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Ano IX, n. 05 Maio/2013

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A Comunicao sob a perspectiva comunitria:

os rumos de um campo em constituio

Drika Correia Virgulino de MEDEIROS1

Resumo

O objetivo deste artigo propor uma discusso sobre a constituio do campo da

comunicao a partir de uma perspectiva mais humana, que privilegie a dimenso

sensvel e o vnculo comunitrio nos processos comunicacionais. Para tanto levantamos

a hiptese de que so as relaes e trocas coletivas inseridas em contexto de

midiatizao social os objetos centrais do campo, em detrimento de uma perspectiva

mais tecnicista to comum, e cara, compreenso de comunicao, e que vem

impedindo, ou dificultando, a conquista da autonomia do campo comunicacional frente

s demais disciplinas das Cincias Humanas e Sociais.

Palavras-chave: Campo cientfico da Comunicao. Vnculo comunitrio. Dimenso

sensvel.

Introduo

Nunca foi to urgente repensar a comunicao como na atualidade. Nossa

profunda imerso na virtualidade, e grande rendio aos aparatos tecnolgicos que

surgem e se desenvolvem a cada dia, atravessando nosso cotidiano, alterando nossa

forma de estar no mundo e, sobretudo, nossa forma de interagir e se relacionar com o

outro, revela a necessidade de trazer para o centro do debate das Cincias Humanas e

Sociais, o campo comunicacional, como um fenmeno que tem suas leis prprias e seus

efeitos sobre a sociedade.

A comunicao ainda representa um campo em constituio. O prprio termo

comunicao, enquanto campo cientfico bastante recente e ainda passa por vrias

tentativas de (re) definies conceituais. Isto em meio a disputas polticas pela busca de

reconhecimento e por verbas disponveis a pesquisa. Sem contar com a existncia de

1 Mestranda pelo Programa de Ps-Graduao em Comunicao e Cultura da Escola de Comunicao da

Universidade Federal do Rio de Janeiro ECOPs/UFRJ. E-mail: derikav@gmail.com

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vrias vertentes conceituais, muitas delas discordantes, sobretudo, no que concerne ao

que seja a prpria comunicao (PRADO, 2003).

Dessa forma, uma das grandes problemticas em torno da construo desse campo

sua baixa formalizao frente s outras reas do conhecimento. Alm disso, este

campo ainda visto como um algo parasitrio das demais disciplinas consideradas mais

clssicas, a respeito, por exemplo, da sociologia. A comunicao costumeiramente

concebida como um instrumento (rdio, Tv, jornal impresso) de anlise para alguma

questo discutida dentro de outra rea do saber humano.

Assim, como afirma Braga (2004), embora nas ltimas dcadas venha sendo

possvel notar um esforo concentrado entre os pesquisadores em obter uma maior

sistematizao do campo e, at a mesmo, uma maior mobilizao em direo a

construo de um campo cientfico prprio para a comunicao, o que se observa ainda

uma forte disperso nas suas questes, visto que, grande parte delas ainda

proveniente de outras reas, isto , de fora do campo comunicacional. Talvez porque,

historicamente esse campo constituiu-se a partir da sociologia, de onde veio a separar-

se, ou mesmo dos estudos literrios, de onde os primeiros estudos semiticos se

constituram (PRADO, 2003, p. 136), questes essas que no devemos perder de vista,

porm, sem esquecer que o campo caminha para uma maior autonomia frente s demais

reas do conhecimento.

Inclusive, na avaliao continuada da Coordenao de Aperfeioamento de

Pessoal de Nvel Superior (CAPES) sobre a insero temtica nos Programas da rea

da comunicao, destacou-se que a disperso temtica o que impe dificuldade

suplementar na consolidao do campo (PRADO, 2003).

O que normalmente tem sido inferido comunicao, contudo, ou sua

abrangncia e amplitude de questes presentes em todas as atividades humanas, ou , ao

contrrio, seu reducionismo ao encar-la como inteiramente parte dos fenmenos

sociais, ou seja, de um lado estariam s modalidades de funcionamento da sociedade e

de outro, a mdia e suas atividades. A problemtica da primeira concepo consiste no

fato de que, abarcando e se estendendo por todas as reas das humanidades, como a

cincia poltica, educao, cultura e at mesmo a literatura, a comunicao acaba por

no estar em lugar algum. O equvoco da segunda concepo, por sua vez, evitar

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perceber o fenmeno da midiatizao da sociedade2, noo essa que ultrapassa o

conhecido estudo de mdias (BRAGA, 2011).

Com o rpido avano das tecnologias e a forma cada vez mais acelerada com que

informaes e imagens circulam na sociedade, nos revelado outro aspecto da

existncia humana, marcado por outra temporalidade, no que o pesquisador Muniz

Sodr (2007) vem chamando de tempo real, isto , a instantaneidade das notcias, e a

possibilidade de estar sempre em contato com o outro, sem prazos, a qualquer

momento e lugar, faz com que o processamento das informaes e a interpretao dos

acontecimentos pelos indivduos e a maneira de se relacionar com o tempo adquira um

status diferenciado do habitual. Frequentemente, as pessoas no vm conseguindo

acompanhar o fluxo dos fatos, diante da enxurrada de informaes veiculadas pelos

meios de comunicao.

Esse aspecto da realidade vem sendo definindo por midiatizao da sociedade.

Seu princpio orienta a priori a representao e a interpretao dos fenmenos

(SODR, 2007, p.17) sociais. Pode ser entendida tambm como uma prtica social

erguida sob a gide das tecnologias da informao e, o mais importante, devidamente

articulada s instituies de poder e de mercado.

A fluidez do tempo aliada a um contexto miditico cada vez mais

espetacularizado, representa a realidade com que o campo da comunicao deve estar

apto a lidar. Ambigidades, contradies e o aceleramento do tempo-espao social, so

os elementos presentes nas questes que a comunicao dever analisar na constituio

do seu objeto de conhecimento, na formao de seu campo cientfico. Ao contrrio das

clssicas cincias humanas que se reserva um estatuto temporal, onde possvel

conscincia interpretar e saber (SODR, 2007, p. 19).

So essas as razes que vm impondo dificuldades ao campo comunicacional sua

constituio e seu reconhecimento como cincia humana e social. No entanto,

justamente esse contexto em que ela se situa, ou seja, de multiplicidade das atividades e

efeitos comunicativos, que vem, por outro lado, construindo um ambiente de reflexo

quanto a ideia de uma comunicao mais humana, pensada para alm dos media. Uma

comunicao que tenha em sua base de constituio a ideia da interao social e do

2 Ver Antropolgica do Espelho, Muniz Sodr, 2007.

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vnculo entre os indivduos como um resgate daquilo vem se perdendo, ou sendo

distorcido, pelo processo de midiatizao da sociedade, que o vnculo comunitrio.

Como afirma Sodr (2007), a prpria indagao sobre o que comunicao, parte

da ideia do comum, da noo de comunidade. Comunicar , nesse sentido, o que

possibilita a instaurao do comum na comunidade, o que propicia a vinculao, sendo

esta, no o estabelecimento de um ente institudo, mas antes, a possibilidade de uma

relao para a abertura, para um devir, uma eterna ao de sempre, capaz de surgir da

algo verdadeiramente novo.

sobre esta perspectiva que o presente artigo pretende debruar-se. Sobre a

possibilidade de pensar uma comunicao menos instrumentalizada, carteziana e

funcionalista e mais prxima dos indivduos, de suas prticas e inter-relaes.

Vislumbre-se, contudo, que atravs da construo de um campo cientfico prprio, em

que a problematizao dos efeitos e consequncias da miditiatizao da sociedade sejam

percebidas como um objeto do saber cientfico, que a comunicao poder, de fato, vir a

no mais contribuir com a financeirizao do mundo3, mas ao contrrio, servir para

compreender os fenmenos sociais e atuar de forma contestatria sobre eles.

Comunicao: um fenmeno social

O pesquisador Ciro Marcondes Filho, um dos mais severos crticos dos rumos

que as pesquisas em comunicao tm tomado. Uma das afirmaes mais conhecidas do

estudioso, inclusive, que ainda no se comeou sequer a estudar comunicao no pas.

De acordo com Marcondes Filho (2009), provavelmente os primeiros passos em direo

ao estudo que seria reconhecido como pesquisas em comunicao foram dados por Paul

Lazarsfeld, em 1927, a partir de sondagens de audincias e aspiraes dos ouvintes do

rdio em Viena, no entanto, suas investigaes seria voltadas mais para questes

administrativas e econmicas do que comunicacionais. Depois de Lazarsfeld vieram

outros autores e escolas que tambm propuseram pesquisas em comunicao.

Marcondes Filho cita a escola de Frankfurt como um dos exemplos de pesquisas

voltadas para os fenmenos da comunicao.

O maior interesse dessa escola surgiu a partir do entusiasmo diante da rpida

disseminao do consumo de bens culturais aliado ao grande avano das tecnologias

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ocasionando numa mudana extraordinria na forma de vida e no cotidiano dos

indivduos, j desde os anos 20. O efeito da publicidade e propaganda na sociedade

voltada, sobretudo, para o incentivo ao consumo e como estratgias de grupos e partidos

polticos, como o caso do nazismo, tornaram-se os principais responsveis para que

fosse dado incio s investigaes tericas sobre o que os frankfurtianos denominaram

indstria cultural.

Mas apesar da forte repercusso e insero nas pesquisas em cincias humanas, as

contribuies dos estudos sobre indstria cultural, para Marcondes Filho (2009), no

representaram pesquisas propriamente comunicacionais. Para ele, esses estudos

indicavam muito mais reflexes filosficas sobre a realidade. Tampouco as pesquisas

que se seguiram tambm poderiam ser classificadas como estudos em comunicao.

As pesquisas realizadas por Pierce e Saussure, por exemplo, seriam lingsticas;

os estudos de Gramsci e Bakhtin seriam reflexes sobre a crtica marxista, o que

levaram esses autores a promoverem pesquisas em sociologia poltica da comunicao;

os novos funcionalistas norte-americanos realizaram estudos de mercado e dos efeitos

em publicidade; os ps-estruturalistas promoveram pesquisas em filosofia poltica da

comunicao; McLuhan e seus herdeiros se entusiasmaram com as novas tecnologias;

mais recentemente, os estudiosos da cibercultura fazem sociologia virtual, entre

outros estudos que, apesar de sua relevncia e extrema contribuio para os campos das

humanidades, no foram, na concepo do autor, pesquisas do campo da comunicao.

As principais contribuies para o campo terico da comunicao, na concepo

de Marcondes Filho, surgiram a partir dos estudos de Husserl, devido a sua pesquisa

voltada para uma comunicao mais humana, interessada em compreender como este

fenmeno abate e atropela os indivduos. Outros aportes para o campo tambm

teriam vindo de autores como Niklas Luhmann e Gregory Bateson. Este ltimo

questiona a qualidade da comunicao, ao afirmar que na maior parte do tempo, as

pessoas no se comunicam, apenas trocam signos.

apoiando-se em alguns desses autores que Marcondes Filho enxerga um

caminho menos instrumental para as pesquisas em comunicao, e pe em discusso

algumas perspectivas que se enquadrariam em uma pesquisa considerada

genuinamente comunicacional.

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O autor critica a falta de legitimidade de questes prprias para o campo da

comunicao, lembrando que grande parte das pesquisas consideradas

comunicacionais, so, na verdade, provenientes de outros campos do conhecimento.

Ele cita, como exemplo, a sociologia que vem se utilizando da comunicao para

analisar questes do tipo: quais as consequncias, sociais, polticas, econmicas e

culturais do que se veicula na imprensa, ao abordar situaes a respeito de classe social,

gnero, trabalho, dentre outros temas que interessam diretamente ao objeto sociolgico.

Da mesma forma outros campos como a antropologia, que tambm faz uso da

comunicao para observar as questes que se relacionam diretamente com os aspectos

da cultura. A economia que se ocupa em estudar questes como a administrao das

empresas de comunicao, sobre a investigao do mercado da comunicao. O direito

que se atm a legislao que trata de Leis e regulamentos, como as Leis da imprensa ou

do audiovisual, e at mesmo as questes ticas que devem acompanhar a profisso de

comuniclogo, entre outras reas do conhecimento.

Outra problemtica que costuma rondar a caracterizao da comunicao e que se

revela num forte alvo de crtica dos pesquisadores do setor a ideia de que aquela seria

um campo interdisciplinar. Dessa explicao surge o seguinte questionamento: no

seriam todos os campos do conhecimento interdisciplinares, visto que nenhum campo

pode ser considerado puro, isto , possuir objetos de estudo independentes das demais

reas do conhecimento, e que por isso inferir esse carter para comunicao resultaria

em uma redundncia?

justamente essa crtica que o pesquisador Jos Luiz Braga (2011) faz a essa

perspectiva que costumeiramente associada comunicao. Mesmo considerando

enfaticamente a interdisciplinaridade da comunicao como uma concepo frouxa,

bvia e, portanto, ociosa, o autor no nega que a comunicao pode se beneficiar desse

aspecto, assim como todas as demais Cincias Humanas e Sociais, at mesmo porque o

dilogo e a interligao entre disciplinas vm expressando cada vez mais o anseio das

pesquisas na contemporaneidade. E no s por isso, a perspectiva da

interdisciplinaridade pode servir comunicao, e vem servindo, quando esta proposta

interdisciplinar possui enfoques comunicacionais. Isso corresponderia a uma pesquisa

que trabalha com o que ele chama de interfases. Assim ele exemplifica:

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Muitas pesquisas da rea ocorrem nessas interfaces Comunicao e

Poltica, Comunicao e Educao, Comunicao e Cultura; Comunicao e

diversas questes sociolgicas, lingusticas, antropolgicas, etc. Em todas

estas reas de pesquisa, uma questo se pe como fundamental para assegurar

possibilidades de avano de conhecimento em Comunicao e de

contribuio comunicacional para as CHS (Cincias Humanas e Sociais): o

que h de comunicacional nessa interface? [...] Com base nessa pergunta,

consideramos que os estudos de interfaces podem ser, em vez de um espao

de disperso (como tendia a acontecer at os anos 90) um espao de trabalho

construtivo do conhecimento comunicacional (BRAGA, 2011, p. 64 65).

Entretanto, apesar dos pontos positivos, o que Braga questiona o fato de que no

tendo objeto do conhecimento especfico que seja definidor do campo, nem questes

que sejam peculiares rea, a comunicao no passar de um aglomerado

interdisciplinar, sem uma identificao como cincia humana, mas apenas como

suporte para os estudos e anlises das demais reas do saber.

A postura interdisciplinarista, como bem observa o autor, parece contradizer

com a ideia de um campo em constituio. J a hiptese da interface, como j dito

anteriormente, aproxima-se mais com a possibilidade de uma maior articulao com a

discusso da construo desse campo, tendo em vista que ela promoveria um debate

entre as mais diversas reas afins e, eventualmente, no diluiria fronteiras, como prev o

aspecto da interdisciplinaridade (BRAGA, 2004).

No entanto, Braga (2004) afirma que apesar da possibilidade de construo de um

campo corresponder inicialmente a ideia de fronteiras definidas, a partir de um ncleo

(objeto do conhecimento) de consenso entre os pesquisadores da rea, no seria essa a

proposta mais ideal. Mesmo considerando adequado um objeto de interesse para a

comunicao, ou seja, que seu campo partisse de uma base slida, esta deve ir ao

encontro de fronteiras indefinidas, com a expectativa de construir, aos poucos, um

razovel consenso sobre at onde vai o campo, e sobre o que estaria alm de sua

pertinncia (p. 5).

Esse ncleo, objeto do conhecimento, normalmente tende a ser identificvel

com a mdia. Esta ainda parece ser o objeto da comunicao mais naturalmente aceito

dentro do campo da comunicao. Porm, h, ao mesmo tempo, um movimento dentro

da rea de no se restringir a esse ncleo, mas tambm de no exclu-lo. O que deve ser

ponderado o que realmente deve ser considerado como mdia, e o que nele serve

mais diretamente ao campo da comunicao. Sem esquecer, tambm, que a

comunicao no a nica rea a fazer uso daquela. Outras reas do conhecimento a

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utilizam como ferramenta de anlise para a compreenso dos seus prprios

questionamentos.

Para Duarte (2003), por exemplo, os objetos de mdia no necessariamente

comunicam:

explcito o vetor da transmisso da informao, mas discutvel as

manifestaes de um dilogo entre os planos cognitivos em ao. Se

tomarmos a comunicao como um fenmeno de percepo e troca, no

podemos reduzi-la a transmisso de informao, ou seja, os meios no so

necessariamente de comunicao. Os meios podem veicular informao e a veiculao de informao uma das etapas do estabelecimento da

comunicao, mas a veiculao por si no indica um fenmeno

comunicacional se temos por comunicao os encontros perceptivos entre

agentes e os produtos cognitivos que emergem (p. 52).

No entanto, o que Jos Luiz Braga (2004) prope que o campo da comunicao

se constitua atravs de suas indefinies, isto , dos pontos cegos entre o que de um e

outro campo (as interfaces). Para o autor, no exatamente a busca por um objeto de

conhecimento do campo o que denomina sua existncia, mas a forma de problematizar

esses objetos, a partir de questes que interessam e sejam inerentes ao campo. Em face

dessa argumentao, independente que a opo seja pelo objeto mdia, o que vale ser

levantar problemas comunicacionais que decorrem desta.

De acordo com o autor, contudo, no basta apenas escolher um objeto, mas buscar

sua abrangncia e formulao do objeto dentro da perspectiva do campo.

Trata-se, portanto, da possibilidade (ou no) de se constituir questionamentos

produtivos de conhecimento diferenciados dos questionamentos propostos

por outras CHS (ainda que partindo de mesmas bases tericas). Trata-se do

compartilhamento ou da disputa entre disciplinas sobre objetos (agora no

plural) que podem at ser empiricamente os mesmos (BRAGA, 2004, p. 7).

Alm das disputas e conflitos existentes entre os vrios campos do conhecimento

e que podem, naturalmente, afetar a constituio de um campo prprio para a

comunicao, outra problemtica que aflige a rea da comunicao que ainda seus

pesquisadores se ignoram, isto , no existe de fato o que eles concordam ou discordam.

A fragmentao presente dentro das instituies de saber, a respeito da Universidade, e

o acolhimento desta com a perspectiva funcionalista da comunicao esta como

sinnimo de meios e informao levou as pesquisas a uma profunda falta de

dilogo, e pouca coeso sobre uma proposta de um objeto que pudesse ser pertinente ao

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campo. No por outro motivo, possvel inferir que a comunicao ainda se enquadra

nas cincias sociolgicas.

Apesar de a mdia, como j frisado anteriormente, representar ainda o primeiro

objeto a ser diretamente associado comunicao, no o que vem, mais recentemente,

sendo defendido por pesquisadores da rea como a proposta mais abrangente e

pertinente aos estudos da comunicao. O aspecto da interao social vem ganhando

fora como mais uma perspectiva para a compreenso do objeto da comunicao.

O expresso relacionamento entre comunicao e interao a principal

perspectiva da linha de pesquisa de pesquisadores como Jos Luiz Braga e Ciro

Marcondes Filho. Interao essa que, conforme estes estudiosos, crescentemente

midiatizada. Essa a uma das grandes questes a ser problematizadas pelo campo da

comunicao.

E, talvez, seja o diferencial entre os demais campos do conhecimento que tambm

visualizam interesse e importncia no quesito interao social para suas pesquisas. No

entanto, tanto a opo pelo objeto mdia, quanto pela interao social, parecem no

representarem a especificidade pretendida para o campo da comunicao. Enquanto o

primeiro estudado por muitas outras disciplinas, o segundo entendido como um

fenmeno da comunicao humana de modo geral e que, por conseguinte, representa

todas as Cincias Humanas e Sociais (BRAGA, 2004).

Entretanto, dentro dessas duas perspectivas, que so costumeiramente

consideradas, entende-se a comunicao como algo que representa apenas um pano de

fundo para as investigaes cientficas dos outros campos do saber, ou como

comunicao humana, isto , que deve ser percebida sob uma dimenso mais

genrica, constituindo-se assim, em objeto comum a todas as demais cincias humanas.

Mas o que o autor Jos Luiz Braga (2004) pretende chamar ateno para o fato

de que independente do objeto, o que deve ganhar relevo sua construo dentro da

rea da comunicao a partir tanto do desatrelamento deste com outras reas como, ao

mesmo tempo, atravs da manuteno de dilogo com elas. No entanto, o autor deixa

claro que sua predileo como objeto do campo comunicacional a interao social,

como principal ngulo de constituio daquele, e a mdia como o seu fenmeno

emprico de maior relevncia, ainda que no exclusivo (p. 10).

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Para o autor, a interao que deve prevalecer como questo fundamental para a

constituio do campo da comunicao, sem que as questes das demais reas sejam

eliminadas, mas sim, analisadas enquanto sobre-determinaes, tonalidades,

especificaes do processo interacional (BRAGA, 2004, p. 16).

importante observar tambm que esse jogo de diferenciao entre as duas

propostas de objetos da comunicao, mdia e interaes sociais, parece mais

transform-las em aspectos temticos, do em questes a serem problematizadas para

constituies do campo. O esforo maior dos pesquisadores do setor deve ser no sentido

de compreender os processos sociais, pela tica dos fenmenos comunicacionais.

Assim, capturar esses processos pelo mbito das mdias ou a partir da perspectiva

interacional, no seria assim to diferente (BRAGA, 2011).

Porm, de modo geral, os processos de interao ampliam a discusso em torno

da ideia de comunicao enquanto fenmeno social. A questo da interao alcana as

formas de trocas simblicas entre os indivduos, e organizao coletiva, at o nvel do

contato interpessoal, da relao com o outro. Seria este o entendiemento que

possivelmente se encontraria na base da comunicao.

Esta interao seria o que Braga (2011) chama de interaes comunicacionais,

isto , so atividades humanas e sociais sendo percebidas pelo ngulo da comunicao,

inversamente ao que ocorre nas demais reas do conhecimento em que a comunicao

quase sempre utilizada como um processo que faz funcionar alguma outra instncia de

interesse social, seja ela, cultural, poltica, educacional, entre outras.

A interao, portanto, remete a ideia de troca, no de forma unilateral, como um

feedback, mas ao aspecto da constante circulao de aes humanas, sobretudo na

sociedade midiatizada. Desse processo, se faz possvel o surgimento de algo novo, de

algo que est sempre em movimento para um eterno dever ser. Assim, seria esta uma

comunicao entendida como um processo de abertura, sob uma perspectiva voltada

sempre para o adiante. Isto :

Com a emisso de uma mensagem, seja televisual, cinematogrfica ou por

processos informatizados em rede social, o receptor, aps apropriao de

seu sentido (o que implica a incidncia das mediaes acionadas), pode

sempre repor no espao social suas interpretaes (BRAGA, 2011, p. 68).

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nesse sentido que a interao comunicacional e a miditizao, podem ser

classificados como possveis questes de natureza prpria da comunicao. Os

processos de midiatizao ultrapassam, contudo, as aes da mdia sobre a sociedade. O

que deve interessar mais para a comunicao, por seu turno, o movimento do

mundo3 profundamente atravessado pelos processos de midiatizao, ou seja, as

produes de sentido, o eterno retorno das interpretaes comunicacionais dentro e para

a sociedade, entre outros requisitos que exigem do pesquisador a vigilante ateno sobre

o outro, inserido neste processo de midiatizao. Para tanto, que Marcondes Filho,

afirma que:

O pesquisador observa, ento, o outro, seja o outro prximo, que a seu lado

assiste s notcias e se deixa ou no impressionar por elas, seja o outro

distante, as reaes registradas pela comunidade de receptores diante de um

fato policial, de um resultado de competio esportiva internacional, de um

final de telenovela, revelando uma reao emocional coletiva como

comunicao. O estudioso desloca-se nomademente por esses territrios

cata de sinais indicativos importantes, ele passeia, vagueia, anda em rodeios e

descreve o Acontecimento comunicacional que se realizou num pequeno

crculo que se posicionou, que construiu sentidos, diante do novo fato

(MARCONDES FILHO, 2009, p. 39).

Mas importante notar ainda, como bem destaca Braga (2011), que a centralidade

da mdia nos estudos sobre comunicao existe devido ao fato de que foi atravs dela

que a sociedade pode conversar consigo mesma, alm de ter tido grande importncia

na construo de sentido, de percepo e objetivao da vida em sociedade. Todavia, o

pesquisador reafirma que a mdia um fenmeno emprico, e no representa fator de

busca do conhecimento em comunicao, mesmo servindo para anlises e estudos de

fenmenos do campo comunicacional.

Pode-se afirmar, por conseguinte, que o interesse hegemnico pela mdia passa ao

largo da compreenso epistemolgica do que pretende o campo da comunicao. Esse

entendimento repousa, sim, na ideia de midiatizao da sociedade por envolver o mbito

dos processos comunicacionais. Para Sodr (2007), a sociedade midiatizada pode ser

entendida como uma nova fase da sociedade do discurso, termo esse levantado

primeiramente pelo filsofo Michel Foucault.

Foucault se referia ao controle da fala e aos grupos constitudos na sociedade a

partir daquele. No entanto, no atual contexto, com a complexificao da realidade, a

questo do controle social vai alm, alcanando um nvel de uma forma de vida

3 Ver, At hoje ainda no comeamos a estudar comunicao, Ciro Marcondes Filho, 2009, p. 38.

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diferenciada, um contexto profundamente enraizado na virtualidade, capaz de mudar a

forma de estar e sentir o mundo.

com essa conjuntura que a comunicao tem que lidar. Com uma realidade que

o pesquisador Muniz Sodr classificou como Bios miditico ou Bios virtual, fazendo

referncia a Bios da Plis descrita por Aristteles. Na Bios virtual, ocorre uma forma de

vida paralela, profundamente intensificada pela tecnologia, e enraizada no sistema

mercadolgico. uma forma de vida, portanto, caracterizada por uma realidade

imaginada, feita por um processo de espetacularizao da vida a partir de um forte fluxo

de imagens (SODR, 2006).

A Bios miditica essa sociedade midiatizada regida pelo mercado e auxiliada

por uma forte estetizao da vida, sobre a qual ns viemos nos referindo ao longo do

texto. um ambiente capaz de afetar as percepes dos indivduos sobre a vida social,

mas, sobretudo, de neutralizar as tenses comunitrias. dentro dessa perspectiva que

se sobressai o aspecto da interao e vinculao nos processos sociais e

comunicacionais, como objetos importantes para a construo de um campo da

comunicao que pense e atue sobre essa realidade.

Comunicao como vnculo comunitrio

Parece que dentro desse contexto complexificado e plural que se torna mais

urgente pensar a comunicao como um processo que pressupe a interao social, com

destaque para as relaes entre os indivduos. Essa possibilidade converge

reflexivamente, portanto, para um relacionar-se que se refere no a uma mera

aproximao, mas a um vincular-se em direo ao outro.

Relao essa que no requer apenas abertura de concesses a esse outro, mas

antes, a entrega mais profunda capaz de unir os indivduos em um comum, em um

vnculo comunitrio. a partir da, que os dois termos, comunicao e comunidade se

entrelaam e passam a caminharem juntos, pois talvez seja o vnculo o elemento essencial

para a comunicao, o objeto do campo em tempos de midiatizao social.

Essa a ligao proposta por Muniz Sodr em seu Livro As estratgias Sensveis

afeto, mdia e poltica. O autor sugere que a relao comunitria vai alm da

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informao veiculada, pois aquela envolve uma relao entre subjetividades. No por

outro motivo que na comunicao existe uma forte presena da dimenso sensvel.

O autor critica o fato de que a concepo hegemnica da comunicao ignore essa

presena da perspectiva sensvel em suas pesquisas, em detrimento do pensamento

tecnicista amparado pelo mercado. So por esses termos que Sodr (2006) sugere uma

reinterpretao da comunicao, como uma possibilidade emancipatria, isto , de

torn-la mais democrtica e desatrelada dos anseios do capital financeiro. Esse o

desafio para a comunicao na contemporaneidade: suscitar primordialmente a

compreenso, sendo esta atravessada pelo plano do afeto e da sensibilidade humana.

O Ocidente foi ao longo dos sculos perpassado pela onipotncia da razo. O

sculo XVIII foi o perodo marcado pelo auge do racionalismo carteziano, regido pelas

leis de causa e efeito e pela distino entre as dimenses da razo e do afeto. A razo

era concebida como lucidez e sabedoria tica implicada na conduta prudente ou

sabedoria prtica [...] mas tambm como valor de normatizao (SODR, 2006, p. 25).

Foi em funo desse valor que a civilizao ocidental avanou em direo a

sociedade do controle, como forma de limitar as paixes, enquanto instncia de potncia

de mudana social, partindo da base, do povo. Alm disso, no transe de sua

quantificao cientfica e tecnolgica, o mundo moderno comea a suspeitar dos afetos

(SODR, 2006, p. 32).

No entanto, Sodr (2006) sustenta que a razo anda de mos dadas com a

irracionalidade, que, no raro, porm, a prpria razo emerge do afeto [...]. o

convencimento, a persuaso, a seduo, ou qualquer outro nome dado a isso, que

preside racionalidade. O afeto vem primeiro e induz arquitetura racionalista (p. 41).

possvel que seja ancorado no afeto que as pessoas construam vnculos, estabeleam

relaes, se comuniquem.

Na contemporaneidade, justamente a racionalidade tcnica que vem para

redescobrir o afeto. Entretanto, seu reaparecimento surge como a mais recente forma de

perpetuar as possibilidades de controle social, s que dessa vez por meio de uma

estratgia mais radical e precisa: a manipulao da psique humana, atravs do estmulo

ao plano do afeto, e a conquista da emoo fcil. E o principal responsvel pela

construo dessa estratgia a mdia espetculo, que se especializa a cada dia na

produo de um espectador dcil, pronto para o consumo.

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Parece que justamente no plano do sentir que nossa poca exerceu seu poder,

destaca Sodr (2006, p.11), referindo-se Mario Perniola4. O desenvolvimento

tecnolgico marcado pelas experincias sensoriais, o cultivo das possibilidades

comunicativas baseadas na lgica da sensibilidade humana, dentre outros, so exemplos

de que cada vez mais, o plano emocional, afetivo, e das relaes sensveis ganham

fortes contornos na atualidade.

Quem exerce esse poder com maestria a mdia espetculo que percebeu a fora

contida na iluso e emoo, como forma de persuaso em torno de interesses privados e

polticos, com os quais mantm fidelidade. A mdia possui um poder central dentro

dessa lgica, justamente porque as relaes sociais na contemporaneidade so cada vez

mais mediadas por imagens. So, contudo, verdadeiros meios de agir sobre o

psiquismo atravs de uma manipulao combinada de imagens e paixes (BUCCI e

KEHL, 2004, p. 46).

O controle na sociedade contempornea se d por meio da produo do desejo.

Implica no estmulo a este desejo atravs do intenso fluxo de imagens, e na sua

satisfao a partir consumo do objeto de desejo. , portanto, um controle alcanado no

mais pelo o mbito do trabalho ou da construo de necessidades, mas sim, com base no

entretenimento e no estmulo ao sentimento de prazer atravs da conquista da

mercadoria.

Entretanto, por outro lado, a dimenso do sensvel, tambm capaz de responder

a uma possibilidade emancipadora da sociedade. Trata-se de reconhecer a potncia

emancipatria contida na iluso, na emoo do riso e no sentimento da ironia, mas

tambm na imaginao (SODR, 2006, p. 38). E foi exatamente a estetizao da vida

em sociedade, ainda que de forma aliada s instncias de poder, que trouxe para dentro

do debate acadmico e das Cincias Humanas e Sociais, sobretudo, para o campo da

comunicao, as questes do afeto e do vnculo, como possibilidade de repensar a

sociedade atravessada pelos processos comunicacionais.

Com efeito, Sodr (2006) afirma que:

por meio do afeto, divisa-se uma teoria compreensiva da comunicao,

presumidamente capaz de trazer mais luz ou hipteses mais fecundas sobre as

transformaes das identidades pessoais e coletivas, as modulaes da

4 Filsofo italiano autor da Obra Do sentir

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poltica e as ambivalncias do pluralismo cultural no mbito da globalizao

contempornea (p. 70).

importante deixar claro que a dimenso do afeto apesar de se desenrolar no

plano individual, tem a fora de empurrar o indivduo para dentro de uma perspectiva

coletiva, isto , capaz de inseri-lo dentro de um movimento que o faa ultrapassar sua

individualidade. A potncia sensvel , nesse sentido, inseparvel do pensamento e da

ao no interior de um comum (SODR, 2006, p. 68).

Por tudo isso possvel afirmar que atravs da dimenso sensvel na

comunicao que se vislumbra a possibilidade de construo do vnculo comunitrio. E

essa a perspectiva que se busca na contemporaneidade, quando um dos principais

desafios da humanidade se impe a partir da convivncia com o outro, com a diferena.

Para tanto a formao de um espao pblico baseado no vnculo social se revela

urgente. ento onde se encontra o papel de uma comunicao pensada para alm da

ideia de informao, compreendida como um espao capaz de realizar constantes

negociaes com contraditrios.

Entretanto, as formas comunicacionais ainda funcionam na direo contrria

dessa proposta. Assim, Marcondes Filho (2010) critica:

Os grandes sistemas sociais (rdio, televises, jornais, revistas, divulgao

pblica e comercial), difundem mensagens diversas, mas no comunicam.

(...) As formas modernas de contato entre pessoas, as imagens de cada um

que podem ser veiculadas pela Internet, os telefones celulares, as cmaras que

capacitam qualquer um a fazer um filme sugerem que as pessoas assim

aproximem-se mais, conheam-se mais. Mas eles iludem. difcil fazer

compartilhar um sentimento, uma preocupao, uma dor. Mais difcil ainda,

seno impossvel, traz-lo para dentro de ns (p. 98).

Por esta razo, mais do que em qualquer outro momento da histria, o horizonte

que se busca est no Outro. Esse o projeto comunicacional que se espera. Que se

privilegie o encontro, a interao entre os indivduos. E no um encontro de iguais, pois

isso no representa um exerccio de convivncia como prope essa mais recente

perspectiva sobre a comunicao, mas sim, a convivncia com a diversidade.

Essa proposta de convivncia entre os indivduos que invoca a ideia de

comunidade para dentro do campo comunicacional ainda em constituio. Atravs dessa

perspectiva possvel visualizar a comunicao enquanto ser em comum. Para Muniz

Sodr (2006), contudo, possvel vislumbrar uma dimenso mais compreensiva para

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comunicao, com vistas no sentimento de comunidade. Assim, a comunidade,

enquanto ideia originaria da diferenciao e da aproximao, a questo subsumida no

conceito de comunicao (p. 93).

A noo de comunidade utilizada aqui pressupe a ideia do deixar-se vincular,

aspecto esse defendido por alguns filsofos comunitaristas a respeito de Jean-Luc

Nancy. Este parte do pressuposto de que os indivduos so sem essncia, isto , sem

uma substncia que os defina, que os preceda. E em cima disso que criamos nossa

existncia. Assim, como no h o que compartilhar, que a comunidade sustentada por

Nancy compartilha o nada-em-comum. uma comunidade aberta pura experincia,

sem predeterminao, sem nada que a defina, e que a confine dentro de uma identidade.

Com base nisso, Nancy (2000) afirma que a comunidade a prpria relao, o

ser-em-comum. E isso no alguma coisa, antes um nada. Pois um nada no pode

ser definido, enquadrado. da que o autor denomina esta forma de compreender

comunidade como inoperante, ou seja, a ideia de que a comunidade deva existir sem

um propsito definido, que ela seja um puro devir.

justamente essa a ideia que vem sendo resgatada por alguns estudiosos da

comunicao que defendem, sobretudo, a construo do campo cientfico para aquele.

Uma comunicao entendida como uma relao, um acontecimento em que dois seres

participam e extraem dessa participao algo novo, que no estava em nenhum deles, e

que faz surgir uma terceira coisa que no existia antes. disso que resulta o processo de

pura relao: a possibilidade de um devir, do algo que vem. uma comunicao

entendida como um processo que move o mundo, que est enraizado na realidade social,

e que capaz de ultrapassar a questo tcnica em que ela ainda se encontra submersa, e

a impede de se constituir como um campo do conhecimento humano.

O problema da comunicao est justamente em perceber esse movimento, esse

processo em que ocorre o encontro entre planos subjetivos. Como afirma Ciro

Marcondes Filho (2010), so os aspectos sensveis do momento da interao que

precisam ser considerados, pois sua importncia consiste exatamente na ocasio em que

se realizam, e devem ser compreendidas enquanto transitam.

O pesquisador um dos grandes defensores da ideia de que a comunicao deve

ser considerada efetivamente como interao. De acordo com ele, a partir da relao e

interao social que surge esse algo inteiramente novo. Para tanto, ele afirma que:

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A comunicao no ontolgica no sentido de no ser algo estvel, fixo,

consistente; nela nada se transfere, ela no uma coisa, menos ainda uma

coisa nica que como vai, assim recebida. Por isso, no sendo nada, ela

no pode encerrar nenhuma verdade, no pode ser traduzida

(MARCONDES, FILHO, 2010, p. 15).

Essa proposta se efetiva quando se vislumbra que a base que sustenta os

processos de interao social, e a relao com o outro, a fora vinculativa. por isso

que possvel inferir o vnculo comunitrio como um objeto da comunicao. Vnculo

este que, por sua vez, parte de um plano sensvel, da dimenso do afeto, isto , o

sentimento afetivo como a argamassa que dar sustento e forma a este vnculo

comunitrio. Noo esta sustentada pelo pesquisador Muniz Sodr, entre outros autores

da rea que buscam expandir os limites impostos pelo mercado comunicao, a fim de

construir um campo cientfico para aquela, que se proponha a agir sobre uma sociedade

profundamente midiatizada.

Consideraes finais

A constituio do campo da comunicao ainda tem um longo caminho a

percorrer. Porm, alguns passos j esto sendo dados para sua efetivao, e a direo

que vem sendo buscada ao encontro de uma comunicao construda sobre pilares

mais humanos, com maior capacidade de compreender os processos sociais de forma a

atuar sobre eles.

E essa perspectiva mais humana se constri com base naquilo que vem sendo

esquecido pelos contemporneos, submersos numa vida cada vez mais fragmentada e

individualizada: o vnculo comunitrio. Esta que pressupe, por sua vez, a possibilidade

do exerccio da convivncia, tarefa cada vez mais difcil de ser executada no mundo

ps-moderno.

Mas apesar de parecer um contrasenso, foi justamente essa sociedade

contempornea, profundamente midiatizada e estetizada que trouxe para dentro dos

jogos das relaes humanas a ideia da interao e relao social como objeto de grande

preocupao das Cincias Humanas e Sociais, especialmente a comunicacional que

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representa a fora motora a impulsionar esses processos sociais, por meio da

midiatizao.

Como afirma Muniz Sodr (2006):

Na nova sociedade da cultura que implica no cultivo das possibilidades

sensoriais, insere-se a problemtica da comunicao em uma epistemologia

compreensiva em busca de um sentido emancipatrio diante da hegemonia

do mercado. [...] O desafio epistemolgico e metodolgico da comunicao

enquanto prxis social suscitar compreenso, um conhecimento e ao

mesmo tempo uma aplicao (p. 15).

Com efeito nunca antes na histria pareceu ser to importante se ater ao plano

cada vez mais micro da sociedade. A observao dos processos engendrados pelos

indivduos em suas vidas comunitrias vem ganhando relevo como forma de

compreender a roda do mundo de forma mais profunda, mais prxima das aes dos

indivduos e de suas vidas cotidianas.

E a existncia humana impossvel ser pensada, na atualidade, sem antes

considerar os processos comunicacionais, to enraizados no curso na vida. So por esses

termos que este artigo trouxe para o debate a possibilidade vinculativa e da interao

social, como um dos aspectos fundamentais para a construo de um objeto para o

campo da comunicao, capaz de por em questo e problematizar a vida em sociedade.

Pois esta a funo de uma cincia das humanidades, compreender o mundo e agir de

forma transformadora sobre ele.

Referncias

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DUARTE, Eduardo. Por uma epistemologia da comunicao. In: LOPES, Maria Immacolata

Vassallo (Org). Epistemologia da Comunicao. So Paulo: Editora Loyola, 2003.

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NANCY, Jean-Luc. La Comunidad Inoperante. Santiago de Chile: Escuela de Filosofia

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PRADO, Jos Luiz Aidar. O campo da comunicao e a comunicao entre os campos na era da

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So Paulo: Editora Loyola, 2003.

SODR, Muniz. As estratgias Sensveis: afeto, mdia e poltica. Petrpolis: Vozes, 2006.

______. Sobre a epistme comunicacional. In. Revista Matrizes, n 1, outubro 2007

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