a dinâmica da concentração do emprego industrial no brasil (1991

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    A dinmica da concentrao do emprego industrial no Brasil (1991-2011) e o ciclo de vida das empresas

    Adriano Borges Costa* e Ciro Biderman** Resumo:

    No Brasil bem como em diversas regies do mundo notamos uma reduo considervel do emprego industrial. Esses movimentos levam cidades a reduzir sua populao rapidamente e perder o grosso da sua atividade produtiva. A queda na concentrao industrial no Brasil tem sido muito elevada desde os anos 1970 e as ltimas duas dcadas no representam uma exceo. Nesse artigo estudamos a dinmica da desconcentrao regional da indstria brasileira nas duas ltimas dcadas decompondo sua variao entre o componente inercial (regresso para a mdia) e o componente desaglomerao (disperso) mostrando que os dois fatores que parcialmente se compensam so de magnitude bastante elevada. Em seguida decompomos essa dinmica nos diversos componentes associados ao ciclo de vida das empresas mostrando que de fato h uma grande reduo da concentrao por conta do nascimento de empresas mas que esse fator compensado pelo morte de empresas. Esse resultado contra-intuitivo que tambm vlido para os EUA indicam que as polticas regionais deveriam se preocupar mais com a sobrevivncias das empresas fora das grandes aglomeraes urbanas do que com a criao de novas empresas nesses polos.

    Palavras-chave: indstria brasileira, concentrao industrial, emprego industrial.

    Abstract:

    In Brazil as in many regions in the world, we can note a considerable reduction in manufacturing employment. This movement implies that some cities lose population and its economic activity. When we observe concentration indices for manufacturing we note that they are going down very fast in Brazil since the 1970s and the last two decade were not an exception. In this paper we study the process of regional de concentration in manufacturing in the last two decades decomposing the process between the inertial component (regression to the mean) and the de-agglomeration component (dispersion) showing that those two components are much higher than the net result. Following we decompose this dynamics on the life cycle of the firms showing that as a matter of fact there is a large reduction in concentration due to firms birth but that is compensated by firms closure. This counter intuitive result also valid in the US shows that regional policies should be more concerned about the survival of new firms in lagged areas than the creation of new firms on those new poles.

    Keywords: Brazilian manufacturing, industrial concentration, industrial employment.

    rea ANPEC: Economia Regional e Urbana

    JEL: J21, L60, L70

    * FGV-SP ** FGV-SP e SPTrans

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    Introduo

    H uma vasta literatura que trata sobre as vantagens das empresas industriais de se localizarem conjuntamente. Custos de transporte e os ganhos de escala so os fatores mais comumente evidenciados nos estudos, no entanto a circulao do conhecimento, a proximidade com universidades, o papel exercido por lideranas locais, a existncia de cultura empreendedora e de polticas pblicas de fomento, entre outros fatores, so tambm utilizados para explicar a formao dos chamados clusters industriais.

    Para a anlise de poltica pblica, a investigao de padres de localizao regional de atividades econmicas se justifica como orientador de polticas territoriais que visem atenuar os desequilbrios e desigualdades entre os estados. Mais que isso, o desenvolvimento de polticas de planejamento urbano e de trabalho devem considerar os diagnsticos sobre tendncias locacionais das empresas, pois estes indicam situaes futuras possveis de grande crescimento populacional ou de forte depresso econmica e desemprego, por exemplo.

    No Brasil, a sada da indstria das tradicionais regies de aglomerao um fenmeno persistente desde a dcada de 1970. O sudeste reduziu em um quarto sua participao na produo industrial entre 1970 e 2011 e as regies metropolitanas de So Paulo e Rio de Janeiro, ao longo destes 40 anos, perderam mais de 50% da sua participao na indstria. Estas regies metropolitanas que eram responsveis em 1970 por mais de 40% da fora de trabalho na indstria, em 2011 representavam menos de 20% desta mo de obra.

    No foram apenas as regies metropolitanas de So Paulo e Rio de Janeiro que perderam participao na indstria. Ao analisar o perodo recente, verifica-se que o conjunto de regies metropolitanas tambm perde participao significativa nesta fora de trabalho nas duas ltimas dcadas. Em 1991, 67% da fora de trabalho industrial localizava-se nas atuais regies metropolitanas e em 2011 esse valor reduziu-se para 53%. Em paralelo a este processo de sada da indstria das regies metropolitanas, ocorre tambm perda da relevncia da produo industrial na economia brasileira, com diminuio relativa da populao economicamente ativa na indstria de transformao no pas era 23% em 1980 e em 2011 chegou a 13%. Evidentemente todo esse movimento resultou em uma descentralizao do emprego industrial como relatado por diversos autores.

    Este trabalho avana no sentido de compreender esse processo de descentralizao da indstria das regies industriais tradicionais e dos grandes centros urbanos. A partir de uma abordagem emprica e do uso de dados secundrios oriundos da Relao Anual de Informaes Sociais (RAIS), busca dialogar com os trabalhos aplicados economia industrial brasileira que diagnosticam a desconcentrao e analisam as decises locacionais das firmas. Por meio da aplicao da metodologia desenvolvida em Dumais, Ellison e Glaeser (2002), busca-se compreender o processo de desconcentrao industrial das ltimas duas dcadas de maneira mais profunda.

    A maneira de nos aprofundarmos no processo de desconcentrao industrial decompondo a variao do ndice de concentrao de duas maneiras distintas. Em primeiro lugar, h a tendncia de reverso para a mdia, ou seja, o fato de que as indstrias tendem a se deslocar para regies onde h menor concentrao de tal sorte que as regies apresentem a mesma atividade mdia. Esse fator pode ser facilmente compreendido se pensarmos que pais altos no devem ter filhos mais altos se no terminaramos com uma parte da populao de gigantes e uma parte da populao de anes. Em termos de economia regional esses so os fatores associados s foras de centrpetas: o fato de que uma regio se torne muito concentrada faz com que aumente o custo da terra, aumente os custos de transporte, etc gerando uma tendncia de reverso para a mdia de todas as regies (evidentemente se todas as regies

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    tiverem o mesmo grau de concentrao no haveria por que haver custos diferenciais). Assim, as regies mais vazias se tornam mais atrativas por esse motivo. O segundo fator, que tende a aumentar a concentrao, o fato de que todos querem estar onde todos esto. A questo por que motivo uma determinada regio foi escolhida e no uma outra. A proposta pioneira de Henderson (1974) formalizada por Krugman (1991) que essa deciso poderia ser modelada como uma deciso aleatria mas que, dinamicamente, teria um efeito muito relevante. Para que exista desconcentrao necessrio que a reverso para a mdia supere os fatores aleatrios. Medir o tamanho de cada efeito pode ter consequncias bastante relevantes para as polticas pblicas. A segunda decomposio procura associar o processo de (des)concentrao ao ciclo de vida das empresas. O emprego industrial pode variar devido ao nascimento e morte de empresas, ao aumento ou reduo do emprego em empresas estabelecidas e, finalmente, pela emigrao ou imigrao de empresas dentro do pas. Entendendo quais desses fatores influenciaram mais pesadamente no processo de desconcentrao recente da indstria podemos compreender melhor o prprio processo. Esse artigo procura justamente se aprofundar no processo de desconcentrao observado nas duas ltimas dcadas e est dividido em sete sees incluindo essa introduo. Na seo seguinte apresentamos o referencial terico e algumas evidncias para o processo de desconcentrao da economia brasileira amplamente documentado. A terceira seo apresenta a base de dados utilizada e a metodologia adotada para decompor o processo de descentralizao das duas ltimas dcadas. Como deve ficar claro, apesar de ser um artigo essencialmente descritivo altamente demandante em termos de dados e processamento. As sees 4, 5 e 6 apresentam os principais resultados primeiro reforando as evidncias de desconcentrao da atividade industrial no Brasil a partir de uma leitura um pouco distinta. Em seguida decompondo o processo de desconcentrao entre fatores de reverso mdia e disperso mostrando que a volatilidade muito maior do que o observado pelos ndices de concentrao que representam uma verso agregada desses dois movimentos. Finalmente, decompondo o processo ao longo do ciclo de vida das empresas o que permite avaliar criticamente as polticas de equilbrio regional. A ltima seo conclui o artigo.

    Referencial Terico e Contexto Brasileiro

    A principal explicao sobre os motivos para as plantas industriais localizarem-se de forma aglomerada est relacionada aos conceitos de retornos crescentes de escala e de foras de aglomerao e desaglomerao. Seus autores sofrem grande influncia de Marshall (1890). Analisando os distritos industriais ingleses e as vantagens obtidas pelas empresas com a concentrao de vrias indstrias em uma determinada regio geogrfica, Marshall (1890) argumenta que as indstrias procuram se estabelecer onde encontram disponibilidade e qualidade para os insumos e facilidades de acesso, tanto para abastecimento quanto para o escoamento da produo. Nos clusters industriais, alm do dinamismo nos mercados de insumos, as empresas tambm se beneficiam da diversidade de mo de obra. As indstrias constituem um mercado de empregos para uma mo-de-obra especializada e capacitada, atraindo profissionais de diversas localidades em busca de melhores empregos e salrios, constituindo uma diversidade de alternativas de contra