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  • Revista do Departamento de Geografia, 17 (2005) 83-93.

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    A DINMICA POLTICA, ECONMICA E SOCIAL DO RIO SO FRANCISCO E DO SEU VALE

    Jos Vieira Camelo Filho

    Resumo: O rio So Francisco sempre foi um canal importante de ligao entre o Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, feita atravs da navegao fluvial. Estrategicamente, esse rio e seus afluentes contriburam para o controle e o povoamento do interior, onde, ao longo da histria, constituram-se os grandes latifndios e os pequenos minifndios, ambos responsveis pelo atraso econmico e social do Vale. Sua economia, at a primeira metade do sculo XX, foi ancorada na pecuria extensiva e na agricultura de subsistncia. A posse ou acesso terra, para a maioria da populao, continua sendo um grande desafio para a sociedade. Nos ltimos 50 anos, a gua do Velho Chico tornou-se a maior riqueza do Vale e a matria-prima mais importante para o seu desenvolvimento, que, efetivamente, iniciou com a gerao de energia em Paulo Afonso. A partir das dcadas de 1980 e 1990, o processo de irrigao se intensificou, em particular, visando a produo de frutas nos Permetros de Irrigao de Petrolina e Juazeiro, Oeste da Bahia, e com Projeto Jaba e Pirapora, em Minas Gerais. Contudo, nos ltimos anos, o Projeto de Transposio de gua do So Francisco para outras bacias hidrogrficas do semi-rido vem ganhando destaque. Palavras-chave: Rio So Francisco; Navegao; gua; Terra; Desenvolvimento; Irrigao; Propriedade. Introduo

    Neste trabalho procuramos situar o rio So Francisco e seu Vale nos contextos poltico, econmico, social e geogrfico do Brasil, tendo em vista as contradies presentes em nossa socie-dade. O Velho Chico serviu de canal para povoamento e controle do interior brasileiro ao longo da histria e de ligao entre o Nordeste e o Sudeste, atravessando o semi-rido nordestino. A primeira medida concreta para o desenvolvimento do Vale se deu com a criao da Companhia Hidreltrica do So Francisco-CHESF, em 1945, e da Comisso do Vale do So Francisco-CVSF, em 1948. A CVSF foi substituda pela SUVALE, em 1967, que, por sua vez, originou a Companhia de Desenvolvimento do Vale do So Francisco (CODEVASF), criada em 1974, com a funo de desenvolver o Vale, sobretudo no campo da agricultura irrigada, com destaque para a produo de frutas: banana, melo, melancia, ata, manga, uva, alm de produzir vinho, sucos e sementes. Mas o Projeto mais antigo do Vale foi apresentado em 1847; trata-se da transferncia de parte da gua do Velho Chico para outras bacias do semi-rido. Aps 158 anos, encontra-se ainda em fase de implantao, com o nome de Projeto de Integrao do Rio So Francisco com Bacias Hidrogrficas do Nordeste Setentrional.

    O rio So Francisco, o caminho estratgico do Brasil A relao do Estado com o rio So Francisco vem do

    perodo colonial devido a sua posio estratgica no que diz

    respeito ocupao e controle do territrio por parte da Coroa Portuguesa. O povoamento do Vale do So Francisco deu-se lentamente porque, em termos econmicos, os negcios com o acar estavam em primeiro plano, tanto que SANTOS (1985) destaca que o acar um gnero de importncia bsica no mercado no mercado mundial a partir do sculo XVI e o mesmo era produzido no litoral brasileiro. A ocupao da regio, da foz do rio e que se estende cerca de 300 km para o interior, iniciou-se com o desenvolvimento da pecuria extensiva que, por sua vez, teve grande importncia para a atividade aucareira, realizada na costa litornea. O rio era mais um acidente geogrfico encontrado pelos portugueses desde o litoral do Atlntico, no entanto permitiu a penetrao para o interior do territrio e, assegurava o controle e o povoamento dele pela Coroa Portuguesa que ampliava a sua expanso para alm do litoral.

    Geograficamente a plantao de cana para a produo de acar estendeu-se pela rea coberta pela Mata Atlntica, tam-bm conhecida como Zona da Mata na faixa litornea do litoral de Pernambuco, Alagoas e Recncavo Baiano, e s mais tarde chegou ao litoral norte do Rio de Janeiro, regio de Campos dos Goytacazes. A introduo da cana-de-acar no Brasil ocorreu ainda na primeira metade do sculo XVI, passou por um processo de estagnao nos sculos XVII e XVIII, contudo continuou sendo plantada nas mesmas regies e no sculo XX se expandiu por todo o Brasil, particularmente no Sudeste. Por outro lado, no podemos esquecer da plantao de subsistncia para a produo

  • Jos Vieira Camelo Filho / Revista do Departamento de Geografia, 17 (2005) 83-93.

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    de rapadura e aguardente (cachaa) distribuda por todo interior do pas, inclusive no serto nordestino e no Vale do So Francisco. Esse processo vem ocorrendo desde o perodo colo-nial e dura at os dias atuais.

    THERY (1980) lembra que o gado, alm de servir para a alimentao, tambm representava um elemento indispensvel nas atividades agrcolas, nos servios de transporte, portanto, tinha forte relao com o cotidiano das atividades desenvolvidas pelo homem do meio rural. ABREU (1975) destaca essa importncia, tanto que responsvel pela civilizao do couro no interior do pas. O gado tinha papel preponderante nas atividades ligadas aos engenhos, por exemplo, com o couro fazia-se o bang que aparava a garapa no momento da moagem da cana-de-acar e; o engenho era movimentado por trao animal, que recebia a denominao de trapiche. A expanso da atividade pecuria contribuiu para que no sculo XVIII todo o Vale estivesse povoado. FURTADO (1972) completa afirmando que a pecuria surge fundamentalmente para satisfazer a demanda de carne, de animais de trao e carga, criada tanto por empresas agromercantis quanto pela exportao mineira.

    O rio So Francisco serviu de via para transporte de alimento (milho, feijo, carne seca, rapadura, farinha) destinado ao suprimento das minas de ouro; por ele seguiam escravos e garimpeiros vindos de outras regies. Serviu tambm para evaso (sada) de ouro que chegava at Salvador. Graas a este parti-cular, o controle da navegao pelo rio tornou-se mais incisivo por parte da Coroa portuguesa que chegou a proibir o trfego de mercadorias, o ouro em particular, sendo permitido apenas o transporte de alimentos destinados ao abastecimento das minas. No perodo da minerao tivemos uma forte expanso da pecuria no Vale e um significativo aumento da populao, tornando-se a regio a mais povoada da colnia depois das reas produtoras de acar. Com isso, formaram-se vrios ncleos de povoamentos que deram origem a cidades espalhadas em toda a extenso do rio So Francisco e de seus afluentes.

    O ciclo econmico da minerao chegou ao fim, o domnio colonial portugus tambm e o rio So Francisco continuou pulsando como se fosse a artria aorta do corao do interior do territrio brasileiro. Entretanto, o Vale continuou sem qualquer transformao do seu cotidiano econmico historicamente ancora-do na pecuria extensiva e na agricultura de subsistncia. Dessa forma, a regio manteve o processo de povoamento iniciado no perodo colonial. Por conta da atividade pecuria desenvolvida no Vale, o rio So Francisco recebeu a denominao de Rio dos Currais, e a partir da Independncia do Brasil, passou a ser

    chamado de Rio da Integrao Nacional, porque proporcionou a ligao direta entre o Nordeste e Sudeste do pas. A navegao se intensificou em todo o percurso navegvel do rio, apesar da simplicidade dos seus barcos; lembramos que os primeiros barcos a vapor s foram introduzidos no So Francisco em 1866.

    A posio geogrfica do rio So Francisco sempre foi considerada estratgica pelos seus estudiosos em relao ao povoamento e controle do interior, tanto no perodo colonial como tambm aps a Independncia. BURTON (1977) expressa bem essa forma de ver o rio, em suas pesquisas realizadas na dcada de 1860 (sculo XIX), em que ele procura analisar o seu papel como canal de comunicao entre as regies litorneas e o serto, entre o Norte e o Sul do pas, facilitando a realizao do comrcio e a colonizao. De acordo com esse autor, o So Francisco evitava a escassez, ao assegurar o escoamento dos excedentes das regies centrais, principalmente nos perodos de estiagem que prejudicavam a agricultura ou quando, por ventura, a faixa litornea fosse bloqueada por foras exgenas. E conclui que desta forma se completa o ciclo estratgico de que o Imprio necessitava grandemente para preservar a sua integridade.

    A preocupao estratgica apontada por Burton, tendo em vista um possvel bloqueio da faixa litornea, s veio a se tornar realidade bem mais tarde, com a ecloso da Segunda Guerra, em 1939. O governo brasileiro, no decorrer da Segunda Guerra, estabeleceu que a navegao do So Francisco seria uma via estratgica para assegurar o suprimento de mercadorias no interior do pas, em caso de ocupao do seu litoral por tropas estrangeiras. O coronel FIGUEIREDO (1941) tambm destaca a incontestvel influncia do So Francisco (desde os tempos remotos) para a histria da civilizao brasileira, e lembra que, apesar da sua importncia, o rio vem sendo tratado com descaso pelo governo brasileiro, tanto que, j na dcada de 1930, ele agonizava em decorrncia da escassez do volume lquido, da falta de drenagem no leito entulhado de areia, paus e outros entulhos carregados pelas torrentes. Mesmo com esse contexto, todas as atividades econmicas relacionadas com o rio sempre tiveram estreita ligao com o Estado, desde o perodo colonial; por isso, recebeu um destaque especial em relao aos demais rios do Brasil.

    A sua navegao fluvial tinha dois percursos: da foz a Piranhas, na sua poro inferior, e de Juazeiro (BA) a Pirapora (MG), com 1371 km de extenso, sendo feita com barcos simples; em muitos trechos, adotava-se a tradio indgena de navegar, usando pequenos barcos e s a partir de 1866, foram introduzidos os primeiros vapores. MACHADO (2002) em seu estudo a res-

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    peito da navegao do So Francisco lembra que o Saldanha Marinho foi o navio mais importante que

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