A Doutrina da Justificação pela Fé

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  • FIDES REFORMATA ET SEMPER REFORMANDA EST, V. 7, NO 1, P. 59-72

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    A DOUTRINA DA JUSTIFICAO PELA F UM EXERCCIO EM DILOGO TEOLGICO

    BILATERAL PARTE 2Ronaldo Cavalcante*

    RESUMOAtitude fundamental para o dilogo teolgico-doutrinal ser exposto ao patrimnio

    confessional de outrem. Nesse sentido, creio que ser de grande proveito termos acesso aoque a 6a Sesso do Conclio de Trento afirmou sobre a doutrina da Justificao pela F. Con-comitantemente, poderemos ser estimulados a esse dilogo por dois representantes de duasconfisses crists, a catlica e a reformada. Descobrir como o outro pensa talvez seja aquio grande desafio. Isso, sem dvida, ajudar a sedimentar melhor a nossa prpria identidade.

    PALAVRAS-CHAVEJustificao pela F, infuso, causa eficiente, causa meritria, causa formal, mrito,

    Stantis et cadentis ecclesiae, Simul iustus et peccator, dilogo.

    INTRODUOO risco medieval do julgamento a priori, sem uma acurada investiga-

    o e com os nocivos preconceitos filosficos, religiosos, ideolgicos etc., uma tentao contnua para o universo protestante. A Reforma denunciouveementemente o obscurantismo teolgico e a intolerncia religiosa Posttenebras lux. Tal atitude contraria a gnese do protestantismo, inspirada nas

    * Ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, bacharel em Teologia pela Faculdade TeolgicaBatista de Braslia; mestre e doutor pela Universidade Pontifcia de Salamanca, Espanha, na rea deDogmtica. Atual diretor-administrativo do Seminrio Presbiteriano Brasil Central (SPBC) e docen-te das disciplinas Literatura Patrstica e Reformada, Histria da Igreja e Hermenutica.

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    Escrituras, que certamente no impediria o dilogo esclarecedor. Em nossocaso especfico, significar a ignorncia da realidade do outro; um eu semum tu como interlocutor.

    Isso significa que se faz necessria a abertura para a assimilao noapenas do que o outro disse, mas fundamentalmente do por-que-ele-disse-daquela-forma; que motivaes mentais e vises de mundo condicionaramaquele produto final.

    Por isso mesmo, a presente reflexo, como continuao do que j foiproposto (ver o 1o artigo no nmero anterior), intentar descrever, de formasinttica, as noes fundamentais da teologia catlica sobre a doutrina daJustificao pela F. Assim, fecharemos o crculo: luteranos-reformados-catlicos. No obstante, entendemos que avaliarmos tal doutrina basicamen-te no Conclio de Trento apenas o comeo, uma vez que a documentaodos ltimos quarenta anos riqussima. Por conseguinte, ousamos um passoadiante, submetendo a anlise a um estudo de caso e trazendo tona uma ins-piradora interlocuo teolgica em torno da doutrina da Justificao pela F:o dilogo doutrinal entre o telogo catlico Hans Kng e o reformado KarlBarth (outra questo no explorada aqui se os dois so legtimos represen-tantes de suas confisses). Com esse exemplo, nosso intuito sugestionar aprtica do dilogo bilateral em fruns de teologia acadmica.

    I. A RESPOSTA DO MAGISTRIO CATLICO: TRENTOAs teses luteranas j haviam sido condenadas por Leo X no ano de

    1520. consenso que a exposio feita pelo Conclio de Trento acerca da Jus-tificao foi uma apologia da doutrina catlica em uma apologia contra osreformadores. No entanto, deve-se reconhecer tambm em um mbito geralque o Conclio de Trento possua como preocupao primordial a reformapastoral na estrutura eclesistica.

    Dessa maneira, o Conclio de Trento expe a doutrina catlica sobre aao da graa justificante, defendendo-a em oposio aos reformadores daacusao de semipelagianismo e afirmando que o pecador fica realmentetransformado em justo pela onipotente graa divina (Flick/Alzeghy, 1970,p. 459). O decreto conciliar, debatido no primeiro perodo do Conclio,desde 21 de junho de 1546 at a Sesso Solene de 13 de janeiro de 1547(Franzen, 1975, p. 682), data em que foi promulgado, era fruto de longasdeliberaes.1

    1 Sobre a histria geral do decreto da Justificao, ver H. Rondet, La Gracia de Cristo. Barcelo-na: Stela, 1966, p. 230 et seq. a partir da nota 7 e tambm, e principalmente, H. Jedin, Histria DelConcilio de Trento II. Pamplona: Verbo Divino, 1972, p. 271-358.

  • O centro da doutrina da Justificao est exposto no cnon 10 (Denzin-ger, 1955, n. 820). Todo o decreto sobre a Justificao que pertence seoVI contm trs partes:

    1o) um promio (Denzinger, 1955, n. 792) em que se aponta certadoutrina errnea acerca da Justificao e se prope expor atodos os fiis de Cristo a verdadeira e s doutrina sobre a mesmaJustificao...;

    2o) dezesseis captulos (Denzinger, 1955, n. 793-810); e, finalmente,3o) trinta e trs cnones (Denzinger, 1955, n. 811-43) que comple-

    mentam o ensino conciliar a respeito da doutrina da Justificao.

    Tais documentos (promio, captulos, cnones), alm de Enrique Den-zinger (1955), podem ser encontrados em vrias colees.2

    Conforme H. Jedin, o Papa e Cervini estavam concordes em que umaboa informao se podia conseguir dos escritos de J. Eck, J. Cochlaeus e F.Nusea. Ademais, autores como Cayetano, Andrs de Vega e Ambrsio Cata-rino haviam trabalhado j na elaborao de um primeiro esboo de teologiacatlica sobre a Justificao; tal esboo estava concebido como resposta sposies dos reformadores (Franzen, 1975, p. 685). Certamente que o decre-to possui alguns pontos que se destacam por sua importncia. Nesses, cen-traremos nossa ateno.

    O Captulo 6, que, segundo Rondet, inspira-se em Santo Agostinhomais que na teologia escolstica, se enlaa diretamente com os Cnones 7, 8,9 e descreve o modo de preparar para a justificao; isso porque o Captu-lo 5 j havia estabelecido a necessidade de preparao para a justificao.Aqui se afirma que Deus tem a procedncia em chamar o homem graa, eisso ele faz por meio da pregao e da chamada interior que possibilita aohomem uma resposta livre e consciente que o faz reconhecer sua condiode pecador, sua necessidade de arrependimento e, ao mesmo tempo, tomaruma deciso de assumir a nova vida que inicia com o batismo.

    O que se deduz que a f o ato preparatrio fundamental e impres-cindvel para a justificao. No entanto, no basta a f fiducial, mas neces-srio a f confessional com contedo determinado. Dessa maneira, o Conc-lio quis, com os textos do Captulo 6 e Cnones 7 a 9, conforme tambmCnone 12, negar o suposto erro de que pela f e a justia que somos for-malmente justificados (Schmaus, 1962).

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    2 CTR 791ss.; Rcht 23ss.; Msi XXXIII 33 Ass; Hrd X 33 Css; Sar (Th) ad 1547, Css (33-192) (Denzinger, 1955).

  • Scheeben ainda mais preciso quando comenta o decreto conciliardizendo que

    tem de provocar-se mediante uma influncia misteriosa de Deus (Jo 6.44). Demodo que a atividade que sob influncia sobrenatural de Deus dispe a alma para agraa da justificao e a conduz para a mesma, em todos os aspectos tem um car-ter mstico (Scheeben, 1964, p. 675).

    Assim, alm de um aspecto negativo (retratio obicis), essa disposiopossui tambm um significado positivo, na circunstncia de que no somen-te prepara para a graa, mas tambm conduz o homem a receb-la, e nisso semanifesta de um modo imediato seu carter sobrenatural mstico, que, porser ela um movimento para um fim sobrenatural, este lhe comunica.

    pergunta De que maneira influi essa disposio na alma para que elav ao encontro da graa, Scheeben responde que primeiro: a alma leva emsi um anelo de graa e deseja receb-la de Deus (idem). Esse anelo infun-dido na alma por Deus mesmo mediante a graa proveniente, e precisamen-te por tal motivo, possui um ttulo para que seja conduzido e, por issomesmo, dispe para a recepo da graa.

    Tal anelo somente poder produzir uma unio desejada se, mediante opuro amor, o homem, por sua parte, j der comeo s suas relaes com Deuse com Cristo, confiando de que Deus no se far esperar mais.

    Aps o anelo de confiana, deve-se ter a prontido, a deciso firme daalma de viver conforme a graa que vai receber, de aproveit-la e de guard-lacom fidelidade, ou seja, a entrega da alma a seu esposo divino e sua submis-so a ele. A ascenso sobrenatural por meio do anelo, confiana e submisso,somados graa proveniente, manifestar toda sua elevao e significadosmsticos, se for acompanhada pelo amor da esposa para com Deus (idem).

    O Conclio de Trento claramente ensina: A justificao no somenteremisso dos pecados, e sim tambm santificao e renovao do homem inte-rior, pela voluntria recepo da graa e dos dons, de onde o homem se con-verte de injusto em justo, e de inimigo em amigo para ser herdeiro segundo aesperana da vida eterna (Denzinger, 1955, n. 799). Para essa interpretaoso importantes os conceitos de justia e santificao (Auer, 1975, p. 119).

    Sendo assim, a justificao consiste no em mera remisso de pecados,seno na infuso da graa santificante e das virtudes teologais (Denzinger,1955, n. 800) e dos dons do Esprito Santo como faculdades habituais do cor-reto comportamento sobrenatural para com Deus. Portanto, a justificaoidentifica-se com a santificao interior e com a elevao sobrenatural dohomem. Apesar de que, como disse Denzinger, essa santificao enquantoqualidade do homem distinta de Deus (graa incriada), de tal maneira quea causa eficiente (Deus em sua benignidade) e a causa meritria (Cristo), por

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  • uma parte, e a causa formal da justificao (graa), por outra, no podemidentificar-se simplesmente (apud Karl Rahner, Justificacin, Sacramentummundi, t. 4, p. 181).

    Segue-se que essa santificao, como possesso habitual da graa san-tificante, implica um renascimento interior, uma renovao, a filiao divi-na, o direito salvao eterna e a habitao de Deus por meio de seu Espri-to (Denzinger, 1955, n. 799 et seq.).

    O Captulo 7 considerado uma das partes mais importantes do decreto,ao passo que o Captulo 6 faz uma anlise antolgica inspirando-se na teolo-gia escolstica, mas margem de toda a sistematizao (Rondet, 1966, p. 233).

    Por isso mesmo, a justificao, no Captulo 7, no uma simples remis-so de pecados (conf. supra), e sim uma transformao profunda pela qual ohomem, enriquecido pelo dom de Deus e por uma livre aceitao da graa ede seu cotejo de dons, faz-se justo, amigo de Deus e herdeiro da vida eterna.Est justificado no por uma imputao extrnseca dos mritos de Cristo:

    Se algum disser que os homens se justificam ou por s imputao da justia deCristo ou por s remisso de pecados, excludas a graa e a caridade que se difun-dem em seus coraes pelo Esprito Santo, e lhes fica inerente; ou tambm que agraa, pela qual nos justificamos, somente o favor de Deus, seja antema (Cnon11, Denzinger, 1955, p. 821).

    Mas antes pela justia que lhes prpria e que o Esprito Santo infunde noscoraes segundo sua vontade e a livre cooperao de cada um. Essa justiapermanece no homem como um princpio permanente e implica a presenade trs virtudes sobrenaturais: f, esperana e caridade. Sem a esperana e acaridade, a f no pode justificar ao homem nem fazer dele um membro vivode Cristo (Rondet, 1966, p. 234).

    No Captulo 7, bem clara a concepo da alta Idade Mdia: A nicacausa formal a justia de Deus, no aquela com que ele justo, e sim aque-la com que nos faz justos (Cnon 10 e 11). Quer dizer, aquela, pela qual dota-dos por ele somos renovados no esprito de nossa mente e no somos reputa-dos, e sim que verdadeiramente nos chamamos e somos justos, ao receber emns cada um sua prpria justia, segundo a medida que o Esprito Santo areparte a cada um como quer (1 Co 12,11) e segundo a prpria disposio ecooperao de cada um. A partir da afirmao central dessa definio, pode-se inferir claramente a sua finalidade subjacente, explicitada posteriormente,com uma parfrase bastante ampla que retrata bem essa mesma definio. Ajustificao est, portanto, inalienavelmente associada obra salvfica deJesus Cristo, conceito que, como dizamos, era tpico da alta Idade Mdia.Piet Franzen esclarece muito bem este conceito:

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  • Voltamos a encontrar aqui a primitiva persuaso do sculo XII, segundo a qualtodos os aspectos bblicos da justificao a unio com Cristo, o impulso do Esp-rito Santo, a remisso dos pecados, a santidade interior (f, esperana e caridade),a recepo do batismo, a guarda dos mandamentos de Deus expressam conjun-tamente os diversos aspectos de uma nica realidade, uma unidade harmnica den-tro da obra salvfica inaugurada pelo Pai e, em virtude dos mritos da paixo deCristo, realizada pelo Esprito Santo (Franzen, 1975, p. 690).

    A doutrina sobre o mrito est exposta no Captulo 16 e, para vriosautores (Franzen, Rondet, Auer, Schmaus, Molinski, Rahner), de especialimportncia. Para Auer, tem tal importncia que manifesta o ncleo da dou-trina catlica da graa enquanto a colaborao entre Deus e o homem, a pos-sibilidade e gratuidade da graa, a relevncia da ao humana com a graadivina (Auer, 1975, p. 264). Por outro lado, Franzen, embora aceitando suacentralidade e importncia no decreto, explica que no o porque pensemosque a doutrina do mrito constitui o ncleo da mensagem bblica sobre agraa, e sim porque, na interpretao catlica, a obra meritria se realizana dimenso do Coram Deo (Franzen, 1975, p. 691). Em outras palavras,Franzen pretende fazer uma concesso no dilogo com a Reforma, no senti-do de no valorar em demasia o conceito de mrito, to caro teologia cat-lica, entendendo-o como uma atitude realizada no revelia de Deus, mas,pelo contrrio, perante ele (Coram Deo).

    O Conclio tenta mostrar que os mritos so, ao mesmo tempo, pro-duto da ao humana e da graa de Deus. Conforme o prprio texto doCaptulo 15 que diz: o mesmo Cristo Jesus, como cabea sobre os mem-bros (Ef 4.15) e como vida sobre os sacramentos (Jo 15.5), constante-mente influi sua vontade sobre os justificados, virtude que antecede sem-pre s suas obras, acompanha-os e segue-os e sem a qual de modo algumpuderam ser gratos a Deus nem meritrios (Cnon 2 Denzinger, 1955,p. 809).

    A teologia catlica entende que o homem transformado interiormen-te no processo de justificao. Estando transformado, o homem , portanto,capacitado a fazer algo de valor para Deus ou diante de Deus. Fazer algo devalor seria ento reunir mritos. Assim, a graa aceita pelo homem seconverte em seu mrito. Essa continua sendo totalmente graa de Deus mere-cida por Cristo na cruz, mas passando a ser propriedade do homem median-te ato livre de f e de justificao (Molinski, Mrito, Sacramentum Mundi, t.4, p. 559). Nesse aspecto, deve-se entender a definio do Conclio de Tren-to quando diz que o justificado pode merecer realmente (itlico meu) (Den-zinger, 1955, n. 801, 803, 809, 832, 834, 842), pois pela graa santificante,foi transformado em amigo de Deus.

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  • Torna-se, pois, importante perguntar: que tipo de mrito esse? Comopodemos conjugar a primazia de Deus afirmada pelo Conclio com o mritohumano?

    Heiko Oberman entende que, quando o Conclio condena a tese de queo homem pode por si mesmo merecer a justificao, na verdade est conde-nando somente o mrito de condigno, que quer dizer o mrito prprio,por isso usa a palavra promereri e no mereri (mrito...