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  • A cidadania sob a perspectiva da administrao pblica gerencial e doparadigma do cliente

    Gislne Ferreira Barbosa (Instituto Federal do Tocantins) gislane@ifto.edu.brLeandro Ferreira da Silva (Ministrio Pblico do Estado do Tocantins) leandrosilva@mpto.mp.br

    Resumo:A cidadania um tema atemporal. Desde a idade antiga se fala em cidado, entretanto, houve umagrande evoluo no significado do termo, que foi cunhada atravs de um longo processo deressignificao. Nessa dinmica histrica constituda de reinos, guerras, revolues e de novas ideaistrazidas por grandes pensadores, observa-se, em regra, uma relao bipolar entre o Estado, constitudoem suas mais diversas formas, e o povo tambm estruturado de forma diversificada. Essa relao fortemente influenciada pelo modelo de administrao pblica adotado pelo Estado em cada momentoda histria. O objetivo deste artigo apresentar como o Estado se organizou ao longo da histria napromoo da cidadania, bem como apresenta o papel do Estado (atual) sob a perspectiva daadministrao gerencial, tendo como pano de fundo o paradigma do cliente para responder sdemandas da sociedade. Para tanto, foi realizada revises na bibliografia sobre os temas referentes cidadania e a administrao pblica.Palavras-chave: cidadania, administrao pblica, paradigma do cliente.

    Citizenship in the perspective of new public management and clientparadigm

    AbstractCitizenship is a timeless theme from the old age it comes to citizen, however, truth be told, there was agreat evolution in the meaning of the term, which was coined by a long process of reframing. In thishistorical dynamics composed of kingdoms, wars, revolutions, and new ideas brought by greatthinkers, there is, as a rule, a bipolar relationship between the state, constituted in its various forms andthe people also structured in a diversified manner. The aim of this paper and draw a parallel betweencitizenship and the way the state is organized starting from a perspective of general management withthe background of the client paradigm.Key-words: Citizenship, public management, client paradigm.

    1. Introduo

    Aps a redemocratizao do Brasil e a promulgao da Constituio Federal de 1988, tambmdenominada de Constituio Cidad, intensificaram-se as discusses sobre o papel dacidadania e, simultaneamente, de como o Estado deveria se organizar administrativamentediante desse novo arcabouo de direitos e deveres positivados pelos constituintes.

    A (re)construo da cidadania, uma temtica que perpassa a histria da humanidade,metamorfoseando-se medida que o mundo evolua e que os processos administrativos se

    mailto:gislane@ifto.edu.brmailto:leandrosilva@mpto.mp.br
  • desenvolviam. Nesse longo caminho formas de governo foram implementadas, a prpriademocracia se reinventou, e, principalmente no final do sculo XX incio do XXI, com aconsolidao das cincias administrativas, os processos gerenciais progrediramexponencialmente impactando sobremaneira as organizaes pblicas e a forma como estastratam aqueles que so o destino dos seus servios e produtos.

    Diante do exposto acima, importante, ento, refletir sobre a cidadania, sobre seu significado,sua evoluo histrica e suas perspectivas. Assim, o presente artigo faz uma apresentao decomo o Estado se organizou ao longo da histria na promoo da cidadania, bem comoapresenta o papel do Estado atual sob a perspectiva da administrao gerencial, tendo comopano de fundo o paradigma do cliente para responder s demandas da sociedade.

    O artigo est estruturado em mais 4 sees, alm dessa introduo. Na seo seguinteapresenta-se, de forma breve uma historiografia da construo da cidadania no mundo, e emseguida uma apresentao de como est sendo construdo esse processo no Brasil. Na seo 4tem- se uma caracterizao da cidadania sob a perspectiva da Administrao PblicaGerencial e do Paradigma do Cliente e por fim, algumas consideraes finais.

    2. Cidadania na histria

    O paradigma do cliente est intrinsecamente relacionado ao tema cidadania, pois, nosprimrdios da histria no se falava em cidado-cliente, mas apenas em cidado, porm, claro, que este conceito sofreu diversas interpretaes no seu significado ao longo dossculos, Baracho (1994, p.1) assevera que a palavra cidadania provm do latim civitatem quesignifica cidade, expresso que remete s cidades-estados antigas; tipo de organizao a que atribudo, pela maioria dos historiadores, o conceito tradicional de cidadania. Nesta fase acidadania se restringia participao poltica de determinadas classes sociais. Cidado era oque morava na cidade e participava de seus negcios.

    Na Grcia antiga, a cidadania era confundida com a origem do indivduo, pois somente algunspoderiam usufruir e exercer direitos, evidentemente se tratava de uma pequena camada dasociedade, dominada por um regime aristocrtico. Poucos eram os privilegiados que detinhamessa honra, normalmente era o membro masculino da comunidade, que poderia se dedicar sdiscusses e gerir a polis, as cidades gregas.

    No que tange Roma antiga Pinski afirma o seguinteA cidadania romana, por esta razo, era atributo dos homens livres.No entanto, poucos homens livres considerar-se-iam cidados. EmRoma, havia trs distintas classes sociais, qual sejam, os patrcios(descendentes dos povos fundadores), os plebeus (descendentes dospovos itlicos, estrangeiros) e os escravos (prisioneiros de guerra eaqueles que alcanavam esta posio por dvida). Havia tambm osclientes, que eram homens livres, mas dependentes de umaristocrata. Os clientes tinham uma relao de fidelidade com umpatrcio, patrono a quem deviam servios e apoios diversos e de quemrecebiam terra e proteo (PINSKY, 2003, p. 50) Grifei

    Percebe-se que a cidadania romana, em regra, era restrita aos patrcios descendentes dosfundadores, que formavam a nobreza de sangue e hereditria, tornando-se um grupopraticamente inacessvel. Que por sua vez tinham ascenso aos cargos pblicos e aos demaisbenefcios da participao social efetiva, direitos civis, polticos e religiosos.

  • Nas afirmaes de Bernades (1995, p.27) o Direito Romano regulamentava as diferenasentre cidado e no-cidados. O Direito Civil regulava a vida do cidado, enquanto aoestrangeiro se aplicava o Direitos das gentes. A distino era simples: considerava-seestrangeiro quem no era cidado. No obstante, j era tendncia de Roma, desde o fim daRepblica, estender uma paulatina cidadania a todos seus sditos medida que expandia seusdomnios.

    No perodo medievo a temtica da cidadania mostrou-se enfraquecida especialmente pelafragmentao de poder e pela ruralizao da populao, que devido s dificuldades trazidaspelo contexto e pela autonomia concedida aos senhores feudais, no possibilitava o exercciode direitos.

    Para Marshall (1967, p.64) na sociedade medieval, o status era o que possibilitava adistino de classes, assim como se tornava a medida de desigualdade. Desta forma, por nohaver um cdigo uniforme de direitos e deveres que regulasse a participao na sociedade detodas as pessoas, sejam elas nobres, plebeus, livres e servos, inexistia, por consequncia, umprincpio de igualdade, que se contrastaria com a desigualdade de classes.

    Por outro lado, diz Moiss (2005, p. 71), que na baixa idade mdia os camponeses deixaramo feudo e voltaram s cidades, especialmente por causa da autonomia de certas cidades, o queas transformou em lugares sem igual para a prtica da liberdade. Desta forma, o burgo1projeta-se como a polis da antiguidade clssica, e o burgus como a representao do cidado,sendo a cidade o seu ambiente apropriado. Para Bonavides (2003) a decadncia e o fim dofeudalismo vieram naturalmente com a formao dos Estados Nacionais. A sociedade, emboraainda organizada em nobreza, clero e povo, v o poder retornar s mos do rei e o nascimentodo Estado unitrio ou centralizador. Nas colocaes de Vieira (2000) a incompatibilidadeentre a monarquia absoluta e a cidadania (de inspirao greco-romana e sua liberdade civil),obrigou os pensadores modernos a redefinir o que seria sua prpria cidadania. Nessemomento ampliou-se a discusso quanto aos direitos e deveres inerentes queles que seriamsujeitos das liberdades.

    Movidos pela chama de filsofos como Locke e Rousseau que defenderam a democracialiberal, distante do direito divino e que tinha por base a razo. Ideais que muito influenciaramas lutas polticas da poca, transformaram-se em alicerce para os movimentos deindependncia de colnias americanas e de revolues como a Francesa e a Inglesa.Entretanto, neste perodo, diante do fato de que a sociedade ideal apontava desigualdadessociais, a cidadania tambm foi tolhida, de certa forma, de seu sentido mais amplo. Orenascimento permitiu a construo das bases para o nascimento da moderna cidadania, empleno sculo XVIII, enquanto se deflagrava as Revolues Estadunidense, de 1776, eFrancesa, de 1789, que inseriram no contexto mundial um novo tipo de Estado, comformatao liberal, carregando consigo os ideais de liberdade e igualdade e embora tivessemuma origem burguesa auxiliaram na busca pela incluso social. Aliado a tudo istodespontavam as lutas sociais. A cidadania passa, por fim, a manter ntima vinculao com orelacionamento entre a sociedade poltica e seus membros. Nas palavras de Barbalet (1989,p.13) o esforo terico do iluminismo facilmente explicado tendo em vista o pensamentopoltico contextualizado, influenciando, as grandes revolues da poca. A combalidacidadania da Idade Mdia adentra a Idade Moderna com uma roupagem nova. Adquirir a

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