A conjunturA EconômicA E PolíticA BrAsilEirA E ArgEntinA

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  • A CONJUNTURA ECONMICA E POLTICA BRASILEIRA E ARGENTINA

  • Francisco Luiz CorsiJos Marangoni Camargo

    Agnaldo dos Santos(Organizadores)

    A conjunturA EconmicA E PolticA BrAsilEirA E ArgEntinA

    Marlia2015

  • UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

    FACULDADE DE FILOSOFIA E CINCIAS

    Diretor: Dr. Jos Carlos MiguelVice-Diretor:Dr. Marcelo Tavella Navega

    Conselho EditorialMaringela Spotti Lopes Fujita (Presidente)Adrin Oscar Dongo MontoyaAna Maria PortichClia Maria GiachetiCludia Regina Mosca GirotoGiovanni Antonio Pinto AlvesMarcelo Fernandes de OliveiraMaria Rosangela de OliveiraNeusa Maria Dal RiRosane Michelli de Castro

    Ficha catalogrfi ca

    Servio de Biblioteca e Documentao Unesp - campus de Marlia

    Editora afi liada:

    Cultura Acadmica selo editorial da Editora Unesp

    C751 A Conjuntura econmica e poltica brasileira e argentina / organiza-

    dores: Francisco Luiz Corsi, Jos Marangoni Camargo, Agnaldo

    dos Santos. Marlia : Oi cina Universitria ; So Paulo : Cultura Acadmica, 2015.

    208 p.

    Inclui bibliograi aApoio CAPESISBN 978-85-7983-683-1

    1. Brasil Poltica e governo. 2. Brasil Poltica econmica. 3. Brasil Relaes exteriores. 4. Argentina Poltica e governo. I. Corsi, Francisco Luiz. II. Camargo, Jos Marangoni. III. Santos, Agnaldo dos.

    CDD 330.981

  • sumrio

    Apresentao ..................................................................................... 7

    Como Fazer Anlise de Conjuntura numa Abordagem HistricaRosngela de Lima Vieira .................................................................... 15

    Crise do Neodesenvolvimentismo e Estado neoliberal noBrasil: Elementos de Anlise de Conjuntura do Capitalismo BrasileiroGiovanni Alves ................................................................................... 25

    O Poder Moderador do BrasilLincoln Secco ...................................................................................... 49

    Movimentos Sociais e Financiamento da Educao Bsica no Brasil:o Contexto Poltico e Social da Elaborao de Polticas PblicasSilvia Aparecida de Sousa Fernandes .................................................... 59

    No Fala Grosso com a Bolvia e No Fala Fino com os EUA: a PolticaExterna Brasileira no Contexto das Eleies Presidenciais de 2014Marcos Cordeiro Pires ......................................................................... 71

    A poltica Externa do Governo Dilma Roussef: uma Brevssima AvaliaoRodrigo Duarte Fernandes dos Passos.................................................... 85

    A Conjuntura e a Poltica Econmica no Governo Dilma (2011-2014)Francisco Luiz Corsi ........................................................................... 93

    Evoluo Recente da Economia Brasileira e Distribuio da RendaJos Marangoni Camargo ................................................................... 105

  • Propostas de Cincia e Tecnologia Apresentadas no DebateEleitoral de 2014Agnaldo dos Santos ............................................................................. 119

    Consideraciones Acerca de la Reforma Electoral en la ArgentinaJorge Szeinfeld .................................................................................... 137

    La Restriccin Energtica Argentina: un Ancla para su Crecimiento Sostenido?Gabriel Balbo ..................................................................................... 165

    Un Mundo en Crisisngel Tello.......................................................................................... 187

    Sobre os Autores ............................................................................... 203

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    APrEsEntAo

    O presente livro condensa os resultados das discusses e das re-lexes ocorridas no XIV Frum de Anlise de Conjuntura Os rumos da po-ltica e da economia brasileiras no ano de eleies. O Frum de Conjuntura, um dos eventos mais tradicionais da Faculdade de Filosoia e Cincias da Unesp, destina-se a discusso de temas candentes da conjuntura poltica, social e econmica nacional e internacional. Nesta edio o tema do even-to consistiu na conjuntura eleitoral, que foi abordada ao longo das mesas em seus mltiplos aspectos. Os trabalhos apresentados tambm buscaram situar o Brasil no contexto de crise do capitalismo global, alm de traa-rem um paralelo da situao brasileira com a de alguns pases da Amrica Latina, em especial com a Argentina.

    As eleies de 2014 ocorreram em um contexto de acirramento das lutas sociais e de crescentes problemas na rea econmica, derivados, em parte, da continuidade da crise do capitalismo global, que se arrasta desde 2008. Ainda que tenha experimentado no perodo algumas perdas, o capital inanceiro tem logrado impor seus interesses e conseguido conduzir as respostas crise, sem contudo calar a resistncia s polticas recessivas. Essa tendncia evidencia-se tanto na incapacidade dos Estados nacionais conseguirem impor uma regulao mais efetiva sobre os luxos globais de capital quanto no predomnio de polticas ortodoxas, pautadas pela aus-teridade, que s fazem agravar a crise e jogar o nus dos ajustes recessivos sobretudo nas costas da classe trabalhadora, como vem acontecendo na zona do euro. Este quadro tem condicionado as polticas econmicas no mundo todo.

    No por acaso dois projetos se defrontaram no ltimo processo eleitoral. De um lado, as foras articuladas sobretudo em torno dos inte-

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    resses do capital inanceiro, com amplo apoio da grande impressa, mas que tambm articulavam outras fraes da classe dominante e amplos setores da classe mdia. Este bloco, cuja principal expresso foi a candidatura de Acio Neves, propunha como sada para o Brasil o rgido cumprimento das metas inlacionrias, a independncia do banco central, o enrijecimento das metas de supervit primrio, reformas visando a reduo de direitos trabalhistas e sociais, o cmbio valorizado e o aprofundamento da aber-tura da economia nacional. De outro, a candidatura Dilma, com forte apoio popular e com um discurso esquerda (principalmente no segundo turno das eleies), advogava uma proposta que buscava de forma con-traditria contemporizar, ao mesmo tempo, as polticas macroeconmicas neoliberais com a continuidade das polticas voltadas para o crescimen-to do mercado interno e para o enfrentamento dos fulcrais problemas da desigualdade social e da misria. Linha que vinha sendo perseguida com algum sucesso desde o governo Lula, mas que j mostrava em 2014 sinais de esgotamento no baixo crescimento e no fato dos preos situarem-se no limite superior da meta de inlao.

    O embate eleitoral tambm foi balizado pelos movimentos so-ciais que eclodiram em 2013, cujos ecos ainda se faziam ouvir com fora. Movimentos muito heterogneos na sua composio e nas suas reivindica-es, que iam do im da corrupo disseminada no setor pblico s melho-rias nos transportes urbanos, na educao e na sade. Seja como for, estes movimentos evidenciaram os limites das polticas sociais focalizadas e de carter compensatrio do governo e defendidas pelas instituies multila-terais e pelos neoliberais. Eles indicam a necessidade premente de polticas sociais universais.

    O presente livro pretende ser uma contribuio a discusso des-sas questes. O seu tema central consiste no debate acerca dos rumos do Brasil no complexo contexto nacional e internacional em que vivemos, tendo em vista os resultados das eleies. O livro est organizado em 12 captulos. Abrimos o livro com uma discusso terica sobre anlise de con-juntura. Em seguida, apresentamos os captulos que abordam diferentes aspectos da conjuntura poltica, social e econmica brasileira. Por im, dois artigos discutindo a situao argentina e fechando a coletnea um captulo acerca da conjuntura mundial.

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    No primeiro captulo Rosngela de Lima Vieira trata da sua expe-rincia nos minicursos realizados nos Fruns de conjuntura, com o objetivo de dar aos alunos um instrumental metodolgico para elaborar uma an-lise de conjuntura. A autora enfatiza os principais aspectos de uma anlise de conjuntura e as mltiplas possibilidades dessa metodologia que pode ser utilizada nos estudos do passado ou do presente; e que podem contribuir na compreenso de fenmenos de ordem social, poltica, econmica ou cultural; e facilita a observao das relaes entre fatos e estruturas histri-cas de longa durao, entre mltiplos sujeitos histricos e suas correlaes de fora. A anlise de conjuntura, dentro de uma perspectiva histrica, representa, segundo Rosngela Vieira, em um instrumento metodolgico eicaz para estudos das vrias cincias humanas, quer para o passado quer para o presente, contribuindo assim para uma percepo mais global da realidade social.

    No captulo Crise do Neodesenvolvimentismo e Estado neolibe-ral no Brasil: elementos de anlise de conjuntura do capitalismo brasileiro, Giovanni Alves apresenta uma anlise de conjuntura do desenvolvimento do capitalismo brasileiro nos ltimos dez anos de governos neodesenvolvi-mentistas. Parte da hiptese segundo a qual o Estado neoliberal continua existindo no Brasil, apesar dos governos neodesenvolvimentistas. O Estado neoliberal consiste na forma histrica do Estado oligrquico-poltico her-dado da ditadura militar. O Estado entendido num sentido ampliado, englobando a sociedade civil e a sociedade poltica. O texto tambm apre-senta elementos para pensar a crise do neodesenvolvimentismo, expondo seus limites e o mal-estar do novo modo de desenvolvimento capitalista no Brasil devido a sua crise orgnica.

    Em seguida, Lincoln Secco, em O Poder Moderador do Brasil, procura desenvolver uma hiptese para o comportamento eleitoral deste estado quando comparado ao eleitorado nacional. Para o historiador, existe uma longa tradio poltica conservadora em So Paulo, com duas faces: uma elitista (que remonta Repblica Velha e chamada Revoluo de 1932) e outra popular (tendo como representantes Adhemar de Barros, Jnio Quadros e Paulo Maluf ). As disputas entre PT e PSDB no estado, com consequncias tambm no plano nacional, passam necessariamente pela capacidade destes partidos em disputarem o voto conservador popu-

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    lar. As ltimas eleies indicam que os chamados tucanos tm sido mais eicientes nesta disputa, mas tambm enfrentariam eles prprios diicul-dades em outras regies do pas, transformando o voto paulista no poder moderador indicado no ttulo.

    Silvia Aparecida de Sousa Fernandes, no captulo intitulado Movimentos sociais e inanciamento da educao bsica no Brasil: o con-texto poltico e social da elaborao de polticas pblicas, aborda o debate acerca do inanciamento da educao bsica. O texto tem como eixo cen-tral a questo da participao popular na deinio das polticas sociais. Trata dessa questo no mbito da educao bsica depois da criao do Frum Nacional de Educao, que abriu espao para a participao de representantes de diferentes segmentos da populao na deinio dessas polticas. Ela discute a conjuntura de mobilizao e organizao dos mo-vimentos em defesa da educao com o objetivo de mapear as formas, os limites e a efetividade da participao popular na elaborao de polticas pblicas, em especial no que diz respeito a questo do inanciamento da educao.

    Abrindo outro bloco de discusso, dois captulos tratam da pol-tica externa brasileira no governo Dilma. O captulo de Marcos Cordeiro Pires analisa a poltica externa brasileira no contexto das eleies presi-denciais de 2014. Para o autor, uma eventual vitria das candidaturas dos partidos de oposio, que acabou no se concretizando, poderia signiicar uma mudana de 180 graus no rumo da diplomacia brasileira, de tal for-ma que as prioridades do Pas poderiam se deslocar do fortalecimento das relaes Sul-Sul para uma nova forma de dependncia no eixo Norte-Sul. Para Pires, como a conjuntura internacional tem se modiicado, incluindo o anncio da normalizao das relaes diplomticas entre Estados Unidos e Cuba, o discurso anti-bolivariano e o preconceito ideolgico dos partidos oposicionistas perderam a eiccia. A conferncia China-CELAC, que reu-niu ministros de relaes exteriores latino-americanos com as autoridades chinesas serviu para reforar os objetivos estratgicos de parcerias Sul-Sul, e conferir ao Brasil um papel destacado na criao de uma nova ordem multilateral.

    Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos, com seu A poltica exter-na do Governo Dilma Roussef: uma brevssima avaliao, busca desen-

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    volver uma hiptese sobre a diplomacia brasileira nos ltimos governos, qual seja: nosso papel de pas subimperialista no permitiria voos maiores no que tange ao protagonismo global. Recuperando a categoria gramsciana de hegemonia, junto aos esforos explicativos de Marini, Passos faz breve histrica da presena brasileira em episdios diplomticos recentes para apontar que o primeiro Governo Dilma teve elementos de continuidade do Governo Lula, mas uma motivao bem menor no que se refere pol-tica externa. Isso reforaria uma hiptese a ser conirmada em posteriores pesquisas, a de que o pas ainda carece de maior reconhecimento interna-cional em funo das limitaes em sua capacidade (econmica e geopol-tica) de exercer maior hegemonia.

    Os trs captulos seguintes tratam de diferentes aspectos da con-juntura econmica no Brasil. O captulo A conjuntura e a poltica econ-mica no governo Dilma (2011-2014) de Francisco Luiz Corsi discute as razes do baixo crescimento da economia brasileira ao longo do governo Dilma. Considera que este ponto um dos temas centrais do debate, pois o nvel do emprego e dos salrios, aspectos sobremaneira importantes para a sustentao poltica e social do governo, dependem diretamente do de-sempenho da economia. Para discutir essa questo faz-se uma anlise crti-ca da poltica econmica adotada a partir da irrupo da crise mundial em 2008, com especial ateno para as medidas implementadas por Dilma, procurando mostrar que a poltica econmica contraditria ao preservar o ncleo macroeconmico das propostas neoliberais e, ao mesmo tempo, imprimir uma poltica voltada para o crescimento do mercado interno e para enfrentar os histricos problemas da misria e da desigualdade social. Dilma venceu as eleies com um discurso esquerda prometendo a ma-nuteno do emprego e dos salrios da classe trabalhadora. Entretanto, monta um ministrio de peril conservador, que defende polticas ortodo-xas, que iro solapar sua base de sustentao mais importante, o emprego e os salrios. Mantm-se a contradio que est na raiz do baixo crescimento.

    O captulo escrito por Jos Marangoni Camargo discute a evo-luo da economia brasileira no perodo de 2003 e 2014 e a distribuio da renda nos governos Lula e Dilma Roussef. Apesar dos pilares da pol-tica de corte neoliberal terem sido mantidas em linhas gerais nos governos petistas, o crescimento econmico superior s duas dcadas anteriores e

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    a formulao de um conjunto de polticas sociais, como a recomposio do valor real do salrio mnimo e a concesso da bolsa famlia possibi-litaram um crescimento da renda dos segmentos mais baixos e uma pe-quena desconcentrao da renda, revertendo uma tendncia de aumento da desigualdade observada desde os anos 60. J o cenrio mais recente, o desempenho medocre da economia, com a reduo acentuada das taxas de crescimento econmico a partir de 2011 e o estabelecimento de polticas recessivas neste ano, aponta para um esgotamento das polticas de melho-ria da distribuio de renda e um aumento das taxas de desemprego.

    Agnaldo dos Santos, no captulo Propostas de cincia e tecnolo-gia apresentadas no debate eleitoral de 2014, procura identiicar nas pro-postas dos candidatos presidncia da Repblica quais projetos para esta rea estavam em disputa. O autor encontra algumas similaridades entre as propostas apresentadas, em que pese as diferentes coloraes ideolgicas de cada candidatura. Isso aconteceria porque, mesmo com projetos distintos, as principais candidaturas no enfrentavam a questo de fundo para uma poltica de C&T vinculada s estratgias de desenvolvimento: o lugar pe-rifrico do nosso parque industrial junto s cadeias produtivas mundiais. Quase todas as propostas, por no levarem isso em conta, icavam presas a meras questes pontuais e cosmticas, mesmo com um aumento nada desprezvel de investimento pblico nos ltimos anos. Uma poltica de C&T s teria efetividade, para o autor, se combinada com uma mudana substancial na poltica industrial e na compreenso do sentido do termo desenvolvimento.

    Seguem dois captulos que abordam questes importantes do de-bate poltico e econmico da Argentina, que tambm so de grande atu-alidade para o Brasil. No captulo Consideraciones acerca de la Reforma Electoral en la Argentina, de Jorge Szeinfeld aborda a reforma eleitoral na Argentina, um dos temas mais importante da agenda poltica no pas platino, cuja discusso remonta ao processo de redemocratizao nos anos 1980. As questes centrais da reforma so a institucionalizao de nor-mas que permitam um maior controle dos governantes, a regulao da competio poltica e a maior participao popular nos processos pol-ticos. A demanda pela reforma poltica surgiu de amplos setores sociais, de dirigentes polticos e da grande imprensa. O autor faz pormenorizada

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    anlise das medidas que compem a reforma. Especial ateno dispen-sada as alteraes adotadas a partir de 2009, que permitiram uma maior participao por parte dos cidados na eleio dos candidatos e mudanas no inanciamento das campanhas eleitorais no sentido de torn-lo mais transparente. Tambm implementou-se uma reforma no Cdigo Eleitoral. Essas mudanas acarretaram transformaes na forma de organizao e ao dos partidos polticos, com forte fragmentao, o surgimento de no-vos partidos e a necessidade de alianas para enfrentar os desaios eleitorais. As medidas implementadas, contudo, teriam problemas para garantir uma equitativa regulao da competio eleitoral, para aprofundar a democra-cia no interior dos partidos, para ampliar a representatividade dos partidos e para a equidade dos processos eleitorais.

    O captulo escrito por Gabriel Balbo, intitulado La restriccin energtica argentina: un ancla para su crecimiento sostenido?, discute a situao atual do setor energtico argentino, dando especial ateno para a oferta primria de energia, a oferta secundria e ao consumo inal. Discute tambm a grande dependncia em relao aos combustveis fsseis. A par-tir do diagnstico dos principais problemas, o autor aborda os diferentes condicionamentos que o Estado enfrenta no setor para resolver os proble-mas da matriz energtica. Por im, Balbo discute as ferramentas e as aes que esto sendo levadas a cabo pelo Estado visando a superao dos proble-mas de energia. Neste ponto, aborda as questes tecnolgicas que podero propiciar um salto qualitativo na resoluo dos problemas enfrentados.

    Por ltimo, Angel Tello no captulo Un mundo en crisis, abor-da as vicissitudes que assolam o capitalismo global desde 2008 a partir de uma abordagem ampla e no apenas no que tange aos seus aspectos econmicos. Embora esses aspectos sejam importantes, pois as polticas neoliberais foram um fracasso, a crise tambm uma crise social e, sobre-tudo poltica. Tello analisa a situao atual tendo como ponto de partida acontecimentos que marcaram de forma determinante o mundo de hoje, quais sejam: o desmoronamento da Unio Sovitica, a queda do Muro de Berlim, os atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, a crise inancei-ra aberta em 2008 e a ascenso da China. A globalizao acarretou crises e a concentrao absurda da riqueza e ameaa os valores, as crenas e as identidades, abrindo espao para uma srie de reaes, que tomam a forma

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    de nacionalismos, de fundamentalismos religiosos e de particularismos As potncias ocidentais, lideradas pelos EUA, buscam nesse contexto, impor um controle imperial do mundo, o que abre um cenrio de conlito com choques agudos de interesses e valores contraditrio.

    Os captulos apresentados na presente coletnea buscam ser uma contribuio para estimular a relexo sobre os impasses vividos pelo Brasil na atual conjuntura de crise do capitalismo global, que consiste em uma crise estrutural e no apenas em mais um descenso cclico da economia. O momento atual parece ser decisivo para o Brasil no sentido de construir uma sociedade mais democrtica, igualitria e autnoma.

    Os organizadores

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    como FAzEr AnlisE dE conjunturA numA ABordAgEm HistricA

    Rosngela de Lima Vieira

    A experincia de participar de vrias edies do Frum de Anlise de Conjuntura, organizado pelo Grupo de Pesquisa Estudos da Globalizao e formado principalmente por professores da FFC/UNESP, indicou a necessidade da realizao de um mini curso que fornecesse ins-trumentos metodolgicos aos interessados em fazer anlise de conjuntu-ra. Em duas edies do Frum o mini curso foi ministrado e o interesse dos alunos comprovou sua importncia e a necessidade de elaborarmos um texto que os orientasse em atividades acadmicas nas quais a anlise de conjuntura pode ser uma metodologia fundamental. Todo estudo de fenmenos sociais do presente ou do passado ganha em alargamento, amplido e profundidade se partir da anlise da conjuntura de sua prpria poca.

    De incio faremos um breve percurso sobre o conceito de con-juntura, e depois os elementos essenciais na anlise de conjuntura. Primeiramente importante advertir que h diferentes conceitos de con-juntura e, portanto, de metodologias para empreender a sua anlise. Aqui ser apresentada aquela constituda a partir da tica de uma abordagem

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    histrica1, que acreditamos ser fundamental para aqueles que desejam em-preender suas pesquisas no mbito social.

    Nessa perspectiva, necessrio apresentarmos a origem do signi-icado do conceito de conjuntura a ser aqui utilizado. Fernand Braudel (1902-1985), historiador francs, desenvolveu o conceito de mltiplas temporalidades em oposio cronologia tradicional do tempo nico. Segundo ele a qualidade dos estudos est relacionada capacidade de o pesquisador observar as relaes entre as diferentes temporalidades que condicionaram o fenmeno estudado. Ou seja, necessrio observar os fatos, sua conjuntura e suas estruturas histricas. Pois, na concepo de Braudel [...] entre o passado, mesmo longnquo, e o presente nunca h ruptura total, descontinuidade absoluta [...] (BRAUDEL, 1985, p. 53). A concepo de tempo de Fernand Braudel inovadora tanto pelo fato de desdobr-lo em mltiplas temporalidades, como por entender o tempo como um instrumento de observao para o historiador. (VIEIRA, 2002, p. 10). Logo, cabe ao pesquisador empreender os cortes temporais as duraes resultam dos objetivos a serem alcanados e buscar as dife-rentes camadas do tempo para uma percepo mais global do fenmeno estudado.

    Os estudos dedicados exclusivamente aos fatos so importantes, quan-do se quer obter apenas um conhecimento histrico das circunstncias imediatas. Outros estudos, de ordem conjuntural, colaboram na iden-tiicao das mltiplas relaes que levaram ocorrncia do fato. J as pesquisas que buscam os condicionantes estruturais de longa durao daquela conjuntura e posteriormente do fato tambm so indispens-veis. No entanto, a perspectiva braudeliana, ao sugerir a realizao dos trs nveis de anlise e suas respectivas relaes, impele a observarmos o conjunto e, portanto, a globalidade do fenmeno histrico. (VIEIRA, 2014b, p. 65-66).

    Assim se pode notar que no possvel conceituarmos conjun-tura isoladamente, j que se trata de um corte temporal necessariamente relacional. Para Braudel so necessrios no mnimo trs cortes temporais na anlise histrica, a curta, a mdia e a longa durao: a primeira so os

    1 A anlise de conjuntura numa abordagem histrica difere das anlises recorrentes entre alguns economistas e socilogos presentes na mdia comumente. A diferena mais signiicativa que essas anlises so de curta dura-o, o que para os historiadores so fatos e no conjuntura.

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    A conjuntura econmica e poltica

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    fatos/acontecimentos; a segunda a conjuntura; e a terceira so as estrutu-ras histricas. Ele identiica cada durao como: tempo individual, tempo social e tempo histrico respectivamente.

    A conjuntura caracteriza-se como um conjunto de acontecimen-tos encadeados, os quais explicam o processo histrico diretamente relacio-nado ao fato histrico. A permanncia ou a mudana de uma conjuntura resulta do prprio processo histrico e sua durao dada pelo fenmeno estudado, pois ele que determina o corte temporal necessrio. Sua du-rao ideal de algumas dcadas; Braudel trabalhava com 30/50 anos. Segunda ele, a conjuntura um recorte regido por uma dinmica prpria, cujos contingentes so articulados por relaes instveis, mas que perdu-ram por algum tempo. Adiante sero apresentados alguns exemplos que ajudaro na compreenso dos cortes temporais.

    O ponto de partida nessa concepo o nvel de subjetividade do pesquisador na elaborao dos elementos constituintes da conjuntura para deinir a sua durao. Pois ele quem procura relaes causais dentro de uma multiplicidade de fatos, buscando explicar em dada conjuntura, o que decorre a partir de sua tica e de seus interesses polticos, cienticos e acadmicos.

    Na abordagem braudeliana de anlise de conjuntura no se de-senvolveu a metodologia para realiz-la. Embora tenha destacado a sua importncia, Braudel adverte que [...] tudo est por construir, diria, por inventar, no que concerne conjuntura, essa personagem ignorada, ou quase [...] (BRAUDEL, 1992, p. 106). Em suas obras, porm, ele efetiva-mente conseguiu empreend-la de forma articulada.

    Outros autores se debruaram sobre a questo e contriburam para compreendermos como de fato devemos fazer este tipo de anlise, o caso, por exemplo, do socilogo Herbert de Souza. No livro Como se faz anlise de conjuntura ele props uma metodologia para a anlise da realida-de poltica, ou seja, para daquele momento histrico da dcada de 1980. Embora nosso objetivo neste artigo seja contribuir para a utilizao da anlise de conjuntura em toda e qualquer temporalidade, espao ou tema, h uma advertncia inicial de Betinho muito signiicativa.

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    A anlise da conjuntura uma mistura de conhecimento e descoberta, uma leitura especial da realidade e que se faz sempre em funo de alguma necessidade ou interesse. Nesse sentido no h anlise de con-juntura neutra, desinteressada: ela pode ser objetiva mas estar sem-pre relacionada a uma determinada viso do sentido e do rumo dos acontecimentos.

    A anlise da conjuntura no somente parte da arte da poltica como em si mesma um ato poltico. Faz anlise de conjuntura quem faz poltica, mesmo sem saber.

    Mas a anlise da conjuntura uma tarefa complexa e difcil e que exige no somente um conhecimento detalhado de todos os elementos jul-gados importantes e disponveis de uma situao determinada, como exige tambm um tipo de capacidade de perceber, compreender, desco-brir sentidos, relaes, tendncias a partir dos dados e das informaes.

    No deixa de ser surpreendente que para uma atividade to importan-te como a de analisar e acompanhar o desenvolvimento da situao poltica e econmica de um pas falte a elaborao de teorias e mtodos especicos. (SOUZA, 1988, p. 8).

    A partir da compatibilidade de ambas as contribuies passamos agora a apresentar os elementos fundamentais para a anlise de conjuntura.

    1 durAo/rEcortE tEmPorAl quAndo?

    A durao de uma conjuntura, como j apresentado, varivel e dada a partir do prprio fenmeno estudado. Por exemplo, se formos ana-lisar o Golpe Militar de 31 de maro de 1964 enquanto um fato histri-co a conjuntura em que ele est inserido a da Guerra Fria, ps 2 guerra mundial, com seus desdobramentos internacionais e locais, e do proces-so de democratizao da sociedade brasileira decorrido a partir de 1946. Assim tanto para elementos externos como para os internos a conjuntura do Golpe nos remete necessariamente s duas dcadas que o antecederam.

    Ainda sobre a durao do perodo a ser identiicado como con-juntura, destacamos que a anlise de conjuntura pode levar necessidade de uma anlise de estruturas histricas. Um exemplo colabora na compre-enso da subjetividade e a durao: se o objeto de pesquisa for o surgimen-to dos movimentos dos sem-terra dos anos 80 no Brasil, trata-se portanto

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    da conjuntura da ditadura civil-militar (1964-1985). Contudo nesse caso uma anlise mais profunda dessa questo nos remete a aspectos de muito maior durao, nesse caso de estruturas histricas de longa durao. No caso do acesso terra, ou melhor, a impossibilidade desse acesso para a maior parte da populao brasileira nos remete ao incio da colonizao, j que a concentrao de terras no Brasil uma caracterstica estrutural da realidade brasileira desde a concepo concentradora de terra e poder da mentalidade lusa.

    2AcontEcimEntos/fAtos o qu? ou quAis?

    Aqui o pesquisador precisa levantar os fatos que encadeados for-maram a conjuntura, por a facilitarem e/ou mesmo a diicultarem. O grau de subjetividade se explicita claramente; porm, para minimiz-lo pode-se ampliar o mximo possvel nmero de fatores e acontecimentos relacio-nados que compem a conjuntura. O primeiro passo diagnosticar se trata-se de uma conjuntura econmica, poltica, cultural ou de outra na-tureza. Claro que estas dimenses so intercambiveis e se embaralham re-ciprocamente, contudo elas possuem especiicidades, inclusive temporais. Ou seja, uma conjuntura econmica, por exemplo, pode ter uma durao diferente da conjuntura poltica.

    Um exemplo signiicativo poderia ser analisarmos a conjuntu-ra dos anos 80 do sculo passado e o surgimento dos movimentos dos sem-terra.

    O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, tambm conheci-do como Movimento dos Sem Terra ou MST, fruto de uma questo agrria que estrutural e histrica no Brasil. Nasceu da articulao das lutas pela terra, que foram retomadas a partir do inal da dcada de 70, especialmente na regio Centro-Sul do pas e, aos poucos, expandiu--se pelo Brasil inteiro. O MST teve sua gestao no perodo de 1979 a 1984, e foi criado formalmente no Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Sem Terra [...] (CALDART, 2001, p. 207).

    Que fatos contriburam? Trata-se da conjuntura de redemocra-tizao do inal da Ditadura Civil-Militar (1964-1985). Alguns fatos se destacam: 1979 sancionada a Lei da Anistia e o pluripartidarismo res-

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    tabelecido; 1982 eleies municipais e estaduais demonstram a rejeio ao governo militar; 1984 Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Sem Terra, realizado de 21 a 24 de janeiro de 1984, em Cascavel, no estado do Paran; 25 de janeiro de 1984 em So Paulo, primeiro comcio pelas Diretas J; 1987-88 Assemblia Nacional Constituinte.

    H de se observar que os fatos acima elencados so apenas alguns para demonstrar o processo histrico de constituio da conjuntura que fa-voreceu o surgimento desse signiicativo movimento social para a histria recente do Brasil. Tambm se deve destacar que, no caso desse exemplo aqui apresentado, uma leitura das estruturas histricas indispensvel para expli-car porque chegamos aos anos 2000 com 4,5 milhes de famlias sem terras no pas e uma concentrao exorbitante como se pode observar na tabela 12.

    Tabela 1 Diviso Fundiria no Brasil

    Extenso das propriedades rurais (hectares) Total de terras ocupadas Total de propriedadesAt 10 2,7 % 47%Mais de 1.000 43 % 0,91%

    Fonte: IBGE - Censo Agropecurio de 2006 (formulao prpria).

    3 locAl/cAmPo dE AnlisE ondE?

    O aspecto da localizao espacial da conjuntura tambm se apre-senta de suma importncia, pois a acuidade de se tratar de uma conjuntu-ra local, regional, nacional ou internacional constitui-se em um elemento fundamental na qualidade da anlise. Essas mltiplas conjunturas so in-terrelacionadas e por isso mesmo necessrio buscar suas conexes. No caso da criao do Movimento dos Sem Terra, a conjuntura nacional preponderante embora no se possa descartar os elementos regionais que facilitaram a ocorrncia do Congresso na regio de Cascavel no Paran, por exemplo.

    4 sujEitos (individuAis, colEtivos, instituiEs...) quEm?

    Ao longo de todo esse processo de construo da conjuntura, o pesquisador explicita sua concepo histrico-poltica. Ao elencar os su-2 Sendo que a agricultura familiar emprega 75% da mo-de-obra no campo, em 2006 foi responsvel pela produo de 70% do feijo consumido no pas, 87% da mandioca, 58% do leite, 46% do milho, 34% do caf e do arroz. Fonte: . Acesso em: 10 fev. 2015.

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    jeitos histricos fundamentais para construo de uma conjuntura, ele a apontar de forma irrefutvel. Nesse particular, h vrios posicionamentos: o pesquisador pode tratar somente de iguras histricas individuais consa-gradas como grandes personagens advindas das elites; ou com iguras sin-gulares do amplo espectro social como expressa a a histria do ponto de vista dos de baixo de Jim Sharpe3 ; ou ainda com a concepo de sujeitos coletivos. As opes do analista resultaro numa leitura completamente diferente sobre a conjuntura e do prprio fato estudado.

    Assim, no caso da anlise da conjuntura da criao do Movimento do Sem-Terra nos anos 80 do sculo XX, as opes de contar essa histria destacando os grandes personagens, os personagens annimos, ou a partir de sujeitos coletivos, obviamente remetem a resultados distintos e conse-quentemente a conjunturas diversas a serem analisadas.

    5 rElAEs dE forAs

    As correlaes de fora esto em movimentos permanentes, con-tudo pode ser observada alguma constncia durante uma dada conjuntura. A relao dos mltiplos sujeitos histricos

    [...] podem ser de confronto, de coexistncia, de cooperao e esta-ro sempre revelando uma relao de fora, de domnio, igualdade ou de subordinao. Encontrar formas de veriicar a relao de foras, ter uma ideia mais clara dessa relao decisivo se se quer tirar consequ-ncias prticas da anlise da conjuntura. Algumas vezes essa relao de foras se revela atravs de indicadores at quantitativos, como o caso de uma eleio: o nmero de votos indicar a relao de foras entre partidos, grupos e classes sociais.

    Outras vezes devemos buscar formas de veriicao menos vis-veis: qual a fora de um movimento social ou poltico emergente? (SOUZA, 1988, p. 13).

    No caso da criao do Movimento dos Sem Terra, a conjuntu-ra expe que no inal da dcada de 70 a distenso do governo militar,

    3 Cf: SHARPE, Jim. A histria vista de baixo. In: BURKE, Peter. (Org.).A escrita da histria: novas perspectivas. So Paulo: UNESP, 1992. p. 39-62. Outros autores tambm desenvolveram suas pesquisas e anlises a partir desta perspectiva. Uma sntese foi realizada por ARAUJO, Josefa Paula de Araujo em A histria vista de baixo, disponvel em: . Acesso em: 10 fev. 2015.

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    ou seja abertura poltica de forma lenta, gradual e segura apontava uma nova correlao de foras, pendendo nesse caso o lado da democracia e da participao popular e levando a eventos como o Congresso no Paran e manifestao de So Paulo. Ambos teriam sido impossveis de ocorrer em 19684, por exemplo.

    6 ArticulAo EntrE conjunturAs E EstruturAs histricAs

    Nesse aspecto interessante observar determinantes histricos de longa durao que interferem na consecuo da conjuntura. As estru-turas histricas so condicionantes de ordem econmica, poltica, social e/ou cultural. No caso do Movimento do Sem-Terra h necessidade de uma observao longnqua, dos 5 sculos que produziram a mentalidade poltico-social de concentrao de terras, poder e riquezas da qual decorre a excluso da maior parte da sociedade.

    A elite brasileira aprendeu com os portugueses a conservar as estrutu-ras sociais a partir da no distribuio de terras. Desde as Capitanias Hereditrias at hoje, as poucas mudanas que ocorreram quanto ao acesso a terra foi o fato de ela ser, desde meados do sculo XIX, uma mercadoria, alis, de alto valor. No campo e nas cidades, o trabalhador mantido na condio de subordinado justamente porque historica-mente alijado da participao poltica e das decises de toda ordem na sociedade brasileira. (VIEIRA, 2014a, p. 15).

    A histria do Brasil nos mostra que em todas as conjunturas de mudanas polticas, como por exemplo, a Proclamao da Independncia, ou da Repblica, a questo da democratizao do acesso terra no foi objeto de preocupao das elites que lideravam esses processos. O sistema latifundirio e a escravido so estruturas fundamentais da sociedade bra-sileira e deixam suas marcas permanentemente. Assim uma anlise de con-juntura do surgimento do Movimento dos Sem Terras no pode denegar suas relaes com essa estrutura histrica de longa durao, da realidade e da mentalidade brasileiras. O que em ltima instncia explica porque,

    4 O Ato Institucional n 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968 durante o governo de general Costa e Silva expressou a conjuntura mais dura da ditadura civil-militar (1964-1985). Suspendeu os direitos constitucionais e deu ao governo o poder de punir arbitrariamente aqueles considerados inimigos da ptria.

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    embora o Movimento dos Sem Terra tenha surgindo em 1984, a reforma agrria continua ser uma necessidade um eterno vir a ser.

    O percurso aqui desenvolvido buscou expor os principais aspec-tos de uma anlise de conjuntura e demonstrar as mltiplas possibilidades dessa metodologia que: pode ser utilizada nos estudos do passado ou do presente; contribui na compreenso de fenmenos de ordem social, polti-ca, econmica ou cultural; e facilita a observao das relaes entre fatos e estruturas histricas de longa durao, entre mltiplos sujeitos histricos e suas correlaes de fora aspectos fundamentais numa anlise histrica.

    Em sntese. A anlise de conjuntura, empreendida numa perspec-tiva histrica, consiste num instrumento metodolgico eicaz para estu-dos das vrias cincias humanas, que para o passado quer para o presente. Nessa, os fenmenos sociais de toda ordem resultam de uma conjuntura histrica que analisada a partir dos seguintes elementos: durao tempo-ral, fatos e sujeitos histricos, espacialidade envolvida, correlao de foras, as relaes entre esses elementos e as estruturas histricas de longa durao. Deste modo, a anlise de conjuntura numa perspectiva histrica consegue explicitar o processo histrico em que ocorreu o fenmeno contribuindo assim para uma percepo mais global da realidade social.

    rEfErnciAs

    BRAUDEL, Fernand. A dinmica do capitalismo. Traduo Carlos da Veiga Ferreira. Lisboa: Teorema, 1985.

    ______ . Escritos sobre a histria. Traduo J. Guinsburg e Tereza C. S. Mota. 2. ed. So Paulo: Ed. Perspectiva, 1992.

    CALDART, Roseli Salete. O MST e a formao dos sem terra: o movimento social como princpio educativo. Estudos Avanados, So Paulo, v. 15, n. 43, p. 207-224, 2001. Disponvel em: . Acesso em: 10 fev. 2015.

    IBGE. Censo Agropecurio de 2006. Disponvel em: . Acesso em: 10 fev. 2015.

    SHARPE, Jim. A histria vista de baixo. In: BURKE, Peter. (Org.). A escrita da histria: novas perspectivas. So Paulo: UNESP, 1992. p. 39-62.

    SOUZA, Herbert J. Como se faz anlise de conjuntura. Petrpolis: Vozes, 1988.

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    VIEIRA, Rosngela de Lima. Fernand Braudel: a relao do mtodo historiogri-co e o conhecimento histrico. 2002. Tese (Doutorado) Faculdade de Cincias e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2002.

    ______. (Org.). Prefcio. In: ______. Ecos da ditadura na sociedade brasileira (1964-2014). Marlia: Oicina Universitria; So Paulo: Cultura Acadmica Editora, 2014a. p. 13-24.

    ______. O golpe militar de 1964 na perspectiva braudeliana: fato, conjunturas e estruturas histricas. In: BRABO, Tnia. (Org.). Direitos humanos, educao e participao popular: 50 anos do golpe. Marlia: Oicina Universitria; So Paulo: Cultura Acadmica Editora, 2014b. p. 65-90.

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    crisE do nEodEsEnvolvimEntismo E EstAdo nEoliBErAl noBrAsil: ElEmEntos dE AnlisE

    dE conjunturA do cAPitAlismo BrAsilEiro

    Giovanni Alves

    Os limites do neodesenvolvimentismoexpem um paradoxo curioso: governos ps-neoliberais, comprometidos programaticamente com o crescimento da economia e com a redistribuio de renda, preservaram e re-foraram nos ltimos dez anos, os pilares do Estado neoliberal no Brasil. A persistncia do Estado neoliberal no Brasil sociedade poltica e sociedade civil - se contrasta com a perspectiva de mudana social alimentada pelo capitalismo neodesenvolvimentista. Nesse sentido, algumas observaes metodolgicas tornam-se necessrias: primeiro, distinguir heuristicamen-te, de um lado,governoe, de outro lado,Estado poltico do capital. Depois, caracterizar o Estado poltico em sua etapa desenvolvida, como sendo cons-titudo pelo Estado restritoou sociedade poltica, incluindo nessa dimenso restrita, sua estrutura burocrtico-administrativa; e pelo Estado amplia-doou sociedade civil e seu sociometabolismo (GRAMSCI, 1984). Estas ferramentas conceituais so importantes para desvelarmos criticamente os limites (e paradoxos) do neodesenvolvimentismo - primeiro, como novo padro de desenvolvimento capitalista no Brasil; e depois, como frente poltica inspirada na estratgia poltica do lulismo.

    Nossa hiptese que nos ltimos dez anos de Lula e Dilma tive-mos governos ps-neoliberais propriamente ditos que adotaram programas

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    de crescimento da economia com aumento do gasto pblico e redistri-buio de renda. nesse sentido mais incisivo da programtica poltica que os governo Lula e o governo Dilma podem ser considerados governos ps-neoliberais, distinguindo-se, por exemplo, dos governos neoliberais da dcada de 1990 (governo Collor de Mello e governos Fernando Henrique Cardoso - FHC). Desprezar a particularidade da nova conformao polti-ca neodesenvolvimentista, reduzindo-a, no plano de governo, ao neolibe-ralismo, no apreender as nuances da luta de classes e os tons de cinza da dominao burguesa no Brasil.

    As polticas de transferncias de renda e gasto pblico visando di-minuir as desigualdades sociais e fortalecer o mercado interno, distinguem, por exemplo, o projeto neodesenvolvimentista do projeto neoliberal propria-mente dita adotado na dcada de 1990 por FHC. Existem tambm dife-renas entre neodesenvolvimentismo e neoliberalismo com respeito as pol-ticas de combate crise do capitalismo global, um tema importante tendo em vista que, o perodo do neodesenvolvimentismo o perodo de crise do capitalismo global. A frente poltica do neodesenvolvimentismo no ul-timo governo Lula e Dilma recusou-se, por exemplo, a adotar polticas de austeridade, embora mantenham pragmaticamente - o trip macroecon-mico neoliberal (metas de inlao, cmbio lexvel e supervit primrio). Finalmente, existem diferenas entre a poltica do neodesenvolvimentismo e a poltica no neoliberalismo no plano geopoltico internacional. A diplomacia do neodesenvolvimentismo deu apoio aos governos bolivarianos na Amrica do Sul (Venezuela, Equador e Bolivia) e alinhou-se aos BRICS, adotando uma postura independente com respeito poltica exterior norte-americana, o que a distingue, por exemplo, do alinhamento automtico com os EUA operada pela diplomacia dos governos neoliberais.

    Por outro lado, observamos, paradoxalmente, que os governos ps-neoliberais de Lula e Dilma no alteraram essencialmente o meta-bolismo poltico do Estado neoliberal instaurado na dcada de 1990 no Brasil, seja em sua dimenso restrita, como sociedade poltica e estrutura burocrtico-administrativa; seja em sua dimenso ampliada, como socie-dade civil e seu sociometabolismo. Enim, os governos ps-neoliberais, imbudos do espirito do lulismo e em nome da governabilidade, optaram pragmaticamente por reproduzir o Estado neoliberal herdado da dcada de

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    1990; e pior, preservar, em sua essencialidade, o Estado brasileiro de feio oligrquico-burguesa oriundo da ditadura militar.

    1 nEoliBErAlismo E A PErsistnciA do EstAdo nEoliBErAl

    As categorias ps-neoliberal e neodesenvolvimentismo que utilizamos para caracterizar o capitalismo brasileiro dos ltimos dez anos, esto profundamente amesquinhadas em sua forma de ser pela fora das trgicas circunstancias histricas de duas transies polticas conservadoras ocorridas no Brasil nos ltimos trinta anos.

    Primeiro, tivemos a longa transio para a democracia poltica ocorrida com a crise da ditadura civil-militar (1979-1985). Apesar da pro-mulgao da Constituio-cidad de 1988, depois de um processo cons-tituinte, preservaram-se as estruturas da sociedade poltica oligrquico--burguesa no Brasil, com incrustaes autocrticas, oriundas da ditadura civil-militar1. Depois, tivemos a transio poltica para um novo proje-to de desenvolvimento capitalista ocorrido em 2002, aps adbcledo modelo neoliberal implantado na dcada de 1990 no Brasil e a eleio do novo governo de Luis Incio Lula da Silva. Assim, apesar do carter ps-neoliberal da intencionalidade poltica do novo governo instalado em 2003, preservou-se efetivamente no decorrer da dcada de 2000, a morfo-logia poltica e social do Estado neoliberal no Brasil, herdado da ditadura militar e dos governos neoliberais. Enim, a fora da inrcia histrica da ordem burguesa no Brasil, marcadas pelas transaes conservadoras pelo alto, se imps irremediavelmente, manifestando-se, nesses momentos, o vigor da particularidade concreta de entiicao do capitalismo brasileiro, elo mais forte do imperialismo na Amrica Latina - capitalismo hipertardio dependente de carter colonial-escravista e extrao prussiana.

    O fenmeno poltico do lulismo, com seu reformismo fraco sem confronto com o capital (como diria Andr Singer), signiica, de certo modo, a airmao da incapacidade efetiva da esquerda brasileira de cariz social-democrata (o PT, por exemplo) em refundar o Estado poltico bra-

    1 O livroO que resta da ditadura: a exceo brasileira, publicado pela Boitempo Editorial em 2010, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle expe com clareza a persistncia da exceo brasileira apesar da redemocratizao poltica ocorrida no pas.

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    sileiro tendo em vista principalmente, a dbil correlao de foras social e poltica entre capital e trabalho na sociedade brasileira, corroda e corrom-pida em seu metabolismo social por trinta anos de ditadura militar (1964-1984) e neoliberalismo (1990-2002) (SINGER, 2012). A herana maldita da ditadura civil-militar e do neoliberalismo amesquinhou as pretenses reformistas do neodesenvolvimentismo. O amesquinhamento do refor-mismo hipertardio brasileiro, sob o nome de neodesenvolvimentismo, expresso da misria social e poltica da sociedade brasileira, incapaz de ir alm da ordem burguesa senhorial. Nas condies histricas adversas de enfrentamento social com a ordem do capital, os governos neodesenvolvi-mentistas optaram, pragmaticamente, pela trgica linha do menor esforo, preferindo implementar, em nome da governabilidade, a estratgia poltica do reformismo fraco utilizando as estreitas margens do Estado neolibe-ral, esplio da nossa herana maldita.

    importante salientar um dos traos virtuosos do estilo poltico do lulismo: combater a misria sem confronto com o bloco de poder hege-mnico do capital o bloco interno de poder, articulado organicamente, no plano mundial, com o bloco histrico hegemnico do capitalismo ne-oliberal inanceirizado. O lulismo o esprito hegemnico do projeto da socialdemocracia no Brasil que visa hoje compatibilizar, nos marcos da or-dem burguesa neoliberal, um projeto de redistribuio de renda e comba-te a pobreza extrema sem confronto com o capital. Entretanto, as virtudes polticas indiscutveis do lulismo explicitam, ao mesmo tempo, os limites do neodesenvolvimentismo, isto , a incapacidade orgnica da frente poltica do neodesenvolvimentismo, em alavancar, nas condies histricas da vigncia do Estado neoliberal no Brasil, investimentos sociais de peso, nas reas da educao, sade e transportes pblicos, promovendo, deste modo, as refor-mas sociais capazes de resgatar historicamente a dvida social secular.

    2 o COMPLEXO DE COMPLEXOS do EstAdo nEoliBErAl no BrAsil

    A preservao (e manuteno) do Estado neoliberal no Brasil se apresenta na notvel incapacidade poltica dos governos ps-neoliberais de romper com o circulo de ferro do pagamento de juros e amortizao da dvida publica subordinada aos interesses do capital inanceiro (por exemplo,

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    o governo federal enviou ao Congresso Nacional, a previso oramentria para 2014, com a impressionante destinao de R$ 1,002 trilho de reais para o pagamento de juros e amortizaes da dvida, sacriicando todas as de-mais rubricas oramentrias, como servios de sade, educao, transporte, segurana, assistncia, etc). Portanto, o neodesenvolvimentismo encontrou seu limite crucial no sistema da divida publica,que exerce hoje, constrangi-mento sobre o projeto neodesenvolvimentista e sobre o oramento publico da Unio. Ao aceit-la pragmaticamente como est, recusando-se a fazer, por exemplo, a Auditoria-Cidad da Divida Publica, em nome do respeito aos contratos, os governos ps-neoliberais optaram, sob a fora das trgi-cas circunstancias histricas, por no questionar a ordem burguesa instau-rada na dcada neoliberal. Como observou Maria Lcia Fatorelli (2013), do Movimento pela Auditoria-Cidad da Dvida Pblica, a exigncia de cres-centes volumes de recursos para o pagamento de juros e amortizaes da dvida tem impedido a realizao dos investimentos necessrios para o desen-volvimento social do pas, o que tem sido utilizado como justiicativa para a contnua e inaceitvel entrega de patrimnio estratgico e lucrativo por meio das concesses iniciativa privada de estradas, aeroportos e explorao da camada do pr-sal. Diz ela: Para continuar alimentando o sistema da dvida, em mbito nacional e regional, o governo sacriica o povo com pesa-dos tributos, ausncia de retorno em bens, servios e investimentos, e ainda rifa o patrimnio pblico. (FATORELLI, 2013). Na verdade, a blindagem inanceira do oramento pblico nos ltimos vinte anos de neoliberalismo e neodesenvolvimentismo, a garantia de que o Estado neoliberal, herdado de Collor e FHC e preservado nos dez anos de Lula e Dilma, tem mesmo por funo, estabilizar o valor dos ativos das classes proprietrias que compem o bloco de poder neoliberal. Ao comprometer-se na Carta ao Povo Brasileiro (de 2002), a respeitar os contratos e no contestar a legitimidade do processo de privatizao ocorrido nos governos neoliberais, o governo Lula fez uma escolha poltica, visando garantir a governabilidade. Entretanto, o preo do seu pragmatismo poltico - trao visceral do lulismo - foi a preservao da estrutura orgnica do Estado neoliberal no Brasil (sociedade poltica e socie-dade civil).

    A manuteno pelo Banco Central, do trip da gesto macroe-conmica neoliberal da economia brasileira (metas de inlao, cmbio

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    lexvel e supervit primrio) outro trao orgnico do Estado neoliberal no Brasil. Podemos salientar ainda, como traos compositivos do sistema intocvel de constrangimentos estruturais do Estado neoliberal no Brasil, por exemplo, o sistema jurdico-poltico oligrquico, que preserva um mo-delo oligrquico do poder judicirio e deforma a representao poltica no Congresso Nacional (Cmara dos Deputados e Senado); ou o sistema de controle do gasto pblico via Lei de Responsabilidade Fiscal; ou ainda, o sistema hegemnico dos meios de comunicao de massa, o oligoplio privado que constitui o quarto poder da Repblica o poder miditico, capaz de manipular a opinio pblica.

    importante salientar que o Estado neoliberal se ergueu sob a base oligrquico-autocrtica do Estado poltico herdado da ditadura civil--militar. Existe uma linha de continuidade do sistema de dominao bur-guesa oligrquico-autocrtica instaurada pela ditadura-militar e o Estado neoliberal no Brasil, preservado pelos governos ps-neoliberais.

    Portanto, sob os constrangimentos da mundializao do capital no elo mais forte do imperialismo na Amrica Latina, os governos ps-ne-oliberais deixaram intactos, deste modo, um complexo de sistemas de po-der hegemnico da dominao burguesa no Brasil, instalados pela ditadura civil-militar e preservados pelo neoliberalismo e neodesenvolvimentismo. Eles constituram o sociometabolismo no Brasil dos ltimos cinquenta anos de civilizao brasileira.

    Entretanto, o Estado poltico do capital de cariz neoliberal pre-servado e mantido pelos governos ps-neoliberais no Brasil sustenta-se na estrutura burocrtico-administrativa do Estado brasileiro com seu sistema de controle do metabolismo social herdado da ordem neoliberal. Os governos ps-neoliberais de Lula e Dilma, no apenas preservaram, mas moderniza-ram o corpus burocrtico-administrativo de cariz oligrquico do Estado brasileiro, introduzindo, por exemplo, na organizao do trabalho da ad-ministrao publica federal, a gesto toyotisma acoplada s novas tecnolo-gias informacionais.

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    3 nEodEsEnvolvimEntismo E modErnizAo do EstAdo oligrquico-Burocrtico no BrAsil

    importante salientar que o Leviat brasileiro (a estrutura bu-rocrtico-administrativa do Estado brasileiro) manteve uma estrutura corporativa centralizadora que acumula vcios de praticas patrimonialis-tas sedimentadas em dcadas de Estado oligrquico-burgus no Brasil. Ao ampliarem o quadro do funcionalismo pblico federal, os governos ps--neoliberais procuraram restaurar a estrutura burocrtico-administrativa do Estado brasileiro, sucateado na dcada neoliberal. Ao mesmo tempo, promoveram a modernizao da maquina pblica corrompida e ineicien-te, introduzindo nela, por exemplo, mtodos de gesto toyotista acoplado s novas tecnologias informacionais.

    A modernizao tecnolgico-organizacional da mquina pbli-ca reforou a centralizao de processos de controle, aprofundando vcios autoritrios inerentes da mquina politico-estatal brasileira. Deste modo, os governos neodesenvolvimentistas optaram por modernizar o atraso, recusando-se a promover uma democratizao efetiva do aparelho polti-co-estatal no Brasil. Pelo contrrio, observa-se a sobrevivncia da cultura autoritria e das antigas estruturas burocrtico-administrativas do Estado brasileiro oriundo da ditadura militar. Como observou Gilberto Bercovici: A Constituio democrtica de 1988 recebeu o Estado estruturado sob a ditadura militar (1964-1985), ou seja, o Estado reformado pelo Decreto-Lei 200/1967 no bojo do PAEG (Plano de Ao Econmica do Governo), elaborado por Roberto Campos e Octvio Gouva de Bulhes (1964-1967). (BERCOVICI, 2010, p. 148). Portanto, do Estado Novo varguis-ta (1937-1945) ditadura civil-militar (1964-1985), no se alterou em seu mago burocrtico, a estrutura da maquina estatal no Brasil que serve h sculos reproduo da ordem burguesa autocrtica.

    O Estado brasileiro, distante do territrio nacional-popular (que o diga a construo de Braslia em 1961), a expresso histrica suprema do poder poltico centralizado do capital nas condies de um capitalismo dependente hipertardio que se formou, enquanto Estado-nao, reagindo contra - e compondo-se, ao mesmo tempo - com oligarquias regionais pa-trimonialistas. Deste modo, o Estado brasileiro cultivou uma cultura buro-crtico-administrativa ambivalente que, se por um lado admite a corrupo

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    e traico de inluncia entre interesses oligrquicos parciais, por outro, adota procedimentos de racionalizao da mquina estatal e modernizao da ges-to da administrao pblica, aprofundando a alienao histrica dos tra-balhadores pblicos e dos cidados-usurios dos servios pblicos federais.

    Portanto, a modernizao tecnolgico-organizacional do Estado brasileiro contribuiu efetivamente para reforar os traos autocrticos do metabolismo politico do poder estatal no Brasil. Todas as subverses politi-cas ocorridas na histria brasileira, do Estado Novo de Vargas em 1937 ao Estado autocrtico-militar instaurado em 1964, aperfeioaram a mquina estatal, em vez de a despedaarem ou democratizarem efetivamente. Os partidos que, cada qual por seu turno, lutavam pela supremacia, viam no ato de posse desse enorme edifcio estatal, a presa principal do vencedor, obcecado pelas iguraes do inimigo, no limite, a prpria nao, que pre-cisa ser protegida contra si mesma (o povo, incontrolvel e ameaador). Mesmo os governos neoliberais, ao manterem a mquina burocrtica, ape-sar de enfraquec-la e vale dizer, apenas no tocante s polticas publicas-, reforaram a cultura autoritria e o carter autocrtico do imperativo ges-tionrio estatal. Na dcada de 2000, os governos de Lula e Dilma apenas ampliaram e preservaram a mquina burocrtico-administrativa do Estado brasileiro, modernizando-a no sentido conservador. Por exemplo, a adoo da gesto toyotista na administrao pblica, acoplada introduo de novas tecnologias informacionais, deixou intocvel a cultura autoritria da administrao pblica no Brasil, sendo, portanto, apenas um exemplo da modernizao conservadora do edifcio estatal.

    A Reforma Administrativa da dcada de 1990, a dcada neolibe-ral, visou incorporar a lgica empresarial como prtica administrativa do corpo burocrtico estatal, preservando-se o modelo oligrquico da organiza-o estatal. Os governos ps-neoliberais dos ltimos dez anos operaram no interior desta estrutura burocrtico-administrativa estatal constituda com a Reforma Administrativa neoliberal. O caso do Poder Judicirio brasileiro exemplo primoroso da modernizao conservadora dares publica. A adoo pelo CNJ (Conselho Nacional da Justia) de prticas de gesto por metas, por exemplo, transformando tribunais em linhas de produo de sentenas, expressa o primado da gesto empresarial da coisa pblica. Ao mesmo tem-po, preservou-se a estrutura oligrquica da organizao da justia no Brasil.

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    A incorporao pela res publica da lgica da gesto empresarial apenas um exemplo da vigncia do princpio de subsidiariedade incor-porado na Constituio outorgada pelos militares em 1967 e 1968, que entendia o Estado como subsidirio da iniciativa privada. O prprio ma-rechal Castelo Branco airmou em sua mensagem ao Congresso Nacional em 1965 que desejava com a reforma administrativa, obter que o setor pblico possa operar com a eicincia da empresa privada. A lgica de organizao adotada pela modernizao da administrao pblica sob a Reforma Gerencial inspirada em Bresser Pereira na dcada neoliberal - pre-servada sob os governos de Lula e Dilma - incorporou o esprito da gesto empresarial que busca maximizar o lucro da empresa estatal, ao invs da persuaso do interesse pblico. Observa Gilberto Bercovici (no livroO que resta da ditadura): A chamada Reforma do Estado da dcada de 1990 no reformou o Estado [...] no modiicaram a administrao pblica ainda conigurada pelo Decreto-Lei 200/1967, apenas deram uma aura de mo-dernidade ao tradicional patrimonialismo que caracteriza o Estado brasi-leiro. (BERCOVICI, 2010, p. 149). Paulo Arantes mais incisivo ainda quando airma: Do Banco Central ao Cdigo Tributrio, passando pela reforma administrativa de 1967, a constituio de 1988 incorporou todo aparelho estatal estruturado sob a ditadura. (ARANTES, 2010, p. 115). Portanto, existe uma linha de continuidade candente, com respeito orga-nizao estatal-burocrtica, entre Estado neoliberal e ditadura civil-militar. A reforma gerencial do Estado ocorrida nos governos neoliberais da dcada de 1990, e herdado pelos governos Lula e Dilma, apenas conirmam a nor-malidade brasileira restaurada.

    Deste modo, o Estado neoliberal no Brasil exemplo-mor da modernizao conservadora que caracteriza historicamente o capitalismo brasileiro. Trata-se de uma tecnologia de poder que, como observou Paulo Arantes (2010, p. 115), destina-se a [...] garantir a segurana jurdica da plataforma de valorizao inanceira em que nos convertemos no quadro da atual diviso internacional do trabalho da acumulao segundo ele, um regime de acumulao sob dominncia inanceira marcado pela discri-cionariedade, pelo compadrio e pelo privilgio. Como Estado neoliberal um Estado poltico corrompido pelas prprias condies da acumulao capitalista nas condies histricas do capitalismo global, que envolve cada

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    vez mais o Estado nas estratgias de espoliao (acumulao por espolia-o). Nas condies de crise de valorizao, a transferncia de renda para setores parasitrios rentistas por meio do Estado neoliberal tornou-se cru-cial para o grande capital nesse caso, o Estado neoliberal apresenta-se como verdadeira mquina de sugar fundos pblicos.

    A cultura estatal-burocrtica constitutiva do Brasil moderno im-pediu que tanto a esquerda quanto a direita pudessem efetivar uma crtica contundente do Estado poltico do capital inclusive de seu sistema de representao poltica (que no discutimos aqui). Ou ainda: do Estado do capital como sistema de controle do metabolismo social o Estado ampliado, que iremos tratar no prximo artigo, quando discutiremos as classes sociais no neodesenvolvimentismo. O que explica, de certo modo, a incapacidade pelo menos no plano da programtica social e poltica de apreender uma alternativa sociometablica ao capital como modo estra-nhado de controle social.

    A esquerda estatista tornou-se expresso ideolgica da incapacida-de hegemnica de ir alm do capital como modo de controle estranhado do metabolismo social. O melhor exemplo so os neokeynesianos que cultuam o Estado poltico para se contraporem s foras do mercado, colocando-o como fora moral capaz de reformar ou humanizar o capitalismo. Os neykeynesianos de esquerda no discutem, por exemplo, a extino do Estado poltico, isto , sua democratizao radical. Pelo contrrio, desprezam o metabolismo social estranhado que o Estado poltico representaem si e para si. Por outro lado, a di-reita oligrquica cnica, critica o Estado politico para airmar o mercado como abstrao alienada, ocultando que hoje, o capitalismo acumula a maior parte de sua riqueza abstrata utilizando-se do Estado poltico. O Estado s mnimo para o trabalho, mas mximo para o capital.

    A ttulo de sntese, podemos caracterizar o Estado neoliberal brasileiro - em sua dimenso restrita de sociedade poltica (incluindo a es-trutura burocrtico-administrativa)- como sendo constitudo (1) por um Estado oligrquico-corporativo que nas ltimas dcadas de neoliberalismo e neodesenvolvimentismo se modernizou no sentido da adoo da gesto toyotista acoplada s novas tecnologias informacionais, que apenas promo-veram a racionalizao de procedimentos e controle, sem alterar a cultura autoritria da administrao pblica. O Estado neoliberal um Estado

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    poltico constrangido pelo capital inanceiro (por exemplo, o sistema da dvida pblica), sendo mantido, no plano macroeconmico, pelo trip neoliberal (cambio lexvel, metas de inlao e supervit primrio). Ao mesmo tempo, como pilar estrutural da nova ordem capitalista inancei-rizada, preservou-se o sistema poltico oligrquico e adotou-se a Lei de Responsabilidade Fiscal, espada de Damocles que constrange o ora-mento pblico priorizando o pagamento da dvida pblica. Finalmente, o Estado neoliberal um Estado poltico historicamente patrimonialista permevel aos interesses privados dos grandes grupos econmicos e das oligarquias polticas regionais. A permeabilidade do Estado brasileiro aos interesses dos grandes grupos econmicos privados, fragilizaram o Estado brasileiro comores publica. Por exemplo, a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hofman, diante das crticas da oposio sobre o descontrole iscal do governo Dilma, airmou em entrevista no jornalFolha de So Paulode 05/11/2013: O problema iscal no a despesa, o baixo crescimento, conjugado com uma poltica agressiva de desoneraes ao setor privado. Diz ela que em 2012 o impacto da desonerao federal foi de R$ 49,8 bilhes, ante os R$ 10,2 bilhes registrados em 2011. Em 2013, a desone-rao federal vai atingir os R$ 80 bilhes! Ao mesmo tempo, manteve-se em dez anos o gasto com pessoal (4,6 em 2003 e 4,3 em 2013) o que expe a lgica dalean production[produo enxuta] aplicada ao Estado po-ltico; e aumentou-se a transferncia de renda para programas de combate a pobreza e pobreza extrema, de 7,1% para 9,5% do PIB o que explica, deste modo, o capital poltico do lulismo cuja lastro social encontra-se no proletariado pobre, base eleitoral hoje do Partido dos Trabalhadores (PT).

    4 nEodEsEnvolvimEntismo E sociEdAdE civil nEoliBErAl

    O Estado neoliberal preservou-se (e ampliou-se) na dcada do neodesenvolvimentismo, na medida em se constituiu e consolidou-se no Brasil, a sociedade civil neoliberal e seu sociometabolismo (o sociometabo-lismo da barbrie).

    De 1979 a 1989, com a crise da ditadura civil-militar, a exploso do sindicalismo e a luta pela redemocratizao poltica, a sociedade civil brasileira assistiu um processo de ascenso das lutas de classes que cons-

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    truiu rudimentos do em-si e parasi da classe. Foi o perodo histrico de surgimento do PT e da CUT e a construo do sindicalismo de classe, co-munidades eclesiais de base e movimentos populares de bairro. O processo social de luta social culminou na candidatura da Frente Brasil Popular em 1989, derrotada pelo candidato conservador Fernando Collor de Mello. A ofensiva neoliberal da dcada de 1990 teve no apenas a funo histrica de reestruturar o capitalismo brasileiro, mas de desmontar o metabolismo so-cialconstrudanadcada passada. A verdadeira ruptura histrica ocorreu na passagem para a nova temporalidade histrica neoliberal dos anos de chumbo de Collor e FHC. Na dcada de 1990 o novo metabolismo so-cial impulsionado pelaideologiada globalizao e ofensiva ideolgica do capitalismo global com a queda doMuro deBerlime debacle da URSS abalou a ideologia socialista de que outromundo possvele impregnou a sociedade civil de valores neoliberais doindividualismo e consumismo.

    Na dcada neoliberal ocorreu a degradao dos valores do coleti-vismo e fragilizou-se o trabalho organizado em sindicato e associaes, de-vido a expanso do desemprego e informalidade do mercado de trabalho. Intensiicou-se o processo de dessubjetivao de classe (ALVES, 2013). Na verdade, a dcada neoliberal forjou com a crise do mundo do trabalho a sociedade civil neoliberal. Ocorreu A degradaoda sociabilidade devido o desemprego nas regies metropolitanas e a informalidade no mercado de trabalho criou um caldo de irracionalidade social nas metrpoles bra-sileiras. Por outro lado, adcadaneoliberal calcinou coraes e mentes, incrustando no espiritoda esquerda hegemonica, o pragmatismo politico e sindical.Enim, a dcada de 1990 representou um processo de contra--reforma neoliberal que, ao lado da revoluo passiva, caracteriza a moderni-zao hipertardio brasileira desde a dcada de 1930.

    Carlos Nelson Coutinho distinguiu, por exemplo, de acordo com Antonio Gramsci, os conceitos de contra-reforma e de revoluo passiva. Diz ele: A diferena essencial entre uma revoluo passiva e uma contra--reforma resida no fato de que, enquanto na primeira certamente existem restauraes, mas que acolheram uma certa parte das exigncias que vi-nham de baixo, com diz Gramsci, na segunda preponderante no o mo-mento do novo, mas precisamente o do velho. Trata-se de uma diferena talvez sutil, mas que tem um signiicado histrico que no pode ser subes-

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    timado. (COUTINHO, 2012, p. 118). O neoliberalismo da dcada de 1990, tal como a ditadura civil-militar (1964-1984), pode ser considerado uma contra-reforma na dinmica da reestruturao do capitalismo brasilei-ro na medida em que se imps o momento do velho no sentido da persis-tncia do arcaica na dinmica de desenvolvimento do capitalismo braseiro. Por outro lado, o neodesenvolvimentismo da dcada de 2000 pode ser interpretado como revoluo passiva na medida em que a restaurao ou modernizao conservadora - acolheu uma certa parte das exigncias do que vinham de baixo (como diria Gramsci).

    No comeo da dcada de 2000, a sociedade civil brasileira re-estruturada, no plano moral-intelectual, pelo neoliberalismo na dcada passada, ainda conseguiu reagir, de modoespontneo, crise do modelo neoliberal,elegendo em 2002 o candidato da oposio: LuisIncioLula da Silva.Entretanto, o Brasil de 2002 no era o Brasil de 1989. Em 2002, a eleio de Lula no foi expresso das lutas sindicais e movimentos sociais, mas sim, expresso da inercia do jogo eleitoral nascondiesda crise radi-cal do modelo neoliberal da dcadapassada. Apesar do debacle do modelo de desenvolvimento neoliberal, a cultura neoliberal, com seus valores con-formistas e individualistas impregnavam a sociedade civil neoliberal.

    Dez anos depois, percebemos que os governos ps-neoliberais de Lula e Dilma no apenas no alteraram a dinmica sociometablica do novo capitalismolexvel no Brasil, mas,pelo contrrio, contriburam para seu impulsionamento. Na dcada do neodesenvolvimentismo, no bojo do choque de capitalismo ocorrido no Brasil, tivemos a expanso dos valores de mercado e disseminao da cultura do individualismo. Por exemplo, a lgica da gesto toyotista impregnou a organizao do trabalho no apenas das empresas privadas, mas tambm da administrao pblica. O espiri-to do toyotismo disseminou-se na totalidade social, contribuindo para a captura da subjetividade do trabalho pelo capital. Instaurou-se o que identiicamos como sendo o toyotismo sistmico (ALVES, 2001). Enim, a disseminao dos valores-fetiches neoliberais prosseguiu na dcada de 2000 no bojo da dinmica poltica dos governos ps-neoliberais.

    A constituio da nova precariedade salarial no Brasil, caracteri-zada pelas novas tecnologias informacionais e gesto toyotista, ocorreu pari pasu com a disseminao do modo de vida just-in-time nas metrpoles

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    o que caracterizamos como precarizao existencial (ALVES, 2013). Na verdade, o primado do consumo exacerbado pela oferta de crdito nas condies do capitalismo manipulatrio, intensiicou o fetichismo da mer-cadoria, com impactos candentes na conscincia contingente das massas carentes de modernizao no caso do Brasil, a modernizao perifrica hipertardia nas condies histricas da crise estrutural do capital, explici-tou-se como modernizao catastrica (KURZ, 1991).

    Na dcada de 2000, o poder da ideologia do capital assumiu pro-pores intensas na vida cotidiana do Brasil. Diante da incapacidade (e desinteresse) do partido de governo (o PT) em formar opinio publica e auto-constituir-se como polo protagnico na luta ideolgica, ampliou-se, principalmente entre a juventude da gerao Y, portadora das expectativas, sonhos e valores-fetiches de mercado disseminados pela indstria cultural.

    O aprofundamento do estranhamento social, que um trao histrico da modernizao conservadora no Brasil, onde o historicamente novo sempre pagou um tributo ao historicamente velho, contribuiu efe-tivamente para a continuidade do esvaziamento espiritual das massas ur-banas processo sociometablico que percorre a histria brasileira, pelo menos desde o golpe civil-militar de 1964. No deixa de ser sintomtico que o Brasil tornou-se na dcada de 2000, um dos maiores exportadores de igrejas evanglicas do mundo, sendo, deste modo, expresso do ame-ricanismo perifrico em fase catastrica. importante salientar a proli-ferao de programas de TV de apelo popular-sensacionalista de contedo imbecilizante, muitos deles de carter fascista, reforando a misria espiri-tual das multides imersas na condio de proletariedade.

    Na medida em que os governosps-neoliberais renunciaram luta ideolgica e desprezaram a luta pelo controle democrtico dos meios de comunicao social, verdadeiros aparelhos privados de hegemonia da oligarquia burguesa interessada na alienao cultural das massas, eles tor-naram-se, no apenas refns dos mass-media hegemnicos, mas coniventes com o processo deimbecilizaocultural das massas populares. Mas a so-ciedade civil neoliberal na dcada de 2000 no deixou de ser um campo de disputa ideolgica que ocupou, por exemplo, a Internet e as redes sociais.

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    A constituio e airmao da sociedade civil neoliberal expressa a misria dos intelectuais brasileiros, impregnados, pelo menos desde a dcada de 1990, pela perspectiva liberal (e/ou ps-modernista) que dilui, por exemplo, a percepo e entendimento de classe, tornando-se incapazes de elaborar, no plano cognitivo, a critica do capital. A crise dos intelectuais de esquerda, comprometidos com a utopia socialista, foi um dos elemen-tos do metabolismo social da era neoliberal que prosseguiu sob os anos do neodesenvolvimentismo. O ideal socialista clssico do controle social dos meios de produo foi reduzido, no plano contingente, utopia salarial do capitalismo organizado capaz de redistribuir riqueza e diminuir a desigual-dade social. Na verdade, a misria da intelectualidade do PT e CUT ex-pressou, de certo modo, a deriva ideolgica da esquerda socialista europia.

    O trao incisivo da ofensiva ideolgica do capital na dcada do neoliberalismo, que prosseguiu na dcada do neodesenvolvimentismo, foi a perda do referencial de classe. Isto tornou-seperceptvel, por exem-plo,no discurso e prtica daprincipal central sindical do pas (CUT), cujo plo dirigente hegemnico adotou no apenas posturas neocorporativas de concertao social, mas renunciou ideologicamente a perspectiva da classe (e luta de classe), adotando o discurso da cidadania. A ideia de sindicato--cidado o exemplo singelo da rendio ideolgica da esquerda socialista do PT. A prpria concepo de classe social diluiu-se, sob inluencia da epistemeps-moderna, em seus elementos compositivos de gnero, etnia/raa, juventude, diversidade sexual, etc, que se autonomizaram no plano discursivo-ideolgico, contribuindo efetivamente para a fragmentao da perspectiva de classe com implicaes na perspectiva da conscincia de classe necessria. Enim, a dessubjetivao de classe um dos traos can-dentes dadesertiicao neoliberal que impregnou a sociedade civil.

    A ofensiva do capital na dcada de 1990 sob o neoliberalismo no foi apenas uma ofensiva do capital na produo, com a reestruturao produtiva, ou a ofensiva do capital na poltica, com o neoliberalismo, mas foi principalmente a ofensiva ideolgica que aprofundou a misria cultural das massas e dos seus intelectuais orgnicos. Portanto, na dcada do neo-desenvolvimentismo no se conseguiu resgatar efetivamente a degradao moral-intelectual das massas ocorrida na dcada neoliberal. As mudanas positivas no campo da macroeconomia do trabalho, no provocaram mu-

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    danas signiicativas no campo do metabolismo social do trabalho pelo contrrio, aprofundou-se a precarizao existencial.

    Quando salientamos que os governos ps-neoliberais no des-montaram o Estado neoliberal no Brasil, signiica que, nos dez anos de neodesenvolvimentismo, persistiu, no apenas a sociedade poltica her-dada da ditadura civil-militar e da dcada neoliberal, mas tambm a so-ciedade civil neoliberal, com suas trincheiras ideolgicas que impedem o movimento progressivo da conscincia social critica das massas populares. Esta dominao cultural neoliberal refora (e reitera) as misrias do sistema politico-eleitoral, elemento compositivo da sociedade politica neoliberal no Brasil. O prprio PT tornou-se meramente partido eleitoral, incapaz de construir nas pessoas, conscincia de classe e hegemonia cultural na perspectiva critica da ordem burguesa. Ao tornar-se refm do sistema po-ltico, os governosps-neoliberais acomodaram-se s regras do jogo de-mocrtico eleitoral, reiterando, deste modo, os limites (e as misrias)do neodesenvolvimentismo no Brasil.

    5 o mAl-EstAr do nEodEsEnvolvimEntismo

    O neodesenvolvimentismo considerado por ns como sendo um novo modo de desenvolvimento capitalista no Brasil apoiado numa frente poltica composta, por um lado, pela grande burguesia interna cons-tituda pelos grandes grupos industriais tais como as empreiteiras OAS, Odebrecht, Camargo Correia, etc, e os grupos industriais da Friboi, Brazil Foods, Vale, Gerdau, Votorantim, etc e o agronegcio exportador todos beneiciados pelo aumento das exportaes focado numa agressiva poltica de inanciamento atravs do BNDES, voltados para promover as empresas e os investimentos brasileiros no exterior; por outro lado, pelas camadas organizadas do proletariado brasileiro (velha classe operria) e setores po-pulares incluindo o subproletariado pobre, beneiciados pelo crescimen-to da economia, reduo do desemprego aberto e formalizao do mercado de trabalho, oferta de crdito para dinamizar o mercado interno; aumento do gasto pblico e polticas de transferncia de renda via programas sociais (Bolsa-familia, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, etc).

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    A burguesia interna no burguesia nacional mas sim a gran-de burguesia brasileira grandes grupos industriais, que no rompendo com o capital inanceiro interacional, manteriam interesses, no apenas no crescimento do mercado interno, mas na poltica de inanciamento da exportao com recursos do BNDES visando inseri-los na concorrncia no plano internacional e trico de inluencia e acesso a recursos do Estado poltico-oligrquico herdado pelos governos neodesenvolvimentistas.

    Diferentemente do velho nacional-desenvolvimento lastreado na burguesia nacional, o neodesenvolvimentismo baseado nos interesses da bur-guesia interna se resignou mundializao do capital renunciando, deste modo, ao projeto de desenvolvimento nacional-popular (o neodesenvolvi-mentismo o desenvolvimentismo capitalista na era do globalismo sob a dominncia do capital inanceiro). Entretanto, setores populares da frente do neodesenvolvimentismo apiam projeto nacional-popular de desenvolvi-mento digladiando-se com os interesses da burguesia interna no interior da frente politica (por exemplo, os governos neodesenvolvimentistas, ao mes-mo tempo que contemplam o agronegcio exportador, incrementam uma poltica de crdito para o pequeno produtor e assentamentos dos sem-terra; ao mesmo tempo que propicia ganhos aos sindicalismo como o aumento do emprego no setor pblico e privado, oicializao das centrais sindicais, melhoria salarial do funcionalismo pblico, recuperao do salrio-mnimo, aumento da formalizao no mercado de trabalho, o governo neodesenvol-vimentista preserva os interesses estratgicos de acumulao e explorao da burguesia interna recusando-se a promover uma recuperao dos direitos trabalhistas e sociais corrodos na dcada neoliberal. Pelo contrrio, mantem--se indiferente ofensiva patronal que ocorre no Congresso Nacional e STF pela disseminao da nova precariedade salarial no Pais.

    Ao promover ascenso poltica da grande burguesia interna em aliana com setores populares e sem romper com o bloco de poder he-gemonizado pelo capital inanceiro internacional Lula criou o que po-deramos considerar um ornitorrinco poltico a frente poltica do neo-desenvolvimentismo - sendo tal arquitetura poltica o prprio esprito do lulismo.

    Fazendo um balano dos ltimos dez anos de governos Lula e Dilma, percebemos que ocorreu no pas um choque de capitalismo que,

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    impulsionado pela oferta de crdito e renncias iscais em prol dos mono-plios, contribuiu, deste modo, para a expanso dos negcios, especulao imobiliria e acumulao do capital, e por conseguinte, a preservao (e ampliao) de formas arcaicas e modernas de degradao do trabalho no Brasil (o neodesenvolvimentismo como no poderia deixar de ser - traz em seu cdigo gentico, traos da modernizao conservadora que carac-teriza as entiicaes capitalistas hipertardias e dependentes).

    A expanso capitalista na era do neodesenvolvimentismo ocorreu no interior da macroestrutura do capitalismo neoliberal hegemnico no plano do mercado mundial o que explicita os limites do neodesenvolvi-mentismo. Neodesenvolvimentismo no signiica ps-neoliberalismo. Na verdade, neodesenvolvimentismo expem densas contradies orgnicas no interior da sua frente poltica, expostas acima, quanto na relao do go-verno neodesenvolvimentista com o Estado neoliberal (sociedade poltica e sociedade civil) herdado da ditadura civil-militar e modernizado pelos governos neoliberais (1990-2002). A preservao do Estado poltico-oli-grquico adequado ao capitalismo neoliberal contribuiu para que se man-tivesse (e ampliasse) a corrupo da coisa pblica com trico de inluencias e propinas nos negcios operados pelas empresas pblicas e grupos indus-triais da burguesia interna. (vide Operao Lava Jato, etc).

    Na medida em que o neodesenvolvimentismo promoveu um choque de capitalismo no Brasil, implementou-se o toyotismo sistmico no plano da produo do capital. o que temos salientado nos ltimos anos: a disseminao do espirito do toyotismo nas prticas de gesto da indstria, servios e inclusive administrao pblico, a exacerbao do fe-tichismo da mercadoria e as mltiplas alienaes que permeiam a vida coti-diana, a crise de sentido e os carecimentos radicais que inquietam camadas mdias (e populares) e a adoo do modo de vida just-in-time contribu-ram efetivamente para a inquietao social que caracteriza as metrpoles brasileiras e a agudizao da crise do trabalho vivo.

    Com o choque de capitalismo da era do neodesenvolvimentis-mo, o capital impulsionou o processo de desmonte da pessoa humana nos seus elementos compositivos (subjetividade, alteridade e individualidade). Na era do neodesenvolvimentismo surgiram novas formas de precariza-o laboral que se articulam com a nova precariedade salarial caracterizada

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    pelas prticas de lexibilizao de jornada, remunerao e contratao do trabalho. Nos dez anos de neodesenvolvimentismo, apesar dos indicado-res positivos da macroeconomia do trabalho expostos acima, cresceram a rotatividade do trabalho e a prtica da terceirizao laboral, expondo a formao de um novo e precrio mundo do trabalho. A precarizao do homem-que-trabalha ou a degradao da pessoa humana se manifesta no crescimento exponencial dos adoecimentos laborais.

    O neodesenvolvimentismo nos governos Lula e Dilma tinha como estratgia poltica, o lulismo, que implementou um reformismo fraco, evitando o enfrentamento direto no apenas com o grande capital inanceiro internacional que hegemoniza o bloco de poder do capital no Brasil, mas tambm evitando o enfrentamento com a grande burguesia in-terna que compunha a frente poltica do neodesenvolvimentismo. O mote do lulismo era o lema Lula, Paz e Amor e o lema do governo era Um Brasil para Todos. Na verdade, a grande argcia poltica do lulismo foi construir uma estratgia poltica que deslocasse politicamente fraes do bloco de poder do capital - a burguesia interna - para seu projeto de gover-no com apoio de fraes da classe trabalhadora organizada e o subproleta-riado pobre. O lulismo e a arquitetura da frente poltica do neodesenvolvi-mentismo tornaram-se o esprito da governabilidade do projeto poltico de governo conduzido por um Executivo do PT num pas capitalista onde a correlao de foras a favor da classe trabalhadora aps o dilvio neoliberal era bastante desfavorvel no plano poltico-institucional.

    Entretanto preciso salientar que o neodesenvolvimentismo da dcada de 2000 os governos Lula - beneiciou-se da conjuntura favorvel da economia mundial baseada, por exemplo, na bolha inanceira e valo-rizao das commodities. Na medida em que a economia brasileira cres-cia, reduzia-se o conlito redistributivo entre as classes que compunham a prpria frente do neodesenvolvimentismo e inclusive, os conlitos re-distributivos no interior das classes dominantes que compunham o bloco do poder do capital. Ao mesmo tempo o realinhamento eleitoral do PT que incorporou a base poltica do subproletariado pobre, deu-lhe impulso poltico, no apenas para Lula reeleger-se, mas depois, eleger a sucessora Dilma Roussef. Os indicadores positivos da macroeconomia do trabalho na era Lula compuseram os anos dourados do neodesenvolvimentismo em

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    contraste, por exemplo, com os anos de chumbo do neoliberalismo da d-cada de 1990. A ltima grande performance do neodesenvolvimentismo foi a poltica macroeconmica adotada como resposta crise de 2008, al-ternativa s polticas de austeridade iscal e monetria exigidas pela direita neoliberal e adotadas na Unio Europia.

    Entretanto, a conjuntura da economia mundial se inverteu na d-cada de 2010. A bolha inanceira estourou em 2008 e o preo das com-modities despencam no mercado mundial. Esse o ponto signiicativo de inlexo da conjuntura que demarcar os limites do neodesenvolvimentismo nos governos Dilma. A crise inanceira de 2008 alterou a dinmica da con-juntura da economia mundial e prolongou-se, com diferentes modulaes, na dcada seguinte, arrastando-se num longo depresso nas economias centrais (tal como a crise de 1929). No ncleo orgnico do sistema mundial do ca-pital, emergiu em 2010, com vigor, a crise da Unio Europia impulsionada depois pelas medidas de austeridades neoliberais propostas pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comisso Europia), atingindo principalmente, os pases do sul da Europa, aumentando o desemprego e a pobreza social, desmontando os rudimentos de Welfare State construdos na era dourada do capitalismo central. A juventude altamente escolarizada que trabalha o precariado - a parte mais penalizada das polticas neoliberais de austeridade adotadas pelo capital inanceiro nos pases do sul da Europa. As perspectivas de recuperao da economia europia em 2013 frustraram-se e percebeu-se depois em 2014, sinas de desacelerao - e inclusive recesso - no carro-chefe da economia europia: a Alemanha. Ao mesmo tempo, apesar de ter sado da recesso, a economia norte-americana cresceu a taxas medocres e a eco-nomia japonesa no conseguiu sair da estagnao econmica de longa data. Mas um acontecimento signiicativo da primeira metade da dcada de 2010 no apenas a persistncia da crise europia e o crescimento medocre da economia dos EUA e estagnao no Japo, mas a desacelerao da economia da China com impactos nos ditos pases emergentes.

    As perspectivas da segunda metade da dcada de 2010 no so promissoras pelo contrrio, no existem perspectivas de retomada da crise do capitalismo global, colocando diiculdades candentes para o se-gundo governo Dilma que herdou os limites do neodesenvolvimentismo. Internamente o bloco de poder do capital no Brasil se rearticula na dcada

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    de 2010 visando no apenas desgastar e implodir a frente poltica do ne-odesenvolvimentismo, mas no interior da prpria frente poltica do ne-odesenvolvimentismo a grande burguesia interna busca isolar e derrotar os setores populares no interior da frente poltica.

    Por um lado, o capital inanceiro, frao hegemnica do blo-co de poder, que faz oposio sistemtica frente poltica do neode-senvolvimentista desde 2002, encontrou aliados em setores insatisfeitos da grande burguesia interna, que, num cenrio de crise internacional, pressionam o governo Dilma para adotar medidas de reduo do cus-to Brasil, isto , desmonte dos direitos trabalhistas (o movimento parla-mentar do PSB e do prprio PMDB indicam sinais de corroso da frente neodesenvolvimentista).

    O mal-estar do neodesenvolvimentismo ocorreu, num primeiro momento, em 2012 e 2013 quando o governo Dilma confrontou direta-mente o capital inanceiro reduzindo as taxas de juros e utilizando bancos pblicos para poltica de crdito. Naquele momento, a frao do capital inanceiro hegemnica na grande mdia e fraes insatisfeitas da grande burguesia interna que no conseguiram apoio do governo para implemen-tar a Reforma Trabalhista visando reduzir direitos dos trabalhadores, si-tiam o governo Dilma que encontra a partir de 2013, ano pr-eleitoral, um cenrio de desgaste miditico por conta da queda do crescimento da economia devido a conteno de investimentos privados - parte do em-presariado nacional num cenrio de crise mundial recusou-se a investir; presses inlacionrias, com novos conlitos distributivos entre as classes e camadas de classes; e presses sociais por parte de camadas mdias, rfs do neodesenvolvimentismo.

    As jornadas das ruas de 2013, movimento massivo impulsionado, por um lado, pelos limites do neodesenvolvimentismo, e por outro, enqua-drado pela mdia neoliberal hegemnica, compem o cenrio primordial de mal-estar do neodesenvolvimentismo. As demandas sociais postas pelos protestos de rua no poderiam ser satisfeitas por um governo neodesenvol-vimentista constrangido pelas contradies orgnicas da frente poltica e constrangido pela contradio crucial entre governo neodesenvolvimentista e Estado neoliberal. A estratgia poltica do lulismo construda num cenrio macroeconmico favorvel para redistribuio de renda sem confrontar o

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    grande capital (dcada de 2000), torna-se incuo num cenrio de persistente crise econmica mundial e candentes conlitos distributivos entre classes e no interior das classes. Deste modo, as polticas do neodesenvolvimentismo encontram na metade da dcada de 2010 um cenrio adverso tanto interna-mente quanto externamente embora as duas situaes se inter-relacionem.

    Por um lado, o aprofundamento da crise do capitalismo global com a desacelerao da China, acompanhada pela desacelerao da eco-nomia alem. No centro capitalista, presses delacionrias se contrastam com presses inlacionrias no Brasil que obrigam o governo a aumentar os juros para cont-las num cenrio de desacelerao da economia. Apesar do baixo crescimento, o governo Dilma mantm o gasto pblico com pro-gramas sociais, incomodando os setores da ortodoxia neoliberal no apenas ligados ao capital inanceiro, mas a grande burguesia interna que exige o ajuste iscal. As diiculdades de fechar as contas do governo em 2014 expem as diiculdades de manter as polticas do neodesenvolvimentismo que beneiciaram as camadas populares e ameaam romper a frente poltica entre grande burguesia interna e camadas populares.

    A corroso da frente poltica do neodesenvolvimentismo em 2014 se explicita tanto no plano do processo sucessrio as ltimas eleies para Presidncia da Repblica, quanto na prpria governabilidade. No plano so-cial, os limites do neodesenvolvimentismo se explicitam pelo menos desde 2013 com a presso das ruas por reformas sociais. O governo, refm de suas contradies, constrangido pelo Estado neoliberal - e sendo ele prprio art-ice do ornitorrinco poltico (a frente poltica do neodesenvolvimentismo), proclama, como palavra de ordem, a Reforma Poltica visando desatar o n gordo da governabilidade espria. Na verdade, para que ocorram as refor-mas sociais necessrias para a democratizao do Brasil torna-se necessria uma nova institucionalidade poltica capaz de representar efetivamente a vontade popular. Entretanto, o desejo do governo - pelo menos de parte dele, ligado aos setores mais avanados do PT - implica confrontar-se com os pilares da frente neodesenvolvimentista que contm larga representao de fraes das classes dominantes do bloco de poder do capital.

    As eleies de 2014 signiicaram no plano da governabilidade maiores diiculdades para o governo neodesenvolvimentista. Por um lado, um Congresso mais conservador resiste a reforma poltica capaz de repre-

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    sentar a vontade popular. Por outro lado, num cenrio de desacelerao e inclusive recesso econmica, o projeto de desenvolvimento com incluso social no se sustenta. Crescer a economia tornou-se a nica sada para preservar a frente do neodesenvolvimentismo. Ao mesmo tempo, crescem no interior da prpria frente poltica hegemonizada pela grande burguesia interna, presses para o governo Dilma adotar a agenda neoliberal que coloca como pressuposto da retomada da economia, um profundo ajuste iscal que penaliza programas sociais e direitos dos trabalhadores.

    A presso pela agenda ortodoxa no s da burguesia rentista mas de parcelas da burguesia interna que num cenrio de aprofundamento da crise mundial, prepara uma ofensiva contra os direitos dos trabalhado-res no Congresso Nacional oe no Supremo Tribunal Federal, por exemplo, aprovando projetos de lei da terceirizao ampla e irrestrita. A alta corte constitucional no Brasil tornou-se a ferramenta da precarizao do traba-lho no Brasil vilipendiando a Justia do Trabalho.

    Portanto, no caso do Brasil, a explicitao dos limites do neode-senvolvimentismo leva a um profundo mal-estar social e poltico, colo-cando diiculdades candentes para o ltimo governo Dilma, impondo-se, mais do que nunca, a pauta da construo de uma nova frente poltica hegemonizada pela esquerda capaz de mobilizar a sociedade brasileira e isolar as foras conservadoras e reacionrias no plano institucional. No plano da governabilidade, as imensas diiculdades exigem um salto de qua-lidade de interveno poltica do PT, no apenas no Congresso Nacional, mas principalmente na sociedade civil, onde se dar efetivamente o embate pela preservao da democracia e conquistas populares da era do neode-senvolvimentismo e ampliao para alm do prprio neodesenvolvimen-tismo da satisfao das necessidades sociais. A pauta da Reforma Poltica com constituinte exclusiva o sine qua non para todas as reformas neces-srias para democratizar o Estado e a sociedade brasileira. Inclusive, sem Reforma Poltica capaz de resgatar a representao da vontade popular no Congresso Nacional, a democratizao dos meios de comunicao de mas-sa no ocorrer como no ocorreu nos ltimos dez anos de Lula e Dilma.

    Entretanto, num cenrio de crise da economia caso o Brasil no cresa capaz de permitir a incluso social e a redistribuio de renda sem con-frontar os interesses do grande capital, a disputa poltica e a luta de classes

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    podem tornar-se uma tarefa poltica inglria para setores populares num pas onde no existem organizaes de massa e direo poltica de esquerda capaz de hegemonizar o processo social. Como ocorreu em junho de 2013, num cenrio de inquietao social e campanha miditica voraz, a direita deve pautar o movimento visando derrubar o governo antes mesmo do pleito de 2018.

    rEfErnciAs

    ALVES, Giovanni. O novo (e precrio) mundo do trabalho. So Paulo: Boitempo Editorial, 2001.

    ______. Trabalho e neodesenvolvimentismo. Bauru: Ed. Praxis, 2009.

    ______. Dimenses da precarizao do trabalho: ensaios de sociologia do trabalho. Bauru: Ed. Prxis, 2013.

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    BERCOVICI, Gilberto. O direito constitucional passa, o direito administrati-vo permanece: a persistncia da estrutura administrativa de 1967. In: TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (Org.). O que resta da ditadura. So Paulo: Boitempo Editorial, 2010. p. 140-169.

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    GRAMSCI, Antnio. Maquiavel, a poltica e o estado moderno. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1984.

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    TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (Org.). O que resta da ditadura: a exceo brasileira. So Paulo: Boitempo Editorial, 2010.

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    o PodEr modErAdor do BrAsil1

    Lincoln Secco

    Apesar dos movimentos sociais terem mostrado que a sociedade estava preparada para a democra-cia, a tradio antidemocrtica e elitista prevaleceu. Mesmos nos setores que se dizem democrticos, opinies divergentes no so toleradas. Em vez da persuaso, do dilogo, do compromisso, preferimos a excluso do adversrio. [...] Pode-se falar em de-mocracia, mas aqui ela no existe (Emilia Viotti)2.

    Em 19 de maro de 1964 a Marcha da Famlia com Deus pela Liberdade foi organizada pelos conspiradores de So Paulo para desestabi-lizar o Governo legtimo do presidente Joo Goulart. Na viso de muitos deles ela deveria ser o desdobramento da chamada Revoluo de 1932. Naquele ano a oligarquia paulista levantou-se em armas contra o Governo provisrio de Getlio Vargas.

    Em 1964 as classes mdias paulistas, que j haviam sido a base popular para suas elites em 1932, foram s ruas de novo contra o governo federal. frente das quinhentas mil pessoas que desilaram no Viaduto do Ch na capital paulista marchavam os voluntrios da Guerra Paulista de 1932. E seus ilhos e netos formavam os grupos de choque preparados para a eventualidade de uma guerra civil (SILVA, 1978, p. 247). O jornal O Estado de S. Paulo, que participou ativamente do levante de 1932, carac-terizou o Golpe Militar de 1964 de movimento democrtico3.

    1 Este texto parte de uma pesquisa para um futuro livro sobre a chamada Revoluo de 1932.2 Revista Nossa Histria, v. I, n. 11, set. 2004.3 O Estado de S. Paulo, 3 de abril de 1964.

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    Mas se h ntidas continuidades na elite paulista desde 1930 at os dias atuais, o leitor da histria deve atentar tambm para as rupturas. Em primeiro lugar, o empresariado industrial em 1932 era muito menos poderoso. O caf, cacau, algodo, couros e peles ainda respondiam por quase 80% das exportaes nacionais e a indstria respondia por modestos 16,5% do PIB em 1930 e entrara numa fase negativa at 1933.

    A burguesia rural dos fazendeiros do caf era muito menos diver-siicada e a pequena burguesia dos servios urbanos pblicos e privados e do comrcio era menor. So Paulo sequer tinha uma universidade como centro de produo cientica e ideolgica das classes dominantes. A USP seria criada em 1934.

    A prpria imprensa mudou. Ela teve destacado papel em 1932. O rdio era o principal meio de difuso. Os jornais A Gazeta e O Estado de S. Paulo foram cruciais na manipulao de notcias que escondiam os revezes das foras constitucionalistas.

    Porm, naquela poca o jornal O Estado de S. Paulo era um ator de maior importncia na poltica paulista. Era um verdadeiro grupo po-ltico. Em 1932 a famlia Mesquita, dona do jornal, fez parte do coman-do do levante armado. Foi diferente em 1964 e depois. O jornal apoiou decididamente o golpe, como vimos acima, contudo no participou de seu comando poltico-militar pelo simples motivo de que o golpe foi real-mente militar e em escala nacional. Os militares agiram como corporao uniicada, diferentemente de 1932, quando se dividiram.

    Que os militares o tenham feito a favor das classes dominantes civis uma obviedade, j que todo golpe s vitorioso permanentemente se contar com o apoio dos setores interessados da sociedade civil.

    Isso no quer dizer que foi insigniicante o apoio por eles recebi-do das classes dominantes e dos Estados Unidos. Mas sendo o golpe em es-cala nacional, o papel da elite paulista no foi o mesmo de 1932, quando o conlito que deveria envolver o apoio de outros Estados (como Rio Grande do Sul e Minas Gerais) icou estancado nas fronteiras paulistas e s obteve o apoio simblico de Mato Grosso. Fiel ao seu liberalismo conservador, O Estado de S. Paulo sofreria a censura ditatorial e se afastaria do novo regime.

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    Depois de 1964, outros jornais paulistas colaborariam ativamen-te com a represso (caso da Folha de So Paulo). Mas este jornal no tinha tradio poltica nenhuma. Foi a partir dos anos 1980 que ele se tornou o mais inluente jornal brasileiro.

    A Ditadura Militar no proibiu as comemoraes de 1932, mas elas nunca extrapolaram o ambiente das escolas de So Paulo. Apesar disso, o ltimo ditador militar, Joo Batista Figueiredo, era ilho do principal comandante militar da Revoluo de 1932: Euclides Figueiredo. Em 1982 o governo paulista comemorou oicialmente o cinquentenrio do Levante armado.

    Mas eis que em 1995 um poltico paulista de um partido com forte identidade regional chegou ao poder central do pas. Em 12 de se-tembro de 1995 o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) de-iniu que cada Estado da federao podia transformar sua data principal num feriado. Em So Paulo, o nove de julho foi oicializado por uma Lei Estadual em 1997, sancionada pelo governador Mrio Covas, tambm ele do PSDB.

    O que havia mudado?

    dois PArtidos

    Os dois partidos que dominaram a cena poltica brasileira desde ento (PT e PSDB) surgiram em So Paulo e questionaram o legado do Estado Novo. Um a tutela sindical, o outro as nacionalizaes e, ambos, o tipo de previdncia social daquele perodo (embora isso no fosse consen-sual no PT).

    verdade que a crtica original do PT (especialmente de suas alas sindicais mais radicais, representadas pela oposio metalrgica de So Paulo) era a da esquerda, ou seja, buscava ampliar direitos e aumentar o poder de presso dos sindicatos livremente organizados. No entanto des-considerava grande parte do sindicalismo amarelo da poca trabalhista que, malgr tout, defendia pequenas categorias que no sobreviveriam a uma li-vre negociao sem proteo estatal. A esquerda petista preferia denunciar

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    (com razo) as burocracias sindicais que manipulavam os operrios para obter vantagens pessoais junto aos patres e ao governo.

    J a nova burguesia que despontava como crtica do tamanho do Estado na economia atacara o legado de Vargas para fazer gigantescas privatizaes, alterar a composio patrimonial do capitalismo no Brasil e enfraquecer a legislao trabalhista que protegia direitos consagrados na CLT. Isso se deu no perodo FHC (1994-2002).

    Alis, o fenmeno que confunde os historiadores. Intelectuais do PT questionavam o populismo4 e airmavam a autonomia operria como ideal da classe trabalhadora. Ao se contrapor CLT de Getlio Vargas, o aparato sindical do PT parecia convergir com o empresariado moderno do Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE) e at com seto-res da Federao das Indstrias do Estado de So Paulo (FIESP). por isso que os comunistas e velhos trabalhistas permaneceram fora da Central nica dos Trabalhadores5, cuja fundao foi hegemonizada pelo PT.

    Mas quando o neoliberalismo aportou no Brasil e foi elevado a dogma pela equipe econmica do governo de Fernando Henrique Cardoso, foram perpetrados inmeros ataques aos direitos trabalhistas e CLT. O PT se viu na condio de defensor do legado de Getlio Vargas. Com a chegada de Lula ao poder, seu carisma, a mudana da base social petista e as polticas sociais governamentais reconciliaram o PT com o velho Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Vargas.

    De fato, a CLT carrega em si traos ditatoriais que no podem ser apagados. Mas ao mesmo tempo um escudo de defesa do trabalhador em condies em que ele no tem fora para impor seus interesses sem a tutela da lei. Por isso, a defesa do im do imposto sindical e da unicida-de sindical tornou-se quase ritual na CUT porquanto sem consequncias prticas e muitos pequenos sindicatos dependentes de contribuies sin-dicais obrigatrias aderiram CUT. Por outro lado, os maiores sindicatos petistas continuaram devolvendo o imposto sindical aos trabalhadores e criticando-o oicialmente.

    4 Populismo empregado aqui apenas como sinnimo de poltica popular ou que apela ao povo como categoria poltica na Amrica Latina. No h nenhum sentido pejorativo. Evidentemente que tal poltica (como de resto qualquer outra) no foi feita pelo povo.5 Mais tarde o PC do B a integrou. Mas hoje possui sua prpria central.

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    No deixa de ser notvel que a classe trabalhadora aprendeu por si mesma que seus problemas no se resolviam com a abolio negativa da CLT e sim com sua superao positiva. A CLT ajudou a manuteno de estruturas sindicais obsoletas e direes oportunistas, mas nenhuma lei impede a classe trabalhadora de lutar quando ela pode. As greves massivas dos anos 1980, quando elas eram proibidas, foram o exemplo disso.

    Todavia, o PSDB cada vez mais se apropriou da crtica ao legado de Getlio Vargas enquanto o PT resvalava para os braos do velho lder.

    Nota-se logo que havia uma base objetiva para a revalorizao do liberalismo. Os ideais de 1932 restaurados foram uma pequena parte disso. O estado de So Paulo continuou sendo o mais importante polo econmico do Brasil, apesar do desenvolvimento de outras regies. Este desenvolvimento se interiorizou e as cidades mais conservadoras de sua hinterlndia explodiram em crescimento populacional.

    dirEitA PoPulAr PAulistA

    Ao lado daquela Direita Moderna que aderia ao PSDB ainda ha-via outra fora. A capital paulista continuou desde o im do Estado Novo com seu jogo eleitoral desequilibrado por uma periferia pobre crescente. Um dos fenmenos mais complexos da era do populismo foi a singulari-dade de So Paulo. Conquanto os operrios paulistas votassem em grande nmero em Vargas, o PTB e o PSD, partidos de apoio do Presidente, ja-mais foram hegemnicos em So Paulo. A herana do Estado Novo ali foi iltrada por foras prprias que consentiam a liderana nacional de Vargas, mas guardavam sua autonomia regional.

    Os prceres do constitucionalismo eram incapazes de fazer o jogo eleitoral competitivo com o getulismo. A sua vitria nas eleies de 1933 com a Frente nica Paulista recolhia as lores da propaganda do ano an-terior e se aproveitava de um momento em que Getlio Vargas ainda no era o pai dos pobres.

    Mas depois do Estado Novo, a elite das classes dominantes pau-listas no tinha a mesma capacidade eleitoral. Apesar disso, ela tinha for-a regional suiciente para se opor ao getulismo. Sob uma Democracia

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    Racionada que proibia o partido comunista, loresceu a Direita Popular dos governadores Ademar de Barros e Jnio Quadros. O primeiro subira ao palco ainda sob o Estado Novo.

    Avessas organizao sindical, dada sua precariedade de condi-es de vida, reprimidas durante a Ditadura, as classes desprotegidas foram alvo da pregao de uma burguesia lumpem de novos-ricos articulada po-liticamente com os grandes negcios imobilirios, indstria de construo civil e fornecedores do Estado e da prefeitura. Era a direita populista ou popular.

    Esta corrente poltica nunca se expressou numa organizao partidria, mas um partido no lato sentido de corrente de opinio permanente. O fenmeno de candidatos direitistas com voto no uma exclusividade paulistana. Mas como So Paulo uma grande cidade que passou por urbanizao intensa em dimenses incomparveis, as popula-es recm-chegadas sempre foram alvo de um discurso autoritrio que as situavam como clientela e vtima. Culpadas pela violncia que sofriam e dependentes, elas nem sempre se viam como trabalhadoras responsveis pelo erguimento da metrpole e sucumbiam mensagem de ordem, segu-rana e habitao. Mas ao mesmo tempo se organizavam nas associaes de bairro (muitas com sede prpria h mais de meio sculo) e conquistavam loteamentos, asfalto, postos de sade etc.

    A Direita Popular no se importava com os ideais de 1932. Seus valores eram outros e, principalmente, o seu eleitorado. Mas ao lado des-sa direita, o PSDB ascendeu nos anos 1990 e se apossou irmemente do governo estadual graas ao enorme crescimento industrial e populacional do interior do Estado. Uma classe mdia muito mais numerosa do que no restante do pas acatou o discurso da competncia empresarial. O PSDB, durante seu transformismo dos anos 1990, falou a linguagem da Terceira Via de Tony Blair e Schrder contra os impostos e assim incorporou a clas-se mdia tradicional, os pequenos comerciantes e todos os que aspiravam ao prprio negcio e colocavam a competitividade antes da solidariedade.

    Em 1994, malgrado sua origem no campo de centro e at mesmo com alguns laivos sociais-democratas em seu programa original (SECCO, 2012), o PSDB assumiu o comando do poder estadual paulista de maneira

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    ininterrupta. Cabe lembrar que ao contrrio das eleies nacionais polari-zadas por duas foras, as disputas em So Paulo eram disputadas por trs: a esquerda, a direita popular e a direita moderna, representada pelo PSDB.

    O PSDB podia assim se equilibrar, ora contando parcialmente com votos da base petista contra a direita popular (que foi representada por Paulo Maluf, Francisco Rossi, Celso Russomano, Paulo Skaf ) ora apoian-do-se nos votos populistas de direita contra a ameaa petista. Tanto que Skaf, dirigente da FIESP, tentou convencer o eleitorado em 2014 de que ele podia escolh-lo sem medo de que o PT fosse vitorioso. O eleitorado majoritrio paulista preferiu, entretanto, no arriscar e fez voto til no Governador Alckmin, apesar da crise hdrica, educacional, de corrupo e de segurana.

    Foi assim que, segundo Henrique Sanches, o PSDB logrou conquistar

    [...] um eleitorado consideravelmente heterogneo que rene trabalha-dores industriais e de servios, proissionais liberais, comercirios, tra-balhadores autnomos, pequenos e mdios comerciantes, microempre-srios; moradores de bairros centrais e perifricos, da capital, interior e litoral, de grandes, mdias e pequenas cidades; de adolescentes em sua primeira eleio a jovens, adultos e idosos; uma maioria antipetista, mas tambm eleitores lulistas. (SANCHES, 2014).

    Se verdade que So Paulo continuou sendo uma fora poltica regional e um polo econmico nacional, tambm correto airmar que no sculo XXI a economia brasileira foi fortemente impulsionada pela ex-portao de commodities para a China. So Paulo tem notvel papel nesta imensa economia exportadora baseada no agronegcio. Os mapas eleito-rais revelam que a oposio ao PT forte exatamente nas reas de clientes desta economia agroexportadora (centro-oeste e o antigo sul do pas que tambm engloba So Paulo). Uma gigantesca classe mdia do mundo cor-porativo e dos servios a base objetiva para os valores da Direita.

    Simultaneamente, o PT no governo retrocedeu para posies de defesa do legado de Getlio Vargas, embora no tenha desfeito as grandes privatizaes do PSDB. E a igura carismtica de Lula frequentemente apa-receu como contraponto do vnculo que os grandes meios de comunicao

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    estabeleceram entre a oposio, a democracia e a constituio. Notavam-se arroubos autoritrios e ligaes com outros ditadores da Amrica do Sul no governo federal a toda hora, ao menos segundo os jornais.

    Este caldo de cultura que explica a retomada dos valores de 1932 e at os de sua continuidade nacional: o golpe de 1964. bem verdade que h diferenas histricas nada negligenciveis. O iderio paulista o do liberalismo conservador que defende a abertura ao capital estrangeiro, a proteo jurdica de interesses comuns do empresariado e a represso sele-tiva de oposies se possvel dentro de uma interpretao alargada da lei. A corrupo vista como instrumento necessrio para constituir alianas com setores atrasados do restante do pas encastelados no Estado. Mal que seria corrigido com mais privatizaes.

    O iderio de 1964 se caracteriza por uma represso aberta e indis-criminada aos opositores, a violao constante da legalidade por aparatos paramilitares amplos e a tutela do empresariado e da classe trabalhadora pelo Estado.

    Mas ao lado das diferenas encontram-se convergncias que se acentuam em momentos de crise de hegemonia. A Direita Moderna tem um dicit eleitoral e precisa incorporar valores da Direita Popular. Mas como esta tem escassa inluncia nacional, restrita a franjas pequenas do eleitorado nacional e com maior fora em So Paulo e parte de periferias de grandes cidades como o Rio de Janeiro, o PSDB nunca deixa de lertar com tcnicas golpistas, hodiernamente legitimadas por julgamentos polti-cos legais e iniciativas do Congresso Nacional. Mas nada muito distinto do que o Congresso e o judicirio izeram no perodo 1950-1964.

    Lula contribuiu para isso ao invocar nitidamente o legado de Getlio Vargas. Manchou as mos com petrleo, imitando o velho lder e, publicamente, se comparou a ele ao declarar que acusavam-no injusta-mente pela corrupo do pas. Mas tambm como Vargas jamais evitou a represso contra quem estivesse sua esquerda e sempre buscou a conci-liao, nomeando ministrios com as duas mos: a esquerda e a direita...

    A elite paulista, por seu lado, jamais perdoou Getlio Vargas, assim como jamais aceitou Lula e o PT por mais que eles assumissem po-sies conservadoras e tranquilizadoras para as classes dominantes. O pe-

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    rodo de hegemonia eleitoral petista, aberto em 2002, demonstrou que, apesar das concesses lulistas, o discurso antipetista se radicalizou, encon-trando em So Paulo um verdadeiro poder moderador no Brasil6.

    rEfErnciAs

    SANCHES, Henrique. Decifra-me ou te devoro: a hegemonia tucana em So Paulo. Disponvel em: . Acesso em: 2 out. 2014.

    SECCO, Lincoln. A crise do PSDB. Le Monde Diplomatique, abr. 2012.

    SILVA, Hlio. 1964: golpe ou contragolpe. Porto Alegre: L&PM, 1978.

    6 O termo paulista aproximado porque na verdade o mapa dos votos da Direita se espalha por grande parte do sul e do centro oeste. E em So Paulo as candidaturas de Centro esquerda obtm milhes de votos cruciais para sua eventual vitria.

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    movimEntos sociAis E finAnciAmEnto dA EducAo BsicA no BrAsil: o contExto

    Poltico E sociAl dA ElABorAo dE PolticAs PBlicAs

    Silvia Aparecida de Sousa Fernandes

    introduo

    A coordenao da poltica nacional de educao de respon-sabilidade da Unio, conforme prescrito na Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDBEN), a Lei n 9394/1996. No uso desse pre-ceito legal, o Governo Federal instituiu em 2010 o Frum Nacional de Educao (FNE), por meio da Portaria n 1407, de 14 de dezembro de 2010. Este frum, de carter permanente, rene representantes do Ministrio da Educao, atravs de sete diferentes secretarias, entre elas a Secretaria de Educao Bsica (SEB), Secretaria de Educao Superior (SESu), Secretaria de Educao Especial (SEESP) e Secretaria de Educao Distncia (SECAD), representantes de sindicatos de trabalhadores, como a Confederao Nacional de Trabalhadores em Educao (CNTE) e Confederao Nacional de Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CNTEE), representantes de diferentes setores organizados da sociedade civil e instituies de ensino e pesquisa. Na portaria que o institui so mencionados os Movimentos Sociais do Campo, comunidades cienti-cas, Universidades e Institutos de Pesquisa em Educao, Dirigentes de ensino em diferentes nveis de governo. Ao todo 34 instncias de repre-

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    sentao mencionadas na portaria. O FNE tem a inalidade de coordenar as Conferncias Nacionais de Educao, alm de acompanhar a imple-mentao de suas deliberaes e promover a articulao entre os Fruns Estaduais e Municipais de Educao.

    O carter permanente do frum deixa clara a importncia, ao menos legal, da participao da social no processo de elaborao das polti-cas pblicas de educao no cenrio recente. Ter assegurada a participao de representantes da sociedade civil em fruns especicos como o FNE um indicador de como os movimentos sociais de luta em defesa da educa-o tem reivindicado e conquistado espaos institucionais de representa-o, nos ltimos anos.

    Essas conquistas recentes so fruto de um processo de mobiliza-o e reivindicao que se inicia com as lutas pelo processo de redemocra-tizao do pas, iniciados no inal da dcada de 1970. Saviani (2007) iden-tiica como marco na organizao e mobilizao no campo educacional no Brasil as manifestaes de professores de escolas pblicas de educao bsica no inal dos anos 1970, que resultou na instituio da Confederao de Professores do Brasil (CPB), denominada Confederao Nacional dos Trabalhadores da Educao (CNTE), aps o Congresso realizado em 1989. Com propsitos semelhantes, em 1981, os professores da Educao Superior criaram a Associao Nacional de Docentes do Ensino Superior (ANDES). A organizao dos proissionais da educao em diferentes n-veis de ensino intensiicou-se na dcada de 1980

    Esse breve histrico permite que entendamos o debate que mar-cou o primeiro mandato da presidente Dilma Roussef, em torno da apro-vao do Plano Nacional da Educao (PNE), Lei 13005/2014, aprovado maro que deine as diretrizes e metas para a educao no Brasil, no pero-do 2014-2024. O projeto de Lei do PNE foi apresentado pelo Ministrio da Educao e Cultura (MEC) em dezembro de 2010 ao ento presidente Lula, no ltimo ms de seu mandato presidencial. Dilma, j eleita, assu-miria em janeiro de 2011. O projeto de lei tramitou durante 4 anos no Congresso Nacional e teve como principal ponto de debate o percentual do PIB a ser destinado Educao.

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    Neste texto abordaremos especiicamente o debate em torno do inanciamento da educao bsica. Retoma-se a conjuntura de mobilizao e organizao dos movimentos em defesa da educao para identiicar nes-se processo os limites e alcances da participao democrtica no processo de elaborao de polticas pblicas.

    PolticAs PBlicAs, moBilizAo sociAl E As PolticAs PArA A EducAo BsicA

    Segundo Santos et al. (2007, p. 822), [...] nem tudo que o Estado produz tem carter verdadeiramente pblico, porm, consideran-do-se a utilizao de recursos pblicos, todas as aes com investimento de recursos pblicos, podem ser, generalizadamente, consideradas como polticas pblicas. Ao se analisar o pblico no seu aspecto mais sistmico, devemos deinir como pblicas as polticas que, de fato, reletem os inte-resses da sociedade como um todo.

    Considerando esses aspectos Teixeira (2002, apud SANTOS et al., 2007, p. 829) deine polticas pblicas:

    Polticas pblicas so diretrizes, princpios norteadores da ao do poder pblico; regras e procedimentos para as relaes entre poder pblico e sociedade, mediao entre atores da sociedade e do Estado. So esses casos, de polticas explicitadas, sistematizadas ou formuladas em documentos, que orientam aes que normalmente envolvem apli-caes de recursos pblicos [...] Devem ser consideradas tambm as no-aes, as omisses, como formas de manifestao de polticas, pois representam opes e orientaes dos que ocupam cargos.

    A maioria das polticas do Estado realiza, por outro lado, um as-pecto complementar, qual seja, assegurar as condies para expanso capi-talista e [...] mesmo quando as polticas so de cunho social voltadas para mostrar o aparato estatal, esto a servio do desenvolvimento capitalista. (SANTOS et al., 2007, p. 831). As polticas pblicas so elaboradas, por-tanto, para atender um restrito grupo de interesses. No existe uma preo-cupao em atender a sociedade como um todo, o pblico no pblico, e no h uma preocupao em mudar esse paradigma.

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    Para minimizar esse carter perverso das polticas pblicas, [...] o Estado tem praticado polticas compensatrias e assistencialistas. [...] as polticas sociais, alm de funcionarem como paliativo, contendo a ao da populao excluda, favorecem inanceiramente a classe dominante. (SANTOS et al., 2007, p. 832).

    Em relao educao, um marco referencial na elaborao das polticas recentes a promulgao da Lei n 9394/1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDBEN). No texto deste documento a educao bsica apresentada como um conceito novo, pois embora rea-irme a educao como um direito, tal qual preconizado no artigo XXVI da Declarao Universal dos Direitos do Homem, de 1948, a nova Lei deine a forma de organizao da educao nacional e institui a obrigatoriedade da educao infantil como responsabilidade do Estado, no nvel municipal de governo. Como direito, o princpio da educao pblica e de qualidade deve ser reconhecido e o primeiro passo para o reconhecimento do direito a inscrio em lei nacional. O contorno legal indica os direitos, os deve-res, as proibies, as possibilidades e os limites de atuao, enim: regras. (CURY, 2008, p. 246).

    Ao ser instituda legalmente, como regra, a ampliao da esco-larizao obrigatria por meio da incorporao da educao infantil e ex-panso do ensino fundamental, que passa a ser de 9 anos, a partir de 2009, legitima a mobilizao e organizao de segmentos da sociedade e movi-mentos sociais. A expanso da escolarizao obrigatria, resultado das ma-nifestaes sociais, desse modo, entendida como uma conquista cidad.

    Por outro lado, no sistema educacional brasileiro, as redes de en-sino pblicas (municipais, estaduais, federal) e privadas possuem autono-mia para decidir sobre a organizao do ensino, que podem ser em sries anuais, perodos semestrais, ciclos, alternncia regular de perodos de estu-dos, grupos no seriados, de acordo com o Art. 23 da LDBEN (BRASIL, 2007). A lei indica, tambm, que os estabelecimentos que utilizam a pro-gresso regular por srie podem adotar, no Ensino Fundamental, o regime de progresso continuada, eliminado, desse modo, a reprovao (2 do Art. 32, Lei 9394/1996). Institui-se desse modo, a diferenciao ao aces-so e permanncia na escola, o que nos permite concordar com Frauches e Fagundes (2007, p. 39) quando airma que o inciso I do art. 3 deine

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    igualdade de condies para o acesso e permanncia na escola traz uma ideia participativa e distributiva em sua concepo, contudo, demaggica em sua implementao, pois a igualdade de condies no pode ser obtida por fora de lei. Para ele, [...] somente poder ser obtida com o fortaleci-mento do ensino pblico em todos os seus nveis, onde os alunos da rede pblica podero concorrer com os alunos da rede particular.

    Por sua vez, Cury (2002, p. 47) airma que

    por essas razes que a importncia da lei no identiicada e reco-nhecida como um instrumento linear ou mecnico de realizao de direitos sociais. Ela acompanha o desenvolvimento contextuado da cidadania em todos os pases. A sua importncia nasce do carter con-traditrio que a acompanha: nela sempre reside uma dimenso de luta. Luta por inscries mais democrticas, por efetivaes mais realistas, contra descaracterizaes mutiladoras, por sonhos de justia. Todo o avano da educao escolar alm do ensino primrio foi fruto de lutas conduzidas por uma concepo democrtica da sociedade em que se postula ou a igualdade de oportunidades ou mesmo a igualdade de condies sociais.

    Assim para Cury (2008, p. 298), o status quo da escola existente at ento no atendia exigncia de elevao quantitativa e qualitativa des-ses novos padres da educao. Foi a LDB que captou esse esprito e o tra-duziu pelo conceito de educao bsica, conceito novo expresso em uma declarao de direito de todos a ser realizado em uma educao escolar que contivesse elementos comuns. De um lado, o combate desigualdade, discriminao e intolerncia, de outro lado, o apontamento da conduo da educao escolar pelo princpio, tambm novo, da gesto democrtica.

    Cury (2008, p. 295) diz que Este reconhecimento dentro de um Estado Democrtico de Direito, tem um longo caminho percorrido, des-de a instruo prpria das primeiras letras no Imprio, reservadas apenas aos cidados, da Constituio de 1934 que o torna obrigatrio e gratuito, chegamos ao direito pblico subjetivo. Do dever, dever de Estado, nas-cem obrigaes que devem ser respeitadas tanto da parte de quem tem a responsabilidade de efetiv-las, como os poderes constitudos, quanto da colaborao vinda da parte de outros sujeitos implicados nessas obrigaes (CURY, 2002).

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    finAnciAmEnto dA EducAo BsicA no BrAsil E o PlAno nAcionAl dE EducAo

    A maior parte dos recursos destinados ao inanciamento da edu-cao bsica proveniente do Fundo de Manuteno e Desenvolvimento da Educao Bsica e de Valorizao dos Proissionais da Educao Fundeb, criado pela Emenda Constitucional n 53/2006 e regulamentado pela Lei 11.494/2007. Este fundo substituiu o Fundo de Manuteno e Desenvolvimento do Ensino e de Valorizao do Magistrio (FUNDEF) criado pela Emenda Constitucional n 14 e regulamentado pela Lei n. 9.424/1996. O FUNDEF vigeu de janeiro de 1998 e a dezembro de 2006, enquanto o FUNDEB tem vigncia estabelecida para o perodo 2007 a 2020. Ambos foram institudos para otimizar a gesto e repasse dos recur-sos destinados ao inanciamento da educao, conforme determinado na LDBEN.

    As receitas estaduais vinculadas ao FUNDEB incluem o Fundo de Participao dos Estados (FPE), os recursos arrecadados com o Imposto sobre a Circulao de Mercadorias e Servios (ICMS), o Imposto sobre a Propriedade de Veculos Automotores (IPVA), a quota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI-Exp) e o Imposto sobre Transmisso Causa Mortis e Doao de Quaisquer Bens ou Direitos (ITCD). J as receitas municipais vinculadas so: Fundo de Participao dos Municpios (FPM), quota do ICMS, quota do IPVA, quota do Imposto Territorial Rural (ITR) e quota do IPI-Exp. (PINTO, 2007).

    Inspirado na orientao dos organismos internacionais de priori-zao do ensino fundamental, o FUNDEF, recebeu uma parte dos impos-tos que j eram vinculados Manuteno e Desenvolvimento do Ensino (MDE), antes da criao do Fundo, com base no nmero de matrculas no ensino fundamental regular das redes de ensino estadual e municipais. O principio bsico do FUNDEF era o de disponibilizar um valor anual mnimo nacional por matrcula no ensino fundamental, da rede munici-pal e estadual, de modo a possibilitar o que o governo federal alegou ser suiciente para um padro mnimo de qualidade, ainda no estabelecido.

    Para Davies (2006, p. 756) embora este fundo tenha sido uma iniciativa do governo federal, foi minscula e decrescente (em termos per-

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    centuais e reais) sua ajuda para os estados que sem a compensao inan-ceira prevista na Lei Complementar n 87/96, no conseguem alcanar o valor mnimo deinido por aluno.

    Pinto (2007) faz uma anlise dos valores do inanciamento da educao bsica por estados aps a implantao do FUNDEF e reconhece que houve uma signiicativa municipalizao da educao na dcada de 1990, sem que esse processo resultasse da consulta comunidade escolar. Os critrios de deciso que orientaram a tomada de deciso pelos governos estaduais foram essencialmente monetrios, tendo em vista a tentativa de maior participao nos recursos destinados educao bsica. Para o autor no houve uma preocupao com a qualidade do ensino no processo de municipalizao.

    Aps a Constituio de 1988 intensiica-se o processo de descen-tralizao das polticas pblicas, a LDBEN deine e amplia a educao b-sica e o Governo Federal estabelece mecanismos de composio de fundos de recursos destinados escola. Tendo essas polticas macro como pano de fundo possvel airmar que o processo de municipalizao resultado desse jogo de foras: de um lado os estados querendo reduzir o nmero de alunos no ensino fundamental e de outro os municpios querendo ampliar esse contingente, visando ampliao da capacidade de obteno de recur-sos destinados educao, por meio dos repasses estaduais e federais.

    Um dos problemas do processo de municipalizao identiicados por Pinto (2007) diz respeito alocao de professores efetivos que perten-ciam s redes estaduais e que icaram ociosos, devido s escolas terem sido municipalizadas. Muitas prefeituras municipais j haviam realizado con-cursos para a contratao de novos professores para as redes municipais. Em outros municpios, a inexistncia de concursos levava deinio de professores por processos obscuros, em funo do exerccio do poder local.

    Outra consequncia do processo de municipalizao que se rompeu o equilbrio entre alunos atendidos e capacidade inanceira dos municpios, que passaram a ter nmero de matrculas para o Ensino Fundamental bastante superior ao nmero de matrculas das redes esta-duais e federal, embora a receita lquida dos municpios seja inferior obtida pelos estados. Isso se acentua mais nos estados das regies Norte

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    e Nordeste que possuem municpios com pequena capacidade de arreca-dao e cuja receita municipal proveniente majoritariamente das trans-ferncias da Unio, pelo Fundo de Participao dos Municpios (FPM). Porque segundo Nicholas Davies (2006, p. 755),

    [...] o problema desses fundos, que se utiliza de apenas uma parte das receitas dos governos, como os impostos, e, no se baseiam nas neces-sidades de uma educao de qualidade, dado um percentual ixo e inlexvel dos impostos, como limite mximo e no mnimo dos im-postos, como se isso fosse suiciente para atender as necessidades edu-cacionais da populao.

    Disso resulta a dependncia dos municpios em relao aos repas-ses dos recursos do FUNDEB pelo governo estadual.

    O FUNDEF no atendia o Ensino Mdio, as creches e a EJA. Em 1997, foi criado o FUNDEB - Fundo de Manuteno e Desenvolvimento da Educao Bsica e de Valorizao dos Proissionais da Educao, pela Lei 11.494/97. O funcionamento do FUNDEB preserva essencialmen-te as mesmas caractersticas do FUNDEF. Parcelas ixas da arrecadao de estados e municpios so incorporadas ao fundo, que redistribui esses recursos de acordo com a proporo de matrculas nas redes estaduais e municipais de ensino pblico. As modalidades de ensino cobertas incluem a educao infantil (creche e pr-escola), o Ensino Fundamental, o Ensino Mdio, a Educao de Jovens e Adultos (EJA) e a Educao do Campo.

    O Fundeb tem a estratgia de distribuir os recursos provenientes da arrecadao dos impostos de natureza contbil e de mbito estadual, com vigncia, recursos inanceiro (composto de recursos dos prprios estados e municpios, complementados pela Unio), com o intuito de promover a incluso scio-educacional no mbito de toda a educao bsica propor-cionando uma elevao da distribuio dos investimentos em Educao. O FUNDEB tem como caracterstica distribuir recursos com base em n de alunos da Educao Bsica, matriculados nos respectivos mbitos de atuao prioritria, e considerando tambm as matrculas das entidades comunitria, confessionais ou ilantrpica sem ins lucrativos e convenia-dos com o poder pblico (Creche, Pr-Escola e Educao Especial), tendo a vigncia de 14 anos, a partir de 01/01/2007 at 31/12/2020. Os recursos

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    so utilizados nas modalidades regular, especial ou de jovens e adultos, com a durao de oito ou nove anos atendendo crianas, jovens e adultos localizados na zona rural, urbana, indgena ou quilombola.

    Os critrios legais para a aplicao da remunerao do magistrio, que o grupo de proissionais formado pelos professores e pelos proissio-nais que oferecem suporte pedaggico atividade docente, includas as de direo ou administrao escolar, planejamento, inspeo, superviso, orientao educacional e coordenao pedaggica de 60% e os 40% res-tantes dos recursos do FUNDEB quem pode receber so os proissionais da educao bsica que desenvolvem atividade de natureza tcnico-admi-nistrativa (com ou sem cargo de direo ou cheia) ou de apoio, como, por exemplo, a secretria da escola, auxiliar de administrao, auxiliar de ser-vios gerais, serventes, vigilante, merendeira, motorista de veculo escolar, videotecrio, bibliotecrio, nutricionista etc., lotados e em exerccio nas es-colas da educao bsica. Os objetivos a serem alcanados pelo FUNDEB so concorrer para a universalizao da educao bsica, promover a eqi-dade, melhorar a qualidade do ensino e Valorizar os proissionais da edu-cao (Criao do Piso Salarial Nacional).

    Segundo Pinto (2007) este fundo o mais importante, o FUNDEB, resgatou o conceito de educao bsica como um direito, nele esto includas as diferentes etapas e modalidades da educao bsica, a poltica adotada pelo FUNDEB o efeito Robin Hood, a reduo das desigualdades entre os estados da Federao na distribuio da verba, onde os municpios com maior receita de ICMS tendem a transferir recursos para aqueles de menor receita.

    Campos e Cruz (2009, p. 374) admitem que o FUNDEB no garante que os municpios com os piores indicadores educacionais pode-ro contar com um maior aporte de recursos. As estatsticas apontam que as melhores infra-estruturas educacionais no necessariamente esto asso-ciadas aos municpios com maior disponibilidade de recursos para serem investidos em educao via FUNDEB.

    A anlise dos valores estimado por aluno previstos para investi-mento pelo Fundo de Manuteno e Desenvolvimento da Educao Bsica e de valorizao dos Proissionais da Educao, no ano base de 2009, per-

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    mite airmar que no estado de So Paulo, gasta-se mais com a pr-escola do que com o ensino mdio. Comparando os dados para o Estado de So Paulo e Roraima, percebe-se que estava previsto um custo de R$ 2.489,35 por aluno, em creche integral e R$ 2.715,66, em prescola integral, sen-do que o Estado de So Paulo icava apenas atrs do estado de Roraima no custo por aluno para essas categorias. Em Roraima, o custo por aluno em 2009 era de R$ 3.179,09 para creche integral e R$ 3.468,10 para pr--escola integral. Apenas os estados do Norte e Nordeste necessitaram da complementao da Unio.

    A anlise dos dados por municpio paulista, a partir da tabela que apresenta o nmero de matrculas, em 2009, permite observar que em Ribeiro Preto, houve uma signiicativa procura por creches em tempo inte-gral, com 2.883 matrculas, sendo que da Educao Infantil a mais procurada foi a pr-escola parcial, com 12.263 matrculas concludas. (BRASIL, 2009) Ainda com base na tabela, percebemos que em 2009 no houve registro de matrculas para o Ensino Mdio, na cidade de Ribeiro Preto, um dado interessante, tendo em vista que o FUNDEB tem vigncia a partir de 2007.

    Para Davies (2006, p. 756) [...] apesar de prometer desenvolver o ensino fundamental e valorizar o magistrio, praticamente no trouxe recur-sos novos para o sistema educacional brasileiro como um todo, pois apenas redistribuiu, em mbito estadual, entre o governo estadual e os municipais.

    Conclumos que mesmo o governo mudando, ou fazendo outro fundo, no vai resolver o problema da educao, apenas est fazendo um paliativo, amenizando os nimos, porque a receita continua a mesma para atender a educao, no h um investimento verdadeiro, nem uma preo-cupao em mudar a educao, ela sempre colocada em segundo plano, quando vai haver cortes do oramento, corta-se o da educao, o interesse das polticas pblicas no est voltado para mudar este quadro, de tornar uma educao igualitria, de qualidade e que consiga atingir as metas de um pas educado, civilizado e respeitado.

    Alm do FUNDEB, o PDE, O salrio-educao e o FIES so inanciados pelo FNDE. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educao (FNDE) uma autarquia federal, vinculada ao Ministrio da Educao, que presta assistncia inanceira e tcnica s aes educacionais.

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    considErAEs finAis

    Este trabalho foi um importante avano para a nossa educao, pois podemos vislumbrar duas partes importantes de um mesmo assun-to, o que dizem os autores e o que dizem os gestores, sobre o que o FUNDEB e seu papel no inanciamento educacional, suas colaboraes, a quem atende, quais as vantagens e desvantagens do fundo, como se discute o investimento desta verba.

    Para a elaborao desse trabalho izemos uma pesquisa de campo, visitando Escolas Municipais e Estaduais da cidade de Ribeiro Preto-SP, com o intuito de enriquecer nossa pesquisa, entregamos aos gestores um questionrio com perguntas sobre como os recursos do FUNDEB chegam escola e como so administrados.

    rEfErnciAs

    BRASIL. Ministrio da Educao. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educao. 2007. Disponvel em: . Acesso em: 8 out. 2014.

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    PERNAMBUCO. Cartilha do FUNDEB Fundo de Manuteno e Desenvolvimento da Educao Bsica e de Valorizao dos Proissionais da Educao. Recife: Coordenadoria de Controle Externo, 2007. Disponvel em: . Acesso em: 12 abr. 2011.

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    PINTO, J. M. R. A poltica recente de fundos para o inanciamento da educao e seus efeitos no Pacto Federativo. Educao e Sociedade, Campinas, v. 28, n. 100, p. 877- 897, out. 2007. Nmero especial.

    SANTOS, R. S. et al. Compreendendo a natureza das polticas do estado capi-talista. Revista de Administrao Pblica, Rio de Janeiro, v. 41, n. 5, p. 819-834, set./out. 2007.

    SAVIANI, D. Histria das ideias pedaggicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007.

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    no fAlA grosso com A BolviA E no fAlA fino com os EUA: A PolticA ExtErnA

    BrAsilEirA no contExto dAs ElEiEs PrEsidEnciAis dE 2014

    Marcos Cordeiro Pires

    introduo

    A campanha presidencial de 2014 foi uma das mais disputadas desde o restabelecimento da democracia no Brasil, em 1989. De um lado se colocava Dilma Roussef, a candidata do Partido dos Trabalhadores e de uma grande coaliso que abrangia todo o espectro ideolgico do pas, desde esquerda com o PC do B, at direita, como o PP. Do lado da oposio, duas candidaturas polarizaram o voto mudancista: Acio Neves, numa coaliso de centro-direita encabeada pelo PSDB, e Marina Silva, abrigada no PSB e alada condio de candidata diante do acidente que vitimou Eduardo Campos, numa coaliso que mesclava elementos centris-tas e ambientalistas.

    Um tema que passou ao lado dos debates eleitorais foi a questo da poltica externa brasileira e o papel que o pas deveria exercer no contex-to das relaes internacionais. De fato, o tema tem pouco apelo eleitoral, mas a deinio sobre o alinhamento do pas na esfera internacional um fator muito importante que pode inluenciar decisivamente a poltica in-terna e as opes econmicas do pas. Por conta disso, em meio a este XIV FRUM DE ANLISE DE CONJUNTURA: Os rumos da poltica e

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    da economia brasileiras no ano das eleies, torna-se relevante a relexo sobre este tema to importante por suas implicaes ulteriores.

    Nesse sentido, este trabalho se divide em duas partes, alm desta introduo e das consideraes inais. Na primeira, discutiremos as carac-tersticas e logros da poltica externa dos governos de Lula e Dilma, parti-cularmente a articulao internacional com vistas a democratizar a ordem internacional, diversiicao dos mercados para artigos brasileiros e o for-talecimento das articulaes de peril Sul-Sul, destacando neste aspecto o Grupo dos BRICS. Na segunda parte, faremos algumas observaes sobre as propostas de poltica externa dos dois principais candidatos de oposio, Acio Neves e Marina Silva, que criticam uma suposta ideologizao da poltica externa atual e buscam uma maior aproximao com a nao he-gemnica e o bloco ocidental.

    1 A PolticA ExtErnA dos govErnos lulA E dilmA

    O ttulo deste trabalho uma referncia ao discurso do com-positor Chico Buarque de Holanda durante uma atividade da campanha eleitoral de Dilma Roussef, em outubro de 2010. Este grande intelectual carioca fazia referncia altivez da poltica externa brasileira, que no se submetera impensadamente poltica das naes hegemnicas e tampou-co adotara uma poltica arrogante com relao aos nossos vizinhos mais fracos.

    Antes de tudo, preciso ressaltar que, de forma geral, no hou-ve uma mudana signiicativa entre as polticas externas adotadas pelos governos Lula da Silva e Dilma Roussef. Em essncia, continuaram as tendncias j apontadas por Vigevani e Cepaluni em 2007, tal como segue:

    As mudanas percebidas na poltica externa do governo Lula da Silva tiveram algumas diretrizes: (1a) contribuir para a busca de maior equi-lbrio internacional, procurando atenuar o unilateralismo; (2a) forta-lecer relaes bilaterais e multilaterais de forma a aumentar o peso do pas nas negociaes polticas e econmicas internacionais; (3a) aden-sar relaes diplomticas no sentido de aproveitar as possibilidades de maior intercmbio econmico, inanceiro, tecnolgico, cultural etc.; e (4a) evitar acordos que possam comprometer a longo prazo o desen-volvimento. Essas diretrizes, ao longo do primeiro perodo de governo, de 2003 a 2006, provavelmente desdobrando-se no segundo perodo,

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    implicaram nfases precisas: (1a) aprofundamento da Comunidade Sul-americana de Naes (Casa); (2a) intensiicao das relaes entre pases emergentes como ndia, China, Rssia e frica do Sul; (3a) ao de destaque na Rodada Doha e na Organizao Mundial do Comrcio, assim como em algumas outras negociaes econmicas; (4a) manu-teno de relaes de amizade e desenvolvimento das relaes eco-nmicas com os pases ricos, inclusive com os Estados Unidos; (5a) retomada e estreitamento das relaes com os pases africanos; (6a) campanha pela reforma do Conselho de Segurana das Naes Unidas, visando um lugar de membro permanente para o Brasil; e (7a) defesa de objetivos sociais que permitiriam maior equilbrio entre Estados e populaes. (VIGEVANI; CEPALUNI, 2007, p. 291-292).

    Como tambm salientaram os autores, as diretrizes dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores reletem a disputa de correntes tradicionais da diplomacia brasileira, ora mais alinhadas s posies da potncia hegemnica, como no caso do governo Cardoso (1995-2002), ou mais autonomistas, do qual o governo Geisel (1974-1979) um caso exemplar.

    Nesse sentido, na busca por uma maior inluncia nos assuntos globais, o governo brasileiro tem buscado alavancar polticas que visem a reforma dos organismos globais de governana e, nesse sentido, tem esti-mulado a formao de coalises que buscam aumentar o poder de barga-nha dos pases em desenvolvimento. Isso no signiica que o pas deixou de ter uma relao forte com os pases industrializados, como Estados Unidos, Unio Europeia e Japo. Vale destacar que no perodo foram irmadas par-cerias estratgicas com a Unio Europeia (2007) e o Japo (2014), esta ltima, de abrangncia global, tal como o Brasil havia irmado com a China, em 2012.

    O reforo do discurso multilateralista brasileiro encontra respal-do em grupos informais, como o G-20 (ou G-77) no mbito da deinio de polticas comerciais na Organizao Mundial de Comercio (OMC); o Grupo IBAS (Brasil, ndia e frica do Sul), na perspectiva de cooperao Sul-Sul na rea de polticas pblicas; o BASIC (Brasil, frica do Sul, ndia e China), nos debates relacionados Mudana Climtica e ao Aquecimento Global; e os BRICS (Brasil, Rssia, ndia, China e frica do Sul), cuja

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    atuao abrange a coordenao de esforos para a reforma das instituies inanceiras internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetrio Internacional, discusso que ser retomada mais adiante. Decorrente dessa poltica, foi a eleio de dois brasileiros para importantes organismos in-ternacionais: Jos Graziano da Silva, para a FAO, e Roberto Azevedo, para a OMC.

    Alm dessa atuao em foros globais, a diplomacia brasileira nos governos de Lula da Silva e Dilma Roussef tem atuado no sentido de aprofundar a integrao regional, tanto em nvel sul-americano, como o MERCOSUL e a UNASUL, como tambm latino-americano, como a Conferncia de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Vale destacar a poltica de ampliao do MERCOSUL, como a incorporao da Venezuela ao bloco originalmente formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, como tambm os esforos de incluir formalmente Bolvia e Equador, que so estados associados ao bloco. J a UNASUL, tem se des-tacado como um mecanismo de coordenao para assuntos relacionados segurana e estabilidade poltica da regio. Tal organismo teve um im-portante papel em evitar um golpe de Estado na Bolvia, em 2008, e na busca de uma soluo negociada para um eventual conlito entre Equador e Colmbia, tambm em 2008, aps o ataque colombiano ao territrio do Equador que vitimou uma base das Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (FARC).

    Ainda na questo regional, tambm relevante destacar o papel exercido pelo Brasil, especiicamente por meio do BNDES, na criao de uma infraestrutura comum na Amrica do Sul, cujas aes so coordenadas pela Iniciativa para a Integrao da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), notadamente pela construo de corredores bi-ocenicos que in-tegram o extremo oeste do Brasil aos portos peruanos e chilenos, reduzin-do custos de transporte para atingir os mercados asiticos.

    Destaca-se ainda a aproximao do Brasil com os pases africanos e rabes, incentivando parcerias de peril Sul-Sul, em reas como sade, assistncia tcnica agrcola, comercial, educacional, entre outras.

    Um dos feitos da poltica externa em questo foi a diversiicao de parceiros comerciais e a diminuio da dependncia do Brasil dos mer-

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    cados tradicionais dos pases industrializados. Conforme descreve a tabela 1, o peso dos pases industrializados nas exportaes brasileiras (EUA + EU) era de 58,3%, diminuindo para 31.2% em 2012. Em contrapartida, a participao da Amrica Latina e da sia teve desempenho contrrio, saltando de 28,6%, em 1990, para 51,7%, em 2012.

    Tabela 1 - Brasil exportaes blocos selecionados 1990-2012

    ANOAmrica

    Latina EUA Unio Europeia sia

    1990 11,8% 24,6% 33,7% 16,8%

    1995 23,1% 18,9% 28,8% 17,6%

    2000 25,3% 24,3% 27,8% 11,5%

    2005 25,5% 19,2% 22,8% 15,7%

    2010 23,8% 9,6% 21,4% 27,9%

    2012 20,8% 11,1% 20,1% 31,1%

    Fonte: BRASIL, MDIC, 2015.

    A imPortnciA do gruPo dos Brics

    Uma das aes da diplomacia do governo Lula da Silva, im-plementada pelo ex-Chanceler Celso Amorim, e continuada no governo Dilma Roussef, foi a criao do Grupo dos BRICS, como uma nova for-ma de articulao dos pases em desenvolvimento. Por conta disso, reto-mamos a esta discusso por sua importncia estratgica para o Brasil e pela possibilidade de continuidade dessa iniciativa no segundo governo de Dilma Roussef.

    Vale destacar que o processo de globalizao reorganizou espa-cialmente a economia mundial, incorporando aos processos produtivos parte expressiva dos pases em desenvolvimento, principalmente a China. Esta, durante a dcada de 2000, se tornou a principal potncia industrial

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    do mundo, alm de ser o maior ator no comrcio internacional e ainda suplantar o Japo como segunda maior economia.

    Por outro lado, o im da Guerra-Fria fez com que novos pases in-tegrassem a economia mundial sob a hegemonia dos EUA, como foram os casos da Rssia (ex-URSS) e a ndia, que adotavam uma estratgia prpria de desenvolvimento fora do circuito capitalista internacional. O Brasil, a partir de 1990, tambm se viu forado a ingressar na globalizao ao abrir seu mercado de bens e de capitais, tornando-se um espao a mais para a valorizao do capital. De forma similar, quando a frica do Sul superava o apartheid, em 1994, os dirigentes do Congresso Nacional Africano (CNA) se viram compelidos a adotar o modelo econmico neoliberal para garantir estabilidade internacional para o governo da maioria negra. Em sntese, no perodo de 1980 a 2000, foram incorporados ao mercado mundial um contingente de quase trs bilhes de pessoas, grande parte delas oriundas dos pases dos BRICS.

    A entrada desses atores na economia internacional vem contri-buindo para a modiicao da geopoltica e da economia do mundo. Em 1960, os pases ricos detinham 75% do PIB mundial. Em 2010, haviam cado para 55% e, em 2017, se projeta que os pases em desenvolvimento atinjam mais da metade do produto e do comrcio mundiais. Apenas a China possui atualmente em torno de US$3,6 trilhes em reservas inter-nacionais, das quais US$ 1 trilho, aproximadamente, em ttulos da dvida dos Estados Unidos. Mesmo o Brasil, que outrora foi devedor do FMI, um dos principais detentores de ttulos do Tesouro dos Estados Unidos, fato que merece destaque.

    Por conta desse peso econmico ascendente, e apesar das enormes diferenas que caracterizam os BRICS, os governantes dos pases se organi-zam para reformar os rgos de governana global, cuja diviso de poderes est desbalanceada, no reletindo a nova conigurao poltica do mundo e desconsiderando as transformaes estruturais que vem ocorrendo na cena internacional.

    De forma geral, durante as cinco primeiras cpulas dos BRICS, nos comunicados emitidos entre 2009 e 2013, nota-se a preocupao com a recuperao da economia mundial, o pleito de democratizao das

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    Instituies Financeiras (FMI e Banco Mundial), a defesa da autodeter-minao dos Estados e no interferncia em assuntos internos aos pases e ainda na cooperao entre os pases membros do Grupo e outros pases em desenvolvimento. Apesar do teor genrico, os pases dos BRICS tm mostrado unidade em relao a temas controversos na agenda internacio-nal, como a condenao dos ataques da OTAN Lbia ou ainda a uma possvel interveno militar estrangeira no conlito srio. Especiicamente no comunicado de-hekwini (Durban, frica do Sul), em maro de 2013, dois aspectos chamaram ateno: (a) a perspectiva de institucionalizao dos BRICS, no sentido de dar organicidade ao; (b) a possibilidade de criao de um banco de fomento conjunto para auxiliar o desenvolvimen-to dos pases membros e tambm de outros pases em desenvolvimento (BRICS, 2013). De forma prtica, destaca-se o fato de que os BRICS con-seguiram articular os pases em desenvolvimento para eleger o brasileiro Roberto Azevedo como Diretor-Geral da OMC, contra a candidatura me-xicana apoiada pelos pases desenvolvidos.

    Na cpula dos BRICS, realizada no Brasil em julho de 2014, os lderes do grupo comearam a materializar as intenes anunciadas ante-riormente. Exemplo disso foi a oicializao da criao do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), para apoiar projetos dos pases do bloco e outras naes em desenvolvimento e a criao de um Fundo de Contingncia para auxiliar os pases dos BRICS em crises de balano de pagamentos. Tais medidas foram uma resposta letargia dos pases ricos em implementar a deciso da Cpula do G20 de Seul de 2010, que j havia determinado a rediviso das cotas do FMI, e tambm incapacidade e/ou desinteresse do Banco Mundial em patrocinar projetos de infraestrutura nos pases em desenvolvimento.

    O capital inicial do NBD ser de US$ 50 bilhes, onde cada pas aportar US$10 bilhes. Ficou deinido que a sede do banco ser em Xangai e que o primeiro presidente ser um indiano. A direo do BND ser rotativa, com mandato de cinco anos para cada pas. J o Fundo de Contingncia contar com o montante de US$ 100 bilhes, sendo que a China aportar US$41 bilhes, frica do Sul US$5 bilhes e os US$ 54 bilhes restantes sero aportados em cotas iguais por Brasil, Rssia e ndia.

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    Comparando-se os volumes em questo com aqueles concen-trados pelo FMI e pelo Banco Mundial, as duas instituies parecem ser modestas. No correto airmar que as aes dos BRICS iro ofuscar ou substituir as atuais instituies multilaterais. No entanto, o signiicado extremamente impactante, j que se abre uma janela de oportunidade para os pases em desenvolvimento criarem mecanismos de cooperao para fugir das duras condicionalidades impostas pelas Instituies de Bretton Woods. Pases como o Brasil e outros da Amrica Latina sabem o quanto tiveram seu processo de crescimento bloqueado pelas polticas restritivas impostas pelo chamado Consenso de Washington. Na Europa, hoje em dia, as naes em crise apresentam nveis insuportveis de desemprego por conta de aes similares da Trade: Banco Central Europeu, Comisso Europeia e FMI.

    As medidas anunciadas em julho de 2014 representam um di-visor de guas nas relaes internacionais. Basta lembrar que apenas h 70 anos a ndia era colnia britnica e a China era uma semicolnia do Ocidente. O Brasil era um dos pases mais atrasados da Amrica do Sul e a frica do Sul era dominada por uma minoria branca. S a Rssia desceu de status, mas est novamente se reairmando como grande potncia.

    Por sua perspectiva promissora, a atuao do Brasil junto ao Grupo dos BRICS no deveria ser encarada apenas como uma politica de governo, mas como de Estado, dada a sua importncia para o posiciona-mento do pas no cenrio global. No entanto, para setores da oposio, esta poltica mais um relexo da ideologizao da poltica externa brasi-leira levada pelo governo do PT. o que discutiremos a seguir.

    2 A EssnciA dA PlAtAformA dE PolticA ExtErnA dA oPosio

    A oposio aos governos liderados pelo PT, desde 2003, foi capi-taneada pelo PSDB. Desde ento, os ex-diplomatas prximos desta agre-miao trataram de indicar que o governo Lula ideologizou a poltica externa do pas ao submeter as prioridades do Itamarati s linhas pol-ticas do PT. De certa forma, tal viso tambm majoritria no prprio Ministrio de Relaes Exteriores, onde o vis liberal sempre foi hegem-nico. Adiciona-se a isso a indicao de um nome externa coporis, como

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    o caso do Prof. Marco Aurlio Garcia como assessor especial de assuntos internacionais, ligado diretamente ao Palcio do Planalto. Veja-se a seguir a crtica do ex-embaixador Rubens Barbosa, responsvel pela coordenao do programa de poltica externa do ento candidato Acio Neves:

    A partidarizao da poltica externa icou ntida desde o inicio do pri-meiro mandato de Lula e a inluncia do Partido dos Trabalhadores no processo decisrio do Itamaraty foi perceptvel. O primeiro sinal disso foi a nomeao de Marco Aurlio Garcia, do PT, para o cargo de Assessor Internacional, que at ento sempre havia sido ocupado por um diplomata. J em maro de 2003, o ministro das Relaes Exteriores Celso Amorim indicava essa partidarizao ao observar em discurso que em todo o processo de mudana de governo, de mu-dana de orientao poltica, em muitos aspectos, temos que levar em conta duas situaes: primeiro, uma natural ainidade das pessoas com a orientao poltica do governo, do presidente da repblica, do mi-nistro de estado, e tambm, naturalmente, a competncia proissional. Somos um corpo proissional por excelncia, mas que deve estar entu-siasticamente engajado com certas linhas polticas, com certas orienta-es. O crescimento da inluncia do partido culminou com a iliao de Amorim ao PT nos ltimos meses de 2009, gesto indito entre os diplomatas que foram ministros do exterior para a execuo de uma poltica de estado, e no apenas de um partido. (BARBOSA, 2015).

    interessante notar que no tom da crtica se acentua o carter ideolgico da gesto dos governos liderados pelo PT. Como se sabe, a ideologia professada por qualquer indivduo ou grupo se assemelha para ele como coisa natural, assim como o ar que se respira ou a gua que se bebe. bem parecido com sotaque, j que acreditamos que no temos ne-nhum vcio ou igura de linguagem e que o sotaque ou o regionalismo na lngua so coisas praticadas por outros. Cabe a pergunta: em qual aspecto da vida social a ideologia no se manifesta? O liberalismo, por acaso, no uma ideologia social fortemente enraizada nas instituies brasileiras? As polticas liberais, ao serem aplicadas pelos representantes do tradicio-nal establishment poltico, de to enraizadas, parecem ser naturais. Numa democracia, ao menos em tese, a poltica do governo deve manifestar a opo majoritria dos eleitores. Seria estranho que um partido socialde-mocrata como o PT reproduzisse a estratgia liberal adotada pelo governo do PSDB.

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    Tal postura, penso, impede a leitura isenta dos logros da diploma-cia brasileira no perodo de 2003 a 2014. A avaliao da poltica externa feita pelo ex-Chanceler Luiz Felipe Lampreia, em 2011, desconsiderou o perodo em que o Brasil gozou de maior prestgio internacional em dca-das. Vejamos sua avaliao:

    De todas as heranas boas e ms que o atual governo recebeu, a poltica externa uma das mais negativas. O elenco dos erros longo e inclui, principalmente:

    1. a fracassada tentativa de envolvimento diplomtico na querela so-bre armas nucleares do Ir com as grandes potncias, que terminou levando a uma contundente derrota por 12 a 2 no Conselho de Segurana da ONU e abalou o prestgio internacional do Brasil, naquilo que ter sido o mais grave erro em toda a histria de nossa poltica externa;

    2. a absteno em resolues da ONU que condenavam violaes gritantes de direitos humanos no Ir, no Sudo e em outros regi-mes ditatoriais, o que representou um srio afastamento do Brasil de sua tradicional posio na matria;

    3. a defesa incondicional do regime cubano, inclusive de sua poltica repressiva, com manifestaes do presidente Lula em Havana no sentido de que os dissidentes em greve de fome eram comparveis a criminosos comuns;

    4. a quixotesca tentativa de desempenhar o papel de mediador entre israelenses e palestinos, que nem chegou a comear por total falta de credibilidade;

    5. as sucessivas derrotas de candidaturas brasileiras ou apoiadas pela nossa diplomacia em disputas por cargos relevantes em r-gos internacionais, como na Unesco, no Banco Interamericano de Desenvolvimento, na Organizao Mundial do Comrcio (OMC) e em muitos outros;

    6. a nacionalizao da Petrobras pelo governo boliviano, que resul-tou na perda de um investimento de mais de US$ 1,5 bilho;

    7. a atuao diplomtica muito discreta do Brasil em situaes ten-sas e conlitivas na Amrica do Sul, como entre a Colmbia e a Venezuela, o Peru e o Chile, ou entre o Uruguai e a Argentina, por exemplo, o que signiicou um dicit comentado por diversos lde-res, como a ex-presidente Michelle Bachelet, do Chile, e debilita a liderana brasileira na regio.

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    No desejvel frequentar Ahmadinejad, os ditadores do Cazaquisto e da Guin Equatorial, mandar um embaixador para a Coreia do Norte, fazer gestos positivos para o ditador do Sudo. So iniciativas gratuitas que nos tiram credibilidade. Este balano negativo fez com que a poltica externa se tornasse muito polmica no Brasil. (LAMPREIA, 2011).

    Tendo esses pressupostos em tela, a plataforma de poltica exte-rior da oposio, incluindo neste caso a candidatura de Marina Silva, se pautou por descredenciar a poltica externa dos governos de Lula da Silva e Dilma Roussef, e atacar os pilares da poltica que privilegiou uma abor-dagem multilateralista e de peril Sul-Sul. Durante os debates, no foram poucas as menes lexibilizao do Mercosul e aproximao com os pases da Aliana do Pacico ou ainda o estabelecimento de acordos bi-laterais com Unio Europeia e Estados Unidos. Na pratica, a adoo de tais medidas signiicaria abandonar o projeto de integrao autnoma da Amrica do Sul e recriar o falecido projeto da ALCA.

    Tambm se tratou de discutir condicionalidades polticas supos-tamente baseadas em princpios, algo que nenhum pas do mundo o faz, visto que no se pode pensar a complexidade da cena internacional com apenas uma nica rgua. Temos muito o que aprender com a diplomacia dos Estados Unidos: enquanto lideram uma cruzada democrtica em di-versas partes do globo, jamais colocou em questo a importncia estrat-gica no Oriente Mdio do Reino da Arbia Saudita, ao alegar problemas de direitos humanos naquele pas. Vale dizer, que a Arbia Saudita o pas mais radical na aplicao da charia em sua estrutura jurdica e tambm onde os direitos humanos e os direitos femininos so submetidos aos desgnios de um governo absolutista e totalitrio. Exigir que a diplomacia brasileira agisse com vis doutrinrio hipocrisia, ainda mais num mundo onde as alianas e parcerias so cada vez mais marcadas pelo pragmatismo.

    claro que ao formular tal juzo, a oposio buscava bombardear espaos importantes como Grupo dos BRICS, cuja importncia estratgi-ca ressaltou-se anteriormente. Nesse sentido, impossvel no considerar que as candidaturas de Marina Silva e Acio Neves estivessem a servio de interesses contrrios a um projeto de nao soberana e inluente, tal como almeja o Brasil.

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    Veja a seguir a posio da candidatura de Marina Silva a respeito da poltica externa:

    Um dos coordenadores do programa da candidata Marina Silva, Mauricio Rands, disse em entrevista para a Agncia Efe que seu governo faria correes na poltica externa brasileira, com uma lexibilizao do Mercosul e um relanamento das conversas com os Estados Unidos. O Estados Unidos de (Barack) Obama ter muita ainidade com o Brasil de Marina Silva, previu. (OBAMA..., EXAME, 18/09/2014).

    O carter amigvel das candidaturas de Acio e Marina foi res-saltado por um veculo de posies extremamente conservadoras, como o Miami Herald, de onde extramos os seguintes trechos:

    Cardoso supports another opposition candidate, Acio Neves. But the former president says that if Neves doesnt make it to the second round, he would support Silva. Yes, I think there would be changes if Silva wins, Cardoso told me. he oppositions victory would mean a kind of rupture in Brazils foreign policy, especially in regards to South America. (OPPENHEIMER, 2014).

    [...]

    If Silva were to win a surprise victory, she would have a mandate to lib-eralize the Brazilian economy, expand trade with the United States and Europe, and reform traditional politics. Last year, south Florida did over $20 billion in two-way trade with Brazil a number that will like-ly increase if that South American giant can pull itself out of recession. (NORIEGA, 2014).

    De acordo com o jornal O Estado de So Paulo (2014), uma even-tual vitria do candidato Acio Neves signiicaria um giro no rumo da diplomacia brasileira, tal como segue:

    Um giro na poltica externa brasileira est desenhado para a hiptese de vitria de Acio Neves (PSDB) no dia 26. O plano tucano prev a abertura do Pas a negociaes comerciais, com ou sem Mercosul, sem discriminar parceiros, a defesa de acordos plurilaterais na Organizao Mundial do Comrcio (OMC), a superao do impasse nas relaes com os EUA e uma reviso na relao com os vizinhos bolivarianos quando interesses de empresas brasileiras estiverem em jogo [...] Haver uma tentativa de tirar o que Barbosa considera uma carga de ideologia de organismos regionais criados nos ltimos 12 anos em especial a

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    Unio de Naes Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). (DOIS..., O ESTADO DE SO PAULO, 2014).

    Novamente nos deparamos com o suposto problema da ideo-logizao e o preconceito com relao aos pases latino-americanos que buscam uma via mais autnoma para seu desenvolvimento, da o termo bolivarianismo como adjetivo pejorativo.

    considErAEs finAis

    Apesar de a discusso deste artigo ter sido feita num frum de anlise de conjuntura, em setembro de 2014, s vsperas do primeiro tur-no das eleies presidenciais, a sua elaborao ocorreu depois da conirma-o da vitria de Dilma Roussef no segundo turno, realizado em 26 de outubro.

    Tal como podemos veriicar, uma eventual vitria das candidatu-ras dos partidos de oposio poderia signiicar uma mudana de 180 graus no rumo da diplomacia brasileira, de tal forma que as prioridades do Pas poderiam se deslocar do fortalecimento das relaes Sul-Sul para uma nova forma de dependncia no eixo Norte-Sul.

    Tal situao no ocorreu. Desde ento, a conjuntura internacio-nal se modiicou e muito do preconceito ideolgico dos partidos oposicio-nistas caiu por terra com o anncio da normalizao das relaes diplo-mticas entre Estados Unidos e Cuba, o que desacreditou parte do rano anacrnico do anticomunismo implcito no discurso anti-bolivariano. A conferncia China-CELAC, que reuniu ministros de relaes exteriores latino-americanos com as autoridades chinesas serviu para reforar os ob-jetivos estratgicos de parcerias Sul-Sul, e conferir ao Brasil um papel des-tacado na criao de uma nova ordem multilateral.

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    rEfErnciAs

    BARBOSA, Rubens. Poltica externa de dois governos. 2015. Disponvel em: . Acesso em: 20 jan. 2015.

    BRASIL. Ministrio do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior. Intercmbio comercial brasileiro: Pases e Blocos Econmicos. 2015. Disponvel em: . Acesso em: 22 jan. 2015.

    DOIS rumos para o Itamaraty em jogo nas eleies presidenciais. O Estado de So Paulo, So Paulo, 1 out. 2014. Disponvel em: . Acesso em: 20 jan. 2015.

    LAMPREIA, Luiz Felipe. Agenda para a Poltica Externa no Governo Dilma. Revista Interesse Nacional, ano 4, n. 13, abr./jun. 2011. Disponvel em: . Acesso em: 20 jan. 2015.

    NORIEGA, R. Can Marina Silva shock the status quo? . Miami Herald, 17 set. 2014. Disponvel em: < http://www.miamiherald.com/opinion/op-ed/arti-cle2143750.html>. Acesso em: 20 jan. 2015.

    OBAMA ter ainidade com Marina, diz coordenador. Exame, 18 set. 2014. Disponvel em: . Acesso em: 20 jan. 2014.

    OPPENHEIMER, A. Brazilian election could help end countrys paralysis. Miami Herald, 18 set. 2014. Disponvel em: . Acesso em: 20 jan. 2015.

    VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A Poltica Externa de Lula da Silva: a estratgia da autonomia pela diversiicao. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 29, n. 2, p. 273-335, jul./dez. 2007.

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    A PolticA ExtErnA do govErno dilmA roussEf: umA BrEvssimA AvAliAo

    Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos

    O objetivo deste texto a proposio de uma brevssima avalia-o da poltica externa do primeiro mandato da Presidente Dilma Roussef, orientada pelo esboo de algumas respostas a problemas norteadores. Tais respostas tm apenas um cunho inicial de relexo e orientaro pontos a serem aprofundados em futuras pesquisas. As questes norteadoras do en-saio so:

    a) Como resumir tal poltica e identiicar suas continuidades, particulari-dades a partir de uma perspectiva crtica e gramsciana?

    b) Qual o carter de tal poltica externa: hegemnica, imperialista, subim-perialista ou alguma(s) destas possibilidades ou nenhuma delas?

    O texto seguir as seguintes etapas: um primeiro item com uma brevssima cronologia e uma sumria descrio dos principais fatos de tal poltica. Em seguida, uma anlise a partir dos referenciais adotados, bus-cando identiicar a poltica externa brasileira referida nos marcos da cate-goria gramsciana de hegemonia e em aspectos relacionados a referenciais marxistas. Por im, consideraes inais com o resumo dos principais argu-mentos e a proposio de indagaes para futuras investigaes.

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    A hiptese central deste texto a seguinte: a poltica externa bra-sileira segue uma linha de continuidades e outra de descontinuidades em relao a governos anteriores em consonncia com uma dependncia do capital internacional com uma hegemonia regional incompleta na acepo gramsciana do termo, que se coaduna com a perspectiva subimperialista tal como deinida por Ruy Mauro Marini.

    1 BrEvssimA cronologiA

    O incio de 2011 foi pautado pela interveno da OTAN com bombardeios na Lbia em favor dos rebeldes contrrios ao governo de Muamar Khadai. A posio brasileira no Conselho de Segurana da ONU foi de absteno frente a uma posio majoritria do mesmo em favor da interveno. Em linha poltica semelhante, se absteve no mesmo Conselho no tocante ao tema dos Direitos Humanos no Ir no mesmo ano.

    Em Agosto de 2013 houve a substituio de Antonio Patriota por Luiz Alberto Figueiredo Machado, tendo como piv a crise diplom-tica envolvendo o senador boliviano Roger Pinto Molina, abrigado den-tro da embaixada brasileira e escoltado revelia at entrada em territrio brasileiro.

    Em meados de Setembro do mesmo ano, veio a pblico a de-nncia atravs de vazamento de documentos secretos sobre a recorrente sistemtica prtica de espionagem norte-americana, visando inclusive a prpria presidente. Dilma tomou, ento, a iniciativa de cancelar a viagem aos Estados Unidos, ainda que o protocolo diplomtico norte-americano tentasse amenizar e apaziguar os nimos.

    Mais um fato que corrobora uma tendncia geral de certo afas-tamento do Brasil em relao ao grande gigante do Norte, a ser abordada brevemente abaixo. Ao mesmo tempo, refora uma particularidade do go-verno de Dilma no que refere a sua poltica exterior, ponto tambm a ser explicitado mais adiante.

  • 87

    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    2 continuidAdEs

    Parafraseando Raymond Aron (1986, p. 134), a poltica externa de um Estado e suas classes e elites relevantes possui objetivos histricos. Sendo as Malvinas no caso argentino, a sada martima no exemplo bolivia-no, a Alscia-Lorena na particularidade francesa, o reconhecimento entre os grandes se reveste de tal im no que concerne ao Brasil. Tem sido o caso desde a busca de aceitao no Conselho da Liga das Naes1. Continuando pela articulao do chanceler Oswaldo Aranha sob o governo Getlio Vargas, no Estado Novo e da vontade temporria do ento presidente estadunidense Roosevelt para que o Brasil fosse membro permanente do Conselho de Segurana da nascente Organizao das Naes Unidas em 1944 (GARCIA, 2011, p. 102). Passou a ter roupagem diferente o dis-curso oicial brasileiro como Brasil-potncia e potncia emergente nos anos 1970 nos governos Mdici e Geisel.

    Nos anos que se seguiram redemocratizao inaugurada em 1985 durante o governo Sarney, a tnica foi a busca do assento permanen-te em eventual reforma do Conselho de Segurana da ONU.

    Desde ento, o objetivo histrico de busca por reconhecimento se manifesta com maior ou menor nfase em torno de tal mote.

    No que concerne a pontos em comum entre Dilma e Lula, o assessor especial para assuntos internacionais, Marco Aurlio Garcia, foi mantido. A meta do reconhecimento em questo ocupou algum espao no governo de Dilma, embora sem a nfase da gesto de Lula (FERREIRA, 2014). Ainda assim, tal meta prescinde de bases slidas para sua consecu-o. O tema da liderana e potncia brasileira recorrente nas falas de go-vernantes e diplomatas estrangeiros. Tal fato parece embriagar nosso corpo diplomtico. Uma advertncia relevante sobre tal aspecto j foi enunciada h dcadas por Gramsci (2000, p. 86) da seguinte forma:

    Um tal Estado s considerado grande potncia nos papis diplom-ticos, mas, na realidade, considerado como um provvel fornecedor de homens para a coalizo que dispe dos meios no s para sustentar as prprias foras militares, mas tambm para inanciar aquelas dos outros aliados [...]

    1 Sobre a busca de reconhecimento com a incluso no Conselho da Liga das Naes, consultar Garcia (2000).

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    A linha de um Estado hegemnico (isto , de uma grande potncia) no oscila, j que ele mesmo determina a vontade dos outros e no determinado por esta, j que a linha poltica baseia-se no que h de permanente, e no de casual e imediato, bem como nos prprios in-teresses e naqueles das outras foras que concorrem de modo decisivo para formar um sistema e um equilbrio.

    Some-se a isto a oposio argentina a tal pleito e a necessidade de uma emenda Carta da ONU, o que demandaria uma maioria de dois ter-os da Assembleia Geral, ponto muito difcil de ser alcanado. Tal enorme diiculdade avaliao compartilhada pelo Secretrio-Geral Adjunto da ONU, homas Steltzer, conforme sua prpria fala em visita ao Brasil na cidade de Belm (BRASIL..., FOLHA DE S. PAULO, 2013). Ademais, as posies de outros pleiteantes ao assento permanente no referido Conselho juntamente com o Brasil - Alemanha, ndia - no coincidem em vrios pontos (CONSELHO..., FOLHA DE S. PAULO, 2010).

    A pretenso de grande e os limites tpicos do discurso diplom-tico com ar de signiicativa contribuio para a soluo de conlitos em nvel internacional talvez tenha sido negada somente quando da crueza do embaixador israelense ao chamar a diplomacia nacional de nanico di-plomtico, por ocasio da condenao da ao israelense de retaliar com desproporcional uso da fora o lanamento de msseis do grupo palesti-no. Hamas sobre Israel (INTERNACIONAL..., VEJA, 2014).

    Em linhas gerais no tocante s continuidades, o Brasil possui rele-vantes contatos e pontos polticos, diplomticos e econmicos em comum com os Estados Unidos. Todavia, a poltica exterior ainda segue, em li-nhas gerais, um certo distanciamento que a pauta desde os anos 1970 com uma guinada inaugurada no mandato do ento presidente Ernesto Geisel - ocorrido entre 1974 e 1979.

    Conforme j tratou Florestan Fernandes (2006), o processo his-trico de criao de uma ordem social competitiva no Brasil nos anos 1930 foi marcado por uma composio de novos e antigos estratos com uma clara aceitao de associao dos mesmos ao imperialismo estrangeiro. A poltica externa brasileira segue tal diretiva desde ento, mas com algumas variaes, como aquelas apontadas acima no caso dos anos 1970.

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    A conjuntura econmica e poltica

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    No plano regional e com os pases do Sul, a linha de continuidade de Lula e Dilma aprofunda uma tendncia tambm observada em gover-nos anteriores. Como j observou Ruy Mauro Marini (2012), a dinmica subimperialista observada a partir dos anos 1970 coloca em termos um pouco distintos a avaliao estrutural de dependncia capitalista e da he-gemonia norte-americana na perspectiva das temporalidades2 econmicas e polticas do imperialismo clssico preconizado por Lnin (2011). No se trata pura e simplesmente da dicotomia centro-periferia em lgica res-pectivamente exportadora-importadora e fornecedora de matrias primas e industrializao. A relevncia da magnitude da economia brasileira na sua diversiicao, industrializao e capacidade exportadora (por oposio ao peril do vizinho argentino) e sem o eclipse norte-americano no caso mexicano, tornaram o Brasil uma potncia ou polo mdio do capitalismo global de tipo subimperial.

    Neste sentido, os mandatos de Lula e Dilma criaram as condi-es para o investimento de maior volume j registrado de capitais das empresas transnacionais brasileiras associadas com o capital estrangeiro no exterior (MURUA, 2013). Este sentido dos ainda limitados processos de integrao econmica e criao de cadeias produtivas no mbito do MERCOSUL. Airmo limitados uma vez que no segue as mesmas tem-poralidades de integrao econmica da Unio Europeia, mais aceleradas e liberalizadas em seu todo.

    3 PArticulAridAdEs

    A festejada presena brasileira em setores da sociedade civil e da imprensa como partcipe na soluo de controvrsias e em questes deli-cadas da segurana internacional como o imbrglio nuclear envolvendo Estados Unidos e Ir - duranteo governo Lula alimentou a j referida viso mope de muitos setores governamentais e diplomticos sobre a grandeza nacional e sua capacidade de contribuir de modo a integrar futuramente e de modo permanente o Conselho de Segurana da ONU.

    Todavia, na gesto de Dilma, a nfase no foi a poltica externa nem as viagens internacionais como na gesto anterior. H que se lem-

    2 Processos de transformao, de mudana.

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    brar, contrariamente ao senso comum, que a visita em demasia a pases do exterior no signiica necessariamente um carter assertivo de nossa poltica exterior. Como bem lembrou o Professor Clodoaldo Bueno, no se coaduna com uma diplomacia de liderana ou de direo as constantes visitas a pases estrangeiros e sim o inverso. As negociaes em condies favorveis, em muitas ocasies, s podem ocorrer em solo ptrio. O ritual diplomtico, neste aspecto, no confere uma caracterstica de liderana ao pas visitante, como se conigurou o caso do Brasil, ou as iniciativas de Lula no tocante poltica externa brasileira.

    No sentido das diferenas entre as gestes Dilma e Lula, a anlise de Oliveiros Ferreira (2014) d a seguinte notcia:

    A nfase da gesto de Dilma na poltica exterior e na busca do reconhe-cimento como grande externada na bandeira do assento permanente no Conselho de Segurana da ONU no existiu como foi o caso com seu predecessor. O Brasil no se fez presente em vrias conferncias diplomticas relevantes e a presidente no fez muitas viagens ao exte-rior. Conforme Oliveiros Ferreira ao avaliar a ausncia em uma de tais conferncias (Genebra 2) atesta a particularidade da gesto de Dilma:

    A escolha entre enviar o Chanceler Conferncia Genebra-2 e lev-lo a Davos como assessor consagrou a mudana de Norte, a Presidente da Repblica pouco importncia dando reao dos grandes presentes em Montreux - especialmente da Rssia, que se empenhara para que o Brasil estivesse presente reunio, difcil, mas necessria, e da pr-pria ONU. Um menestrel diria que o corao de Dilma balanou entre Montreux e Davos - e ela preferiu a platia dos que podem investir no Brasil daqueles que, antes, os Governos pretendiam conquistar para que o Brasil fosse reconhecido como ator de importncia no novo quadro internacional.

    Tal oscilao de peril de nossa poltica exterior depe contra uma linha hegemnica e de liderana de nossa poltica externa, como nor-malmente apregoado. O ponto em questo aqui no a apologia de uma linha imperialista, dominadora ou hegemnica do Brasil em sua postura externa. Apenas dirimir certas avaliaes ufanistas sobre tendncias gerais das relaes exteriores brasileiras.

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    A conjuntura econmica e poltica

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    4 considErAEs finAis

    O propsito de uma brevssima avaliao ica muito aqum de uma necessria articulao entre os planos interno e internacional no que se refere aos processos histricos de hegemonia envolvendo estes dois nveis.

    Seguindo tal linha de raciocnio, tomo o plano interno. Carlos Nelson Coutinho esboou certa vez, a partir de sua interpretao do pro-cesso histrico brasileiro tal qual avaliado por Florestan Fernandes (2006), a proximidade desta interpretao com uma categoria gramsciana que ex-pressa uma hegemonia incompleta: a revoluo passiva (GRAMSCI, 1975). Tal categoria expressaria uma espcie de modernizao conservadora, com a composio de interesses entre grupos e fraes de classe novas e tradicionais sem o protagonismo dos grupos e fraes de classe subalternas, mas com a cooptao de parte destes mesmos setores hegemonizados e uma parcela de suas bandeiras. Um processo histrico hegemnico incompleto, sem a dire-o da sociedade civil, mas com o predomnio da fora atravs do Estado.

    No cabe neste espao a discusso sobre o alcance de tais anlises. Mas o fato de ter sido ensaiada nos autores citados uma relexo sobre o carter incompleto da hegemonia de alguns estratos sociais brasileiros no processo histrico nacional parece sugerir, com a adio de alguns elemen-tos apontados no presente texto, que a hegemonia incompleta do Brasil no que refere a sua postura externa tambm fato. Com isto, no quero su-gerir de que exista uma mesma lgica ou temporalidade referente aos pro-cessos de hegemonia no interior de um Estado e no plano internacional. Quero apenas ressaltar a possibilidade de serem processos hegemnicos incompletos nos dois mbitos no caso mais amplo que cerca a singularida-de histrica brasileira.

    Assim, buscou-se tratar de modo bastante sumrio no presente ensaio diferenas e continuidades das gestes Dilma e Lula. Uma breve anlise conjuntural destas gestes vai alm de questes mais imediatistas de cunho conjuntural e remetem a processos histricos mais amplos. Tais mo-mentos pontuais parecem convergir para o processo referido, embora uma anlise de maior flego se coloque como necessria. Termino o presente ensaio reiterando a necessidade de aprofundar e discutir vrias das ideias e anlises iniciais aqui lanadas.

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    rEfErnciAs

    ARON, R. Paz e guerra entre as naes. Braslia, DF: UnB, 1986.

    BRASIL est longe do Conselho de Segurana da ONU, diz secretrio-adjunto. Folha de S. Paulo, 9 jun. 2013. Disponvel em: . Acesso em: 9 jun. 2013.

    CONSELHO deve ter grandes emergentes. Folha de S. Paulo, 10 out. 2010. Disponvel em: . Acesso em: 10 out. 2010.

    COUTINHO, C. N. Marxismo e imagem do Brasil em Florestan Fernandes. In: ______. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre ideias e formas. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. p. 244-264.

    FERNANDES, F. A Revoluo Burguesa no Brasil: ensaio de interpretao socio-lgica. So Paulo: Globo, 2006.

    FERREIRA, O. S. Assunto de estado ou de governo?. 3 fev. 2014. Disponvel em: . Acesso em: 21 set. 2014.

    GARCIA, E. V. O Brasil e a Liga das naes (1919-1926): vencer ou no perder. Braslia, DF: FUNAG; Porto Alegre: UFRGS, 2000.

    ______. O sexto membro permanente: o Brasil e o Conselho de Segurana da ONU. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.

    GRAMSCI, A. Quaderni del Carcere. Torino: Einaudi, 1975.

    ______. Cadernos do Crcere. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2000. v. 3.

    INTERNACIONAL-DIPLOMACIA. Veja, p. 64-72, 30 jul. 2014.

    LNIN, V. O imperialismo: etapa superior do capitalismo. Campinas: FE, UNICAMP: Navegando, 2011.

    MARINI, R. M. A acumulao capitalista mundial e o subimperialismo. Outubro, n. 20, p. 27-69, 2012.

    MURUA, G. F. F. Brasil potncia: do malogro farsa? Projeto de Doutorado apresentado ao processo seletivo do Programa de Ps-Graduao em Cincia Poltica do Instituto de Filosoia e Cincias Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2013.

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    A ConjunturA E A PolticA EconmicA no GovErno dilmA (2011-2014)1

    Francisco Luiz Corsi

    1 introduo

    O Brasil vive uma complexa conjuntura econmica e poltica. Pretendemos abordar aqui apenas um aspecto dessa conjuntura, qual seja: as razes do baixo crescimento da economia brasileira ao longo do governo Dilma. Este ponto parece importante, pois o nvel do emprego e dos sal-rios, pontos fundamentais para a sustentao poltica e social do governo, esto diretamente relacionados com o desempenho da economia. Esse foi um dos temas centrais das eleies ocorridas em outubro de 2014. Entre 2011 e 2013, o PIB cresceu em mdia 2,1%. As projees para 2014 no so nada alentadoras, estimativas apontam para um crescimento do PIB em torno de 1%. Nmeros similares aos veriicados nos dois governos de FHC, quando o PIB cresceu em mdia 2,3%, e muito abaixo dos obser-vados ao longo dos dois mandatos do governo Lula, quando o PIB cresceu em mdia 4% ao ano. Este desempenho tambm est abaixo da mdia da Amrica Latina, que cresceu no mesmo perodo em mdia por ano 3,2% (CEPAL, 2014; IPEA, 2014).

    1 Este captulo consiste em verso ligeiramente modiicada da exposio realizada no XIV Frum de Anlise de Conjuntura.

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    As razes do baixo crescimento da economia brasileira so ml-tiplas e nas notas a seguir pretendemos apenas levantar alguns pontos cen-trais para a discusso. A crise do capitalismo global, que se arrasta desde 2007, parece ser referncia para a anlise da economia brasileira, embora as determinaes externas no sejam suicientes para explicar, sozinhas, o seu desempenho.

    A crise teve um impacto muito maior que o inicialmente avaliado pelo governo Lula. Seus desdobramentos at hoje afetam negativamente a economia brasileira. Um aspecto geral, que parece relevante destacar que a crise, at o momento pelo menos, no desarticulou o capital inanceiro, frao hegemnica da atual fase do capitalismo. Apesar de ter sofrido gra-ves perdas, o capital inanceiro manteve sua predominncia no capitalismo global, resistiu as tentativas de uma maior regulao dos mercados e os mo-vimentos sociais no lograram reverter as polticas que jogam nas costas do grosso da populao o nus da crise. O capital inanceiro tem conseguido, em grande parte, conduzir as respostas a crise a partir de seus interesses. Este processo bastante evidente na periferia da zona do euro, que sofre prolongada recesso, em parte, devido a adoo de polticas ortodoxas.

    Na Grande Depresso da dcada de 1930 o capital inanceiro foi colocado de joelhos, dada a magnitude da destruio do capital ictcio, o que abriu espao, depois da derrota do nazi fascismo, para a reestrutura-o keynesiana do capitalismo. Na crise atual, os caminhos da restrutura-o do sistema aparentemente sero outros. Ficou mais uma vez evidente a incapacidade de os mercados regularem a economia de maneira eiciente. Contudo, a discusso sobre a necessidade de regular as inanas globalizadas no prosperou, bloqueada pela ferrenha oposio dos bancos e dos fundos de investimento. A sada da crise, reletindo a correlao de foras entre o capital e o trabalho, est se dando pela direita e isto tem condicionado as polticas econmicas em escala global e o Brasil no escapou a esta tendncia.

    O Brasil foi atingido pela crise pela retrao do comrcio, pela diminuio do crdito e pela sada de capitais, o que acarretou a desvalori-zao da moeda. O clima de incerteza induziu a reduo dos investimentos e do consumo. Em 2009, o PIB encolheu 0,6% (IPEA, 2014). Para enten-dermos a situao atual da economia brasileira preciso discutir como foi a reao crise do capitalismo global.

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    A conjuntura econmica e poltica

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    2 o govErno lulA E A crisE mundiAl

    O governo Lula reagiu a crise adotando amplas medidas antic-clicas. O governo de imediato ampliou o crdito, a emisso de moeda e o gasto pblico. No entanto, reduziu lentamente a taxa bsica de juros, que continuou bem acima da mdia mundial. O governo tambm utilizou as reservas para inanciar exportaes, empresas e bancos com diiculdades no exterior. Outra medida importante foi a expanso da atuao do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES) no inan-ciamento a longo prazo dos investimentos a juros reduzidos. Estas foram a principais medidas que impediram, provavelmente, que a economia en-trasse em crise profunda e prolongada.

    O resultado desse conjunto de polticas foi a rpida recuperao da economia, que cresceu 7,5% em 2010, puxada pelo incremento do consumo e do investimento. A rpida recuperao baseada na expanso do mercado interno, contudo, deixou mais evidente os limites do padro de acumulao implementado desde 2003.

    Os desdobramentos da crise no Brasil s podem ser entendidos a partir da poltica econmica levada a cabo pelo governo Lula desde o incio de seu mandato. Em linhas muito gerais, Lula optou por manter os pilares centrais da poltica macroeconmica de seu antecessor, cujos prin-cipais eixos eram os seguintes: 1- poltica iscal voltada para a obteno de supervits primrios; 2- metas de inlao; 3- cmbio lexvel; 4- taxas de juros elevadas; 5- incentivos as exportaes de bens primrios. Um dos resultados dessa poltica foi a tendncia a apreciao cambial, sobretudo devido ao fato das taxas de juros no Brasil situarem-se sistematicamente acima das taxas da maioria dos demais pases, o que teve forte inluncia negativa sobre o setor industrial e sobre as contas externas. Essas medidas respondiam em particular aos interesses do capital inanceiro, pois eram a garantia de valorizao a altas taxas do capital ictcio em um mundo onde as taxas de juros tendiam a ser baixas.

    Entretanto, o governo Lula, ao mesmo tempo, sem confrontar o capital e dentro da ordem, adotou uma srie de medidas para enfrentar os graves e histricos problemas da misria e da desigualdade social por meio do crescimento econmico baseado, sobretudo, no mercado interno.

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    Dentre as medidas adotadas importa destacar o programa bolsa famlia, a poltica de majorao do salrio mnimo, a poltica de aumento de gastos com a educao, ampliao do crdito (sobretudo para o setor habitacio-nal e para pequenas e mdias empresas), o Programa de Acelerao do Crescimento (PAC), o Programa Minha Casa Minha Vida e a utilizao do BNDES como instrumento de poltica industrial partir do aumentos do crdito a juros baixos para fomentar setores da economia considerados estratgicos e a infraestrutura do pas (SINGER, 2012; SICS, 2013).

    No contexto de forte expanso da economia mundial (2003-2007), esta poltica contribuiu para o Brasil alcanar um crescimento bem superior ao perodo do governo FHC. O crescimento baseou-se no au-mento do consumo, do investimento e das exportaes, que se beneicia-ram do boom internacional das commodities2. A expanso da economia foi acompanhada de melhorias nos salrios e no emprego e de modesta reduo da misria e da desigualdade social. Dada a abundante liquidez internacional, a permanncias das taxas de juros em patamares elevados atraiu considervel volume de capital, que buscava na economia brasileira obter polpuda valorizao por meio da especulao. A entrada volumosa de capitais em carteira e na forma de investimento direto e a elevao dos preos das commodities aprofundaram a tendncia de valorizao do real.

    Esta poltica econmica, que buscava responder aos interesses das vrias fraes do capital e dos trabalhadores, foi fundamental para Lula articular ampla base poltica e social, que conferiu sustentabilidade ao seu governo. Esta base tambm foi fundamental para a eleio e reeleio de Dilma Roussef.

    Durante a fase expansiva da economia mundial foi possvel com-patibilizar essas duas linhas de poltica econmica. Contudo, o elevado crescimento em 2010, em plena crise internacional, aguou as contra-dies do padro de acumulao. A inlao, que mesmo durante a fase mais aguda da crise no cedeu, logo tendeu para o teto da meta de 6,5%. O governo, preso as polticas de metas, reagiu majorando os juros, que atingiram 10,75%, em julho de 2010, uma das maiores taxas do mundo, 2 O bom desempenho das exportaes associado a entrada volumosa de capitais externos tanto na forma de investimentos diretos quanto na de investimentos em carteira melhoraram as contas externas do pas A conta de Transaes Correntes apresentou supervit at 2007. A melhora das contas externas contribuiu para reduzir a vulnerabilidade e abrir espao para as medidas expansivas citadas acima.

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    A conjuntura econmica e poltica

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    reduzindo o crdito e o gasto pblico (BARBOSA, 2013; SICS, 2013). A elevao dos juros atraiu grande volume de capital especulativo para o Brasil, pois os pases centrais vinham expandido a liquidez para combater a crise e parte desses recursos dirigiam-se para a periferia na busca de melhor remunerao. Este processo continuou at recentemente. Dessa forma, o Brasil continua sendo um espao importante para valorizao do capital inanceiro.

    A associao de altas taxas de juros e cmbio valorizado, em um contexto de crise mundial, acarretaram, ou aprofundaram, alguns proble-mas de difcil soluo para a economia brasileira. A conta de transaes correntes passou a apresentar crescentes dicits a partir de 2008. O ba-lano de pagamentos tem sido fechado graas aos investimentos externos diretos e aos volteis investimentos em carteira3. Ou seja, a vulnerabilidade externa no foi superada (GONALVES, 2013). Mas preciso assinalar que o nvel elevado de reservas (cerca de 380 bilhes de dlares) permi-tiu enfrentar a crise mundial, sem que ela se desdobrasse, como nos anos 1990, em crise inanceira interna.

    A tendncia a valorizao cambial se acentuou, o que levou o setor industrial sofrer forte impacto da concorrncia de produtos impor-tados, em especial da China. Apesar do crescimento econmico veriicado no perodo, a indstria retrocedeu. Parte da demanda vasou para o exte-rior. A indstria tem perdido terreno nos mercados internos e externos. As importaes tm crescido em ritmo superior ao das exportaes. Entre 2002 e 2013 a indstria de transformao perdeu competitividade. Esta situao de juros elevados e de valorizao da moeda se relete no nvel de investimentos, que tem se mantido relativamente baixo ao longo da ltima dcada. A taxa de investimento no ultrapassou os 20% do PIB, taxa considerada baixa para sustentar o crescimento por um longo perodo. Observam-se fortes indcios de desindustrializao no Brasil. Este processo

    3 O saldo nas transaes correntes, em 2002, tinha sido negativo em US$ 7,63 bilhes. Em 2003, o supervit foi de US$ 4,18 bilhes, atingindo US$ 13,64 bilhes, em 2006. Em 2007, o saldo de transaes correntes foi positivo em 1,5 bilhes de dlares. No ano seguinte, a situao deteriorou-se e o dicit foi de 28 bilhes, che-gando a 54 bilhes de dlares em 2012, e atingiu 81,37 bilhes de dlares, em 2013, que teve que ser coberto, em parte, por investimentos em carteira, dado que os investimentos diretos foram da ordem de 64 bilhes de dlares. Os saldos na balana comercial tenderam a declinar a partir de 2006. Em 2003, o supervit comercial foi de US$ 24,79 bilhes, atingindo US$ 46,45 bilhes em 2006 e caindo par US$ 24,83 bilhes, em 2008. Em 2010 o supervit foi de US$ 20,14 bilhes. A balana comercial no ano passado teve um supervit de US$ 2,55 bilhes, contra US$ 19 bilhes em 2012 (IPEA/DATA, 2014).

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    tem sido acompanhado no perodo recente pela reprimarizao da pauta de exportaes (GONALVES, 2013; CANO, 2014)4.

    Embora a economia brasileira crescesse a taxas elevadas ao inal do governo Lula, uma srie de problemas se avolumavam, a saber: dete-riorao das contas externas, valorizao da moeda, taxas de juros eleva-das, perda de terreno do setor industrial, reprimarizao das exportaes, gargalos importantes na infraestrutura, perda de competitividade no setor industrial e taxa de investimento insuiciente para sustentar o crescimento. Parte considervel desses problemas derivava da manuteno do arcabouo macroeconmico neoliberal.

    3 A rEsPostA do govErno dilmA Aos imPAssEs dA EconomiA BrAsilEirA

    O governo Dilma, no obstante esse conjunto de problemas, manteve, em linhas gerais, os dois pilares contraditrios da poltica de seu antecessor. Mas restringiu o crdito, aumentou o compulsrio e as exign-cias de capital dos bancos, aumentou o IOF sobre as operaes de crdito pessoal e conteve o gasto pblico. Porm, no reduziu os gastos com os programas sociais. O objetivo dessas medidas era conter os desequilbrios causados pelo crescimento de 7,5% em 2010, sem a necessidade de majo-rar em demasia a taxa de juros.

    Essas medidas contracionistas da demanda no contexto de recru-descimento da crise internacional, que apresentou um repique a partir de 2011, resultou na retrao do PIB em 2011 e 2012 (IPEA, 2014). Em que

    4 Entre 2003 e 2008 e entre 2009 e 2013, o crescimento do PIB da indstria de transformao foi respectiva-mente de 3,2% e 0,0%. O coeiciente de exportao da indstria cresceu de 12,7% em 1996 para 15,6%, em 2012, depois de ter atingido a cifra de 21,6%, em 2004. O coeiciente de penetrao de importaes passou de 14,1%, em 1996 (quando as importaes j tinham apresentado forte crescimento desde 1994), para 19,3%, em 2012, alcanando cerca de 21% em 2014. Em 1980, a participao da indstria de transformao no PIB era de 25,8%. Este nmero caiu para 17,9% em 2010. O ritmo de crescimento do PIB per capita da indstria de transformao tem apresentado tendncia a queda. Na ltima dcada cresceu em mdia 1,0% ao ano, enquanto que para o largo perodo 1900-2010 o crescimento dessa varivel foi de 3,1% ao ano. Entre 2003 e 2010, a taxa mdia anual real de crescimento do valor adicionado da indstria de transformao foi de 2,7%, enquanto que para a minerao foi de 5,5% e para agropecuria foi de 3,2%. Neste perodo, o crescimento mdio anual do PIB foi de 4%. Esses processos foram acompanhados pela reprimarizao da pauta de exportaes. Em 1980, a composio das exportaes era a seguinte: produtos bsicos 42,2% do total, produtos semimanufaturados 11,7% e manufaturados 44,8%. Em 2002, esses nmeros eram respectivamente os seguintes: 25,5%, 15,3% e 56,8%. Em 2010, os produtos bsicos representavam, 38,5%, os semimanufaturados 13,7% e os manufatu-rados 45,6% Em 2013, os bsicos alcanaram 46,7%, semimanufaturados 12,6% e os manufaturados 38,4%. (GONALVES, 2013, p. 82-92; CANO, 2014, p. 18-22).

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    brasileira e argentina

    pese o fato do governo ter, aparentemente, subestimado a gravidade da situao internacional, o baixo desempenho da economia brasileira deveu--se sobretudo a continuidade da poltica macroeconmica neoliberal, que desalinhou o cmbio ao manter as taxas de juros muito altas. O modesto desempenho da economia tambm contribui para a deteriorao das ex-pectativas, o que acarretou uma retrao dos investimentos. Soma-se a in-capacidade do governo em aumentar substantivamente seus investimentos em reas estratgicas, como em infraestrutura.

    A medida que icou evidente a forte desacelerao da economia, o governo Dilma buscou lexibilizar a poltica de juros elevados, cmbio apreciado e meta de inlao, o que indicava que o governo, inalmente, estaria rompendo com a poltica macroeconmica neoliberal. A partir de agosto de 2011 o governo iniciou cautelosa reduo da taxa bsica de ju-ros, que em outubro de 2012 atingiu a cifra de 7,25%, aproximando-se das taxas vigentes nas principais economias do mundo. Ao mesmo tempo, Dilma reduziu o compulsrio e o IOF sobre o crdito pessoal. Tambm incrementou o gasto pblico tanto na rubrica de custeio quanto na de investimento. O salrio mnimo sofreu forte aumento. Os auxlios relati-vos ao programa bolsa famlia tambm foram majorados. O governo am-pliou a poltica de desonerao iscal de setores considerados importantes para estimular a economia. Tambm buscou proteger setores em diicul-dade devido a acirrada concorrncia externa por meio de vrias medidas (BARBOSA, 2013; SICS, 2013).

    Os setores rentistas, irritados com a postura do governo em re-lao as metas de inlao por eles considera leniente, icaram bastante descontentes com a reduo dos juros. Estes setores passaram a fazer acir-rada oposio ao governo. A grande imprensa, expressando esses interesses, passou a criticar sistematicamente o governo na tentativa de estabelecer, no mnimo, a pauta dos debates.

    Essa poltica no conseguiu reverter a desacelerao da economia. O PIB, em 2011, cresceu 2,73% e no ano seguinte cresceu ainda menos, 0,9%. Em 2013, cresceu 2,49% (IPEA, 2014). As projees para 2014 no so alvissareiras. O fracasso da poltica econmica no que diz respeito a retomada de taxas mais robustas de crescimento decorreu de diferentes motivos, a saber: o cenrio internacional adverso; os efeitos defasados das

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    medidas restritivas adotadas at o incio do segundo semestre de 2011; a deteriorao das expectativas dos empresrios; a diiculdade do Estado deslanchar os investimentos no setor de infraestrutura para enfrentar os pontos de estrangulamento da economia e sobretudo a combinao de ju-ros altos e cmbio apreciado, que inibiu o investimento do setor industrial e desviou parte do crescimento da demanda para o exterior.

    Mesmo com a reduo dos juros a partir de agosto de 2011, a taxa continuou elevada at meados do ano seguinte. Taxas de juros acima da mdia internacional, em uma situao de elevada liquidez na economia mundial, manteve a tendncia de apreciao do real, sobretudo em virtude da forte entrada de capitais externos aplicados na especulao com aes e ttulos, em especial da dvida pblica. A elevao da taxa mdia de cmbio de 1,67 real por dlar, em 2011, para 1,95, em 2012 no representou sig-niicativa desvalorizao da moeda brasileira. Uma depreciao mais acen-tuada tem sido observada desde meados de 2014.

    A associao de taxas altas de juros com moeda valorizada foi a principal causa da reduo dos investimentos. Em 2011, a taxa de investi-mento, medida pela formao bruta de capital ixo, cresceu 4,7%, repre-sentando 19,3% do PIB. Em 2012, observa-se uma retrao de 4,0% nos investimentos (18,17% do PIB), devido sobretudo a queda na produo de maquinas e equipamentos. Em 2013, a taxa de investimento cresceu 5,18%, situando se em 18,18% do PIB. Nos dois primeiros trimestres de 2014, o investimento caiu cerca de 14,0% (IPEA, 2014). O Estado prezo as metas de equilbrio iscal tambm tem diiculdade de majorar seus in-vestimentos. O baixo nvel dos investimentos a razo mais importante para explicar o sofrvel crescimento da economia brasileira. O crescimento baseado sobretudo na ampliao do consumo no mais consegue, como tem sido desde 2003, sustentar a expanso da economia a taxas elevadas, pois o endividamento das famlias apresenta limites ao que se soma o dese-quilbrio das contas externas5.

    O baixo crescimento foi acompanhado por taxas de inlao pr-ximas ao teto meta (6,5% aa) estabelecida para o perodo em virtude de uma srie de choques. O elevado nvel de emprego e o crescimento dos

    5 Ver a respeito Gonalves (2013) e Cano (2014).

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    salrios pressionaram os preos no setor de servios. O preo dos produtos agrcolas subiu por problemas de quebra de safras. A elevao dos preos das commodities tambm inluenciou os preos (SICS, 2013). Embora a inlao estivesse sob controle, a grande imprensa, que dominada por poucas empresas ligadas aos interesses do capital, intensiicou as crticas a incapacidade do governo em conter uma pretensa crise inlacionria e pas-sou a defender a elevao dos juros, a conteno do crdito e o corte severo dos gastos pblicos. Enim medidas de carter recessivo, que se aplicadas levariam a queda do emprego e dos salrios, consideradas importantes de acordo com a viso neoliberal para conter o excesso de demanda, que seria a causa principal da inlao.

    Neste contexto, desencadeou-se por todo o pas uma srie de movimentos sociais reivindicando melhorias nos transportes urbanos, na educao e na sade e o im da corrupo generalizada no setor pblico. Movimentos bastante heterogneos, compostos por vrios setores de clas-se com interesses e reivindicaes distintas. Esses movimentos acuaram o governo, que foi pego de surpresa, sobretudo pela abrangncia das mani-festaes. Dilma anunciou a intenso de levar a cabo uma reforma poltica e algumas medidas para enfrentar a situao bastante precria dos servios pblicos. Contudo, o enfrentamento dessas questes exigir tempo, empe-nho e vultosos gastos pblicos. Estes movimentos evidenciaram os limites das polticas focalizadas e de carter compensatrio do governo e indicam a necessidade de polticas sociais universais.

    Diante da queda de popularidade e das presses de diferentes setores das classes dominantes e do capital inanceiro global, o governo Dilma recuou. O Banco Central acelerou o processo de majorao dos juros iniciado em abril de 2013, advogando a necessidade de faz-lo para conter a inlao dentro da meta, apesar das taxas internacionais continu-arem bastante baixas. A taxa bsica de juros subiu de 7,25% em maro de 2013 para os atuais 11,75%. De maneira defasada no tempo, essa medida, vem contribuindo para a desacelerao da economia, ao que se soma o contexto internacional instvel e as incertezas quanto as polticas do novo mandato de Dilma. O esboo de retomada do crescimento iniciada em 2013, fruto, em parte, das medidas expansivas adotadas desde o segundo semestre de 2011, foi freado. A situao de crescente vulnerabilidade exter-

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    na, o baixo crescimento econmico, a perda de terreno do setor industrial, a persistncia das presses inlacionrias, a reprimarizao das exportaes, a necessidade de ampliar substantivamente os investimentos nas reas so-ciais, na infraestrutura e na proteo ao meio ambiente colocam questes de difcil soluo.

    4 considErAEs finAis

    Embora a discusso dessas questes no tenha sido aprofundada durante a campanha eleitoral de 2014, as foras articuladas em torno dos interesses do capital, com amplo apoio da grande impressa, advogaram como sada para o Brasil o rgido cumprimento das metas inlacionrias, a independncia do banco central, o enrijecimento das metas de supervit primrio, reformas visando a reduo de direitos trabalhistas e sociais, o cmbio valorizado e o aprofundamento da abertura da economia nacional. Ou seja, medidas recessivas, que teriam efeitos deletrios sobre o nvel de emprego e dos salrios, afetando negativamente o incipiente processo de melhora na distribuio da renda veriicado nos ltimos anos. No mdio prazo, essa estratgia poderia condenar o Brasil a se inserir na economia global como mero exportador de commodities e campo privilegiado de valorizao inanceira, o que no parece ser um projeto que responda os in-teresses da maioria da populao. Essas foras mesmo derrotadas no pleito, devido fundamentalmente ao voto dos mais pobres no governo, continu-am, no entanto, a pautar o debate e a poltica econmica.

    O governo Dilma apesar da retrica desenvolvimentista e da adoo de algumas medidas voltadas para retomada do desenvolvimento com nfase na distribuio da renda e na expanso do mercado interno, no rompeu com o ncleo macroeconmico da poltica neoliberal e isto consiste no principal fator a bloquear o crescimento. Desatar o n do cres-cimento acelerado passa, entre outros pontos, por abandonar as metas de inlao e supervit primrio, assim como a poltica de juros altos e cmbio lexvel. Medidas que exigem uma outra correlao de foras internas e que se chocam frontalmente com as tendncias globais de fortalecimento do capital inanceiro. O governo no enfrentou essa situao quando a ampla e instvel aliana de classe que o sustentava parecia mais coesa, diicilmen-

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    A conjuntura econmica e poltica

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    te o far neste momento de fragilizao poltica e de vitria apertada nas eleies de outubro. Dilma venceu as eleies com um discurso a esquerda devido principalmente a manuteno do emprego e dos nveis salariais da classe trabalhadora. Porm, monta um ministrio de peril conservador, que defende polticas ortodoxas, que iro solapar sua base de sustentao mais importante, o emprego e os salrios.

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    Evoluo rEcEntE dA EconomiA BrAsilEirA E distriBuio dA rEndA

    Jos Marangoni Camargo

    O presente artigo discute a evoluo da economia brasileira no perodo de 2003 e 2014 e a distribuio da renda nos governos Lula e Dilma Roussef. Apesar dos pilares da poltica de corte neoliberal terem sido man-tidas em linhas gerais nos governos petistas, o cenrio externo mais favorvel at 2008 e mesmo depois da ecloso da crise econmica e inanceira mundial neste ano, que nos afetou com menos intensidade que nos pases centrais, possibilitou taxas de crescimento mdias superiores s duas dcadas anterio-res, com efeitos positivos sobre o mercado de trabalho. Internamente, a for-mulao de um conjunto de polticas sociais, como a recomposio do valor real do salrio mnimo e a concesso da bolsa famlia possibilitaram tambm um crescimento da renda dos segmentos mais baixos e uma pequena des-concentrao da renda, revertendo uma tendncia de aumento da desigual-dade observada desde os anos 60. J o cenrio mais recente, o desempenho medocre da economia, com a reduo acentuada das taxas de crescimento econmico a partir de 2011, na medida em que as condies macroecon-micas para uma expanso autossustentvel no foram criadas, aponta para um esgotamento das polticas de melhoria da distribuio de renda.

    Entre 2007 e 2011, a economia brasileira cresceu em mdia 4,3% ao ano, desempenho este que foi um pouco superior ao da Amrica Latina, enquanto os pases centrais apresentaram uma taxa de expanso de ape-nas 0,5% ao ano neste perodo. Em 2009, ano em que os efeitos da crise

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    econmica mundial se i zeram sentir com mais fora, o Brasil teve uma queda do PIB de 0,3%, enquanto os pases desenvolvidos tiveram um de-sempenho bem mais negativo. A economia americana sofreu um declnio de 2,6% neste ano, o Japo, -6% e a Unio Europia, -3,5%. Em sntese, a economia brasileira teve um comportamento que pode ser considerado satisfatrio em uma conjuntura internacional desfavorvel. Por outro lado, a expanso do PIB do Brasil i cou muito aqum ao das principais eco-nomias emergentes, como a China e a ndia. Ainda assim, a evoluo da economia brasileira na ltima dcada foi bem superior ao verii cado nos dois decnios anteriores. Na primeira dcada deste milnio, o crescimento do PIB foi de 3,6% ao ano em mdia, o dobro do verii cado na dcada de 80 e 50% maior do que o observado nos anos 90 (Gri co 1).

    Gri co 1. Variao mdia anual PIB brasileiro no perodo de 1981-2014Fonte: IBGE (2015).

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    A conjuntura econmica e polticabrasileira e argentina

    Esse desempenho da economia brasileira no perodo recente possibilitou a melhoria de alguns indicadores socioeconmicos, como o comportamento do mercado de trabalho, que continuou a apresentar uma evoluo mais favorvel. As taxas de desemprego medidas pelo IBGE tive-ram uma ntida tendncia de declnio a partir de 2004, que caiu de 8,9 % da PEA neste ano para 6,5% em 2013 (Gri co 2).

    Gri co 2. Taxa de desemprego, 2004-2013Fonte: IBGE (2014).

    Mesmo em 2009, ano em que o PIB sofreu uma reduo, os n-veis de desemprego apresentaram pouca alterao (7,1% em 2008 para 8,3% em 2009). O grau de formalizao da fora de trabalho, ou seja, o percentual das ocupaes com carteira de trabalho assinada, tambm se recuperou no perodo, mesmo em 2009, aumentando sua participao na ocupao total. Entre 2006 e 2011, os trabalhadores com carteira de traba-lho assinada nas regies metropolitanas passaram de 53,4% para 61,2% do total neste ltimo ano (Gri co 3). Entre 2003 e 2013, foram criados mais de 15 milhes de empregos formais, reduzindo o grau de informalidade do mercado de trabalho, ao contrrio do verii cado na dcada de 90, quando cresceu signii cativamente a precarizao das condies de trabalho, atravs do aumento das ocupaes por conta prpria ou sem registro

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    Gri co 3. Taxa de emprego formal, 2006-2011Fonte: IBGE (2014).

    A partir do Plano Real, em 1994, foi possvel superar a inl ao inercial, e com o sucesso do plano de estabilizao seria esperada uma melho-ria no quadro distributivo no pas, com o i m da corroso do poder de com-pra dos salrios decorrentes dos aumentos de preos. No entanto, no foi isso o que ocorreu na medida em que a estabilidade monetria se deu atravs de uma combinao de rpida abertura econmica, valorizao cambial, juros altos e uma avalanche de dlares, em grande parte de carter especulativo e de curto prazo, que levaram a uma progressiva deteriorao das contas exter-nas, perda de competitividade das empresas brasileiras e baixo crescimento econmico. A combinao negativa destas variveis resultou em efeitos ne-fastos sobre o mercado de trabalho, com elevao do desemprego, queda dos salrios e aumento da desigualdade da distribuio da renda.

    A economia brasileira cresceu em mdia apenas 2,2% ao ano no perodo 1991-2002, com fortes impactos negativos sobre o mercado de trabalho. As taxas de desemprego alcanaram quase 10% da PEA no i nal desta dcada, o dobro do verii cado no i nal da dcada anterior. Ademais, com o rebaixamento da capacidade de crescimento da economia, ocorreu um expressivo aumento da precarizao das condies e das relaes de tra-balho, com a proliferao dos postos de trabalho por conta prpria ou sem registro formal, com rendimentos mais baixos em mdia. Dessa forma, com o aumento do grau de precarizao da fora de trabalho e das taxas de

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    desemprego nos anos 90, os indicadores de distribuio de renda no pas apontavam a permanncia de um quadro de extrema desigualdade, apesar da estabilizao monetria a partir do Plano Real. Em 2000, a participao dos 50% mais pobres na renda pessoal era de apenas 12,7% do total, en-quanto o segmento representado pelos 10% mais ricos abocanhava 51,3% do total. A participao dos salrios na renda, por sua vez, reduziu-se de 45% do PIB em 1990 para 39,1% em 2003.

    mErcAdo dE trABAlho E distriBuio dE rEndA no govErno lulA

    O mercado de trabalho no Brasil apresentou uma forte recupe-rao na dcada passada. O crescimento econmico mais expressivo da economia brasileira entre 2003 e 2008 teve impactos positivos sobre o mercado de trabalho, com indicadores mais favorveis sobre o emprego e a distribuio de renda. Apesar de o governo Lula ter mantido em linhas gerais a poltica macroeconmica do antecessor, com metas de obteno de supervits primrios e de inlao, taxas de juros elevadas e taxa de cmbio apreciada, o cenrio externo mais favorvel at a ecloso da crise econmi-ca e inanceira mundial em 2007/2008, e um longo ciclo de valorizao das commodities no comrcio internacional, possibilitaram uma melhoria nas contas externas e diminuram a vulnerabilidade externa do pas, o que permitiu taxas de crescimento mais expressivas. Internamente, o governo Lula adotou um conjunto de polticas expansivas que possibilitaram um padro de crescimento apoiadas no mercado interno, como os programas de transferncia de renda, habitacionais (como o programa minha casa minha vida), recuperao gradativa do valor real do salrio mnimo e a ampliao do crdito domstico (BARBOSA; AMORIM, 2014; CORSI; CAMARGO, 2015.

    Com taxas de crescimento econmico mais robustas, o mercado de trabalho registrou grande dinamismo no perodo, com a criao de 7,7 milhes de novos postos de trabalho com carteira de trabalho assinada, o que possibilitou ampliar o grau de formalizao do trabalho de 43,1% do total de ocupados no pas em 2003 para 54,1% em 2008. Apesar de 90% das novas vagas assalariadas criadas serem de at dois salrios mnimos, o rendimento mdio real do trabalho principal cresceu, passando de R$ 986

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    em 2004 para R$1.210 em 2009. O bom desempenho do mercado de tra-balho no perodo contribuiu para uma reduo da desigualdade de renda da populao. O ndice de Gini diminuiu de 0,5957 em 2001 para 0,5448 em 2009 e a participao dos 50% mais pobres na renda total cresceu de 14% em 1999 para 17,7% em 2010, enquanto que a fatia dos 10% mais ricos passou de 46,8% para 44,5% nesse perodo (Tabela 1). A evoluo da participao da renda do trabalho na renda nacional tambm cresceu, de 39,1% em 2003 para 43,6% em 2010, depois de quatro dcadas seguidas de contnuo declnio (Grico 4). O desemprego por sua vez, diminuiu de 10,5% do total da PEA para 7,8% em 2008. O comportamento mais favorvel do mercado de trabalho, com expanso considervel do emprego formal e dos rendimentos do trabalho, conjugado a uma poltica de valori-zao do salrio mnimo e de outras polticas sociais como o bolsa famlia, e a expanso do crdito foram fundamentais para alavancar o padro de acumulao sustentados sobretudo na ampliao do consumo.

    Tabela 1. Distribuio Pessoal de Renda (%), 1960-2010

    EXTRATOS ANO

    1960 1970 1980 1990 1999 2010

    50% mais pobres 17,7 14,9 14,2 11,2 14,0 17,7

    40% mdios 42,7 38,4 38,1 39,1 39,2 37,8

    10% mais ricos 39,6 46,7 47,7 49,7 46,8 44,5

    Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

    5% mais ricos 27,7 34,1 34,9 35,8 33,4 32,4

    1% mais rico 12,1 14,7 14,7 14,6 13,1 13,8

    Fonte: IBGE (2010).

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    A conjuntura econmica e polticabrasileira e argentina

    Gri co 4. Evoluo da participao da renda do trabalho na renda nacio-nal, 1960-2010 (em %)Fonte: IBGE (2015).

    No caso do salrio mnimo, o poder de compra real em 2009 qua-se dobrou em relao a 1995, quando ele atingiu o seu patamar mais baixo historicamente, desde que foi criado em 1940. Essa recuperao do valor real do salrio mnimo tem um forte impacto sobre a renda, na medida em que, segundo o Departamento Intersindical Estatstica e Estudos Scio Econmicos (DIEESE), mais de 50 milhes de pessoas so benei ciadas pelos seus reajustes, incluindo 19 milhes de aposentados e pensionistas que ganham em torno deste piso. Em 2009, o poder de compra do salrio mnimo possibilitava adquirir duas cestas bsicas, contra apenas uma em 1995. Os programas de transferncia de renda como a expanso da bolsa famlia, que alcanava 12,3 milhes de famlias atendidas em 2009, bene-i ciando em torno de 40 milhes de pessoas, em que pese os baixos valores pagos, tambm garantiu um acrscimo de renda para os segmentos mais pobres. A expanso do crdito, especialmente para os i nanciamentos imo-bilirios e para a compra de bens de consumo durveis, como automveis e eletrodomsticos, foi outro fator que contribuiu para impulsionar o mer-cado interno. A relao crdito/PIB passou de 24,6% em 2002 para 44,4% em 2009, rel etindo a expanso do consumo e do nvel de endividamento

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    das famlias. No caso do Programa Minha Casa, Minha Vida em 2010, aps um ano de atividade, atingiu a meta inicial de um milho de contra-taes de novas moradias para a populao de baixa renda.

    No entanto, a manuteno da poltica macroeconmica de corte neoliberal, caracterizada pelos altos patamares da taxa de juros, a busca pela gerao de metas inlacionrias e de supervit iscal e a valorizao do cmbio, em um contexto de continuidade da crise econmica mundial e de acirramento da concorrncia internacional, resultou em uma deterio-rao progressiva das contas externas e a reduo dos patamares de cresci-mento econmico a partir de 2010.

    comPortAmEnto do EmPrEgo E dA rEndA no govErno dilmA

    A partir de 2011, a economia brasileira entra em uma rota de instabilidade, marcada por taxas mais baixas de crescimento econmico e taxas de inlao mais elevadas (Grico 1). Apesar do cenrio econmico mais adverso, os indicadores do mercado de trabalho apresentaram ainda uma evoluo relativamente favorvel at 2013. A taxa de desocupao passou de 8,3% em 2009 para 6,5% em 2013, explicada em parte por um menor crescimento da PEA, e o rendimento mdio real de R$1.210 para R$1.573 no perodo. Foram criados quase oito milhes de novos postos de trabalho com carteira de trabalho assinada e o grau de formalizao do trabalho passou de 53,8% em 2009 para 59,1% do total dos ocupados em 2013. Observou-se tambm uma continuidade da reduo da desigualda-de dos rendimentos, com um novo declnio do ndice de Gini, de 0,521 em 2008 para 0,495 em 2013 (Grico 5) e a fatia da metade mais pobre da populao passando para 18,6% em 2012 (17,7% em 2009). A renda dos 10% mais ricos, que era mais de 22 vezes superior aos dos 40% mais pobres, passou para 15 vezes em 2013.

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    A conjuntura econmica e polticabrasileira e argentina

    Gri co 5. ndice de Gin, 1995-2013Fonte: IBGE (2014).

    Os dados disponveis sobre a distribuio de renda indicam, por-tanto, um processo de reduo das desigualdades de renda, puxados pelo crescimento econmico mais signii cativo, especialmente at 2008, e pe-las polticas de transferncia de renda aos segmentos mais vulnerveis da sociedade brasileira. Contribuiu tambm de forma expressiva para a ten-dncia de menor concentrao de renda a continuidade da recuperao do valor real do salrio mnimo, que em 2015 encontra-se em um patamar quase 20% maior que o verii cado em 2010 (Gri co 6). No tocante ao emprego, apesar do cenrio econmico menos favorvel, os indicadores do mercado de trabalho apresentam ainda um comportamento positivo, com taxas de desemprego relativamente reduzidas e a tendncia de aumento do grau de formalizao da fora de trabalho, em parte explicada pela redu-o do ritmo de crescimento da populao economicamente ativa (PEA). Contribuiu tambm para a manuteno das taxas de desemprego em pa-tamares relativamente baixas o crescimento dos rendimentos do trabalho e as polticas de transferncia de renda que possibilitaram a elevao da escolaridade e a entrada mais tardia do contingente de jovens no mercado de trabalho (HORIE; PELATIERE; MARCOLINO, 2014).

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    Gri co 6. Evoluo do Salrio Mnimo Real Mdio Anual em R$ de 01/01/2015

    Fonte: DIEESE (2015).

    Apesar dos avanos recentes, os dados sobre a distribuio de ren-da no Brasil devem ser vistos com cautela. As pesquisas sobre renda realiza-das pelo IBGE, como a Pnad e os Censos Demogri cos, captam com mais preciso os rendimentos do trabalho, mas tendem a subestimar a renda dos segmentos de maior renda, provindos sobretudo de outras fontes como lucros, juros e aluguis (BARBOSA; AMORIM, 2014; MEDEIROS; SOUZA; CASTRO, 2014). Em trabalho recente, Medeiros, Souza e Castro (2014), mostram, a partir de indicadores construdos com base nas declaraes do Imposto de Renda, que a concentrao de renda entre os mais ricos substancialmente maior que a estimada pelos levantamentos domiciliares, alm de estvel. Apesar da necessidade, segundo os autores, de aperfeioamentos em sua metodologia, os resultados so eloquentes no sentido de apontar a permanncia de um quadro de extrema desigualdade de renda no pas, onde em mdia, os 1% mais rico se apropriou de quase 25% da renda no perodo 2006-2012. Estes dados so corroborados pela elevada concentrao da propriedade, pela estrutura tributria regressiva do pas e pelo ainda elevado grau de informalidade do mercado de trabalho, de maneira que as desigualdades de renda continuam muito altas, alm da

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    brasileira e argentina

    permanncia das disparidades no tocante ao acesso ao emprego, educao e sade, transporte pblico e habitao de melhor qualidade (BARBOSA; AMORIM, 2014).

    Por outro lado, em que pese as taxas de inlao permanecerem relativamente altas e estarem acima do centro da meta estabelecida pelo banco Central, apesar do menor crescimento econmico, os problemas centrais da economia brasileira, a meu ver, so de outra natureza, e que podem afetar indiretamente tanto a ocupao como a distribuio de ren-da. Trata-se das questes referentes ao processo de desindustrializao da economia e a deteriorao das contas externas do pas e que se agravaram a partir da crise econmica de 2008. Em relao ao primeiro ponto, quando se analisa especiicamente a participao da indstria de transformao no PIB, clara a diminuio do seu peso a partir de 2004, queda esta que se acelera de 2008 em diante (queda de 18,7% em 1995 para 13,0% em 2013). A combinao das polticas de controle da inlao, baseada em ele-vadas taxas de juros e valorizao do cmbio, junto com a abertura comer-cial que a antecede ocasionaram uma entrada macia de dlares, em grande medida de carter especulativo, com impactos sobre a economia brasileira e a estrutura industrial. Ademais, acentuou o desequilbrio comercial da indstria, sobretudo nos setores industriais de maior valor agregado e in-tensidade tecnolgica. A balana comercial da indstria de transformao, depois de registrar um supervit externo desde 2002 e atingir o maior saldo em 2005, quando o Brasil registrou supervit de US$ 31,1 bilhes, passa a apresentar resultados menos expressivos a partir de 2006 e se tor-na negativa em 2008. Este dicit alcana um patamar recorde de quase US$ 60 bilhes em 2013(IEDI, 2014). A desindustrializao em curso e a tendncia de reprimarizao da economia brasileira, no sentido de uma especializao regressiva, tendem a afetar negativamente o emprego e a renda, na medida em que a indstria o setor que melhor remunera e com maior grau de formalizao da mo de obra, vis a vis os demais outros setores econmicos.

    Uma segunda questo que tem se agravado no perodo recente refere-se ao aumento da vulnerabilidade das contas externas do pas, com uma deteriorao da balana de pagamentos, por conta de um expressivo crescimento do dicit da balana de conta corrente, especialmente dos

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    servios . Tradicionalmente deicitria, a balana de rendas e servios tem apresentado saldos fortemente negativos e crescentes nos ltimos anos, principalmente por conta da elevao de remessa de lucros das iliais das multinacionais para as suas matrizes, em um contexto de elevadas diicul-dades atravessadas por estas empresas a partir da crise econmica em curso desde 2008. Destacam-se tambm os crescentes dicits na rubrica viagens internacionais, superando US$ 20 bilhes em 2014. Em ambos os casos, a valorizao cambial tem sido um forte indutor no crescimento do dicit na conta de servios, assim como na reduo do saldo da balana comer-cial no perodo mais recente, tornando-se inclusive negativa em 2014. A soma do dicit em conta corrente alcanou em 2014 um total de mais de US$ 90 bilhes, contra um saldo negativo de US$81 bilhes em 2013, em grande parte coberto pela entrada de capitais externos na forma de investimentos diretos externos (IDE), mas que podem agravar a remessa de lucros e dividendos no futuro. Adicionalmente, a valorizao do cmbio e a elevada remunerao dos ttulos pblicos, j que a taxa de juros bsica quase sempre esteve em um elevado patamar no perodo analisado, tam-bm tem atrado capitais especulativos de curto prazo. Estes contribuem para fechar as contas da balana de pagamentos, mas por tratar-se de capi-tais extremamente volteis, tendem a regressar rapidamente aos seus pases de origem em um contexto de maior instabilidade econmica. Apesar do nvel de reservas internacionais do pas ser relativamente elevado, da ordem de US$360 bilhes em ins de 2014, a deteriorao progressiva das contas externas podem nos trazer o velho problema da vulnerabilidade externa, colocando constrangimentos para um processo de crescimento econmico mais substancial. o que de fato vem ocorrendo nos ltimos anos, onde o menor ritmo de expanso da economia j tem tido impactos sobre o quadro distributivo, com uma tendncia de estagnao da desigualdade de renda no pas e as perspectivas desalentadoras para este ano, apontam para um aumento das taxas de desemprego. Como aponta Dedecca (2013), sem um ritmo maior de crescimento econmico, um maior patamar dos investimentos produtivos e o esgotamento das polticas de transferncia de renda, aumentam os desaios para superar o quadro de elevada desigual-dade que ainda persiste no pas. A superao da pobreza e da desigualdade exigem uma combinao de polticas sincronizadas (macroeconmica, de competitividade e comercial) que parecem ter sido abandonadas em fun-

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    brasileira e argentina

    o dos interesses dominantes do capital inanceiro e da implementao de polticas neoliberais que tendem a levar a economia brasileira a um novo ciclo de estagnao econmica.

    rEfErnciAs

    BARBOSA, A. F.; AMORIN, R. L. C. Desaios para o enfrentamento da desi-gualdade no Brasil. In: FAGNANI, R.; FONSECA, A. (Ed.). Polticas sociais, de-senvolvimento e cidadania. So Paulo: Fundao Perseu Abramo, 2014. p. 29-50.

    CORSI, F. L.; CAMARGO, J. M. Crescimento econmico, distribuio de renda e movimentos sociais no Brasil: 2003-2013. Lisboa: Atas do Primeiro Congresso da Associao Internacional de Cincias Sociais e Humanas em Lngua Portuguesa, 2015.

    DEDECCA, C. S. Uma breve nota sobre a complexidade ao desaio da redu-o da desigualdade e da pobreza segundo a PNAD de 2012. Campinas: Rede Desenvolvimentista, 2013. (Texto para Discusso, n. 14).

    DIEESE. Poltica de valorizao do salrio mnimo: salrio mnimo de 2015 ixado em R$788,00. So Paulo, 2015. (Nota Tcnica, n. 146).

    HORIE, L.; PELATIERE, P. T.; MARCOLINO, A. O mercado de trabalho bra-sileiro recente. Teoria e Debate, So Paulo, n. 123, abr. 2014.

    IBGE. Censos demogricos. Rio de Janeiro, 2010.

    IBGE. Pesquisa Nacional de Amostragem de Domiclios. Rio de Janeiro, 2014.

    IBGE. Contas Nacionais. Rio de Janeiro, 2015.

    IEDI. Comrcio exterior de bens da indstria de transformao: exportando menos, importando bem mais. So Paulo, 2014. (Carta IEDI, n. 608).

    MEDEIROS, M.; SOUZA, P. H. F.; CASTRO, F. A. O topo da distribuio de renda no Brasil: primeiras estimativas com dados tributrios e comparao com pesquisas domiciliares, 2006-2012. Braslia, DF: UNB, 2014. Disponvel em: . Acesso em: 9 jun. 2014.

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    ProPostAs dE CinciA E TEcnologiA APrEsEntAdAs no DEBAtE ElEitorAl dE 2014

    Agnaldo dos Santos

    Ao longo do debate eleitoral Presidncia da Repblica do Brasil de 2014, bem como nas propostas que os partidos apresentaram para os cargos majoritrios e proporcionais no mbito estadual, foi possvel identiicar as linhas gerais que as foras econmicas e sociais defendem para o pas. Isso porque, a despeito dos programas de governo genricos que foram lanados durante a campanha, as propostas de polticas de Cincia e Tecnologia (C&T) no esto desarticuladas dos grandes projetos que as foras sociais defendem para o pas. Isso implica localizar nos grandes eixos das polticas pblicas (por exemplo, nas polticas industrial, agrcola, de educao e de sade) o que defendem e o que poder ser implementado aps a vitria eleitoral. Somado tambm ao fato de que a estrutura eco-nmica brasileira, conformada nas ltimas dcadas, coloca no s oportu-nidades mas muitos desaios, que apenas supericialmente so tocados nas conjunturas eleitorais.

    Tendo esses parmetros em vista, podemos sugerir que o leque de propostas para a rea, em que pese a diversidade de candidaturas apre-sentadas (e considerando apenas as que apresentavam maior viabilidade eleitoral), podem ser agrupadas em dois blocos. Um desses blocos, que chamaremos aqui de orientao liberal com neutralidade, compreende a atividade de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) como exgena s irmas,

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    ou seja, um conjunto de conhecimentos gerados por trabalho eminente-mente acadmico e que deve ser apropriado pelas empresas. Nessa concep-o de C&T impera o princpio da neutralidade axiolgica, onde residiria uma atividade cumulativa e objetiva, sem vis ideolgico e com baixa referncia nas questes sociais. Os pesquisadores deveriam apenas respeitar os paradigmas consolidados em suas respectivas reas e, quando houver sua ruptura, trilhar pelos novos consensos atinentes comunidade de pesquisa (DIAS, 2012). Por esses motivos, os seus defensores pregam um sistema de meritocracia pautado em resultados quantitativos (em geral, expressos em nmero de publicaes, nmero de patentes registradas etc.) e aferi-dos pelos sistemas internacionais de rankings acadmicos. Esse bloco, aqui descrito em linhas gerais num modelo tpico ideal, considera que o Estado deve garantir as condies bsicas de educao e focar recursos de pes-quisa nas atividades consideradas promissoras e desenvolvidas em centros de excelncia, deixando que as foras do mercado aloquem recursos para explorar economicamente os produtos gerados por tais centros de pesquisa (BEZERRA, 2010).

    Ainda de forma tpica-ideal, poderamos caracterizar o segundo bloco como dirigista. Sincronizado com as teses desenvolvimentistas de poltica industrial, seus proponentes perseguem um sistema nacional de ino-vao por meio de polticas pblicas condizentes, com investimentos signii-cativos no Complexo Pblico de Pesquisa (universidades, centros e institutos vinculados aos ministrios e empresas pblicas). Alm dos investimentos di-retos em seus equipamentos, essa perspectiva defende o aporte de bancos p-blicos e agncias de fomentos (como o BNDES, a Finep e as fundaes esta-duais de amparo pesquisa) para empresas privadas que decidam promover a expanso de seus negcios por meio de P&D. Mesmo discordando do bloco liberal no que tange ao papel do Estado e do mercado no protagonismo em inovao, possui em comum com o primeiro a ideia de que o Estado deve oferecer aos agentes econmicos solues (produtos e processos) advindas das pesquisas por ele inanciadas e tambm partilham a tese da neutralidade e da cumulatividade do conhecimento cientico.

    Reconhecendo que existem nuances entre o contedo desses blo-cos e as teses apresentadas pelos candidatos presidncia em 2014, faremos nesse texto um exerccio de aproximao entre o estado da arte, em parti-

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    A conjuntura econmica e poltica

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    cular como as polticas de C&T vem se comportando nos ltimos anos, e as propostas gerais das candidaturas. Dessa forma, poderemos problema-tizar as propostas, veriicar o que poderia ser classiicado como progresso e os eventuais ns a serem desatados, bem como as eventuais consequncias no caso de mudanas nas atuais orientaes para a rea.

    como AndAm As coisAs?

    J que trataremos de veriicar o que o debate eleitoral trouxe de propostas rea, nada melhor que olhar para o estado da arte em Cincia, Tecnologia e Inovao (CT&I)1. Tanto a situao quanto as opo-sies partidrias atribuem enorme importncia (mesmo que num nvel retrico) ao desenvolvimento da rea, considerada indispensvel para o crescimento econmico. Podemos comear, portanto, olhando os gastos gerais em C&T entre o inal do Governo Fernando Henrique, passando pelos anos do Governo Lula at o incio do Governo Dilma.

    Tabela 1- Dispndio nacional de C&T, 2000-2012

    Valores correntes em milhes de R$

    2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006

    15,839.1 17,655.6 19,756.7 22,278.8 25,437.7 28,179.8 30,540.9

    2007 2008 2009 2010 2011 2012

    37,468.2 45,420.6 51,398.4 62,223.4 68,196.3 76,466.3

    % em relao ao PIB

    2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012

    1.34 1.36 1.34 1.31 1.31 1.31 1.29 1.41 1.50 1.59 1.65 1.65 1.74

    Fonte: Instituto Brasileiro de Geograia e Estatstica, Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao.

    Os dados compilados pelo MCTI para a primeira dcada deste sculo, a partir da Pesquisa de Inovao Tecnolgica (PINTEC) realiza-da pelo IBGE, aponta para uma elevao nominal dos investimentos em

    1 Usaremos aqui a designao adotada pelo Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao (MCTI). Como j indicado acima, essa terminologia muito usada tanto pela vertente liberal quanto pela dirigista, ambas parti-lhando da tese da neutralidade. Questionaremos mais frente essa tese.

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    C&T, de 15 bilhes de reais em 2000 para 76 bilhes de reais em 2012. Quando olhamos para o percentual em relao ao PIB, contudo, notamos que os investimentos da rea saram de 1,34% em 2000 para 1,74% em 2012, um aumento de 0,4%. O prprio ministro da Cincia, Tecnologia e Inovao do Governo Dilma, Clelio Campolina, airmou que a meta era atingir no incio da nova dcada o percentual de 2,5% de investimentos em relao ao PIB. Segundo ele, o desaio incentivar as empresas privadas a fazerem investimentos, que em pases de industrializao consolidada chegam a 70% do total, sendo que no Brasil no chegam a 48% do total2. Sempre lembrando que, comparado com esses pases que j possuem um sistema maduro de investimentos de P&D, icamos em lagrante desvanta-gem: a mdia dos pases da OCDE de investimentos na rea foi (antes da crise de 2008) de 4%3, sendo nos pases asiticos (China, Coreia do Sul) algo em torno de 3% do PIB.

    A despeito desse quadro, que de todo modo indica tmida eleva-o nos gastos com P&D relacionados ao PIB, podemos nos perguntar: esse montante tem garantido atingir as metas traadas pelo governo fe-deral? Podemos olhar para alguns indicadores que so considerados pelos gestores de C&T os mais apropriados para tal aferio: quantidade de pu-blicaes feitas pelos pesquisadores, a proporo de professores/pesquisa-dores relacionados aos estudantes e a quantidade de pedidos e depsitos de patentes feitos por instituies e pesquisadores.

    2 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.3 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    Grico 1 - Participao percentual do nmero de artigos brasileiros publi-cados em peridicos cienticos indexados pela homson/ISI e Scopus em relao ao mundo, 1996-2012Fonte: Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao. Disponvel em: .

    Acesso em: 30 set. 2014.

    O grico mostra uma ntida elevao na participao dos pes-quisadores brasileiros na publicao de artigos em revistas cienticas in-dexadas4, no caso da homsom/ISI de 0,91% em 1996 para 2,69% em 2009 e no da Scopus de 0,79% em 1996 para 2,45% em 2013. Mesmo considerando que a curva ascendente desde o inal dos anos 1990, ica evidente uma considervel acelerao em meados da primeira dcada do sculo XXI. Isso talvez seja relexo do aumento de recursos para a rea e o aumento no nmero de pesquisadores, algo que trataremos em seguida. Mas relete tambm as estratgias que os gestores universitrios no Brasil vm procurando aplicar para garantir maior participao nos rankings in-ternacionais de instituies acadmicas, entre elas a avaliao docente por meio das informaes contidas no currculo Lattes5.

    4 Tanto o ISI, gerido pela homsom Reuters, quanto a Scopus, propriedade da Elsevier, so bases de dados para indexao de peridicos construdas por empresas da mass media e, por isso, com amplos interesses econmicos.5 Esse tema, por si s, altamente explosivo. Vale olhar a entrevista com um dos mais reconhecidos cientistas brasileiros no exterior, Miguel Nicolelis, sobre as formas de avaliao dos pesquisadores na cincia brasileira: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    O crescimento no nmero de pesquisadores em dedicao exclu-siva vem ocorrendo tambm nos ltimos anos, ainda que num ritmo bem menor do que de pases asiticos, como a Coreia do Sul e a China.

    Grico 2 - Pesquisadores em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em equi-valncia de tempo integral, de pases selecionados, 2000-2012Fonte: Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao. Disponvel em: .

    Acesso em: 30 set. 2014.

    No incio da dcada de 2000 os EUA possuam 983 mil de pes-quisadores nessa condio de trabalho, acompanhados nessa seleo pela China (695 mil), Rssia (506 mil), Alemanha (257 mil), Coreia do Sul (108 mil), Brasil (73 mil) e frica do Sul (14 mil). Em meados daquela dcada a China j superava os EUA (1,118 milho contra 1,101 milho), enquanto o Brasil j apresentava um nmero ligeiramente superior (109 mil) e a Coreia chegava a 179 mil. Em 2010, China e EUA mantinham nmeros bem prximos (1,210 milho contra 1,198 milho), a Coreia chegava a 264 mil pesquisadores e o Brasil atingia a casa dos 138 mil pes-quisadores. Fica evidente que mesmo com um crescimento nada despre-zvel quase dobrou o nmero o Brasil est muito atrs no s dos gigantes econmicos como de pases com uma populao bem menor que a nossa (caso coreano).

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    Essa disparidade ica evidente quando olhamos para outro indi-cador que pode nos ajudar a compreender o estado da arte de CT&I no pas: a variao percentual de patentes solicitadas e concedidas a pesquisa-dores nacionais e instituies atuando no territrio de cada pas.

    Grico 3 - Variao percentual dos pedidos e concesses de patentes de inveno junto ao Escritrio Americano de Marcas e Patentes (USPTO, na sigla em ingls) de pases selecionados, 2000/2010Fonte: Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao. Disponvel em: .

    Acesso em: 30 set. 2014.

    Entre 2000 e 2010, a China teve uma variao de 1.640% de pe-didos de patentes no principal escritrio de patentes do planeta, obtendo no mesmo perodo uma variao de 2.133% na obteno de patentes feitas ali. Os EUA parecem ter icado numa variao vegetativa nesse perodo (j que suas empresas j so detentoras de uma enormidade de patentes), apenas 47%. J a Coreia do Sul obteve uma variao de 356% no perodo e obteve concesses numa variao de 252%. O Brasil teve uma partici-pao importante nesse perodo, uma variao de 158%, obtendo nesse perodo um crescimento de 79% na concesso de patentes no escritrio estadunidense. Aqui vale a mesma avaliao feita acima: o aumento nos investimentos, o crescimento no nmero de pesquisadores em dedicao exclusiva e a presso para que produzam parece estar reletido nesses indi-

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    cadores. Mas ainda assim icamos bem atrs no s dos pases de industria-lizao consolidada, como tambm daqueles de industrializao recente, como Coreia do Sul, ndia e China.

    Indiscutivelmente, o montante de recursos destinados exclusiva-mente para CT&I est diretamente relacionado com o tamanho da eco-nomia e a estrutura das cadeias produtivas. Mas podemos ainda inserir mais um conjunto de indicadores que ajudam a explicar a situao da rea: a situao da educao, tanto a bsica quanto a de nvel superior. Vamos considerar, para efeitos dos argumentos aqui levantados, apenas esse lti-mo. Este indicador um daqueles que todos dizem olhar com ateno e preocupao, mas que em geral ica restrito apenas s planilhas orament-rias e aos discursos retricos.

    Grico 4 - Expanso das universidades federais, 2003 e 2010Fonte: Ministrio da Educao. Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

    De acordo com o site do MEC, a Reestruturao e Expanso das Universidades Federais (Reuni), programa voltado para o melhoramento e a ampliao das universidades cuja mantenedora o governo federal, elevou o nmero de municpios atendidos no pas de 114 para 237 entre 2003-2001, com mais 14 universidades e mais de 100 campi instalados. Alm de buscar recuperar as unidades j existentes, o ministrio indica que o Reuni possui uma estratgia de interiorizao das universidades,

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    ou seja, desconcentrao em relao regio Sul/Sudeste e em relao s grandes capitais. A despeito das crticas que os trabalhadores dessas uni-versidades fazem forma como as verbas de expanso so alocadas, o pro-grama vem aumentando a oferta de vagas no ensino superior pblico nos ltimos anos.

    Mas a expanso do ensino superior ocorreu principalmente por meio do Programa Universidade Para Todos (Prouni), que por meio de acordos com instituies privadas que recebem incentivos i scais, garantem a concesso de bolsas parciais ou integrais de estudos para candidatos que realizam o Exame Nacional do Ensino Mdio (Enem) e garantem a pontu-ao mnima necessria para o ingresso nas respectivas instituies. O total de bolsas vem apresentando uma tendncia de aumento, ainda que com pequenas variaes no perodo.

    Gri co 5 - Bolsas do Prouni ofertadas por ano, 2005-2014Fonte: SISPROUNI, 2014; PROUNI 2005-2/2014. Disponvel em: .

    Acesso em: 30 set. 2014.

    Vemos que no incio do programa em 2005 o MEC ofereceu 112.275 bolsas, sendo 71.905 bolsas integrais e 40.370 bolsas parciais. J em 2014 o total de bolsas chegou a 306.726, com 205.237 integrais e 101.489 parciais. De fato, ocorreu um aumento signii cativo. Mas sabe-mos que ainda temos um nmero muito pequeno de alunos matriculados no ensino superior se tomamos a idade ideal para o ingresso e se compa-rados a outros pases. Apenas 19% dos jovens entre 18-24 anos ingressou

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    em cursos de ensino superior em 2009, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (Pnad). Em 1997, 45% dos jovens nessa faixa etria j estavam no ensino superior nos EUA, enquanto na Coreia do Sul o ndice j era de 69%.6

    Mas os governos do PT acreditam poder maximizar a qualidade da formao do pblico universitrio por meio de programas que pos-sam ampliar a internacionalizao da pesquisa brasileira, como o caso do Cincia Sem Fronteiras. De acordo com a sua pgina na internet7, o programa busca aumentar a presena de pesquisadores brasileiros de todos os nveis de formao nos centros mundiais de excelncia acadmica, bem como atrair jovens talentos para trabalhar no Brasil.

    Gri co 6 - Distribuio de bolsas implementadas do Programa Cincia Sem FronteirasFonte: Programa Cincia Sem Fronteiras. Disponvel em: . Acesso em:

    30 set. 2014.

    O programa implementou, desde o incio das atividades em 2011, 75.168 bolsas nas diversas modalidades, de graduao a pesquisa-dor visitante. O grosso dos recursos (60.344 bolsas) destinado ao envio de alunos de graduao em forma de bolsa sanduche, ou seja, o aluno

    6 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.7 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    possui vnculo com instituio brasileira e faz parte de sua formao no exterior. Na sequncia temos as modalidades de doutorado sanduche (7.158 bolsas) e ps-doutorado (3.840 bolsas), o que indica a preocupao com a aquisio de contedo em instituies de ponta. Evidente que um programa dessa natureza passvel de equvocos e de crticas8, mas parece ir ao encontro da orientao geral de garantir intercmbio com as pesquisas consideradas de ponta, em especial nas reas de exatas e biolgicas.

    Alm destes programas especi cos para a pesquisa e o ensino supe-rior, preciso reconhecer que os diversos governos, desde o i nal do sculo passado, vm procurando aumentar os investimentos na rea da Educao. Muito em funo da presso da sociedade, expressa entre outras coisas na prpria Constituio Federal de 1988. Cabe problematizar em que medida os investimentos conseguem garantir no s uma educao de qualidade9 que forme para a cidadania e que tambm garanta recursos humanos qualii cados para o mercado de trabalho, especialmente para Pesquisa e Desenvolvimento.

    Gri co 7 - Histrico da Estimativa do Percentual do Investimento Pblico Total em Educao em Relao ao Produto Interno Bruto (PIB), por Nvel de Ensino - Brasil 2000 - 2011Fonte: Inep/Mec. Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

    8 A ttulo de exemplo, ver artigo sobre a crtica da comunidade cienti ca sobre o uso de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cienti co e Tecnolgico (FNDCT) para o programa: . Acesso em: 30 set. 2014.9 Sobre o conceito de analfabetismo funcional, ver o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf ) desenvolvi-do pelo Instituto Paulo Montenegro e Ao Educativa. Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    Os investimentos totais em educao (todos os nveis) em relao ao PIB subiram de 4,7% em 2000 para 6,1% em 2011. A educao bsica teve a maior variao, de 3,7% em 2000 para 5% em 2011. J o ensino mdio subiu de 0,6% em 2000 para 1,1% em 2011, enquanto o ensino su-perior icou praticamente nos mesmos patamares, de 0,9% em 2000 para 1% em 2011. Evidente que os dados aqui no esto desagregados e, por-tanto, no possvel identiicar o peso dos investimentos exclusivamente federais, representados pelo Reuni e Prouni citados acima, por exemplo10. Mas esses dados nos servem para indicar um problema j discutido por di-versos estudiosos: sair da luta contra o analfabetismo para a oferta de quali-dade de educao para todos, aumentando o percentual de brasileiros com ensino superior. E principalmente aumentar a quantidade de proissionais envolvidos com P&D, tanto no setor pblico quanto no setor privado.

    De todo modo, esse quadro sinttico do estado da arte em CT&I e Educao possibilita avanar na proposio geral deste artigo: o que querem as diversas foras polticas com estas reas, em particular com CT&I? Vamos olhar isso com mais ateno.

    PARA ONDE VAIS? (quo vAdis?)

    Resgatando as duas vertentes de proposies para CT&I que identiicamos no incio do texto, cabe agora analisar o que elas propem frente ao quadro apresentado. No plano do discurso poltico e eleitoral, to-dos concordam com a necessidade de aumentar a ateno com a Educao na execuo dos programas de governo (ainda que no exista consenso so-bre aumentar o seu inanciamento), bem como aumentar a interao entre universidade e mercado. Mas os caminhos para atingir esses objetivos no so os mesmos.

    A orientao liberal, coerente com a mxima de gastos focali-zados e ajustes iscais, prope uma reduo substancial do nmero de uni-dades universitrias pblicas e de professores-pesquisadores em dedicao exclusiva. Nessa abordagem, fundamental usar os recursos da rea para desenvolver centros de excelncia, com professores remunerados conforme

    10 Poderamos citar ainda o aporte de recursos da Finep, agora caracterizada como agncia de inovao: de R$ 120 milhes em 2003 para R$ 12 bilhes em 2014. Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    o seu desempenho, sem a rigidez da legislao do funcionalismo pblico. Na outra ponta, a orientao dirigista compreende como fundamental a expanso do Complexo Pblico de Pesquisa, garantindo o desenvolvimento regional por meio da descentralizao espacial das universidades federais. Os programas de fomento pesquisa e de intercmbio internacional, alm da ampliao dos inventivos iscais para empresas desenvolverem inovao, so vistos como indispensveis para aumentar a participao brasileira no cen-rio mundial e de aproximao universidade-empresas. Vamos analisar como estes dois modelos se expressam nas propostas apresentadas pelos principais candidatos Presidncia da Repblica em 2014.

    A. dilmA roussEff

    A candidata reeleio, como era de se esperar, props o aper-feioamento dos programas e projetos j existentes, alm de outras metas mais genricas. Em linhas gerais, a candidata defendia em seu programa11 a necessidade de construir uma sociedade do conhecimento, procuran-do desburocratizar o setor no sentido de aumentar a competitividade da economia brasileira. Uma proposta para viabilizar isso a implantao de plataformas do conhecimento, onde haveria espao para ampla interao entre cientistas, instituies de pesquisa e empresas. H tambm a indica-o para uso futuro dos recursos advindos a explorao da camada pr-sal de petrleo, destinando 75% dos royalties dessa explorao para Educao. H uma meno genrica expanso do programa Cincia Sem Fronteiras, avaliado como um dos principais programas dessa rea executados no pri-meiro mandato. Mesmo sem citar no texto, o Governo Dilma trabalhou com a meta de atingir o percentual de 2,5% do PIB em investimentos de CT&I, conforme a fala do ministro citada no incio do artigo.

    B. Acio nEvEs

    O candidato do PSDB indicou em seu programa12 a necessidade de criar um Sistema Brasileiro de Inovao ou a implementao de um

    11 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.12 Disponvel no site da Justia Eleitoral: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    Sistema Nacional de Cincia, Tecnologia e Inovao com marcos legais apropriados, j que na sua avaliao o arcabouo legal existente impr-prio e faz o pas perder competitividade, porm no detalha quais seriam as impropriedades legais. Sugere que o percentual de investimentos em relao ao nosso PIB deve ser por volta de 2%, para icar prximos dos patamares dos pases desenvolvidos ou de desenvolvimento recente. A arti-culao dos parques tecnolgicos, o apoio s incubadoras de empresas ino-vadoras, a revitalizao do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, a expanso do Cincia Sem Fronteiras e o dilogo com o setor privado, alm da aproximao dessa poltica com a de Educao, poderiam garantir o aumento da competitividade de nossa economia.

    c. mArinA silvA

    A candidata do PSB, que pretendeu atribuir ao seu programa de governo13 um carter participativo e renovador, foi de fato o mais de-talhado dos aqui analisados. O eixo do programa que trata dessa poltica inicia reconhecendo os avanos na primeira dcada do sculo (j que este partido foi o responsvel pelo MCTI, at sua sada da base governista em 2013), destacando o aumento do nmero de matrculas no ensino supe-rior e os incentivos advindos da Lei de Inovao, alm dos diversos fundos setoriais voltados a essa poltica. Mas crtica o abandono da prioridade da pasta nos ltimos anos, e tambm prope a elevao do percentual do PIB para mais de 2% destinados poltica. Ela tambm critica o que entende ser inseguranas jurdicas presentes na Lei de Inovao e outros marcos legais da rea, igualmente sem especiicar, e reforar os mecanismos de internacionalizao da cincia & tecnologia, como a contratao de pro-fessores estrangeiros e o envio de estudantes ao exterior via Cincia Sem Fronteiras. Em relao Educao, o programa indica que nesse espao que se formar os futuros pesquisadores e empreendedores, e a formao de professores aptos a trabalhar com as novas tecnologias, especialmente a telefonia celular e a internet, de extrema importncia.

    13 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    d. dEmAis cAndidAtos

    Os demais candidatos presidncia no apresentaram propostas, ou apenas citaram poucas linhas em seus planos de governo. Jos Maria Eymael (PSDC) faz breve meno a apoio pesquisa tanto em seu aspecto de investigao pura, como no campo da investigao aplicada14. Eduardo Jorge (PV), Pastor Everaldo (PSC) e Levy Fidelix (PRTB) no fazem ne-nhuma meno em seus programas, bem como os candidatos da esquer-da Luciana Genro (PSOL), Jos Maria (PSTU), Mauro Iasi (PCB) e Rui Pimenta (PCO). Em relao a estes quatro ltimos, podemos supor que a ausncia de referncias poltica de CT&I seja fruto de uma abordagem marxista que compreende essa rea como um vetor da reproduo ampliada do capital, logo a transformao radical da sociedade levaria s profundas mudanas na forma de gerir educao, cincia e tecnologia. De todo modo, causa certa estranheza esta ausncia em seus programas de governo, uma vez que Marx, Engels e muitos dos seus seguidores atribuam enorme importn-cia compreenso do papel da cincia e da tecnologia na sociedade15.

    considErAEs finAis

    Olhando em conjunto, vemos que as diferenas entre as propos-tas no so muito grandes, gravitando mais em torno de crticas pontuais a alguns aspectos da gesto da poltica de PC&I dos Governos Lula e Dilma. Chega, inclusive, a ser notvel o reconhecimento (mesmo que indireto) daquilo que avaliam ser os acertos dos ltimos governos, como a interna-cionalizao de nossa cincia e os esforos para aumentar o inanciamento dessa poltica. Todos apostam que o aumento dos recursos para CT&I e a aproximao com o setor empresarial criar por si s uma dinmica que poder acelerar o crescimento econmico. Essa congruncia de posies refora nossa sugesto de que os principais atores sociais que atuam nessa rea partilham de uma viso ofertista de cincia & tecnologia, segundo o qual o Estado deve garantir as condies do desenvolvimento cientico

    14 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014. 15 Sem entrar muito nessa questo, basta apenas lembrar que O Capital foi originalmente dedicado a Charles Darwin (que declinou da homenagem por bvias questes polticas), e que Engels escreveu o seu Dialtica da Natureza propondo interpretar os conhecimentos da poca luz das suas teses polticas.

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    e tecnolgico neutro, cabendo ao setor privado a alocao dos recursos para transformar conhecimento em inovao e crescimento econmico.

    Colocado nestes termos, podemos supor que a poltica de CT&I continuar nos prximos anos seguindo o caminho dos defensores da neutralidade, tanto a dos liberais quanto a dos desenvolvimentistas16. Nesse diapaso, cincia e tecnologia so esferas autnomas que possuem uma legalidade prpria, uma busca objetiva de acordo com os paradig-mas estabelecidos, que no podem admitir interferncias externas em seu desenvolvimento. Os atores do setor cientico que partilham desta viso parecem minimizar, quando no desprezar solenemente, as diversas abor-dagens de apropriao social da cincia e da tecnologia.

    O princpio da apropriao social da C&T considera que a din-mica prpria do setor no est apartada das grandes questes sociais, por-tanto o conhecimento no neutro ou desinteressado. Muitos produtos que chegam a ns no trilharam a nica via possvel de desenvolvimento, mas foram opes sociais e econmicas feitas a partir de alternativas tecno-lgicas (DAGNINO, 2008).

    Apesar da sociedade contempornea estar repleta de produtos gerados pelas prticas de CT&I, a imensa maioria dos cidados com-preende essas ltimas como atividades esotricas e distantes do dia-a-dia (HAYASHI; SOUSA; ROTHBERG, 2011). Tecnologia Social, como forma de aportar solues modernas e de baixo custo para problemas do nosso cotidiano, no pode ser confundido apenas com formas de atender populaes carentes ou em regies subdesenvolvidas. Esta abordagem faz a crtica ao modelo tradicional de P&D, propondo formas sustentveis e solidrias de desenvolvimento (JESUS; COSTA, 2013).

    Excetuando as breves passagens no programa de governo apresen-tado por Marina Silva, nenhuma candidatura indicou preocupao com esta abordagem de PCT&I. verdade que o governo federal criou uma Secretaria Nacional de Economia Solidria, cujo secretrio desde 2003 o professor Paul Singer, grande defensor das formas alternativas de economia

    16 Tambm deixaremos de lado o debate, fundamental, sobre a natureza desse novo desenvolvimentismo, ou neodesenvolvimentismo. Sugerimos, entre outras, a leitura de Alves (2014).

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    e de tecnologia social17. Mas ica evidente nos programas apresentados que uma abordagem dessa natureza tende a icar marginal ante o mainstream da comunidade cientica. Esta tende a reivindicar junto os governos, quer liberais quer desenvolvimentistas, uma poltica de CT&I que esteja ali-nhada s teses da autonomia da cincia e da aproximao das tecnocincias com o mercado. Considerando as peculiaridades do desenvolvimento da cincia brasileira, cujo papel do Estado foi desde sempre central, os atores da comunidade de pesquisa tentam no s manter relativa autonomia das polticas da rea, como tambm propor meios de quebrar a rigidez da bu-rocracia estatal. Isso explica porque o modelo de Organizao Social (OS), que surgiu no advento das Reformas de Estado desenvolvidas na dcada de 1990 por governos liberais, teve na comunidade cientica um forte defen-sor (CARLOTTO, 2013).

    O problema, apontado pelos Estudos de Cincia, Tecnologia e Sociedade (ECTS), que a forma como esto estruturadas as economias de desenvolvimento recente (como a brasileira) prescindem de estratgias convencionais de extrao de mais-valia relativa, aliceradas em tecnologia de ponta. Para capitalistas da periferia, basta inluenciar as polticas cam-biais, de comrcio exterior e de concesso de subsdios setoriais para conse-guir manter a captura da riqueza nacional (DAGNINO, 2010).

    Podemos concluir que, salvo uma mudana brusca nos rumos atuais que pudesse por exemplo atribuir maior peso para modalidades de tecnologia social (ou, no sentido oposto, diminuir as verbas pblicas para a rea em uma ampla poltica liberal de restrio iscal), a expanso das polticas de CT&I, mesmo signiicativas, continuaro a encontrar seus li-mites nesta estrutura perifrica de nossa economia. Mudar a compreenso da poltica de CT&I implicaria rediscutir o prprio sentido do desenvol-vimento brasileiro, nos moldes do que foi feito na obra de Celso Furtado e outros pensadores do mesmo quilate, mas a qualidade dos debates na ltima campanha presidencial no deixa muitas esperanas de que retoma-remos rpido essa importante tradio.

    17 Disponvel em: . Acesso em: 30 set. 2014.

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    rEfErnciAs

    ALVES, Giovanni. Neodesenvolvimentismo, choque de capitalismo e precariza-o do trabalho no Brasil. In: CORSI, Francisco et al. Economia e sociedade: o Brasil e a Amrica Latina na conjuntura de crise do capitalismo global. Marlia: Oicina Universitria; So Paulo: Cultura Acadmica, 2014. p. 23-41.

    BEZERRA, Carolina Marchiori. Inovaes tecnolgicas e a complexidade do sistema econmico. So Paulo: Cultura Acadmica, 2010.

    CARLOTTO, Maria Caramez. Veredas da mudana na cincia brasileira: discurso, institucionalizao e prticas no cenrio contemporneo. So Paulo: Editora 34, 2013.

    DAGNINO, Renato. Neutralidade da cincia e determinismo tecnolgico. Campinas: Ed. Unicamp, 2008.

    ______. Por que os nossos empresrios no inovam?. In: DAGNINO, Renato (Org.). Estudos sociais da cincia e tecnologia e poltica de cincia e tecnologia: abor-dagens alternativas para uma nova Amrica Latina. Campina Grande: Ed. UEPB, 2010. p. 43-64.

    DIAS, Rafael de Brito. Sessenta anos de poltica cientica e tecnolgica no Brasil. Campinas: Ed. Unicamp, 2012.

    HAYASHI, Maria Cristina; SOUSA, Cidoval Morais de; ROTHBERG, Danilo. Apresentao. In: ______. Apropriao social da cincia e da tecnologia: contribui-es para uma agenda. Campina Grande: Ed. UEPB, 2011. p. 7-13.

    JESUS, Vanessa Brito de; COSTA, Adriano Borges. Tecnologia social: breve re-ferencial terico e experincias ilustrativas. In: COSTA, Adriano Borges (Org.). Tecnologia social e polticas pblicas. So Paulo: Instituto Plis; Braslia, DF: Fundao Banco do Brasil, 2013. p. 17-32.

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    considErAcionEs AcErcA dE lA rEformA ElEctorAl En lA ArgEntinA

    Jorge Szeinfeld

    introduccin

    Desde hace ya mucho tiempo la reforma electoral es uno de los tems ms importantes de la agenda poltica en la Argentina. Tal vez se deba a que la poltica como tal implica necesariamente un estado de reforma constante. A partir de la reinstauracin democrtica en los ochenta y su evolucin en los noventa hasta la crisis de 2001, se cuestion el rgimen democrtico tanto en lo relativo a las instituciones como a los procesos electorales. Surgida de amplios sectores de la sociedad, apoyados por la dirigencia poltica y los medios de comunicacin, las crticas se apoyaron en la exigencia de variantes a la hora de regular la competencia poltica y la distribucin de poder, para lograr un efectivo control de los gobernantes. As como un incremento de la responsabilidad poltica de stos para con sus electores. Se focaliz el reclamo en una mayor participacin popular en la eleccin de aquellos que aspiran a ocupar un cargo pblico. De esta forma, a veces la voluntad popular y su necesidad de cambio se apoyaron en la idea de la reforma.

    A partir de 2009 se instrument una reforma al sistema electoral, de mayor participacin de la ciudadana en la seleccin de candidatos de las fuerzas que se presentaran a la contienda electoral, como cambios

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    signiicativos en la inanciacin de las campaas polticas y modiicaciones para una actualizacin con respecto al Cdigo electoral.

    Actualmente cada partido requiere, tras una fuerte fragmentacin, alianzas que los ayuden a afrontar los desafos electorales que se encuentran a su paso, y donde adems se puede apreciar el surgimiento de nuevos partidos organizados en torno a una igura pblica que se consumen en cortos perodos de tiempo. De esta forma, puede apreciarse como la representacin poltica ha sufrido una transformacin, adquiriendo los partidos polticos una nueva isonoma que entra en disonancia con los conceptos tradicionales relativos a las normas electorales.

    lA dEmocrAciA ActuAl y los PArtidos Polticos

    Como lgicamente puede suponerse, la consolidacin de la democracia en nuestro pas no fue acompaada por una correlativa consolidacin del sistema de partidos. Mientras el sistema democrtico es actualmente visto como la opcin ms acertada para determinar la voluntad popular, los polticos se ven afectados por una prdida de legitimidad que no hace ms que socavar los cimientos de una ediicio de tan slo treinta y un aos de edad. El viejo sistema poltico deinido como bipartidista, con dos electorados claramente deinidos ha perdido cada vez ms adeptos.

    La democracia es el mbito de debate poltico donde se concretan las aspiraciones individuales y los proyectos colectivos. Su inalidad ltima es la instauracin de un gobierno que tenga como estandarte la igualdad y la libertad en todo lo relativo a las polticas pblicas. El adecuado funcionamiento de la dimensin procesal o electoral de la democracia permite al gobierno de turno desarrollar su programa poltico. sta se expresa en normas que contienen tanto aspectos tcnicos como polticos. El respeto a los derechos humanos, a las libertades fundamentales, la celebracin de elecciones peridicas, libres y justas, el rgimen de pluralidad de partidos y organizaciones polticas, son todos elementos esenciales de la democracia representativa. No slo deben respetarse el orden y la normatividad en una sociedad democrtica, tambin deben garantizarse por todos los medios posibles el pleno ejercicio de los derechos polticos as como tambin un contexto electoral idneo como ser:

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    Que la autoridad electoral sea imparcial e independiente.

    El reconocimiento del sufragio igual, universal y secreto.

    Que el resultado de la eleccin releje la voluntad del electorado.

    Que el registro de los ciudadanos se haga sobre la base de su residencia,

    Que se garantice libertad para organizarse polticamente y para postu-larse a cargos pblicos

    Que la competencia de los candidatos est asegurada por un marco de seguridad y coniabilidad institucional, garantizando las libertades de prensa, reunin, difusin de ideas, asociacin y peticin.

    El respeto por los derechos polticos implica necesariamente que el concepto de sufragio y sus implicancias se encuentre determinado para lograr unas reglas de juego ms claras. Desde el ao 1912 el voto es universal, secreto y obligatorio. Que sea universal signiica que todos los ciudadanos gozan de la condicin de electores y de la posibilidad de ser elegidos, no existiendo exclusiones basadas en el sexo, ideologa, riqueza, raza o nivel educativo. Las inhabilitaciones para votar slo pueden estar determinadas por la ley. Que sea secreto implica que no se pueda conocer el contenido del voto emitido, no pudiendo nadie verse obligado a revelarlo. La obligatoriedad del sufragio tiene como intencin reforzar por medio de la coaccin el cumplimiento de los deberes cvicos de los ciudadanos. Asimismo se agregan otros elementos que caracterizan al sufragio como ser la igualdad y la libertad. Que el voto sea igual signiica que tiene el mismo valor el de todas las personas.

    AlgunAs ConsidErAcionEs AcErcA dE lA REformA ElEctorAl

    Existe la creencia, dentro del imaginario popular, de que las reformas electorales generan resultados inciertos, la mayora de las veces contrarios a las supuestas inalidades anunciadas por sus postulantes. No est dems aclarar que estas suposiciones encuentran asidero en el hecho de que los partidos que inician una reforma a menudo pierden bancas o el ejecutivo frente a los partidos que se opusieron a la reforma poltica. Por otro

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    lado, existe la creencia de que las reformas polticas tienen como inalidad la manipulacin de la representacin democrtica dndole a aquellos que las proponen una ventaja poltica. La primera visin ha sido sustentada en el anlisis de casos como el de la Ley Senz Pea que fue promovida por los conservadores posteriormente derrotados. La otra visin se fundamenta en reformas electorales generadas por partidos dominantes para acentuar su control sobre el escenario poltico.

    Las propuestas de reforma en nuestro periodo democrtico, a partir de 1983 apuntaron a la eliminacin de las listas sbanas. Incluso muchos partidos polticos minoritarios han propuesto implementar los distritos uninominales (o la eliminacin de las listas sbanas), bajo la creencia de que una mayor personalizacin es normativamente ms importante para el control del electorado sobre los candidatos. Otros sostienen que existe una mayor validez normativa en la representacin proporcional no obstante la fragmentacin que esto genera en el cuerpo legislativo. Aun cuando algunos propugnan una distribucin de bancas mayoritarias y otra una de tipo proporcional, ambas comparten la presuncin de que ante un determinado porcentaje de votos corresponde un porcentaje de bancas. Se entiende as que nuestro sistema electoral no responde a etiquetas partidarias, siendo imparcial a la hora de asignar bancas, respondiendo pura y exclusivamente a una correlatividad porcentual. Esta frmula repartidora es conocida como sesgo mayoritario.

    Las preferencias de los partidos polticos, as como su condicin de ganador o de perdedor cambian con el paso del tiempo. Aparecen as otro tipo de reformas que otorgan un premio en bancas a un determinado partido en particular. Tienen por inalidad la modiicacin de las reglas electorales para identiicar electorados especicos y as darle un mayor peso en la asignacin de bancas.

    BrEvE REsEA dE los SistEmAs ElEctorAlEs En NuEstro sistEmA fEdErAl

    A travs del anlisis de los diferentes sistemas consagrados en nuestro derecho pblico provincial resumiremos brevemente lo consagrado en nuestro sistema federal.

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    sistEmA ElEctorAl nAcionAl

    La forma en que los votos se expresan en la efectiva representacin, o sea, cmo se traducen los resultados electorales en bancas legislativas se llama Sistema Electoral. Existen distintos sistemas vigentes en cada pas. Los mismos responden a tradiciones culturales e histricas que dan forma a la representacin poltica.

    En nuestro pas, y a nivel de cargos federales, la Constitucin Nacional y el Cdigo Electoral Nacional establecen los sistemas electorales coexistentes para las distintas magistraturas electivas, Presidente, Diputados y Senadores. En primer lugar hay que expresar que el cuerpo electoral es el mismo para todos los cargos, la diferencia entre cargos legislativos y la frmula presidencial radica en que la totalidad de los electores del pas votan por la frmula, mientras que para los cargos legislativos se votan listas distintas para cada distrito.

    Al titular del Poder Ejecutivo Nacional, el Presidente o la Presidenta, se lo elige a simple pluralidad de votos cuando la frmula ms votada obtiene ms del 45% de los votos o ms del 40% con una diferencia mayor al 10% respecto de la frmula que la sigue en nmero de votos; en caso contrario se realiza una segunda vuelta electoral entre las dos frmulas ms votadas, ganando el que obtiene ms votos.

    Para el Senado de la Nacin los electores de cada distrito eligen a tres senadores, alcanzando un total de 72 senadores nacionales. En cada eleccin se renueva un tercio del Senado, esto es, ocho distritos eligen senadores.

    Se aplica el sistema mayoritario, directo y por lista incompleta. Las listas se componen de dos candidatos. Para cubrir los cargos en disputa es decir, las tres bancas, se adjudican dos bancas al partido o alianza que obtenga la mayora de los votos y la restante a la que le sigue en cantidad de votos obtenidos. En esta eleccin no hay frmulas matemticas que aplicar ni porcentajes de distribucin. La simple pluralidad de votos determina quin sale primero y segundo, y entre ellos se distribuye la representacin.

    Para la eleccin de los diputados nacionales, debemos tener en cuenta que la renovacin de la cmara se realiza por mitades y, que a diferencia de los senadores que renuevan completamente la representacin

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    de cada provincia cada seis aos, la eleccin de diputados se realiza en todo el territorio nacional. Cada elector vota nicamente por una lista de candidatos oicializada por un partido o alianza, cuyo nmero de integrantes ser igual al de los cargos a renovar, ms los suplentes.

    El sistema es proporcional que aplica la frmula DHont para la asignacin de las bancas, con un umbral (tambin denominado piso electoral) del 3% del nmero de electores registrados en el distrito.

    Esto quiere decir que, en primer lugar, se toman los votos de cada partido que haya superado el umbral del 3% del padrn y se los divide desde la unidad hasta el total de cargos a elegir; luego, se ordenan los resultados de mayor a menor, sin importar la lista a la que pertenecen, hasta llegar a la correspondiente a la ltima vacante; y inalmente, se toma esta ltima cifra (repartidora) y se la divide por los votos logrados por cada agrupacin, arrojando los cargos que a cada uno correspondern.

    sistEmAs ElEctorAlEs En lAs ProvinciAs ArgEntinAs

    A pesar de la reforma poltica aprobada y promocionada en el ao 2011, el mapa de los sistemas electorales en la Argentina es uno de los ms intrincados del mundo. Se elegir presidente, y adems se renovar la mayora de las gobernaciones y legislaturas provinciales, la mitad de la Cmara de Diputados de la Nacin y un tercio del Senado. Sumada la instancia municipal con comicios para elegir intendentes y/o concejales se pondrn en funcionamiento cerca de 60 combinaciones. Esta situacin es posible dado que la estructura federal del Estado dota a las provincias de la suiciente autonoma como para legislar en materia electoral. El artculo 5to. de la Constitucin Nacional establece que Cada provincia dictar para s una Constitucin bajo el sistema representativo republicano [...] y que asegure su administracin de justicia, su rgimen municipal [...] bajo estas condiciones el gobierno federal garante a cada provincia el goce y ejercicio de sus instituciones.

    Es difcil encontrar en la Argentina dos sistemas exactamente iguales. En el caso de las legislaturas provinciales no se trata slo de 24 sistemas. En los distritos que mantienen el sistema bicameral, cada una de las Cmaras de la legislatura tiene un sistema propio. El sistema unicameral

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    adoptado en la actualidad por la mayora de los distritos no signiica la aplicacin de un solo sistema electoral. Por el contrario, en varios de esos distritos la eleccin de los legisladores se hace por dos sistemas distintos, a pesar de que todos integran el mismo cuerpo. Asimismo, coexisten diversos sistemas electorales para elegir autoridades municipales dado que las instancias locales tienen autonoma, a partir de la Reforma Constitucional de 1994 y en algunas Provincias todava no se implement lo consagrado por dicha reforma (ej. Prov. de Buenos Aires).

    En la legislacin electoral provincial predomina el sistema proporcional, el cual es consagrado en 19 de las 24 constituciones para la conformacin de la cmara baja y las legislaturas unicamerales. En 11 hay distrito nico y en las 8 restantes poseen ms de un distrito, en un rango que va desde 3 en la provincia de Tucumn, hasta 23 en la provincia de Salta. En cuanto a las provincias que cuentan con sistemas bicamerales, en cinco prevalece en la Cmara de Senadores el rgimen uninominal (Entre Ros, Salta, San Luis, Santa Fe, Catamarca), mientras que en las tres restantes rige el sistema proporcional. Por su parte, en dos provincias, Chubut y Santa Fe, rigen sistemas mayoritarios, es decir que consagran la mayora de la cmara al partido ms votado. En la primera se concede 16 escaos sobre un total de 27 miembros y en la segunda, el ganador se lleva 28 de 50 representantes. En las tres provincias restantes, pueden observarse distintas variantes de sistemas mixtos: En Ro Negro se eligen 24 diputados a razn de 3 por cada una de las 8 regiones (o circuitos electorales) mediante el mtodo DHondt, con un piso del 22% de los votos vlidos emitidos. Y 19 legisladores segn representacin proporcional, tomando la provincia en distrito nico. En Santa Cruz, se eligen 14 por circunscripciones uninominales, y 10 en forma proporcional considerando a la provincia como distrito nico. Y en Crdoba, 26 en forma uninominal y 44 en forma proporcional tomando a la provincia como distrito nico.

    En 17 provincias los textos constitucionales permiten una reeleccin consecutiva y luego de un intervalo el mandatario puedo volver a postularse. En la Ciudad de Buenos Aires tambin se aplica esa modalidad. Los distritos en los que no est permitida la reeleccin consecutiva, slo admitida tras un intervalo, son: Santa Fe, Mendoza, Entre Ros y Jujuy.

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    En 2 provincias la reeleccin es ilimitada: San Luis y Catamarca. Al igual que en la eleccin presidencial, en cuatro distritos Ciudad de Buenos Aires, Corrientes, Chaco y Tierra del Fuego se establece el ballotage o segunda vuelta para la eleccin del gobernador. Con respecto a la utilizacin del sistema de Ley de lemas, en la Argentina se lleg a implantar en 12 provincias entre ines de los 80 y principios de los 90. Fue cuando se empez a hablar de crisis de representacin, y se lo present como un sistema que permita ampliar la participacin dentro de los partidos.

    Con este nombre se conoce a este sistema electoral que estuvo vigente por largo tiempo en la Repblica Oriental del Uruguay y que fue adoptado por algunas provincias en la Repblica Argentina. Este particular sistema, es desde el punto de vista del esquema electoral, un sistema de doble voto simultneo y acumulativo. Esto es as porque el elector cuando vota est manifestando una doble voluntad, est votando a favor de un determinado partido o lema y simultneamente esta expresando su voluntad de apoyo a una lista de candidato o candidatos que presentan lema (segn se trate de elegir a los titulares de un rgano unipersonales o colegiados) para ocupar los cargos gubernamentales en disputa.

    Este Procedimiento importa para el votante la decisin simultnea de la eleccin interna del partido que le es ms afn y la eleccin externa en la que se pone en juego el acceso al poder de las personas ms votadas.

    Como sealamos, en este caso esta ley habilita el denominado voto acumulativo, ya que los votos obtenidos por todos los sub-lemas del lema, se acumulan a efectos de determinar cual de los lemas ha sido el ganador de una eleccin.

    Por ello, la aplicacin de este sistema obliga a la realizacin de un doble escrutinio.

    El primero en el interior de cada partido, entre todos los candidatos que hayan participado a in de determinar cul ha sido el ganador, puesto que acumula a su favor todos los votos obtenidos por los dems y se convierte en el candidato del partido. El segundo escrutinio se realiza entre los candidatos de los distintos partidos que se han presentado para establecer cul ha sido el ganador de acuerdo con lo sealado con

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    anterioridad. Al da de hoy, ya la derogaron todas las provincias que la implementaron, menos Formosa y Misiones.

    En Misiones, por ejemplo, la Ley de Lemas se sancion en julio de 1990 y se aplic por primera vez en las elecciones de septiembre de 1991, como mecanismo de eleccin de todos los cargos en el territorio provincial, tanto ejecutivos como legislativos. Sin embargo en agosto de 1996 se modiic y qued en vigencia la Ley de Lemas slo para la eleccin de los cargos municipales (intendentes y concejales). Tenemos que destacar que las Provincias son totalmente autnomas para el llamado a elecciones provinciales y municipales, cuyo Ejecutivo puede convocarlas en fechas diferentes a la eleccin nacional. As en nuestras provincias se convocan en fecha diferente a la eleccin nacional y tambin debemos tener en cuenta que no todas las provincias adoptaron el sistema de internas abiertas.

    intErnAs ABiErtAs, simultnEAs y oBligAtoriAs

    Desde principios de los ochenta hasta el 2009, y por un perodo en 2002 la ley 23.298, se encargaba de regular la organizacin y actividad de los partidos polticos. Segn esta regulacin, los partidos polticos deban tener un estatuto con una base democrtica, abarcando este concepto la eleccin peridica de candidatos a cargos pblicos. Sin embargo, en el aspecto prctico esta disposicin, dejaba un amplio margen de accin a los partidos para estructurar sus mecanismos internos de eleccin de postulantes. Cada partido poltico regul, durante este perodo, en forma autnoma su carta orgnica, as como los requisitos para ser candidato y el procedimiento para la eleccin del representante para las prximas elecciones. En la prctica, los partidos polticos elegan sus candidatos por medio de la voluntad de su lder indiscutido, de varios o a travs de internas partidarias.

    La discrecionalidad de los partidos polticos no slo se limitaba a la resolucin del mtodo a emplear sino que adems abarcaba el momento en cual tendra lugar la decisin. Tal prerrogativa permita delinear las estrategias a seguir de acuerdo a las necesidades del momento. De esta forma, podan seleccionar un candidato con suiciente antelacin, como para demostrar ante la ciudadana una fuerza electoral slida, o

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    por el contrario, dilatar la presentacin de candidatos hasta conocer los candidatos de la oposicin para aprovechar hasta el ltimo momento las negociaciones inter- partidarias.

    El 2 de diciembre de 2009 se sancion la ley 26.571 por medio de la cual se dispuso que a partir de 2011 se aplicara un sistema de internas abiertas para la seleccin de aspirantes a cargos pblicos. Esta ley se denomin Ley de democratizacin de la representacin poltica, la transparencia y la equidad electoral.

    La libertad de organizacin de los partidos polticos as como su autonoma respecto del Estado y del gobierno ha sido universalmente reconocida en las democracias occidentales. Es por ello que en la mayora de tales naciones, se deja librado a los mismos partidos polticos los procesos de seleccin de las candidaturas, no estando sujetos a ninguna prescripcin legal.

    Por otro lado, debe tenerse en cuenta que las organizaciones partidarias han concentrado una enorme cantidad de poder e inluencia en las decisiones polticas, siendo protagonistas centrales en los aspectos sociales, econmicos y gubernamentales. Como consecuencia, se ha considerado indispensable un aumento en el control de estas organizaciones.

    Desde la reinstauracin en nuestra democracia ininterrumpida, que hoy lleva ms de 31 aos, uno de los cuestionamientos ms importantes que la ciudadana se hace incluyendo a las mismas dirigencias partidarias- es acerca de las instituciones y los procesos electorales vigentes.

    Como lo establecen Mara Ins Tula (TULA, 2004),

    [...] se ha manifestado a travs de la exigencia de cambios en las nor-mas que regulan la competencia poltica y la distribucin del poder, de manera de garantizar una mayor responsabilidad de los elegidos frente a sus electores, una vigencia efectiva de mecanismos de control de los gobernantes por los votantes, y una autntica participacin popular en la designacin de los gobernantes a los cargos pblicos.

    En los ltimos aos hemos asistido a la consolidacin de una democracia competitiva en la Argentina que no ha sido acompaada de una consolidacin en su sistema de partidos.

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    Ello se explica, debido a que la mayora de los polticos han sido afectados por una creciente prdida de legitimidad y los partidos polticos -en forma concomitante- se han reestructurado profundamente, mientras la democracia se mantiene constante como el nico rgimen de gobierno.

    La imagen de un sistema poltico bipartidista representando a dos electorados claramente deinidos, ha ido resquebrajndose y en los ltimos aos observamos que la gran fragmentacin partidaria impone costos elevados a la formacin de coaliciones legislativas. En un contexto de crisis poltica y econmica, la legitimidad de los partidos fue duramente cuestionada, el debilitamiento de los mecanismos institucionales de control democrtico favorecieron el surgimiento de estrategias clientelares.

    Entre los temas trascendentes la ley modiica y regula la publicidad electoral y el inanciamiento de las campaas electorales. Crea el sistema de las elecciones primarias abiertas simultneas y obligatorias. Moderniza el Cdigo Nacional Electoral y modiica artculos relevantes de la Ley Orgnica de Partidos Polticos (23.298) .

    Por iniciativa del poder ejecutivo, el Congreso sancion por mayora absoluta la reforma poltica.

    Entre sus puntos principales destacan:

    Realizacin de primarias para la seleccin de candidatos.

    La obligatoriedad del voto en las elecciones primarias.

    Primarias Abiertas simultneas y obligatorias para todos los partidos que postulen precandidatos para nominar a cargos electivos nacionales.

    Se votar con el mismo padrn que el de la eleccin general.

    Se establece un piso de votos para participar de las elecciones generales.

    cAmBios En El FinAnciAmiEnto dE CAmPAAs ElEctorAlEs

    Regulacin de la publicidad de radio y televisin, bajo criterios de igualdad para todos los partidos polticos.

    Financiamiento exclusivo por parte del Estado.

    Nadie podr contratar publicidad audiovisual por su cuenta.

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    Se acortarn las campaas electorales a 50 das para la eleccin general y 30 das para las primarias.

    La publicidad en los medios audiovisuales ser de 20 das en las primarias.

    La distribucin del inanciamiento ser del 50% para todos los parti-dos de manera igualitaria y 50% de acuerdo al resultado de la eleccin anterior.

    modErnizAcin dEl cdigo ElEctorAl nAcionAl.

    Uniicacin de mesas femeninas y masculinas.

    Reduccin de votantes por mesa.

    Modernizacin y digitalizacin del registro de electores.

    Creacin del registro nico permanente de autoridades de mesa.

    Creacin del cuarto auxiliar de boletas.

    Modiicacin de la ley orgnica de partidos polticos.

    Mayor control por parte de la justicia sobre el mnimo de ailiados por partido poltico.

    Ser requisito mantener un mnimo de ailiados.

    Para constituir partidos se necesitarn ailiados permanentes, en lugar de adhesiones.

    No podrn ser candidatos quienes estn procesados por crmenes de lesa humanidad.

    Remarca que en las elecciones generales slo podrn participar las agrupaciones que hayan obtenido en las primarias el 1,5% de los votos vlidamente emitidos.

    PArtidos Polticos

    El requisito para ser reconocido como partido poltico es tener el 4 por mil de ailiados de acuerdo al padrn electoral.

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    La aplicacin de distintos colores en las boletas con el in de evitar confusiones

    Las agrupaciones que no alcancen el 2% de padrn electoral del distri-to perdern su personera.

    La eleccin primaria se realizar el segundo domingo de agosto del ao que se realice el comicio general, cuya fecha de realizacin seguir siendo la del cuarto domingo de octubre

    Reduce a 8 das la prohibicin para publicar los resultados de encuestas y a 15 la prohibicin de realizar actos inaugurales de obras pblicas o promocin de planes y proyectos de alcance colectivo y otro acto de gobierno que pueda promover la captacin del sufragio a favor de cual-quiera de los candidatos a cargos pblicos

    En deinitiva la lamante legislacin, plantea la consolidacin de los grandes partidos polticos nacionales y brinda una fuerte solidez a todos los partidos polticos que cumplan con los requisitos legalmente establecidos.

    La ley tiene 4 ejes fundamentales y consta de 110 artculos (los ltimos 7 referidos a disposiciones transitorias).

    I. La modiicacin de la Ley Orgnica de Partidos Polticos (arts 1 a 17).

    II.Implementacin de un sistema de elecciones primarias, abiertas, si-multneas y obligatorias (arts. 18 a 46).

    III.Modiicacin de la Ley de Financiamiento de los Partidos Polticos (arts. 47 a 71).

    IV.La modernizacin del Cdigo Electoral Nacional (arts. 72 a 103).

    PArtidos Polticos (ttulo i)

    Este primer ttulo modiica la Ley Orgnica de Partidos Polticos -Ley 23.298-. Especicamente con el establecimiento de nuevos requisitos

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    para su reconocimiento, criterios de caducidad y principios de inhabilidad para presentar candidaturas.

    Las principales son:

    A. Requisitos para el reconocimiento de partidos polticos. Para obte-ner la personera jurdico-poltica deinitiva y mantenerla, los partidos en formacin deben acreditar la ailiacin de un nmero de electores no inferior al 4%0 del padrn del distrito. Se busca de esta manera garantizar la existencia de una efectiva voluntad de los irmantes para la constitucin del partido. (Art. 3 y 4)

    B. Requisitos para la constitucin de partidos nacionales. Los partidos de distrito que deseen ser reconocidos como partidos de orden nacional, debern ser reconocidos en al menos 5 distritos diferentes. (Art. 5)

    C. Constitucin de Alianzas. Pueden conformar una alianza dos o ms partidos polticos, quienes debern requerir su reconocimiento hasta 60 das antes de la eleccin primaria. Para continuar funcionando jun-tos luego de la eleccin general, los partidos debern conformar una confederacin. (Art. 6)

    D. Constitucin de Confederaciones. Para la constitucin de confede-raciones entre partidos polticos, se requerirn los mismos requisitos que para la constitucin de un partido. La confederacin subroga los derechos polticos y inancieros de los partidos integrantes. (Art. 7)

    E. Fusin de partidos. Se regula el procedimiento de fusin entre par-tidos que maniiesten esta voluntad, tanto para la coniguracin de un nuevo partido como para el mantenimiento de la vigencia de uno de ellos. En caso de continuar uno de ellos, el mismo asumir los ailiados, las obligaciones y los derechos de los otros partidos fusionados (Art. 8)

    F. Ailiaciones. Se prohbe la doble ailiacin. Se habilita un servicio de telegramas gratuito para renuncias. El registro de ailiaciones es pbli-co y debe ser subido a Internet. (Art. 11, 12 y 13)

    G. Delitos de lesa humanidad. Personas con auto de procesamiento por delitos de lesa humanidad no podrn ser candidatos a cargos p-blicos electivos ni a cargos partidarios. (Art. 15)

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    H. Caducidad de los partidos. Perdern la personalidad poltica los partidos que:

    a) no realicen internas partidarias durante el trmino de 4 aos; b) no se presenten en forma justiicada a dos elecciones nacionales; c) no alcancen en dos elecciones sucesivas el 2% del padrn electoral

    del distrito respectivo; d) no mantengan el piso de ailiacin mnimo. (Art. 16).

    I. Extincin Los ailiados a un partido extinguido por sentencia irme, slo puedan componer hasta el 50% de los ailiados a un nuevo parti-do. (Art. 17)

    PrimAriAs ABiErtAs, simultnEAs y oBligAtoriAs (P.A.S.O. ttulo II)

    Aqu se implement un sistema de elecciones primarias abiertas, simultneas y obligatorias a nivel nacional.

    Los puntos destacados son:

    A. Primarias abiertas, simultneas y obligatorias nacionales para la se-leccin de candidatos a cargos pblicos electivos nacionales y de parla-mentarios del MERCOSUR.

    Se realizarn en forma simultnea en todo el territorio nacional el se-gundo domingo de agosto. La convocatoria estar cargo del PEN con una antelacin no menor a los 90 das previstos a la realizacin de su eleccin. (Art. 19 y 20)

    B. Avales para la designacin de precandidaturas a Senadores, Diputados naciones y parlamentarios del MERCOSUR. Las precandi-daturas debern estar avaladas por un nmero de ailiados no inferior al 2%o del padrn general de cada distrito electoral, o por un nmero mnimo de ailiados equivalente al 2% del padrn de ailiados de la agrupacin poltica o de la suma de los padrones de los partidos que la integran, en el caso de alianzas. (Art. 21)

    C. Avales para la designacin de precandidaturas a Presidente y Vicepresidente de la Nacin. Las precandidaturas debern estar avala-das por un nmero de ailiados no inferior al 1%o del padrn general,

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    domiciliados en al menos 5 distritos, o al 1% del padrn de ailiados de la agrupacin poltica o de la suma de los padrones de los partidos que la integran, en el caso de alianzas. (Art. 21)

    D. Electores. Deben votar todos los ciudadanos que iguren en el pa-drn electoral nacional. Los votantes podrn emitir un solo voto y para una sola agrupacin poltica. (Art. 23 y 24)

    E. Presentacin y oicializacin de listas. Las listas de precandidatos de-bern presentarse ante la Junta Nacional Partidaria hasta 50 das antes de la eleccin. La Junta tendr 48 horas para aprobarlas u observarlas, y su resolucin podr ser apelada en el trmino de las 48hs. (Art. 26, 27, 28, 29).

    F. Duracin Campaa Electoral. Se establece un plazo de 30 das para la duracin de la campaa y de 20 das para la publicidad en medios audiovisuales y de radiodifusin. Ambos plazos inalizan 48 horas pre-vias al acto eleccionario. (Art. 31)

    G. Financiamiento Campaa Electoral. Las agrupaciones polticas no podrn superar en las Primarias el 50 % del lmite de gastos de campa-a previsto para las elecciones generales, como as tampoco contratar publicidad en forma privada, ya que el Estado distribuir la pauta pu-blicitaria en partes iguales entre las listas oicializadas por cada agrupa-cin poltica. (Art. 32, 33, 34)

    H. Proclamacin de candidatos para elecciones generales. Se podr oi-cializar una precandidatura para la eleccin general cuando la agrupa-cin poltica obtenga un total de votos igual o superior al 1,5 % de los votos vlidamente emitidos en el distrito. (Art. 45)

    finAnciAmiEnto dE lAs cAmPAAs ElEctorAlEs (ttulo III)

    Modiica el inanciamiento de los partidos polticos y sus campaas electorales. El punto central de la reforma prev la prohibicin del aporte privado para las campaas publicitarias en medios audiovisuales, que slo podrn ser inanciadas por el Estado. Temas destacados:

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    A. Responsables del Partido. Amplia a 2 el nmero de responsables econmicos-inancieros del partido. (Art. 48)

    B. Creacin de un fondo ijo y constancia de operacin. Las erogacio-nes en efectivo se instrumentarn a travs de un fondo ijo y -de su-perar los 1.000 mdulos- debern estar documentadas a travs de una Constancia de Operacin para Campaa Electoral. (Art. 49 y 50).

    C. Aporte para impresin de boletas. El Ministerio del Interior otor-gar a las agrupaciones polticas que oicialicen candidaturas el equiva-lente a una boleta y media por elector registrado en cada distrito antes era slo una. (Art. 53)

    D. Distribucin de aportes para la campaa electoral (Art. 54).

    Eleccin presidencial:

    a) 50% del monto asignado por el Presupuesto en forma igualitaria entre las listas presentadas.

    b) 50% del monto asignado por el Presupuesto se distribuir entre los 24 distritos en proporcin al total de electores de cada uno. Luego, se distribuir a cada agrupacin en forma proporcional a la cantidad de votos que hubiera obtenido en la eleccin primaria.

    Eleccin de Diputados: el total de los aportes se distribuye entre los 24 distritos en proporcin al total de electores. De ese monto, el 50% se distribuye en forma igualitaria entre las listas presentadas y el otro 50% en proporcin a la cantidad de voto que hubiera obtenidos en la ltima eleccin primaria.

    Eleccin de Senadores: el total de los aportes se distribuye entre los 8 distritos en proporcin al total de electores. De ese monto, el 50% se distribuye en forma igualitaria entre las listas presentadas y el otro 50% en proporcin a la cantidad de voto que hubiera obtenidos en la ltima eleccin primaria.

    E. Publicidad en campaa. Establece la prohibicin de contratar pu-blicidad en medios audiovisuales y de radiodifusin por parte de las agrupaciones polticas, ya que la misma ser otorgada y inanciada ex-

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    clusivamente por el Estado Nacional. La pauta ser distribuida exclu-sivamente por el Ministerio del Interior, de acuerdo a los siguientes criterios: 50 % por igual entre todas las agrupaciones polticas y el 50 % restante de manera proporcional a la cantidad de votos que la agru-pacin poltica hubiera obtenido en la ltima eleccin a diputados. (Art. 56 y 57)

    F. Financiamiento privado de campaa electoral. Se prohbe toda do-nacin o contribucin por parte de personas de existencia ideal. (Art. 58)

    G. Encuestas sondeos de opinin. Se crea un registro de encuestadores y empresas de sondeo de opinin que llevara adelante la CNE. Las empresas que no se registren y no cumplan con los requisitos estable-cidos no podrn difundir sus estudios por ningn medio. (Art. 59). Lmites a la publicacin de encuestas: 8 das antes de las elecciones generales, ningn medio de comunicacin podr publicar resultados de encuestas, sondeos de opinin o pronsticos electorales, ni referirse a sus datos. (Art. 59).

    H. Lmite a los gastos de campaa. El gasto no podr superar el mon-to resultante al multiplicar el nmero de electores habilitados por un mdulo electoral. (Art. 60)

    conclusionEs

    Considero que los conceptos elementales abordados a lo largo del presente trabajo, servirn para analizar con ms detalle una ley que tiene por objetivo acompaar la manera de hacer poltica en la Argentina del Siglo XXI.

    La denominacin de la Ley 26.571 De la democratizacin poltica, la transparencia y la equidad electoral, podra parecer a primera vista un profundo cambio en la calidad institucional en la Argentina. Considero que se han planteado metas muy altas pero resta mucho para lograr el objetivo deseado. Esto ha quedado demostrado en los incesantes planteos realizados por los diferentes actores polticos, tanto a favor como en contra.

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    Si pudiramos hacer un paralelismo con la historia electoral de nuestro pas, esta reforma es tan importante como la Ley 8871 de 1912, denominada Senz Pea por el Presidente que la propuso y sancion. La misma incertidumbre que se observaba ante la inminente aplicacin a principios de la primera dcada del siglo XX, se advierte hoy casi un siglo despus. Esta ley produjo cambios sustanciales, como ser consagr el votos, secreto universal e igualitario, con un fuerte control en materia de padrones electorales. Por otra parte se abri el camino para la consagracin de una importante participacin social y nueva representacin de sectores que procuraban ser parte de la vida poltica argentina.

    La actual ley electoral propuso como objetivos bsicos:

    Aumentar la representatividad de los partidos polticos.

    Profundizar la democracia al interior de los partidos.

    Transparentar el inanciamiento de la poltica.

    Promover la equidad y la transparencia del proceso electoral.

    En el primer punto la nueva ley trat y consigui acotar el nmero de partidos, con algunas restricciones pertinentes. La realidad mostraba en el 2009 que existan ms de 656 partidos, 45 bloques legislativos en la Cmara de Diputados y 24 en la de Senadores.

    Desde la crisis de 2001, el sistema de partidos no fue estable y hubo factores que alentaron a la fragmentacin, como la implosin de los dos grandes partidos que aglutinaban a diferentes fuerzas sociales en su seno. En las elecciones de 2003, el peronismo present tres listas diferentes; algo similar sucedi con el radicalismo, la UCR present su lista oicial, pero hubo candidatos radicales por fuera del partido como Elisa Carri con el ARI (Airmacin para una repblica de iguales) y Ricardo Lpez Murphy con RECREAR.

    Los mecanismos y reglas institucionales como la ley 26.571, son instrumentos vlidos para dotar de mayor estabilidad al sistema. Una menor fragmentacin va a contribuir con una mayor representatividad

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    de los partidos polticos y va a favorecer a otra de sus funciones, la de fortalecerlos como agregadores de intereses.

    La nueva ley incrementa los requisitos que los partidos polticos deben lograr y continuar cumpliendo para obtener y luego mantener la personera jurdico-poltica.

    Estas barrera legales para la creacin y supervivencia de los partidos polticos seguramente contribuyen a reducir los incentivos de los actores polticos para formar nuevas agrupaciones.

    Generando un proceso en el que un sistema de partidos estable y menos fragmentado sea en un contexto de mayor prediccin y previsibilidad para lograr la construccin de acuerdos legislativos.

    Asimismo, este contexto favorece la representacin de los partidos y la transparencia de sus propuestas, fortaleciendo sus vnculos con la sociedad.

    Por otra parte, es necesario aclarar que el incremento de los requisitos que se extienden en el tiempo para mantener la personera jurdica, slo atacar el problema del nmero o cantidad de partidos desde ese nico aspecto, porque la reforma no modiica la magnitud de los distritos, la frmula electoral ni la estructura del tipo de boleta.

    Los criterios de exclusin para las personeras jurdico-polticas, la ailiacin y el nmero de votos logrados, marcan claramente la representacin del partido. Estos criterios entrecruzan la historia -relejada en las ailiaciones- y la actualidad medida en la cantidad de votos obtenidos. Para eludir estas barreras, los partidos debern realizar alianzas, pero stas debern ser permanentes, pues las barreras lo son; otorgndose incentivos para la mantencin de las alianzas y pudindose lograr en el futuro como objetivo de mxima la consolidacin y estabilizacin del sistema de partidos. Es interesante remarcar que desde la vigencia de la ley en las 2 contiendas electorales que se llevaron a cabo, se presentaron los partidos polticos en alianzas como Frentes, y la verdadera utilizacin de las PASO se utiliz en el 2013 para la eleccin de legisladores en la Ciudad Autnoma de Buenos Aires en el Frente UNEN (cuatro partidos polticos presentaron sus candidatos) llevndose una eleccin que ejempliico el sistema consagrado de primarias.

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    La ley tiene como objetivo, segn el legislador, democratizar la seleccin de los candidatos, por lo tanto, profundizar la democracia al interior de los partidos. Y aumentar la representatividad de los partidos polticos al reconstruir los puentes entre stos y la sociedad civil.

    Al mismo tiempo, se alienta la renovacin de las cpulas partidarias y una creciente politizacin de la ciudadana y su involucramiento en lo poltico-partidario.

    Las PASO son un cambio radical en el procedimiento de eleccin de candidatos para la eleccin general.

    stas son obligatorias para toda agrupacin poltica (part. polticos, confederaciones o alianzas) que desease luego participar en la eleccin general. Y, tambin, son obligatorias para todos los electores, al igual que la eleccin general.

    Estas nuevas elecciones primarias se realizarn el segundo domingo de agosto del ao en que se celebren las elecciones generales.

    La designacin de los precandidatos es exclusiva de los partidos polticos, que mantienen el monopolio sobre las candidaturas, pero en el caso, de que haya ms de un precandidato por partido ya no sern slo los ailiados de ese partido los que decidan el orden en la lista o cul ser la frmula que lo represente, sino que sern todos los electores habilitados para votar en el padrn general. Quienes podrn emitir un solo voto por categora de cargos a elegir, pero podrn elegir entre listas de los diferentes partidos polticos, es decir, podrn cortar boleta.

    Respecto a este ltimo punto, cabe aclarar que las listas espejos o colectoras son posibles en las PASO. Los precandidatos slo pueden presentarse por un partido poltico o agrupacin y para una sola categora, pero nada dice sobre la cantidad de listas internas del mismo partido y en la misma categora en la que puede presentarse. Es decir, que un mismo precandidato, por ejemplo, a presidente de la Nacin de un partido, puede repetirse en el mismo cargo en otras boletas del mismo partido con otros precandidatos a diputados o senadores. Tema que la sociedad como la opinin pblica, se mostraron contrarios en elecciones pasadas que s las habilitaba.

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    La situacin es completamente distinta para las elecciones generales, pues, la ley es taxativa: Las agrupaciones polticas debern presentar una sola lista por categora, no admitindose la coexistencia de listas aunque sean idnticas entre las alianzas y los partidos que la integran.

    Este nuevo procedimiento, las PASO, se propone como un mecanismo obligatorio para todos los partidos o alianzas de partidos que deseen luego presentarse en las elecciones generales.

    As, este mecanismo puede promover el combate al faccionalismo dentro de los partidos, evitando que los perdedores de la interna de un partido puedan presentarse por fuera de ste en las elecciones generales.

    Las facciones debilitan a los partidos polticos, entonces una ley como esta fortalece a los mismos, no permitiendo ir a las elecciones generales a los que no se presentaron o perdieron en las PASO.

    O, por efecto contrario, sincera divisiones insoslayables al interior de los partidos atrapa-todo, incentivando en el futuro nuevos posibles partidos que permitan una mayor gobernabilidad y que eviten la polarizacin del sistema o la suma cero.

    Esta ley puede distribuir incentivos para romper el movimientismo y que se creen partidos con una mayor coherencia ideolgica que permita un nuevo sistema de partido ms estable con nuevas correlaciones de fuerzas. Por estos motivos, no pareciera ser la intencin de la ley favorecer el bipartidismo, sino avanzar hacia un sistema de partidos pluripartidista de tres o cinco partidos con poder para formar un bloque legislativo que acuerde polticas pblicas.

    Los umbrales propuestos por la ley (1,5% de los votos vlidamente emitidos en el distrito) para participar en las elecciones generales son muy bajos y facilitan la dispersin y, por lo tanto, uno de los problemas del federalismo electoral argentino, la alta fragmentacin de la Cmara de Diputados.

    Una exigencia superior en torno al piso requerido, adems de favorecer la capacidad de un partido para formar acuerdos en la Cmara de Diputados, reforzara los logros de achicamiento del nmero de partidos.

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    Por lo anterior, la nueva ley no establece un nico procedimiento para la seleccin de candidatos, sigue siendo el partido el que ubica los puestos en las listas de candidatos a senadores y a presidente y vice de la Nacin. Slo se podrn alterar el orden de los candidatos a diputados nacionales, aplicando cada partido el sistema de distribucin de cargos que establezca cada carta orgnica partidaria o el reglamento de la alianza partidaria, cuestin que ya ocurra, pero que demuestra la falta de reglamentacin de un sistema de reglamento nico para las primarias, ya que aquellos partidos que en su Junta Electoral tiene preminencia, sancionan un reglamento que favorezca a su fraccin, por encima del espritu que el legislador fundament para la realizacin de las elecciones.

    Sin bien las internas son ahora primarias, abiertas y sobretodo simultneas, proporcionar un nuevo concepto. Los candidatos ya no le hablarn solamente al ailiado, sino que dirigirn su discurso a todo el electorado, incluyendo por supuesto, al votante independiente, porque ser una competencia interna y externa a la vez.

    El voto en el anterior mecanismo de seleccin de candidatos, de interna cerrada o abierta, pero no obligatoria y simultnea, en un alto porcentaje se corresponda con una identidad partidaria.

    En este nuevo escenario institucional, la tendencia de los resultados en las PASO inluir en los resultados futuros de las elecciones generales.

    El voto en las PASO en un alto porcentaje podra corresponderse con una identiicacin personal con el candidato, que luego se supone se trasladara a la eleccin general.

    De este modo, las PASO no contribuyen al debate interno por imponerle al partido un resultado general en una instancia de seleccin interna. Es decir, que el debate de ideas dentro de los partidos -con las PASO como marco- estara moldeado por el logro de un resultado ante competidores externos a esos partidos.

    Con respecto a la inanciacin quedar a cargo del Ministerio del Interior por medio de la Direccin Nacional Electoral quien otorgar, el ao en que se realicen las PASO, un monto para los partidos polticos que presenten candidaturas en las mismas, equivalente al 50 % del que

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    le corresponder, por aporte de campaa para las elecciones generales. Adems, otorgar a cada partido poltico los recursos que le permitan imprimir el equivalente a una boleta por elector. Ambos aportes sern entregados a los partidos polticos.

    Es decir, que sumados los gastos de todas las listas internas de un partido poltico o alianza no podrn superar el 50 % del gasto general del partido para las elecciones generales, segn la Ley de Presupuesto General de la Administracin Nacional. Adems, todas las listas tendrn el mismo gasto, pues los aportes del Estado se reparten en partes iguales, segn la ley.

    Por lo tanto, una lista no oicialista, que no tiene el apoyo de la cpula partidaria, y, en consecuencia del aparato, est en una doble desventaja, porque ni siquiera puede realizar una gran campaa de apoyo e instalacin de su candidato, ya que la ley le prohbe la contratacin privada de publicidad poltica durante la campaa.

    Estas nuevas reglas, no prevn las posiciones de poder en la que se encuentran los candidatos de la cpula partidaria. No hay una visin del poder relativo y asimtrico para luego buscar la igualdad. Entonces, nos encontramos con una medida, claramente pro status quo y que desalienta la iniciativa y la creatividad. Porque todos los actores (las listas internas) son tomados como iguales en la relacin de poder y se los iguala en sus posibilidades de gastos. Cuando es notorio que los precandidatos oicialistas largan la carrera con un margen superior que los opositores.

    El precandidato interno que detenta la estructura de una institucin obtiene un poder superior al del resto de sus competidores porque posee los resortes de la cpula partidaria para otorgar cargos menores en la estructura de poder del partido.

    A lo anterior, se le debe sumar que los aportes pblicos sern otorgados a las autoridades partidarias, un 20% a las nacionales y un 80% a las de distrito. Adems, quedar en manos de las autoridades partidarias la impresin y distribucin de las boletas. Siendo sta parte interesada. Por lo cual, se coloca a las listas internas opositoras en otra potencial desventaja.

    En consecuencia, no se logran ni se garantizan, para todos los actores, condiciones de igualdad para la competencia interna.

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    Dada esta situacin, difcilmente se cumplan los objetivos de democratizar la seleccin de candidatos y el de profundizar la democracia al interior de los partidos. Contrariamente, se podra obtener un resultado opuesto al declarado.

    Con respecto a la utilizacin de publicidad, nos encontramos con variables que aparejan desventajas a los candidatos de la oposicin.

    Primero, los partidos polticos y sus listas internas no podrn contratar en forma privada publicidad en emisoras de radio o televisin. Se otorga el 50% de los espacios entre todos los partidos polticos y el 50% restante en forma proporcional a la cantidad de votos obtenidos en la eleccin general anterior de diputados nacionales.

    A su vez, los partidos polticos distribuirn los espacios determinados a cada uno en partes iguales entre las listas internas oicializadas.

    Los Art. 34 y 35 constrien fuertemente los mrgenes para los actores, otorgndoles nuevamente mayor poder a las cpulas partidarias porque son stas las que van a distribuir los espacios publicitarios a las listas internas. Esta limitacin estatal, centraliza el juego de la discusin de ideas, cuestin bsica para una sociedad pluralista, tendiendo a favorecer a una de las partes internas.

    Segundo, acta sobre la doble competencia, otorgando a los precandidatos del partido de gobierno una ventaja frente a los precandidatos de los partidos de oposicin, pues los primeros junto al gobierno detentan a los medios estatales de comunicacin para difundir los actos oiciales y las obras pblicas del gobierno. Es simple visualizar los contenidos de propaganda oicialista en medios propios, como as tambin el utilizado en programas televisivos (ej. Ftbol para Todos) donde claramente se viola el espritu que tiene la ley de que la publicidad se pareja a todos los frentes que se presenten en elecciones.

    Este desbalance ya no podr equipararse porque los partidos de oposicin, sus listas y sus precandidatos no podrn contratar publicidad en forma privada en los medios masivos de comunicacin (televisin y radio).

    Adems, el desbalance entre precandidatos oicialistas y de oposicin es mayor an, pues los actos de gobierno y su publicidad

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    operan constantemente durante la gestin. En cambio, los precandidatos opositores deben instalarse en los 30 das de campaa electoral.

    En consecuencia, es factible que el objetivo de reconstruir los puentes entre los partidos polticos y la sociedad civil no se logre, y probablemente se obtenga un mayor distanciamiento entre la sociedad civil y la sociedad poltica.

    En tercer lugar, las PASO imponen a las listas internas un inmenso desafo de iscalizacin. Hacia el interior de los partidos, se espera que la estructura partidaria posea la cantidad de iscales necesarios frente a las listas opositoras de todos los partidos y sus listas juntos. Asimismo, este sistema de votacin otorga ventajas a las listas que cuenten con el apoyo del gobierno nacional o provincial que pueden proveer iscales. Reforzndose an ms el poder de los gobernadores y la estabilidad que lograron luego de las reformas electorales provinciales durante la dcada de los 90.

    Por ltimo, la ley, parte de un precepto errneo para propender a lograr condiciones de igualdad para la competencia, no se debe tratar a todos los actores como iguales. Porque la autoridad partidaria es parte de la competencia interna. Por lo tanto, la relacin de poder es asimtrica.

    Con respecto a la competencia simultnea, la Direccin Nacional Electoral, tampoco es neutral, es parte interesada y puede tener un manejo estratgico del reparto de los fondos pblicos.

    Todos estos mecanismos descriptos atentan contra el in de regular equitativamente la competencia electoral. Por lo tanto, las PASO slo lograrn funcionar como freno al faccionalismo pero difcilmente funcionen para profundizar la democracia al interior de los partidos, para aumentar su representatividad ni para promover la equidad del proceso electoral interno.

    BiBliogrAfA

    BASTIDA FREIJEDO, Francisco (Coord.). La representacin poltica. Asturias: Ed. Universidad de Oviedo, 2004.

    CALVO, Ernesto; ESCOLAR, Marcelo Escolar. La nueva poltica de partidos en la Argentina. Buenos Aires: Ed. Prometeo Libros, 2005.

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    A conjuntura econmica e poltica

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    CHERESKY, Isidoro. La poltica despus de los partidos. Buenos Aires: Ed. Prometeo Libros, 2006.

    FAYT, Carlos S. Sufragio y representacin poltica. Buenos Aires: Ed. Libreros, 1963.

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    O`DONELL, Guillermo. Disonancias: crticas democrticas a la democracia. Buenos Aires: Ed. Prometeo, 2007.

    SARTORI, Giovanni. Elementos de teora poltica. Buenos Aires: Ed. Astrea, 1992.

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    TULLIO, Alejandro. Las elecciones nacionales en la Argentina. Buenos Aires: Ed. Prometeo Libros, 2008.

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    VANOSSI, Jorge Reinaldo. Los sistemas electorales: sus consecuencias polticas y partidarias. Buenos Aires: Ed. Fucade, 1986.

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    lA rEstriccin EnErgticA ArgEntinA: un AnclA PArA su crEcimiEnto sostEnido?

    Gabriel Balbo

    EscEnArio ActuAl

    El crecimiento econmico de Argentina ha sido sostenido desde 2002 hasta 2012, desacelerndose desde entonces. Durante este perodo no se habra desarrollado una poltica energtica explicita y actualmente la energa necesaria para mantener la senda de crecimiento est en discusin, ms que nada considerando la fuerte dependencia de los hidrocarburos que presenta la matriz energtica.

    El presente trabajo pretende primeramente exponer la situacin actual del sector energtico en el pas, teniendo en consideracin la oferta primaria de energa, la transformacin de esa oferta, para su conversin en oferta secundaria de energa, y su consumo inal. Se realizar hincapi en la dependencia de combustibles fsiles y en la estructura de transformacin de energa, considerando el tipo de demanda inal a satisfacer.

    Seguidamente se plantearn los distintos condicionantes que tiene el Estado en materia energtica en la bsqueda de optimizar la composicin de la matriz.

    Finalmente se relevar que tipo de herramientas y acciones de poltica pblica en el plano cientico- tecnolgico se estn utilizando/

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    realizando dentro del sector energtico en Argentina que apunten a su fortalecimiento.

    situAcin dEl sEctor EnErgtico En ArgEntinA

    lA EcuAcin EnErgticA

    El anlisis del sector energtico de un Estado puede hacerse considerando que su estructura se asemeja a una ecuacin con tres variables independientes que se deben manejar para lograr el resultado esperado: la provisin necesaria de energa para el funcionamiento de la sociedad y de la economa. As, la primera variable la representan las fuentes de energa primaria, cuyo valor est determinado por la capacidad y disponibilidad de generar recursos energticos y/o adquirirlos en el mercado: la produccin de petrleo y gas, la generacin de energa a partir de recursos hdricos, la extraccin de uranio, la produccin de aceite para biocombustibles, la obtencin de energa elica y solar y/o la importacin de cualquiera de estos productos primarios son los trminos a considerar.

    La segunda variable la conforma la etapa de transformacin de la energa primaria en energa secundaria, que es el paso necesario que debe darse entre la mayora de la oferta de energa primaria y el posterior consumo inal por los diferentes sectores econmicos, de acuerdo con la modalidad tipo de este consumo (que puede ser energa elctrica, gas, derivados del petrleo, etc.).

    La tercera y ltima variable es, justamente, la cantidad y forma de energa utilizada por el consumidor inal, que vara desde la utilizacin de energa elctrica (primordialmente de uso residencial, comercial e industrial), el uso de gas (residencial e industrial) el uso de derivados del petrleo (uso en el transporte y en el agro) y/o el uso (reciente) de biocombustibles (volcados principalmente a los cortes de combustibles derivados del petrleo). Dentro de este trmino tambin debe considerarse la eiciencia energtica.

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    Grico 1: Estructura del balance energticoFuente: OLADE-SIEN (2004).

    ofErtA PrimAriA dE EnErgA. imPortAntE dEPEndEnciA dE hidrocArBuros

    A partir de la lectura de los Balances energticos anuales desde 2001 hasta 2013, se puede apreciar que la produccin primaria de energa en Argentina ha venido en declive, llevando al pas a importar en 2013 el 12% del total de su oferta primaria (un total de 5.292 miles de TEP1 de gas natural y 3.157 miles de TEP de insumo para energa nuclear).

    La principal razn de esta situacin se debe a la cada de la pro-duccin local de hidrocarburos: tanto el petrleo como el gas han mer-mado en su volumen durante el perodo considerado. En tal sentido, la disminucin de la produccin de petrleo ha sido mucho ms signiicativa (2001: 40.089 MTns2, 2013: 28.728 MTns) no obstante sigue an rep-resentando una porcin ms que importante dentro del total de la pro-duccin local de energa primaria, especicamente un 33%. Actualmente las reservas argentinas de petrleo convencional alcanzan las 311.114,16 MTns, lo que equivale a 11,4 aos de produccin, de acuerdo a la proyec-cin de los actuales niveles3.

    En tanto que el gas natural tambin ha mermado su produccin entre 2004 y 2013 aunque porcentualmente en menor medida que el 1 TEP: Toneladas equivalentes de Petrleo2 MTns: miles de toneladas3 Disponible en: y . Acceso en: 12 jan. 2015.

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    petrleo (41.878 MTEP4 vs 38.789 MTEP). Desde la visin contable, esta cuestin ha llevado a que su participacin dentro del total de la oferta primaria nacional de energa se incremente (actualmente es del 45%). Las actuales reservas gasferas alcanzan los 328.260 MMm35 (295.434 MTEP), equivalentes a 7,9 aos de produccin.

    Tanto la produccin de petrleo como de gas, durante el perodo considerado han mermado principalmente a partir de las polticas de las operadoras privadas. En tal sentido, las perforaciones de pozos han sido mnimas hasta el ao 2012, donde YPF, la principal petrolera argentina, vuelve a manos del Estado y reactiva la exploracin y explotacin.

    Desde el ao 2006, debido a los mayores requerimientos de energa, se comenz a importar gas, tano para alimentar las centrales trmicas generadoras como para incrementar la oferta de gas distribuido por redes; esta prctica se ha agudizado en los ltimos aos, habindose alcanzado en 2012 un pico de importacin de 7.537 miles de TEP de gas, equivalentes al 9% de la oferta primaria total (en 2013 han sido 5.292 miles de TEP los que se han importado).

    Es por dems signiicativo que el 85% de la oferta total de energa (incluyendo la energa importada) corresponda a petrleo y gas natural.

    EnergaHidrulica4%

    GasNatural45%

    Petrleo33%

    Otros

    IMPORTACIONNuclear4%

    IMPORTACIONGasNatural6%

    IMPPetrleo1%

    OFERTAPRIMARIATOTALDEENERGAAO2013:86.163MTEP

    Grico 2: Oferta primaria total de energaFuente: Elaboracin propia, en base a datos de Balances Energticos, Secretara de Energa.

    4 MTEP: Miles de Toneladas equivalentes de Petrleo, TEP: Toneladas equivalentes de Petrleo5 MMm3: Millones de metros cbicos.

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    Dentro del resto de fuentes primarias, la energa hidrulica ha observado en el perodo considerado un desempeo estable, con una ligera tendencia descendente, lo que releja el estancamiento existente en materia de nuevas inversiones e incremento de capacidad de generacin de este tipo de recurso. Actualmente representa el 4,2% de la oferta primaria total de energa (3.619 miles de TEP en 2013) y contribuye con el 31% del total de energa elctrica generada (ver grico N4).

    En cuanto a la energa nuclear, el insumo utilizado es el uranio, mineral que fue extrado hasta el ao 1996 de yacimientos argentinos, principalmente del de Sierra Pintada en San Rafael, Mendoza, para alimentar las centrales de Atucha I y la Central Nclear Embalse. Ese ao se discontinu la actividad extractiva por considerarla no rentable (el precio del uranio estaba muy bajo), y a partir de entonces y hasta la actualidad se importa en su totalidad, principalmente desde Kazajistn. Existen actualmente acciones para reactivar la extraccin de uranio en el pas (la CNEA ha recibido autorizaciones para hacerlo en, por ejemplo, la provincia de La Rioja), no obstante hay que considerar el fuerte rechazo de los ambientalistas a esta actividad6.

    Por ltimo, es muy signiicativo el avance en la produccin de aceite como insumo para la fabricacin de biocombustibles, alcanzando en 2013 un 2,6% del total de la oferta primaria. La tendencia de produccin es creciente y, como se podr apreciar en el siguiente apartado, con importante repercusin en la participacin porcentual de las aceiteras en la estructura de transformacin de energa.

    6 Reactivan la minera de uranio en Chubut y La Rioja, en Peridico El Inversor Energtico y Minero (22 set. 2014) , Resistencia a la minera de uranio (13 mayo 2014), en y Por primera vez, Argentina producir uranio enriquecido a escala industrial, en INFOBAE, 30 junio 2014 . Acceso en: 13 enero 2015.

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    Gri co 3: Oferta primaria de energa versus Consumo + Transformacin, en miles de TEPFuente: Elaboracin propia, en base a datos de Balances Energticos, Secretara de Energa.

    trAnsformAcin. EstructurA ActuAl APoyAdA En El gAs

    La transformacin de energa en Argentina ha crecido slo un 18% en el perodo 2001-2013, contrastando signii cativamente contra un crecimiento del PIB del 82% para el mismo perodo.

    En el segmento petrolero, las capacidad nominal de rei nado no ha observado grandes variaciones durante los ltimos aos: ms all de limitados incrementos de capacidad de las actuales, la ltima rei nera de envergadura inaugurada ha sido en el ao 1960 (Campo Duran, en la provincia de Salta). Actualmente se estara operando al mximo de las posibilidades de las instalaciones productivas para poder proveer al mercado interno7. Est en los planes de empresarios locales un proyecto de nueva rei nera a ubicarse en Baha Blanca8, que ampliara en un 2% la actual capacidad (costo estimado USD 650 millones).

    En lo que respecta al tratamiento y distribucin de gas, la capacidad de produccin est directamente ligada a la cantidad de insumo o produccin primaria, ya que el gas requiere cuestiones mnimas de transformacin, en donde se separan (recuperan) los hidrocarburos lquidos compuestos (gasolina y naftas) los productos no energticos (carbono) y

    7 Disponible en: . Acceso en: 2 jan. 2015.8 Disponible en: . Acceso en: 2 jan. 2015.

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    los distintos componentes puros (gas etano, propano, butano o mezcla de ellos)9. S toma relevancia la distribucin de este hidrocarburo, an ms considerando grandes distancias entre los yacimientos y los centros de consumo.

    En lo que respecta a la generacin elctrica de energa, se debe tener en consideracin las distintas modalidades de transformacin. As, las centrales elctricas se dividen entre las trmicas (que funcionan primordialmente a gas), las hidroelctricas y las centrales nucleares, existiendo en cantidades mucho menores generacin elctrica elica y fotovoltaica .

    TERMICA,75.692,63%

    HIDRAULICA,37.269,31%

    NUCLEAR,4.691,4%

    EOLICA,557,0,5%IMPORTACION,1.288,1%

    GENERACINDEENERGAELCTRICA(ENE/NOV14)(total:119.510GWh=10.276MTEP)

    Grico 4: Generacin de energa elctrica por tipoFuente: Elaboracin propia, en base a datos de CAMMESSA.

    La generacin trmica de electricidad proviene de la combustin de gas, derivados del petrleo y/o carbn. Posee como ventajas sobre otras formas de generacin que la construccin de centrales implican costos ms accesibles, tiempo de construccin corto, tecnologa bien desarrollada y energa limpia en el caso de centrales de ciclo combinado10.

    Actualmente el 63% del total de la matriz elctrica argentina est sostenido en la produccin de centrales trmicas, primordialmente a partir del consumo de gas. Se destacan por su tipo aquellas centrales de ciclo

    9 Disponible en: . Acceso en: 2 jan. 2015.10 Las centrales trmicas pueden ser: turbo vapor (consumen petrleo o gas), turbo gas, diesel y de ciclo combi-nado (ciclo de gas y ciclo de vapor).

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    combinado, siguiendo en importancia las turbo gas y las turbo vapor. Las siguientes son las centrales ms relevantes dentro del SADI11:

    Cuadro 1: Principales centrales trmicas del pas

    En lo que respecta a la explotacin de los recursos hdricos, Argentina tiene actualmente una capacidad de produccin estimada de 11.100 MW, que aportan al sistema elctrico 41.000 GWh anuales. Como fue mencionado ms arriba, en los ltimos aos no se ha invertido en mayor capacidad para generacin hidrulica: las actuales presas se encuentran concesionadas para la explotacin por operadores privados, los que no han tenido incentivos para aumentar la capacidad de produccin12. Asimismo, considerando una cartera de proyectos factibles, el Estado Nacional tiene actualmente que sortear condicionamientos adicionales para llevar adelante grandes obras hdricas. Asi, debe considerarse que a partir de la Reforma Constitucional de 1994 el derecho originario sobre los recursos es de las 11 SADI: Sistema Argentino de Interconexin12 Malinow (2013) seala que en [...] la dcada del 90 del siglo XX, [...] se concesion la explotacin de las cen-trales hidroelctricas ejecutadas por el Estado Nacional, sin tomar las previsiones necesarias para la ampliacin del sistema de generacin hidroelctrica.

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    provincias, que pueden entonces anular un proyecto; la autodeterminacin de los pueblos y el derecho a un medioambiente sano tambin han sido introducidos como derechos en la Reforma, por cuanto ambas cuestiones se vuelven adversas a la concrecin de los nuevos proyectos.13

    Otra de las cuestiones (no menor) a considerar es la falta de fuentes de inanciamiento para la consecucin de las obras. Se propone, entre otras, el impulso de fondos especicos que inancien este tipo de emprendimientos.

    Cuadro 2: Principales centrales de generacin hidrulicaFuente: Elaboracin propia, en base a datos de CAMMESSA.

    En relacin con obras en ejecucin y proyectos en proceso licitatorio, la Secretara de

    Energa prev sumar al sistema elctrico argentino (conocido como SADI) 4.538 MW de potencia en aprovechamientos hdricos, los que representan un incremento en la energa generada en 17.644 GWh/ao.

    13 Pereyra (2014) seala en tal sentido que La oposicin existente en torno a la temtica hidrulica sostiene los aspectos adversos de su impacto ambiental y proclama que la hidroelectricidad produce ms inconvenientes que soluciones. Una de las crticas ms fehacientes se encarga de sealar que del costo total de la construccin de represas, solo el 20% de l es destinado a atender la problemtica socio ambiental, mientras que el 80% restante se enfoca en el aprovechamiento del recurso.

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    Cuadro 3: Proyectos de Aprovechamientos hdricos en ejecucin y en pro-ceso licitatorio

    La generacin nuclear representa actualmente el 4,4% del total de la matriz elctrica y tiene como importante hito la incorporacin durante 2014 de una tercera planta al sistema elctrico (Atucha II) con una potencia de 745 MW. El sector nuclear est asimismo avanzando en la construccin de un pequeo reactor de 60MW de potencia (el CAREM25), con lo cual se pretende proveer de electricidad en el futuro a pequeas poblaciones.

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    A conjuntura econmica e polticabrasileira e argentina

    Gri co 5: Transformacin de energa. (2001 vs 2007 vs 2013)Fuente: Elaboracin propia, en base a datos de Balances Energticos, Secretara de Energa.

    consumo. imPortAntE incrEmEnto dEl consumo rEsidEnciAl

    El consumo total de energa entre 2001 y 2013 ha crecido un 39%, muy por debajo del crecimiento del PIB, que en ese mismo perodo aument un 82%. Por sobre el comportamiento general de consumo se distingue el uso residencial (incremento del 68%), el uso agropecuario (67%) y el uso comercial y pblico de la energa (59%). Se ini ere que el mayor uso agropecuario tiene su causa en la mayor actividad del sector y que tanto los incrementos en el uso residencial como comercial y pblico estn acompaando el ritmo de la economa y se benei cian de unos menores precios relativos de la energa elctrica, la ms utilizada por estos sectores.

    Como se puede observar en el gri co N6, en el periodo 2001-2013 el uso residencial ha incrementado su participacin en el total del consumo energtico, ha descendido el consumo no energtico (uso de fuentes energticas como materias primas o productos de uso i nal diferente

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    al energtico14) y no se observan grandes cambios porcentuales en el resto de los sectores econmicos.

    Gri co 6: Consumo de energa por sectores econmicos. Participacin en el totalFuente: Elaboracin propia, en base a datos de Balances Energticos, Secretara de Energa.

    condicionAntEs dE lA PolticA EnErgticA ArgEntinA En lA ActuAlidAd

    El shAlE oil y El shAlE gAs: lA grAn EsPErAnzA dEl AutoBAstEcimiEnto En El corto PlAzo

    A partir del panorama que se presenta en los anteriores apartados sobre la ecuacin energtica argentina, se pueden trazar algunas lneas de comportamiento que estaran condicionando las acciones de poltica en energa.

    14 EJEMPLO: Industria petroqumica, produccin de solventes, lubricantes, aromatizantes, etc

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    A conjuntura econmica e poltica

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    As, la primer cuestin que surge y probablemente la ms determinante, es la necesidad de incrementar la obtencin de recursos primarios, sobre todo aquellos sobre los cuales se apoya la matriz energtica argentina: se ha apreciado el muy corto perodo de tiempo que representan las reservas actuales de petrleo y gas.

    En este sentido, el descubrimiento del yacimiento de gas y petrleo no convencional de Vaca Muerta, en la provincia de Neuqun, otorgara la posibilidad de incrementar signiicativamente la potencial produccin de hidrocarburos. Esta lnea de accin tiene como aspecto muy positivo la recuperacin del autoabastecimiento en el corto plazo (se estima que en 2017 ya se podra dejar de importar gas y petrleo) y un horizonte de muchos aos de crecimiento sin restricciones de energa.

    Como atenuante del uso de la tecnologa de fracking para la extraccin de hidrocarburos surgen las cuestiones de poltica medioambiental, que consideran este tipo de metodologa de explotacin muy nocivo para el medio ambiente. As, se ha prohibido el fracking en muchos pases del mundo y se torna imprescindible asegurar una explotacin segura de los recursos.

    Se puede conjeturar que por detrs de la prohibicin en determinados lugares (como por ejemplo Francia) lo que subyace es un sustento diferente de la poltica energtica nacional. En tal sentido, el pas galo viene realizando una fuerte apuesta en la energa nuclear, apoyando su matriz energtica en un 41% sobre este tipo de generacin, siendo el gas un 15 % y el petrleo un 33% del total.

    lA EnErgA hidroElctricA. El frEno dEsdE lA PolticA mEdioAmBiEntAl o dEsdE lA AusEnciA dE unA AdEcuAdA EstructurA finAnciErA?

    Ms all de la utilizacin de combustibles fsiles, surge como una alternativa de gran potencial para Argentina la generacin de energa hidroelctrica. As, como se ha visto, actualmente se tiene un inventario de posibles aprovechamientos hdricos plausibles de ser explotados a partir de la construccin de presas, con un potencial de generacin de 17.644

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    KWh anuales, equivalentes al 13% de la actual demanda anual de energa elctrica del pas.

    Se trata de un recurso renovable, una energa limpia y que otorga estabilidad y lexibilidad para la atencin de las demandas.

    No obstante lo mencionado, existe una fuerte oposicin a este tipo de emprendimientos, especialmente desde el punto de vista medioambiental local por cuanto se generan daos tanto a nivel ecosistema como desde el punto de vista social, interesando el derecho de los pueblos que son deslocalizados por los anegamientos de tierras que producen las presas.

    La virtual ausencia de este tipo de obras pblicas durante los ltimos 15 aos obedecera no solamente a la (falta de) decisin poltica de llevar a cabo estas obras y asumir el costo (poltico) de deslocalizar pequeas poblaciones aledaas a las presas, sino que se debe sumar tambin la ausencia de una estructura inanciera conveniente para los desarrolladores (lease crditos para construir y formas de repago de las obras).

    lA EnErgA nuclEAr. unA APuEstA A rEcuPErAr El tiEmPo PErdido

    A partir de la reactivacin del Plan Nuclear Argentino se ha puesto manos a la obra en la recuperacin del ciclo entero de produccin de combustible nuclear, se ha inalizado y puesto en marcha la central Atucha II y se avanza en la construccin del CAREM, un reactor de menores dimensiones para uso en pequeas ciudades.

    La energa nuclear es la nica fuente de generacin que puede ubicarse en el lugar de la demanda obviando problemas de transporte de la energa, Desde este punto de vista se presenta como una de las mejores soluciones, dada la mencionada extensin geogrica del territorio argentino y los mayores costos que representa el transporte.

    Desde el punto de vista medioambiental, se trata de una energa limpia considerando la correcta disposicin de los residuos. Se requerira aclarar algunas dudas de la opinin pblica al respecto para lograr mayores apoyos a este tipo de energa.

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    brasileira e argentina

    Argentina tiene las condiciones de tecnologa para poder avanzar en la construccin de nuevas plantas nucleares, tiene una historia nuclear que comenz en 1950 durante el gobierno del presidente Pern.

    lA BioEnErgA. grAn imPulso dE los BiocomBustiBlEs

    La generacin de biocombustible a partir de cereales y caa es una importante alternativa con la que cuenta Argentina y, en tal sentido, el Estado Nacional apoya el desarrollo de esta tecnologa con medidas concretas, como la obligacin de contemplar un determinado corte de biocombustibles en las naftas y en el gas oil: actualmente los cortes son del 10%, tanto para las naftas como para el gasoil y se pretende alcanzar el 20% en el futuro. De acuerdo con el crecimiento que tenga el sector de bioenerga, ser factible crecer en estos porcentajes de corte. Actualmente la produccin local de biodiesel se realiza en 22 plantas, mientras que el bioetanol se produce principalmente en 5 grandes establecimientos.

    lA EficiEnciA EnErgticA. gAstAr mEnos Es tAn rElEvAntE como gEnErAr ms

    La eiciencia energtica15 se presenta como un gran megayacimiento oculto de valor energtico que se va formando con los ahorros producidos por mejoras en la utilizacin de los recursos energticos disponibles. As, al hacer una mejor utilizacin de los avances tecnolgicos y al cambiar pautas de comportamiento se logran alcanzar ahorros muy importantes, ajustando la ecuacin energtica en la variable del consumo inal.

    Al respecto, existe desde 2007 el Programa Nacional de Uso Racional y Eiciente de la Energa (PROUREE), destinado a contribuir y mejorar la eiciencia energtica de los distintos sectores consumidores. El Programa se apoya en lneas de accin en educacin y concientizacin sobre pautas de consumo de energa, en beneicios promocionales para

    15 Se deine a la eiciencia energtica como la utilizacin de la misma cantidad de energa para proporcionar mayor cantidad de bienes y servicios, lo que equivale al uso de menor energa para la misma dotacin de bienes y servicios. (TRENTADUE; CARRANZA, 2014).

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    empresas que implementen mejoras de eiciencia energtica16, en reemplazo masivo de lmparas incandescentes por lmparas de bajo consumo, en la realizacin de diagnsticos de desempeo energtico en industrias para identiicar oportunidades de mejora e implementarlas, en mejoras de la gestin del transporte pblico, entre otras.

    Se puede ver por ejemplo que con el reemplazo de lmparas incandescentes por lmparas de bajo consumo, se estara logrando un ahorro de 2000 GWh anuales17, equivalentes al 1,5% del consumo total actual de energa elctrica.

    En el sector Transporte se ha avanzado en la implementacin de buses de transito rpido (BRT por sus siglas en ingls), que implican una fuente de mejora en la eiciencia energtica no directamente ligada al uso de la tecnologa. Actualmente el sistema est funcionando en la ciudad de Buenos Aires y existen proyectos para desarrollarlo en otras ciudades del pas18.

    PolticAs dE cyt PArA lA mEjorA dEl sEctor EnErgtico

    Desde el punto de vista de la generacin de polticas pblicas en Ciencia y Tecnologa para mejorar la ecuacin energtica, se pueden distinguir las siguientes acciones:

    El fondo ArgEntino dE EficiEnciA EnErgticA

    El denominado Fondo Argentino de Eiciencia Energtica- FAEE fue desarrollado por la Secretaria de Energa a partir del apoyo de recursos (USD 15,155 millones) derivados de la donacin realizada por el Fondo para el Medio Ambiente Mundial (FMAM) y girados a travs del Banco Mundial. Del monto mencionado se han destinado USD 7,7 millones a proyectos vinculados con el ahorro y la cogeneracin de energa

    16 Las empresas que veriiquen la implementacin de mejoras en el uso de la energa son plausibles de recibir un Certiicado de Eiciencia Energtica, que les permite mejor acceso a inanciamiento promocional para mejoras tecnolgicas.17 Reemplazo de lmparas incandescentes por LFCs, lmparas compactas luorescentes . Acceso em: 12 enero 2015.18 Randazzo anunci que se construir un metrobus en Santa Fe (17/12/14) . Acceso em: 13 enero 2015.

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    en PYMES, fondo que es administrado por la Secretara de Pequea y Mediana Empresa y Desarrollo Regional SEPYME (Ministerio de Industria) en convenio con la Secretara de Energa (Ministerio de Planiicacin).

    El FAEE contempla adems 2 componentes adicionales, a saber: 1. Desarrollo de un Programa de Eiciencia Energtica en empresas distribuidoras de energa elctrica, y 2.

    Fortalecimiento de capacidades en Eiciencia Energtica y gestin del Proyecto.

    El Fondo administrado por SEPYME, denominado FONAPYME Eiciencia

    Energtica, ha realizado especial hincapi en el inanciamiento de [...] proyectos de inversin que lleven a una mejora de la eiciencia energtica [...] mediante la adquisicin de nuevas tecnologas ms eicientes, cambios en los procesos productivos, y cualquier otra accin que lleve a una reduccin en el consumo de energa.19

    En el sentido mencionado, son considerados de carcter prioritario los proyectos con las siguientes implicancias: 1. Eiciencia en sistemas trmicos (vapor, agua caliente, hornos y/o

    secadores).2. Eiciencia en sistemas de refrigeracin.3. Eiciencia en sistemas motrices.4. Eiciencia en iluminacin.5. Eiciencia en procesos productivos

    otrAs mEdidAs

    El Ministerio de Ciencia, Tecnologa e Innovacin Productiva -MINCYT fomenta y lleva adelante el Consejo Tecnolgico Sectorial de Energa, donde se intercambian ideas que lleven apoyo concreto al sector a partir de sus ejes de accin en nanotecnologa, biotecnologa y TIC, as

    19 Resolucin 1056/14, Ministerio de Industria, Secretaria de la Pequea y Mediana Empresa y Desarrollo Regional.

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    como en el desarrollo de nuevos temas relacionados, como las energas del mar y la geotrmica.

    Finalmente, es importante destacar que del total de recursos pblicos destinados del presupuesto a Actividades de Ciencia y Tecnologa, la Comisin Nacional de Energa Atmica tiene asignada un 14,4%, de los cuales ms de un 12% se destinan a los suministros y tecnologa dedicados al Ciclo de Combustible Nuclear.

    conclusionEs

    A partir del relevamiento realizado sobre la situacin actual de la matriz energtica argentina, se ha podido precisar la fuerte dependencia de hidrocarburos que se mantiene, as como tambin se puede ver que en un horizonte prximo de bsqueda del autoabastecimiento energtico, Argentina tiene unas condiciones potenciales muy favorables para la extraccin y explotacin de combustibles fsiles no convencionales (shale gas y shale oil), lo cual llevara a mantener un cierto status quo en la composicin de la matriz.

    En lo concerniente a fuentes alternativas a las mencionadas, y en su caso renovables, se puede inferir que en los ltimos 15 aos no se habra avanzado en grandes proyectos hidrulicos por falta de condiciones claras de inanciamiento y por el nuevo escenario que deben sortear los proyectos de nuevas presas a partir de la Reforma de la Constitucin de 1994, en lo que concierne al derecho de las provincias sobre los recursos, al derecho de autodeterminacin de los pueblos y al derecho a un medioambiente sano. Se presume que la importacin de gas en los ltimos tiempos genera en forma amplia menos voces disonantes que las grandes obras hidrulicas, cuestin completamente opuesta en los mbitos especializados, donde la opinin de los idneos es proclive a estas ltimas.

    En lo referente a la produccin de energa nuclear, se observa un mayor apoyo a su desarrollo, a partir de la puesta en marcha de Atucha II, los trabajos concernientes a la futura planta de Atucha III y, en particular, al desarrollo de los CAREM.

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    En cuanto a bienerga, se ha observado desde el ao 2008 un sostenido crecimiento en la produccin de biocombustibles (biodiesel y bioetanol), que ha sido acompaada desde el Estado con polticas de promocin en su uso, especialmente a partir del establecimiento de determinados porcentajes de corte de biocombustibles que deben observar las petroleras, tanto en las naftas como en el gas oil. A partir de esta poltica se han incrementado signiicativamente las producciones de aceite para uso energtico, alcanzando un 2,62 % de la oferta de energa primaria del pas en 2013.

    Por ltimo, se remarca la importancia que tiene en la ecuacin energtica de una nacin la eiciencia energtica, por cuanto se puede reducir signiicativamente el consumo inal a partir de cambios en pautas de comportamiento y/o del uso de nuevas tecnologas.

    Desde el punto de vista de las polticas pblicas en ciencia y tecnologa se puede ver que, si bien no existen programas enfocados puntualmente en el sector energtico, los lineamientos actuales de CyT contemplan la cuestin energtica como un asunto transversal en todos los casos (nanotecnologa, biotecnologa, TIC).

    No obstante lo mencionado en el prrafo anterior, es preciso sealar la reciente puesta en funcionamiento del FONAPYME Eiciencia Energtica, un fondo creado para inanciar proyectos que impliquen mejoras en el uso de la energa de manera tal que, sea mediante la adquisicin de nuevas tecnologas ms eicientes, cambios en los procesos productivos y/o cualquier otra accin, se logre una reduccin en el consumo inal de energa.

    En resumen, desde la actual composicin de la matriz energtica argentina y su proyeccin en el futuro prximo, ante una situacin dada de ventajas comparativas en recursos muy ventajosa a la explotacin de hidrocarburos, se puede observar que los mayores esfuerzos continan en lnea con la actual composicin de la matriz (con fuerte dependencia en hidrocarburos, particularmente en gas), con algunos desarrollos en fuentes alternativas que no presentan la suiciente relevancia como para vislumbrar una tendencia signiicativa de cambio. As, no obstante los impulsos en el desarrollo nuclear, en nuevas presas, en la bioenerga y en acciones de eiciencia energtica, la recuperacin del autoabastecimiento est actualmente atada al xito en la explotacin de los recursos hidrocarburferos no convencionales.

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    BiBliogrAfA

    CALSIANO, A. Se encuentra operativo el Fondo Argentino de Eiciencia Energtica FAEE, UIA, 04/09/14. Disponible en: . Acceso en: 15 enero 2015.

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    INSTITUTO ARGENTINO DE PETRLEO Y GAS. Suplementos Estadsticos. Disponible en: . Acceso en: 12 enero 2015.

    JORNADA DE DESARROLLO DEL IADE Desarrollo econmico y poltica energtica en la Argentina, 3., 29 oct. 2014. Disponible en: . Acceso en: 11 enero 2015.

    MALINOW, G. Potencial y desarrollo hidroelctrico argentino. Buenos Aires: IAE, 2013. Disponible en: .Acceso en: 5 enero 2015.

    MONTAMAT, D. La energa nos puede reinsertar en el mundo. Diario La Nacin, 24 nov. 2014. Disponible en: . Acceso en: 4 enero 2015. Acceso en: 11 enero 2015.

    PEREYRA, F. La seguridad energtica en la Argentina: el deterioro del sector hi-droelctrico en la Argentina y la importancia de revertir esta situacin. Innovaes, 2014.

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    A conjuntura econmica e poltica

    brasileira e argentina

    REPUBLICA ARGENTINA. Decreto 140/2007. Programa Nacional de Uso Racional y Eiciente de la Energia. Interes y Prioridad Nacional. Boletn Oicial, n. 31309, 24 dic. 2007. Disponible en: . Acceso en: 25 enero 2015.

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    UNITJUGGLER. Conversiones. Disponible en: .Acceso en: 2 enero 2015.

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    un mundo En crisis

    ngel Tello

    La fortaleza de la Ciudad no est en sus navesni en sus murallas, sino en el espritu de sus ciudadanosTucdides

    En los ltimos aos se produjeron cuatro acontecimientos mayores que marcaron de manera importante el escenario internacional y su probable evolucin.

    El primero de ellos tuvo lugar en 1991 con el derrumbe de la Unin Sovitica, precedido dos aos antes por la cada del Muro de Berln y constituyendo un hecho mayor que marc el in de la bipolaridad existente hasta ese entonces en el mundo. Sobre ello mucho de ha escrito y hablado, pero una consecuencia a sealar de este cambio es el posicionamiento de los Estados Unidos como nica superpotencia y que se comenzara a considerar, luego de la Guerra del Golfo de 1990-1991, a esta nacin como a un nuevo tipo de imperio en crecimiento y a la coniguracin mundial de las relaciones de fuerzas como unipolar. Tambin es importante destacar que la presencia de la URSS, tanto como la de los EE UU, ofreca un marco de certezas y valores compartidos a aquellos que procuraban cambiar un orden que consideraban opresivo o injusto; con la extincin de la primera no slo desapareci una gran potencia, sino que se hundi un marco de referencias, tanto en el Este como en el Oeste, predominando a partir de ello la incertidumbre en los planos poltico, ideolgico y estratgico.

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    El segundo gran acontecimiento ocurri el 11 de septiembre de 2001 con los atentados terroristas en Washington y Nueva York. Estos hechos mostraron el mundo una nueva realidad a partir de la cual los Estados Unidos ya no eran invulnerables, el territorio no conformaba ms aqul santuario de libertad ubicado entre dos ocanos como sealaba el ex presidente Ronald Reagan, y poda verse afectado por los conlictos que conmocionaban al mundo. Estos episodios ubicaron tambin en un primer plano el tema de las creencias y valores de individuos y grupos, equivocados o asesinos para algunos, mrtires para otros, que otorgan ms importancia a sus creencias religiosas y a la recuperacin de una identidad que se considera perdida, que a la posesin de bienes materiales o su mismsima vida

    El tercer acontecimiento estuvo marcado por la cada de la compaa inanciera norteamericana Lehman Brothers en 2008 y las consecuencias de la misma tanto sobre la economa de los EE UU como las europeas, consecuencias que se mantienen hasta nuestros das y que muchos consideran como la crisis ms grave del mundo capitalista ocurrida desde 1929. Este hecho puso sobre el tapete la enorme irracionalidad de la especulacin inanciera y los gigantescos beneicios por ella generados, que llegan slo a algunos privilegiados, como aqul broker de Nueva York que haba gastado un milln de dlares en construirse un bao en su oicina. Codicia pas a ser el trmino de moda para designar a estos individuos que se aprovecharon para su accionar de un contexto ideolgico fuertemente inluenciado por lo que se ha dado en llamar fundamentalismo del mercado, el individualismo a ultranza y el slvese quien pueda; dicho de otra manera: por aquello que conforma el sustento terico esencial del neoliberalismo.

    Para tener una idea ms precisa de qu estamos hablando, hacia ines de junio de 2006 en un solo da! giraron en los distintos Mercados de Divisas y Bolsas del mundo una cifra astronmica de veintisis billones de dlares, es decir algo menos del doble del PBI anual de los Estados Unidos, de los cuales, slo el 3% se relacionaba con la produccin de algn bien, el resto era especulacin pura.

    Qu revel y revela esta crisis? Que, como bien lo ha sealado a propsito de la misma el ex presidente de Alemania Horst Khler, todo el mundo aspira a ganar dinero sin romperse la espalda trabajando. Resulta

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    sumamente ilustrativo lo que al respecto seala Pascal Boniface: Es una crisis mundial, no una crisis europea. La causa fundamental es el desarrollo del capitalismo inanciero en detrimento del capitalismo industrial, la bsqueda de beneicios a muy corto plazo y la falta de regulacin de los lujos inancieros que hace que algunos se beneicien rpido y otros estn en la miseria. (BONIFACE, 2011, p. 2). Pudiendo agregar la observacin de George Soros relativa a que uno de los problemas centrales es que los ciudadanos de los pases desarrollados gastan ms de lo que producen. Parafraseando a los clsicos, debemos coincidir una vez ms con Adam Smith y David Ricardo cuando sealaban al trabajo como fuente del valor.

    Esta crisis, hasta el da de hoy no resuelta, puso en evidencia la falacia del neoliberalismo acerca de que el Estado es el problema y no la solucin, en particular cuando el mismsimo Estado norteamericano destin subsidios masivos del Tesoro para auxiliar a los bancos y empresas automotrices como ha sido el caso de la General Motors en Detroit.

    Algo similar est aconteciendo en estos das en Europa, con la evolucin de la crisis en Grecia y la posibilidad de que algo parecido ocurra tambin en Espaa, Portugal, Irlanda Italia? En estos casos el auxilio inanciero es ofrecido por Alemania sin poder evitar que al da siguiente de la votacin de la ayuda en el Bundestag se produjera una nueva cada de las Bolsas europeas-, lo que para algunos no es suiciente, y en un contexto marcado por el crecimiento de los nacionalismos, cuando no discriminacin y xenofobia. Para tomar un caso, durante 2010 Hungra le otorg la nacionalidad a ms de dos millones y medio de personas de etnia magiar que actualmente habitan en Serbia, Rumania, Eslovaquia y Ucrania, Como lo sealaba el diario El Pas en su edicin del 25 de septiembre de 2011, Primero se da nacionalidad y luego viene la reivindicacin territorial de efectos incalculables. En Europa, las desgracias siempre empiezan por los Balcanes y Grecia forma parte de ellos. Frente Nacional en Francia, Partido por la Independencia del Reino Unido, Amanecer Dorado en Grecia, corrientes polticas xenfobas en Holanda, norte de Italia, Hungra y Austria, entre otros, separatismos en Escocia, Catalua, Blgica, etc., estn evidenciando el malestar creciente de millones de personas que se ven ms como objetos de un mundo extrao que como sujetos de su propio destino. Y ello no conforma una enfermedad que en otros tiempos se le

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    atribua a los subdesarrollados e ineicientes actores del Tercer Mundo, sino a las antiguas, cultas y prolijas naciones de Europa.

    O ser que estamos asistiendo a una confrontacin despiadada entre el euro vs. dlar estadounidense, asociado ste a la libra esterlina? Recordemos al pasar la curiosa coincidencia? que apareci entre la invasin a Irak en 2003 por parte de los Estados Unidos y Gran Bretaa, y el hecho de que Saddam Hussein, algunos unos meses antes de la misma, empezara a cobrar las exportaciones de petrleo en euros en vez de dlares.

    Uno de los resultados que arroja esta crisis muestra que los Estados nacionales vuelven a instalarse en el centro de la escena, sin haber desertado totalmente nunca de la misma, aunque reducidos a un rol secundario, an subsidiario, por el discurso nico de la globalizacin.

    Sin embargo la ltima palabra an no fue dicha, y el debate actual se plantea en trminos de a quin corresponde asistir en la emergencia que plantean las economas desarrolladas; en los casos de Europa y los Estados Unidos el auxilio estuvo y est actualmente dirigido principalmente para beneiciar a los bancos y al sector inanciero, (hecho que ha generado no pocas crticas particularmente de los premios Nobel de Economa Paul Krugman y Joseph Stiglitz) no as para ayudar a los ciudadanos que ven recortados los gastos de salud y educacin, el incremento de la desocupacin, aumento de los impuestos, etc. y constituye el eje de los reclamos de los autodenominados indignados en Madrid, Roma, Paris, Atenas y Wall Street. Debate que desnuda un nuevo intento de retorno del neoliberalismo mediante la imposicin de ajustes draconianos, como es el caso de Grecia hoy, pero a los cuales debern someterse en grados distintos Espaa, Italia, Irlanda, Francia e Islandia, ajustes comprendidos en una gigantesca ofensiva de los sectores del privilegio y cuya fuerza de choque cada vez ms est representada por las sociedades caliicadoras de riesgo.

    En deinitiva de lo que se trata es de quin paga la crisis y los platos rotos de una iesta que ha terminado, por estas razones estas polticas generan cada vez ms resistencias y oposiciones, llevndose puestas a las organizaciones y partidos polticos que no se hallan a la altura de las circunstancias, tal como puede observarse en algunos casos con las socialdemocracias espaola, griega y francesa, no hace mucho tiempo al

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    laborismo britnico y tambin al Partido Demcrata en las elecciones presidenciales norteamericanas de 2012 y en las parlamentarias de 2014

    La globalizacin, que tuvo un impulso importante a partir de la desaparicin de la URSS y sustentada en su correlato ideolgico neoliberal, gener una gigantesca transferencia de riquezas desde los sectores ms desfavorecidos en el mundo hacia los ms favorecidos. Por ejemplo, segn del Banco Mundial que provee datos de 2007, 384 personas en el mundo disponan en ese tiempo de una riqueza anual equivalente a la obtenida durante el mismo perodo por el 46% de la poblacin mundial, tendencia que no se ha visto invertida en la actualidad; aun en los pases ms desarrollados este proceso trajo aparejada tambin una fuerte concentracin de las riquezas, el caso norteamericano pudiendo citar en el mismo sentido el britnico o el francs- es ilustrativo, cuando se observa que los impuestos sobre las ganancias pasaron de ms de 80% en los aos sesenta a menos del 30% en tiempos de la revolucin conservadora de Ronald Reagan. Aquella conocida y difundida teora del derrame segn la cual el mercado derrama espontneamente sin una necesaria accin poltica de por medio, result falsa: el mercado que sin contencin poltica se asemeja cada vez ms a la jungla- no slo no derrama espontneamente sino que concentra cada vez ms, tal como de manera reiterada ha sido sealado por informes de la ONU y el Banco Mundial.

    Nos ilustra Jean-Paul Fitoussi al respecto cuando se reiere al mito de la cuasi racionalidad del mercado, similar al mito del legislador racional:

    El mercado annimo ha triunfado en todas partes, pero tiene un de-signio misterioso. La mayora de los comunicadores habla de l como una persona dotada de capacidad de produccin y de poder. Se dice, por ejemplo, que el mercado aprueba o sanciona la poltica de tal o cual gobierno. Sin embargo, el mercado no es Dios que vino a la Tierra despus de la cada del socialismo. Slo es un mtodo cmodo y eicaz de los economistas para hablar de los recursos que sern afectados a los usos ms productivos: por ejemplo, en las oportunidades de inversin. (FITOUSSI, 1998, p. 1823).

    El mercado ha funcionado y funciona como producto de una relacin histrica entre los seres humanos, transformar al mismo en una ideologa cuando se trata de un instrumento es inapropiado, ms an

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    cuando esta presunta ideologa sirve para legitimar el enriquecimiento obsceno de algunos en perjuicio de los ms.

    El caso de Argentina es signiicativo para comprender los efectos perniciosos del neoliberalismo: segn datos aportados por el funcionario de la ONU Bernardo Kligsberg, la brecha entre el 10% ms rico y el 10% ms pobre pas de 18 veces en 1993 a 24 veces en 1998, llegando a 26 veces en el ao 2000 y situndose en torno a las 32 veces en 2008, con una tendencia actual a la profundizacin de este fenmeno.

    Individualismo, xito fcil, la realizacin del ser humano a travs de la acumulacin de riquezas y objetos, la declaracin de la obsolescencia de los instrumentos de accin colectiva, tales como el Estado, los partidos polticos y/o diversas asociaciones, todo ello para reducir, cuando no eliminar, las antiguas y siempre vigentes e irremplazables nociones del bien comn y el inters general: estos son los postulados bsicos del fundamentalismo del mercado. Durante los aos noventa, por ejemplo, aqul que no se vea tocado por la varita mgica de la fortuna globalizada, atribua su fracaso a motivos de ndole personal por no sentirse a la altura de la demanda que una nueva realidad, cruel y competitiva, impona. Esta situacin vivi un cambio importante en lo que a nuestro pas respecta- desde el ao 2001 cuando los argentinos advirtieron que, en realidad, no se trata de fracasos o xitos individuales sino de un sistema perverso que salva a pocos y condena a la mayora, generando reacciones violentas de resistencia, algo parecido a lo que hoy puede observarse en algunas naciones europeas y en los Estados Unidos, aunque en una dimensin todava menor y en pleno desarrollo en este ltimo caso.

    Tambin nos decan en los noventa que la economa deba ser considerada casi como una ciencia exacta, gozando el mercado al mismo tiempo de un status cuasi divino cuando, tal como la dura y testaruda realidad se ha encargado de demostrarlo, se trata de una construccin humana, insertndose mucho ms en el rea del conocimiento que conforman las ciencias sociales que en el de las fsico matemticas, sumamente ilustrativa al respecto es la caracterizacin que el profesor de Stanford, Lewis Lapham hace, con bastante irona, al respecto:

    Segn los soistas al servicio de la administracin de Reagan, aprobados luego por sus sucesores de los gobiernos de Bush y Clinton, la base

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    intelectual de la riqueza y la felicidad de Norteamrica reposa sobre cuatro pilares de sabidura eterna:

    1- Un Estado fuerte por deinicin es marxista, sinnimo de derroche e incompetencia, una conjuracin de imbciles indiferentes al bienes-tar del hombre comn. Estado fuerte quiere decir pesada burocracia, pobreza, indolencia y enfermedad.

    2- La mundializacin es la octava maravilla del mundo, la luz de las naciones y la coronacin de todos los deseos. Nada debe obstaculizar sus sagrados misterios y su juicio infalible.

    3- El arte de la poltica (lamentablemente humano y en consecuencia corrupto) debe inclinarse ante las ciencias econmicas (maravillosa-mente abstractas y por lo tanto irreprochables).

    4- Cuando son los mercados quienes determinan la poltica, inancian las tropas y construyen la oracin, qu utilidad tienen los principios polticos y ilosicos? Para qu tener hombres de Estado y polticos si no hay necesidad de memorizar sus nombres y discursos?

    Hemos llegado al in de la historia. El nuevo orden econmico mun-dial se ha impuesto a los ltimos escpticos oponindose a los engaos del comunismo sovitico. (LAPHAM, 2002, p. 152).

    Resulta aqu interesante mencionar a modo de ejemplo el pedido realizado por los norteamericanos a los acreedores europeos de Irak despus de la invasin de 2003 pedido que fue puntual y prolijamente satisfecho- a los efectos de eliminar una deuda contrada por Saddam Hussein del orden de los treinta mil millones de dlares. El argumento esgrimido entonces fue que la misma haba sido tomada por un dictador sanguinario y no se le poda imputar al pueblo iraqu una vez eliminado ste, lo que demuestra de manera contundente la naturaleza esencialmente poltica y social de la economa, cuando razones de ndole geoestratgicas imponen otras decisiones. O acaso gran parte de las deudas externas de los pases latinoamericanos no han sido contradas, tambin, por dictadores? Sin entrar en detalles acerca del rol humano y poltico en un sentido amplio, jugado por los Brokers y operadores inancieros de Wall Street y otras Bolsas del mundo en la crisis de 2008. A ello podramos agregar que la deuda externa de Polonia fue condonada cuando era necesario enfrentar a la URSS, tambin casos similares se registraron en Egipto en momentos en que Saddam Hussein invadi Kuwait y en Paquistn cuando el apoyo

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    de este pas resultaba imprescindible para las operaciones de los efectivos norteamericanos y de la OTAN en Afganistn en 2001.

    Contrariamente a lo que muchos han pensado y piensan en la actualidad, no existen leyes econmicas y sociales de cumplimiento obligatorio y debemos, en consecuencia, hablar ms de posibilidades y probabilidades, de tendencias, todo ello en un contexto marcado por la irrupcin de lo poltico como expresin altruista y solidaria de lo colectivo. Como bien lo observaba en su tiempo Raymond Aron: Las mquinas no hacen la historia, ayudan a que los hombres la hagan.

    El cuarto acontecimiento de los mencionados al inicio de esta presentacin se vincula con la nueva realidad que desde hace algunos aos representan los pases denominados emergentes y en particular el caso de la Repblica Popular China.

    China, potencia emergente de enormes dimensiones, conducida por el Partido Comunista desde 1949 y habiendo atravesado diversas etapas de ajustes, errores y conlictos internos, ha registrado hasta hoy ndices de crecimiento econmico que la ubican como segunda economa en el mundo por detrs de los Estados Unidos y por delante de Japn. De perdurar estos ndices, muchos pronostican que superar a los norteamericanos en algo ms de diez aos. Recordemos al pasar aquel estudio realizado en su tiempo por el socilogo Immanuel Wallerstein cuando conclua que las dos grandes guerras mundiales del siglo XX haban estallado cuando se intent cambiar el centro del poder en el mundo.

    China ha efectuado una buena lectura marxista del capitalismo, particularmente cuando sta se reiere al trabajo como fuente genuina del valor y para lo cual en muchos casos aplica condiciones laborales que no envidiaran a las existentes en las minas britnicas durante el siglo XIX y oportunamente denunciadas por Carlos Marx.

    En lo poltico, la realidad est sealando que el PC chino apela cada vez ms al nacionalismo como factor de cohesin de la sociedad en reemplazo del marxismo leninismo, aadiendo adems los principios tradicionales de la ilosofa de Confucio que ponen al trabajo como objetivo inal de la vida humana, en una construccin que se asemeja bastante a la cultura protestante analizada en su tiempo por Max Weber.

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    Segn estos puntos de vista, los humanos se redimen por medio del trabajo y la acumulacin de riquezas frente a un Dios lejano e inaccesible. Un dato que viene al caso aqu es aquel vinculado con la crisis de los mercados inancieros de 2008 y su correlato con el sistema productivo, particularmente el relacionado con la fabricacin de automviles en los Estados Unidos a partir de las diicultades que encontraron General Motors, Ford y Chrysler para competir exitosamente con sus rivales asiticos. El salario medio por hora de un obrero altamente especializado en Detroit alcanzaba aproximadamente los 78 dlares antes de la crisis, mientras que en Toyota o Mitsubishi, en Japn, un operario percibe 35 dlares y en China 18 dlares, con idntica caliicacin, por el mismo trabajo e igual cantidad de tiempo. Hoy China es el primer constructor de automviles en el mundo y el 75% de los artculos que la cadena de comercializacin Wall Mart coloca en sus gndolas es made in China.

    China, adems de transformarse en un consumidor voraz de materias primas de todo tipo, plantea un desafo mayor a la doxa neoliberal a partir de una fuerte presencia del Estado en el crecimiento de la economa, cuestionando tambin aquella idea occidental de que el desarrollo capitalista va necesariamente unido al fortalecimiento de la democracia. En realidad, lo que China est mostrando es que no existe una receta nica y universal en lo poltico y en lo econmico para el crecimiento, y que el mismo se apoya en un factor inmaterial como es la conianza, es decir, el conjunto de valores, ideas, creencias, tradiciones y principios que dan vida y sustentan a una sociedad, contexto frente al cual el mercado viene a ocupar una posicin secundaria.

    Dice bien Fitoussi cuando observa que ms que en economas de mercado vivimos en democracias de mercado. En esta caracterizacin del sistema que nos rige, cada palabra es importante ya que cada palabra remite a un principio de organizacin contradictorio. En el principio democrtico, el principio del sufragio universal, cada uno cuenta por igual en la vida pblica. Todos se confunden en las urnas, no existe el voto del rico y el voto del pobre. Es el principio de igualdad lo que est estructurando la democracia. En el principio de mercado, no son las personas lo que importa sino la cantidad de signos monetarios que poseen. Un dlar equivale a un voto. El que tiene muchos dlares vota mucho ms

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    que aqul que tiene pocos. Es un principio que acepta la desigualdad como estructurante.

    Carlos Marx, que elabor una teora en muchos aspectos acertada acerca del funcionamiento de la sociedad capitalista y sus contradicciones, fue dogmtico y determinista en lo ideolgico y lo poltico al considerar al ser humano como engranaje de una inmensa maquinaria conformada por el sistema productivo y al cual se puede programar como se programa a un ingenio mecnico. Tiene razn Alexander Yakovlev, idelogo del PCUS en tiempos de Gorbachov, cuando seala autocrticamente que la voluntad no es una fbula absurda y que el dogmatismo de Marx lo llev a considerar -en contra de la dialctica- que el ser social determina la conciencia, sin llegar a pensar la anttesis de este enunciado en el sentido de que la conciencia determina, o puede determinar, el ser social. Nuevamente viene a la memoria Raymond Aron cuando sostena que el marxismo es milenarismo judeo cristiano ms pretensin cientica.

    Esto nos lleva a pensar cul es la anttesis en este mundo globalizado y bsicamente neoliberal, cuando aparece un determinado ser social que se deine a partir del consumo, y sustentado en un sistema de comunicacin que procura vender lo frvolo, lo material, el individualismo, la desmovilizacin de los sectores populares y fundamentalmente carente de valores trascendentes.

    Gran parte de la anttesis planteada est basada en la actualidad en la oposicin que ofrecen tanto los Valores Asiticos (Asian values) como el Islam. Valores asiticos que no sugieren necesariamente la existencia de un bloque homogneo, pero apoyados en la familia, la comunidad, la proteccin de nios y ancianos y el trabajo tal como fue analizado en otra parte de esta presentacin. Islam, que tampoco implica una actuacin unvoca pero que para ms de mil trescientos millones de seres que pueblan este mundo ofrece una salida trascendente a aquella angustia existencial bsica deinida por Hegel como la capacidad que tenemos los humanos de imaginar y pensar el ininito sabindonos initos al mismo tiempo. Debiendo tambin incluir, dentro de la anttesis sealada, a nacionalismos, particularismos y regionalismos de todo tipo. De lo que se trata en consecuencia es de recuperar identidades y cohesiones perdidas, ante lo que se considera una globalizacin agresiva que arrasa con costumbres, creencias, valores y

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    tradiciones sin que la misma est en condiciones de ofrecer una alternativa superadora. De esta manera lo consider Jean Baudrillard luego de los atentados del 11/S cuando observaba que Occidente carece de valores trascendentes, dicho de otra manera, Occidente perdi el monopolio del relato que mantuvo durante los ltimos quinientos aos, emergiendo pueblos, naciones y comunidades que aspiran a ocupar un lugar bajo el sol y a recibir una parte importante de las riquezas producidas. Como puede apreciarse, estamos asistiendo a una verdadera revolucin en el mundo de la cual aun no pueden avizorarse sus resultados inales.

    No nos alejamos demasiado de la realidad si airmamos que as como durante siglos los valores aparecieron principalmente encapsulados dentro de los intereses en el desarrollo de los conlictos, hoy la ecuacin se ha invertido y son los intereses quienes de manera creciente aparecen encapsulados dentro de valores contradictorios. Por ello muchos investigadores hoy consideran que estamos frente a una nueva Edad Media, o en una situacin parcialmente equiparable a la de las guerras de religin de los siglos XV y XVI en Europa.

    En este contexto emergieron los levantamientos contra los poderes establecidos desde hace dcadas en el norte del continente africano, las denominadas primaveras rabes, movimientos que han contado con fuertes simpatas a nivel mundial pero que han dejado ms preguntas que respuestas en lo que a su futuro respecta. Por caso, una pregunta que aparece es quin o quines habrn de recuperar estas movilizaciones, si tenemos en cuenta que las organizaciones polticas en presencia son muy dbiles o prcticamente inexistentes, los ejrcitos son una de las pocas estructuras que quedan en pie, y los grupos religiosos (Hermanos musulmanes en Egipto por ejemplo) cuentan con cuadros, historia y predicamento en la gran mayora de estos pases, todo ello en un marco de gran exclusin y pobreza cuando la opulencia y el lujo emergen no muy lejos, del otro lado del Mediterrneo en el sur de Europa y en manos de los potentados locales. Debemos sealar aqu que el Muro ideolgico de Berln en muchos aspectos ha sido reemplazado por los muros globalizados de la exclusin y la discriminacin: frontera EE UU-Mxico, muro de Cisjordania, Estrecho de Gibraltar, Mar Adritico, etc.

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    El caso de Libia merece una consideracin particular pues aqu Francia, Gran Bretaa y los Estados Unidos en el marco de la OTAN han asumido una actitud ofensiva con operaciones militares que han ido mucho ms lejos de lo que en su momento autoriz el mandato aprobado por el Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas; ya no se trata de proteger al pueblo libio de las polticas de un dictador, sino de intervenir lisa y llanamente mediante acciones a todas luces violatorias de principios consagrados por la comunidad internacional, como los de no intervencin y autodeterminacin de los pueblos Tambin en este caso aparece de manera evidente el inters de las potencias intervinientes por un pas con abundantes recursos petroleros y que motiva (oh sorpresa!) una gran preocupacin por las violaciones de los derechos humanos que ahora han sido descubiertas. Preocupacin que no genera tanta movilizacin en otros casos donde tambin existen violaciones similares y fuertes reacciones populares, como son Siria, Barhein y Yemen. Para no hablar de las reiteradas violaciones a los derechos humanos perpetradas por Israel contra el pueblo palestino. Esto nos recuerda al descubrimiento, por parte del gobierno britnico, de que en nuestro pas exista una dictadura militar que violaba los derechos humanos cuando se produjo el desembarco en las Islas Malvinas en 1982. Ms cerca en el tiempo merece destacarse que no se ha tratado de la misma manera a Rusia luego de la anexin de Crimea o a la situacin explosiva que hoy genera el poder creciente del Estado Islmico en Siria y parte de Irak.

    Estamos viviendo entonces en una realidad signada por una nueva redistribucin del poder en el mundo, con un continente Asia- que se perila como nuevo centro del poder mundial hacia las prximas dcadas. Y tal como lo seala la ciencia poltica clsica, la gloria se comparte, el poder se disputa.

    Por ejemplo en el sistema anglosajn mercado y derecho son las dos caras de una misma moneda con reglas jurdicas que encuadran al mercado. La pregunta que surge es a qu se asemeja un mercado sin Estado y sin normas del derecho como ocurre en la actualidad con el sistema inanciero?, y una de las respuestas posibles es: a la jungla, constatando en consecuencia que una de las organizaciones emergentes de esta situacin es la maia, desde el momento mismo en que la lnea de

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    separacin entre economa legal e ilegal se esfuma al no existir leyes, reglas, hbitos de comportamiento y moral en los negocios. El sistema entonces, deviene gris por s mismo y por los participantes en l; todo est permitido, constituyendo la fuerza el nico freno. Esto plantea un esquema novedoso en la disputa por el poder a escala global del que la violencia no slo no ha desaparecido, sino que se potencia como mecanismo de resolucin de los conlictos. Uno de los problemas centrales del actual escenario internacional es la existencia de considerables factores de poder que no cuentan con la debida legitimidad de origen, pero s pueden complicarle la existencia a ms de uno, pueblos, Estados o personas; y dirigentes, organizaciones polticas y sociales, que cuentan con legitimidad de origen pero disponen de escaso poder para cambiar la realidad.

    El cambio de sistema acaecido en 1991 no fue la consecuencia de una gran guerra como ocurri en 1914-18 y en 1939-45, ello fue as debido en parte a la existencia de las armas nucleares y a que una confrontacin militar generalizada entre las superpotencias habra vaciado de sentido poltico a la misma.

    Podemos airmar lo mismo ahora? Difcilmente se pueda realizar un pronstico cerrado cuando predomina la incertidumbre tanto en lo poltico como en lo estratgico. Cuando China est invirtiendo sumas considerables y en aumento en el sector militar al mismo tiempo que reivindica oicialmente la igura del almirante Heng Ze, quien a inicios del siglo XV construy una inmensa lota, y lleg durante el ao 1421 a las costas americanas, tal como lo han comprobado diversos historiadores navales.

    Difcilmente cuando los Estados Unidos, potencia en crisis pero todava la primera a escala global, disponen en la actualidad de un despliegue de ms de ochocientas bases y facilidades militares en el mundo, gran parte de las cuales rodean a China. Al mismo tiempo que acadmicos, expertos y funcionarios, de manera creciente hablan pblicamente de que una confrontacin con el gigante asitico es posible en el futuro, se arrogan el derecho de la vida y la muerte de aquellas personas que son caliicadas como terroristas sin otorgarles el derecho a defenderse en un juicio justo, y en el caso del continente americano activan la IV Flota con el argumento de intervenir en el caso de desastres naturales y ayuda humanitaria.

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    Se plantea en consecuencia la cuestin acerca de cul es el orden emergente en este nuevo y cambiante escenario mundial, si es que se puede hablar de orden. Aparecen dos pulsiones: una que indica que podemos dirigirnos hacia una novedosa coniguracin imperial sostenida por algunas naciones europeas, con centro en los Estados Unidos, y la OTAN como brazo armado y fuerza de intervencin urbi et orbe. La otra pulsin se basa en el derecho internacional y en el respeto de las normas y principios por el mismo establecidos, con la vigencia de ms democracia, diversidad e igualdad a nivel global, de manera tal que permita el progreso de las naciones y los pueblos, el respeto de las diferencias, un reparto ms equitativo de las riquezas, y consoliden deinitivamente la paz.

    La situacin actual del mundo, lamentablemente, nos lleva a considerar la primera opcin como la ms probable, dados los conlictos en curso y sus eventuales evoluciones futuras. Una luz de esperanza nos permite abrigar las movilizaciones masivas de personas, espontneas en su mayora, que no aceptan la imposicin de un orden injusto y desigual y que aspiran de manera creciente a aduearse de su destino.

    Son las acciones polticas las que se imponen en estos tiempos. Poltica con P mayscula, entendida como actividad noble, desinteresada y altruista, como expresin y accin de los pueblos y naciones en su bsqueda de igualdad y fraternidad, por encima de factores de poder transnacionales que responden a intereses particulares y corporativos. Slo la poltica en su expresin ms elevada puede impedir que el mundo se asome a catstrofes mayores.

    El caso de Argentina merece una consideracin especial, pues nos encontramos en un continente y habitamos un pas que alberga enormes y variadas reservas de recursos naturales, necesarios para el crecimiento econmico de los pases asiticos, los cuales de manera creciente aparecen interesados en los mismos.

    La globalizacin, tal como ha sido analizada, presenta aspectos positivos, como el crecimiento del intercambio, un incremento del conocimiento entre naciones y pueblos, el avance y la difusin tanto de la ciencia como de la tecnologa, etc. Pero tambin aspectos negativos y que han sido mayormente considerados en esta presentacin. De lo que se trata

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    es de establecer de manera clara cules son nuestros intereses nacionales y desde all contar con las capacidades para decidir qu nos conviene y qu no. Intereses que se pueden asociar a la integridad territorial, al crecimiento econmico, al sistema democrtico y a la soberana, entre otros; pero que esencialmente se vinculan con un conjunto de valores y creencias compartidos. Los intereses nacionales de la Repblica Argentina no son muy diferentes o contradictorios con los de otras naciones sudamericanas. Amrica del Sur goza de un beneicio particular que se sita en el hecho de compartir valores comunes en materia de democracia, derechos humanos y creencias compartidas; a diferencia de otras regiones del mundo que han sido mencionadas aqu, ello conforma un capital extraordinario que es necesario apreciar y resguardar frente a los retos que plantean tanto la globalizacin como el retorno a la escena mundial de las ideas y recetas neoliberales.

    No se equivocaba Aristteles cuando sealaba que [] existen dos tipos de ciudades, las que tienen murallas y las que no tienen murallas; aqullas que tienen murallas pueden optar entre ser ciudades abiertas o cerradas, opcin de la que carecen las ciudades que no tienen murallas. Recuperar el sentido de vivir juntos, compartir valores trascendentes y una visin comn de lo poltico como actividad noble y desinteresada, constituyen las grandes y simblicas murallas de nuestras sociedades latinoamericanas.

    rEfErEnciAs

    BONIFACE, Pascal. La salida del euro sera un suicidio. La Nacin, Buenos Aires, p. 2, 5 oct. 2011.

    FITOUSSI, Jean-Paul. Mercado y democracia. Archivos del Presente de la Fundacin Foro del Sur, Buenos Aires, n. 12, p. 1823, 1998.

    LAPHAM, Lewis. Le djihad amricain. Paris: Saint-Simon, 2002.

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    soBrE os AutorEs

    AgnAldo dos sAntos

    Doutor em Sociologia pela Universidade de So Paulo. Professor do Departamento de Cincias Polticas e Econmicas, do Programa de Ps-Graduao em Cincias Sociais e pesquisador do Grupo de Pesquisa e Estudos da Globalizao (GPEG) da Faculdade de Filosoia e Cincias de Marlia, Universidade Estadual Paulista. Autor dos livros Juventude metalrgica e sindicato: ABC Paulista, 1999-2001 (Agbook - Edio do Autor, 2010) e Entre o cercamento e a ddiva: inovao, cooperao e abordagem aberta em biotecnologia (Blucher Acadmico, 2011). E-mail: agnaldo@marilia.unesp.br

    ngEl tEllo

    Licenciado en Ciencias Polticas y doctor en Relaciones Internacionales. Profesor titular de la ctedra Relaciones Internacionales y Comunicacin, Facultad de Periodismo y Comunicacin Social, Universidad Nacional de La Plata (UNLP), Argentina. Profesor del Seminario en Relaciones Internacio nales de la Escuela Naval Militar, en conjunto con la Facultad de Ciencias Jurdicas y Sociales de la UNLP. Docente en diversas materias a nivel posgrado e investigador en poltica internacional, globalizacin y seguridad y defensa.

    frAncisco luiz corsi

    Possui graduao em Cincias Sociais e Economia pela Universidade de So Paulo. mestre em Cincia Econmica pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Cincias Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. Fez ps--doutorado no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Atualmente Professor Assistente Doutor da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho. Tem experincia na rea de Economia, com nfase em Histria Econmica. Atuando principalmente nos seguintes temas: Estado Novo, Poltica Externa, Nacionalismo, Projeto Nacional, Economia Brasileira. E-mail: corsi@marilia.unesp.br

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    gABriEl BAlBo

    Graduado em Economia pela Universidade Nacional de La Plata (Argentina). mestre em Desenvolvimento Econmico pela Fundao CIDOB e pela Universidade Autnoma de Barcelona (Espanha). docente da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), Universidade Nacional de Rosrio (UNR), Universidade Nacional do Noroeste de Buenos Aires (UNNOBA) e da Universidade Nacional de Entre Rios (UNER). Tambm ministra aulas sobre de-senvolvimento econmico no Instituto Nacional de Capacitao Poltica (INCaP) do Ministrio do Interior da Argentina. diretor da ESPADE, consultoria espe-cializada em inteligncia competitiva e problemas industriais. Dirige o Projeto de Vigilncia Tecnolgica patrocinado pelo Ministrio de Cincia, Tecnologia e Inovao Produtiva. E-mail: gabrielbalbo@espade.com.ar

    giovAnni AlvEs

    Doutor em Cincias Sociais pela Unicamp, livre-docente em Sociologia e pro-fessor da Unesp, campus de Marlia. pesquisador do CNPq, com bolsa-pro-dutividade em pesquisa, e coordenador-geral da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crtica (www.projetocinetrabalho.org) e do projeto CineTrabalho (www.projetocinetrabalho.org). um dos lderes do Grupo de Pesquisa CNPq Estudos da Globalizao. autor de vrios livros e artigos so-bre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precrio) mundo do trabalho: reestruturao produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000), Trabalho e subjetividade: o esprito do toyotismo na era do capitalismo manipulatrio (Boitempo Editorial, 2011), Dimenses da precarizao do trabalho (Editora Praxis, 2013) e Trabalho e neodesenvolvimentismo (Editora Praxis, 2014). E-mail: giovanni.alves@uol.com.br

    jorgE szEinfEld

    Profesor titular de derecho politico y de relaciones internacionales. Facultad de ciencias juridicas y sociales y periodismo y comunicacin social. Universidad Nacional de La Plata. E-mail: szeinfeld@gmail.com

    jos mArAngoni cAmArgo

    Possui graduao em Cincias Econmicas pela Universidade Estadual de Campinas (1981), mestrado em Economia pela Universidade de So Paulo (1988) e doutorado em Cincia Econmica pela Universidade Estadual de Campinas (2007). Atualmente Professor Doutor Assistente da Universidade

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    Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho e Membro de corpo editorial da Aurora (Unesp - Marlia) e do grupo de pesquisa Estudos da globalizao. Tem experin-cia na rea de Economia. Atuando principalmente nos seguintes temas: Emprego, Agricultura Paulista, Modernizao, Agroindstria e Comrcio Internacional de Produtos Agroindustriais. E-mail: jmaraga@uol.com.br

    lincoln sEcco

    professor livre docente de Histria Contempornea do Departamento de Histria da USP, autor dos livros Gramsci e o Brasil (Cortez, 1995), A Revoluo dos Cravos (Alameda, 2005) e Caio Prado Jnior (Boitempo, 2008). tambm colunista do Blog da Boitempo. E-mail: lsecco@usp.br

    mArcos cordEiro PirEs

    Possui graduao em Histria, mestrado em Histria Econmica, doutora-do em Histria Econmica, todos pela Universidade de So Paulo e Livre Docncia em Economia Poltica Internacional pela Unesp. professor na Unesp - Faculdade de Filosoia e Cincias - Marlia, no curso de graduao em Relaes Internacionais e ps-graduao em Cincias Sociais. Tem experincia nas reas de Histria Econmica e Economia Poltica. So reas de interesse a insero da economia brasileira na economia mundial, globalizao e desenvolvimen-to econmico. Atualmente pesquisa as transformaes econmicas e polticas recentes da Repblica Popular da China. membro do Ncleo de Economia Poltica e Histria Econmica da USP, do grupo de Pesquisa dos BRICs e do gru-po de Pesquisa Estudos da globalizao, na Unesp-FFC-Marlia. Alm disso, membro da diretoria do Instituto Confcio na Unesp e do Instituto de Estudos Econmicos e Internacionais. E-mail: mcp@marilia.unesp.br

    rodrigo duArtE fErnAndEs dos PAssos

    Doutor em Cincia Poltica pela Universidade de So Paulo, Docente do Departamento de Cincias Polticas e Econmicas e do Programa de Ps-Graduao de Cincias Sociais da FFC-Unesp de Marlia. Professor Colaborador do Programa de Ps-Graduao da Unicamp. co-lder do Grupo de Pesquisa Marxismo e Pensamento Poltico, cadastrado no CNPq. E-mail: rodrigopas-sos@uol.com.br

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    rosngElA dE limA viEirA

    Possui graduao em Histria pela Universidade do Sagrado Corao, mestra-do em Projeto, Arte e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, doutorado em Histria pela Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho e ps-doutorado em Economia pela Universidade Federal de Santa Catarina. professora assistente doutor da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho. Tem experincia na rea de Histria, com n-fase em Histria Econmica. Atuando tambm no Programa de Ps-graduao em Cincias Sociais da Faculdade de Filosoia e Cincias / Unesp - campus de Marlia. E-mail: rosangela_vieira@uol.com.br

    silviA APArEcidA dE sousA fErnAndEs

    Possui graduao geograia pela Universidade Estadual Paulista, mestrado em geograia pela Universidade e doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente professora do Departamento de Cincias Polticas e Econmicas, na Unesp. docente do Programa de Ps-graduao em Desenvolvimento Territorial da Amrica Latina e Caribe Territorial, Ctedra da Unesco de Educao do Campo e Desenvolvimento Territorial. Integra os grupos de pesquisa Estudos da globalizao; Ensino de Cincia do Sistema Terra e formao de professores; ELO - grupo de Estudos da Localidade, Centro de Estudos e Pesquisas Agrrias e Ambientais. Tem experincia nas reas de geogra-ia e Educao. membro do corpo editorial do peridico Plures Humanidades (CUML Ribeiro Preto) e membro do conselho consultivo dos seguintes peri-dicos: Revista Interdisciplinar de Direitos Humanos - RIDH (Unesp Bauru/So Paulo), Revista Contempornea de Educao (FE/UFRJ), Revista Espao Acadmico (UEM) e outros peridicos cienticos. E-mail: silvia-sousa@uol.com.br

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    soBrE o livro

    Formato 16X23cm Tipologia Adobe Garamond Pro

    Papel Poln soft 85g/m2 (miolo) Carto Supremo 250g/m2 (capa)

    Acabamento Grampeado e colado

    Tiragem 300

    Catalogao Telma Jaqueline Dias Silveira - CRB- 8/7867

    Normalizao Maria Luzinete Euclides

    Assessoria Tcnica Maria Rosangela de Oliveira - CRB-8/4073

    Capa Edevaldo D. Santos

    Diagramao Edevaldo D. Santos

    2014

    Impresso e acabamento

    Grica ShinoharaMarlia - SP

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