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  • A criao literria e o Algarve, no Algarve

    ou do Algarve?

    Reflexes sobre literatura regional(ista)

    Adriana Nogueira*

    Em resultado da conversa informal que foi o Quintas de Cultura Criar Letras, foi-me sugerido que desenvolvesse algumas reflexes das quais resultou este trabalho, que intitulei, inicialmente, A criao literria e o Algarve. Porm, vrias questes se foram levantando e, no final, o ttulo alongou-se para no Algarve ou do Algarve, em forma de interrogao.

    O verbete Algarve, da autoria de David Mouro-Ferreira, n O Dicionrio de Literatura, serviu de ponto de partida para ajudar a equacionar a problemtica: Para uma estimativa geogrfica da literatura portuguesa foi assaz tardia, embora muito caracterstica, a contribuio do Algarve, quer como bero de grandes escritores, quer como tema, tpico ou motivo de obras significativas (Coelho, 1987, p. 37).

    , pois, o Algarve tema, tpico ou motivo de obras significativas? Sem dvida. bero de grandes escritores? Sem dvida. E muitos mais dos que quela poca foram destacados no verbete, mas no esse o propsito aqui. Neste pequeno trabalho pretendo apenas problematizar questes que enunciei no ttulo, atravs de diversas reflexes que elas proporcionaram.

    * Docente de lnguas e literaturas da Universidade do Algarve

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    1. Algarve: tema, tpico ou motivo

    O uso do Algarve como tema, tpico ou motivo literrio relativamente frequente, quer em poesia, quer em prosa. A coletnea Algarve, todo o mar, organizada por Adosinda Providncia Torgal e Madalena Torgal Ferreira, em 2005, contm mais de 400 pginas de elucidativos discursos poticos (em prosa ou verso) construdos volta de Algarve, versando temas como o Mar, a Natureza; topoi como a viagem (O percurso potico pelas cidades, ao longo da costa e para o interior, p.21) e o passado mtico (evocao mtica do passado, p.20); motivos vrios, como a experincia dolorosa da emigrao e o convvio fluido dos veraneantes (p.22), por exemplo, dado que muitos outros ali se podem encontrar, agrupados em 10 ncleos, cronologicamente organizados internamente. A exigncia na seleo centrou-se nas marcas de Sul, Algarve e Mar nas obras selecionadas, no tendo os seus autores que ser algarvios ou residentes na regio.

    O Algarve na literatura foi, em 2009, o tema do ciclo conferncias Viajantes, Escritores e Poetas: Retratos do Algarve, do qual resultou uma publicao homnima, coordenada por Joo Carlos Carvalho, docente da Universidade do Algarve, e Catarina Oliveira, do Centro de Investigao e Informao do Patrimnio de Cacela. Neste volume h estudos vrios sobre a forma como o Algarve visto, quer na literatura tradicional quer na perspetiva de poetas, prosadores, historiadores e viajantes de diversas pocas e origens, da crnica do rabe al-Razi, do sculo X, a escritores que ainda esto entre ns: Antnio Ramos Rosa (Faro, 1924-), Teresa Rita Lopes (Faro, 1937-), Ldia Jorge (Boleiqueime, 1946-) e Nuno Jdice (Mexilhoeira Grande, 1949-).

    2. Bero de grandes escritores. Discurso ideolgico?

    Quanto a o Algarve ser bero de outros grandes escritores, abstenho-me de fazer uma enumerao, no s porque o livro Quem foi Quem: 200 Algarvios do sculo XX, de Glria Maria Marreiros, j lista muitos (infelizmente, apenas os j falecidos),

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    mas porque este trabalho no tem flego para tal. No entanto, irei referir alguns que fazem parte do panorama literrio nacional e internacional, mas apenas dentro do contexto que me interessou explorar neste trabalho. Sobre muitos outros de quem gosto e de reconhecida qualidade literria no falarei ou no me alongarei, pois no esta a ocasio. Vou acrescentar apenas um mais antigo, mas de descoberta recente. Em 2012, a Planeta Manuscrito publicou a edio que Pedro de Almeida Vieira preparou de O Estudante de Coimbra, romance de Guilherme Centazzi (Faro, 1808-Lisboa, 1875), um autor esquecido pelos dicionrios de literatura. Numa outra ocasio poderei escrever sobre ele, j que nesta obra, o ser algarvio declarado com orgulho por diversas vezes e apresentado como smbolo de valores morais.

    Na verdade, o bero de um escritor no lhe atribui maior ou menor qualidade literria. Ser originrio de um lugar ou de outro poder trazer, ou no, determinadas caractersticas sua escrita, que uns e outros que o leem conseguiro ou querero descortinar, independentemente de ele as ter escrito com essa intencionalidade. Sentir? Sinta quem l, dizia Fernando Pessoa8.

    Contudo, com alguma frequncia os responsveis de autarquias e regies reclamam como seus os autores que nas suas terras nasceram, cresceram, ou que nelas escolheram viver. Parece-me uma atitude legtima que contribui para que bons escritores no fiquem esquecidos, s porque ou nunca publicaram ou no o fizeram numa editora com projeo nacional. H quem promova concursos literrios, como o fez a Cmara de Portimo com o Prmio Literrio Manuel Teixeira Gomes, sem limitao de origem do candidato; h quem impulsione a revelao de autores locais, como o fez a Cmara Municipal de Olho, com a publicao dos trabalhos Antologia de Novos Autores de Olho, limitado a, l-se na contracapa, maiores de 14 anos, nascidos ou a viver em Olho, sem trabalhos publicados nas modalidades a que concorriam. Muitos patrocinam edies de autor. Outros ainda procuram recuperar a memria daqueles que o tempo fez esquecer. Como exemplo deste ltimo, realo o trabalho de

    8 No poema Isto.

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    Monchique para divulgar a obra de Manuel do Nascimento (Monchique, 1912 - Lisboa, 1966), fazendo um aproveitamento do facto do autor ali ter nascido para a promoo e enriquecimento cultural da zona, lendo no que o escritor escreveu as referncias terra natal, para melhor o integrar no seu propsito.

    No conto Suspeita, de O ltimo Espectculo, a personagem masculina afirma: Viemos h poucos meses para a cidade a cidade que eu odeio. Moldou-se-me o temperamento na Serra, a Serra me embalou; trago sempre nos olhos os horizontes sinuosos da montanha e nos ouvidos o zumbido do vento (p.150). Este desabafo da personagem foi provavelmente interpretado como uma subtil e engenhosa referncia terra natal, como se pode ler num documento, sem indicao de autor, publicado pela Cmara Municipal de Monchique9:

    Ao longo da carreira de escritor e do destino de homem, a sua relao com a terra natal marcada, essencialmente, no tanto pelo rasto cvico que nela deixou, mas, em contrapartida, pelo dilogo permanente com a paisagem fsica e humana da Serra de Monchique, gravado de forma subtil, mas indelvel e engenhosa, na quase totalidade da sua narrativa.(p.3)

    No mesmo documento, afirma-se que:

    Monchique faz parte da histria da Literatura Portuguesa; em Monchique nasceu e viveu Manuel do Nascimento, onde foi escrita parte importante da sua obra. Para Monchique de grande importncia ter um escritor, que foi seu, que teve projeo nacional e com obra publicada no estrangeiro, para alm da obra jornalstica e editorial que nos deixou. Trata-se de uma referncia de indiscutvel valor histrico, de que Monchique deve apropriar-se, expandindo-a, e disso tirando proveito.

    () Assim, desenvolvendo a obra j feita no sentido de divulgar a

    obra do escritor, Monchique multiplicar cidados com mais e melhor cultura, dando-lhes referncias, enfim, valorizando o que seu. E exportando valores. A ligao da cultura s coisas econmicas evidente. Cidados com mais e melhor cultura, com referncias e com

    9 Relao de Manuel do Nascimento com Monchique. Consultado a 5 de fevereiro de 2013, em http://www.cm-monchique.pt/NR/rdonlyres/C119D4C6-B9DF-4255-AB4D65ED32B416BC/0/RELA%C3%87%C3%83ODEMANUELDO NASCIMENTOCOM MONCHIQUE.pdf

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    mais largos horizontes, s podem beneficiar social e economicamente o concelho. (p.1-2)

    Nestas declaraes nada ambguas, h uma clara assuno de que a existncia de um autor a que se possa chamar seu deve ser aproveitada e explorada para bem do local um espao mais limitado que a regio e com aspirao a destacar-se no panorama regional, nacional e, pelas caractersticas do Algarve, internacional.

    Nesta linha, a posio poltica de uma cmara municipal em relao literatura que se pretende regionalizar (e, paradoxalmente, expandir, para passar as fronteiras do local) aproxima-se da seguinte definio10:

    O termo regionalismo usado alternadamente para descrever o princpio unificador de um corpus de textos literrios (isto , uma literatura regional), a ligao de um escritor a um lugar particular, a diversidade de escrita dentro espectro mais alargado de uma literatura nacional ou uma espcie de conscincia ou discurso ideolgicos. [sublinhado meu] (Wyle, Riegel, Overbye, & Perkins, 1998, p.X)

    3. Literatura regional/ Literatura regionalista

    Aquando da comemorao dos 30 anos de vida literria de Ldia Jorge, foi organizado um debate em janeiro de 2011, em Loul, com a homenageada e outros escritores nascidos no Algarve Gasto Cruz (Faro, 1941-), Nuno Jdice e Fernando Cabrita (Olho, 1954-) subordinado ao tema Existe uma Escrita a Sul? Nesse evento debateu-se a questo, no de uma literatura algarvia, mas de uma literatura do sul (de um sul at mais abrangente que o Algarve), tendo a ideia geral sido que as marcas de um sul tanto pode estar em algarvios como em escritores que no so da regio (como o caso de Sophia de Melo Breyner Andresen11). Qualquer um destes autores tem reconhecimento e larga aceitao do pblico portugus, todos com obra extensa e traduzida em outros pases. Nestas circunstncias, o adjetivo algarvio aposto ao seu

    10 As tradues presentes neste artigo so da minha responsabilidade. 11 E o mesmo se poderia dizer relativamente a