A BIODIVERSIDADE E SEUS BENEFÍCIOS NA AGRICULTURA ... ?· projeto de desenvolvimento rural sustentável…

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A BIODIVERSIDADE E SEUS BENEFCIOS NA AGRICULTURA

PRATICADA EM ASSENTAMENTOS DA REGIO DO PONTAL DO

PARANAPANEMA/SP

Paulo Rogrio Lopes1

Paulo Yoshio Kageyama2

Keila Cssia Santos Arajo Lopes3

RESUMO

O objetivo do presente trabalho consistiu em avaliar os estilos de agriculturas (sistemas

de manejo) praticados pelos agricultores assentados e suas influncias na conservao

da biodiversidade no Pontal do Paranapanema. Realizou-se entrevistas semi-

estruturadas com os agricultores, fotodocumentao das unidades de produo,

monitoramento de pragas nas lavouras adjacentes ao Parque Estadual Morro do Diabo e

caminhadas transversais nos lotes para caracterizao florstica, fitossociolgica e

paisagstica. Os assentamentos rurais da regio estruturados em um fundamentado

projeto de desenvolvimento rural sustentvel tem favorecido a conservao da

biodiversidade, pois a agricultura desenvolvida por parte dos agricultores familiares

assentados na regio do Pontal do Paranapanema tem se pautado nos princpios da

Agroecologia. As unidades familiares agroecolgicas so dotadas de diversidade

biolgica, algumas se constituem em verdadeiros mosaicos, graas diversidade de

culturas existentes em uma mesma propriedade; outras so organizadas em policulturas

e ainda existem unidades de produo agrcola que tm como estratgia produtiva a

adoo de sistemas agroflorestais (agroecossistemas biodiversos, com espcies arbreas

e arbustivas em plantio intercalado com espcies anuais).

Palavras-chave: Agreocologia, Transio agroecolgica, paisagem, diversidade.

Dessa forma, a paisagem outrora dominada por uma matriz composta de cana e

pastagem, tornou-se mais heterognea, aumentando a permeabilidade da paisagem aos

animais e plantas da regio, favorecendo o fluxo gnico entre os fragmentos florestais,

e, consequentemente, conservando a biodiversidade. Alm da paisagem agrcola

formada por mosaicos interligar os fragmentos florestais que at ento se encontravam

isolados, ela permite o desenvolvimento de um estilo de agricultura autossuficiente,

calcadas nos princpios da Agroecologia, que sugere a construo de agroecossistemas

redesenhados e com alta diversidade biolgica, fator que corrobora com a

sustentabilidade do sistema, que se torna mais resiliente, produtivo e autossuficiente na

medida em que avana no processo de transio agroecolgica. A transio

agroecolgica construda nessas reas de assentamento rural nos ltimos 15 anos

possibilitou uma mudana considervel no cenrio paisagstico local, uma vez que os

1 Doutorando em Ecologia Aplicada ESALQ/USP, biocafelopes@bol.com.br 2 Professor Titular ESALQ/USP, pkageyama@usp.br 3 Doutoranda em Geografia, Unesp/Rio Claro, keilacaraujo@hotmail.com

mailto:keilacaraujo@hotmail.com

estilos de agricultura sustentveis foram capazes de aumentar a heterogeneidade da

paisagem.

INTRODUO

A biodiversidade tem sido enaltecida como fator preponderante para a

manuteno da vida no Planeta Terra. No entanto, apesar de representar a base da vida

para toda a humanidade, poucas polticas pblicas, tanto a nvel nacional e

internacional, tm sido efetivas na conservao e preservao dos recursos naturais.

A regio do Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de So Paulo,

Brasil, ficou conhecida pelos constantes conflitos agrrios que ocorreram entre

agricultores sem terra e fazendeiros na dcada de 80 e 90. A ocupao indevida e no

planejada ocasionou perdas significativas de reas consideradas essenciais

conservao da biodiversidade, como a Grande Reserva do Pontal. Atualmente, reas

extensas de pastagens deram lugar monocultura canavieira, favorecendo ainda mais a

homogeneizao da paisagem, o que corrobora com a perda e fragmentao de hbitats.

Apesar de a regio ostentar um histrico destrutivo dos recursos naturais,

principalmente da biodiversidade, ainda existe uma rea significativa de Floresta

Estacional Semidecdua protegida no Parque Estadual Morro do Diabo. E nos ltimos

20 anos os projetos de assentamentos rurais aumentaram a heterogeneidade da

paisagem, o que tem sido um fator preponderante para a conservao biolgica e

produo agrcola sustentvel.

A biodiversidade das florestas tropicais tem sido enaltecida como sendo muito

alta nesses ecossistemas, mostrando a potencialidade que temos para seu uso

econmico. Essa alta diversidade intrnseca dessas florestas, to rica e complexa em

espcies, tem sido tambm colocada como responsvel pelo delicado equilbrio desses

ecossistemas. Portanto, biodiversidade e equilbrio parecem estar associados e se

completando nesses ecossistemas tropicais ricos em espcies (KAGEYAMA, 2008).

Como conseqncia da diversidade e complexidade vegetativa dos SAFs, eles se

tornam importantes para a conservao dos recursos naturais e da fauna e da flora,

constantemente ameaada pelo avano da agricultura intensiva. Estes sistemas so

tambm importantes na gerao de produtos adicionais que, muitas vezes, so

indispensveis para a sobrevivncia dos habitantes das regies onde se cultiva o caf

(VILLATORO, 2004).

Segundo Fernandes (2006) sistemas agroflorestais oferecem um amplo portiflio

de opes de manejo da terra que podem no ser somente servios de provisionamento

(produtividade), mas tambm de regulao e suporte. Ainda, o mesmo autor, dada a

inevitvel mudana climtica existe uma urgente necessidade de diminuir o potencial de

risco.

Os sistemas integrados de produo, tais como os sistemas agroflorestais,

possibilitam a melhoria do ambiente e a promoo scio econmica do setor permitindo

a reduo dos custos de produo e a insero de seus produtos em nichos de mercado

altamente competitivos, que valorizam a qualidade dos servios scio-ambientais

(CAMPELLO, et al. 2006).

De acordo com Siqueira et al. (2006), sistemas agroflorestais se constituem em

modelos de desenho ecolgico sustentvel voltado para a agricultura e restaurao

florestal, por isso, a sustentabilidade uma caracterstica inerente aos SAFs, uma vez

que possui pressupostos ecolgicos, econmicos e sociais.

Dessa forma, sistemas agroflorestais alm de representarem uma nova proposta

de produo agrcola e pecuria sustentvel podem ser considerados modelos adequados

para recuperao de reas degradadas e recomposio florstica de reas de reserva legal

e reas de preservao permanente de propriedades rurais.

A utilizao de sistemas de produo diversificados e adaptados realidade

socioeconmica, climtica e edfica da regio, considerando o saber tradicional dos

agricultores, que possuem amplo conhecimento das espcies de plantas e animais de um

determinado local se constitui em uma estratgia fundamental para promoo da

sustentabilidade social, cultural, econmica e ambiental da agricultura familiar.

Se bem manejados, os sistemas agroflorestais, podem possibilitar a agricultura

permanente, permitindo produo de vrias culturas numa mesma rea, por muitos anos,

com retorno a curto, mdio e longo prazo. Em princpio, os SAFs devem servir como

uma ferramenta para reflorestar reas j abertas e recuperar solos degradados, ao

contrrio de, como muitos pensam, substituir reas de floresta primria (Peneireiro et

al., 2007).

Dada a relevncia dos sistemas agroflorestais para a conservao da

biodiversidade, o presente trabalho tem como objetivo avaliar algumas funes

(servios ecossistmicos) desempenhadas pela biodiversidade local. Assim, tecemos

uma discusso sobre as experincias agroecolgicas da regio e a importncia dos

sistemas agroflorestais para a agricultura familiar, onde a biodiversidade tem sido

utilizada como ferramenta para construir novos ecossistemas agrcolas e florestais

sustentveis.

MATERIAL E MTODOS

rea de estudo

A rea de estudo escolhida para o desenvolvimento da referida pesquisa

encontra-se nos assentamentos rurais da regio do Pontal do Paranapanema, localizada

entre o Parque Estadual Morro do Diabo e importantes fragmentos de mata da regio. A

rea de estudo escolhida foram os SAFs inseridos no projeto Caf com Floresta e as

lavouras convencionais de caf (monocultivos a pleno solo), localizada em uma mesma

fazenda, que atualmente se dividiu em reas de assentamentos rurais.

O Pontal do Paranapanema uma regio que historicamente foi ocupada por

grandes propriedades baseadas na monocultura e pecuria de corte, com ausncia de

manejo conservacionista dos recursos naturais (solo, recursos hdricos, flora e fauna),

mais recentemente pelo cultivo de cana-de-acar, o que tem promovido uma severa

degradao ambiental na regio (Figura 1).

Figura 1- Processo erosivo avanado, com voorocas, em reas que foram

destinadas reforma agrria, na regio de estudo, municpio de Teodoro Sampaio.

A grande concentrao de terras no Pontal do Paranapanema, obtidas pelo meio

da grilagem, facilitou o incio de conflitos sociais na rea, que deram origem a vrios

acampamentos. Esses acampamentos, juntamente com a intensificao do nmero de

ocupaes de terras no Pontal do Paranapanema, deram origem aos projetos de

assentamentos rurais nessa rea (SILVA, et al. 2006). neste contexto que tambm

surge os assentamentos do municpio de Teodoro Sampaio, dentre os quais

destacaremos o Santa Zlia, gua Sumida e Ribeiro Bonito como as reas de estudo

dessa pesquisa.

Em 1941 e 1942, o governo do estado de So Paulo criou trs reservas florestais

somando 297.339 h na regio do Pontal do Paranapanema. Essas reservas tinham por

objetivo a conservao da flora e da fauna. Contudo essas matas acabaram sendo

invadidas, destrudas e substitudas por pastagens e gado bovino (FERRARI LEITE,

1981). Atualmente, restam cerca de apenas 13% dessa rea de reserva.

O Pontal do Paranapanema localiza-se no extremo oeste de So Paulo, entre as

confluncias dos rios Paran e Paranapanema, caracterizada por ser uma regio marcada

pela devastao florestal, que transformou a paisagem em extensas reas de

monocultivos e pastagem (VALLADARES-PDUA, 2002). Possui solos

predominantemente profundos, caracterizados como Latossolo Vermelho, oriundos de

rochas sedimentares da unidade geolgica Arenito Caiu (Atlas Interativo do Pontal do

Paranapanema, 2001). A vegetao caracterstica da regio classificada como Floresta

Estacional Semidecidual.

Quanto aos aspectos climatolgicos, a regio caracteriza-se, segundo a

classificao de Koeppen, citado por Leite (1998), pelo clima do tipo Cwa:

mesotrmico, de inverno seco, caracterizado por temperaturas mdias anuais

ligeiramente inferiores a 22 C, com chuvas tpicas de clima tropical. O clima da regio

seco, com vero quente e mido (PLANO DE MANEJO, 2006). Dessa forma,

segundo a classificao de koppen h dois tipos climticos na regio, sendo Aw (clima

tropical com estao seca de inverno) e Cwa (inverno seco e vero quente). A

precipitao maior no vero, sendo os meses mais chuvosos os de dezembro a

fevereiro. O perodo de maiores ndices pluviomtricos indica maior erosividade,

predispondo mais os agroecossistemas ao processo de eroso, principalmente nos meses

de outubro, novembro e dezembro, quando o solo est na fase de preparo para o cultivo

(ITESP, 1999). O relevo uniforme, suave e ondulado. O tipo de solo predominante o

Latossolo, de textura arenosa e fortemente cido (PLANO DE MANEJO, 2006).

As grandes extenses de pastagem impedem a conectividade entre estes

fragmentos florestais remanescentes, levando ao isolamento muitas espcies, entre elas

o Mico-Leo-Preto (Leontopithecus chrysopygus), um dos primatas mais ameaados de

extino do planeta (VALLADARES-PDUA & CULLEN, 1995).

Aspectos metodolgicos

A metodologia da pesquisa foi baseada no DRP (Diagnstico Rural

Participativo), utilizaram-se as tcnicas de observao, dinmicas em grupos e

entrevistas semi-estruturadas. As entrevistas e dilogos foram realizados com os

agricultores, lideranas locais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST),

tcnicos e educadores, que representam universidades, a unidade de conservao

(PEMD) e ONGs (Organizaes no governamentais), principalmente com os

colaboradores do IPE (Instituto de Pesquisas Ecolgicas). Alm disso, foram feitas

visitas peridicas de janeiro de 2011 a dezembro de 2012 s unidades familiares

selecionadas para a pesquisa. Essa vivncia e acompanhamento mensal das unidades

familiares, alm de facilitar o diagnstico scio-econmico e agronmico-produtivo dos

agroecossitemas, possibilitaram uma maior vivncia dos pesquisadores com os

agricultores, que ao longo desse perodo foram estabelecendo relaes de confiana e

trocas de conhecimentos e informaes, fato que favoreceu a coleta de dados e a

sistematizao dos dados coletados. As informaes coletadas foram complementadas

por dados obtidos a partir de mtodos qualitativos. Os mtodos qualitativos utilizados

foram: a observao participante, as entrevistas semi-estruturadas, a fotodocumentao

e as anotaes em dirio de campo. Dentre os mtodos quantitativos utilizou-se o

monitoramento mensal da praga do caf, avaliaes do ndice de predao, da

diversidade de insetos presentes nos agroecossistemas por meio do uso de armadilhas,

anlise da produtividade dos agroecossistemas e levantamento florstico dos SAFs.

De acordo Lopes et. al (2008), as metodologias de construo coletiva do

conhecimento agroecolgico variam conforme as distintas realidades, e estas devem ser

flexveis e adaptveis, medida que se conhecem melhor os anseios, expectativas e

desejos do pblico com o qual se trabalha.

De acordo Costa (1995), um referencial conceitual e analtico cartesiano e

reducionista vem se mostrando limitado e insuficiente na determinao das causas e na

identificao das alternativas de superao dos crescentes problemas produtivos

agrcolas e dos impactos negativos gerados pelo setor, nas esferas econmica, social e

ambiental. Nesta esfera, a agroecologia pode dar uma expressiva contribuio,

enquanto uma rea da cincia que utiliza um referencial terico e conceitual

fundamentado na abordagem sistmica, buscando entender e analisar a agricultura

como um todo.

A utilizao do Diagnstico Rural Participativo (DRP) como ferramenta para o

desenvolvimento de pesquisa-ao e/ou projetos extensionistas se constitui em uma boa

estratgia para captao de informaes e construo de um quadro analtico, que

posteriormente pode ser utilizado na execuo dos projetos. De acordo com Verdejo

(2007), o DRP consiste num conjunto de tcnicas e ferramentas que permitem que as

comunidades participem ativamente do diagnstico do agroecossistema e a partir da

sejam capazes de auto gerenciar o seu planejamento e desenvolvimento. Desta maneira,

os participantes poderam compartilhar experincias e analisar os seus conhecimentos, a

fim de melhorar as suas habilidades de planejamento e ao (THIOLLENT, 2000).

A Agroecologia enquanto uma cincia forneceu os princpios tericos e

metodolgicos para a execuo de muitas etapas da pesquisa, pois ela embasada nas

diversas reas do conhecimento cientfico e do conhecimento tradicional, contendo

princpios tericos e metodolgicos voltados ao desenho e manejo de agroecossistemas

sustentveis, podendo contribuir para a conservao da agrobiodiversidade e

perpetuao da agricultura familiar, numa tica que transcende a produo de alimentos

e abriga anseios maiores, como a reproduo social das famlias no meio rural, a

qualidade de vida dos agricultores e a preservao dos recursos naturais para as futuras

geraes.

Coletas de dados

O procedimento para coletas de dados foi dividido em algumas diversas etapas.

Na primeira e segunda etapa objetiva-se buscar informaes quantitativas e qualitativas,

realizando entrevistas com os agricultores que esto inseridos no projeto Caf com

Floresta e com os coordenadores do IP (Instituto de Pesquisa ecolgica). A partir da

terceira etapa focou-se na busca de informaes de carter quantitativo, a fim de

dimensionar os impactos de conservao da biodiversidade proporcionados pelo manejo

agroflorestal, envolvendo o inventrio da vegetao e o levantamento fitotcnico das

espcies presentes nos SAFs.

A primeira etapa foi realizada por meio de reunies e entrevistas com todos os

agricultores que esto inseridos no projeto Caf com Floresta, lideranas locais e

agricultores convencionais (Figura 2). Utilizou-se os questionrios semi-estruturados,

buscando-se coletar informaes gerais sobre a caracterizao dos SAFs, o histrico de

desenvolvimento dos agroecossistemas, o conhecimento etnobotnico dos agricultores

em relao ao cultivo de caf sob arbustos e rvores, a relao dos SAFs com a

organizao familiar, o aprendizado e as experincias adquiridas pelos agricultores

familiares, bem como as vantagens e dificuldades no manejo agroflorestal, visando ao

entendimento e contextualizao inicial dos sistemas agroflorestais a partir da

percepo e conhecimento tradicional do agricultor.

Figura 2 - Entrevista semi-estruturada realizada com cafeicultores

agroecolgicos e caminhada transversal no SAF.

RESULTADOS E DISCUSSO

Nos ltimos 20 anos, devido elevada degradao ambiental ocorrida no Pontal

do Paranapanema, muitas projetos de desenvolvimento sustentvel foram desenvolvidos

na regio, no intuito de recuperar muitas reas degradadas existentes, reconectar alguns

fragmentos florestais isolados, conservar a biodiversidade e proporcionar atividades de

educao ambiental e extenso rural que convergem para as prticas propostas pela

cincia Agroecologia, que consiste no redesenho dos agroecossistemas, por meio do

incremento da biodiversidade, alm de valorizar e resgatar as prticas tradicionais de

manejo agrcola.

Um dos projetos desenvolvidos na regio foi o projeto Caf com Floresta, vem

sendo executado pelo IPE Instituto para Pesquisa Ecolgica, desde 2002, juntamente

com as famlias assentadas da reforma agrria, no extremo oeste do Estado de So

Paulo. O projeto subsidiou a insero de 70 sistemas agroflorestais nas unidades

produtivas dos assentados, sendo um SAF implantada em cada unidade. Os SAFs tem

em mdia a rea de 1,0 h e so constitudos pelo componente arbreo, composto por

cerca de 600 indivduos arbreos e arbustivos (em sua maioria nativas e algumas

exticas), pela cultura carro chefe do sistema, a cafeicultura, que representa em cada

SAF por cerca de 3000 cafeeiros em sua maioria da variedade Obat (Coffea arabica).

Dentre os cinco sistemas agroflorestais estudados verificaram-se 60 espcies

diferentes distribudas em 25 famlias, num total de 2068 indivduos vivos amostrados.

As famlias com o maior nmero de representantes no levantamento foram Rubiaceae

(78,19%), Fabaceae (4,98%), Mimosoideae (2,32%), Myrtaceae (2,32%), Mimosaceae

(1,79%), Bignoniaceae (1,64%), Anacardiaceae (1,55%), Malvaceae (1,55%),

Boraginaceae (1,45%), Proteaceae (1,40%). Essas dez famlias representam 97,19% de

todos os indivduos presentes nos sistemas agroflorestais amostrados. Os sistemas

agroflorestais de base agroecolgica adotados pelos agricultores assentados do Pontal

do Paranapanema possuem elevada abundncia e diversidade de espcies. Os SAFs tm

apresentado como alternativa econmica local devido a viabilidade econmica pela

gerao de renda, colaborando com a segurana alimentar das famlias, mais

confiabilidade, autossuficincia e equilbrio.

Notoriamente essa biodiversidade tem sido precursora da estabilidade

biolgica, do sucesso produtivo dos sistemas agroflorestais implementados nos

assentamentos rurais da regio do Pontal do Paranapanema, principalmente no que se

refere ao manejo de pragas e doenas, uma vez que foram constatadas menores

infestaes de pragas e doenas nos SAFs quando comparados como sistemas de

produo de monocultura (Figura 3). Acredita-se que o controle biolgico realizados

pelas vespas predadoras e parasitides tem sido um dos principais precurssores da

diminuio da infestao da praga nos agroecossistemas diversificados.

Figura 3- Maior incidncia do bicho-mineiro do cafeeiro nos sistemas produtivos

convencionais e menor incidncia nos sistemas agroflorestais.

Alm disso, os SAFs tm colaborado com a conservao agrobiodiversidade,

atuando na manuteno da produo de espcies agrcolas essenciais segurana

alimentar das famlias (Tabela 1 E 2 ).

Tabela 1 Produo de olercolas nos assentamentos rurais do entorno do

PEMD e de usinas canavieiras.

Observa-se de acordo com o grfico que a produo voltada para o autoconsumo

de olercolas destaque nos assentamentos pesquisados no entorno do PEMD (Parque

Estadual Morro do Diabo). A maior produo de alface, abbora e quiabo (88,9%),

seguida da produo de mandioca (77,8%), pimenta (66,66%), cebola de cabea, batata-

doce, chuchu, berinjela e pepino (55,55%). As produes de olercolas que apresentam

menores propores no entorno do PEMD so inhame, pimento e tomate (44,5%), e

car, batata e beterraba (22,22%).

Os assentamentos rurais no entorno da usina de cana se destaca pela produo de

mandioca (81,25%), inclusive com relao aos assentamentos no entorno do PEMD. No

entanto, as demais culturas apresentam pequeno percentual, como se pode verificar a

seguir: abbora (50%), alface e quiabo (37,5%), chuchu, pimenta e pepino (31,25%),

batata doce e pimento (25%), berinjela (18,75%), car e tomate (12,5%), cebola de

cabea, batata e beterraba (6,25%). Ressalta-se que a produo dos agricultores

assentados do entorno do PEMD comercializada no programa governamental PAA

(Programa de Aquisio de Alimentos).

Tabela 2 - Produo de frutferas nos assentamentos rurais no entorno do PEMD e de

usinas canavieiras.

O grfico demonstra que a produo de frutferas para o auto consumo nas reas

pesquisadas de grande relevncia. Nos assentamentos situados no entorno do PEMD,

verificou-se que a produo de banana e mamo se encontra presente em todos os lotes

pesquisados, seguido da produo de manga, melancia, limo e abacaxi (88,9%).

Nos assentamentos situados no entorno da usina de cana, o destaca-se a

produo de manga e acerola (93,75%), destinadas ao auto consumo dos agricultores e

suas famlias. Alm da manga e acerola, os agricultores assentados cultivam goiaba

(87,5%), limo e abacate (81,25%), jabuticaba (75%), e laranja, mamo e jaca

(68,75%).

Ressalta-se de maneira geral que a produo de frutferas no entorno do PEMD

apresenta propores considerveis. Contudo, nas reas situadas no entorno das usinas a

produo de laranja, goiaba, manga, jabuticaba e acerola, se apresentam com produo

maior do que o cultivo no entorno do PEMD.

Neste estudo verificou-se que a associao de cafeeiros e outras culturas

agrcolas como espcies arbreas proporcionaram condies microclimticas mais

amenas, favorecendo o desenvolvimento e a produo das plantas, alm disso,

representa uma proteo contra geadas, reduo da bienalidade produtiva, reduo de

custos de produo e aumento da diversidade, resilincia e auto-suficincia dos

agroecossistemas.

As culturas anuais e perenes intercaladas com espcies arbustivas e arbreas (a

maioria, nativas da regio) tem se desenvolvido muito melhor nesse sistema de cultivo

quando comparadas com as lavouras conduzidas de maneira simplificada

(monocultivos).

Os sistemas agroflorestais de alta complexidade biolgica consegue responder

s presses causadas por pragas, geadas e outras adversidades, principlamente porque a

diversidade existente nestes sistemas os tornam mais resilientes, confiveis, robustos e

produtivos. Uma geada que ocorreu em julho de 2011, no municpio de Teodoro

Sampaio, ocasionou severos danos s lavouras convencionais, monoculturas da regio,

acarretando prejuzos econmicos aos agricultores com sistemas produtivos

simplificados. A lavoura de caf convencional ficou totalmente seca e desfolhada,

devido morte das folhas e ramos produtivos das plantas que a geada atingiu. J a

produo de caf em sistema agroflorestal que se localizava ao lado da plantao

convencional, com mesma altitude, tipo de solo e localizava-se a menos de 400 m de

distncia da lavoura avassalada pela geada, no sofreu danos severos e teve condies

de obter produo de caf no ano seguinte. Neste sentido, inegvel a presena de

diversas espcies arbreas corroboraram com a proteo dos cafeeiros e no permitiram

que as temperaturas cassem demasiadamente no SAF a ponto das plantas queimarem

com o processo resfriamento dos tecidos foliares.

CONSIDERAES FINAIS

O enfoque conservacionista desse modelo de sistema agroflorestal adotado pelos

agricultores familiares tem contribudo com a conservao da agrobiodiversidade e

biodiversidade local (fauna e flora). Portanto, os produtos produzidos pelos assentados

poderiam receber um nus (valor adicional) ao bem produzido e vendido, devido esses

servios ecossistmicos prestados pelos agroecossistemas diversificados. Sabe-se que os

sistemas agroflorestais funcionam como abrigo e habitat para os inimigos naturais das

pragas das culturas agrcolas, diminuindo os gastos com a compra de agroqumicos, a

polinizao e aumento da produo tambm so favorecidos. Muitas outras funes so

desempenhadas pelos sistemas agroflorestais, como proteo do solo e dos recursos

hdricos, manuteno recursos genticos e subsistncia das famlias. Todos esses

servios ambientais e muitos outros deveriam ser valorados e pagos aos agricultores que

os produzem.

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