nos Planos de Fomento. A interveno do Ministrio das Finanas referencia-se por mltiplas opes: i) administrao nica dos bens que esto 7no domnio privado do Estado1; ii) administrao concentrada da carteira de ttulos do Estado e do exerccio dos direitos sociais do Estado nas respectivas Empresas2; iii) manuteno sistmica dos equilbrios oramentais entre as receitas e as despesas do Estado, merc de variaes grandes em impostos e contribuies e da diminuio social, designadamente nas reas da instruo pblica. Ficaram registados no sub-desenvolvimento de geraes de portuguesas e portugueses a extino do ensino primrio superior (desde 1926), a abolio do ensino primrio complementar (1928), a diviso do ensino primrio elementar em 2 graus um, at 3classe e, outro, respeitante 4 classe em situao que se manteve at 1956, para o masculino, e at 1960, para o feminino, a extino das escolas mveis de alfabetizao (1930), a criao dos Postos Escolares em detrimento das Escolas Primrias (1931- dec.lei 27279), o encerramento das Escolas do Magistrio Primrio (1936), a extino do ensino infantil oficial (1937). Sinalize-se, entretanto, nos Centenrios de 1940, o chamado Plano dos Centenrios com investimentos significantes na densificao, apenas, do Ensino Primrio Elementar e cuja reviso, nos anos 60 suscitaria debate conceptual na chamada Assembleia Nacional; iv) opo por investimento em realizaes do Estado, relevados, Ministrio a Ministrio na obra de registo 25 anos de Administrao Pblica (1953) em que, significativamente, se encontram valores de ordem similar entre investimentos em instalaes de Entidades Pblicas e Servios - 730.000 mil contos - instalaes para estabelecimentos de ensino - 739.000 mil contos e instalaes para as Foras Armadas -708.000 mil contos. Estes valores traduzem uma poltica de opes a 25 anos cujo significado convir reter. No campo das instalaes para estabelecimentos de ensino, tambm significativamente, 47% so para escolas primrias, 12% para escolas do ensino tcnico, 24% para liceus e 17% para as Universidades. Significativo tambm que se no OGE de 1943 (3,46 milhes de contos), 550.000 contos (17%) eram para o Ministrio das Obras Pblicas e neste 20.000 contos (4% do MOP) eram para as escolas primrias, no OGE de 55, com Leite Pinto no Ministrio da Educao Nacional, (7, 33 milhes de contos) um milho eram para o MOP (cerca de 14 1 Tais procedimentos decorrem da reorganizao dos servios da Direco Geral da Fazenda Pblica (D.L 22728 de 24 de Julho de 1933 2 As principais posies de accionista do Estado no incio dos anos 50, passavam pelos Bancos de Portugal, Nacional Ultramarino e de Angola e pela Companhia Geral do Crdito Predial Portugus, pela Companhia das guas de Lisboa, pela Companhia Portuguesa de Celulose, pela Companhia Nacional de Electricidade, pela Concessionria da Refinao de Petrleos (SACOR) e pelas Sociedades Hidroelctricas do Cvado, do Revu e do Zzere. 8%) e 70.000 (7% do MOP) para as escolas, em 1963, num OGE de 14,15 milhes de contos e com 2,11 milhes no MOP (cerca de 15%), 100.000 eram para as escolas primrias (cerca de 5% do MOP), tudo em valores nominais3. 1.2. 2. Os perfis econmicos da sociedade portuguesa e do seu Estado A acumulao das reservas de ouro e divisas no traduz nem previso, nem orientao, nem trabalho: representa unicamente uma consequncia imprevisvel da guerra a traduzir-se em vantagens graas s posies com que nos conseguimos manter nela. () estes saldos acumulados () deram-nos alento para viver uns anos mais. Seramos talvez hoje um pas rico se tivssemos olhado aos trabalhos de fomento com o mesmo entusiasmo e a mesma f com que olhmos a tantos outros que se levaram a cabo ( Prof. Daniel Barbosa, Ministro da Economia do Governo de Salazar, entre Fevereiro de 1947 e Outubro de 1948). A Sociedade Portuguesa vive, entre o final da 2 Guerra Mundial e o incio dos anos 60, um perodo sensvel de transformaes da sua economia. Nos anos 30 d-se ainda a institucionalizao do condicionamento industrial proteccionista que mantm em estufa4 reas e sectores industriais. A partir do final da guerra, levada tambm pelas circunstncias envolventes na Europa, h uma evidente interveno do Estado que se define por leis (entre as quais, e que pela sua relevncia se deve assinalar, a Lei da Electrificao de 1944) (Dias, 1946), por investimentos (em vrios sectores predominantes face ao privado), por polticas alfandegrias defensivas, conjugados com processos coercivos e repressivos de controle do crescimento de salrios. A Sociedade v ainda o seu Estado definir, no quadro do equilbrio oramental entre despesas e receitas, em Planos de Fomento (o primeiro dos quais de 1953 a 1958 ) a coordenao dos investimentos pblicos para fazer arrancar uma economia mais industrializada, utilizando os meios j tradicionais das obras pblicas, da explorao dos recursos das colnias e, crescentemente, do incitamento a grandes investimentos em economia mista 3 Anbal, Alexandra (1999). A expanso da rede escolar do ensino primrio durante o Estado Novo (1930-1970 Dissertao de Mestrado em Sociologia. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. 4 O regime de Condicionamento Industrial (1931) ao fazer depender a realizao de investimentos na indstria da autorizao prvia da Administrao Pblica, cortava a liberdade de empreendimento (). Integrando a partir de 1937 um regime de exclusivo que se constitua em escudo de proteco aos investimentos em novas actividades industriais, o condicionamento () pouco poderia fazer para que se realizassem os investimentos necessrios a um verdadeiro processo de industrializao (Loureiro, 1991, p. 332). 9 nos petrleos, nos transportes, na electricidade5. Com esta conjuno de investimentos a industrializao transforma vrias reas do Pas, a indstria passa a absorver a maior taxa de aumento do rendimento e o Pas rural e agrrio vai decaindo (apesar de certas medidas pblicas de cunho dirigista como o regadio, o emparcelamento, alguma investigao agronmica e a promoo de algumas indstrias agro-alimentares), assinalando-se o papel limitado do movimento cooperativo, as insuficincias do regime cerealfero e o acentuar de uma poltica de conteno dos preos ao produtor, para evitar a alta do custo de vida, para permanncia de salrios de misria. Por fim, sublinhe-se, ainda, que os excedentes da balana de pagamentos com o exterior, verificados durante a guerra e continuados durante os anos 50 (designadamente devido exportao do caf de Angola) raras vezes foram utilizados para a importao de equipamentos e investimento em educao e cincia, restringindo-se gesto ortodoxa e cuidada das reservas do Banco Central. Os anos sessenta so aqueles em que se sente mais vivamente o impacto dos espaos econmicos na nossa poltica tradicional. Mantivemo-nos, globalmente, margem do comrcio internacional e da vida europeia, muito em funo da manuteno da ditadura. Mesmo em relao a frica os laos econmicos nunca tero sido muito estreitos, apesar do incremento na altura das guerras nas colnias. Entretanto em 1960 os movimentos de integrao europeia levam-nos a ingressar na EFTA, obtendo um estatuto privilegiado, de contemporizao com o nosso subdesenvolvimento, estatuto esse, alis, pouco aproveitado. Na mesma altura em que entrvamos assim para o mais fraco, mas menos exigente dos clubes europeus, tentava-se um esquema de integrao econmica do chamado espao portugus, relevando-se, em histria que est por fazer, taxas de crescimento bem assimtricas na chamada Metrpole e nas economias dos dois grandes pases administrativamente tutelados por Portugal em frica. O esquema geral da poltica de desenvolvimento que o Estado impe sociedade Portuguesa (manietada politicamente) atravs da poltica de fomento fundamentalmente virada para plos no territrio com graves assimetrias e a conjuno de investimentos, confronta-se, entretanto, com um fortssimo movimento de emigrao (em certas zonas do pas de autntico xodo), pela manuteno de uma 5 Ver Pereira de Moura, F. (1973). 10poltica de desenvolvimento dos recursos humanos esmagada entre arqutipos de nacionalismo patrioteiro e uma real incapacidade de generalizar o ensino e por um muito frgil, quase inexistente, sistema de segurana social. A economia portuguesa concentra-se em grandes mas muito poucos grupos, desenvolve pouco a concorrncia, sendo que as pequenas e mdias empresas tm uma capacidade interventiva estreitada em funo do interesse dos grupos econmicos6. 2. Os discursos sobre o ensino e a educao na Assembleia Nacional 2.1. A anlise crtica do discurso A afirmao de Ball (1990) de que a questo na anlise do discurso porqu, num dado momento, de todas as coisas que poderiam ser ditas apenas certas coisas foram ditas remete-nos para o elemento decisivo na anlise da linguagem como fenmeno social - a sua natureza dialgica. Desta concepo releva o carcter de prtica social do discurso produtora de efeitos construtivos sobre as identidades sociais, sobre as relaes sociais e sobre os sistemas de conhecimento e de crenas. deste modo que a anlise crtica do discurso se assume com o objectivo de identificar as estruturas e as relaes de poder que circundam e que motivam o texto no intuito de desnaturalizar as prticas discursivas e textuais de determinada sociedade. 2.2. A semntica do discurso e a sua relao com a ideologia Tendo subjacente ao trabalho de anlise do discurso a noo de que este moldado por relaes de poder e por ideologias, considermos como corpus da anlise que elabormos os discursos sobre educao dos parlamentares portugueses no perodo de 1961 a 1964, perodo em que se realizam dois debates no mbito da educao: a proposta de lei do plano de construes para o ensino primrio (em 1961) e o aviso prvio sobre educao nacional (em 1964). Partindo do pressuposto de que mesmo quando utiliza os aparelhos repressivos do Estado a classe dominante no dispensa estratgias de persuaso para criao do consenso como meio de legitimao do poder, consideramos o discurso um instrumento privilegiado dessa interaco social. A obteno da legitimidade permite o controlo social cultural que, como prope Mnica 6 Sobre este assunto, consulte-se Martins (1973). 11(1978) se entende como a funo que consiste em sistematizar e transmitir ideologias legitimadoras da estrutura social. Por outro lado o sistema escolar e mais concretamente a escola na sua acepo mais ampla de instituio socializadora foi (e ) naturalmente entendida como podendo ter um papel fomentador de ideologias de que a classe dominante procura benefciar. Os textos do corpus que analismos so, assim, entendidos como produto da aco elocutria de agentes sociais, operando com possibilidade de escolhas, de acordo com a sua natureza de actor ideolgico, em estrutura de poder e dominao. A anlise procurou desvendar as estratgias discursivas que legitimam o controlo, procuram criar consensos e naturalizar a ordem social. Para a descodificao do discurso pareceu-nos necessrio integrar na anlise toda a informao disponvel que possibilitasse relacionar as caractersticas individuais dos discursos com o contexto histrico. A anlise no visa apenas descrever o corpus lingustico de um sistema abstracto, mas entender como as escolhas lingusticas correspondem s posies ideacionais assumidas pelos falantes em determinados contextos sociais, polticos e ideolgicos, escolhas essas que so estratgias ideolgicas reveladoras de uma representao do mundo e da percepo de si e do outro. Van Dijk (1997), ao pretender contribuir para a elaborao de uma teoria multidisciplinar da ideologia e das suas relaes com o discurso, assenta no princpio de que as ideologias controlam indirectamente as representaes mentais (modelos) que formam a base interpretativa e a insero contextual do discurso e respectivas estruturas, pelo que nos permite considerar podermos analisar as formas como as ideologias controlam o significado do discurso. Para este autor as ideologias so modelos de interpretao em que se organizam as opinies partilhadas pelo grupo, formas de cognio social avaliativa que o autor designa por atitudes. As ideologias fornecem assim o fundamento cognitivo das atitudes dos grupos e os consequentes propsitos e interesses. Podemos encontrar na literatura de mbito filosfico ou sociolgico diferentes abordagens e conceitos de ideologia. No entendemos, contudo, neste trabalho, proceder a uma reviso desta noo. Aceitamos, antes, como fundamento terico do estudo que desenvolvemos, a definio de Van Dijk (1997) que a inclui no modelo terico que constri para desenvolver uma teoria da ideologia e das suas relaes com o discurso na perspectiva da anlise crtica do discurso: 12As ideologias so modelos conceptuais bsicos de cognio social, partilhados por membros de grupos sociais, constitudos por seleces relevantes de valores socioculturais e organizados segundo um esquema ideolgico representativo da autodefinio de um grupo. Para alm da funo social que desempenham ao defender os interesses dos grupos, as ideologias tm a funo cognitiva de organizar as representaes sociais do grupo, orientando, assim, indirectamente, as prticas sociais relativas ao grupo e, consequentemente, tambm as produes escritas e orais dos seus membros (Van Dijk,1997, p.111). Podemos encontrar efeitos da ideologia em todos os nveis do discurso (na sintaxe, na fonologia), mas ao nvel do significado e da referncia que as ideologias se manifestam directamente (Van Dijk, 1997). Neste trabalho apenas teremos em conta a semntica do discurso para analisarmos como as ideologias afectam o significado. 2.3. Anlise do discurso dos parlamentares da ditadura (1961 a 1964) 2.3.1. A uma s voz A Assembleia Nacional no perodo compreendido entre 1961 e 1964 um arepago de 120 deputados constituindo com o Governo e a Cmara Corporativa (rgo tcnico consultivo) uma das sedes do poder legislativo. . Numa anlise mais superficial e imediatista dos discursos somos surpreendidos pelo estilo formal e ritualizado que lhe particular e que apreendemos como retrgado e at ridculo. Efectivamente, para alm da conformidade s formalidades regulamentares prprias do tipo de instituio e da poca, o estilo utilizado no discurso parlamentar vincadamente retrico, reverente e cerimonioso. O tom reverente e cerimonioso afirma-se designadamente no incio das intervenes ou quando outro deputado solicita intervir a meio do discurso do orador do momento e no final das intervenes: Sr. Presidente: ao elevar pela primeira vez a minha voz nesta Assembleia Nacional quero que as minhas primeiras palavras sejam de saudao para V. Excelncia. Desde muito novo que me habituei a ouvir o prestigioso nome de V. Ex, ligado aos acontecimentos de maior relevo no pas, como Ministro, como professor, como mestre insigne de direito, agora como Presidente desta Assembleia Nacional, e hoje e sempre como portugus que devotamente serviu e serve a causa da sua Ptria com uma f e com um patriotismo que so bem dignos de ser apontados a todas as geraes como exemplo a seguir. () Srs. Deputados: a VV. Exas quero dizer que do convvio com todos muito virei a aprender e a todos entrego os prstimos da minha modesta mas leal colaborao (Deputado Jlio Dias das Neves - Dirio das sesses n 38, de 2 de Maro de 1962, p. 852). 13Tenho dito e peo desculpa do tempo que tomei a VV. Exas com estas desataviadas consideraes. Mas no esqueam VV. Exas que de ruim moita no pode sair bom coelho(a Assembleia expressou desacordo) (Interveno do Deputado Melo Machado,Dirio das sesses n 188, de 20 de Janeiro de 1961, p. 326). Continuo a pedir desculpa a V. Ex e Assembleia por estar a tentar fazer perder o vosso precioso tempo com ms explicaes, embora com boas intenes, boas intenes que quase revestem o carcter de matria de apostolado, no necessria para espritos inteligentes como os de todos VV. Exas (Interveno do Deputado Amaral Neto, Dirio das sesses n 192, de 27 de Janeiro de 1961, p. 373). Continuo a aderir ao pensamento de V. Ex e a dizer as mesmas razes. Simplesmente parece-me um bocadinho mais fcil de resolver este problema se comearmos por pouco (). Deputado Peres Claro aps ter sido interrompido pelo Deputado Rodrigues Prata que discordava da soluo apresentada por aquele quanto oferta de refeies nos edifcios escolares, em meio rural (Dirio das sesses n 191, de 26 de Janeiro de 1961, p. 359). A extenso da introduo de carcter retrico com que muitas vezes se iniciam as intervenes, os elogios recprocos, a expresso de humildade que atribuem os oradores a si prprios constituem um estilo que se revela implicitamente aceite como natural no sistema cultural do grupo. Na verdade esta espcie de cdigo lingustico utilizado pela Assembleia Nacional de ento pode ser analisado e interpretado como portador de marcas ideolgicas.7 O reconhecimento elogioso da personalidade do Presidente da Assembleia feito pelo Deputado Dias das Neves reitera a sua fidelidade desde muito novo aos ideais do Estado Novo. A proposio serviu e serve a causa da sua Ptria com uma F e um Patriotismo remete de imediato para a trilogia, base ideolgica do 7 Michel Foucault (1997, p. 30) explicita que, de entre os procedimentos que permitem o controlo dos discursos, a forma mais superficial e mais visvel desses sistemas de restrio constituda por aquilo que se poderia agrupar sob o nome de ritual; o ritual define a qualificao que devem possuir os indivduos que falam (e que no jogo de um dilogo, da interrogao, da recitao devem ocupar uma determinada posio e formular um determinado tipo de enunciados) () ele fixa () a eficcia suposta ou imposta das palavras, o seu efeito sobre aqueles a que se dirigem, os limites do seu valor de coero. Os discursos religiosos, judicirios, teraputicos e, em parte, tambm polticos no podem ser dissociados dessa prtica de um ritual que determina, para os sujeitos que falam, propriedades singulares e papis preestabelecidos. 14Estado Novo, Deus, Ptria, Famlia, temas prevalecentes na argumentao dos discursos do perodo analisado. A expresso ao erguer pela primeira vez a minha voz afirma o orgulho de fazer parte do grupo e a solidariedade para com os outros elementos est patente na proposio entrego os prstimos da minha modesta mas leal colaborao. Esta manifestao de solidariedade, presente tambm nos outros excertos reveladora da necessidade de reafirmao do apego a uma ideologia que exige unidade e coeso para sobreviver. Mesmo quando existe alguma discordncia entre os membros a reaco a de minimizar a dissonncia, como se verifica no emprego do diminutivo bocadinho na resposta do Deputado Peres Claro ao reparo do Deputado Prata. Poder-se-ia interpretar a reverncia e humildade das expresses como existindo uma relao de poder desigual nestas interaces e alguma hipocrisia na relao. Porm a frequncia das marcas lingusticas que constituem o estilo e que so usadas por todos os intervenientes permite concluir pela premncia de afirmar a coeso e unidade do grupo volta de um chefe. Este facto indicia o sentimento de que existe situao de perigo de sobrevivncia, alis explicitado por alguns oradores: Neste momento Portugal inteiro une-se em redor da nobre e serena figura do venerando chefe de Estado e acompanha o Governo da Nao e o seu insigne chefe cuja grandeza moral se agiganta e enaltece cada vez que os inimigos da Ptria procuram atirar sua obra de redeno nacional uma chapada de lama (Interveno do Deputado Paulo Rodrigues, Dirio das sesses n193, de 1 de Fevereiro de 1961, p. 382). Sr. Presidente: quem estiver atento ao panorama social portugus no ter dificuldade em adivinhar como os ataques do exterior soberania nacional reforaram a coeso e a unidade interna (Interveno do Deputado Nunes Barata, Dirio das sesses n 186, de 18 de Janeiro de 1961, p. 257). Somos alvo de uma campanha alicerada na guerra ideolgica e racial, de extraordinrias propores, e de que s poderemos sair vencedores se a nossa frente se mantiver coesa e indissolvel. () Ningum poder ficar de lado nesta cruzada contra os facnoras de dentro e fora do Pas. Assim unamo-nos todos volta do Governo, sem curarmos de credos, de ideologias porque nesta altura a diviso era o suicdio, a morte! (Interveno do Deputado Brilhante de Paiva, Dirio das sesses n 29, de 8 de Fevereiro de 1962, p. 669). No exclumos contudo que o estilo seja tambm a expresso de uma relao de poder desigual face ao Governo simbolicamente mediatizada pela prpria funo 15institucional da Assembleia. So alis frequentes expresses de apreo pela obra realizada e de elogio s competncias dos ministros que podemos entender como demonstrao de lealdade ideologia que representam. O estilo retrico predomina sempre que se trata de exaltar o esprito patritico ou apelar unidade contra os que so de fora ou contra ns: () pouco haver que no possamos fazer em defesa dos sagrados interesses do Pas, posto que divididos nada talvez, pouco ao certo, poderemos fazer. Espreitam-nos olhos enigmticos. Inofensivos uns, sem dvida, maus outros; enigmticos todos, sem se deixarem descobrir nos intentos. que, hoje mais do que nunca, sobre todas lapidar a expresso que o Prof. Salazar lanou nossa conscincia: a de que todos no somos demasiados para fazermos grande e forte a nossa ptria! Disse (Deputado Vtor Galo, Dirio das sesses n 192, de 27 de Janeiro de 1961, p. 368). A expresso facnoras e a hiprbole espreitam-nos olhos enigmticos so o resultado da seleco intencional dos significados das palavras na apresentao negativa do exogrupo, feita atravs da lexicalizao, dimenso primordial de um discurso controlado por ideologias (Van Dijk, 1998), levantando-nos muito poucas dvidas sobre a posio ideolgica do orador face aos outros no da Ptria ou no patriotas. tambm notria a estratgia discursiva de persuaso em que, negando embora a maldade de alguns (inofensivos uns), os apresenta de seguida negativamente. Concesso aparente de dimenso ideolgica j que a impresso que o orador causa aos outros no mais pessoal mas social. Os significados das palavras na proposio analisada no so expressos de forma explcita . Esto mplcitos a nvel semntico com o uso da hiprbole o que exige uma base cognitiva de descodificao. com base em inferncias a partir dum conhecimento especfico partilhado dos significados lingusticos que os receptores entendem a mensagem e resolvem a ambiguidade intencional. A implicatura que analismos uma categoria conceptual que persiste ao longo de todo o corpus e que ocorre a diferentes nveis dos textos. Tratando-se de uma interaco que ocorre em crculo fechado a implicatura reveste-se aqui de um carcter estratgico de conivncia e como tal naturalizada. frequente a sua utilizao quando o discurso concretiza a dualidade ns e o outro: Sr. Presidente: De quando em vez o pas alertado por intentonas, rebelies e boatos, que, nem por serem aces esprias e locais, ho-de deixar de merecer a melhor ateno do Governo. O recorte das manifestaes, a traa 16comum que as define, o ambiente que as circunda e os comparsas que nelas comparticipam denunciam a sediosa origem e obrigam-nos seriamente a acautelar o futuro (Interveno do Deputado Sales Loureiro, Dirio das sesses n 29, de 8 de Fevereiro de 1962, p. 668). As representaes dos actores podem atribuir-lhes papeis activos ou passivos. Activos quando os actores so representados como responsveis da aco. A passivao atribuda quando os actores so destinatrios da aco de outros e se submetem a ela. No texto acima transcrito o outro no nomeado, caracteriza-se como agente activo cujas aces se identificam pelo recorte, pela traa, pelo ambiente e pelos comparsas que o orador dispensa acompanhar de predicao, j que, pela funo da implicatura, os receptores do discurso facilmente as reconhecem como negativas e cuja origem, essa sim sujeita a predicao pelo modelador sediosa, conhecimento tambm por todos partilhado e revelador de marca ideolgica. Aos comparsas atribudo um papel negativo, mas menorizado. O outro representa o perigo que vem de fora (e a que o Governo deve prestar a melhor ateno). Os comparsas so os por ele utilizados e apenas capazes de aces esprias e locais. Ns somos obrigados a reagir. o outro que nos condiciona. No somos os responsveis. A aco que desencadearmos (para acautelar o futuro) minimizada pela forma eufemstica com que comunicada, numa construo tendenciosa do significado. Ao longo de todo o corpus do estudo a predicao, figura que atribui s pessoas ou grupos determinadas caractersticas, constitui um elemento lingustico relevante na elaborao dum mundo dividido entre ns e os outros e sobre que construda a base argumentativa ideolgica. Os outros so representados como agentes activos de aces negativas: soagentes a soldo do estrangeiro, cometem crimes da mais alta traio, vm num labor de autntica clandestinidade exaurir as melhores razes espirituais de uma boa parte da Nao (sesso de 8 de Fevereiro de 62), so o mundo enfermo e desorientado, porque iluminado mais pela luz do materialismo do que pela luz da F(sesso de 22 de Janeiro de 1964). O Ns representado pela Ptria que sangra na sua carne e na sua alma, por aqueles que com a graa de Deus, a mestria fulgurante de um chefe excepcional e o vigor natural e espontaneo do nosso temperamento, l (vo) vencendo e com toda a dignidade(sesso de 22 de Janeiro de 1964). Como afirma Van Dijk (1998) 17as atitudes que envolvem proposies em que se exprimem comparaes entre ns e eles so estratgias de orientao ideolgica. Efectivamente os discursos que constituem o corpus de anlise apresentam uma coerncia que pressupe um determinado conhecimento do mundo e um conhecimento especfico de situaes, dependendo das cognies sociais comuns ao grupo. esta coerncia que permite a ocorrncia da orientao ideolgica sob formas tendenciosas do discurso. A referncia muito frequente ao perigo que vem de fora com a expresso sequente da necessidade da unio dos verdadeiros portugueses releva de uma coerncia com base ideolgica e depende da forma como os oradores na Assembleia Nacional entendem o nacionalismo colonialista e conservador8 e aqueles que lhe so hostis9. 2.3.2. Entre a oficina do esprito e a especializao da mo-de-obra A educao tem fins sociais, econmicos e principalmente axiolgicos (Deputado Virglio Cruz, Dirio das sesses n 187, de 19 de Janeiro de 1961, p. 313). Confrontados, por um lado, com a necessidade de acompanhar um processo de modernizao impulsionado pelo desenvolvimento industrial desencadeador de alguma dinmica social e cultural e, por outro, com a premncia da criao de um esprito de unidade e coeso entre os portugueses face ao isolamento poltico da Nao, os deputados de 1961 defenderam a proposta de lei sobre o plano de construes para o ensino primrio com argumentos que se inscreviam nas teorias do capital humano, mas tambm, e ainda, na doutrina nacional-colonialista do Estado Novo, ento, porm, no incio do seu declnio. 8 Cruz (1995, pp. 15-22), ao caracterizar o regime ditatorial de tipo autoritrio e nacionalista do Estado Novo como distinto de outros autoritarismos e ditaduras europeias, refere que a primeira caracterstica que salientaria do nacionalismo autoritrio do Estado Novo o facto de ter sido um nacionalismo conservador; ou seja, o grande propsito do Estado Novo foi reinscrever Portugal na sua tradio histrica, em rplica tentativa modernizante da 1 Repblica e, mais adiante, considera ter o nacionalismo portugus na origem uma problemtica colonial () quase a sua quinta essncia a explicar a sua natureza. 9 Citando ainda Foucault (1997, p.58) no que define como procedimentos de controlo do discurso, a doutrina o que liga os indivduos a certos tipos de enunciao e probe, por consequncia, todos os outros; mas ela serve-se, em contrapartida , de certos tipos de enunciao, para ligar indivduos entre si e diferenci-los, por isso mesmo, de todos os outros. A doutrina realiza uma dupla sujeio: dos sujeitos que falam aos discursos e dos discursos ao grupo, ao menos virtual, dos indivduos que falam. 18A competitividade com outras naes mais ricas legitimou a poltica de desenvolvimento dos recursos humanos: Os planos de fomento gerais devem ser acompanhados de fomento cultural, isto , de planos para a formao de tcnicos e de mo-de-obra especializada capaz de actuar com impulso dinamizador nas novas fontes de riqueza econmica que os planos de fomento visam criar. Sem homens instrudos e eficientes, as mquinas e as estruturas tcnicas e econmicas no podero produzir em termos de competio com as outras naes mais ricas em homens (Interveno do Deputado Virglio Cruz, Dirio das sesses n 187, de 19 de Janeiro de 1961, p. 310). De notar que, em algumas alocues ento proferidas, o conceito de educao presente no reduz o papel da educao produo de mo-de-obra especializada, mas que nelas se subentende o conceito de igualdade de oportunidades, nunca expresso como tal, mas subsumido na apologia da universalizao do ensino primrio. Nas sociedades contemporneas () no contam s o valor dos quadros dirigentes, das elites das diversas actividades fundamentais, como tambm, e cada vez com mais importncia, o conhecimento de bases das grandes massas, a sua formao intelectual, o seu apetrechamento mental perante os fenmenos que as cercam, a sua capacidade de realizar e progredir com os meios que o crebro humano vai pondo sua disposio. Como alicerce de uma sociedade contempornea, como segurana das suas estruturas e da sua capacidade realizadora, est indiscutivelmente a extenso e profundidade dos conhecimentos intelectuais dos seus componentes e como aglomerante dessa extenso e dessa profundidade, dando-lhe realidade e robustez, est o que comummente costuma chamar-se ensino primrio, mas que mais prprio nos parecia apelid-la de educao primria (Interveno do Deputado Munz de Oliveira, Dirio das sesses n 189, de 21 de Janeiro de 1961, p. 335). O discurso de alguns dos deputados de 1961 era j tributrio de uma concepo poltica de educao ocidental sustentada por um discurso sociolgico que entendia o funcionamento moderno dos sistemas educativos como uma macro-estrutura potenciadora do desenvolvimento social uniforme e, assim sendo, do desenvolvimento das competncias dos indivduos ao servio do desenvolvimento do Pas10. Note-se que vinte e trs anos antes questionava-se a utilidade de combater o analfabetismo: 10 Sobre o discurso sociolgico dos anos 60 ver Correia (1998). 19O ensino primrio deve ser organizado tendo como objectivo principal a extino do analfabetismo, ou o ensino primrio deve ser organizado como o primeiro grau de recrutamento, de seleco e de apuramento das nossas elites intelectuais? (Interveno do Deputado Proena Duarte, Dirio das sesses n177, de 26 de Maro de 1938, p. 568). A universalizao do ensino primrio no porm dado adquirido no pensamento poltico nestes anos conturbados pelo incio das lutas dos povos das colnias, nem aceite sem baias que contivessem nos seus devidos nveis as aspiraes sociais. Lusa Corteso refere mesmo o Ministro da Educao do perodo duro de 1965/1968, Inocncio Galvo Teles, que explicitamente afirmava que A ascenso cultural das massas, que constitui em si um fenmeno e um desgnio altamente louvvel, pode fazer correr o risco srio de estrangulamento ou abafamento do escol intelectual (cit,. por Corteso, 1998). Efectivamente a Assembleia Nacional tambm no est disposta a abrir mo de uma generalizao educativa e cultural que no se ficasse pelo estritamente necessrio ao bom desempenho das tarefas correspondentes a cada nvel social. Penso que o ensino elementar das nossas populaes rurais no deve perder de vista duas coordenadas: a integrao do homem no respectivo meio e a vocao ultramarina de Portugal. A hora que passa ser o preldio de uma mais eficiente ocupao e valorizao do ultramar portugus se soubermos preparar as gentes dos campos para tamanha tarefa. Simultaneamente no devemos descurar o ensino agrcola e artesanal das massas rurais (e cita Manjon) se os teus alunos no vo para bacharis , mas antes para trabalhar a terra, a madeira e o ferro, ensina-lhes o que lhes poder interessar nesta medida e no carregues as suas cabeas com ideias ou palavras que para eles no tero utilidade (Interveno do Deputado Nunes Barata, Dirio das sesses n186, de 18 de Janeiro de 1961, p. 256). No se estava longe das concepes sobre o ensino nos anos 30 quando um Deputado (Teixeira de Abreu na sesso de 25 de Maro de 1938 Dirio das sesses n 167) defendia que: Os ensinamentos de coisas abstractas e absolutamente em desacordo com o meio em que viva d como resultado exemplos que todos ns conhecemos, na aldeia: rapaz que fique distinto na instruo primria um rapaz perdido para a famlia. (...) Principalmente nos meios rurais, fazer o ensino primrio por meio de agentes altamente intelectualizados tem inconvenientes gravssimos, porque, inconscientemente umas vezes, e conscientemente outras, esses agentes de ensino so chamados a dar ao 20esprito, sobre as cousas normais da vida, uma preponderncia que torna inadaptveis ao meio os seus melhores alunos. No discurso dos Deputados de 61 o Pas mantinha-se dividido em dois: o urbano e o rural. Era sobre este, caracterizado sempre como as gentes do campo, as massas rurais cujas cabeas no devem ser carregadas com ideias e a quem sobram livros na escola (Dirio das sesses, 18 de Janeiro de 1961), mas reconhecido como mais carente de desenvolvimento, que as preocupaes da reforma educativa no ensino primrio eram mais referidas. Porm uma vez que os deputados que se pronunciavam sobre o caminho da educao no meio rural eram oriundos desse mesmo meio ainda o dividiriam em duas classes, pertencendo eles, no s gentes do campo, mas a uma burguesia agrria, ideologicamente ainda hegemnica, mesmo que j em declnio econmico (Santos, 1992) e por isso consciente de que a sua sobrevivncia como poder social se faria custa de uma modernizao. O ano de 1961 assistiu a acontecimentos levados a cabo por foras oposicionistas ao regime que o abalaram. Em Janeiro de 1961 o assalto ao paquete Sta Maria, apelidado operao Dulcineia, tem alguma repercusso internacional chamando a ateno para o descontentamento interno. A 4 de Fevereiro de 1961 iniciou-se a luta pela independncia em Angola, em Abril de 1961 o ministro da defesa nacional, Botelho Moniz faz uma tentativa abortada de golpe militar, a 18 de Dezembro desse mesmo ano a Unio Indiana ocupa e integra no seu territrio as cidades de Goa, Damo e Diu, em 31 de Dezembro de 1961 uma tentativa de revolta eclode a partir do regimento de Infantaria n 3 em Beja. O sentimento de ameaa de perigo para o regime, transfigurado em sentido de defesa do Pas, legitima uma poltica de endoutrinao ideolgica bem patente no discurso educativo da Assembleia Nacional: Assistimos () infelizmente a um certo amolecimento na capacidade educadora da famlia. Tal insuficincia deve ser compensada pela actuao da igreja e da escola. Mas este esprito (a vontade de se identificar com aqueles que h sculos escreveram a gesta de um destino nico) no pode restringir-se s horas fugazes de euforia patritica. Impe-se robustec-lo na persistente valorizao pessoal de todos os portugueses. um novo servio que ter de se pedir escola (Interveno do Deputado Nunes Barata, Dirio das sesses n 186, de 18 de Janeiro de 1961, p. 257). Sofro, e sofro angustiosamente, porque tenho dvidas se conseguimos formar intelectuais maneira de S. Toms de Aquino e de Cames ou nos moldes de Rousseau e Karl Marx. 21Receio, e receio sinceramente, que se criem cientistas e tcnicos que s reconhecem a sabedoria finita do homem e se esquecem da sabedoria infinita de Deus.() E vive assim, dentro de mim, em plena ortodoxia, a convico de que a aco oficial para a formao de carcter moral no acompanha, ou acompanha mal, a intensa aco formativa do carcter intelectual e do carcter fsico. () no resisto ntima tentao de aqui manifestar o meu receio, cada vez mais vivo, quanto formao da nossa juventude e, atravs dela, quanto ao futuro da nossa ordem social. Que tremendas calamidades no podero surgir se muito reforamos a bagagem intelectual e tcnica de tantos a quem descuidamos a correco de maus sentimentos - congnitos ou adquiridos em abundantes meios de perverso - e que terrivelmente iro colaborar com aqueles conhecimentos, que afanosamente foram proporcionados! Assim, solto a minha voz () pedindo ao Sr. Ministro da Educao Nacional () que continue a entregar-se a este () preocupante problema () dando admirvel organizao Mocidade Portuguesa a mxima ateno e o maior auxlio, para que ela continue a forjar caracteres da rigidez do heri Nascimento Costa () descentralizando cada vez mais o ensino liceal de forma a aproveitar-se o melhor ambiente formativo dos meios provinciais menos contaminados pelo vrus das sugestes e de atractivos indesejveis; revigorando intensamente a aplicao prtica dos diplomas que fiscalizam e controlam esses proliferantes meios indesejveis e aproveitando o mais possvel a poderosssima arma educativa que a imagem, cuidando com rigor dos programas cinematogrficos e da televiso() O mal que at aqui tenho vindo a apontar ( ) tem a mais repugnante expresso e o mais descarado acolhimento nessa famigerada ONU (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n 13, de 11 de Janeiro de 1962, pp. 314- 315). Mantinha-se presente a cartilha poltico-ideolgica do Estado Novo agora revivificada por novos heris11, mas com um dos seus pilares, a Famlia, amolecido indiciando mudanas sociais que urgia conter. Esse papel reservavam-no estes representantes da Nao escola e igreja. De novo os mesmos culpados: uma educao centrada no intelecto e no desenvolvimento cognitivo, o vrus das sugestes, dos atractivos e dos meios indesejveis (persiste a utilizao da implicatura que torna os ouvintes ideologicamente coniventes com o discursante ), e um culpado recente identificado, a ONU. A educao moralizadora e a censura so as nossas armas, os meios provinciais os ainda puros, inoculados so os doutrinveis em quem se dever investir. Ao discorrer sobre o papel da escola no forjar do carcter da gente moa, o Deputado Urgel Horta, em contraponto com a omisso sobre a efectivao desse papel, exalta a aco da Mocidade Portuguesa, clarificando, sem quaisquer rodeios, a tarefa que 11 Nascimento Costa era tenente da Marinha Portuguesa, e morreu em combate durante a ocupao de Diu pelas foras da Unio Indiana. 22considera por esta bem exercida de inculcao doutrinria ideolgica, com a expressa finalidade de garantir o futuro do regime. Diz o que espera da escola, sabe o que faz a Mocidade Portuguesa: Ao falarmos destes problemas queremos lembrar a aco especfica e profundamente educativa e social que a criao da Mocidade Portuguesa exerce nas diferentes camadas da nossa juventude acadmica. () Deve-se a criao do notabilssimo empreendimento ao esprito ousado, brilhante e previdente do Prof. Carneiro Pacheco () E assim deu realidade a uma actividade doutrinria em que a Mocidade Portuguesa teria a desempenhar um grande papel. Essa actividade desenvolveu-se dentro dos princpios estabelecidos num clima de adeso e compreenso nos seus postulados, e por toda a parte e em todos os meios se fez sentir a calorosa e estimulante aco da instituio patritica e nacionalista. () As manifestaes da sua intensa actividade, inteiramente ordenadas e disciplinadas, eram seguidas por quantos viam nesses rapazes os continuadores do Regime, que deu horas de intensa glria a Portugal, e que hoje, em horas amargas, lutam valorosamente pela sua grandeza12 (Interveno do Deputado Urgel Horta, Dirio das sesses n 18, de 19 de Janeiro de 1962, pp. 430- 431). Em 1964 e aquando do debate do aviso prvio sobre educao nacional evidencia-se a premente necessidade de desenvolver cultural e economicamente o pas para responder emergente industrializao. O ensino mdio surge ento como imprescindvel. Com a criao de institutos mdios dar-se-ia origem a que milhares de rapazes e raparigas, que, por falta de meios econmicos, no podem deslocar-se da provncia, obtivessem uma cultura mdia que de outra forma no podero conseguir () Nessa ideia de escolas tcnicas a criar nas cidades da provncia h, a meu ver, uma que se impe absolutamente, a das escolas agrcolas de nvel mdio, cujo nmero necessrio seja aumentado (Interveno do Deputado Pinto de Mesquita, Dirio das sesses n121, de 24 de Janeiro de 1964, p. 2996). Eu diria que essas escolas () no deveriam ser nas cidades de provncia, mas no campo, nas aldeias, para que o agrnomo se habituasse a calar as botas de cardas e de vitela branca (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n 121, de 24 de Janeiro de 1964, p. 2994-2996). De notar que a inexistncia manifesta de mo de obra qualificada para responder s exigncias do aparelho produtivo, designadamente industrial levou criao, exactamente em 1964, no mbito do chamado Ministrio das Corporaes e Previdncia Social, do Fundo de Desenvolvimento da Mo de Obra, cuja designao, alis, sublinha 12 A Mocidade Portuguesa era uma estrutura com caracterizao para-militar de carcter obrigatrio para todos os alunos e alunas, organizando-os de forma hierrquica, visando a integrao ideolgica nos chamados ideais do Regime. 23o pensamento menorizador que se entende dar formao profissional, instrumentalizando-a como factor de produo no prevalente. O cotejo de especialidades que esse Fundo previa limitava-se a profisses manuais, designadamente no campo da construo civil e da reparao automvel. O Fundo no integrava profisses do sector primrio e, assim, no inclua o sector agrcola. A preocupao pelo seu desenvolvimento , pois, significativa e sugere o receio de parte da classe mdia portuguesa pela perda de prevalncia econmica e social. Da que pensamos encontrar algum trao de ressaibo classista nos termos em que o homem de Braga, figura proeminente do regime, Governador civil nos anos 60, se refere ao agrnomo. Como membro de uma burguesia rural, detentora de privilgios que o Estado apoiava, veria o seu poder econmico ameaado pela ascenso de uma burguesia industrial e a sua hegemonia ideolgica por uma classe intelectual emergente. A convico da dependncia da educao face economia claramente expressa durante a generalizao do debate na defesa do ensino tcnico com a criao de institutos comerciais e industriais: Nascida do crescente intercmbio das economias nacionais ou de bloco, a internacionalizao dos mercados obriga constante modernizao da maquinaria e exigncia cada vez maior de apurada qualidade da mo-de-obra. () O espao econmico portugus e a inevitvel integrao europeia impem-nos () a criao do substracto que torne possvel a expanso industrial como meio nico da nossa sobrevivncia. () Apenas a escola pode garantir essas condies de xito () Lado a lado com o fomento econmico deve situar-se o quadro de educao que possibilite ou torne autntica a exigncia tecnolgica do processo industrial. Para tanto reputo indispensvel a programao de cuidada poltica educacional que melhor se coadune com o combate s deficincias que afectam a nossa instruo pblica, ao mesmo tempo que lance bases susceptveis de um maior apoio para o desenvolvimento especializado do ensino tcnico (Interveno do Deputado Folhadela de Oliveira, Dirio das sesses n 120, de 23 de Janeiro de 1964, pp. 2972- 2973). A sustentar esta opinio e a legitim-la o deputado recordava palavras do ento ex-ministro Leite Pinto: Para formarmos mo-de-obra especializada preciso que comecemos por dispor de uma massa de jovens sos de corpo e de esprito e com instruo de base (Interveno do Deputado Nunes de Oliveira, Dirio das sesses n 119, de 22 de Janeiro de 1964, p. 2951). Na apresentao deste aviso prvio pugnava-se pela extenso da escolaridade obrigatria dos 6 aos 12 anos e obrigatoriedade de frequncia at aos 14 anos para quem 24no obtivesse entretanto aproveitamento. A igualdade de oportunidades contudo uma noo mitigada pela defesa de fileiras precoces: Quanto forma como esse prolongamento se poder efectivar () duas hipteses nos ocorrem neste momento. Uma delas seria, aps o perodo de ensino primrio, criar-se o que designaremos por ensino de iniciao tcnica, dos 10 aos 12 anos, que seria ministrado por professores com preparao prpria, de acordo com as preferncias dos alunos e dos pais e em relao ao meio ambiente que os cerca. E assim haveria a possibilidade de fomentar o ensino agrcola elementar, porque nunca ser demasiado tudo o que se faa no sentido de no menosprezar a extraordinria importncia da agricultura na economia do pas e o ensino tcnico profissional pelas perspectivas que oferece a uma preparao cultural do operrio e do capataz que permitam maior e melhor rentabilidade no trabalho. Este esquema poderia servir de transio a uma reforma de maior amplitude e que se enquadraria num outro de escolaridade obrigatria extensiva a uma 6 classe (Interveno do Deputado Nunes de Oliveira, Dirio das sesses n119, de 22 de Janeiro de 1964, p. 2951). Um dos argumentos apontados para a reduo do nmero de alunos por turma , embora articulada com a importncia da diferenciao pedaggica, precisamente, a defesa de uma orientao precoce: A classe muito numerosa, de mais de 30 alunos, faz com que o professor oriente o seu ensino no sentido de tcnicas de conjunto, desprezando, por impossvel de aplicar, o estudo das diferenas individuais. () No possvel, assim, processar-se na escola primria uma primeira seleco por tendncias o que viria a significar a possibilidade de uma tentativa de orientao profissional (Interveno do Deputado Jos Alberto de Carvalho, Dirio das sesses n 120, de 22 de Janeiro de 1964, p. 2970). As teorias da modernizao e do capital humano eram as armas dum saber actualizado13 que justificavam as medidas propostas legitimadas pelo atraso reconhecido que caracterizava o pas. Mais do que nunca h necessidade imperiosa de incentivar a preparao especializada da nossa juventude como factor de progresso material e de valorizao humana. A capacidade cultural dos que trabalham, qualquer que seja o modo de vida, condio essencial ao triunfo no campo individual e colectivo. Ora os pases s progridem e passam a lugares cimeiros desde que a instruo das suas gentes assente em evoluda tcnica ao servio da respectiva profisso (Interveno do Deputado Folhadela de Oliveira, Dirio das sesses n120, de 23 de Janeiro de 1964, p. 2972). 13 nesta dcada de 60 que Theodore Shultz formaliza a Teoria do Capital Humano 25 Porm, a par da nfase dada ao econmico como factor de modernizao e de progresso material de que dependem todos os outros, surgem vozes que, no se identificando como de opositores a esta viso mais economicista, se arvoram em arautos dos valores espirituais: O fim imediato no verdadeiramente o fim consistente e duradouro, enquanto o objectivo mediato tende claramente para a eternidade. O imediato lembra s vezes a fugacidade traioeira do prazer e o mediato idealiza a suavidade perene da alegria. () Ao debruar-me, Sr. Presidente, sobre este problema da sade escolar, reflecti e meditei mais uma vez sobre a ideia de bem-estar, desde a ausncia utpica de tenso ao bem-estar do mstico no auge das atrocidades dos algozes. E com todo o respeito pelo mais actual conceito cientfico da unidade biolgica psicosomtica tenho, todavia, de me manter conscientemente fiel dualidade divisvel pela minha f (Interveno de Deputado Dlio Santarm, Dirio das sesses n110, de 22 de Janeiro de 1964, p. 119). Decorrente de linhas de pensamento no convergentes, mas pouco assumidas como tal no debate, e, colocada a questo a quem pertencem as escolas (sesso de 22 de Janeiro de 1964, p. 2971), possvel desvendar posies que no se compatibilizam completamente com a resposta do Deputado Jos Alberto Carvalho (p.2971) de que a educao pertence Famlia, Igreja, ao pblico em geral e ao Estado () em igualdade de responsabilidades e deveres. A atitude de no confronto, de aparente consenso (no h praticamente qualquer interaco dialgica) confirma mais uma vez a representao que os membros fazem de si como pertencentes a um ns unssono garante do bom caminho da nao, ocultando entretanto a vontade de assegurar interesses de classe. A defesa do ensino particular, concretamente do ensino pela Igreja, vigorosamente defendida pelo nico Deputado que, embora cuidando de elogiar os proponentes do aviso prvio e o Ministro da Educao e se solidarizar com os objectivos da proposta, assume uma discordncia. Discorda com a alnea que define a funo do ensino particular como a de suprir os limites do ensino oficial porque: Diz o imortal pontfice (Pio XI na encclica Divini Ilius Magistri) a quem devemos colunas de luz a iluminar o mundo () referindo-se competncia especial em matria de educao primeiro que tudo ela pertence de modo sobreeminente Igreja por dois ttulos de ordem sobrenatural que lhe foram exclusivamente conferidos pelo prprio Deus e por isso absolutamente superiores a qualquer outro ttulo de ordem natural A Igreja, ao exercer a sua 26aco educativa f-lo por direito prprio, porque tem sobre todo o baptizado um direito de educao que excede o dos prprios pais (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n 121, de 24 de Janeiro de 1964, pp. 2992-2993). Entretanto, lembra o que ali j tinha dito em 1962: Nada valem planos de fomento, estrondosos e benficos xitos de carcter financeiro e at social, realizaes materiais que, na verdade tanto tm engrandecido este pas, se continuarmos a abandonar a juventude a si prpria, deixando que a sua alma seja minada por uma propaganda sistemtica a que nada temos sabido opor de srio. E invectiva o neutralismo poltico e religioso do vazio da alma da nossa gente moa S a aco da Igreja poder fazer frente demolidora obra dos sequazes de Moscovo. pergunta Qual o papel que incumbe ao Estado na educao responde o mesmo Deputado que aquele que est definido nas encclicas. Resposta que satisfaz os interlocutores que admitem que o Estado tem que reconhecer as suas prprias deficincias. Os deputados que sobre esta matria se pronunciaram concordam assim que ao Estado compete subsidiar o ensino religioso e ensino particular quando este disso se mostrar merecedor, aliviando assim o seu oramento () (p.2992). Em coerncia com esta posio apela-se liberdade de escolha da escola pelas famlias e abolio do programa nico: uma questo de justia dar s famlias portuguesas a possibilidade de escolherem livremente o gnero e o estabelecimento de ensino que elas vivamente desejem dar a seus filhos. () necessidade de abolir o programa nico substituindo-o por um programa-base apenas de linhas esquemticas () Nesta nova configurao do ensino teria relevo especial um programa especfico, destinado s raparigas cuja formao feminina no podemos continuar a descurar (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n121, de 24 de Janeiro de 1964, p. 2993. E depois de citar Baltazar Rebelo de Sousa afirma: Precisamos, como escreveu aquele antigo e muito digno membro do Governo, que as nossas escolas no esqueam que perante a rapariga que se acolhe sua sombra a sua primeira obrigao ver nela a futura esposa, a futura me, a rainha do lar, sem a qual este, perdendo o influxo feminino, restar vazio de encanto (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n121, de 24 de Janeiro de 1964, p. 2993). 27A aparncia de uma Assembleia a uma s voz era no s produzida pelo estilo deferente e de no contradita institudo, como resultante da necessidade sentida pelos parlamentares de demonstrarem uma unvoca e unssona convergncia com a ideologia do regime. Descortinam-se contudo diferentes sensibilidades que, no constituindo fractura porque amenizadas por um entendimento comum conservador, registam, pelo menos, a influncia de correntes de pensamento ento emergentes: A educao no apenas um acto de ministrar ensinamentos ou conhecimentos, , mais do que isso, a afirmao de uma atitude a respeito dos problemas da existncia e da vida. Por outro lado, Portugal, embora pas transcontinental, no pode virar as costas Europa, onde se processa um planeamento educativo que, visando uma promoo econmica e social contraposta da unio das Repblicas Socialistas Soviticas e dos Estados Unidos da Amrica- teremos fatalmente que acompanhar (). Nesta conformidade, surge o personalismo cristo,() que considera no todo humano o indivduo ou homem natural e a pessoa ou homem espiritual () Destarte fcil de concluir o sentido totalista, global das concepes crists, cuja pedagogia abarca a um tempo, numa sntese feliz, o conjunto de valores das vrias correntes, entrando em conta com a natureza, a sociedade, a cultura, a famlia, a escola, a Igreja e o Estado bem como a livre determinao do indivduo no objecto prprio da educao (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n 122, de 30 de Janeiro de 1964, pp. 3009-3011). Ao invocar o personalismo cristo 14como inspirador da sua concepo de educao a interveno do Deputado que citamos dir-se-ia situar-se ideologicamente num campo mais progressivo e europeu do que outras intervenes que entretanto tinham dado o tom claramente conservador ao debate. A referncia Europa poder-se-ia alinhar nesta matriz de pensamento, no fora a expresso fatalmente. O Deputado em causa no resiste porm a fazer doutrina e, com ela, esclarecer os demais sobre a sua lealdade aos princpios do regime: Mas imanente a toda a educao deve estar presente o seu carcter nacional e patritico, pois o amor da Ptria, a sua dignificao e engrandecimento no embarga, nem ofusca o teor universal da educao () Desta forma a nossa pedagogia deve integrar-se por razes naturais, ticas e de tradio, por todas as razes humanas e espirituais sob que se moldou a nossa face 14 O personalismo, cujo representante francs foi Emmanuel Mounier (1905-1950), assenta sobre um certo nmero de postulados: 1. A pessoa a origem de todos os valores. 2. A comunidade to originria como a pessoa: a reciprocidade das conscincias primeira em relao ao sentimento da individualidade. 3. O respeito e a valorizao da pessoa constituem o melhor escudo contra qualquer irracionalismo mortfero e contra qualquer tentao totalitria (Clment, E. et al, 1999). 28histrica no chamado nacionalismo cristo (Intervenes do Deputado Sales Loureiro, Dirio das sesses n 122, de 30 de Janeiro de 1964, pp. 3009-3011). O desenvolvimento urbano e industrial eram para o regime fatalidades. Inevitveis, mas a controlar. O discurso ideolgicoassentou, ento na exaltao do ruralismo humilde como expresso da pureza de sentimentos e de valores morais e patriticos. Esta apologia era a mscara do receio da perca da hegemonia poltica e econmica por parte da burguesia rural, mas tambm do receio de que o contraponto fosse a emergncia de um proletariado industrial e urbano reivindicativo de novas condies sociais. O antdoto a tais consequncias , como observa Torgal (1989) foi o refgi(o) na defesa de uma ordem de valores econmico-polticos de tipo tradicionalista e moralizante. A barricada escolhida foi a do catolicismo de linhagem democrist com inverso integrista. Por esse motivo () a Igreja no pode deixar de ter tido um papel fundamental no processo poltico do Estado Novo (Torgal, 1989, p. 185). 2.3.3. Almejando um pas de jovens lusitos, chefes de quina e comandantes de castelo15 Procurmos tambm na anlise do discurso dos parlamentares do perodo considerado entender como esto representados dois grupos de actores sociais: os alunos e os professores, ou seja, de que modo estes actores sociais so representados atravs da realizao lingustica e qual a relevncia sociolgica e ideolgica desse modo de representao. Podemos dizer que o grupo alunos excludo como actor social j que s referido em termos numricos ou estatsticos (cerca de 80%) e administrativos (cerca de 20%). Efectivamente no h no discurso parlamentar marcas de representao do aluno enquanto tal, ou seja, enquanto actor no processo educativo. Nos debates sobre educao os deputados utilizam a classificao juventudeou jovens e crianas para referir uma dada classe de agentes sociais. A excluso do actor social aluno e a incluso da categorizao juventude ou jovens e mesmo crianas aparenta uma representao mais alargada dos segundos em relao ao primeiro conceito. Porm esta escolha tem 15 A Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Femininas tinham Comissrios Nacionais da confiana de Salazar e eram organizadas maneira de um exrcito com as seguintes divises: as quinas com 6 elementos comandados por um chefe de quina, os castelos com 30 elementos chefiados por um comandante de castelo e as falanges ou bandeiras com 240 elementos, chefiados por um comandante de falange. Os filiados constituam cinco categorias etrias: os lusitos, os infantes, os vanguardistas e os cadetes. 29implicaes ideolgicas que reduzem o aluno a uma categoria de actores sociais sem um papel que o identifique como tal. A minimizao destes actores sociais tanto mais evidente quanto eles (os jovens, a juventude so, na representao discursiva, dotados de papis passivos, isto , so representados como submetendo-se actividade de outros, como sendo receptores dela: Sr. Presidente: absolutamente necessrio e indispensvel promover uma vasta aco de esclarecimento e de doutrinao juventude. Esta tarefa, que urgente, ter que ser confiada Mocidade Portuguesa, que num Plano de renovao firme, decidida e eficiente realize um trabalho de renovao mental, de enriquecimento das conscincias, de verdadeiro e inequvoco sentido nacional. Ser a divulgao pelo livro, pela imagem, pela palavra. Mas para tal campanha impe-se desde j profunda e radical reforma na organizao e funcionamento das bibliotecas escolares (Interveno do Deputado Jos Pinheiro da Silva, Dirio das sesses n 13, de 11 de Janeiro de 1962, p.320). De alguma forma contradizendo a representao dos jovens como alheados e indiferentes aos problemas nacionais, o mesmo Deputado reconhece neles interesse ou, no mnimo, presena, em campos ideolgicos, mas f-lo ainda assim no papel de actores passivos: Permevel a influncias e doutrinas aliciantes, a juventude deixa-se facilmente arrastar para campos ideolgicos que uma literatura nefasta e dissolvente espalha, alastra e contamina, num campear desenfreado, que no cessa de crescer e prosperar, negando e destruindo os valores imutveis e sagrados, que so patrimnio da cultura e da civilizao das naes que souberam consolidar-se sombra de elevados e nobres ideais (Interveno do Deputado Jos Pinheiro da Silva, Dirio das sesses n 13, de 11 de Janeiro de 1962, p.320). A diviso ideolgica entre bons e maus, ns e os outros identifica papeis activos participativos respectivamente em aces positivas e em aces negativas. Neste caso os actores com papel positivo um ns, o Governo ( implcitos, no esto nomeados, h um sujeito indeterminado na expresso absolutamente necessrio e indispensvel promover) e explicitamente a Mocidade Portuguesa para tal mandatada. O actor social com papel activo negativo tambm no nomeado (est escondido atrs de literatura nefasta e dissolvente) o que implica um conhecimento partilhado que se 30pressupe e que refora a pertena dos que o partilham a um grupo ideolgico que ao mesmo tempo dominante. O papel passivo atribudo juventude quase sempre negativo: Dissipam-se no vcio as melhores energias, avilta-se ou inverte-se a escala de valores e as inteligncias obscurecidas de autnticos paranicos dos nossos dias , dementem-se nas lucubraes abjectas de existencialismos ocos presos nos corpos ao ritmo gangsteriano de rocks, afogando um ou outro laivo de conscincia no banho imundo da vodka. E a culpa toda desta juventude sem alma, verdadeira excrecncia do nosso tempo, tem-na, primeiro que tudo a famlia que renunciou sua sagrada misso (Interveno do Deputado Sales Loureiro, Dirio das sesses n 29, de 8 de Fevereiro de 1962, p. 29). Em 1962 o movimento estudantil que se vinha a alargar e a fortalecer apresenta agora uma feio mais politizada e a crise acadmica um facto incontornvel que marcar o futuro das Universidades at ao 25 de Abril de 74. No encontrmos no discurso dos Deputados referncia directa a tais movimentaes indiciando hipoteticamente que, mais do que dar importncia ao real significado desses acontecimentos, a Assembleia escolhia considerar antes uma atitude de acusao, perseguio e inculcao de doutrina colonialista conservadora: Certos indcios recentes de carcter subversivo () demonstra, que se pretende subverter, desnacionalizar a juventude, fazendo ruir pelos alicerces a nossa frente interna () H que educar os nossos jovens no amor aos ideais sublimes que fizeram da Ptria lusa um exemplo de vitalidade sem par no mundo desagregado que nos cerca. Indispensvel se torna a criao em cada Faculdade de uma cadeira de Formao Portuguesa para que os nossos universitrios se orgulhem do cho ditoso em que nasceram e no esqueam de vez os rudimentos de uma formao que, sem continuidade, se perde na poeira do esquecimento (Interveno do Deputado Brilhante Paiva, Dirio das sesses n 29, de 8 de Fevereiro de 1962, p. 669). A representao dos jovens como actores negativos no se faz apenas enquanto receptores de propaganda ideolgica contrria ideologia do Estado Novo, mas tambm como actores sociais que so apresentados como comportando-se de forma dissoluta, imoral. A aposio destas duas formas de representao dos jovens no certamente incua: 31Um casal de idosos, percorrendo, nos seus afazeres, os estreitos passeios laterais das ruas da Baixa, hora da trrida, empurrado, como todos os utentes, por trs jovens ruidosos, que o ultrapassam a passo de cavalo. () dois levavam nos ps uma espcie de chinelos, talvez mais prprios para serem usados por meninas nas horas em que permanecem em casa junto dos seus; o terceiro umas botas de taco grosso e estrondoso (); os trs tinham de comum o tipo de cala debruada, cosida a linha branca sobre tecido mesclado azul ou preto, dobras largas em baixo, justas perna sem sinais de terem sido passadas a ferro () cabeleiras que eram verdadeiras jubas () Numa pastelaria ou caf do bairro de D. Estefnia, quer de manh, quer tarde, vi frequentes vezes grupos de rapazes e raparigas de idades que podem oscilar entre os 14 e os 18 anos, por vezes cheios de livros; por temas de discusso havia entre eles coisas de arte os vrios ismos da poltica artstica ou da arte poltica. Rapazes e raparigas fumavam desbragadamente; as posturas eram de camaradagem perfeita, sem margem a supor-se de irregularidades atentatrias do pudor fsico, certo, mas eram em si mesmas todas elas de atentado ao recato, que sempre de supor como atributo das meninas daquelas idades (Interveno do Deputado Pinheiro da Silva, Dirio das sesses n 30, de 9 de Fevereiro de 1962, pp. 681-682). No se trata efectivamente apenas duma expresso do hiato de geraes, mas de um posicionamento que repudia toda e qualquer manifestao cultural (os ismos) que se afaste dos cnones morais que se pautam pela obedincia, pela conformao e aceitao de uma dominao ideolgica totalitria. Aps a nota pastoral do Episcopado emitida no incio do ano de 1962, no seguimento da ocupao e integrao de Goa, Damo e Diu na Repblica Indiana, a Assembleia Nacional identificou-se com o iderio dos bispos e entre outros assuntos fez suas o conceito de misso que caberia juventude: juventude vai um especial apelo para a realizao da trplice obra: tornar Portugal mais rico, mais humano e mais cristo, pormenorizada esta trilogia de aspiraes na promoo dos portugueses a um maior bem-estar material, social, moral, intelectual e espiritual, aspectos da realizao do reino de Cristo e de comparticipao na sua obra redentora (Interveno do Deputado Agostinho Cardoso, Dirio das sesses n 21, de 24 de Janeiro de 1962, p. 495). 2.3.4. Guardies do templo precisam-se Que professores para tal ensino e para tais alunos? Entendemos que a representao dos professores e as propostas da forma de os gerir expressas no discurso dos parlamentares da Assembleia Nacional no perodo considerado nos conduzem a uma anlise no s capaz de desnaturalizar os imperativos ideolgicos que preconizaram a 32sua gesto como de contribuir para o entendimento das formas pelas quais a identidade dos professores tem sido moldada. Trs factores, na sequncia, alis, do que nos captulos anteriores aprecimos, so a base das propostas e argumentao dos Deputados: a extenso e universalizao da escolaridade bsica; a modernizao necessria ao desenvolvimento econmico; a manuteno do regime pela unidade nacional. O primeiro factor exigia um aumento do corpo docente: Para a execuo desse plano de estudos (com vista ao aumento da escolaridade primria pelo prolongamento de estudos preparatrios que ho-de preceder os dois ramos de ensino liceal e tcnico), que se impe e urgente realizar, so necessrios professores. Enquanto os no tivermos em quantidade bastante e em qualidade satisfatria no de aconselhar essa experincia, que poder redundar num completo fracasso. () Todos os anos na abertura do ano lectivo, surgem dificuldades em prover as vagas de professores de servio eventual, dado o aumento cada vez maior da frequncia escolar. H liceus que se mantm sem professores durante semanas, por no se encontrarem nem sequer concorrentes com as habilitaes mnimas para o exerccio da funo docente; e j no falo daqueles que aceitam servio de disciplinas em cujas matrias so pouco mais do que leigos, para no dizer analfabetos. O nmero de agentes de ensino, mesmo de servio eventual, com licenciatura bastante inferior s necessidades, sobretudo nalguns grupos (Interveno do Deputado Olvio de Carvalho, Dirio das sesses n 28, de 7 de Fevereiro de 1962, pp. 646- 647). O recurso a professores no habilitados no legitimava o reconhecimento profissional com consequncias identitrias. A expresso agentes de ensino, usada pelo deputado para, precisamente, os definir como no profissionais (e englobando nela todos), disso exemplo. Denunciam-se as ms condies de trabalho, especialmente as dos professores do ensino primrio: Posso dizer a V. Ex que h professoras primrias no Alentejo que vivem em tabernas e em habitaes cedidas, o que constitui um perigo moral bastante grave (Interveno do Deputado Jos Alberto Carvalho, Dirio das sesses n 7, de 15 de Dezembro de 1961, p.211). O problema tem a maior pertinncia, pois, desgraadamente, o Plano dos Centenrios, referente construo de escolas, no incluiu as habitaes para professores. Ora isto foi tremendo e tem graves consequncias de ordem social e moral, dando origem a que o professor que vai ali dar um recado, e noutro tempo era considerado o homem bom da terra, no usufrua hoje da mesma considerao, pois quase considerado um estranho (Interveno do Deputado Antnio Santos da Cunha, Dirio das sesses n 7, de 15 de Dezembro de 1961, p.213). 33A criao de um novo tipo de professor que o aumento da escolaridade obrigatria, quer em nmero de anos de frequncia quer no nmero de crianas abrangidas, inevitavelmente produziria no era considerado por estes Deputados que ansiavam pela manuteno de uma imagem de professor, membro respeitado da comunidade, exemplo moral, o homem bom. Esta imagem de Joo Semana da Educao, construa uma identidade de que no era a matriz profissional o seu principal trao. A ideia da presena do professor no local da escola j foi encarada no Decreto n 2947 de Janeiro de 1917 e posteriormente abandonada. Agora que o Governo resolveu readoptar tal princpio e dele parte a iniciativa, cumpre-lhe zelar pelo respeito da pureza das suas intenes (). A aco formativa do professor no meio rural, na generalidade privado de elites, entregue a si prprio e aos mal-intencionados, to importante e susceptvel de to decisiva influncia que julgo indispensvel a sua total integrao no meio em que vai exercer a sua misso (Interveno do Deputado Rodrigues Prata, Dirio das sesses n190, de 25 de Janeiro de 1961, p. 345). O mesmo Deputado, Jos Alberto Carvalho, retoma a mesma ideia, em 1964: No que respeita ao professor, importa promover a sua presena actuante no local da escola. Tem sobretudo significado e mrito especiais a presena do professor nas aldeias, nos aglomerados rurais, totalmente desprovidos de guias e elites. A mais do que em qualquer parte torna-se indispensvel a sua presena total, efectiva, muito para alm da sua presena fsica durante as horas lectivas (Interveno do Deputado Jos Alberto Carvalho, Dirio das sesses n 120, de 23 de Janeiro de 1964, p. 2970). Entre as condies desfavorveis que desmotivavam o ingresso na carreira docente significativo assinalar o pouco prestgio de que a profisso usufruia: Mas, porque faltam professores, pergunta-se. A resposta simples. Em primeiro lugar, h uma razo de ordem econmica. A remunerao no compensadora e hoje ningum procura profisses que no sejam rendosas ou com possibilidades de virem a s-lo () mas outras razes podem aduzir-se para explicar o fenmeno. A carreira no aliciante, pelo desprestgio em que caiu, merc de circunstncias vrias. () e que em sntese vamos dar pela palavra do Dr. Tlio Toms, actualmente inspector do ensino liceal: que papel desempenham hoje os professores na vida pblica portuguesa no me parece que seja de grande relevo. () Parece que o exame de admisso ao estgio, o estgio subsequente, 34e o Exame de Estado lhes vedam, automaticamente, caminhos que poderiam seguir se se tivessem deixado ficar pela licenciatura. Ora o prestgio uma compensao barata, pois no depende do Oramento do Estado (Intervenes do Deputado Olvio de Carvalho, Dirio das sesses n 28 de 7 de Fevereiro de 1962, pp.646- 647). A falta de professores, especialmente no ensino liceal, tendo em vista o propsito de unificao dos ensinos liceal (1 ciclo, antigos 1, 2 anos do liceu) e ciclo preparatrio das escolas tcnicas prolongando a escolaridade primria. O Deputado propunha ento: Perante esta triste realidade, urgente pensar-se numa vasta campanha de aliciamento junto dos jovens que terminam o 2 ciclo dos liceus, de modo a inform-los das vantagens da profisso, dos ideais que ela comporta (). Como ponto de partida para a campanha de aliciamento para o ensino liceal, devero criar-se incentivos que levem os actuais professores eventuais a encaminharem-se para o estgio (Intervenes do Deputado Olvio de Carvalho, Dirio das sesses n 28 de 7 de Fevereiro de 1962, pp.646- 647) O segundo factor exige preparao especializada: O papel do professor do ensino secundrio particularmente importante e delicado, em especial no plano tcnico. Mas este plano largamente ultrapassado pela evoluo das ideias em matria pedaggica e pela evoluo social. () A sociedade, cada vez mais especializada e evoluda, reclama para a servir indivduos de competncias cada vez mais precisas e aprofundadas, mas tambm indivduos dotados de uma vasta cultura geral e de uma formao moral elevada, de um carcter capaz de se projectar do plano individual sobre os planos profissional e social (Interveno do Deputado Olvio de Carvalho, Dirio das sesses n 28, de 7 de Fevereiro de 1962, pp.646-647). Na expanso escolar que procuramos enfrentar e que , como tantas vezes tem sido acentuado, factor promordial de desenvolvimento econmico, surge desde logo como dever primeiro formar professores altura das suas pesadas responsabilidades e promover o seu recrutamento, como evidente, entre os melhores elementos de cada gerao. () A Formao tem de constituir a preocupao dominante, para que aqueles que vm a ter sua guarda a juventude possuam as qualidades pedaggicas, cientficas e morais que se impe.(). Importa que o professor como profissional, seja qual for o sector em que actue, no fique apenas nos limites do ensino, mas os ultrapasse, operando no domnio da educao (Interveno do deputado Nunes de Oliveira, Dirio das sesses n 119, de 22 de Janeiro de 1964, p 2954). Nos dois anos que medeiam entre as duas intervenes sobre a formao de professores no se reconhecem diferenas na concepo da funo destes profissionais. Insiste-se nas vertentes pedaggica, cientfica e moral (por vezes substituda por social), esta 35ltima recorrendo afirmao da existncia de crise moral na juventude. Refere-se o plano profissional em 1962 e em 1964 invoca - se o professor como profissional, mas no se afigura que a profissionalidade como estatuto seja uma noo presente, ou sequer adquirida. O terceiro factor espelha-se no discurso sobre a misso do professor: Sempre que me tem sido possvel no me canso de prestar homenagem a to dedicados servidores do Estado, que so, sem dvida os primeiros educadores, pela enorme influncia que exercem na orientao dos primeiros passos e conhecimentos da criana e cujo reflexo decisivo, na maior parte das vezes, para a sua conduta futura. Ao professor primrio cabe, portanto, uma boa parte na responsabilidade na obra a que todos nos devemos devotar em prol da preparao da juventude. A sua profisso impe-lhe obrigaes morais que no pode ignorar nem desprezar. Ele ter de ensinar de forma a comunicar queles que lhe esto confiados o sentido mais nobre do caminho que tm a percorrer. Como algum escreveu, direi para finalizar () que () devemos colocar Portugal como ideal mais alto a servir e que cada portugus possa concorrer, por pouco que seja, para a sua grandeza e para a sua eternidade (Interveno do Deputado Nunes de Oliveira, Dirio das sesses n 40, de 2 de Maro de 1962, p. 896). Unia-se assim a identidade nacional com a identidade do ensino e do professor. Desta feita ao professor no era s exigido actuar como exemplo moral e social, mas como garante da transmisso de valores nacionais. Esses valores nacionais identificavam-se, na poltica nacional-colonialista, com os valores do regime e a preservao dos monoplios de poder: Se os professores de instruo primria no forem politicamente sos, so um perigo. E lembro-me de Mussolini, que, ao ser-lhe perguntado como resolvia este problema dos professores primrios (falta de vocaes), dizia: So os mesmos e so excelentes. Ele tinha o pulso forte, sabia o que queria e como transmitir a sua vontade (Interveno do Deputado Melo Machado, Dirio das sesses n 188, de 20 de Janeiro de 1961). O problema est justamente na formao poltica dos professores. E, no geral, () aqueles professores que sabem realmente orientar a juventude no encontram, no seio das instituies de ensino onde trabalham, o ambiente mais propcio sua misso educadora. () E isto que precisa de ser realmente transformado, renovado ou mesmo irradiado, se possvel for. Mas o problema s pode ser resolvido com uma fiscalizao melhor da entrada para o ensino. No depois de o professor estar a fazer parte dos quadros do professorado que ele pode ser afastado de l. Portanto, na entrada para o estgio, no caso dos professores agregados, auxiliares e efectivos que o problema se pe; ou ento no caso dos professores eventuais, que no se deixem entrar aqueles que so manifestamente 36inconvenientes Situao e ao interesse nacional (Interveno do Deputado Pinheiro da Silva, Dirio das sesses n 47, de 17 de Maro de 1962, pp. 1077-1078). O afastamento de professores considerados politicamente perigosos j tinha sido defendido em sesso anterior por outro Deputado aquando da ocorrncia de intervenes sobre a necessidade de aco de esclarecimento e doutrinao juventude: que todo esse plano ruir se no tivermos a coragem de afastar do ensino aqueles que no aderem aos princpios citados por V. Ex. pelo exemplo que temos que conquistar a juventude, mas no podemos conquist-la com os exemplos e as ideias daqueles que no professam essa doutrina, que, pelo contrrio, hostilizam com iderio muito diferente (Interveno do Deputado Anto Santos da Cunha, Dirio das sesses n 13, de 11 de Janeiro de 1962, p.583). 3. Concluso Neste trabalho pretendemos analisar como, atravs do discurso, os parlamentares da Assembleia Nacional nos anos 1961 a 1964 comunicam e usam uma das representaes sociais que a ideologia. Para tal procurmos fazer uma abordagem micro, do uso da linguagem e das interaces verbais de um grupo social, articulada com uma abordagem macro referente ao poder e dominncia desse mesmo grupo. Considermos assim que os parlamentares eram utentes de uma linguagem e de um conhecimento especficos enquanto membros de um grupo social e institucional cujo poder procuram legitimar pelo discurso que usado como recurso desse mesmo poder. Sendo esse poder baseado no em aces violentas (embora algumas sejam abusivas como a de excluir professores pelas ideias professadas), mas em aces dadas como socialmente consensuais, o discurso expressa um poder baseado na convico da hegemonia. Contudo a revelao dum contexto social e poltico desfavorvel que se afigura dar indcios de incontrolvel, imprimem ao discurso um controlo ideolgico de radicalizao que se manifesta por uma polarizao perfeita entre um ns(sozinhos mas puros) e um eles nomeado atravs de uma lexicalizao redutora e agressivamente judicativa que no pretende apenas identificar, mas que resulta de uma deciso ideolgica. 37 Bibliografia Anbal, Alexandra (1999). A expanso da rede escolar do ensino primrio durante o Estado Novo (1930-1970). Dissertao de Mestrado em Sociologia. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. Clment, E. et al (1999). Dicionrio prtico de Filosofia. 2 edio. Lisboa: Terramar. Correia, J. A. (1998). Para uma teoria crtica em educao. Porto: Porto Editora. Cruz, M. B. (1995). Nacionalismo e autoritarismo no Estado Novo. In Comunicaes XII Encontro de Professores de Histria da Zona Centro. Coimbra. Ferro, A. (1933). Salazar, o Homem e a sua obra. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade. Foucault, M. (1997). A ordem do discurso. Lisboa: Relgio dgua. Loureiro, J.A. (1991). Indstria no Estado Novo (1926-1974). In Dicionrio Enciclopdico da Histria de Portugal, vol.1. (pp. 331- 342). Lisboa: Publicaes Alfa. Martins, M. B.(1973). Sociedades e Grupos em Portugal. Lisboa: Editorial Estampa. Ministrio das Finanas (1953). 25 Anos de Administrao Pblica. Lisboa: Imprensa Nacional. Ministrio das Obras Pblicas (1953). 25 Anos de Administrao Pblica. Lisboa: Imprensa Nacional. Ministrio da Educao Nacional (1953). 25 Anos de Administrao Pblica. Lisboa: Imprensa Nacional. Pereira de Moura, F. (1973) Por onde vai a economia Portuguesa. Lisboa: D. Quixote. Mnica, M.F. (1978). Educao e Sociedade no Portugal de Salazar Lisboa: Editorial Presena. Rosas, F.(1994). O Estado Novo nos anos 30. In Histria de Portugal (dir. Jos Mattoso). Vol. VII ( pp. 281- 283). Lisboa: Crculo de Leitores. Santos, B.S. (1998). A crise final do regime. In O Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1988) (3 edio). Porto: Edies Afrontamento. Torgal, L.R. (1989). Histria e Ideologia. Coimbra: Livraria Minerva. 38Van Dijk, T.(1991). Racism and the Press. In Robert Miles (ed.) Critical Studies in Racism and Migration. New York: Routledge. Van Dijk, T. (1998). Semntica do discurso e ideologia. In Pedro, M. E. (org.) Anlise Crtica do Discurso (pp.105.168). Lisboa: Editorial Caminho. Van Dijk, T. (2005). Discurso, Notcia e Ideologia. Estudos na Anlise Crtica do Discurso. Porto: Campo das Letras.