a autoridade da biblia

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Gottfried Brakemeier

A autoridade da Bblia Controvrsias - Significado - Fundamento

2a edio

Sinodal

EST

Prefcio

Falar da autoridade da Bblia pisar em terreno acidentado. Est coberto de pedras de tropeo, desnveis, buracos. Pode causar tombos. Pois o assunto polmico. No que a autoridade da Bblia seja questionada. Na cristandade, ou seja no conjunto das Igrejas e das pessoas crists em todo o mundo, exerce a indiscutvel funo de Sagrada Escritura. Nisto h unanimidade. O dissenso aparece to logo se pede explicao sobre o significado e as implicaes dessa autoridade. As maneiras de entender variam. No raro conflitam e produzem divises. Exigem a discusso e a busca de consenso. A tarefa impostergvel. Pois a Bblia est sendo usada. No pode haver moratria bblica na cristandade. Cabe Igreja de Jesus Cristo a responsabilidade para o uso condizente desse livro e a resistncia contra o abuso. A Bblia dom a ser administrado com o devido zelo. Para tanto importa conhecer a Bblia e auscultar-lhe os propsitos. Em que consiste sua natureza sagrada? ou no palavra de Deus? Como ler a Bblia corretamente? A cristandade deve dar resposta e justificar seu discurso. Ela o deve fazer frente a desafios especficos e realidades em transformao. O presente estudo se insere numa reflexo em andamento desde os incios do cnon. Pretende oferecer informao sobre a matria e uma sntese de tendncias na atualidade. Simultaneamente, porm, oferece posicionamento. Quando se trata de f, neutralidade se toma fictcia. Preferimos assumir nosso ponto de vista, moldado pela tradio luterana e pelas afinidades com as demais Igrejas da Reforma. O horizonte maior, porm, sempre constitudo por toda a ecumene crist, o corpo de Cristo na totalidade. A Bblia no propriedade particular de nenhuma denominao, embora deva ser definido o papel que se lhe atribui. Isto no de forma autoritria, excludente, e, sim, dialgica. No se trata de operar com antemas. A prpria Bblia o probe. O que importa o argumento. este que deve prevalecer, tambm e justamente quando existem dissensos. imensa a literatura sobre o tema e os mltiplos aspectos correlacionados. No temos a pretenso de esgotar os recursos. As

indicaes bibliogrficas, contidas nas notas de rodap, inevitavelmente permaneceram incompletas. Ainda assim, esperamos ter contemplado as obras mais representativas, oportunizando ao leitor e leitora a possibilidade da informao adicional e da avaliao crtica das teses aqui apresentadas. A Bblia um livro fantstico. Por isto, o objetivo ltimo deste estudo no pode consistir na mera apresentao de uma viso panormica. A meta consiste na motivao para a leitura e a explorao da riqueza desse livro. A Bblia no se satisfaz em ser simples objeto de estudo. Quer ser parceira ativa num processo de aprendizagem em que Deus e o mundo esto em jogo. nosso desejo termos contribudo para tanto. Gottfried Brakemeier

Aproveitei o lanamento da 2a edio deste livro para algumas correes. No mais, o texto permaneceu inalterado.Agradeo ao colega Dr. Nelson Kilpp e colega Dra. Marga J. Strher por suas sugestes de emendas. O autor

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Captulo l

Noes elementares

A palavra "Bblia" de origem grega e significa, em traduo literal, "livros" (2 Tm 4.13). Veio a designar aquela coleo de escritos que constituem a Sagrada Escritura da cristandade e lhe revelam a obra e a vontade de Deus1. Trata-se, com efeito, de verdadeira biblioteca, juntando os 39, respectivamente 46 livros2 da primeira parte, chamada Antigo Testamento (AT), e os 27 da segunda parte, do Novo Testamento (NT), numa s Escritura. Ela contm o discurso fundante da f crist, sendo por isto a norma suprema da cristandade. No h comunidade crist sem Bblia. Trata-se, pois, de um livro "ecumnico" por excelncia. Ele preserva a identidade crist no decurso dos tempos e na variao dos lugares, das culturas e dos contextos sociais. A Bblia une a cristandade e lhe imprime inconfundvel perfil em meio ao mundo das religies. F que se fundamenta em Jesus Cristo tem natureza bblica. atravs desses escritos que a voz de Jesus de Nazar, do Deus Criador e do Esprito Santo chega a ns. A Bblia seguramente um dos livros, seno o livro de maior efeito histrico em todos os tempos. Moldou culturas e determinou o esprito de povos e geraes. Encontra-se divulgado em incontveis1 Para informao geral, remetemos a Antnio M. ARTOLA; Jos Manuel Snchez CARO. Bblia e Palavra de Deus. Introduo ao estudo da Bblia, v.2, So Paulo: AM edies, 1996; Joachim FISCHER. A Bblia e a nossa vida. Estudos Teolgicos. Ano 19, So Leopoldo: Sinodal, 1979/2, p.67-84; Kari HOHEISEL et alii. Art. "Escritura(s) Sagrada(s)". In: Lxico das Religies. Hans Wadenfeis (ed.), Petrpolis: Vozes, 1998, p.l79s.; Johan KONINGS. A Bblia, sua histria e leitura: uma introduo. Petrpolis: Vozes, 1992; Valrio MANNUCCI. Bblia - Palavra de Deus. Curso de Introduo Sagrada Escritura. So Paulo: Paulinas, 1986; Carlos MESTERS. Flor sem defesa - uma explicao da Bblia a partir do povo. Petrpolis: Vozes, 1983; Hans Walter WOLFF; Jrgen MOLTMANN. A Bblia - Palavra de Deus ou palavra de homens? So Leopoldo: Sinodal, 1970; Giinter BORNKAMM. Gotteswort und Menschenwort im Neuen Testament. In: Studien zii Antike und Urchristentuin. Gs. Aufs. II, Munchen: Chr. Kaiser, 1959, p.223-236; Robert BRYANT. The Bibles authority today. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1968; etc. 2 Vide pgina seguinte.

exemplares e traduzido em quase todas as lnguas faladas no planeta. Tinha e tem importncia no s para as Igrejas e a teologia crist. Influenciou tambm a filosofia, a poltica, a arte e outros setores da atividade humana. Suprfluo dizer que, na cristandade, o livro mais pesquisado e estudado, muito embora o hbito da leitura esteja em lamentvel declnio. A literatura sobre a Bblia, em forma de comentrios exegticos ou de estudos histricos, verdadeira legio. Mesmo assim, ainda no esto esgotados seus tesouros. A Bblia como fonte, da qual no pra de jorrar gua da vida. Os livros componentes da Bblia se agrupam em blocos. Trata-se, no que diz respeito ao AT, dos livros "histricos", compreendendo Gnesis at Ester; dos livros "didticos", abrangendo J at os Cantares de Salomo; e dos "profticos" que renem os escritos de Isaas at Malaquias. Essa subdiviso algo artificial, no sendo acompanhada pela comunidade judaica. Mas ela ajuda. No NT temos estrutura semelhante3. Aos quatro evangelhos segue o livro dos Atos. Relatam a histria de Jesus e das primeiras comunidades. Segue o bloco das cartas. Entre elas, as da autoria do apstolo Paulo ocupam espao particularmente extenso. Mas tambm as duas cartas de Pedro e as trs de Joo formam um conjunto parte. O NT fecha com o Apocalipse de Joo, um livro que se qualifica a si mesmo como sendo proftico (Ap 22.7,19). Tanto o AT quanto o NT foram compostos para serem "cnon". "Cnon" palavra derivada do hebraico e significa "vara", "rgua" "medida"4. Serve como norma, regra. E isto o que a Bblia pretende ser: Palavra normativa em assuntos de f e conduta. bem verdade que o termo "cnon" foi aplicado ao conjunto das duas partes da Bblia somente no sculo IV d.C.5. E, no entanto, a inteno de estabelecer normas para o discurso e a prtica da Igreja est na origem do que veio a ns como Sagrada Escritura. A Bblia livro "cannico ", juza e mestra de toda doutrina. No pode haver verdade crist contrria aos dizeres da Bblia. Nisto h amplo consenso na cristandade. O cnon rene os escritos "constitutintes" da f crist. As lnguas originais desses escritos so o hebraico, respectivamente em algumas pequenas pores, o aramaico no AT, e o grego3 Gnter BORNKAMM. Bblia - Novo Testamento. Introduo aos seus escritos no quadro da histria do cristianismo primitivo. Biblioteca de Estudos Bblicos 13, So Paulo: Paulinas, 1981,p.lis. 4 Veja B. P. BITTENCOURT. O Novo Testamento - cnon, lngua, texto. So Paulo: ASTE, 1965. Este livro, embora uirapassado por novas edies do texto neotestamentrio, continua instrutivo em muitas de suas pores. 5 Foi Atansio, metropolita na cidade de Alexandria desde 328 e falecido em 373 d.C., quem pela primeira vez aplicou o termo "cnon" Sagrada Escritura da cristandade.

"koin" no NT. Hebraico e aramaico so verses, prximas, mas distintas, das lnguas semticas, parentes do antigo idioma cananeu6. Algo anlogo vale para o grego "comum", ou seja a "koin". Evoluiu do grego clssico, que sua matriz, adquirindo peculiaridades prprias e tomando-se a lngua universal na poca em que surgiu o NT. Imprimiu ao mundo antigo o esprito e a cultura helenstica. A Bblia, pois, provm de outras culturas, passadas, exigindo a traduo para quem busca o acesso a ela. Tradues, porm, so "relativas", necessitando de constante verificao no original. E, j que todos os idiomas se encontram em permanente transformao, alterando o sentido de palavras e expresses, as tradues da Bblia requerem ser periodicamente revistas e atualizadas. E claro que nenhuma traduo pode substituir a lngua original, muito embora o esforo cientfico tenha garantido s tradues contemporneas alto grau de qualidade. Antes da traduo, porm, cabe cincia bblica a reconstruo da verso original do texto7. Pois, enquanto no havia sido descoberta a arte de imprimir livros, os textos sagrados tinham que ser copiados mo. Apesar dos cuidados que houve por parte dos copistas, erros no puderam ser de todo evitados. So numerosos os manuscritos com textos bblicos, integrais ou parciais, uns mais antigos, outros nem tanto. Uns foram redigidos em material perecvel a exemplo dos papiros, outros em material mais resistente como o "pergaminho", ou seja em folhas confeccionadas de couro. H citaes de passagens bblicas em vasos de cermica, inscries em amuletos e outros. A pesquisa investiu enormes energias no esforo por chegar perto do teor original. O trabalho tem sido coroado de notvel xito. Hoje temos em mos um texto que merece alto grau de confiana, tanto no que diz respeito ao Antigo Testamento, quanto ao N