A DINÂMICA POLÍTICA, ECONÔMICA E SOCIAL DO RIO SÃO ... ?· A dinâmica política, econômica e social…

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  • Revista do Departamento de Geografia, 17 (2005) 83-93.

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    A DINMICA POLTICA, ECONMICA E SOCIAL DO RIO SO FRANCISCO E DO SEU VALE

    Jos Vieira Camelo Filho

    Resumo: O rio So Francisco sempre foi um canal importante de ligao entre o Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, feita atravs da navegao fluvial. Estrategicamente, esse rio e seus afluentes contriburam para o controle e o povoamento do interior, onde, ao longo da histria, constituram-se os grandes latifndios e os pequenos minifndios, ambos responsveis pelo atraso econmico e social do Vale. Sua economia, at a primeira metade do sculo XX, foi ancorada na pecuria extensiva e na agricultura de subsistncia. A posse ou acesso terra, para a maioria da populao, continua sendo um grande desafio para a sociedade. Nos ltimos 50 anos, a gua do Velho Chico tornou-se a maior riqueza do Vale e a matria-prima mais importante para o seu desenvolvimento, que, efetivamente, iniciou com a gerao de energia em Paulo Afonso. A partir das dcadas de 1980 e 1990, o processo de irrigao se intensificou, em particular, visando a produo de frutas nos Permetros de Irrigao de Petrolina e Juazeiro, Oeste da Bahia, e com Projeto Jaba e Pirapora, em Minas Gerais. Contudo, nos ltimos anos, o Projeto de Transposio de gua do So Francisco para outras bacias hidrogrficas do semi-rido vem ganhando destaque. Palavras-chave: Rio So Francisco; Navegao; gua; Terra; Desenvolvimento; Irrigao; Propriedade. Introduo

    Neste trabalho procuramos situar o rio So Francisco e seu Vale nos contextos poltico, econmico, social e geogrfico do Brasil, tendo em vista as contradies presentes em nossa socie-dade. O Velho Chico serviu de canal para povoamento e controle do interior brasileiro ao longo da histria e de ligao entre o Nordeste e o Sudeste, atravessando o semi-rido nordestino. A primeira medida concreta para o desenvolvimento do Vale se deu com a criao da Companhia Hidreltrica do So Francisco-CHESF, em 1945, e da Comisso do Vale do So Francisco-CVSF, em 1948. A CVSF foi substituda pela SUVALE, em 1967, que, por sua vez, originou a Companhia de Desenvolvimento do Vale do So Francisco (CODEVASF), criada em 1974, com a funo de desenvolver o Vale, sobretudo no campo da agricultura irrigada, com destaque para a produo de frutas: banana, melo, melancia, ata, manga, uva, alm de produzir vinho, sucos e sementes. Mas o Projeto mais antigo do Vale foi apresentado em 1847; trata-se da transferncia de parte da gua do Velho Chico para outras bacias do semi-rido. Aps 158 anos, encontra-se ainda em fase de implantao, com o nome de Projeto de Integrao do Rio So Francisco com Bacias Hidrogrficas do Nordeste Setentrional.

    O rio So Francisco, o caminho estratgico do Brasil A relao do Estado com o rio So Francisco vem do

    perodo colonial devido a sua posio estratgica no que diz

    respeito ocupao e controle do territrio por parte da Coroa Portuguesa. O povoamento do Vale do So Francisco deu-se lentamente porque, em termos econmicos, os negcios com o acar estavam em primeiro plano, tanto que SANTOS (1985) destaca que o acar um gnero de importncia bsica no mercado no mercado mundial a partir do sculo XVI e o mesmo era produzido no litoral brasileiro. A ocupao da regio, da foz do rio e que se estende cerca de 300 km para o interior, iniciou-se com o desenvolvimento da pecuria extensiva que, por sua vez, teve grande importncia para a atividade aucareira, realizada na costa litornea. O rio era mais um acidente geogrfico encontrado pelos portugueses desde o litoral do Atlntico, no entanto permitiu a penetrao para o interior do territrio e, assegurava o controle e o povoamento dele pela Coroa Portuguesa que ampliava a sua expanso para alm do litoral.

    Geograficamente a plantao de cana para a produo de acar estendeu-se pela rea coberta pela Mata Atlntica, tam-bm conhecida como Zona da Mata na faixa litornea do litoral de Pernambuco, Alagoas e Recncavo Baiano, e s mais tarde chegou ao litoral norte do Rio de Janeiro, regio de Campos dos Goytacazes. A introduo da cana-de-acar no Brasil ocorreu ainda na primeira metade do sculo XVI, passou por um processo de estagnao nos sculos XVII e XVIII, contudo continuou sendo plantada nas mesmas regies e no sculo XX se expandiu por todo o Brasil, particularmente no Sudeste. Por outro lado, no podemos esquecer da plantao de subsistncia para a produo

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    de rapadura e aguardente (cachaa) distribuda por todo interior do pas, inclusive no serto nordestino e no Vale do So Francisco. Esse processo vem ocorrendo desde o perodo colo-nial e dura at os dias atuais.

    THERY (1980) lembra que o gado, alm de servir para a alimentao, tambm representava um elemento indispensvel nas atividades agrcolas, nos servios de transporte, portanto, tinha forte relao com o cotidiano das atividades desenvolvidas pelo homem do meio rural. ABREU (1975) destaca essa importncia, tanto que responsvel pela civilizao do couro no interior do pas. O gado tinha papel preponderante nas atividades ligadas aos engenhos, por exemplo, com o couro fazia-se o bang que aparava a garapa no momento da moagem da cana-de-acar e; o engenho era movimentado por trao animal, que recebia a denominao de trapiche. A expanso da atividade pecuria contribuiu para que no sculo XVIII todo o Vale estivesse povoado. FURTADO (1972) completa afirmando que a pecuria surge fundamentalmente para satisfazer a demanda de carne, de animais de trao e carga, criada tanto por empresas agromercantis quanto pela exportao mineira.

    O rio So Francisco serviu de via para transporte de alimento (milho, feijo, carne seca, rapadura, farinha) destinado ao suprimento das minas de ouro; por ele seguiam escravos e garimpeiros vindos de outras regies. Serviu tambm para evaso (sada) de ouro que chegava at Salvador. Graas a este parti-cular, o controle da navegao pelo rio tornou-se mais incisivo por parte da Coroa portuguesa que chegou a proibir o trfego de mercadorias, o ouro em particular, sendo permitido apenas o transporte de alimentos destinados ao abastecimento das minas. No perodo da minerao tivemos uma forte expanso da pecuria no Vale e um significativo aumento da populao, tornando-se a regio a mais povoada da colnia depois das reas produtoras de acar. Com isso, formaram-se vrios ncleos de povoamentos que deram origem a cidades espalhadas em toda a extenso do rio So Francisco e de seus afluentes.

    O ciclo econmico da minerao chegou ao fim, o domnio colonial portugus tambm e o rio So Francisco continuou pulsando como se fosse a artria aorta do corao do interior do territrio brasileiro. Entretanto, o Vale continuou sem qualquer transformao do seu cotidiano econmico historicamente ancora-do na pecuria extensiva e na agricultura de subsistncia. Dessa forma, a regio manteve o processo de povoamento iniciado no perodo colonial. Por conta da atividade pecuria desenvolvida no Vale, o rio So Francisco recebeu a denominao de Rio dos Currais, e a partir da Independncia do Brasil, passou a ser

    chamado de Rio da Integrao Nacional, porque proporcionou a ligao direta entre o Nordeste e Sudeste do pas. A navegao se intensificou em todo o percurso navegvel do rio, apesar da simplicidade dos seus barcos; lembramos que os primeiros barcos a vapor s foram introduzidos no So Francisco em 1866.

    A posio geogrfica do rio So Francisco sempre foi considerada estratgica pelos seus estudiosos em relao ao povoamento e controle do interior, tanto no perodo colonial como tambm aps a Independncia. BURTON (1977) expressa bem essa forma de ver o rio, em suas pesquisas realizadas na dcada de 1860 (sculo XIX), em que ele procura analisar o seu papel como canal de comunicao entre as regies litorneas e o serto, entre o Norte e o Sul do pas, facilitando a realizao do comrcio e a colonizao. De acordo com esse autor, o So Francisco evitava a escassez, ao assegurar o escoamento dos excedentes das regies centrais, principalmente nos perodos de estiagem que prejudicavam a agricultura ou quando, por ventura, a faixa litornea fosse bloqueada por foras exgenas. E conclui que desta forma se completa o ciclo estratgico de que o Imprio necessitava grandemente para preservar a sua integridade.

    A preocupao estratgica apontada por Burton, tendo em vista um possvel bloqueio da faixa litornea, s veio a se tornar realidade bem mais tarde, com a ecloso da Segunda Guerra, em 1939. O governo brasileiro, no decorrer da Segunda Guerra, estabeleceu que a navegao do So Francisco seria uma via estratgica para assegurar o suprimento de mercadorias no interior do pas, em caso de ocupao do seu litoral por tropas estrangeiras. O coronel FIGUEIREDO (1941) tambm destaca a incontestvel influncia do So Francisco (desde os tempos remotos) para a histria da civilizao brasileira, e lembra que, apesar da sua importncia, o rio vem sendo tratado com descaso pelo governo brasileiro, tanto que, j na dcada de 1930, ele agonizava em decorrncia da escassez do volume lquido, da falta de drenagem no leito entulhado de areia, paus e outros entulhos carregados pelas torrentes. Mesmo com esse contexto, todas as atividades econmicas relacionadas com o rio sempre tiveram estreita ligao com o Estado, desde o perodo colonial; por isso, recebeu um destaque especial em relao aos demais rios do Brasil.

    A sua navegao fluvial tinha dois percursos: da foz a Piranhas, na sua poro inferior, e de Juazeiro (BA) a Pirapora (MG), com 1371 km de extenso, sendo feita com barcos simples; em muitos trechos, adotava-se a tradio indgena de navegar, usando pequenos barcos e s a partir de 1866, foram introduzidos os primeiros vapores. MACHADO (2002) em seu estudo a res-

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    peito da navegao do So Francisco lembra que o Saldanha Marinho foi o navio mais importante que navegou no rio So Francisco. Realizou a sua primeira viagem em 19 de janeiro de 1871, no rio das Velhas. Em seguida, o Saldanha passou a navegar no rio So Francisco e s encerrou s suas atividades no final da dcada de 1970, com a construo da barragem de Sobradinho. No sculo XX outro navio fez histria, trata-se do Benjamim Guimares, construdo nos EUA em 1913, que recente-mente foi reformado no porto de Pirapora e, em 2005, voltou a navegar em um pequeno trecho das guas do Velho Chico para o transporte de turistas. Esses navios transportavam passageiros e mercadorias e estabeleciam o intercmbio entre as regies Nor-deste, Sudeste e Centro-Oeste.

    O cotidiano da navegao do rio So Francisco na primeira metade do sculo XX

    O transporte no interior do Brasil, at a primeira metade do sculo XX, era precrio, exceto em alguns curtos percursos atingidos por ferrovias. A navegao fluvial, por muitos anos, era a nica alternativa de transporte em larga extenso do territrio brasileiro (inclusive no Vale do So Francisco), tendo os seus rios como as principais vias. De acordo com os dados do Documento Plano de Valorizao Econmica do Vale do So Francisco (1963), o movimento mdio anual de cargas transportadas entre 1938 e 1948 girou em torno de 40000 ton, o que demonstra um processo produtivo esttico ou uma economia paralisada. Segundo o citado documento este volume de carga teria que se elevar a 100000 ton, para justificar economicamente a existncia da navegao fluvial na bacia do So Francisco. Frente a tais informaes, a Comisso do Vale do So Francisco (CVSF) fez um estudo mais sistematizado a respeito da navegao do rio So Francisco e de seus afluentes, em que props uma racionalizao da sua navegao e onde estabelecia um novo parmetro opera-cional.

    Conforme os estudos da CVSF, a navegao deveria divi-dir-se em 8 linhas. Quatro linhas deveriam operar no rio So Francisco, com duas de cargas, uma mista e a ltima s para passageiros. Quatro linhas deveriam operar nos afluentes, todas mistas para carga e passageiros. Verificou-se que havia a obrigatoriedade da fila de sada nos portos extremos dos rios (Pirapora e Juazeiro), pela qual o navio s podia partir em certos dias do ms, levando em conta a sua ordem de chegada. Dessa forma, alguns ficavam at 10 dias parados, cerca de 50% do seu tempo gasto para realizar o percurso, enquanto gastavam 20% para carregar e 30% na viagem propriamente dita. A partir dessa

    constatao estabeleceu-se uma nova tabela de chegada e parti-da para reduzir o tempo de espera dos navios. Outro elemento que diz respeito aos custos era o elevado nmero de tripulantes por navio, 39 em mdia. De acordo com o estudo da CVSF, apenas 16 pessoas poderiam realizar as tarefas de um navio, embora a tripulao fosse responsvel por dois carregamentos num dia e o combustvel das embarcaes fosse lenha.

    A navegao do rio So Francisco tambm era feita por inmeros barcos de pequeno e mdio porte, de propriedade particular, que viajavam at 100 km, sendo difcil mensurar o volume de cargas e o nmero de passageiros por eles transpor-tados, pois no existem dados a respeito. A navegao de longo percurso do rio So Francisco e de alguns de seus afluentes era realizada por empresas de maior porte. Duas dessas empresas pertenciam aos governos da Bahia e de Minas Gerais, respectiva-mente, a Viao Baiana do So Francisco e a Navegao Mineira de Viao de Pirapora, havendo ainda uma terceira empresa privada. De acordo com os relatrios da CVSF, estas empresas apresentaram um equilbrio entre si no que diz respeito ao volume de cargas e ao nmero de passageiros transportados no perodo entre 1942 e 1948, com as seguintes mdias anuais: a Viao Baiana transportou 16165 ton e 16311 passageiros, a Viao Mi-neira 17611 ton e 20219 passageiros e a Companhia e Indstria, 14.365t e 17100 passageiros.

    No quinqnio 1952-1956, a CVSF elaborou um amplo Plano de ao para a navegao fluvial do Vale, com vista elevao de sua produtividade que continuava no mesmo nvel da dcada anterior. Entre as medidas, destacava-se a ampliao da capacidade porturia pela aquisio de novos equipamentos (guinchos, novas embarcaes, etc), concretagem dos portos j existentes, construo de novas unidades e aumento dos armazns. Assim seria possvel elevar a oferta dos servios de transporte fluvial, para chegar dcada de 1960 transportando 100000 ton ao ano. Para alcanar essas metas, o governo federal extinguiu as empresas de navegao e em 24 de janeiro de 1963, criou a Companhia de Navegao do So Francisco (FRANAVE), com sede na cidade de Pirapora-MG e escritrio de represen-tao em Juazeiro (BA).

    A FRANAVE iniciou o sculo XXI com uma capacidade instalada de transporte para 150.000 ton de carga a granel e de convs por ano, com uma frota composta de 8 empurradores de 540 HP e 62 chatas, alm de um estaleiro para a construo de navios e manuteno de sua frota na cidade de Juazeiro. A navegao do So Francisco tem ligao com ferrovias e rodovias tanto no Nordeste quanto no Sudeste. Aplica tarifas 25% menores

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    do que as do transporte rodovirio, porm continua operando precariamente. O problema da navegabilidade do rio nunca foi considerado com as devidas medidas polticas que ele exige, embora se conhea seus limites e particularidades; contudo, sua importncia sempre foi destacada nos pronunciamentos governa-mentais que prometeram tomar as medidas cabveis para asse-gurar a sua continuidade.

    A questo da navegao do rio So Francisco e de seus afluentes sempre fez parte da agenda oficial, mesmo aps o final da Segunda Guerra Mundial, quando a opo pelo transporte rodovirio j estava delineada. Porm, durante toda a dcada de 1950, esse problema foi posto e o governo apresentava novas propostas para vitalizar a navegao fluvial do Velho Chico. Trata-se de um problema de difcil soluo, que esteve sempre presente na pauta e na agenda de todos os governos do Brasil na primeira metade do sculo XX e prosseguiu na fila de espera. Na dcada de 1960, no foi diferente, o governo continuou tentando dar respostas a esse problema histrico que todos se sentem na obrigao de resolver. No decorrer das dcadas de 1970 e 1980, as questes do passado continuavam presentes, ou seja, sem soluo e, nos anos 1990, voltaram baila no programa Avana Brasil, nos governos de Fernando Henrique Cardoso. A navegao interior (fluvial) do Brasil, segundo os dados do Anurio Estatstico do Brasil de 1938, contava com 43955 km de extenso, sendo que a bacia do So Francisco, ocupava a terceira posio no pas, com 4135 km ou 9,41%, superada pela bacia do Amazonas que tinha 57,89%, ou 25446 km, e pela bacia do Nordeste, responsvel por um trecho navegvel de 4498 km, o equivalente a 10,23% do total.

    Segundo os dados do IBGE de 1977, o pas ainda possua uma rede fluvial permanente de 35000 km, mais 15800 km no perodo das cheias. O Sudeste tem apenas 1600 km, acrescidos de mais 410 km durante as chuvas. A concorrncia com a rodovia que se ampliou por todo territrio nacional e as pssimas condies da navegao nos rios, devido ao descaso com essas vias que operavam com equipamentos ultrapassados e portos inadequados, contribuiu para o fraco desempenho do transporte fluvial, sobretudo no rio So Francisco (Fig. 1). No decorrer da dcada de 1970, nunca ultrapassou o total de 34000 ton trans-portadas. S nos anos de 1980, que houve uma significativa melhora no seu desempenho. Em 1988, alcanou 115901 ton transportadas, caindo, no ano seguinte, para 94063 ton. Quanto s demais bacias, a situao no era diferente, embora tenha havido certo crescimento de carga transportada a partir de 1979, sendo a bacia Amaznica aquela que apresentou o maior aumen-

    to no perodo. importante destacar que no o perodo entre 1979 e 1989

    o transporte hidrogrfico do rio So Francisco apresentou um significativo crescimento de carga transportada, passando de 33267 ton em 1980, para 115901 ton, em 1988, com forte reduo no ano seguinte para 94063 ton, equivalente a 18,84%. De acordo com os dados do Ministrio dos Transportes, em todas as bacias houve reduo de carga em relao ao ano anterior, exceto a bacia de Sudeste. Esta operou com um expressivo aumento no ano de 1989. Porm, em termos absolutos, o total transportado nesta bacia foi inferior ao de 1987, enquanto na bacia Nordeste, a navegao j havia se extinguido em 1986. Segundo os dados disponveis, sua paralisao se deu em um momento de elevao do volume de carga transportada. Em 1980 foram transportadas 2391 ton, elevando-se para 17195 ton no ano de 1985. Entre-tanto, devido carncia de informaes, certamente estes dados necessitam de anlise mais consistente, pois esto incompletos.

    Contradies do desenvolvimento do Vale do So Fran-cisco

    O Vale do So Francisco, considerado a partir do desenvol-vimento econmico brasileiro, no deixa dvidas quanto ao seu atraso crnico, destacando-se que toda a bacia banhada por esse grande rio recebia pomposas propostas de investimentos por parte do Estado, que nunca se concretizaram, exceto em alguns momentos pontuais e, s vezes, indiretamente, como o caso da chegada das pontas dos trilhos de ferro ao Vale, respectivamente, em 1896 e 1910. Com relao a sua posio estratgica, ele serviu de canal de embrenhamento e controle em todo o processo histrico brasileiro. Durante o perodo colonial a presena do Estado foi marcante, particularmente no decorrer do ciclo do ouro, no s pelas cartas rgias e decretos, mas tambm por seus agentes de controle, como fiscais, militares e aliados (a servio da Coroa). Tendo como eixo bsico o rio, questes geopolticas, de Segurana Nacional e controle do territrio foram pilares estrat-gicos do Estado aps a Independncia do Brasil com vista unidade e ocupao do territrio brasileiro. A preocupao com o povoamento do interior perdurou at o sculo XX, resultando na construo de Braslia.

    Todos os estudos feitos ao longo da histria mostram que as questes de integrao, unidade e controle sempre estiveram presentes no Vale do So Francisco. Entretanto, nunca foram destinados investimentos suficientes, pois no h registro de construes de quartis, postos fiscais e delegacias de vigilncia federal. Embora, para esse caso, no fosse necessariamente pre-

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    ciso contar com corpo de segurana atuando na regio, trata-se de uma questo de panactismo, ou seja, no preciso ver os guardas, basta saber que eles esto vigiando, mesmo de longe. Historicamente o Vale do So Francisco foi palco de inmeros conflitos polticos e sociais. Inicialmente, as batalhas ocorreram entre ndios e colonizadores e, posteriormente, foram travadas

    entre grandes proprietrios de terra da regio, com a participao dos seus vaqueiros e agregados. Esses fundiaristas deram origem aos coronis. Apesar da rivalidade entre os coronis do Vale, assim como em outras partes do interior em busca do poder econmico e do controle poltico local, eles foram guardies da ordem estabelecida nos sertes.

    Figura 1 Evoluo do transporte hidrovirio brasileiro gerado em cinco bacias hidrogrficas do Brasil (ton).

    Ano So Francisco Amaznica Prata Nordeste Sudeste Total (%) 1964 25.466 1965 50.490 1966 54.639 205.228 231.103 34.209 1.047.648 1.572.593 (3,4) 1967 42.302 177.363 330.285 27.122 1.072.648 1.649.720 (2,6) 1968 53.142 233.768 177.705 16.873 889.781 1.381.269 (3,8) 1969 48.669 324.350 203.966 20.272 600.891 1.198.148 (4,1) 1970 57.948 316.557 201.464 20.246 646.142 1.242.357 (4,1) 1971 29.759 356.515 262.943 9.458 841.229 1.449.904 (4,7) 1972 35.541 536.982 275.277 8.785 807.682 1.662.207 ( 2,0) 1973 30.862 565.366 342.347 9.728 849.780 1.798.083 (1,7) 1974 31.664 540.570 422.122 14.346 1.550.194 2.558.896 (1,2) 1975 32.832 586.907 272.389 9.690 1.786.367 2.688.185 (1,2) 1976 32.050 676.707 119.863 7.523 2.104.213 2.940.356 (1,1) 1977 18.638 769.441 475.651 7.389 2.158.910 3.430.029 (0,6) 1978 20.221 844.280 264.690 4.634 2.654.690 3.787.917 (0,5) 1979 22.756 1.149.411 507.524 4.751 2.679.916 4.364.358 (0,5) 1980 33.267 1.466.830 361.476 2.391 2.823.324 4.687.288 (0,7) 1981 39.969 1.513.088 289.405 3.154 3.222.498 5.068.144 (0,8) 1982 56.158 1.513.117 289.890 2.298 3.720.067 5.898.392 (1,0) 1983 62.206 1.515.140 208.271 3.705 3.990.598 5.779.920 (1,1) 1984 40.248 1.599.980 145.247 13.344 4.020.980 5.819.582 1985 56.738 2.217.270 463.433 17.195 4.151.518 7.012.518 1986 84.812 2.286.834 625.197 4.070.043 7.264.702 1987 113.754 2.4052442 763.443 4.469.674 7.864.803 1988 115.901 2.621.181 889.646 3.925.417 7.712.286 1989 94.063 2.373.665 825.437* 4.111.914 7.550.148

    FONTES: Relatrios do Ministrio dos Transportes, GEIPOT, 1964 a 1990. Anurio Estatstico dos Transportes, GEIPOT, 1965 a 1989.

    Os coronis travaram muitas batalhas no interior do pas, dividiam o poder com a fora das armas e tinham como soldados, os jagunos, vaqueiros e moradores. Mesmo assim a ordem era mantida nessas localidades, exceto em algumas ocasies especiais em que a situao escapava ao controle. Nesse contexto, os coronis sempre foram importantes vigias e mantenedores da ordem, da lei e do controle das regies onde viviam. Tanto que nos anos de 1925-1926, participaram ao lado das foras legais no combate Coluna Prestes, inclusive no Vale do So Francisco. Portanto, nesta situao no era necessria a construo de quartis, delegacias federais ou outros mecanis-mos de controle. Em caso de necessidade de deslocamento de tropas, isso se daria por meio do transporte ferrovirio e hidrovi-rio no rio So Francisco. Com isso, assegurava-se o controle fsico e poltico de extensas reas do interior brasileiro.

    A partir da dcada de 1940, particularmente aps o fim da Segunda Guerra Mundial, ocorreram novas propostas de desenvolvimento com outros parmetros. A primeira medida com-

    creta se deu quando a Assemblia Constituinte de 1946 destinou 1% das receitas tributrias federais para a elaborao de um Plano de Valorizao do Vale do So Francisco. Essa distribuio de recursos foi estabelecida para um perodo de 20 anos. Sua medida mais importante, com vista ao desenvolvimento regional, foi a criao da Comisso do Vale do So Francisco (CVFS), em 1948. Destacamos que, paralelamente s medidas previstas acima, o rio So Francisco era contemplado em mais um Plano Nacional de Viao para o pas, elaborado em 1947, com o obje-tivo de realizar a integrao do transporte terrestre com o fluvial, mas essa medida no se concretizou.

    Com esse Plano, o Velho Chico mais do que nunca continuou reforando sua importncia estratgica de sempre, naquele momento marcado pelos efeitos da Segunda Guerra, que ainda estavam bem presentes. Tomar medidas preventivas contra uma possvel interrupo da navegao de cabotagem era fundamental, como ocorreu durante a guerra, em que o rio foi escolhido para estabelecer a ligao entre as regies Nordeste e

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    Sudeste. Com isso, a incluso do So Francisco como via de interesse imprescindvel da nao era uma deciso coerente e sintonizada com os acontecimentos daquele momento histrico. Portanto, uma via de comunicao com a importncia estratgica do rio So Francisco no poderia continuar operando com um nvel de transporte to precrio. Esta conjuntura contribuiu in-clusive para deciso do Governo Central de implementar novos projetos de desenvolvimento no Vale do So Francisco e contou com a indiscutvel participao do Parlamento Brasileiro.

    O fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo possibilitou o surgimento de novos horizontes polticos, econmicos e culturais para o pas, em que o debate em torno do desenvolvimento das foras produtivas era parte significativa do processo; o Vale do So Francisco tambm foi includo na nova etapa vislumbrada pelos ventos do ps-guerra e ps-ditadura. Nesse contexto, o rio So Francisco representa dramaticamente o retrato da situao brasileira, transportando consigo a pujana e a esperana em um cenrio de extrema carncia, ou seja, a gua indiscutivelmente uma riqueza de primeira grandeza para a regio atravessada pelo rio. Ao mesmo tempo, era a base do desenvolvimento da imensa regio banhada pelo grande Rio da Unidade Nacional, mas, por outro lado, poderia em breve ser um eixo de fortes conflitos que provocariam efeitos polticos e sociais incalculveis. Por isso, a elaborao da Lei no 541, de 15 de dezembro de 1948, que criou a CVSF, foi um passo importante.

    Nesse contexto, o Vale passou a receber as devidas atenes a que tinha direito, o reconhecimento da sua importncia e, ter um novo tratamento, sempre tendo o rio como referncia de todas as aes previstas para a regio, pois sua gua era a principal riqueza. O Velho Chico foi e continua sendo o eixo norteador das propostas de um amanh diferente para toda a gente do grande Vale e do Brasil em geral. A materializao de tais projetos se deu inicialmente com a Constituio de 1946, que destinava 1% do oramento da Unio para investir no Vale e proporcionar o seu desenvolvimento. Um primeiro passo j havia sido dado com a criao da Companhia Hidreltrica do So Francisco-CHESF, no ano anterior, que nas dcadas seguintes implantou vrias usinas hidreltricas.

    O acesso terra e o desenvolvimento do Vale: um dile-ma a ser resolvido

    A posse da terra uma questo que sempre esperou a sua vez. A SUVALE, substituta da CVSF, tambm focou esse proble-ma elaborando medidas para as sua mudana, embora as propostas da CVSF continuassem atuais e pudessem ser execu-

    tadas. A SUVALE teve pouca durao e suas realizaes em posse da terra ficaram aqum dos seus propsitos.

    Em seguida, veio a Companhia de Desenvolvimento do Vale So Francisco (CODEVASF), empresa pblica criada pela Lei no 6088, de 16 de julho de 1974. a CODEVASAF deparou-se com antigos problemas que no foram resolvidos at o presente, embora tenha sido indiscutvel o seu sucesso na conduo dos grandes projetos agrcolas, principalmente aqueles ligados ao desenvolvimento da fruticultura irrigada no Submdio So Francisco, regio que compreende Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e o entorno destes municpios. Esta atividade, segundo SILVA (2001), inseriu de vez a regio no mercado nacional e interna-cional de frutas tropicais e adaptadas, como a uva.

    A incluso da maioria dos trabalhadores do Vale pelo acesso posse da terra no foi possvel em nenhuma das etapas de desenvolvimento do Vale do So Francisco, nem quando a maioria da populao vivia no campo, nem aps as dcadas de 1980 e 1990, perodo em que o meio rural j estava bastante esvaziado. Ainda no se encontrou uma soluo adequada para aqueles trabalhadores que permaneceram no Vale. Estes neces-sitam do acesso a terra para a produo de riqueza e gerao de renda, um instrumento de incluso. A pequena propriedade conti-nua numericamente predominando no Vale em busca de novas orientaes polticas, econmicas e tcnicas que assegurem a melhoria de vida dos seus donos e das suas famlias. Segundo BELIK (2000), nem a criao do Programa de Valorizao da pequena Produo Rural (PRONAF) conseguiu alterar tal situao da agricultura familiar.

    Embora o xito dos grandes projetos de desenvolvimento implantados na regio seja uma realidade, caracterizam-se por serem excludentes, ou seja, deixam de fora a maioria dos traba-lhadores do grande Vale, onde a pobreza continua inabalvel sem alterar sua marca histrica, apesar da modernizao de alguns setores econmicos existentes das nascentes do rio So Francisco e seus afluentes at a foz. FRANA (2001) mostra que a agricultura irrigada com tecnologia que avana em regio semi-rida poder se transformar no indutor do processo de desen-volvimento regional. O grande desafio implementar uma poltica econmica em que a maioria dos trabalhadores rurais e urbanos seja incorporada, isso ainda no ocorreu, apesar dos Permetros de Irrigao continuarem gerando emprego na regio do Vale, sobretudo, no plo de Petrolina e Juazeiro.

    A cultura de uva no Vale transformou-se em estrela de primeira grandeza entre as frutas do Permetro de Irrigao, rivalizando apenas com a manga, tambm detentora de grande

  • A dinmica poltica, econmica e social do rio So Francisco e do seu vale

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    brilho, tanto no mercado nacional quanto no externo. SILVA (2001) destaca que a rea ocupada com o plantio de uva passou de 893 ha em 1987, para 3767 ha no ano de 1999, ou seja, um aumento de 321,83% no perodo de 12 anos, um crescimento mdio anual de 26,82%. SILVA, tambm chama ateno para a oscilao das exportaes que em 1991, foi de 10500 ton e nos anos de 1993 e 1994, de 10000 ton em cada ano e, em 1997, apenas 3700 ton, voltando a crescer em 1998, com 4550 ton. Apesar das quedas cclicas, perdurou a tendncia de um elevado crescimento das exportaes neste perodo de 7 anos, sendo que estimativa para o ano de 1999 era de 6000 ton. Os dados da Valexport mostram que neste ano foram exportados 10250 ton. As exportaes de uva produzida no Vale continuaram a crescer. Em 2000, atingiram 15300 ton, em 2001, passaram para 19627 ton e no ano de 2002, alcanaram 25087 ton.

    Com isso, conclui-se que o dinamismo da cultura vincola e de outras frutas em terras sertanejas do Submdio So Francisco nos primeiros 15 anos de sua atividade algo espetacular, alm da produo realizada em Pirapora, no Alto Vale. Entretanto, os benefcios proporcionados continuam limitados a um reduzido grupo social local e o espetculo do crescimento s tem lugar para uns poucos. Com isso, os crticos deste processo lembram que essa estrutura pode at gerar riquezas, mas distribuir renda jamais, mesmo empregando um considervel nmero de pessoas no conjunto das atividades diretas e indiretamente ligadas aos projetos de irrigao, principalmente aqueles situados no Sub-mdio So Francisco.

    A rea ocupada com o plantio de uva no Submdio So Francisco era de 3767 ha em 1999. Os dados apresentados por SILVA (2001) mostram que Pernambuco contava com 2503 ha distribudos em 6 municpios, sendo que Petrolina tem a maior parcela do cultivo de uva com 1602 ha e Oroc, a menor rea com apenas oito hectares cultivados. A Bahia vem logo em seguida com uma rea bem menor, entorno de 1263 ha, sendo que a maior parcela 756,2 ha est situada em Juazeiro, Curu com 110,3 ha, Casa Nova 219,1 ha e de Sobradinho no h dados disponveis. Outras localidades do Vale do So Francisco, tambm produzem uva (em menor escala). Bom Jesus da Lapa nos projetos Formoso A e H, no Distrito de Irrigao de Formoso e usam a gua do rio Corrente. No Mdio Vale, a uva produzida na regio de Barreiras (BA), Jaba e no Projeto Jaba em Matias Cardoso (MG). No Alto So Francisco ocorre em Pirapora e Vrzea da Palma (MG). A produo de uva em Pirapora a mais expressiva fora do Permetro de Irrigao do Submdio Vale. Sua safra em 1998, foi de 2512 ton.

    A cultura de videira continua se expandindo, segundo a CODEVASF, embora no disponha de nmeros que expressem este crescimento. LEO e POSSDIO (2000), lembram que a uva em termos culturais uma planta italiana e francesa que foi introduzida na Bahia e em Pernambuco desde o sculo XVIII, e avanou para o interior at o limite do Agreste com o Serto. Cabe reafirmar o sucesso da presena desta planta oriunda de regio temperada no trpico e semi-rido.

    A produo de manga no Permetro de Irrigao do Submdio So Francisco, se d paralelamente vinicultura. A maior parte da produo de manga do Brasil destina-se ao consumo interno, inclusive a produzida no Vale, isto porque as variedades tradicionais so bastante fibrosas e tm pouca aceitao no mercado externo. A expanso do cultivo da man-gueira irrigada no Submdio Vale foi extraordinrio. SILVA (2001) destaca que em 1987 havia no plo 921 ha ocupados com manga, que, em 1996, j eram 3200 ha e, em 1999, alcanavam 12456 ha, distribudos por seis municpios pernambucanos e quatro baianos. Em apenas trs anos o seu aumento foi de 389,2%, ou seja, um crescimento anual de 129,7%, o que representa 3,31 vezes a rea ocupada pela vinicultura na regio.

    Os dados apresentados por SILVA mostram que, em 1996, a regio do plo de irrigao do Submdio Vale foi responsvel por 70% das exportaes brasileiras de manga. Em 1991, a regio exportou 3300 ton para o mercado externo e 15000 ton em 1994. No ano seguinte ocorreu uma expressiva queda de 25%, baixando para 12000 ton, segundo a Valexport (2003). Em 1998, a sua exportao elevou-se para 34000 ton, no ano de 2000, atingiu 57200 ton e, em 2001, elevou-se para 81115 ton. Este volume representou em mdia, 90% das 193559 ton de manga destinada exportao entre 1997 e 2002.

    O processo de irrigao desenvolvido em todo o Vale do Velho Chico produz as mais variadas culturas, incluindo as frutas voltadas para o mercado externo e as culturas caractersticas da poca das vazantes: milho, feijo, arroz, mandioca, batata doce e cebola, que compem a alimentao bsica da populao regional e do pas como um todo. Estas culturas no receberam ateno especial das polticas pblicas para a agricultura no Vale, pois elas no interessavam as empresas do setor. No entanto, o Estado assegurou todo apoio necessrio s grandes empresas, ao mesmo tempo elas atenderam de pronto o chamado. Elas partiram para o sacrifcio sem o risco de seus investimentos naufragarem em aventuras sertanejas. Nada de risco capitalista e tampouco cultivar culturas tradicionais e frutas com mercado limitado, seja interno ou externo. Apesar destes reparos, em

  • Jos Vieira Camelo Filho / Revista do Departamento de Geografia, 17 (2005) 83-93.

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    particular, a produo de bananas em larga escala vem sendo realizada por grandes empresas, pois esta fruta tem um enorme mercado sua disposio, sobretudo nas grandes cidades das regies Sudeste e Nordeste, alm de contar com a participao dos pequenos produtores.

    Em termos estratgicos e econmicos, para as grandes empresas (sobretudo as internacionais) melhor deixar a maior parte da produo de mamo, melancia, banana, goiaba, acerola, maracuj, alm de outras, para os terrqueos locais (pequenos e mdios produtores), porque estas empresas preferem participar na comercializao e, o mnimo possvel, na produo destas frutas. No entanto, dominam a produo e comercializao de frutas como manga e uva, denominadas de prolas do complexo frutfero do Submdio So Francisco. Antes mesmo desta grande expanso observada acima, SORJ (1980) lembra que os projetos de irrigao permitem a instalao de empresas agroindustriais que passam a controlar grandes parcelas de terras irrigadas. Escolhem o que vo produzir, e para os pequenos produtores restam os pequenos lotes que sero subordinados agroindstria porque estes no dispem de meios para produzir as culturas de seu interesse. Alm do mais, sem investimentos e possuindo propriedades com reas limitadas, no lhes restam outro papel seno o de apndice do sistema.

    Para os crticos deste modelo, o amplo processo de desenvolvimento designado para o Vale resultou em reduzido nmero de atividades agrcolas ancoradas na fruticultura irrigada que, segundo UNGER (2001), consome vultosos investimentos e atende aos interesses, principalmente, das empresas multinacio-nais. A autora lembra que a transformao do Serto do Sub-mdio So Francisco em uma Nova Califrnia no melhorou em nada a vida dos ribeirinhos da regio, os rumos desta poltica de excluso no desenvolvimento do Vale tm que ser alterados. Os dados apresentados por GOMES (2001) reforam os questiona-mentos feitos por Nancy UNGER, visto que nos seis projetos de Petrolina e Juazeiro, os investimentos pblicos foram da ordem de 674 milhes de Reais, enquanto os investimentos privados aplicados em seus prprios projetos foram em torno de 604 milhes de Reais, ou seja, representam 47,26% dos investimen-tos globais (pblicos e privados) investidos na regio (dados de 1999). Os sindicatos dos trabalhadores rurais da regio, junta-mente com as dioceses de Juazeiro e Barra (BA), tambm engrossam as fileiras dos crticos ao modelo de desenvolvimento implantado no Vale, principalmente no Submdio So Francisco.

    GOMES (2001) destaca que entre 1960 e 1996 ocorreu um espetacular crescimento da Populao Economicamente Ativa no

    plo de irrigao de Petrolina. Trata-se de uma elevao em torno de 543%. Em 1960, Petrolina contava com 10478 habitantes e passou para 67388 em 1996, enquanto Juazeiro passou de 19248 para 57519 no mesmo perodo. Nestes 36 anos foram criados 102.181 novos empregos no plo de irrigao. Contudo, GOMES mostra que, em 1998, as pessoas diretamente empregadas no permetro de irrigao tinham um salrio mdio de R$ 254,00, equivalente a dois salrios mnimos da poca ou a US$ 86,69, em 2004. Trata-se de uma remunerao baixa, mesmo porque uma parte da renda gerada com a irrigao a apropriada como renda do capital e no do trabalhador. Ou seja, no se pode interpretar o valor acima como renda, conclui o autor. Estes dados contribuem bastante com o combustvel dos crticos deste modelo, porque estas mdias no levam em conta os agricultores com diferentes nveis de produtividade.

    Finalmente temos a proposta de transposio de parte da gua do rio So Francisco para outras bacias do semi-rido nordestino que se materializou pela primeira vez em 1847, com o Imperador Dom Pedro II. A construo dos canais deveria ser executada num perodo de 10 anos. Contudo, esta questo j havia sido cogitada antes. Segundo PESSOA (1989), a idia da transposio se reporta ao governo de Dom Joo VI, no perodo colonial, quando foram autorizados estudos de viabilidade desta medida. A construo de canais para a transferncia de gua j era difundida em vrias partes do mundo. Neste sentido, a idia de transposio formulada por Dom Joo no chegou a ser uma novidade. No entanto, na poro oriental da Amrica do Sul, a sua concepo e possvel execuo realmente seria algo espantoso em termos tcnicos e operacionais. Esta obra seria invivel por conta do relevo que exigiria a elevao da gua a uma altura de 160 m. No havia energia para assegurar o funcionamento deste sistema. Porm, foi a partir do governo de Dom Pedro II que a transposio do So Francisco entrou na agenda governamental e nunca mais saiu. CARVALHO (1988) aponta que os primeiros estudos a respeito da transferncia de gua do Velho Chico para outras bacias do semi-rido (Jaguaribe) foram realizados por Antnio M. de MACEDO e sua divulgao ocorreu pela primeira vez em 1847, quando suplente de deputado no Cear.

    Apesar de ser um Projeto bastante antigo, muito polmico. A sua implantao vem recebendo fortes crticas inclusive na prpria regio que ser beneficiada por ele. O documento elaborado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, denominado A Transposio do Rio So Francisco e o Rio Grande do Norte (2000), alm de fazer uma consistente crtica ao Projeto, de parecer contrrio.

  • A retomada do planejamento federal e as polticas pblicas no ordenamento do territrio municipal: a temtica das guas

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    Tabela 2 Localizao e extenso das reas ocupadas pelos projetos da CODEVASF.

    Projetos e Permetros Municpios rea Total em ha rea ocupada em ha

    Baixo, Mdio e Alto So Francisco

    MARITUBA Penedo-AL 3.136 894 Baixo BOACICA Igreja Nova-AL 3.334 3.334 Baixo ITIUBA Porto Real do Colgio-AL 894 894 Baixo BETUME I. Flores, Nepolis e Pocatuba-SE 2.865 2.865 Baixo COTINGUIBA/PINDORA Japoat, Nepolis e Propri-SE 2.237 2.832 Baixo PROPRI C.So Joo, Propri, e Telha-SE 1.777 1.777 Baixo QUIXABEIRA Canind do So Francisco-SE 3.668 Baixo BREJO DE SANTA MARIA Santa Maria da Boa vista-PE 3.800 Sumdio PONTAL/SOBRADINHO Dormentes e Petrolina-PE 27.930 Submdio PONTAL Petrolina-PE 7.862 Submdio BEBEDOURO Petrolina-PE 2.418 2.412 Submdio NILO COELHO Casa Nova-BA e Petrolina-PE 22.061 20.877 Submdio PAULO AFONSO Paulo Afonso-BA 7.000 Submdio CURU Juazeiro-BA 4.350 4.350 Submdio MANIOBA Juazeiro-BA 4.293 4.293 Submdio TOURO Juazeiro-BA 13.188 10.710 Submdio MANDACARU Juazeiro-BA 419 419 Submdio SALITRE Juazeiro-BA 31.305 Submdio CRUZ DAS ALMAS Casa Nova-BA 38.400 Submdio FORMOSO-A e H Bom Jesus da Lapa-BA 12.716 10.656 Mdio CORRENTINA Corret.,S M.Vitria, Santana-BA 141.000 Mdio FORMOSINHO Coribe-BA 448 448 Mdio JABORANDI Coribe e Jaborandi-BA 23.000 Mdio NUPEBA Riacho das Neves-BA 3.318 3.318 Mdio RIACHO GRANDE Riacho das Neves-BA 1.985 1.985 Mdio BARREIRAS NORTE Barreiras-BA 2.895 2.520 Mdio SO DESIDRIO, BAR. SUL So Desidrio e Barreiras-BA 2.238 2.238 Mdio BAIXIO IREC Itag. Da Bahia e Xique-Xique-BA 59.630 Mdio MIRORS Gentio de Ouro e Ibipeba-BA 2.1666 2.097 Mdio VALE DO IUI Iut, Malhado e P.M. Alto 88.306 Mdio CERAMA Guanamb-BA 430 408 Mdio ESTREITO I, III e IV Sebastio Laranjeira e Urandi-BA 7.943 2.099 Mdio JABA Jaba e Matias Cardoso-MG 100.000 156.770 Mdio LAGOA GRANDE Januaba-MG 1.660 1.538 Mdio GORUTUBA Nova Porterinha-MG 5.286 5.286 Mdio JEQUITA C. Poes, Navarro, Jequitai-MG 34.605 Mdio PIRAPORA Pirapora-MG 1.261 1.261 Alto RIO DAS VELHAS Vrzea da Palma-MG 25.000 Alto Totais 698.524 103.173

    Fonte: CODEVASF, 2002.

    De acordo com o Projeto de Integrao do Rio So Francisco com Bacias Hidrogrficas do Nordeste Setentrional (2004), sero construdos dois grandes canais (eixos) para levar a gua do Rio da Unidade Nacional para outras bacias. O Ponto inicial deste EIXO NORTE, com 402 km, situa-se em Cabrob e conduzir, em mdia, 45,2 m3/s de gua captada no rio So Francisco. Uma vez elevada a 165 m, seguir por gravidade para

    as bacias dos rios Brgida, Terra Nova, Jaguaribe, Apodi e Piranhas-Au. A extenso do EIXO LESTE estimada em 220 km. Ser tirada gua de Itaparica e feito o bombeamento a uma altura de 402 m para os rios Paraba e Moxot que desguam respectivamente, no oceano Atlntico e no rio So Francisco. As obras do EIXO NORTE foram estimadas em 1 bilho e 30 milhes de dlares e as do EIXO LESTE em 472 milhes de dlares.

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    A construo desses canais dotar de infra-estrutura permanente uma regio bastante populosa do serto e do agreste nordestino. O Ministrio da Integrao Nacional, responsvel pelo projeto, garante que os benefcios desse empreendimento devem abranger a maioria da populao, caso contrrio no se justificaria sua realizao. A gua transportada por estes canais vai atender a: (1) 4,4 milhes de habitantes na Regio Metropolitana de For-taleza atravs do rio Jaguaribe e do Canal do Trabalhador, cons-trudo no incio da dcada de 1990; (2) 1,5 milhes de habitantes na bacia do rio Paraba; (3) 1,1 milhes de habitantes no agreste de Pernambuco; e (4) 1,3 milhes habitantes nas bacias do Apodi e Piranhas-Au.

    O Ministrio estima a criao de 180 mil empregos no decorrer da implantao e consolidao do Projeto de Integrao pela da posse da terra ou do trabalho assalariado nas atividades econmicas a serem criadas. O Governo espera que at 2025, aproximadamente 400 mil pessoas do meio rural e 600 mil dos

    centros urbanos, totalizando um milho de pessoas, permane-cero na regio de abrangncia. A bacia do rio So Francisco tem 640 mil km2, mas, com a incluso da rea atendida pelo Projeto, passa para 787 mil km2, chamada rea de Influncia Indireta. As bacias receptoras tm 212 mil km2 e, em 2025, recebero 42,4 m3/s .

    Considerao final O planejamento federal foi retomado de forma intensificada

    a partir da dcada de 1990 no Brasil, privilegiando a escala municipal, lcus privilegiado das polticas pblicas, dos conflitos e disputas pelo poder. As novas institucionalidades que possibilitam formas de ampla participao de diversos setores em discusses, como a das guas, se assentam sobre perversas tradies hierrquicas e tm sido apropriadas por antigos e novos agentes hegemnicos. Aos Gegrafos cabe maior conscincia de sua importncia tcnica, terica e poltica.

  • A dinmica poltica, econmica e social do rio So Francisco e do seu vale

    93

    CAMELO FILHO, J. V. (2005) Political, economical and social dynamics of So Francisco River and its valley. Revista do Departamento de Geografia, n. 17, p. 83-93. Abstract: The So Francisco River was always an important linking channel among Brazil Northeast, Southeast and Centro-Oeste regions, through fluvial navigation. Strategically, this river and its branches have contributed to the control and settlement in the interior of Brazil, where, along history, the large and the small properties were constituted. Both are responsible for the economic and social underdevelopment of the So Francisco Valley. Its economy, till the first half of the twentieth century, was supported by the extensive cattle growing and by the subsistence agriculture. The possession or the access to the land, for most part of the population, has been a big challlenge to the Government. Along the last 50 years, the water of the Old Chico has become one of the biggest richness of the So Francisco Valley and the main raw material to its development that has effectively begun with the generation of electric energy in Paulo Afonso. From the beginning of the eighty and ninety decades, the irrigation process has been intensified, aiming, in especial, the production of fruits in the irrigation perimeter of Petrolina and Juazeiro, west of Bahia State, in the Jaba Project and Pirapora, in Minas Gerais State. However, during the last years, the Project of Transposition of Water from the So Francisco River to other hydrographic basins of the semi arid region has got prominence. Key words: So Francisco River; Navigation; Water; Development; Irrigation; Property. Recebido em 7 de setembro de 2005, aceito em 2 de outubro de 2005.

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