A Economia Brasileira Marcha Forçada

Download A Economia Brasileira Marcha Forçada

Post on 24-Nov-2015

25 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • f~-t. ~~ Q. \

    Para os que sustentam que a rpida mudana das contasexternas observada no binio 1983-84 resulta da poltica econ-mica levada a efeito no perodo, a guina

  • j no ano entrante. Atravs deste caminho, dficit de transaescorrentes haveria de cair dos US$ 14 bilhes, previstos para 1982,para US$ 6,9 bilhes em 1983 e YS$ 5 bilhes em 1984. Seriaassim compatibilizada a necessidade de obteno de "dinheironovo", com a disponibilidade de recursos financeiros no mercadointernacional.

    Apontado o caminho para a imediata reduo das necessida-des de "dinheiro novo", o documento reconhece que no h muito

    !o que esperar das. exportaes, "cuja expanso est em grandeparte condicionada evoluo da conjuntura internacional". Assim

    \ sendo, "o supervit comercial em 1983 ser assegurado muito

    1mais, pela conteno das importaes (limitadas ao mximo deUS$ 17 bilhes) do que pelo comportamento esperado das expor-taes". .. Quanto aos mecanismos pelos quais as importaessero reduzidas, nada dito, sendo apenas assinalado em queproporo os setores pblico e privado tero reduzidas as suascompras no exterior. O documento ainda mais parcimonioso noque se refere s demais polticas. Acrescenta apenas, a esse res-peito, que "a exemplo do que vem ocorrendo nos ltimos doisanos, dar-sel" ntinuidade ao conjunto de polticas fIscal e m~netria, que devero contribuir para a sensvel desacelerao doprocesso inflacionrio, tendo im~cto adicional positivo, ainda ~& forma Illihreta, sore as contas externas, atravs da reduodo excesso de demanda agregada". "Por outro lado" - acrescen::-

    \\

    ta-odocumento - "ser mantido o realismo nas polticas de taxade juros, correo monetria e, especialmente, na poltica cambial".Quanto ao mais, evita-se falar no que ocorreria com o nvel geralde atividades. Pouco aps, no entanto, o documento do stall doFMI - nitidamente afinado com as diretrizes do CMN - iriaacenar com "um retorno ao crescimento econmico em 1984" 2,

    12. FMI - "Relatrio do staft para a consulta do Art. IV", 10 de fevereiro

    f I de 1983, publicado em anexo Exposio do Ministro de Estado da Fazenda

    i' no Senado Federal em 23/3/83,' Cabe talvez lembrar, a este propsito, que

    no dia seguinte resoluo do CMN, o Ministro da Fazenda declarou im-prensa: "no vai haver recesso nos prximos dois anos, e no poderia ser

    I de outra forma, porque as metas agora fixadas pelo governo para ~ setorexterno sero boas para o pas", ao que acrescentava: "O que bom para oJ Brasil bom para os trabalhadores" (Jornal do Brasil, 26/6/83). Este tipo

    de declarao, abundante poca, e que mais parece revelar sobre a pessoa

    18

    )tI;

    '.

    1 "

    'Z/

    1-...t

    .);

    Os objetivos anunciados pela programao para 83, recebidos poca com a mais completa incredulidade, foram alcanados eat mesmo ultrapassados - como se pode observar na Tabela 1. ~Alm disto, o retorno do crescimento em 84 completa um quadrode resultados positivos no Iront "real" (ao qual se contrapemas severas derrotas colhidas no combate inflao) que o Mi-nistro Delfim Netto iria celebrar em diferentes ocasies 3.

    Segundo ele, o ajustamento externo praticado no Brasil, emresposta s sucessivas "trombadas" recebidas pelo pas, no teria,porm, qualquer originalidade. Assim, referindo-se ao resto daAmrica Latina, diria enftico que "o processo de ajuste foi exa-tamente o mesmo em todos os outros pases". Ao que acrescenta,dirigindo-se aos que pretendam ressaltar o papel desempenhado pelacontrao das importaes, que "no caso brasileiro, em particular,a queda das importaes foi menor do que a dos nossoscompa-nheiros mais prximos - companheiros de sacrifcios, de sofri-mento" 4. A moral da histria salta aos olhos. O Brasil como muitos----- -E!:!.trospases - com ou sem petrleo, alguns mesmo da rbitasocialista - para assimilar a sucesso de choques externos queculminou com a fUtura financeira de setembro de 82; teve deadotar um programa convencional de ajustamento. Posto em r'-'ca o ro rama e estabilizao, desenha o elas toridades

    -.brasileiras e consagra o no aordo com o FMI, a economia, pelomenos no que se refere ao Balano de Pagamentos, respondeu ex-traordjnariamente bem. O xito assim alcanado, no obstante OS]juros externos mdios continuarem excepcionalmente eleva~os,' os IPcapitais de risco no terem voltado a ingressar no ritmo desejado,e o mercado financeiro internacional no ter se recuperado, per-mitiria, em breve, o retorno do crescimento.

    do Ministro, que sobre a' opo tomada pelo governo, ser sistematicamentedesconsiderado ao longo deste trabalho, o qual se interessa apenas pelas deci-ses que - erradas ou certas - paream afetar significativamente o cursodos acontecimentos .3. Vide, p. ex., "Mudnas Estruturais da Economia no Governo Figueire-do", palestra do Ministro na Escola Superior de Guerra, 13' de julho de1984, e "O Reencontro da Nao com o Crescimento". A. Delfim Netto,Folha de S. Paulo, 20/10/84.4. "Mudanas Estruturais na Economia do Governo Figueiredo", op. cit., pp.23 e 47.

    19

  • 21

    texto de Adroaldo Moura e Silva 6, para quem os "principaiselementos de instrumentalizao" da poltica de ajuste podem serassim resumidos.

    No que toca ao controle e reduo do dispndio interno:- o dficit pblico foi combatido, mediante reduo dos)

    .gastos de custeio, investimento e transferncia, e, por outro lado, )aumento da carga tributria;

    - o crdito bancrio interno foi violentamente restringido Je procurou-se reduzir o estoque real da moeda primria. Residemaqui alguns dos principais determinantes da brutal elevao dataxa de juros interna, responsvel, por sua vez, pela retrao nacompra de durveis (inclusive habitao) e nos investimentos;

    - a mudana da poltica salarial, combinada ao desempre-go, determinou grande contrao na folha real de salrios urba-no-industriais, restringindo, em conseqncia, a demanda de bensde consumo.

    No que se refere reorientao do gasto, mediante alteraodos .preos relativos:

    - a taxa de cmbio (real) sofr~u forte elevao, o que ~combinado com a compresso salarial, resultou em violenta altada relao cmbio-salrio;

    - o preo (real) de alguns.derivados de petrleo sofreu \significativa elevao, havendo tambm alguma alta (real) no )preo da energia eltrica.

    Encerrada a listagem das frentes de atuao da poltica deajuste, Adroaldo no se detm em especificar como elas teriamprovocado os resultados obtidos. H no seu texto, a esse respeito,to-somente:

    - uma aposta, segundo a qual a mudana cmbio-salrio a mais "importante medida de poltica econmica em resposta crise externa" 7;

    6. Do autor, "Ajuste e Desequilbrio: Exerccio Prospectivo sobre a Econo-mia Brasileira (80/84)". Mimeo., novembro, 1984.7. Idem, op. cit., p. 14. Delfim Netto, de sua parte, afirma que "Os resulta-dos conseguidos no comrcio exterior foram conseqncia da alterao deli.berada da taxa cambial" ("Mudanas" ... , op cit., p. 17). Para ele, no entanto,at mesmo a maxidesvalorizao de dezembro de 1979 foi eficaz. pormconsensual entre'os observadores do perodo, que a inflao e a poltica cam-bial de 1980 anularam os possveis efeitos positivos da mxi de 1979.

    ~

    !'\.~

    11;'

    11-

    I< *

    o ltimo ponto merece destaque. J em dezembro de 1983o ministro havia declarado que o pas voltava a dispor de um"espao para crescer, no s porque ns temos capital e mo-de-obra desempregada, como porque ns temos uma possibldadede ampliar as importaes do setor privado em 15%". Posterior-mente, congratulando-se com a retomada em curso no ano de 1984,frisaria que o reincio do crescimento "sob liderana das expor-taes se dava na direo correta, que no colide com o equilbrioexterno" s.

    Acredito haver suficientemente sublinhado os resultados al-canados pela economia brasileira; que podem levar a crer que a

    p poltica de ajustamento posta em prtica em 1983 e 1984 foi unisucesso. Para que as mudanas observadas sejam justificadamenteatribudas poltica adotada preciso, no entanto, ir mais alm.H que indagar que medidas e instrumentos foram efetivamenteresponsveis pela promoo do ajustamento, e verificar se a formaem que o ajuste veio a ocorrer corresponde ao esperado comoresultado da ao destas medidas e instrumentos. Isto porquepodemos estar diante (em maior ou menor grau) de uma meracoincidncia entre polticas e resultados. Em tais casos - diver-sas 'vezes registrados em economia - a verdadeira explicaoreside em outra parte, e a poltica supostamente responsvel peloocorrido apenas corrobora - ou at mesmo prejudica - a aode outros determinantes.

    Tendo presente a advertncia anterior, tratemos de especificarno que segue as grandes linhas de poltica de conteno, para, aseguir, confront-las com as mudanas que compem a reviravoltaocorrida nas contas externas do pas. Estaremos assim, ainda quesumariamente, testando a suposta responsabldade das polticasde 1983 e 1984, na obteno de ajustamento externo.

    Comecemos pela especificao das polticas que integram oprograma de. ajustamento, valendo-nos para tanto de um recente

  • GRFICO 1

    -84

    importaes

    ..................

    83.

    82

    15

    17

    21

    13

    19

    25

    23

    10. Banco Central do Brasil, Boletim Mensal, Separata, agosto de 1984.

    27

    23

    contas externas, as importaes brasileiras no pareciam oferecerespao para novos cortes. Isto pode ser inferido de duas constata-es, A primeira, de natureza genrica, est espelhada na Tabela2, a qual nos indica que - ao contrrio do ocorrido nos demais

    , I' '1 d f' , d'. - (Imp ) .~palses aI assma a os - ~=u.~~~~J~~es PIB .~~

    i~~~~!~~tl~J:~~~w~~a~~~l~~tf~8~das importaes brasileiras em 1982 eram constitudos de Combus-tveis e Lubrificantes e Matrias-primas 10. Numa palavra,"as impor- Gtaes brasileiras encontravam-se "no osso", sendo tolice ou m fcomparar a reduo das importaes aqui _verificad com o ocor-rido na Argentina e no Chile, ao trmino do delrio consumistapatrocinado pelas respectivas ditaduras militares. Assim tambm,a galopante elevao das importaes oCQrrida no Mxico e na

    i\

    ;;

    })

    ,"

    I

    I1Iq':r '

    ,d

    - e a concluso, de acordo com a qual "a estrutura industrial ~brasileira demonstrou extraordinria capacidade de adaptao. aos)estmulos de poltica econmica" 8,

    Ficam.faltando os nexos. A menos que se aceite, com o autor,que ao caminhar "na direo de substituir mecanismos- tradicionaisde reserva~.de mercado por mecanismos mais propcios compe-tio atravs do cmbio real e tarifas aduaneiras", e ao "substituira generalizada inclinao do passado de proteger a acumulao docapital atravs de crdito subsidiado e expedientes fiscais, por me-canismos mais impessoais e menos cartorializados"... se estejapromovendo a obteno dos resultados alcanados, Isto, porm,no parece ser mais do que uma tortuosa profisso de f na "m~gica" do mercado. E continuamos sem saber como a poltica deajustamento explica o ajustamento externo realmente verificado. , .9

    22

    8. Ih., op. cit., p. 16. A concluso remete sua Tabela 4. Mas o que l encon-tramos to-somente um registro de dados confirmando o fato de que em1983 a queda das importaes prevalece sobre o aumento das exportaes, en-quanto o inverso se verifica em 1984. H tambm informaes a respeito daespetacular expanso do coeficiente de auto-abastecimento de petrleo. A elesAdroaldo se referir, realando "o dramtico processo de substituio deimportaes que estes nmeros encerram" (p. 18). Sr que o autor o atri-buiria s medidas da poltica que integram o programa de ajustamento?9. Voltaremos ao tema, ao comentar trabalhos de E. Baeha e M. C. Tavares.

    * * *

    Se pretendermos avanar na compreenso de como se deramas transformaes que culminaram no ajustamento externo aquiocorrido, h que perceber, antes de tudo, que o processo brasi-

    leiro de ajustamento difere profundamente no apenas do pre-visto pelas autoridades, co~o' do ocorrido em outros pases.

    O Grfico 1 mostra, em linhas tracejadas, a evoluo dasimportaes e das exportaes previstas pela Programao para83, e, em linhas contnuas, a evoluo efetivamente verificada.V-se ali que, enquanto as exportaes tiveram um comportamen-to prximo ao previsto, as importaes comportaram-se de formaabsqlutamente insuspeitada, Vejamos esta questo mais de perto,

    Ao ter incio, em 1982, a drstica mudana observada nas

    \ ..\ 'II\~

    ~":... "

    , }\'\

  • ~ w~ -24 , 25 ./1'~~ fC

    Venezuela nos anos que precedem o colapso financeiro interna-cional de 1982 criou uma margem de compresso, inexistenteno Brasil. No obstante tudo isto, as importaes brasileiras emdlares de 1982 caram nada menos de 33% entre 82 84. E,

    TABELA 2

    Importaes Totais PIB

    1973 1976 1979 1982 1973 1976 1979 1982.'

    Brasil

  • exportador brasileiro. Tidos em conta estes fatores, percebe-se,alis, que a mudana da referida relao foi em parte compensadapela perda de outras vantagens.

    Por ltimo, mas nem por isto menos importante, h queadvertir que 1982 no deve ser tomado como base para a ava-liao do comportamento das exportaes. Naquele ano verificou-se, por motivos excepcionais e bem conhecidos, nica retrao

    1regis.trada nas exportaes br.'asHeira~nos ltimos 18 anos 12. Facea esta anomalia, o crescimento registrado em 1983 e 1984 contmum elemento "corretivo", de recuperao da tendnCia de longoprazo~3. .

    As conSideraes acima conduzem-nos a resultados que podemser assim resumidos. &W.uU~Wi.>!,>~~~nl~!1.~~~J,~tTl~i&~~-*W.~4 (e sob a influncia de mltiplos fatores) Q~~jBl~1h,~~f-~~i

    ~~~~'s~f~,~~~&ft:-~{~JftWt~~~~~~~f:!~t;f1!~~!g~~~~~r~-~N~Jt.tllti'FJY~~~~1l~~9ii4~~J#l?i:t,~~\~~:.,g9,~~j

  • .,

    TABELA 3Importaes (em US$ milhes)

    Importao de: 1972 1973 1974

    Bens de Consumo 463 720 973Matrias-Primas 1.565 2.560 5.588Combustveis e Lubrificantes 469 769 2.962Bens de Capital 1.734 2.142 3.119

    Importaes totais 4.232 6.192 12.641

    Exportaes Totais 3.991 6.199 7.951

    FONTE: Banco Central do Brasil, Boletim Mensal, separata de agosto de 1984.

    ~ mente:. ~o~'!L~~2,?'Jl.~.e.,s~~Jt,.g!5:;c~M~ji;\~~\}?;~,i9;~~.

  • i(:

    ti

    I'I1 ~IIIr~1

    "Ill

    i,I

    llili!"~

    aperfeioada) pelo governo empossado em 197418 Em tal caso,o novo g.o:erno teria endo~sado~J~~~t;"~~~~121,,,g~g;,:y~~r~im,~"tt9com epdWl9:a.men!9,.,a~r~AgYJ1A,.p:U~.,-lJlJj.ntlqas.c~.rtas precauC?es,a3r{1'dt=~~.~.>-

  • pectiva dos novos governantes, como aquilo que se dever fazerfrente s novas condies imperantes na economia mundial, paraassegurar a transio ao estgio superior do desenvolvimento. Asresponsabilidades da poltica econmica e, em particular, do plane-jamento, seriam enormes. Tanto mais que, relegada s reaes domercado, a economia no parecia tender a reagir crise comnovos avanos. Esta importante questo (mais adiante retomada),

    v,chego~ a ~er explicitada ,por V~12BA?"",.E4f.f"".s.g,r,m~~:~~,..;2z~~q~J1i-

    ~~ e..~Y-.,s.;~~.:~.~c.!....~ ..J~..:;...41.~.~.~d~.,"~j{,...'.J.\s.~.~~.,e.lJ'.s~.a.~>~1.~';.4."~.';C.;I.~o.'-.~".O,~-.~.!~.'~~"I ~ ~~~~q~~Ji~.'m,.r.~\~~~33

  • 34

    Q.e~~,,~~a.vt=r.~!'i'~"1'i' __ "-If~. 'li'.>.'.. ""Nopretenqo, porm, colocar a racionalidade econmica no lugarda yontade poltica, como fundamento da opo. Isto seria equi-vocdo emistificador. evidente, numa palavra, o primado davontade poltica nas decises tomadas a partir de 74. O gtle pre-t~~~~ m2~~;,..~o~fr~~,i9!~~.'ll!e,~q,~vi~~r ~pacJise ~~~9~t~i.~i,Wl2~sly.me~~?r.~7 "gr3;yi~age!>"e,., ~ol>r~t~

  • 37

    30,~I PND, p. 8;31. J. P. R. Velloso, Brasil: A Soluo Positiva, op. cit., p. 124.

    Contra...

Recommended

View more >