A arte na Pré-história do Brasil

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Pesquisa FAPESP - Ed. 105

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REVISTAS CIENTFICAS TIRAM A AMRICA tATINA DA SOMBRA A IMAGEM DO MS ELES E NS O Homo floresiensis tinha apenas l metro de altura e habitou a Ilha das Flores, na Indonsia, h cerca de 15 mil anos, poca em que o Homo sapiens j havia colonizado todo o planeta. A descoberta do fssil numa caverna acrescentou mais um ramo na rvore genealgica da humanidade. Na foto, a comparao do crnio do homindeo ano, que tinha o crebro do tamanho do de um chimpanz, com o do homem moderno. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 3 Peierecnologiaii8 l'APESP www. revistapesq uisa. fapesp . br 80 CAPA Livros mostram a diversidade da arte rupestre nacional e resgatam a vida na Pr-histria 12 ENTREVISTA Pesquisador, reitor, governador da Bahia, Roberto Santos fala de uma vida como observador engajado e ator da poltica nacional de C& T 4 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 REPORTAGENS POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA 26 PUBLICAES Rede Sei E LO rene 200 revistas ibero-americanas e consolida modelo de acesso livre a artigos 30 DIVULGAO Mais de 1.800 eventos em 252 cidades agitaram a I Semana Nacional de Cincia e Tecnologia 32 BIOSSEGURANA Senado autoriza pesquisas com clulas-tronco e devolve poderes CTN Bio 33 BOLSAS Programa vai apoiar estgios de longa durao no exterior para ps-doutores 34 INOVAO Pequenas empresas tero ajuda da Finep para consolidar seus negcios REPORTAGENS 35 HOMENAGEM O engajamento de Carolina Bori (1924-2004) em bandeiras da psicologia e da universidade CINCIA 42 FSICA Experimento redefine o conhecimento sobre a interao de ncleos atmicos 46 BIOQUMICA Dois equipamentos pem o pas na linha de frente do estudo da estrutura e da ao das protenas 50 GENTICA Quase 40% dos brasileiros tm mutaes que desestimulam o tabagismo 52 BIOLOGIA Estudo registra 2.122 espcies de peixes de gua doce no pas, mas a maioria tem baixo valor comercial 56 USP 70 Como a pesquisa da Faculdade de Educao da USP contribuiu para um ensino pblico e para todos TECNOLOGIA 68 FARMACOLOGIA Pariparoba mostra ao antioxidante e comea a ser usada em produtos que protegem a pele contra a ao do sol 72 METALURGIA Empresa transforma sucata em matria-prima usada na produo de ligas de alumnio 76 AGRICULTURA Embrapa desenvolve para a Regio Nordeste amendoim de pele clara e resistente seca 78 QUMICA Faber-Castell, em parceria com a U FSCar, cria grafite de lpis mais resistente / HUMANIDADES 86 LITERATURA Livro discute as razes para se aventurar no inesgotvel territrio dos romances brasileiros 90 COMUNICAO Estudo prope que o texto jornalstico a principal narrativa contempornea SEES A IMAGEM DO MS .............. 3 CARTAS ....................... 6 CARTA DO EDITOR ............... 9 MEMRIA ................... . 10 ESTRATGIAS ................. 20 LABORATRIO ................. 38 SCIELO NOTCIAS .............. 62 LINHA DE PRODUO ........... 64 RESENHA ..................... 94 LIVROS ....................... 95 FICO ....................... 96 Capa: Hlio de Almeida Foto da Capa: Reproduo do livro Imagens da Prhistria Tratamento de imagem: Jos Roberto Medda PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 5 CARTAS cartas@fapesp.br Revista Foi com prazer que folheei Pes-quisa FAPESP, assim que a recebi. uma tima revista, bem escrita e bem paginada. uma grande contribui-o s cincias no Brasil e s voca-es cientficas. Parabns. ROBERTO D UAIL!BI DPZ So Paulo, SP Dizer que a revista Pes-quisa FAPESP fantstica pouco. Todos os artigos pu-blicados so uma fonte de saber e cultura para todo ti-po de leitor, do estudante ao cientista. Quero agradecer aos belos artigos com temas por-tugueses. Como portugus que sou, fiquei muito feliz com os textos "Uma misso portuguesa com certeza" (edio no 95), "A mulher que amamos odiar" (no 96), "Em se plantando, dinheiro d" e "Uma prova de quali-dade" (no 102). Com respei-to a esse ltimo, adorei saber que o Brasil o nico pas latino-americano a fazer parte do ranking das naes que mais fazem pesquisa relevante. A NTONIO ARMANDO AMARO So Paulo, SP Gilberto De Nucci A entrevista "O radical dos fr-macos" (edio no 103) apresenta aspectos contraditrios entre a ati-vidade acadmica e a indstria far-macutica. Quando o entrevistado aborda os efeitos do placebo e dos re-mdios, afirma: "As porcentagens de pacientes que se beneficiam com os remdios de 2% ou 3%': Quando discute os procedimentos clnicos do mdico e a conversa com o paciente, diz: "Bobagem, medicamento que realmente faz a diferena". Quando 6 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 aborda as cirurgias, considera que "eventualmente podem ser abando-nadas, hoje se trata tumor de prsta-ta com medicamentos': Enfim, essas contradies pessoais e com o pr-prio conhecimento farmacolgico acumulado em algumas dcadas confundem o leitor. de conheci-mento que, embora farmacologica-mente inativo, o placebo possui po-derosa ao teraputica, chegando a EMPRESA QUE APIA A PESQUISA BRASILEIRA lJ) NOVARTIS Trop1Net.org produzir com freqncia melhora em at 30% dos pacientes tratados, todavia isto no significa que os me-dicamentos atualmente no mercado no produzam benefcios. sabido que em razo das variveis biolgicas muitos pacientes no respondem ao tratamento farmacolgico, e at que muitas vezes o mesmo paciente res-ponde de forma diferente ao mesmo medicamento, mas afirmar que "para 90% da populao os remdios no produzem efeito nenhum" ignorar o estado atual da arte. Em outro mo-mento da entrevista o professor De Nucci refere que "funo do mdico fazer diagnstico e prescrever re-mdio ... se o paciente pode ou no comprar o medicamento nunca foi problema mdico': Nesse caso, o en-trevistado esquece que a falta de ade-so ao tratamento farmacoterapu-tico hoje um dos maiores proble-mas de reinternaes hospitalares. Portanto, o poder aquisitivo da po-pulao sim problema tambm do mdico. Outro ponto questionvel da entrevista refere-se questo dos ro-yalties e da universidade, quando o professor afirma: ''A universidade fi-cou com zero%". importante lem-brar que a Universidade de So Pau-lo (USP) financiada com dinheiro pblico e toda a estrutura f-sica e pessoal que o profes-sor utiliza para desenvolver seus servios tem um alto custo. Portanto, sem entrar no mrito dessa sua dupla atividade, nada mais justo que a USP receba parte dos lucros gerados por ela. M OACYR LUIZ AIZENSTEIN ICB/USP So Paulo, SP Os aspectos tcnicos co-locados pelo prof. Gilberto De Nucci (edio no 103) sobre a eficcia de medica-mentos so muito interes-santes e merecem reflexo, mas seu posicionamento tico muito precrio. Isso , para mim, to preocupante quanto a evidncia de que apenas 10% das pessoas que fa-zem uso de remdios realmente se beneficiam com eles. Idiomas }ANAINA B ULHOES MIRANDA So Paulo, SP Li o artigo "O avesso de Narciso" (edio n 103). Gostaria de dizer que a ilustrao da pgina 37 deveria ter como ttulo "Un dimanche apres-midi l'ile de la Grande Jatte': Na re-vista o ttulo da obra est escrito em ingls. O ingls est a cada momento tendo mais influncia, sem que nada possa justific-lo. Ainda lembro que no artigo sobre os detectores de par-tculas instalados no p dos Andes, se falava de "chairman" do projeto, em lugar de presidente, por exemplo. Ci-dado francs, estou bastante enver-gonhado de saber que a Acadmie des Sciences do meu pas aconselha aos autores escreverem em ingls, como foi relatado num nmero ante-rior de Pesquisa FAPESP. No entanto acho que a revista deveria incentivar o uso do portugus e dar um espao adequado para os demais idiomas. YVES MANIETTE Instituto de Qumica/Universidade Estadual Paulista Araraquara, SP Falta psicologia A seriedade, qualidade e apresen-tao de Pesquisa FAPESP so indis-cutveis. No entanto venho notando a ausncia de temas relacionados s pesquisas e modalidades de aplicao da rea de psicologia. Enchentes G ABRI EL Z AIA LESCOVAR So Paulo, SP Excelente a reportagem sobre as enchentes (edio no 103), demons-trando que mtodos e tcnicas sim-ples e de baixo custo podem ameni-zar os problemas das chuvas, evitando assim que a populao de baixa ren-da fique ainda mais pobre. SILVIA E LENA V ENTORI NI Rio Claro, SP Engenharia qumica Foi com satisfao que pudemos ler, na edio no 100 de Pesquisa FA-PESP, a reportagem sobre a Escola Politcnica da USP (EP-USP), na srie "USP 70 anos", com destaque para pesquisas desenvolvidas em algumas reas (engenharia eltrica, engenha-ria civil, engenharia mecnica e ma-teriais). No entanto, como a reporta-gem no incluiu a rea de engenharia qumica, gostaramos de mencionar algumas atividades que, a nosso ver, merecem destaque. O Departamento de Engenharia Qumica da EPUSP sedia o Centro de Excelncia em Au-tomao de Processos da Petrobras, nico centro de excelncia no tema no Brasil e o nico localizado em uma universidade. Tal condio o resultado dos trabalhos de alto nvel desenvolvidos pela equipe de pesqui-sa nos ltimos dez anos, que resulta-ram em contribuies importantes para o setor da indstria de petrleo e petroqumica. A equipe, envolvida nas atividades de modelagem, simu-lao e otimizao de processos, uma das lideranas mundiais no tema. O Centro de Capacitao e Pes-quisas em Meio Ambiente est sen-do construdo em Cubato, a partir de um acordo de compensao am-biental entre Petrobras, Cetesb e Mi-nistrio Pblico. Esse centro de estu-dos multidisciplinares, que ser doado USP, teve sua concepo, projeto e implementao elaborados e coorde-nados por nosso grupo do Departa-mento de Engenharia Qumica. H ainda o Centro de Engenharia de Sis-temas Qumicos e o fato de sermos . o laboratrio principal no projeto Tidia-KyaTera na rea de aplicaes deWebLab. R O BERTO G UA RDANI, CLAUDIO A. LLER DO N ASCIMENTO, REINA LDO GJUDICJ Professores titulares da Escola Politcnica da USP So Paulo, SP Correo Na reportagem "O corpo como fico" (edio no 104), o endereo correto do si te Opus Corpus http:/ I opuscorpus.incubadora.fapesp.br Car tas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br, pelo fax (ll) 3838-41 81 ou para a rua Pio XI, 1.500, So Paulo, SP, CEP 05 468-~0l. As cartas podero ser resumidas por motivo de espao e clareza. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 7 ~ natura bem estar bem Natura Ekos. Viva sua Natureza. Na linha Natura Ekos, tudo leva ao bem estar bem. A comear pelo uso de ativos da biodiversidade brasileira, que a Natura procura extrair de forma sustentvel. Com benefcios que resgatam a experincia que ndios, caboclos e sertanejos acumularam ao longo de sculos de convivncia com as florestas. Feche os olhos, estimule os sentidos. Utilize os recursos naturais de forma que todos tenham acesso a eles. Hoje e sempre. www.natura.net Pesquisa CARLOSVOGT PRESIDENTE CONSELHO SUPERIOR ADILSON AVANSI DE ABREU, CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ, CARLOS VOGT, CELSO LAFER, HERMANN WEVER, HORCIO LAFER PIVA, JOS ARANA VARELA, MARCOS MACARI, NILSON DIAS VIEIRA JNIOR, RICARDO RENZO BRENTANI,VAHAN AGOPYAN, YOSHIAK1 NAKANO CONSELHO TCNICO-ADMINISTRATIVO JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER DIRETOR ADMINISTRATIVO E DIRETOR PRESIDENTE (INTERINO) JOS FERNANDO PEREZ DIRETOR CIENTFICO PESQUISA FAPESP CONSELHO EDITORIAL LUIZ HENRIQUE LOPES DOS SANTOS (COORDENADORCIENTFICO), EDGAR DUTRA ZANOTTO, FRANCISCO ANTNIO BEZERRA COUTINHO, JOAQUIM J. OE CAMARGO ENGLER, JOS FERNANDO PEREZ, LUIZ EUGNIO ARAJO DE MORAES MELLO, PAULA MONTERO, WALTER COLLI DIRETORA DE REDAO MARILUCE MOURA EDITOR CHEFE NELDSON MARCOLIN EDITORA SNIOR MARIA DA GRAA MASCARENHAS DIRETOR DE ARTE HLIO DE ALMEIDA EDITORES CARLOS FIORAVANTI (CINCIA), CARLOS HAAG (HUMANIDADES), CLAUDIA 1Z1QUEIP0TICAC4T), HEITOR SHIMIZU (VERSOON-UNE), MARCOS DE OLIVEIRA (TECNOIOOIA) EDITORES ESPECIAIS FABRlClO MARQUES, MARCOS PIVETTA EDITORES ASSISTENTES DINORAH ERENO, RICARDO ZORZETTO CHEFE DE ARTE TNIA MARIA DOS SANTOS D1AGRAMA0 JOS ROBERTO MEDDA, MAYUMI OKUYAMA FOTGRAFOS EDUARDO CSAR, MIGUEL BOYAYAN COLABORADORES ANA LIMA, 8RAZ, CAROL LEFVRE, EDUARDO GERAQUE (ON-LINE), FRANCISCO BICUDO, JOS CASTELLO, LAURABEATRIZ, LEDA BALBINO, MARCELO HONRIO (ON-LINE), MRCIO GUIMARES DE ARAJO, MARG NEGRO, NELSON DE OLIVEIRA, RUTH HELENA BELLINGHINI, SYLVIA LE1TE.THIAGO ROMERO (ON-LINE), TIAGO CP DOS REIS MIRANDA E YURI VASCONCELOS ASSINATURAS TELETARGET TEL. (11) 3038-1434 - FAX: (11) 3038-1418 e-mail: apesp@tele(arget.com.br APOIO DE MARKETING SINGULAR ARQUITETURA DE MlDIA singular@sing.com.br PUBLICIDADE TEL: (11) 3838-4008 e-mail: publicidade@fapesp.br (PAULA ILIAD1S) PR-IMPRESSO GRAPHBOX-CARAN IMPRESSO PLURAL EDITORA E GRFICA TIRAGEM: 44.000 EXEMPLARES DISTRIBUIO DINAP CIRCULAO E ATENDIMENTO AO JORNALEIRO LMX (ALESSANDRA MACHADO) TEL: (11) 3865-4949 atendimento@lmx.com.br GESTO ADMINISTRATIVA INSTITUTO UNIEMP FAPESP RUA PIO XI, N" 1.500, CEP 05468-901 ALTO DA LAPA - SO PAULO - SP TEL. (11) 3838-4000 - FAX: (11) 3838-4181 http://www.revistapesquisa.fapesp.br cartas@fapesp.br NMEROS ATRASADOS TEL. (11) 3038-1438 Os artigos assinados no refletem necessariamente a opinio da FAPESP PROIBIDA A REPRODUO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E FOTOS SEM PRVIA AUTORIZAO FUNDAO DE AMPARO PESQUISA 00 ESTADO DE SO PAULO SECRETARIA DA CINCIA, TECNOLOGIA, DESENVOLVIMENTO ECONMICO ETURISMO GOVERNO DO ESTADO DE SO PAULO CARTA DO EDITOR Vises do nosso passado A reportagem de capa desta edio /\ de Pesquisa FAPESP parece-me 1 \_ especialmente agradvel, leve, f- cil de ler. Faz parte do trabalho da equi- pe que a cada ms prepara esta revista, claro, mostrar em textos jornalsticos claros, inteligveis para especialistas e leigos, alguns dos melhores projetos de pesquisas cientficas e tecnolgicas de- senvolvidas neste pas. Muitas vezes, contudo, essa uma misso rdua, da- da a complexidade, a dureza mesmo, das explicaes e dos textos cientficos, no raro atravessados por frmulas, equa- es e conceitos muito especficos e so- fisticados. No neste ms, decerto, em que, na seo de Humanidades, conse- guimos juntar cincia com arte na bela reportagem do editor especial Marcos Pivetta sobre a arte rupestre nacional, a partir da pgina 80. S recentemente, pouco mais de 20 anos para c, comeou-se a dar mais ateno s imagens pr-histricas pin- tadas em cavernas ou fora delas e gra- vadas em pedras no territrio brasilei- ro. Antes disso, a ateno estava quase sempre mais voltada para outras for- mas de vestgio arqueolgico. Uma in- justia, como o demonstram dois livros lanados recentemente e que exploram com linguagem simples esse mundo grfico construdo por nossos antepas- sados e mostram a diversidade de tc- nicas, formas e temas que o integra na Amaznia e no Nordeste. Nesse mun- do, pinturas e gravaes na pedra, fei- tas h milhares de anos, espalhadas por todas as regies do Brasil, representam pessoas interagindo entre si e com ani- mais, em cenas de caa, dana e sexo. Em Poltica Cientfica e Tecnolgica vale destacar uma reportagem que mos- tra efeitos, para muito alm do espera- do, de uma divulgao cientfica feita com alta competncia e critrio. A par- tir da pgina 26, a editora Claudia Izique relata como o sistema de publicao eletrnica de revistas cientficas ibero- americanas de acesso aberto, a Rede SciELO, chegou marca de 200 ttulos no ms. No Brasil, so 131 revistas na base SciELO, que registra cerca de 1 milho de acessos por ms. A rede co- meou a funcionar com publicaes brasileiras, mas evoluiu para incorpor- rar revistas de outros pases ibero-ame- ricanos. Hoje, Brasil, Chile, Cuba e Es- panha so cobertos pela rede, mas Argentina, Colmbia, Mxico, Peru e Venezuela participaro dela em breve. Presentes nas melhores revistas cien- tficas do pas e do exterior, os estudos sobre anlise de protenas j mobilizam mais de 200 grupos de pesquisa nessa rea, batizada de protemica. Agora se quer identificar a estrutura, a funo e os modos de interao dessas molculas, codificadas pelos genes. Em outubro, co- mearam a funcionar dois novos equi- pamentos do Laboratrio Nacional de Luz Sncrotron, em Campinas, que per- mitem identificar a seqncia de ami- nocidos {pgina 46). Isso coloca o pas entre aqueles com tecnologia para ana- lisar em detalhes a estrutura das protenas. Grupos de qualquer parte do pas, rela- tam o editor assistente de Cincia Ricardo Zorzetto e a reprter Ruth Bellinghini, podero trabalhar com os dois espectr- metros de massa - financiados pela FA- PESP num total de US$ 1,3 milho -, desde que as propostas sejam aprovadas pelo laboratrio. A perspectiva que es- ses estudos ajudem a encontrar solues na rea de sade e agricultura. Em Tecnologia, as plantas mais uma vez merecem destaque nas pginas de Pesquisa FAPESP (pgina 68). Um arbus- to originrio da Mata Atlntica, a paripa- roba, relata a editora assistente Dinorah Ereno, mostrou ter atividade protetora contra os raios ultravioleta do tipo UVB, os mais lesivos para a pele. A descoberta, feita por equipe da Faculdade de Cin- cias Farmacuticas da Universidade de So Paulo, j levou a um pedido de pa- tente e interessou a uma empresa nacio- nal, que venceu a licitao de concesso de licena para utilizao do extrato da raiz no desenvolvimento de produtos de uso cosmtico. Um exemplo de bom casamento entre universidade, empresa e pesquisadores. Por fim, no deixe de ler o conto do escritor Nelson de Oliveira (pgina 96), uma imaginativa histria sobre o nasci- mento e morte de descobertas e concei- tos cientficos. Tudo discutido numa longa e demorada fila do correio. MARILUCE MOURA - DIRETORA DE REDAO PES0UISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 9 Asas de borboleta desenhadas pelo naturalista: estudo detalhado sobre mimetismo Um sbio na selva H um sculo e meio, Fritz Mller, um dos grandes naturalistas do mundo, chegava ao Brasil-paraficar NELDSON MARCOLIN Delirante, j perto da morte, o naturalista Fritz Mller s pensava em bromlias. Em frases soltas, desfiava as espcies j nomeadas e outras por estudar. Ele no falava dos crustceos que ajudaram a firmar a teoria da evoluo e encantaram Charles Darwin, nem das borboletas que imitam umas s outras para se livrar de predadores ou das orqudeas, todos objetos de intensa observao. Aos 75 anos, Mller tinha delrios febris com bromlias, donas de uma beleza selvagem que o levara a cultiv-las s dezenas em seu grande jardim beira-rio, em Blumenau. Na Europa s era possvel ver essa planta da famlia Bromeliaceae em herbrios por ser exclusiva do continente americano (das mais Mller: vontade na floresta 10 NOVEMBRO DE 2004 PESOUISA FAPESP 105 de 3 mil espcies, somente uma delas habita a frica). O final da vida desse excepcional naturalista narrado por Moacir Werneck de Castro na biografia O sbio e a floresta - A extraordinria aventura do alemo Fritz Mller no trpico brasileiro (editora Rocco, 1992, esgotado). Castro mostra que o cientista realizou seu desejo de juventude de conhecer e desbravar uma terra nova com todo o tipo de espcies animais e vegetais, boa parte delas ainda ignorada pelos especialistas. Johann Friedrich Theodor Mller, o nome completo de Fritz Mller, era natural da regio central da atual Alemanha, Turngia. Chegou em Santa Catarina em 1852 com a mulher, Karoline, a filha Johanna e um dos irmos, August, tambm casado. A imaginao do jovem Mller sempre fora excitada mm pelos relatos dos naturalistas e artistas expedicionrios que ajudaram a mostrar o Brasil dos sculos 18 e 19 para o mundo, como Alexander von Humboldt (que Mller conheceu na Alemanha), Wilhelm Ludwig von Eschwege, Carl von Martius, Johann Spix, Georg Heinrich von LangsdorfF, Hermann Burmeister, Peter Wilhelm Lund, Moritz Rugendas, Aim-Adrien Taunay e Hercule Florence, entre outros. E, claro, Charles Darwin, que detestou a escravido ento reinante no pas, mas maravilhou-se com as florestas brasileiras. Para algum como Mller, formado em farmcia e medicina, com enorme vocao para o naturalismo, ir para o novo mundo era s uma questo de tempo. Uma vez instalado na colnia criada no Brasil pelo velho amigo Hermann Blumenau, o cientista alemo trabalhou duro com a mulher e o irmo para construir sua casa e plantar a prpria comida. Ao mesmo tempo, tinha de educar pessoalmente as filhas (teve nove mulheres e um menino, que viveu gua-viva e crustceo em desenho meticuloso de Mller: contribuio teoria darwinista poucas horas), precaver-se contra os ataques de onas e ndios e, ainda assim, observar bichos e plantas, coletar espcies para estudo e escrever relatrios, artigos e cartas para peridicos no exterior e no Brasil. "Ele teve 248 trabalhos publicados, entre memrias e monografias, em inmeros peridicos cientficos do mundo", diz Paulo Labiak, professor da Universidade Federal do Paran e presidente da Mlleriana: Sociedade Fritz Mller de Cincias Naturais, de Curitiba. "Mesmo para os padres de hoje, mais de um sculo depois, com todos os recursos grficos e eletrnicos disponveis, essa produo impressionante." O naturalista alemo publicou apenas um livro, Fatos e argumentos a favor de Darwin, primeiro na Alemanha (para onde nunca voltou), em seguida na Inglaterra - s apareceu no Brasil depois de anos. A idia era dar mais elementos que fortalecessem a teoria sobre evoluo. O alemo usou os crustceos como ponto de partida e comparou os tipos superiores com os inferiores - mostrou que ambos tinham passado pela mesma forma embrionria. O livro levou Mller a uma prolfica correspondncia cientfica com o ingls e outros cientistas europeus. Impressionado com a qualidade do trabalho do alemo, Darwin passou a cham-lo de "prncipe dos observadores". PESOUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 11 ENTREVISTA: ROBERTO SANTOS Observaes de um espectador eggaja MARILUCE MOURA O professor Roberto Figueira Santos, 78 anos, foi nas dcadas de 1970 e 1980 um dos mais destacados polticos baianos, mesmo caminhando, de certa maneira, na contramo da corrente hegemnica do poder local, liderada pelo hoje senador Antnio Carlos Magalhes. Governador do estado de 1975 a 1979, ele inclui em sua biografia polti- ca stricto sensu tambm um mandato de deputado federal (1996/1999), alm dos cargos de presidente do Conselho Na- cional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico - CNPq (1985/1986) e de ministro da Sade (1986/1987), ambos exer- cidos durante o governo Jos Sarney, o primeiro do Brasil ps-ditadura militar. Tomado o termo poltica em sentido lato, essa biografia abarca numerosos outros cargos, a come- ar pelo de reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de 1967 a 1971. E inclina-se, sem sombra de dvida, para os campos da educao superior e da cincia e tecnologia. Alis, no momento ele membro do Conselho Nacional de Cin- cia e Tecnologia, com mandato at o prximo ano. Pesquisador e docente da rea mdica em sua origem pro- fissional, Roberto Santos , em outras palavras, quando no ator nesta cena, pelo menos um observador privegiado da poltica cientfica e tecnolgica do pas desde os longnquos anos 1950. E seu olhar para o pas, crtico, animado por vi- vidas memrias, parte de uma rea nem central nem a mais perifrica na produo contempornea de conhecimento cientfico nacional - a Bahia ocupa o nono lugar no ranking da produo brasileira por estado, empatada com o Cear, se- gundo dados de 2004 do Institute for Scientific Information (ISI)/Web of Science, baseados na publicao de artigos cien- tficos em peridicos indexados no perodo de 1998 a 2002. Filho do professor Edgard Rego dos Santos, o lder da or- ganizao da UFBA em 1946 e o grande responsvel pela incluso de unidades autnomas e prestigiadas de dana, de teatro e de msica na estrutura da universidade, casado h 41 anos com Maria Amlia, pai de seis filhos e av de seis 12 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 _eiw^S^SffW PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 13 netos, Roberto Santos falou longamente Pesquisa FAPESP em agosto passado. Dessa agradvel conversa em sua bela casa na Quinta do Candeal, em Salva- dor, seguem abaixo os principais trechos. Eu gostaria de comear nossa conversa pelo comeo de sua vida profissional, ou seja, por sua atividade de pesquisador e professor da rea mdica. Eu realmente tive uma vida com ati- vidades muito variadas, algumas delas at imprevistas, mas comecei com de- dicao total ao ensino e pesquisa em medicina. Fiz meu curso de mdico aqui na Universidade Federal da Bahia, e da fui para o exterior. Levei quase trs anos l e quando voltei passei a trabalhar no Hospital das Clnicas da universi- dade, cujo nome oficial Hospital Uni- versitrio Professor Edgard Santos, que estava comeando com condies de trabalho realmente excepcionais, e fiquei totalmente dedicado s atividades acad- micas. Tanto que quando uns 17 anos de- pois fui encaminhado para uma ativida- de que obrigava militncia poltica, foi uma surpresa geral, porque eu no da- va sinais de que tivesse essa inclinao. Seu perodo no exterior, logo aps se for- mar, inclui um tempo na Universidade de Cornell. Eu estive em trs universidades de tendncias diferentes, em trs cidades muito diferentes. Viajei recm-forma- do - me formei em dezembro de 1949 e fui para o exterior em julho de 1950 -, numa poca em que o Brasil tinha se afastado muito dos pases mais avana- dos por causa da guerra, e estvamos ento com um tipo de formao bas- tante fora do tempo. A guerra acabara cinco anos antes, os Estados Unidos es- tavam ento muito voltados para o Pla- no Marshal, de apoio reconstruo da Europa, e com isso o apoio a outras re- gies do mundo, inclusive a Amrica La- tina, foi muito reduzido. Eu fui dos pri- meiros bolsistas com oportunidade de seguir para centros que eram dos mais avanados naquele momento, e com isso aprendi muita coisa que ainda no estava circulando por aqui, vamos dizer assim. Bem, sobre as universidades, fui primeiro para Cornell, em Nova York, onde fiz um curso que era uma espcie de atualizao para as condies da medicina americana, que nos eram es- tranhas, porque mesmo quando o Brasil tinha contato com os pases mais avan- ados era sobretudo com os da Europa a Frana, sobretudo, alguma coisa com a Alemanha e a Inglaterra. Mas justamente naquele perodo os Estados Unidos que estavam despontando para uma nova concepo de atividade clnica, que era o meu rumo, e para a nfase de suas bases cientficas. Quanto tempo o senhor ficou em Nova York? Fiquei nesse curso de adaptao ape- nas por pouco mais de seis meses. Ali foi o meu primeiro contato com uma cidade do porte de Nova York. Bem, e alm da medicina que eu aprendi, tive que reaprender muita coisa bsica. Ex- plicando melhor: ns vnhamos de uma concepo da atividade mdico-clnica muito ao estilo europeu, e sobretudo francs de antigamente, que dava nfa- se descrio das doenas, como elas se apresentam observao do clnico. Os fundamentos da bioqumica, da fisio- logia, da biofsica, eram muito reduzi- dos - a anatomia patolgica era mais avanada - e no tinham a nfase que passaram a ter depois, numa reviravolta que ocorreu da guerra para diante. E ento, alm do que aprendi em relao a clnica no sentido tradicional, da ob- servao mdica, tive que reaprender, digamos, todos esses fundamentos que estavam ainda engatinhando. E a entra- vam novas coisas como, por exemplo, a gentica, a imunologia, que tiveram um grande impulso depois da guerra. Tudo isso deu uma firmeza atividade clni- ca que antes era mais instintiva, com a base da anatomia patolgica. Para um jovem recm-formado era to- do um mundo novo que se abria. Sim. Quando sa de Nova York fui para a Universidade de Michigan, em Ann Harbour - cidade pequena de 40 mil habitantes, dos quais 20 mil eram estudantes. Eles tinham uma excelente faculdade de medicina para o preparo clnico, mas a pesquisa, embora tivesse importncia, no era a nfase princi- pal. E a fui residente no hospital da universidade, mas com as vistas volta- das para mais uma etapa que eu iria cumprir, como cumpri, em Boston, na Universidade Harvard, no Massachu- setts General Hospital, onde trabalhei exclusivamente em metabolismo hi- dromineral. Que seria depois o tema da sua tese? O tema da minha tese e da atividade de pesquisa que tive na Bahia quando voltei, que foi justamente o metabolis- mo de sdio, potssio, pH, hidrognio, oxidose, alcalose, enfim, metabolismo hidromineral. Pude trabalhar, por exem- plo, em estudos de regulao renal e ex- tra-renal do metabolismo de potssio em nosso hospital universitrio, que estava muito bem montado, muito bem orga- nizado, de modo que tivemos ocasio de fazer pesquisas com animais dentro do prprio hospital. mE podia-se colocar animal no hospital?! Sim, como alis ocorre em vrios hos- pitais fora daqui. O andar de cima do hospital era completamente isolado de qualquer atividade clnica, laboratorial. Trabalhei, por exemplo, com a verifica- o da depresso sdica como um fator essencial para o aumento da excreo de amnia, trabalho que em parte era de fisiologia e em parte era de fisiopa- tologia, quer dizer, de alteraes do me- tabolismo da gua e dos eletrlitos em funo de doenas. Tenho uma outra tese de livre-docncia baseada num tra- balho com cirrticos portadores de es- quistossomose. Examino como a excre- o de gua est sujeita a fatores ligados ao metabolismo do hormnio antidiu- rtico fabricado pela hipfise. Nessa poca tinha sido lanado no mercado o fotmetro de chama, alis, os primeiros fotmetros de chama foram testados no laboratrio onde eu trabalhava no Massachusetts General Hospital. Esse equipamento deu um impulso grande ao estudo clnico do metabolismo dos eletrlitos porque uma dosagem que do ponto de vista qumico at ento mui- to complicada entrou para a rotina. Es- ses trabalhos foram divulgados, aceitos por revistas de circulao mundial co- mo a American Journal Phisiology. Em paralelo s atividades de pesquisa, o senhor logo comeou a ter uma influn- cia forte no ensino da Faculdade de Me- dicina da UFBA, no? Sim, eu comecei j tambm com uma atividade intensa na rea de ensino, e em 1956 institu o programa de residncia, que, na poca, s dois hospitais no Bra- sil tinham: o Hospital das Clnicas de So Paulo, o pioneiro, e o dos Servido- res do Estado no Rio de Janeiro, um ex- celente hospital que depois teve dificul- 14 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 dades imensas. A residncia modificou completamente os padres de assis- tncia em todo o Norte e Nordeste. O senhor voltou aos Estados Unidos na dcada de 1960, no? Sim, em 1961,1962, fui de novo pa- ra o hospital de Massachusetts, e l montei uma tcnica para dosar horm- nio diurtico na circulao sangnea. Agora era uma dosagem direta, quando antes eu tinha trabalhado com resulta- dos indiretos da ao de hormnios diurticos nos cirrticos, como falei. O nome do professor Edgar Santos j apareceu, mas no falamos dele. Alm de primeiro reitor, ele foi o grande organiza- dor da UFBA, e com uma sensibilidade muito forte para o espao das artes den- tro da universidade. Como o senhor o v a distncia? Ele um lder na organizao da universidade, e a sensao que a gente tem exatamente que, embora fosse formado em medicina, ele tinha uma sensibilidade toda especial para a cultu- ra, para a rea das artes. Essa sensibili- dade que teria permitido Universi- dade Federal da Bahia ter, por exemplo, a primeira escola superior de dana con- tempornea, ter uma escola superior de teatro. Ter uma escola de msica, por exemplo, que comeou como semin- rios livres de msica, numa reao ao estilo de conservatrio daquela poca, com muito menos formalismo, com a oportunidade de grandes msicos e professores de msica do exterior e do Brasil virem para c, a princpio duran- te os meses de julho, por alguns anos, em atividades que no eram permanentes, e depois em trabalho regular. Enfim, sua sensibilidade ajudou a UFBA a ter todo um lado cultural mais slido do que outras universidades federais, j de cara. E isso mais um pendor prprio do baiano para as artes fez com que em poucos anos se desenvolvessem aqui vo- caes, que terminaram buscando mer- cados maiores e se firmando. Acho que isto um dado importante quando con- frontamos com o desenvolvimento da cincia, em que o pendor do baiano no me parece to forte. D para o senhor falar um pouco sobre como essa viso do professor Edgar San- tos influencia sua formao? Eu vou acrescentar s o seguinte: em- bora seu nome tenha se tornado muito conhecido em funo da nfase que ele deu s escolas de arte de nvel superior, acho que o trabalho de meu pai em re- lao sade foi to ou mais importan- te pelo fato de ele ter, com dificuldades enormes, implantado um hospital uni- versitrio que representa a medicina mo- derna, e que levou 11 anos para ser cons- trudo. A construo comeou em 1937, ele foi inaugurado em novembro de 1948 e entrou em funcionamento em 1949. Ele tem alguma semelhana como Hos- pital das Clnicas de So Paulo, no? Sim, porque Ernesto Souza Campos, professor de microbiologia na medici- na de So Paulo, que depois foi minis- tro da Educao, teve muita influncia no projeto de So Paulo e, anos mais tarde, no daqui. Assim, a planta com a forma de H, em que as enfermarias fi- cam nas alas laterais e os servios gerais no trao do H, muito semelhante de So Paulo. Tudo em tamanho menor. Souza Campos foi um dos brasileiros que fez um famoso curso de sade p- blica na Universidade John Hopkins no fim da dcada de 1920 e dcada de 1930, que teve influncia praticamente no mundo todo, e muita influncia no Brasil. Muitos dos sanitaristas destaca- dos do Brasil fizeram este curso a ttulo de ps-graduao. Assim, Souza Cam- pos trouxe duas influncias muito im- portantes para a rea mdica: a admi- nistrao hospitalar, que praticamente no existia na poca, e a enfermagem, como profisso de nvel superior e ati- vidade importantssima no processo da sade. Vamos dar um salto no tempo: como que o senhor transitou das funes de pes- quisador e professor para a rea da pol- tica da universidade? Eu vou fazer uma digresso para mostrar essa transio. Alm dessa ati- vidade de pesquisa, nos meus primei- ros anos como professor catedrtico (equivalente ao titular dos dias atuais) me dediquei muito a modernizar o en- sino da medicina. No padro tradicio- nal era muito freqente, quase regra, a especializao precoce. O estudante de medicina comeava a trabalhar desde os primeiros anos da sua formao num servio e ali, por questo de amizade, s vezes de parentesco, ele ia criando res- ponsabilidades crescentes e ia se aper- feioando em algumas prticas daque- la especialidade e acabava exercendo a profisso dessa maneira, sem viso de conjunto. Alguns que pretendiam ir para o interior, por conta prpria, sem PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 15 responsabilidade da escola, freqenta- vam dois, trs servios, para poder de- pois, no exerccio profissional, dar co- bertura a tudo que era carncia. A idia ento foi oferecer um programa que se estendesse totalidade dos estudantes e que fizesse com que o estudante, mes- mo dentro do formalismo de um curr- culo, criasse aquela idia geral da me- dicina. O que muito importante em outras carreiras, mas particularmente importante em medicina, porque voc lida com o ser humano, voc no lida com um fgado ou com um corao. Esse esforo de modernizao se estendeu a outras escolas e resultou na criao da Associao Brasileira de Escolas de Me- dicina, entidade que teve uma influn- cia muito grande tanto neste aspecto de estabelecer currculos, normas pedag- gicas e organizao hospitalar ajustada ao ensino, quanto no de inserir no ensi- no da medicina uma noo da medici- na coletiva, da sade pblica, que antes era extremamente precria. E depois desse esforo para a moderni- zao do ensino? Quando eu estava empolgado com esse programa de reforma do ensino mdico, houve uma eleio de reitor aqui. Em 1967 estava havendo uma certa competio entre alguns dos pro- fessores do conselho universitrio para a substituio de Miguel Calmon. A Miguel morreu subitamente nas vspe- ras da eleio. Mas nesse momento o senhor era secre- trio da Sade do Estado. Exatamente. que quando eu esta- va no programa de reforma do ensino mdico, um dos meus empenhos era criar tambm fora do hospital universi- trio oportunidade para os estudantes freqentarem servios nos postos de sa- de, que eram precarssimos. Nesse mo- mento o novo governador, Luiz Viana Filho, me convidou para ser secretrio de Educao. Eu disse a ele que aceita- ria ser secretrio de Sade e assumi em 7 de abril. Em junho houve eleio para reitoria e o nome natural era Orlando Gomes, jurista, professor da Faculdade de Direito, vice-reitor de quase todo o mandato de meu pai, de 1946 a 1961. Mas havia muita disputa e nesse clima o governo federal foi contaminado por uma resistncia ao nome de Orlando, porque ele fora do Partido Socialista, na dcada de 1930. E o governo militar recusou Orlando. Nas vizinhanas da eleio eu entrara como o nome mais votado no segundo escrutnio. Em de- terminada altura o ministro da Educa- o, Tarso Dutra, mandou me chamar, e numa conversa juntamente com Adria- no Ponde, o ento reitor em exerccio, disse que havia resistncia com o pri- meiro nome da lista e, como eu era o segundo, estavam cogitando meu no- me para reitor. Eu disse que no pode- ria aceitar, considerando inclusive a amizade de minha famlia com Orlan- do Gomes, e ele disse que ento teria que devolver a lista para a universidade, pe- dir que organizasse outra, enfim, uma crise. Naquele tempo em que se temiam muito as retaliaes polticas, pedimos tempo para consultar por telefone (es- tvamos no Rio com o ministro) o con- selho universitrio e o prprio Orlando Gomes, que foi taxativo no sentido de que eu aceitasse para evitar crise na uni- versidade. Bom, o resultado que eu, que tinha tido no comeo do governo de Luiz Viana um trabalho enorme pa- ra me preparar para ser secretrio, com menos de trs meses estava saindo para a reitoria. mEna reitoria o senhor teve que encarar a questo da reforma universitria. No final do governo Castelo Branco, Luiz Viana, ento chefe da Casa Civil de Castelo e que tambm era professor de direito da universidade, embora ficasse na poltica quase que o tempo todo, con- seguiu convencer o presidente de que tinha que haver uma reforma das uni- versidades. E Castelo baixou um decreto- lei em 1966. No existia ento nenhuma comisso MEC-Usaid (Usaid a agncia norte-americana para o desenvolvi- mento internacional), que s aconteceu quando Muniz de Arago era ministro, uns dois ou trs anos mais tarde. Ao contrrio do que o movimento estudan- til difundiu, aqui se cuidava s da rees- truturao da universidade, e numa con- cepo desenvolvida por educadores brasileiros. O mais importante dessa re- forma que os setores bsicos do co- nhecimento, que tinham pouco relevo na organizao original das universida- des, passavam a ter uma importncia muito maior - algo que eminentes edu- cadores brasileiros defendiam desde a dcada de 1930 e que s a Universidade de So Paulo experimentara, na Facul- dade de Medicina e na Faculdade de Fi- losofia, e depois a Universidade de Bra- slia, em 1960. Pois bem, o decreto-lei que generalizou este princpio foi de 1966 e no teve nada que ver com o acordo MEC-Usaid. As coisas se confundem por causa dos complementos reestru- turao feitos para enfrentar o movi- mento estudantil, e que pegam particu- larmente na questo da representao 16 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 estudantil. O diretrio acadmico ficou impossibilitado de funcionar nos mol- des que funcionou at 1967 e o diretrio central dos estudantes, mais as unies estaduais, tudo foi cancelado, enfim... Tanto na representao estudantil co- mo no governo da universidade as coi- sas foram muito alteradas e a isso que chamam de reforma universitria. Mas o que nos importa, do ponto de vista do desenvolvimento cientfico da uni- versidade, que a reestruturao de que falo implantou o ensino das cin- cias na generalidade das universidades. O que a reestruturao gerou, portan- to, foi a possibilidade da pesquisa cien- tfica dentro das universidades. Ento, para o senhor, a pesquisa de cin- cias nas universidades brasileiras tem uma certido de nascimento com data precisa? Sim. Em fevereiro de 1966 veio o pri- meiro decreto que traou realmente a linha, a diretriz essencial, diretrizes ra- cionais, intelectuais e tal, mas que as uni- versidades acharam que era um pouco vago do ponto de vista da implementa- o. Ento no ano seguinte houve um segundo decreto, tudo elaborado por educadores brasileiros dentro do Con- selho Federal de Educao. Sei que essa verdade no ser restabelecida, tenho falado disso em mil oportunidades e ou- tros companheiros tambm, mas a co- notao poltica que cerca essa questo muito forte. Para o senhor, somos ainda muito jo- vens em pesquisa cientfica? Sim, tivemos alguma pesquisa desde o sculo 19 e comeo do sculo 20 com os laboratrios soroterpicos, Mangui- nhos, o Instituto Biolgico de So Pau- lo, o Instituto Agronmico de Campinas etc. Entre a agricultura e a sade pbli- ca houve pesquisas no Brasil. Aqui tive- mos a Escola Tropicalista Baiana, mas tudo fora das faculdades. Bem, por que o senhor defende aquela reestruturao da universidade como ab- solutamente necessria? o seguinte: at a Universidade de Braslia, todas as universidades resulta- vam da aglomerao de faculdades iso- ladas. Com isso os setores bsicos do conhecimento, como matemtica, fsica, qumica, biologia bsica, cincias hu- manas tambm, existiam dentro das fa- culdades profissionais como uma fase preliminar, preparatria. E por isso os setores bsicos do conhecimento eram fragmentados dentro das universidades. Existia uma matemtica na Politcnica, uma matemtica na Arquitetura, e por a afora, mas no existia a matemtica como uma unidade mais abrangente que cultivasse todos os aspectos de ensino e de pesquisa e com uma concentrao dos recursos humanos, materiais e financei- ros. Estava tudo pulverizado. Isso se apli- ca fsica, qumica, biologia bsica, s cincias humanas, e a motivao maior da reetruturao foi justamente pegar esses bocadinhos e concentrar numa gran- de unidade de matemtica, ou de fsica, ou de qumica. Isso que foi fundamen- tal, passou a existir uma matemtica, uma fsica, uma qumica com a concentrao dos meios de pesquisa que estavam pul- verizados. E eu estou certo de que foi por causa disso e mais da dedicao exclusi- va que a pesquisa veio a florescer. Mas o senhor mesmo diz que na Bahia a pesquisa no floresceu como o senhor sonhava. Acho que houve uma certa timidez do pessoal dos setores bsicos do co- nhecimento e as faculdades tradicio- nais continuaram dominando o gover- no das universidades. O pessoal no se sentiu com poder, no se sentiu apoia- do nem internamente, na instituio, nem na comunidade em geral para en- frentar o prestgio dos setores tradicio- nais. Setores que no tinham dedicao exclusiva, que uma coisa que veio bem mais recentemente, e por isso produziam pouco do ponto de vista cientfico. Na verdade eles eram mdicos que ensina- vam fisiologia, bioqumica etc. e ao mes- mo tempo dispunham de horas do dia para exercer a profisso mdica, como profissionais generalistas ou especia- listas. Mas importa que a universida- de brasileira foi adiante apesar de todas as dificuldades, toda a falta de dinheiro e tudo o mais. O que a universidade tem hoje de mestrandos e doutorandos, de produo de teses e transformao des- ses trabalhos em artigos de revistas e pe- ridicos bem aceitos, e assim por dian- te impressionante. E no resta dvida que a formao e a qualidade dos pro- fessores melhoraram muito. uBem, se o sistema brasileiro de ps-gra- duao, hoje, forma 7 mil doutores por ano, s pode ter efeitos nesse sentido. Pois , isso no existia antes. O mo- do como a pessoa chegava ao topo da carreira era muito na base das relaes pessoais, aquela coisa de mestre e apren- diz, sem o carter formal, sem nenhum critrio de aceitao, nada. Havia o con- curso, mas o concurso um momento na vida do cidado e a forma como as provas eram feitas antigamente favore- cia mais quem decorava e repetia as coi- sas. Hoje h avaliao da capacidade de criao e realizao de trabalhos. A questo de que tambm em parte por causa disso a nossa pesquisa pouco inovadora, ento da vem aquele ranso que vem do tempo da educao jesus- tica, da herana escolstica, esta hist- ria que vem de muito longe que os por- tugueses nos trouxeram. Ento a gente sabe que at poucas dcadas a histria era mais na base de decorar. E no de transmitir os conceitos da cincia como uma coisa que est sempre sob cautela, sob reexame. Vamos dar novo salto e ver como o se- nhor tratou cincia e tecnologia quando se tornou governador da Bahia, em 1975. H pouco falvamos de cultura cien- tfica e quero lembrar que uma das coi- sas que fiz com maior carinho no go- verno, embora no tivesse maior porte do ponto de vista material e financeiro, foi um museu de cincia e tecnologia em Pituau para promover os conceitos cientficos junto s geraes mais no- vas. Havia uma oportunidade especial para isso, porque a Bahia estava se in- dustrializando rapidamente, primeiro com o Centro Industrial de Aratu e, mais adiante, com o Plo Petroqumico de Camaari, que representou um in- vestimento de US$ 4 bilhes em um intervalo de quatro anos. Era uma coi- sa nova e pensamos em preparar o mu- seu para apresentar as coisas s crianas de forma dinmica e viva. Inauguramos o museu no final de 1978 e em maro de 1979 eu deixei o governo. Resultado: o museu de cincia e tecnologia sumiu. Era um projeto que envolveu inclusive uma participao inglesa - os ingleses so bons em fazer essas coisas com pouco dinheiro -, a cooperao da Pe- trobras, com modelos de torres de pe- trleo, modelos tridimensionais de molculas de produtos petroqumicos, e por a afora. Criamos uma operao museu-escola, que envolvia nibus pa- ra pegar alunos da escola pblica pri- PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 17 mria e lev-los aos museus, inclusive o de cincia e tecnologia. Ento os profes- sores iam antes ao museu para saber o que era aquilo, preparavam sua classe, e impressionante como isso tudo morreu. Mas, para no sermos injustos, preci- so lembrar que em algumas reas existe uma tradio respeitvel de pesquisa na Bahia. Eu me refiro, por exemplo, s pes- quisas na rea de medicina tropical. O senhor poderia comentar um pouco por que essa rea tem sucesso enquanto fsi- ca, mesmo bioqumica etc. permanecem atrasadas? A medicina, a sade, teve realmente um passado que foi sustentado pela presena da faculdade de medicina no ambiente baiano. No entanto, a facul- dade de medicina no foi o fator fun- damental para as pesquisas que foram realizadas na segunda metade do scu- lo 19, por exemplo. Os pesquisadores mais expressivos no se entendiam com a faculdade. J no sculo 20, com o Hos- pital das Clnicas, a Bahia continuou sendo um ambiente muito valorizado pelos pesquisadores porque continuava com uma pobreza intensa, rica para a pesquisa, e ao mesmo tempo passava a ter uma nova condio tanto laborato- rial como clnica. Ento, alm de alguns baianos mesmo, vieram muitos pesqui- sadores de fora nessa rea das doenas infecto-contagiosas, doenas transmis- sveis. Mesmo na dcada de 1930 e um pouco depois, Otavinho Mangabeira, que era pesquisador de Manguinhos, entomologista, aproveitou alguns talen- tos locais e depois trouxe, entre outras pessoas, Samuel Pessoa, professor de pa- rasitologia da USP, para realizar traba- lhos bastante importantes e formar bas- tante gente. Tudo isso num instituto que se chamava Oswaldo Cruz, depois passou a Fundao Gonalo Muniz e, depois, j nos anos 1990, tornou-se outra vez um centro da Fundao Oswaldo Cruz, com um grupo de pesquisadores da melhor categoria, entre eles Bernar- do Galvo, excelente pesquisador. Ele baiano, ficou muitos anos no Rio, e nos anos 1980 passou a estudar bastante a AIDS. Quando eu estava no Ministrio da Sade ele estava l, estavam mon- tando um laboratrio de biologia bas- tante especializado. Existe algum campo especfico onde as coisas agora esto andando bem, alguma doena especfica mais bem pesquisada em Salvador do que em outras cidades brasileiras? Alm de Chagas e esquistossomose, que so, digamos, as coisas tradicionais, tem a leptospirose, tem a AIDS e sobre- tudo doenas virais menos divulgadas, menos conhecidas, que eles esto estu- dando e com bastante resultados bons, e com a aceitao na literatura mdica que seleciona essas coisas. Como o senhor percebe o conjunto do pas hoje em matria de pesquisa? Bem, So Paulo um caso parte. No pas em geral acho que com a ps- graduao as oportunidades de fixao de pessoal em programas regulares nas universidades e o regime de dedicao exclusiva, houve uma evoluo muito grande da produo cientfica, demons- trada inclusive pelo nmero de publi- caes de artigos nas revistas internacio- nais que esto em bases indexadas. H um despertar, uma mudana muito r- pida, ainda que muito mais na rea cientfica do que na tecnolgica. Quem manteve acesa a chama da pesquisa cientfica e tecnolgica com perspectiva, embora reduzida, de inovao, foram as universidades. As empresas foram mui- to mais lentas em despertar para isso, e esto despertando ultimamente muito em funo da necessidade de exportar. Nessa questo do suporte para um am- biente propcio ao desenvolvimento tanto cientfico quanto tecnolgico, h um pro- blema curioso na Bahia que a longa re- sistncia oficial implantao de uma fundao estadual de amparo pesquisa. Quando o senhor governou o estado, no havia clima para criar essa fundao? Em meu perodo de governo o es- foro de investimento de recursos se concentrou no Ceped, Centro de Pes- quisas e Desenvolvimento, que foi fun- dado no governo de Luiz Viana. O Ce- ped desenvolveu muito trabalho na rea de petroqumica, em aperfeioamento de processos petroqumicos, porque o plo petroqumico estava comeando. Fez muito trabalho em agronegcios, em agroindstria. Em metalurgia, como o cobre estava comeando a ser produzi- do aqui, houve necessidade de o Ceped se dedicar metalurgia de no-ferro- sos. Portanto, o Ceped teve um papel muito importante durante muitos anos. E morreu. Acabou. mMaspor que no se criou logo uma fun- dao de amparo pesquisa? Na ocasio das constituintes esta- duais, em 1989, muitos estados criaram fundaes de amparo, inclusive a Bahia, pelo menos na lei. Mas, depois de al- gum tempo, um ou dois anos, a funda- o deixou de existir. Ela era dirigida por um conselho que tinha participa- o de outros rgos da comunidade, e se transformou num conselho com me- canismo de nomeao muito mais vin- culado ao prprio governo do estado. O senhor acha ento que est pronto o arcabouo formal para que se apoie efe- tivamente a pesquisa? Sim, ele j existe. Seguramente, de- pois de um atraso, de uma reduo mui- to grande de impulso em relao ao que tinha comeado, mas no momento est existindo. Quando o senhor ocupou a presidncia do CNPq, tentou de alguma maneira mo- bilizar os sistemas de pesquisa nos esta- dos fora da Regio Sudeste? Eu fiquei somente um ano no CNPq. Mas, se eu j tinha uma inclina- o para esse tipo de atividade, a partir da realmente me empolguei e desde ento muito do que eu tenho exercido, ou escrito ou falado se relaciona a essa questo da cincia e tecnologia como um fator absolutamente decisivo, ina- divel e irrecusvel do desenvolvimen- to do pas. No CNPq havia, quando eu assumi, uma desconfiana muito gran- de da comunidade cientfica em relao s instituies de governo. Era uma co- munidade que tinha feito uma grande resistncia ao governo militar e na transio ainda havia muito do que se chamou "entulho autoritrio". Ento eu tive de enfrentar e atravessar isso. Mas do ponto de vista do trabalho propria- mente, em primeiro lugar, tive muita preocupao com a pulverizao dos recursos do CNPq. Eu fazia uma conta na poca que se voc tomasse, numa contabilidade meio portuguesa, o total de recursos captados pelo CNPq pelo nmero de projetos que ele financiava, na mdia daria entre US$ 5 mil e US$ 10 mil por projeto. Ou seja, quase nada. O que voc faz com US$ 5 mil? Isso no existe. Ao mesmo tempo havia uma pra- xe que era: quem entrou para ser finan- ciado no sai mais. Havia tambm o que se pode chamar de bom-mocismo, 18 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 quer dizer, no recusar o projeto veio do pesquisador. O resultado foi essa pulve- rizao. Bem, claro que o argumento era que o problema que o dinheiro pouco, sem dvida era e continua sen- do pouco e ser sempre pouco, mas isso era tambm um pretexto para no con- trariar, no enfrentar a comunidade cientfica. Eu procurei encaminhar as coisas para reduzir isso, mas como o tempo foi curto... Bom, a outra coisa que, apesar de todo o meu empenho pelo desenvolvimento das cincias b- sicas, que foi muito bem demonstrado na prtica da minha vida, o pessoal das cincias bsicas tinha uma desconfian- a muito grande em relao diviso de recursos com a parte tecnolgica. Mas o conselho de desenvolvimen- to cientfico e tecnolgico... Houve um momento em que se imaginou separar um pouco isso, na idia de que se o CNPq fosse s da cincia seria melhor. Isso ilusrio. No se pode dividir e terminar deixando a tecnologia sem nada. Bem, e por fim havia a famosa questo da distribuio regional. Mas, na verdade, era preciso reconhecer que este problema de distribuio regional tambm decorria muito da falta de ini- ciativa de muitas das unidades dessas regies mais pobres. O senhor no est comprando uma bri- ga com a comunidade cientfica com essa avaliao? Sabemos que a predominncia de pessoas do Leste, do Sul, nos rgos de deciso tambm teve importncia para a m distribuio. Havia um certo me- nosprezo pela qualidade do que vinha do Nordeste, do Norte, isso verdade. Mas de outro lado havia tambm mui- ta falta de iniciativa. Eu digo daqui da minha terra. Eu procurei estimular a apresentao de propostas, sobretudo em certas reas de cuja importncia eu tinha convico, como a rea agron- mica, mas o pessoal andava devagar. Eles no mandavam os projetos? Com exceo de algumas poucas unidades que j tinham tradio, de um modo geral os pedidos eram mais fra- cos. Procurvamos equilibrar, acomo- dar, estimular o que vinha das regies mais pobres, mas sabendo que a grita de que so perseguidos, no so devi- damente valorizados etc. no exata- mente verdadeira. E no Ministrio da Sade? A sade praticamente s cuidava de preveno de doenas transmissveis. As doenas da pobreza, as doenas in- fecto-contagiosas. E era um ministrio muito pequeno. E a populao em ge- ral tinha assistncia na rea de infecto- contagiosas, mas fora da no tinha as- sistncia, a sade no tinha o que fazer, no tinha dinheiro, no tinha pessoal suficiente, enquanto o Ministrio da Previdncia naquela poca nadava em dinheiro. Bom, houve um movimento dos chamados sanitaristas, que uma expresso at imprpria, para juntar a parte de sade que estava no Ministrio da Previdncia burocraticamente, com a sade propriamente dita. A, o Minis- trio da Sade, que era uma coisinha de nada, ficou enorme, com um dinheiro que era da Previdncia. Isso gerou uns problemas iniciais, houve at um mo- mento em que as coisas pioraram, mas depois ficaram mais racionais. Mas no tinha muito como o Minist- rio da Sade se articular com a rea de pesquisa voltada para sade? No existia mecanismo possvel para isso? J existia na estrutura a Fiocruz, tra- dicionalmente ligada ao Ministrio da Sade. A fora da pesquisa do Minist- rio da Sade estava e continua na Fio- cruz, apoiamos muito isso. Bem, sempre restritos naquele momento s doenas infecto-contagiosas, houve naquele mo- mento uma exploso de malria, na re- gio amaznica. O que foi uma questo interessante. Porque durante a Segunda Guerra haviam surgido uns inseticidas muito potentes para acabar com o mos- quito, e surgiu o "aralem", a cloroquina, o primeiro dos antimalricos mais efi- cazes. Antes mesmo disso, a Sucam, Su- perintendncia das Campanhas de Sa- de Pblica, foi constituda e fez um excelente trabalho que acabou com a malria nesta metade do Brasil leste. Mas na Amaznia as mesmas coisas e as mes- mas pessoas falharam. A Amaznia tem uma coisa que eu acho que ainda est para ser descoberta, algo que alimenta o mosquito. Naquela poca em que eu che- guei ao ministrio estava havendo uma grande migrao, sobretudo de agricul- tores do Rio Grande do Sul, de Santa Ca- tarina, Paran etc. para a Amaznia. Es- sa gente chegava sem nenhuma defesa imunolgica, virgens, prontos para ser atacados pelos mosquitos. Ento, era uma devastao. A trabalhamos muito com essa questo de malria, trabalha- mos muito tambm nas febres maculo- sas, em Chagas, em esquistossomose, en- fim, havia problemas, grandes, nessa rea de transmissveis, sobretudo nas regies pobres e havia tambm instrumentos, embora um pouco antiquados, que eram a Sucam e a Fundao Cesp, que eram parte do Ministrio da Sade. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 19 I POLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA ESTRATGIAS MUNDO A safra 2004 do Nobel Sete norte-americanos, dois israelenses, uma queniana, uma austraca e um noruegus foram contemplados nas seis categorias do Nobel 2004. Pela primeira vez o Prmio da Paz coube a uma militante da cau- sa ecolgica. As descobertas de mecanismos do olfato, da fora que une os tomos e de um controle de qualidades das clulas levaram os prmios cientficos. Fluxo de vozes e contravozes Elfriede Jeiinek, austraca de 58 anos, ingressou no clube de escritores quase desconhe- cidos que conquistaram fama planetria ao arrebatar o No- bel de Literatura. Autora de romances, livros de poesia e peas teatrais, foi agraciada graas ao "fluxo musical de vozes e contravozes em seus romances que revelam o ab- surdo dos clichs da socieda- de e seu poder dominador", como informou a Academia Sueca. Um de seus romances foi levado s telas em 2001, com o ttulo A professora e piano. A histria autobiogr- fica narra o envolvimento de uma professora com um jo- vem aluno. A sagrao da "mulher-rvore" A queniana Wangari Maathai, de 64 anos, tornou-se a pri- meira mulher africana a ga- nhar o Nobel da Paz. Doutora em biologia pela Universida- de de Pittsburg (feito rarssi- \^m A escritora Elfriede Jeiinek: contra clichs Wangari Maathai: Nobel da Paz para a causa ecolgica m mo para uma mulher nasci- da no meio rural africano), Maathai vice-ministra do Meio Ambiente e dos Recur- sos Naturais do Qunia. H 27 anos, fundou o Movimen- to Cinturo Verde (Greenbelt Movement), que trabalha pa- ra preservar as selvas do con- tinente, evitar a desertificao e manter atividades extrati- vistas que do sustento po- pulao rural. Conhecida em seu pas como a "mulher-r- vore", tambm ajudou a fun- dar o Partido Verde local. O Movimento Cinturo Verde responsvel pelo plantio de mais de 30 milhes de rvores no continente. a primeira vez que o prmio concedi- do causa ecolgica. Protenas marcadas para morrer Um trio de pesquisadores que desvendou um mecanismo de "controle de qualidade" das c- lulas conquistou o Prmio No- bel de Qumica. Os israelenses Aaron Ciechanover e Avram Hershko, e o norte-america- no Irwin Rose descreveram um dos mecanismos-chave por meio dos quais as clulas des- troem protenas descartveis e preservam outras, numa fa- xina seletiva. Graas ao tra- balho dos trs laureados, possvel entender como a c- lula controla vrios processos centrais, decompondo deter- minadas protenas, e no ou- tras. Quando esse mecanismo falha, pode abrir caminho para a ecloso de doenas co- mo cncer e fibrose cstica. A compreenso desse mecanis- mo pode ajudar a criar re- mdios contra molstias de- generativas. A cola que une os tomos Os norte-americanos David J. Gross, H. David Politzer e Frank Wilczeck foram laurea- dos com o Nobel de Fsica, por suas contribuies na des- coberta e na compreenso da fora nuclear forte, que man- tm as partculas unidas no ncleo dos tomos. Dois ar- tigos publicados em 1973, um pela dupla Gross e Wilc- zek, outro por Politzer, pro- punham que a fora a unir os tijolos construtores de pr- tons e nutrons aumentava com a distncia, em vez de diminuir, como indicava o senso comum. A descoberta da cola atmica serviu de ba- se cromodinmica qunti- ca, teoria que descreve o com- portamento das partculas que compem prtons e nu- trons, os quarks. 20 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 A memria dos aromas A descoberta de uma fam- lia de cerca de mil genes que formam protenas relacio- nadas ao sentido do olfato rendeu aos norte-america- nos Richard Axel e Linda B. Buck o Nobel de Fisiologia e Medicina de 2004. Axel, do Howard Hughes Medi- cai Institte, em Nova York, e Buck, da Fred Hutchinson Cncer Research Center, em Seatlle, constataram que tais protenas, produzidas pelos genes dos receptores olfati- vos, esto presentes em c- lulas do nariz capazes de se comunicar com o crebro. O mecanismo ajuda a expli- car como o sistema olfativo humano capaz de reco- nhecer 10 mil odores dife- rentes - e recordar-se deles at mesmo anos depois do ltimo contato. "H muita coisa ainda por descobrir. Embora ns estejamos tra- balhando nesse problema h 16 anos, mal tocamos a su- perfcie", disse Buck. O tra- balho da dupla que descre- ve os genes data de 1991. Independncia ou estagnao Agraciados com o Nobel de Economia, o noruegus Finn Kydland e o norte- america- no Edward Prescott inspira- ram uma profcua produo acadmica sobre a impor- tncia da independncia dos bancos centrais e do es- tabelecimento de metas para a inflao. Um artigo publi- cado pela dupla em 1977 pro- ps que polticas monet- Quando a cincia faz rir Pesquisadores s vezes de- param com achados to inteis quanto engraados. Para compartilhar as risa- das com o pblico, a revis- ta Annah oflmprobable Re- search criou o Prmio Ig Nobel, o Nobel da cincia excntrica. A 14a edio do prmio, entregue em 30 de setembro na Universidade Harvard, manteve a verve galhofara. O trofu na cate- goria Medicina foi concedi- do a dois norte-america- nos, Steven Stack e James Gundlach, que estabelece- ram um vnculo entre a in- cidncia de suicdios e o gosto pela depressiva m- sica country. O de Biologia foi dividido por cientistas da Sucia, Estados Unidos, Dinamarca e Canad, que, em pesquisas paralelas, che- garam a uma mesma con- cluso: misteriosos sons Um pensador decado o smbolo do prmio captados no mar so pro- vocados pela flatulncia dos arenques, cujos cardu- mes comunicam-se por meio da extica sinfonia submarina. Daniel Symons e Christopher Chabris leva- ram o trofu de Psicologia. Mostraram que pessoas con- centradas assistindo a um jogo de basquete raramen- te percebem a entrada de um homem vestido de go- rila na quadra, batendo no peito. O Ig Nobel da Paz coube ao japons Daisuke Inoue, inventor do karaok, "ao estabelecer uma forma original de ensinar as pes- soas a tolerar as outras", se- gundo os organizadores do concurso. rias duradouras fortalecem as economias e que gover- nos que mudam as regras do jogo para obter ganhos imediatos produzem preju- zos tanto a empresas como a consumidores. Em outro artigo que deu lastro pre- miao, publicado em 1982, a dupla props que trans- formaes tecnolgicas e oscilaes repentinas no preo do petrleo tm mais influncia nos ciclos de cres- cimento ou estagnao do que as demandas dos con- sumidores e a capacidade das empresas de produzir. Kyd- land, de 60 anos, professor da Universidade Carnegie Mellon. Prescott, de 63 anos, d aulas na Universidade Es- tadual do Arizona. Estmulo tica na pesquisa A Unesco, brao das Naes Unidas para Educao, Cin- cia e Cultura, prepara o lan- amento do Observatrio Glo- bal de tica, uma coleo de bancos de dados on-line vol- tada para estimular a tica na pesquisa. O servio dar aces- so a especialistas e institui- es, assim como a informa- es sobre programas de ensino de tica, legislaes e normas ligadas ao tema. "Ser uma re- ferncia sobretudo para os pa- ses em desenvolvimento", diz Henk ten Have, diretor da Di- viso de tica da Cincia e Tecnologia da Unesco. A base do observatrio, com infor- maes em ingls e francs, ficar em Paris, mas centros regionais esto sendo instala- dos no Grupo de Pesquisa e Ps-Graduao do Hospital de Clnicas de Porto Alegre (com informaes em portu- gus e espanhol) e em Vilna, na Litunia (dados em russo). Uma iniciativa semelhante est surgindo no mundo ra- be. Trata-se do Grupo rabe de tica na Cincia e Tecno- logia. Ao anunciar o lana- mento do grupo, Ismail Sera- geldin, diretor da Biblioteca Alexandrina do Egito, expli- cou que a iniciativa busca es- tabelecer padres e constru- o de competncias acerca de aspectos ticos da cincia e da tecnologia em todo mun- do rabe. O grupo vai articu- lar-se com o observatrio da Unesco. (SciDev.Net, 20 de outubro) PES0UISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 21 ESTRATGIAS MUNDO O homem que viu a dupla hlice Richard Wilkins: o DNA no raio X Um dos pais da gentica mo- derna, o neozelands Mauri- ce Wilkins, morreu no dia 5 de outubro, aos 88 anos. Foi ele quem mostrou a James Wat- son, em 1950, uma imagem de raio X em que se via a for- ma de dupla hlice do DNA. A imagem inspirou Francis Crick e Watson a montar o modelo definitivo do cdigo da vida que, em fevereiro de 1953, estabeleceu as bases da biologia molecular. Os nomes de Crick e Watson ficaram vinculados descoberta do DNA, mas a dupla dividiu com Wilkins o Nobel de Me- dicina de 1962. A imagem do DNA fora obtida por Wilkins e pela biofsica Rosalind Fran- klin, que morreu em 1958. Durante a Segunda Guerra Mundial, Wilkins participou do Projeto Manhattan, o pro- grama norte-americano para a fabricao da bomba atmi- ca. Depois tornou-se um crti- co das armas nucleares. Tro- cou os Estados Unidos pela Universidade de Saint An- drews, na Esccia, e passou a ensinar na King's College, on- de trabalhou at sua morte. 0 mensageiro da desconstruo Jacques Derrida, influente fi- lsofo francs, morreu em Paris no dia 11 de agosto, aos 74 anos, vtima de cncer no pncreas. ltimo representan- te da gerao de pensadores de 1968 (ao lado de Louis Al- thusser, Jacques Lacan, Mi- chel Foucault, Roland Barthes e Gilles Deleuze), tornou-se clebre como o pai da "des- construo", mtodo empres- tado a toda gama de cincias sociais e teoria artstica, in- cluindo a lingstica, a an- tropologia, a cincia poltica e a arquitetura. Nascido em El Biar, na Arglia, lecionou na Escola Normal Superior de Paris, ocupando o cargo de diretor de estudos. Profes- sor em universidades como a Sorbonne e a Escola de Altos Estudos em Cincias Sociais, na Frana, e a de Yale, nos Es- tados Unidos, Jacques Derri- da foi um escritor prolfico, com mais de 80 livros tradu- zidos para diversos idiomas, entre os quais Gramatologia, A escrita e a diferena, Mar- gens da filosofia, Espectros de Marx e Resistncias da psica- nlise. Jacques Derrida: escritor prolfico Cincia na web Envie sua sugesto de site cientfico para cienweb@trieste.fapesp.br ^*a*^ yctronic BIOLOGIA CENTRALI-AMERICANA _E^^=g^=( ("(4KS) ft. - ^ A \"r^'--^^;W S5K5^S5!^5!S^^S55!^^! S^^SSS^TSS _o_ # O www.sil.si.edu/DigitalCollections/bca A pgina traz os 58 volumes da Biologia Centrali America, enciclopdia sobre espcies centro-americanas criada no final do sculo XIX. 47 Optical lllusions & Visual Phenomena "'-1 (Visual lllusions | Optische TSuschungen} by Mkrhael Bach ind th* expUmiwr he egrtt ihat >e*e phsunsu are re*Dy Opbtt! JUrniau ouiydtpigtJbTt.ji '.itx Participao da sociedade O envolvimento e a viso cr- tica da sociedade em proces- sos decisrios no campo da Cincia e da Tecnologia so o foco do "Seminrio interna- cional cincia, tecnologia e sociedade: novos modelos de governana" que ser realiza- do em Braslia entre 9 e 11 de dezembro. A promoo do Centro de Gesto e Estudos Es- tratgicos (CGEE) - associa- o privada sem fins lucrativos vinculada ao Ministrio da Cincia e Tecnologia - em con- junto com a FAPESP, a Em- presa Brasileira de Pesquisa Agropecuria (Embrapa) e a Universidade Federal de Santa Catarina. "Queremos discutir uma participao mais crti- ca da sociedade em assuntos como a gesto de investimen- tos, por exemplo", diz Mrcio de Miranda Santos, diretor do CGEE. No seminrio sero discutidas tambm possveis estratgias para as instituies divulgarem suas informaes sobre riscos e benefcios das novas tecnologias. "So me- canismos para fortalecer a di- vulgao do conhecimento com mtodo e tica", comen- tou Carlos Vogt, o presidente da FAPESP. Comit anuncia os candidatos O Conselho Superior da FAPESP recebeu, no dia 20 de outubro, as listas dos can- didatos aos cargos de dire- tor-presidente do Conse- lho Tcnico-Administrativo (CTA) e de diretor cientfi- co, encaminhadas pelo Co- mit de Busca e Seleo constitudo especialmen- te para o processo seletivo. So 10 candidatos a dire- tor-presidente do CTA - cargo desempenhado interi- namente pelo diretor admi- nistrativo Joaquim J. de Camargo Engler desde a morte de Francisco Romeu Landi, em abril - e 11 ao de diretor cientfico, para o lu- gar de Jos Fernando Perez, que vai atuar na iniciativa privada. Agora o Conselho Superior ir analisar os do- cumentos reunidos pelo comit - os currculos de cada candidato, textos des- crevendo a viso de futuro para a FAPESP e o resumo de cada projeto de gesto - e, em reunio no dia de 10 de novembro, constituir as listas trplices que sero en- viadas ao governador Ge- raldo Alckmin, a quem cabe indicar os diretores. No dia 10 de novembro as listas sero divulgadas nos sites da FAPESP (www.fa- pesp.br), da Agncia Fa- pesp (www.agencia.fapesp. br) e da revista Pesquisa FA- PESP (www. revistapesqui- sa.fapesp.br). Os candidatos ao cargo de diretor-presidente do Conselho Tcnico-Administrativo so: Cludio Rodrigues, superin- tendente do Instituto de Pes- FAPESP: processo de escolha de dois diretores quisas Energticas e Nuclea- res (Ipen); Marco Antnio Zago, da Faculdade de Me- dicina de Ribeiro Preto da Universidade de So Paulo (USP); Oswaldo Massam- bani, do Instituto de Astro- nomia, Geofsica e Cincias Atmosfricas da USP; Paulo Eduardo de Abreu Machado, diretor cientfico do Hemo- centro de Botucatu (Unesp); Regina Pekelmann Markus, do Departamento de Fisio- logia do Instituto de Bio- cincias (USP); Ricardo Renzo Brentani, diretor do Instituto Ludwig de Pesqui- sa sobre o Cncer, diretor- presidente do Hospital do Cncer A.C. Camargo e membro do Conselho Supe- rior da FAPESP; Ruy Lau- renti, da Faculdade de Sa- de Pblica (USP); Umberto G. Cordani, do Instituto de Geocincias (USP); Walter Colli, do Instituto de Qumi- ca (USP); e Willy Beak, do Laboratrio de Gentica do Instituto Butantan. Os candidatos ao cargo de diretor cientfico so: Carlos Alfredo Joly, profes- sor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Unicamp e membro do Conselho Supe- rior da FAPESP; Ederio Dino Bidoia, do Instituto de Biocincias de Rio Claro (Unesp); Edgar Dutra Za- notto, da Universidade Fede- ral de So Carlos (UFS- Car); Glaucius Oliva, do Instituto de Fsica de So Carlos (USP); Hernan Chai- movich Guralnik, do Institu- to de Qumica (USP); Hugo Aguirre Armelin, do Institu- to de Qumica (USP); Jos Roberto Guedes de Oliveira, do Centro de Estudos de Economia Sindical e do Tra- balho da Unicamp; Luiz Nu- nes de Oliveira, pr-reitor de pesquisa da USP e professor do Instituto de Fsica da USP em So Carlos; Pedro Manoel Galetti Jnior, do Centro de Cincias Biolgi- cas e da Sade da UFSCar; e Willy Beak, do Laborat- rio de Gentica do Instituto Butantan. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 23 ESTRATGIAS BRASIL Parceria na rbita do Equador Os governos do Brasil e da Rssia devero assinar acor- dos de cooperao no campo a tecnologia espacial, na vi- ita que o presidente russo ladimir Putin far ao Bra- sil neste ms. As parcerias devem incluir a fabricao conjunta de foguetes, o lan- amento de satlites e o uso do Centro de Lanamento de Alcntara (CLA), no Mara- nho. O Brasil j conta com assessoria de especialistas russos na preparao da no- va tentativa de mandar ao espao o Veculo Lanador de Satlites (VLS), depois da tragdia que matou 21 pes- soas no CLA h um ano. Um dos principais interes- les do Brasil so os satli- tes geoestacionrios, cuja tecnologia de produo a Rssia detm. A rbita geo- estacionria, que fica na li- nha do Equador a mais 35 mil quilmetros de altitu- de, estratgica para diver- sas aplicaes. Mais pesados que outros satlites, os geo- estacionrios ficam voltados para o mesmo ponto da su- perfcie da Terra e so apro- priados para fazer controle de vos e de desmatamen- to, alm de ter uso em tele- comunicaes. H pelo me- nos trs possibilidades na parceria: a compra de um satlite russo, o aluguel ou o desenvolvimento no pas com transferncia da tec- nologia. Os russos pode- ,, riam cooperar, ainda, n; produo de um foguete capaz de lanar o satlite - os lanadores da Ucrnia, pas com que o Brasil tam- bm tem celebrado parceri- as, no comportariam esse tipo de satlite. As discus- ses preliminares ocorreram em outubro, em Moscou, na visita que o vice-presi- dente da Repblica, Jos Alencar, fez ao primeiro-mi- nistro da Federao Russa, Mikhail Fradkv. Os aor dos do prosseguimento dois outros que Brasil e Rssia firmaram em 1997, um sobre cooperao em cincia e tecnologia, outro sobre o uso do espao para fins pacficos. 0 resgate de Adolpho Lutz A Editora Fiocruz acaba de lanar os quatro primeiros vo- lumes da obra completa de Adolpho Lutz, com o legado do precursor de campanhas sanitrias e estudos epidemio- lgicos envolvendo molstias como a clera, a febre tifide, a peste bubnica e a febre amarela. A srie ter, ao todo, 21 volumes. O lanamento rene os livros Primeiros tra- balhos: Alemanha, Sua e Bra- sil (1878-1885); Hansenase; Dermatologia & micologia; e um suplemento com gloss- rio, ndices e resumos. O tra- balho foi organizado pelo historiador Jaime Benchimol e pela biloga e historiado- ra Magali Romero S, ambos da Fundao Oswaldo Cruz. Eles se debruaram sobre o arquivo pessoal do cientista, reunido, dcadas atrs, pelos filhos Bertha e Gualter Lutz. Sob a guarda do Museu Na- cional, o acervo de Adolpho Lutz constitudo por rela- trios, protocolos de ne- crpsias, receitas, anotaes e quase 4 mil cartas. A cor- respondncia ser reunida em cinco volumes da srie, com lanamento previsto pa- ra 2005. Intercmbio trar norte-americanos A FAPESP e a Comisso para o Intercmbio Educacional entre os Estados Unidos da Amrica e o Brasil (Comisso Fullbright) firmaram um me- morando de entendimento sobre a participao de pro- fessores e pesquisadores nor- te-americanos em projetos temticos e/ou nos Centros de Pesquisa, Inovao e Difu- so (Cepid) financiados pela FAPESP. Os principais objeti- vos do programa so destacar a atuao do Brasil e do Esta- do de So Paulo na cincia e a tecnologia no meio de pes- quisa norte-americano e es- tabelecer novas linhas de pes- quisa. As duas organizaes devero selecionar, anualmen- te, em competio aberta, at oito professores ou pesqui- sadores norte-americanos de excelncia para participar de investigaes em projetos te- mticos ou nos Cepid, por um perodo de dois a quatro meses. 24 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 A redescoberta do rio Amazonas Em julho de 2005, um grupo de 52 pesquisadores do Brasil e outros nove pases sul-ame- ricanos partiro da nascente da bacia do rio Amazonas, nos Andes peruanos, para cumprir, em quatro meses e meio, uma expedio at a foz, no oceano Atlntico. A viagem ser feita por terra e pela gua, com apoio de ca- minhes, um barco com bal- sa, caiaques, animais de carga e at um helicptero. O obje- tivo medir a extenso do rio - sistemas de georreferencia- mento sugerem um tamanho maior do que o oficial. Tambm se buscar avaliar at que pon- to as mudanas climticas es- to alterando as condies de degelo dos Andes e de chuva na bacia do Amazonas e, com isso, modificando o perfil de sedimentos lanados no curso d'gua. A equipe contar com gelogos, gegrafos, bilo- gos e at um arquelogo. A Expedio Andes-Amazonas uma iniciativa da Organiza- o Scio-Ambiental e Expe- dies Cientficas, com o apoio da Organizao do Tratado de Cooperao Amaznica, que rene oito pases da re- gio, e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia (Inpa), universidades federais do Ama- zonas e do Acre, entre outros. Os resultados da viagem sero convertidos em vdeos, livros e uma exposio. Hegemonia feminina As mulheres monopolizaram o 20 Prmio Jovem Cientis- ta, cujo tema foi a busca de solues para a fome. Floren- cia Olivera, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, venceu a categoria Gradua- dos. Ela desenvolveu uma for- ma de conservao da batata por meio de um bactericida. O segundo lugar foi de Cyn- thia Ditchfield, da Escola Po- litcnica da USP, com um pro- jeto sobre produo de pur a partir de bananas rejeitadas para comercializao. O ter- ceiro lugar coube a Priscila Rangel, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria, com um estudo sobre uma promis- sora espcie de arroz. A hege- monia feminina se repetiu na categoria Estudantes. Vence- ram Marcela Chiumarelli, da Universidade Estadual de Cam- pinas, Danielle Lima e Polly- anna Rangel, da Universidade Federal de Viosa. Na catego- ria Cientista do Futuro, dis- putada por alunos do ensino mdio, os destaques foram Magno Santos, de Montes Claros (MG), Danielle Perei- ra, de Recife (PE), e Ronaldo Brito, de Caucaia (CE). Muito alm do caranguejo A Embrapa Meio-Norte, unidade da Empresa Bra- sileira de Pesquisa Agro- pecuria no Piau, vai implementar um projeto para o desenvolvimento sustentvel de uma das comunidades mais mise- rveis do pas: os catado- tPOLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA PUBLICAES ^ Vitrine da cincia ibero-americana Rede Sei ELO atinge a marca de 200 ttulos e consolida modelo de acesso livre a artigos on-line CLAUDIA IZIQUE A Rede SciELO, um sistema de publicao eletr- I^L nica de revistas cientficas ibero-americanas LJI de acesso aberto, comemorou a marca de i ^L 200 ttulos num encontro em Mrida, no A. ^^^ Mxico, em outubro. Representantes da rede em oito pases atestaram o sucesso desse modelo, que ampliou a visibilidade da cincia e o nmero de cita- es de artigos de pesquisadores e ainda contribuiu para melhorar a qualidade das revistas. A meta agora conso- lidar a rede por meio da incorporao de publicaes de outros pases e analisar a possibilidade de desenvolver projeto de uma revista cientfica com artigos de todas as reas do conhecimento, nos moldes da norte-americana Science e da inglesa Nature. Criada no Brasil em 1996, por iniciativa da FAPESP e implantada em parceria com o Centro Latino-America- no e do Caribe de Informao em Cincias da Sade (Bi- reme) e instituies nacionais e internacionais ligadas comunicao cientfica, o SciELO se consolidou como uma soluo eficiente para a projeo da pesquisa dos pases em desenvolvimento. Os artigos publicados nas 131 revistas brasileiras na base SciELO, por exemplo, re- gistram mensalmente cerca de 1 milho de acessos e os artigos publicados em 48 ttulos chilenos, algo em torno de 500 mil consultas por ms. "O modelo de acesso aber- to mostrou-se ideal para promover a produo cientfica nos pases em desenvolvimento", avalia Abel Parker, dire- tor da Bireme. O nmero de acessos cresceu significati- vamente a partir deste ano, depois que o site de busca Google passou a indexar pginas do Scielo . A Rede SciELO iniciou sua operao com publica- es brasileiras, mas evoluiu para incorporar revistas ibero-americanos graas viso internacionalista de Parker, lembra Jos Fernando Perez, diretor cientfico da 26 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 FAPESP. "O sucesso seria tanto maior quanto mais pases pudessem ser en- volvidos", argumenta. Hoje, alm do Brasil e Chile, a Rede SciELO cobre Cuba, com 14 revistas, e Espanha, com 18, e ainda rene colees de revistas de sade pblica cujos artigos, em se- tembro, receberam mais de 172 mil consultas. Na reunio do Mxico fi- cou claro o potencial de expanso da rede. Esti- veram presentes ao en- contro 52 editores de revistas cientficas de pases onde o sistema j chegou ou que dever ser im- plantado: Argentina, Colmbia, Mxico, Peru e Venezuela. "O trabalho de inte- grao latino-americana ficou docu- mentado no Mxico", sublinhou Perez, que esteve presente no encontro. Na avaliao de Anna Maria Prat, assessora da presidncia da Comisso Nacional de Pesquisa Cientfica e Tec- nolgica (Conicyt), no Chile, o SciELO teve forte impacto nas polticas de cin- cia e tecnologia de pases latino-ameri- canos. O seu pas, ela contou, j iniciou a transferncia e a capacitao da me- todologia SciELO para as universidades que desejarem publicar suas prprias revistas, criando assim uma rede nacio- nal de informao cientfica. Os edito- res chilenos, acrescentou, esto entu- siasmados com o incio do sistema que lhes facilitar, num futuro prximo, a publicao de artigos to logo eles se- jam aceitos pelas revistas. Anna Maria comentou, ainda, que est em anda- mento um projeto em parceria com o Institut de Linformation Scientifique et Technique (Inist), da Frana, que prev a criao de um se-espelho do SciELO naquele pas. Hooman Momen, editor do Boletim da Organizao Mundial da Sade, de Genebra, na Sua, afirmou que o SciELO "um projeto vitorioso" e des- tacou a qualidade das revistas, que, na sua avaliao, apresentaram melhorias tanto nos aspectos formais como na vi- sibilidade e acesso. Props, guisa de promoo e marketing, que sejam di- fundidos tanto para os editores como para a mdia dos vrios pases os dados j existentes na Rede SciELO. Gladys Faba-Beaumont, diretora do Centro de Informaes para Decises de Sade, do Instituto Nacional de Sa- de Pblica do Mxico, comentou que comeou a valorizar o SciELO na con- dio de usuria. Definiu a rede como um conceito editorial, j que as linhas editoriais do SciELO, se bem difundidas nos pases, daro legitimidade produ- o cientfica da regio. Publicaes indexadas - O vigor da ati- vidade de pesquisa de um pas medi- do pelo nmero de artigos publicados em peridicos cientficos internacionais indexados e pelo impacto das publica- es avaliado pelo nmero de citaes. Os indicadores do Institute for Scientific Information (ISI) so os mais prestigia- dos na comunidade cientfica internacio- nal. Mas nos cerca de 8 mil peridicos indexados na base do ISI, no mximo 80 publicaes so latino-americanas. A grande maioria dos ttulos se refere a publicaes dos Estados Unidos, Ingla- terra, Austrlia, Canad e Holanda. No conjunto dos peridicos latino-ameri- canos, o Brasil at que tem uma posio de destaque, com cerca de 20 revistas no ISI, todas elas igualmente indexadas na base SciELO, de acordo com Rogrio Meneghini, coordenador do Ncleo de Estudos de Cincia e Tecnologia do SciELO, que, junto com Abel Parker, idealizou a rede. A tmida participao da pesquisa latino-americana no ISI, ante o nme- ro de peridicos de qualidades indexa- das na base SciELO, sugere, na avalia- o de Meneghini, que existe, de fato, uma cincia escondida nos pases em desenvolvimento. E exatamente essa cincia que o SciELO pretende expor. "A nossa meta dobrar o nmero de ttulos latino-americanos na base ISI. Pretendemos fazer um dossi demons- trando que na base SciELO existem re- vistas melhores do que as muitas que esto no ISI. J estamos relacionando as mais interessantes." Acesso aberto - O sucesso do SciELO se deve, em grande parte, ao fato de oferecer acesso aberto s publicaes indexadas em sua base. A rede finan- ciada pela FAPESP, executada pela Bire- me e conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient- fico e Tecnolgico (CNPq). Mas, na grande maioria dos pases, a consulta paga. "As empresas que publicam re- vistas cientficas so um dos empreen- dimentos mais rentveis do mundo", 28 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 afirma Meneghini. Nos Estados Unidos, por exemplo, o autor do artigo paga o custo da insero, assina o copyright e as editoras ainda cobram a assinatura do leitor e das bibliotecas. "Existe um cli- ma de descontentamento na comunida- de cientfica contra o acesso pago", con- ta Meneghini. No incio de novembro, ele deve participar de uma reunio em Paris, na Frana, na condio de repre- sentante da Academia Brasileira de Cincias. O encontro, promovido pela Academia Nacional de Cincias dos Es- tados Unidos, tem como pauta a forma de acesso s publicaes eletrnicas. "A idia que se pague a insero, cujo valor est previsto no financiamento da pesquisa. Quem acessa no paga. Tam- bm se considera a possibilidade de buscar patrocnio", ele adianta. Na maioria dos pases, as agncias de fomento bancam os gastos com a pu- blicao. Mas ser necessrio encontrar soluo para o caso em que os cientistas no contam com esse tipo de financia- mento. "Esse tema ser debatido em Pa- ris. Existe a possibilidade de se fazer um fundo para patrocinar publicaes em pases onde o pesquisador no conta com esse apoio", diz. Produo triplicada NSF registra aumento no nmero de publicaes latino-americanas O nmero de artigos cientficos pu- blicados por pesquisadores de pases la- tino-americanos saltou de 5,6 m em 1988 para 16,3 mil em 2001, de acordo com estudo da National Science Foun- dation (NSF) divulgado em outubro, com base em tabulaes especiais e in- formaes do ISI; Science and Social Science Citation Indexes; CHI Research, Inc; alm de dados do Banco Mundial. Esse crescimento, de 191%, mui- to superior ao verificado em outras re- gies e em pases em desenvolvimen- to, como o Norte da frica (86%), sia (133%) ou o Leste Europeu, Rssia e ex-repblicas soviticas (queda de 19%). A NSF constatou que o bom desem- penho da Amrica Latina se concen- trou em quatro pases: Brasil, Argenti- na, Chile e Mxico, responsveis por 90% dos artigos publicados em 2001. A agncia observou tambm que os pes- quisadores desses pases passaram a pu- blicar mais em peridicos de prestgio como a Nature e Science. "Trata-se de uma tendncia que indica que o antigo desejo de ter uma maior diversidade geogrfica em relao produo cien- tfica est finalmente sendo atingido", disse Arden Bement, diretor da NSF, em comunicado da instituio. Entre os pases latino-americanos, o maior aumento ocorreu no Brasil, on- de o nmero de artigos publicados por pesquisadores quadruplicou no pero- do. Levando-se em conta a produo per capita, Argentina e Chile produzem mais que o conjunto de pases, com uma mdia de 70 artigos por cada 1 milho de habitantes de 1999 a 2001. No Brasil, a mdia per capita de 39 ar- tigos para 1 milho de habitantes. A maior produo se concen- i^L trou na rea de engenharia L^^ e tecnologia, seguida por W biologia e sade em ge- .^L. -A_ ral. As reas de cincias sociais apresentaram taxa de cresci- mento abaixo da mdia. Junto com a produo cientfica, tambm cresceram as citaes de arti- gos de autores latino-americanos. De 1988 a 2001, o nmero de citaes para a literatura da regio triplicou. No pe- rodo, a Amrica Latina saltou de 14% para 20% entre os blocos de pases em desenvolvimento. "Esse aumento pode- ria se explicar por uma maior tendn- cia dos autores em citar artigos de pes- quisadores de seus prprios pases. Mas os dados obtidos apontam que a maior parte do crescimento deriva de traba- lhos produzidos em outras regies que citam os artigos latino-americanos", analisa Derek Hill, da Diviso de Esta- tsticas Cientficas da NSF e coordena- dor do estudo. A agncia do governo norte-ameri- cano tambm constatou um aumento significativo no nmero de autores lati- no-americanos colaborando com pes- quisadores de outras regies. Em 1988 23% da produo da regio era tambm assinada por cientistas estrangeiros. J em 2001 esse total subiu para 43%. Os brasileiros colaboraram com colegas de 46 pases, em 1998, e em 2001 essa par- ceria saltou para 103. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 29 I POLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA DIVULGAO Aventura do conhecimento Mais de 1.800 eventos marcam a Semana Nacional de Cincia eTecnologia Na noite do dia 27 de outubro os brasileiros olharam para o cu para acompanhar o eclipse lunar. Esse experi- mento coletivo de observao astronmica encerrou a primeira Semana Nacional de Cincia e Tecnologia. No Me- morial Maria Arago, no Maranho, mais de 2 mil pessoas puderam ver a sombra da Terra projetada na Lua em oito pontos de observao implantados pela Associa- o dos Astrnomos Amadores do Mara- nho. No Marco Zero, em Macap, 4 mil pessoas assistiram ao fenmeno utilizando telescpio, binculos e, com a ajuda do cu claro, at a olho nu. O experimento, conhecido como "O Bra- sil olha para o cu", repetiu-se no Planet- rio do Ibirapuera, em So Paulo; no Museu de Astronomia e Cincias Afins (Mast), no Rio de Janeiro; na Universidade Federal do Esprito Santo; e at na aldeia guarani Pira- quara, Curitiba. A semana foi um sucesso, na avaliao do Ministrio da Cincia e Tecnologia (MCT), responsvel pela organizao. Foram mais de 1.800 eventos em 252 municpios brasi- leiros, entre os dias 18 e 22 de outubro. Pelo menos 300 universidades, laboratrios, ins- titutos de pesquisa e museus abriram suas portas ao pblico. Cerca de 130 mil pessoas, nas contas do MCT, acompanharam pales- tras, participaram de oficinas e visitas mo- nitoradas em que se fundiam cincia, cul- tura e arte. O evento, criado por decreto presiden- cial em junho, teve como objetivo divulgar e popularizar a cincia e dever se repetir todos os anos, sempre no ms de outubro. "Vamos avaliar os erros, corrigir falhas e ampliar o evento tendo como meta mobi- lizar mil cidades brasileiras no ano que vem", diz Ildeu de Camargo Moreira, dire- tor do Departamento de Popularizao e Divulgao da Cincia, da Secretaria de Cincia e Tecnologia para a Incluso Social do MCT. Muitas dessas atividades foram reali- zadas em escolas e locais pblicos. Pesqui- sadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Fsicas e de Cincias do Estado do Rio de Janeiro, da Fundao Oswaldo Cruz, do Instituto Vital Brasil e do Museu de Astro- nomia e Cincias Afins, por exemplo, lite- ralmente acamparam na Estao Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Crianas, jovens e adultos fizeram fila para aprender a ex- trair molculas de DNA de um morango, ter lies de eletricidade e aprender um pouco sobre movimento e velocidade. No dia 23, centenas de pessoas fizeram uma viagem de trem entre a Central do Brasil e Nova Iguau, na Baixada Fluminense, acompanhadas pelo astronauta brasileiro Marcos Csar Pontes. Enquanto isso, um grupo de estudantes percorria a Trilha Histrica no Instituto de Pesquisa Jardim Botnico, para conhecer desde os prdios histricos da poca do Im- prio at as colees botnicas representati- vas dos ecossistemas brasileiros. Futebol de robs - No Recife, em Pernam- buco, centenas de pessoas foram atradas ao Marco Zero para ver a rplica do foguete Sonda II, construdo numa proporo trs vezes menor que o original, e conhecer ro- bs inteligentes feitos a partir de carcaas de eletroeletrnicos, entre outras novida- des. A mostra contou com o apoio de 41 ins- 30 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Experimentos astronmicos e espetculos teatrais foram o destaque da I Semana Nacional de Cincia e Tecnologia tituies entre universidades e funda- es. No Acre, um seminrio mostrou como a Cincia e Tecnologia pode au- xiliar o agronegcio, e no Tocantins a semana foi dedicada ao estudo da ma- temtica. No Amazonas, a Fundao de Amparo Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) mobilizou pes- quisadores, professores e estudantes em atividades de educao indgena, por meio de seminrios itinerantes em v- rios municpios ribeirinhos. Bauru, em So Paulo, realizou a se- gunda competio internacional de fu- tebol de rob, promovida pelo Institu- te of Electrical and Electronics Engi- neers, dos Estados Unidos. Participaram do evento 26 equipes de quatro pases. A equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) venceu to- das as partidas que disputou, tornan- do-se campe invicta da competio. FAPESRIndica - A FAPESP participou da coordenao da primeira Semana de Cincia e Tecnologia em So Paulo. "Pu- demos medir a importncia do evento nos diferentes ncleos e centros de pes- quisa", disse Carlos Vogt, presidente da Fundao. Em paralelo s atividades promo- vidas pelos Centros de Pesquisa, Inova- o e Difuso (Cepid), a FAPESP lan- ou, no dia 18 de outubro, o FAPESP. Indica, um site sem equivalente no Bra- sil que dever ajudar pesquisadores, gestores e outros interessados na con- sulta de informaes para a produo e anlise de indicadores de cincia, tec- nologia e inovao (CT&I). O site rene sistemas de informao especializados nacionais e internacio- nais. O novo servio abrange dezenas de pases, divididos regionalmente ou em blocos, como a Unio Europia (UE) ou a Organizao para a Coope- rao e o Desenvolvimento Econmico (OCDE)."Essa abrangncia internacio- nal representa um passo importante para a organizao de um conjunto de informaes relativas a outros pases e cenrios que permitiro uma viso mais crtica para o desenvolvimento do setor no Brasil", diz Vogt. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 31 POLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA / J*#"^ \ ! BIOSSEGURANA Mais um mund Senado autoriza pesquisa com clulas-trancoe restabelece poderes da CTNBio CLAUDIA IZIQUE Depois de oito meses de discusso, um amplo acordo de lideranas ga- rantiu a aprovao no Senado Federal, por 53 votos a 2, do projeto de lei de Biossegu- rana. O substitutivo do senador Ney Suassuna (PMDB-PB) modifica o pro- jeto aprovado pela Cmara dos Deputa- dos e autoriza o uso de clulas-tronco de embries excedentes dos processos de fertilizao in vitro - desde que in- viveis para implantao ou conge- lados h trs anos ou mais -, mas mantm a proibio da clonagem tera- putica. As mudanas obrigam a que o projeto volte para a Cmara, para nova votao, antes de ser sancionado pelo presidente Luiz Incio Lula da Silva. Na Cmara, o texto no pode ser alterado. Os deputados podero apenas acatar ou rejeitar integralmente o substitutivo de Suassuna. No caso de rejeio, voltaria a valer o polmico projeto do deputado Renildo Calheiros (PCdoB/PE), apro- vado em fevereiro. Os cientistas comemoraram a deci- so do Senado. "Foi um grande avano", disse Patrcia Pranke, especialista em clulas-tronco umbilicais das faculda- des de Farmcia e de Medicina da Uni- versidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Eles prefeririam que tam- bm tivessem obtido autorizao para avanar nas investigaes com a clona- gem teraputica. "Mas esse um proce- dimento que ainda vai requerer muita pesquisa e enfrenta algumas limitaes", conforma-se Mayana Zatz, da Universi- dade de So Paulo (USP) e coordena- dora do Centro de Estudos do Genoma Humano, um dos Centros de Pesquisa, Inovao e Difuso (Cepid) mantidos pela FAPESP. As pesquisas com clulas- tronco, ao contrrio, j esto bastante avanadas, garante Mayana. Os cientistas, ela afirmou, esto disposio dos deputados para partici- par de audincia pblica e, a exemplo de que fizeram no Senado antes da votao da lei, esclarecer eventuais d- vidas sobre as implicaes e benefcios das pesquisas. Comisso tcnica - O projeto aprova- do pelo Senado tambm restabelece parte dos poderes da Comisso Tcnica Nacional de Biossegurana (CTNBio) retirados pelo projeto da Cmara. No novo texto, a CTNBio volta a ter pode- res para aprovar no s as pesquisas como tambm o uso comercial de or- ganismos geneticamente modificados (OGMs). A Agncia Nacional de Vigi- lncia Sanitria (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Re- cursos Naturais Renovveis (Ibama) podero contestar a deciso da comis- so no que se refere segurana alimen- tar ou aos impactos ao meio ambiente provocados pelo plantio comercial dos transgnicos e apresentar recursos ao Conselho Nacional de Biossegurana, composto por 11 ministros." texto melhor que a legislao atual, a lei 8.974, de 1995", compara Reginaldo Mi- nare, advogado e especialista em bios- segurana. Na avaliao de Minare, um dos principais avanos do projeto est no seu artigo 36, que modifica a Lei Ambien- tal (6.938/81), eliminando a afirmao, que ele considera "dogmtica", de que qualquer introduo de espcie geneti- camente modificada constitui atividade potencialmente poluidora, o que obri- gava a realizao de licenciamento am- biental e estudo de impacto ambiental antes da sua utilizao comercial. O projeto regulamenta o plantio de transgnicos no Brasil. Mas a demora na aprovao da lei obrigou o governo a editar medida provisria liberando o plantio e a comercializao da safra de soja de 2005. O texto libera a venda da soja at 31 de janeiro de 2006. 32 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 POLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA BOLSAS Apoio reforado Programa Novas Fronteiras ampliar estgios no exterior A FAPESP lanou o Programa i^L Novas Fronteiras para apoiar L^^ estgios de longa durao ^ de pesquisadores em cen- ^L -^L. tros de excelncia no ex- terior, em reas de conhecimento ainda no consolidadas no Estado de So Paulo. Por essa via, a Fundao quer ampliar a poltica de ps-doutora- mento, definida em 2001. Por meio do Novas Fronteiras, sero concedi- das anualmente at 20 bolsas - por um perodo de 12 meses e no valor de US$ 25 mil anual - a pesquisadores que tenham obtido seu doutorado h at dez anos e tenham vnculo empregat- cio firme com instituies de pesquisa paulistas. Desde 2001, as bolsas de pesquisa no exterior tinham durao mxima de cinco meses. Essas novas bolsas no incluem be- nefcios suplementares para cnjuges e filhos, e podero ser complementadas por outras modalidades de apoio even- tualmente obtidas em agncias e insti- tuies estrangeiras. O custo anual do programa est orado em US$ 500 mil. Critrios decisivos para a concesso de bolsas sero a qualidade do projeto de pesquisa, a relevncia da implanta- o da rea de investigao no estado, o grau de excelncia do centro em que se realizar o estgio e o histrico cientfico Bolsas de ps-doutoramento concedidas pela FAPESP Ano Nmero de bolsas vigentes 2000 54 2001 74 2002 86 2003 2004 (at 30/09) 84 80 e acadmico do candidato. Sero anali- sadas apenas as solicitaes de candidato cujas instituies se comprometerem, expressa e formalmente, a conceder afastamento com vencimento durante o perodo do estgio e a garantir a con- tinuidade de sua linha de pesquisa. Ncleos de excelncia - O Novas Fronteiras flexibiliza a poltica de apoio ao ps-doutoramento adotada pela FAPESP, em 2001, com o objetivo de propiciar aos pesquisadores formao e aperfeioamento de qualidade e multi- plicar os ncleos de excelncia em pes- quisa no estado. A inteno era estimu- lar a insero dos recm-doutores nos grupos de pesquisa paulistas e incenti- var a realizao de estgios de aperfei- oamento no exterior articulados com o desenvolvimento de projetos de pes- quisa em So Paulo. Para tanto, a FAPESP aumentou o valor das bolsas de ps-doutoramento Total de desembolsos (R$) R$ 18.700.442,00 14 R$ 26.335.647,00 D2 R$ 28.298.992,00 15 R$ 28.882.025,00 34 no Brasil e estendeu o seu prazo de con- cesso de dois para trs anos e, em alguns casos, at quatro anos. Foram priorizadas as bolsas vinculadas a pro- jetos temticos, aos Centros de Pesqui- sa, Inovao e Difuso (Cepid), a pro- gramas como Jovens Pesquisadores, Genoma e Biota. O resultado foi que o nmero de bolsas de ps-doutoramen- to saltou de 546, em 2000, para 845, em 2003, concentradas em grupos de exce- lncia. Levando em conta a importn- cia do intercmbio dos jovens doutores com grupos de pesquisa no exterior, a FAPESP no deixou de financiar est- gios de pesquisa no exterior, de curta e mdia durao. No entanto, a comunidade cientfi- ca paulista passou a reivindicar o apoio a estgios no exterior de longa dura- o, nas reas de fronteira ainda no bem implantadas no estado. Para aten- der a essa demanda foi criado o progra- ma Novas Fronteiras. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 33 I POLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA INOVAO s portas do mercado Empresas apoiadas pelo PI PE contaro com a Finep para consolidar negcios O Programa Inovao Tec- nolgica em Pequenas Empresas (PIPE), finan- ciado pela FAPESP, inicia a sua fase III. Um acordo firmado entre a Fundao e a Financia- dora de Estudos e Projetos (Finep), em abril, permitir que pelo menos 40 em- presas do PIPE tenham acesso aos re- cursos do Programa de Apoio Pesqui- sa em Empresas (Pappe), do Ministrio da Cincia e Tecnologia (MCT), para iniciar o processo de comercializao de produtos desenvolvidos nas fases I e II. O valor mximo do oramento de cada projeto ser de R$ 500 mil. O pra- zo para inscrio de empresas no pro- grama Pappe-Pipe III termina no dia 16 de novembro e a contratao de proje- tos ser feita em dezembro de 2004. O Pappe, criado pelo governo fede- ral no ano passado para apoiar a inova- o em empresas de base tecnolgica, inspirou-se no modelo do PIPE. Os re- cursos destinados ao programa federal so repassados pela Finep s Fundaes de Amparo Pesquisa (FAPs) dos di- versos estados para financiar a pesquisa e desenvolvimento (P&D) dentro das em- presas. Na fase I, a exemplo do PIPE, o pesquisador deve apresentar seu plano de trabalho e, na fase II, definir um pla- no de negcios e desenvolver a pesquisa. Em So Paulo, onde a FAPESP j fi- nancia as duas primeiras fases do pro- cesso de inovao empresarial, ficou acertado que a Finep apoiaria a terceira fase, ou seja, a engenharia do produto e a conquista do mercado. "A Finep acei- tou a nossa proposta de utilizar os re- cursos do Pappe para financiar a fase III do PIPE. preciso respeitar a espe- cificidade de cada regio do pas, sem criar uma camisa-de-fora com um modelo nico. No faria sentido repli- car o mesmo programa em So Paulo", explica Jos Fernando Perez, diretor cientfico da Fundao. Os recursos da Finep, Perez reconhe- ce, no sero suficientes para que as em- presas se posicionem no mercado. Po- dero, no entanto, funcionar como um capital inicial para o desenvolvimento do novo negcio. "Para ganhar o merca- do, seriam necessrios de R$ 3 milhes a R$ 5 milhes por empresa", diz, res- saltando que esse capital no pode ser obtido no mbito do MCT, mas no do Ministrio do Desenvolvimento, Inds- tria e Comrcio Exterior (MDIC), mais precisamente, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES). "Neste caso, os recursos no deveriam ter o carter de emprstimos, mas ser investidos na forma de partici- pao acionria", sugere. Por meio do programa Pappe-Pipe III, a FAPESP e a Finep apoiaro, por um perodo de dois anos, empresas do PIPE que j tenham encaminhado ou obtido aprovao do relatrio final de concluso do primeiro ano da fase II. Na avaliao das propostas sero consi- derados o estgio de desenvolvimento da inovao, o projeto de desenvolvi- mento do produto e o plano de negcio para comercializao da inovao. "Va- mos lidar com critrios de mercado", observa Perez. A parceria com a Finep a segunda realizada pela FAPESP no mbito do PIPE. A primeira, o PIPE Empreende- dor, firmada com o Instituto Empreen- der Endeavor e o Servio Brasileiro de Apoio s Micro e Pequenas Empresas de So Paulo (Sebrae-SP), oferece fer- ramentas para a promoo de um rpi- do desenvolvimento empresarial dos participantes do programa por meio de curso de capacitao em gesto. 34 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 I POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA HOMENAGEM Engajamento incansvel Carolina Bori defendeu bandeiras essenciais para a psicologia e a democratizao da cincia A inquietao perma- g^L nente e o flego ^^^ na defesa das in- /% meras causas em ^L Jm> que acreditou foram traos da personalida- de de Carolina Bori que dei- xaram marcas na profisso e na formao do psiclogo e moldaram os rumos da Socie- dade Brasileira para o Progres- so da Cincia (SBPC), entida- de que ela presidiu nos anos 1980. A professora do Institu- to de Psicologia da Universi- dade de So Paulo (USP), que morreu aos 80 anos no dia 5 de outubro, empenhou-se decisivamente na criao da Sociedade Brasileira de Psi- cologia, do Programa de Ps- graduao do Instituto de Psicologia e da Associao Na- cional de Pesquisa e Ps-gra- duao em Psicologia. Ajudou a implan- tar os cursos da disciplina na Unesp de Rio Claro, na Universidade de Braslia e na Federal de So Carlos. Tambm liderou o movimento que culminou com a regulamentao da profisso de psiclogo - era seu o registro n 1 do conselho da categoria. Filha de italianos, nascida na capital paulista, Carolina Bori graduou-se em pedagogia pela Faculdade de Filoso- fia, Cincias e Letras da Universidade de So Paulo, onde em seguida fez es- pecializao em psicologia. O mestrado ela obteve na Graduate Faculty New School for Social Research, nos Estados Unidos, e o doutorado, na USP. Pio- neira na pesquisa da psicologia experi- mental no Brasil, tambm trouxe ao pas as idias do americano Fred Keller, segundo as quais a anlise experimen- Carolina homenageada na reunio da SBPC, em julho tal do comportamento poderia funda- mentar uma nova forma de ensinar. Surgiu a personalizao do ensino, m- todo baseado no planejamento rigoro- so dos passos da aprendizagem, com o objetivo de calibrar o ritmo de trabalho s dificuldades e conquistas apresen- tadas pelo estudante. Mtodo cientfico - Sua admisso co- mo membro da SBPC, em 1969, foi o coroamento de uma luta para consoli- dar a psicologia no seio da universida- de, nas suas palavras "uma psicologia baseada no mtodo cientfico e na ex- perimentao, como as demais cin- cias". Para chegar l, enfrentou precon- ceitos. "Nos chamavam de positivistas", disse, em depoimento ao livro Cientis- tas do Brasil, de 1998. "ramos rigoro- sas ao coletar os dados e mais rigoro- sas ainda em analis-los. A tendncia, no entanto, era outra: muito mais especulati- va e interpretativa. Essa a imagem que ainda se passa da psicologia: o leigo no tem contato com o conhecimento cientfico, mas bombardea- do de idias vagas, que aca- bam formando uma mixr- dia sem sentido", afirmou. Na SBPC, ela ampliou seu espectro de preocupaes, passando tambm a defen- der a cincia como geradora de desenvolvimento e como antdoto s disparidades so- ciais. Presidiu a entidade en- tre 1986 e 1989 e permaneceu como presidente de honra at o fim da vida. Incentivou ini- ciativas para a divulgao da cincia, como a realizao de programas de rdio e de con- ferncias, a criao do Instituto Brasi- leiro de Educao, Cincia e Cultura (Ibecc), da Associao Intercincia e da Estao Cincia, da USP. " preciso melhorar a vida das pessoas, no ape- nas em termos de tornar os produtos gerados pela cincia disponveis, mas tambm torn-las mais crticas em re- lao ao mundo em que vivem", disse. "O fato de uma parcela da populao viver sem informao e distante do conhecimento cientfico um absur- do, assim como um absurdo o des- preparo dos professores, que seriam os agentes para modificar essa situao." A professora deu lastro ao engajamen- to da comunidade cientfica em assun- tos polticos no ocaso da ditadura mi- litar. A defesa dos direitos humanos e a campanha contra o programa nuclear foram algumas dessas bandeiras. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 35 CINCIA LABORATRIO MUNDO Agricultores chineses semeiam prejuzos = Nos ltimos dez anos, o go- verno chins incentivou os gricultores a trocarem cul- turas tradicionais - em es- ecial de arroz - por legu- frutas, que oferecem or retorno financeiro. Os produtores converteram m centros de horticultura uma rea de 13 milhes de hectares, equivalente da nglaterra, mas as conse- qncias agora preocupam: em cinco anos, o solo nas egies produtoras de frutas e legumes foi to alterado que est se tornando estril: acidez aumentou, o nvel e nitrognio subiu quatro -**^^^^^m ^^ tf* > . -- _j'fr * **fr WP\ -3Kt^Bfil JtS^WB ' ,.J&iSi *"I*U!M&* - f%Hi-- "dHiimim. I Arrozal: substitudo por legumes e frutas vezes e o de fsforo, dez. As bactrias que ajudam no crescimento das plantas quase desapareceram do solo e algumas plantas apre- sentam frutos deformados, de acordo com uma srie de estudos publicados na Environmental Geochemis- try and Health. Houve tam- bm uma queda de 20% na produo de gros como arroz e trigo, insuficiente para alimentar o 1,2 bilho de chineses. Agrnomos ocidentais acreditam que a causa dos problemas do solo no seja a cultura de frutas e legumes, mas o uso excessivo de fertilizantes, que ameaa as escassas re- servas de gua doce do pas {NewScientist). A produo agrcola chinesa eqivale norte-americana, mas o consumo de fertilizantes duas vezes maior. 0 gel de um protozorio Pesquisadores europeus des- cobriram detalhes importan- tes a respeito do mecanismo de transmisso da leishmanio- se cutnea, uma das formas de uma das mais srias doen- as tropicais do planeta. Em um estudo publicado na Na- ture e divulgado pelo London Press Service, uma equipe da Universidade de Liverpool, Inglaterra, em conjunto com a Universidade de Dundee, Esccia, e o Instituto Max Planck de Biologia, Alema- nha, demonstrou que o pro- tozorio Leishmania mexica- na produz uma substncia similar a um gel que o acom- panha quando ele passa do inseto Lutzomyia longipalpis para os seres humanos e ou- tros animais. O principal componente desse gel, o pro- teofosfoglicano filamentoso (fPPG), faz com que o inseto no seja capaz de se nutrir adequadamente do sangue de uma nica vtima e procure outras, favorecendo assim a transmisso do parasita. Esse trabalho abre a perspectiva de conter a transmisso da leishmaniose por meio de me- dicamentos que bloqueiem a ao desse gel. Arte peruana: leishmaniose As tticas sexuais de homens e mulheres Os homens podem at contar vantagem sobre as conquistas amorosas, mas sem argumen- tos cientficos. A equipe de Michael Hammer, da Univer- sidade do Arizona, Estados Unidos, aps analisar amos- tras de sangue de 73 indiv- duos de trs populaes - da frica, da Monglia e da Ocea- nia -, constatou que o DNA mitocondrial, transmitido pe- las mes aos filhos de ambos os sexos, apresentava o dobro da variabilidade do material gentico do cromossomo Y, que apenas os homens her- dam de seus pais. uma in- dicao de que as mulheres passam seus genes s geraes seguintes com o dobro da fre- qncia que os homens. De outro modo: um pequeno n- mero de homens contribui com a maior parte dos cro- mossomos Y que asseguram a continuidade da linhagem masculina. Mas, segundo esse estudo, publicado em outubro na Molecular Biology and Evo- lution, o sucesso reprodutivo das mulheres no garante que seus genes cheguem to longe quanto se pensava. Em outro trabalho, que saiu na Nature Genetics, Hammer verificou uma variabilidade bastante prxima no DNA mitocon- drial e no cromossomo Y de 389 indivduos de dez popu- laes isoladas da frica, da Europa, da sia e da Oceania. um sinal de que em escalas geogrficas regionais ou glo- bais a contribuio gentica masculina muito prxima feminina e a influncia da mi- grao das mulheres no to relevante. Estudos anteriores atribuam s mulheres taxas de migrao at oito vezes maio- 38 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 res, numa suposta decorrn- cia de um costume comum a 70% das sociedades: a patri- localidade, a prtica de as es- posas se mudarem com os ma- ridos aps o casamento. So poucos os homens que se re- produzem, mas eles chegam mais longe. Tumulto no interior da Terra Variam mais do que se pensa- va a densidade, a composio e a agitao da regio mais interna do manto, a espessa camada de rochas entre a su- perfcie e o ncleo da Terra. A base do manto, uma regio de algumas centenas de qui- lmetros - a camada D" -, provavelmente a parte mais extica do interior da Terra, segundo o sismlogo Edward Garnero, da Universidade do Estado do Arizona (ASU). Garnero e outros geofsicos dos Estados Unidos e da No- ruega exploraram a camada D" abaixo da Amrica Cen- tral e do Caribe por meio das ondas ssmicas geradas por tremores de terra (Science, 8 de outubro). Os resultados revelam variaes de at 20 graus na inclinao das ca- madas do manto inferior, em distncias relativamente cur- tas (centenas de quilmetros), que alteram a direo das vi- braes das ondas ssmicas. H sinais de impressionantes mudanas de densidade em pontos relativamente prxi- mos, indicando correntes e turbulncias vigorosas cau- sadas pelo calor vindo do n- cleo, que misturam o material mais frio que desce do manto e se acumula na camada D". Essa agitao ajuda a esfriar o planeta, cujo centro talvez seja to quente quanto a su- perfcie do Sol. A preocupante extino de anfbios Um dos mais antigos gru- pos de animais ainda exis- tentes no planeta, os anf- bios esto desaparecendo a taxas jamais observadas, mesmo nas reas destina- das conservao. Um le- vantamento feito em cerca de 60 pases e publicado na Science de 14 de outubro mostrou que quase um ter- o das 5.743 espcies co- nhecidas de anfbios - sa- pos, rs e salamandras - encontra-se sob risco de ex- tino, situao bem mais grave que a das aves e ma- mferos. O desaparecimen- to dos anfbios est associa- do poluio, perda do hbitat ou caa, mas falta uma causa evidente para o declnio de metade das es- pcies, encontradas sobre- Atelopus varius: em declnio na Costa Rica e no Panam tudo na Austrlia e nas re- gies tropicais das Amri- cas. Essa extino acelerada afeta a sobrevivncia dos rpteis e das aves que se alimentam de anfbios e gera um desequilbrio eco- lgico, com o aumento de populaes de insetos. "O fato de um tero dos anf- bios estar em queda acele- rada nos diz que estamos caminhando rapidamente para uma potencial epide- mia de extines", disse ao jornal ingls The Indepen- dem Achim Steiner, dire- tor-geral da Unio Mun- dial para a Conserva (IUCN). - PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 39 Mais ces e gatos nas cidades Em toda campanha de vaci- nao contra a raiva difcil saber com preciso quantos ces e gatos h nas cidades. Se o nmero de animais for su- bestimado, alguns no rece- bero vacina e aumentar o risco de infeco humana. O clculo se baseia em dados da Organizao Mundial da Sa- de e do Instituto Pasteur de So Paulo, que estimam ha- ver um co para cada 7 a 10 pessoas nas reas urbanas. Em busca de dados mais pre- cisos, veterinrios da Univer- sidade de So Paulo (USP) fizeram um levantamento em Taboo da Serra, na Regio Metropolitana, e descobriram que essa proporo um pou- co maior. Inspecionaram 1.052 domiclios e viram que em Taboo h um co para cin- co habitantes e um gato para cada 30. "Essa metodologia aju- dar a aproveitar melhor os recursos humanos e financei- ros, to escassos no servio pblico municipal", afirma Ricardo Augusto Dias, da USP, um dos autores do estu- do publicado na Revista de Sade Pblica. Continente gelado est mais quente pei sad % ter Em quase 50 anos, a tem- eratura mdia na Antr- a subiu 1,1 C. Pesqui- sadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Instituto Nacional de Pesquisas Es- paciais (Inpe) e do Labora- trio de Cincias do Clima e do Ambiente da Frana nalisaram uma longa se- de registros mensais de temperatura, de 1947 a 1995, na ilha Rei George, onde fica a base brasileira. Nesse perodo, houve um aquecimento anual mdio de 0,022 grau - o aumento maior ocorreu no inverno, que se tornou 1,9C mais quente. uma possvel conseqncia do aumento da temperatura em todo o planeta, provocado pelo acmulo de gs carbnico na atmosfera. Nessa regio, a oeste do continente an- trtico, a temperatura do ar regulada pela interao entre as correntes de ar quente vindas do norte e pelas placas de gelo mari- nho, que diminuram de tamanho de centenas de metros a 1 quilmetro nes- ses 49 anos, segundo um estudo publicado na Pes- quisa Antrtica Brasileira. Essa elevao, porm, no parece suficiente para ex- plicar o encolhimento en- tre 1956 e 2000 das geleiras situadas na ilha Rei Geor- ge. A anlise de 70 bacias de drenagem dessa regio antrtica indicou que hou- ve maior reduo das gelei- ras nas bacias do Almiran- tado, Rei George e Sherratt, de acordo com um estudo coordenado pelo glaciolo- A Antrtida e a estao Plo Sul: viagem por terra ao extremo do planeta gista Jefferson Cardia Si- mes, do Ncleo de Pes- quisas Antrticas e Clim- ticas (Nupac) da UFRGS. No final de outubro, Simes iniciou sua 13a expedio Antrtida. Ele e o gegrafo Francisco Aquino, tambm do Nupac, acompanham 32 pesquisadores chilenos na primeira expedio por terra a atravessar todo o continente antrtico at o Plo Sul geogrfico, o pon- to extremo do hemisfrio Sul. Em 1961, Rubens Vi- lella, da Universidade de So Paulo, foi o primeiro brasileiro a chegar ao Plo Sul, tendo feito parte do percurso de avio. Ao lado de 12 pesquisadores chi- lenos, Simes percorrer 2.400 quilmetros de ter- renos em que o ar extre- mamente seco e as tempe- raturas chegam a 40C negativos no vero. Ele pretende recolher amos- tras de gelo de dezenas de metros de profundidade, para analisar a alterao qumica da atmosfera nos ltimos 300 anos. 40 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Saindo da terra com hora marcada Este ano as cigarras invadi- ram algumas cidades dos Es- tados Unidos. um espet- culo que ocorre a cada 13 anos, no caso da Magicicada tredecim, e a cada 17 anos, no da Magicicada septendecim, duas espcies cujos ciclos de vida so os mais longos entre todos os insetos. A durao desses ciclos, 13 e 17 anos, so nmeros primos, divisveis apenas por um e por eles pr- prios. "Esse tipo de ciclo uma conseqncia da evoluo", diz o fsico Paulo Campos, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Campos o autor principal de um estudo publicado na Phy- sical Review Letters que usou modelos matemticos para investigar se haveria uma re- lao entre a evoluo e o fato de a durao do ciclo ser um nmero primo. "Provavelmen- te por mutaes, algumas es- pcies de cigarras desenvolve- ram perodos de incubao mais longos e assim escapa- ram da ao dos predadores", diz. Estudos anteriores supu- nham que o ciclo de vida coin- cidente com anos primos favo- receria s cigarras escaparem de seus predadores, com ci- clos de reproduo distintos. Em parceria com fsicos da Unicamp, Campos verificou que esse ciclo em anos pri- mos prevalece mesmo que coincida com o de um preda- dor que se alimente desses in- setos. Segundo o estudo, talvez seja a abundncia de cigarras que permita a sobrevivncia dessas duas espcies. Corais nascidos em laboratrio Bilogos do Museu Nacional e oceangrafos da Universi- dade Federal de Pernambu- Cigarras Magicicada septendecim: abundncia a cada 17 anos favorece a sobrevivncia co esto comemorando. No incio de outubro viram que deu certo a fecundao em laboratrio de uma das esp- cies de coral-crebro, exclusi- va do litoral brasileiro, a Mus- sismilia harttii. a primeira vez que se consegue reprodu- zir essa espcie de coral, que apresenta fecundao exter- na. O M. harttii libera suas c- lulas reprodutivas masculinas (espermatozides) e femini- nas (ovcitos) na gua. S aps chegarem superfcie os espermatozides fecundam os ovcitos e geram os embries, que nadam por dias e se trans- formam em larvas antes de se fixarem nas rochas. Integran- tes do projeto Coral Vivo, que planeja o repovoamento dos recifes de corais brasileiros, os pesquisadores do Museu Nacional j haviam consegui- do reproduzir o coral-cre- bro-pequeno (Favia grvida), de fecundao interna. Um risco para os artesos Respirar pode ser perigoso para quem tem de polir, cor- tar e lapidar pedras conten- do slica, como so conheci- dos os compostos de dixido de silcio (SO2). Em Petr- polis, Rio de Janeiro, 53,7% dos artesos locais, que pro- duzem peas principalmente para exportao, tomaram 0 incio da reproduo do coral-crebro: liberao do pacote de clulas reprodutivas femininas e masculinas (esfera amarela), que se separam antes da fecundao conscincia disso ao adquirir silicose, doena sem cura ca- racterizada pela formao de fibras nos pulmes. Seus sin- tomas, que aparecem nas fa- ses mais avanadas da doena, so tosse e falta de ar. Tam- bm est associada maior ocorrncia de tuberculose. Pesquisadores da Faculdade de Cincias Mdicas da Uni- versidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e do Institu- to do Corao (Incor), em So Paulo, examinaram 42 escul- tores de pedra das 11 oficinas de artesanato da cidade, das quais 91% ultrapassaram os limites permitidos de con- centrao de poeira. "A pre- valncia uma das mais altas j publicadas na literatura mdica no Brasil", diz Vin- cius Anto, um dos autores da pesquisa, detalhada no American Journal of Indus- trial Medicine. As causas des- se problema seriam a pouca ventilao nas oficinas, a ina- lao de slica aps o corte de minerais e o no uso de equipamentos de proteo. "Como no existe tratamen- to para a silicose, a preven- o fundamental", diz. Na poca do estudo, entre janei- ro de 2000 e junho de 2002, os pesquisadores da Uerj e do Incor aplicaram um progra- ma educacional e 75% dos trabalhadores passaram a uti- lizar equipamento de prote- o respiratria. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 41 CINCIA FSICA Outra forma de ver a fuso atmica Experimento redefine o conhecimento sobre a interao de ncleos, da qual resulta a energia do Sol Com freqncia, a natureza se revela mais complexa do que os fsicos gostariam e os obriga a repensar os modelos criados para explic-la. Um experimento realiza- do na Blgica com a participao de uma pesquisadora brasileira esclarece uma dvida que in- quietou os fsicos nos ltimos 20 anos: saber se um tipo especial de ncleo atmico - com partculas neu- tras (nutrons) a mais e quase o dobro do tamanho normal - tornaria de dez a cem vezes mais fcil a fu- so nuclear. Nesse fenmeno, os ncleos de dois to- mos se unem e originam outro mais pesado, libe- rando quantidades elevadas de energia. Possivelmente o mais completo feito at agora, esse estudo revela que lanar um ncleo extico a altssimas velocida- des contra o ncleo de outro tomo no aumenta a probabilidade de ambos se fundirem com o choque. Tambm no diminui. Essa supertrombada atmica gera outra forma de interao: o ncleo atmico co- mum recebe desse tipo de ncleo, chamado extico, seus nutrons excedentes, que provavelmente orbita- vam ao seu redor formando uma espcie de nuvem, como informam os dados publicados em 14 de outu- bro na Nature. Ncleo em expanso, leo sobre tela de Iber Camargo, 1965 42 NOVEMBRO DE 2004 PESUUISA FAPESP105 PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 43 "Esse resultado no significa que re- tornamos estaca zero, mas, ao contr- rio, samos dela", afirma a fsica Alinka Lpine-Szily, da Universidade de So Paulo (USP), co-autora do estudo da Nature. "Os modelos tericos que indi- cavam uma probabilidade maior de ocorrer fuso nuclear nesses casos tero de ser revistos, agora com base em in- formaes detalhadas." Quem no se deixou apaixonar pela beleza da fsica pode at achar que essa descoberta no passa de detalhe. Mas no . A fuso nuclear a fonte de energia das estrelas como o Sol. No interior das estrelas, a fuso ocorre porque a fora gravitacional exer- ce uma presso que apro- xima os ncleos uns dos outros. Parte da energia liberada escapa na forma de radiao e torna possvel a vida na Terra. tambm a fuso dos ncleos atmicos de elementos qu- micos mais leves e simples - como o hidrognio, formado apenas por uma partcula de carga eltrica positiva (prton) - que origina os ncleos de tomos maiores e mais pesados, a exem- plo do hlio, do ltio e do carbono. O interesse em compreender e do- minar a fuso nuclear surgiu no incio do sculo passado, quase 2.500 anos aps o filsofo grego Leucipo postular que a matria era constituda por to- mos. No final da dcada de 1930, s vsperas da Segunda Guerra Mundial, o fsico alemo Hans Bethe constatou que a fuso dos ncleos de dois to- mos de hidrognio liberava energia. Nessa fase de turbulncia poltica e instabilidade econmica, esse fenme- no fsico passou a ser visto como pos- 0 PROJETO Estudo dos ncleos exticos com feixes radioativos produzidos no laboratrio Pelletron-Linac MODALIDADE Projeto Temtico e Pronex COORDENADORA ALINKA LPINE-SZILY - USP INVESTIMENTO R$ 600.723, 48 (FAPESP e CNPq) svel fonte de energia alternativa aos combustveis fsseis - em especial car- vo e petrleo. A compreenso de como se com- portam as partculas no ncleo dos tomos daria tambm ao ser humano um poder de destruio jamais visto, com o uso da fuso para a produo de poderosssimas armas nucleares, como a bomba de hidrognio ou bomba H J usada em bombas de hidrognio, a fuso nuclear pode se converter em uma possvel aternativa aos combustveis fsseis j as bombas atmicas, como as lana- das sobre o Japo, so produzidas com base no fenmeno oposto, a fisso nu- clear, em que o ncleo de tomos gran- des se rompe, liberando energia. Na bomba H, a unio dos ncleos de deu- trio - forma particular de hidrognio cujo ncleo contm um prton e um nutron - origina o elemento qumico hlio, numa transformao semelhan- te observada no interior do Sol. Ao se combinarem, esses ncleos perdem menos de 1% de sua massa, que se transforma em uma verdadeira monta- nha de energia, como prev uma das mais conhecidas equaes da fsica, de- senvolvida por Albert Einstein, E me2. Essa frmula indica que a energia (E) produzida numa reao nuclear corres- ponde massa (m) perdida multiplica- da pela velocidade da luz (c) elevada ao quadrado - da o valor ser to elevado. Mas no to simples repetir por aqui o que se passa no corao das es- trelas. No cerne desses corpos celestes a presso gravitacional e as temperaturas so to elevadas que ncleos atmicos distintos se aproximam a ponto de con- seguir se unir, vencendo a fora de re- pulso. At possvel atingir de modo artificial temperaturas to elevadas, mas o consumo de energia tamanho que praticamente torna a fuso invivel do ponto de vista econmico - s para ter uma idia, necessrio explodir uma bomba atmica para iniciar a fuso dos ncleos na bomba H. Em 1985, a equipe do fsico Isao Ta- nihata, do Centro de Fsica Nuclear do Japo, notou que ncleos exticos de l- tio, chamados Ltio 11, contendo oito partculas neutras, eram mais volumo- sos do que seria de esperar. O motivo que dois dos seus quatro nutrons ex- cedentes no permanecem coesos no ncleo, mas formam uma nuvem de nutrons - na natureza, o ncleo do l- tio contm apenas quatro nutrons, alm de trs prtons. Nesses ncleos exticos, que duram menos de um segundo depois de cria- dos, algumas dessas partculas neutras permanecem mais afastadas, formando uma espcie de nuvem ou halo, como dizem os fsicos. Logo se imaginou que, menos coesos, ncleos exticos facilita- riam a fuso. Alm disso, por apresen- tarem uma massa maior, era de supor que a fora de atrao entre os ncleos passasse a atuar a distncias maiores e, desse modo, compensasse a fora que repele as partculas de mesma carga el- trica - positiva, no caso dos prtons dos ncleos atmicos, como os retratados pelo pintor gacho Iber Camargo na obra da pgina anterior. 0 parodoxo do hlio 6 - Uma equipe internacional coordenada por Atsuma- sa Yoshida, do Japo, e Cosimo Signori- ni, da Itlia, tentou comprovar a maior probabilidade da fuso de ncleos ex- ticos, em experimentos com Berlio 11 (com quatro prtons e sete nutrons), mas os resultados foram negativos. Ou- tro teste realizado por James Kolata, da Universidade Notre Dame, em Indiana, Estados Unidos, revelou o oposto: a fu- so nuclear ocorria mais facilmente com o hlio 6. Com esses resultados, era impossvel chegar a uma concluso. Na tentativa de desfazer a dvida, Jean Luc Sida, da Comisso de Energia At- mica, na Frana, reuniu um grupo in- ternacional - formado por fsicos bel- gas, franceses, italianos, poloneses e brasileiros - para realizar um experi- mento mais completo e uma anlise mais detalhada que as anteriores. 44 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Representao de uma coliso atmica: nem sempre h fuso Utilizando o acelerador de partcu- las do Centro de Pesquisa de Cclotron em Louvain-la-Neuve, os fsicos lana- ram ncleos de hlio 6 contra ncleos bem maiores, de urnio 238 - algo como sacar uma bola de tnis a velocidades prximas da luz contra uma de fute- bol de campo. Se tudo desse certo e o hlio 6 facilitasse a fuso completa, de- veriam surgir ncleos de um elemento qumico ainda maior e mais pesado: o plutnio 244, com 94 pr tons e 150 nu- trons. Quase instantaneamente aps a fuso, o plutnio sofreria fisso e se di- vidiria em dois outros elementos qu- micos, emitindo radiao. Ao mesmo tempo, como se verificou, haveria emis- so de partculas alfa, formadas por dois prtons e dois nutrons, idnticos ao ncleo de hlio 4, caractersticas das rea- es nucleares. A anlise inicial dos dados, fei- /% ta por Riccardo Raabe, pri- ^^^ meiro autor do estudo da i m Nature, mostrou que real- ^L -^L. mente o hlio 6 havia pro- vocado um nmero maior de fisses que o hlio 4. Mas essa era parte da in- formao. Faltava verificar o que havia se passado no incio desse processo de transformaes e disparado a fisso - toda fuso nuclear seguida de fisso, mas nem toda fisso causada pela fu- so de ncleos atmicos. Quando ava- liou o caminho que as partculas alfa percorriam at os detectores e a energia com que ali chegavam, o grupo do qual participou Alinka constatou que elas re- sultavam da perda de dois nutrons do hlio 6 - aqueles que formavam o halo - para o ncleo de urnio 238, que, em seguida, sofria fisso. Estava claro: em boa parte das colises, em vez da fisso ocorria transferncia de nutrons. E o que aconteceu com o hlio 6? Na transferncia, pode ter se rompido e liberado os dois nutrons para o ur- nio, continuando a existir como hlio 4. Alinka pretende aprofundar na pr- pria USP o estudo dessas reaes que competem com a fuso. No incio deste ano, comeou a funcionar no Institu- to de Fsica um equipamento que inte- gra o projeto Ribras (sigla em ingls para feixes de ons radioativos) capaz de produzir feixes de ncleos exticos (ver Pesquisa FAPESP n 99, de maio de 2004). "Poderemos fazer aqui o que an- tes s era possvel no exterior." sjsl PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 45 CINCIA BIOQUMICA Dois novos equipamentos pem o pas na linha de frente do estudo da estrutura e da ao das protenas RICARDO ZORZETTO E RUTII HELENA BKI. I ste ano o Prmio Nobel de Qumica foi conce- dido a dois mdicos e um bioqumico que des- cobriram como as clulas desmontam e reapro- i veitam suas protenas velhas ou defeituosas. Em 2002, um qumico e um engenheiro dividiram outro Nobel de Qumica por terem aprimorado duas tc- nicas que permitiram a anlise de protenas, a espectrome- tria de massa, hoje essencial nessa rea. No de estranhar que uma das mais altas honrarias da cincia no mundo te- nha reconhecido recentemente, por duas vezes, o valor do estudo dessas molculas abundantes em qualquer microor- ganismo, animal ou planta. Nos ltimos cinco anos, aps o seqenciamento do genoma de quase 150 organismos, a identificao da estrutura, da funo e dos modos de inte- rao dessas molculas, codificadas pelos genes, tornou-se uma prioridade mundial, por representar um caminho apa- rentemente seguro para entender com mais detalhes as rea- es qumicas que mantm os organismos vivos ou os fa- zem perecer. Desse conhecimento, espera-se obter formas mais eficazes de combater as doenas - uma simples gripe ou uma praga agrcola - ou mesmo de prolongar a vida. um mundo imenso, cuja explorao mal comeou. O Protein Data Bank, uma base de dados especfica sobre protenas, armazena informaes acerca da estrutura de aproximadamente 25 mil dessas molculas de plantas, ani- mais e microorganismos. pouco se comparado, por exemplo, ao nmero de protenas humanas, estimadas de 100 mil a at 1 milho. Hoje no passa uma semana sem que as protenas sejam destaque em revistas cientficas de primeira linha - em meados de setembro, por exemplo, 20 dos 51 estudos publicados nos Proceedings ofthe National Acaderny of Sciences abordavam de forma direta ou indire- ta essas molculas. Mesmo sem um projeto unificado como o Genoma Humano, que reuniu dezenas de laboratrios no seqen- ciamento do material gentico de nossa espcie, o estudo \I0VEMBR0 DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Antibitico flor da pele: molcula extrada da perereca Hyla punctata das protenas avana rapidamente na Europa e nos Estados Unidos - e tambm no Brasil. Por aqui j exis- tem cerca de 200 grupos de pesqui- sa nessa rea, denominada prote- mica, que ganharam impulso com a entrada em operao de dois no- Nacional de Luz Sncrotron (LNLS), em Campinas. Com essas novas m- quinas, que determinam a seqn- cia dos blocos constitutivos das pro- tenas, os aminocidos, o Brasil passa a integrar o seleto time de pases com tecnologia para analisar em detalhes a estrutura das protenas. Instalados em julho de 2003, os novos aparelhos do LNLS - dois espectrmetros de massa adquiridos por USS 1,3 milho, finan- ciados pela FAFESP - foram liberados em setembro para grupos de pesquisa de qualquer estado do pas, desde que as propostas de trabalho sejam aprova- das pelo LNLS e os resultados partilha- Os selecionados - Do primeiro lote de 31 propostas de uso desses equipamen- tos, o LNLS selecionou 20, elaborados por grupos de pesquisa de quatro esta- dos - So Paulo, Rio de Janeiro, Cear e Rio Grande do Sul. So projetos dedi- cados anlise de protenas de microor- ganismos causadores de doenas em plantas, como a Xylea fastidiosa, que ataca os laranjais, ou em animais, caso ilasma hyopneumo- niae, uma das causadoras da pneumo- nia; da Lcptospira interrogans, o agente da leptospirose; e do protozorio Try- Chagas. As equipes selecionadas tm at dezembro para investigar tambm as protenas associadas ao desenvol- vimento de tumores e ativao e desativao de genes {veja a lista cm www.revistapesquisa.fiipesp.br). Em ja- neiro, o LNLS lanar edital de seleo do segundo lote de propostas. "Evidentemente no nos encontra- mos no mesmo nvel de pases como Es- tados Unidos e Inglaterra, nos quais o uso dos espectrmetros de massa bas- tante difundido, mas somos pioneiros na Amrica Latina na pesquisa de pro- tenas", comenta o bioqumico Rogrio Meneghini, que dirigiu o Centro de Bio- logia Estrutural do LNLS at fevereiro deste ano e hoje o coordenador de pro- jetos do laboratrio. "Nosso objetivo consolidar ou formar grupos de exce- lncia em protemica, do mesmo modo que existem hoje equipes de primeira linha em genmica no Brasil." Segundo ele, de todos os grupos dessa rea no pas, cerca de 40 devem, em alguns anos, estar em condies de competir internacio- nalmente com descobertas relevan- tes sobre a estrutura das protenas, a vertente que explica como essas molculas interagem entre si ou com outras. um nmero similar ao de laboratrios hoje capacitados a fazer o seqenciamento e a anlise de genes. fcil entender por que os pes- quisadores se sentem atra- . dos pelas protenas, cuja importncia vai bem alm do senso comum - a de se- rem os principais compo- nentes de alimentos como a carne, a soja e o leite. So essas molculas que formam e mantm em funcionamento as clulas e os tecidos dos seres vivos, onde so encontradas em quantidades considerveis, quando comparadas com outros tipos de molculas: correspon- dem a cerca de 30% da massa dos ms- culos ou do fgado, por exemplo. Seus papis variam de acordo com a situao e o lugar em que se encon- trem. As protenas podem atuar como transportadores e, como os carregado- res de mala dos aeroportos, levar com- PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 47 postos de fora para dentro das clulas, envoltas por membranas constitudas de lipdios, acares e ou- tros tipos de protenas. Ou- tras vezes elas funcionam como uma espcie de ante- na, captando informaes enviadas por clulas vizi- nhas. Tambm participam das reaes qumicas que resultam na produo de energia, na formao da memria, enfim, do con- trole do organismo como um todo. So as operrias - sempre alertas - dos seres vivos. Em uma situao de perigo, uma protena que funciona como hormnio, a adrenalina, que faz o co- rao disparar, abastecen- do os msculos com mais sangue e deixando assim o corpo preparado para lutar ou fugir. No foi agora que os pesquisadores brasileiros entraram nesse labirinto. Nos ltimos cinco anos, laboratrios nacionais comearam a importar os primeiros espectrmetros de massa, que somam uma dezena no pas. Eles se en- contravam em laboratrios como o do bilogo Carlos Bloch Jnior, da Empre- sa Brasileira de Pesquisa Agropecu- ria (Embrapa) em Braslia, do qumico Mario Srgio Palma, da Universidade Estadual Paulista em Rio Claro, e de Lewis Greene, da Universidade de So Paulo (USP) em Ribeiro Preto. Con- tavam ainda com esses equipamentos os bioqumicos Antnio Carlos de Ca- margo, do Instituto Butantan, e Jos Camillo Novello, da Universidade Es- tadual de Campinas. Na USP em So Paulo, o farmacologista Gilberto De Nucci e o parasitologista Igor de Al- meida tinham espectrmetros de mas- sa, tambm existentes nos laboratrios dos biofsicos Luiz Juliano Neto, da Universidade Federal de So Paulo, e Paulo Bisch, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Esses primeiros equipamentos so poderosos, mas a sensibilidade e a acu- rada dos espectrmetros de massa para o estudo de protenas aumenta a cada dia", explica Meneghini. Segundo ele, os novos aparelhos do LNLS permitiro o Prximos alvos: protenas das bactrias Xylella fastidiosa ( esquerda) e Leptospira interrogam estudo de protenas maiores, com pos- sibilidade de determinar a seqncia dos aminocidos que as formam. Ao complementar - Para dar esse salto, porm, Meneghini e Bloch traba- lharam durante cerca de um ano na es- colha, compra e montagem dos espec- trmetros. Eles adotaram trs critrios bsicos: os aparelhos deveriam ter grande sensibilidade para detectar pro- tenas em amostras com bilionsimos de grama de material biolgico; apre- sentar resoluo que possibilitasse a identificao de cada um dos amino- cidos, que tm massas muito prximas; e fornecer os resultados rapidamente - um dos equipamentos analisa mil amostras por hora. "Ainda na fase de seleo", conta Bloch, "levamos amostras de protenas da bactria Xanthomonas citri para se- rem testadas pelos quatro fabricantes de espectrmetros que mantm repre- sentantes no pas, para compararmos a sensibilidade e a preciso dos equipa- mentos". do prprio Bloch, alis, o primeiro estudo cientfico utilizando os novos aparelhos: uma anlise da prote- na hylaseptina PI. Extrada da secreo da pele da Hyla punctata, uma perereca verde-vivo encontrada na Amaznia, a hylaseptina age contra bactrias causa- doras de infeces hospitalares, como a Staphylococcus aureus e a Pseudomonas aeruginosa, ou um fungo, o Cndida al- bicans, que se manifesta em pessoas imunodeprimidas, como mostra estu- do publicado em maro deste ano no Journal ofBiological Chemistry. Os dois equipamentos do LNLS so levemente diferentes - a vantagem que um complementa a leitura do ou- tro. Um deles aplica uma descarga el- trica nas protenas e as fragmenta em partes eletricamente carregadas, que so ento identificadas de acordo com sua massa. Essa a tcnica conhecida como Electrospray Q/TOF, empregada no estudo de molculas solveis em gua, como a hemoglobina, a protena que transporta o oxignio e d a cor vermelha ao sangue. O outro equipamento dispara um laser sobre as protenas armazenadas em um cristal, que assim se tornam ele- tricamente carregadas. Por meio dessa tcnica, chamada Maldi-TOF/TOF, po- dem-se avaliar as estruturas de prote- nas encontradas nas membranas das clulas. "Conhecer a estrutura dessas molculas essencial para encontrar 48 NOVEMBRO DE 2004 PESUUISA FAPESP 105 Sensibilidade e alta resoluo: espectrmetros do LNLS permitem identificar a seqncia dos aminocidos novas formas de combater diversas doenas, uma vez que a membrana de um parasita funciona como seu rgo sensorial e permite, por exemplo, que ele reconhea sua clula hospedeira", explica Bloch. A principal vantagem em relao I^k aos espectrmetros existen- ^^^ tes no pas que os equipa- /M mentos recm-instalados ^L ^Lw em Campinas - sob os cuidados do qumico Fbio Csar Goz- zo, coordenador do Laboratrio de Es- pectrometria de Massas do LNLS - identificam cada um dos aminocidos que compem uma protena e a seqn- cia em que se encaixam para form-la. Desse modo, pode se tornar mais fcil, por exemplo, desenhar molculas de medicamentos que se encaixem com preciso em uma determinada protena e impeam o surgimento de um cncer ou a ao de bactrias como a Xylella fastidiosa ou a Xanthomonas citri, hoje vistas como pragas dos laranjais. Ser um avano e tanto. " como se at agora tentssemos montar um quebra- cabea de olhos vendados, tateando no escuro para encaixar uma pea aqui, outra ali, e verificar se um frmaco fun- ciona para combater uma determinada doena", compara Glaucius Oliva, coor- denador do Instituto de Fsica da USP em So Carlos e diretor do Centro de Biologia Molecular Estrutural, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovao e Difuso financiados pela FAPESP. Com a estrutura das protenas em mos, os pesquisadores passam a trabalhar sem a venda nos olhos. Mas muitos relutam em mergulhar no mundo das protenas. No toa. "Por mais interessados que estejam, os bilogos consideram o tema complexo demais, enquanto os qumicos acredi- tam que as protenas so molculas grandes demais", comenta Bloch. 0 PROJETO Proteomics Studies a the So Paulo State MODALIDADE Linha Regular de Auxlio Pesquisa COORDENADOR FBIO CSAR GOZZO - LNLS INVESTIMENTO R$ 5.391.153,26 O desafio intimida at os mais experientes, talvez por ser superior ao enfren- tado at o momento no se- qenciamento de diversos genomas. Embora os ge- nes contenham as receitas das protenas, conhecer o conjunto de genes - o ge- noma - de um organismo no suficiente para saber como elas so nem como agem. Alm disso, cada ge- ne pode originar mais de uma protena. Estruturas distintas - So coisas bem diferentes. Os genes so trechos especfi- cos da molcula de DNA - cido desoxirribonuclico, o material gentico das c- lulas. Tm a forma de lon- gas seqncias de quatro pequenas molculas co- nhecidas pelas letras A, T, C e G (respectivamente, ade- nina, timina, citosina e gua- nina). J as protenas so molculas bem mais complexas, com- postas por longas seqncias de 20 di- ferentes tipos de aminocidos, resul- tando em conjuntos de dezenas a milhares de unidades - a insulina, en- zima que facilita a entrada de acar nas clulas, formada por apenas 51 aminocidos, enquanto a miosina, uma das principais protenas dos msculos, agrega em sua estrutura cerca de 1.800 desses blocos. Outra distino fundamental: en- quanto a molcula de DNA assume sempre a forma de uma escada em es- piral ou de dupla hlice, como desco- briram James Watson e Francis Crick em 1953, as protenas podem ter for- mas muito distintas - variando de um pequeno globo a um bumerangue, por exemplo. H ainda um complicador: to logo deixem o interior das clulas, onde so fabricadas, as protenas po- dem se associar a acares e gorduras, formando complexos ainda maiores a glicoprotena CD 44 funciona como uma espcie de cimento celular, man- tendo as clulas prximas. No caso das protenas, essa estrutura tridimensio- nal faz toda a diferena, uma vez que a forma est diretamente ligada funo que ela capaz de executar. PES0.UISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 49 CINCIA GENTICA Vantagem natural contra o cigarro Quase 40% dos brasileiras tm mutaes que favorecem fumar menos uatro de cada dez brasileiros carregam alteraes em um gene, o CYP2A6, que podem representar uma vanta- gem biolgica na luta contra o taba- gismo. Pessoas com mutaes nesse , gene, que atua no processo de elimi- nao (metabolizao) da nicotina liberada pelo ta- baco no sangue e crebro dos fumantes, tendem a no fumar ou a ser menos viciadas em cigarro do que indivduos com a verso normal (e predomi- nante) do CYP2A6. Essa a boa nova de um estudo feito por pesquisadores do Instituto Nacional do Cncer (Inca), do Rio de Janeiro, que mapearam a ocorrncia das quatro principais mutaes do CYP2A6 numa amostra de 342 indivduos, com- posta por fumantes, ex-fumantes e indivduos que nunca fumaram. O trabalho produziu uma infor- mao importante, em especial para um pas to miscigenado como o Brasil: a mais comum dessas mutaes que reduzem a dependncia qumica do cigarro, chamada 1B, bem menos freqente em pessoas de origem negra ou em mulatos do que em brancos. "Esse dado muito interessante e in- dito na literatura cientfica", comenta o mdico Gui- lherme Kurtz, do Inca, coordenador do estudo. "Os trabalhos internacionais sobre a incidncia de mu- taes nesse gene haviam sido feitos apenas com populaes caucasianas e asiticas." Sem levar em conta a sua etnia, 31% dos indivduos que participaram do es- tudo do Inca apresentam pelo menos uma cpia (alelo) do gene CYP2A6 com a mutao 1B, ndice dentro da mdia internacional encontrada em pa- ses com populaes formadas majori- tariamente por descendentes de cau- casianos. Como se sabe, o ser humano possui duas cpias de seus genes, uma herdada do pai e outra da me - e cada uma delas pode ou no ser alvo de mutaes. Os resultados do trabalho indicam que a presena dessa alterao gentica sete vezes maior em no-fumantes e duas ve- zes maior em ex-fumantes do que nos fumantes habituais. Quando se adota a cor da pele como um diferencial dos participantes da pesquisa, a ocorrncia da principal mutao no CYP2A6 va- ria bastante. Pelo menos um alelo alte- rado est presente em 38% dos bran- cos, 30% dos mestios e apenas 15% dos negros. " interessante observar como varia a freqncia da mutao conforme a classificao dos indivduos segundo a cor da pele", diz a biloga Gisele Vasconcelos, do Inca, outra au- tora do estudo. A amostra analisada era composta por 147 indivduos bran- cos, 141 mulatos e 54 negros, espelhan- do, grosso modo, o padro de distribui- o racial do pas. A quantidade de homens e mulheres era mais ou menos a mesma - e o parmetro sexo parece no ter relevncia na incidncia dessas alteraes genticas. Alm da nada rara mutao 1B, a incidncia de outros trs tipos de alte- raes no gene CYP2A6 foi determina- da nos laboratrios do Inca. A segunda mais freqente delas a denominada 9, encontrada em 6% dos participantes do trabalho. Depois aparece a muta- o 2, presente em 2% dos indivduos da amostra. Por fim, em ltimo lugar, vem a 4, que incide em 0,6% dos brasi- leiros analisados (no Japo, essa muta- o surge em um de cada cinco de seus habitantes). Somando a prevalncia das quatro mutaes (1B, 9,2 e 4), 39% da populao nacional possui formas do gene CYP2A6 que pode diminuir o ris- co de dependncia nicotina - portan- to, ao fumo - e aumentar as chances de parar de fumar. Por que essas mutaes parecem afastar as pessoas do cigarro? Em junho de 1998, pesquisadores da Universida- de de Toronto, no Canad, demonstra- ram que a ao do gene um impor- tante elemento da cadeia qumica que prende os fumantes ao tabaco. O gene comanda a produo no fgado de uma enzima homnima, tambm chamada CYP2A6, que, entre outras funes, tem o papel de regular a destruio da nico- tina, presente no sangue e no crebro do fumante. medida que a nicotina eliminada pela ao da enzima, o taba- gista sente mais desejo de acender ou- tro cigarro para repor os nveis dessa substncia. Alguns cientistas acreditam que, uma vez estabelecida a dependn- cia qumica em relao nicotina, o fu- A mais comum dessas alteraes ocorre sete vezes mais em pessoas que no fumam do que em tabagistas habituais mante procura sempre manter nveis elevados dessa substncia em seu orga- nismo. Da a compulso pelo consumo de tabaco. Atividade reduzida - Nesse contexto, indivduos que apresentam alguma al- terao no gene CYP2A6, as tais muta- es citadas (e outras nove mais raras e no mencionadas), fabricam diferen- tes formas no-convencionais da enzi- ma. Pessoas com as mutaes 1B e 9, as mais prevalentes na populao bra- sileira, produzem, por exemplo, varian- tes menos ativas dessa enzima. como se elas carregassem naturalmente uma menor quantidade da enzima em seu organismo e, por isso, o processo de destruio da nicotina se d de forma mais lenta. Como os nveis de nicotina no sangue e no crebro demoram mais para declinar, os portadores dessas mo- dificaes genticas, se forem fuman- tes, conseguem saciar seu vcio com apenas um ou poucos cigarros. J in- divduos com a mutao 2 produzem uma forma inativa da enzima e os com a alterao 4 simplesmente no a fabri- cam. Em termos prticos, isso eqivale a dizer que os cidados com essas mu- taes praticamente no produzem a enzima em questo - pelo menos no a produzem pela ao do gene CYP2A6. Pode at ser que algum outro gene fa- brique alguma quantidade dessa enzi- ma, mas no com a mesma eficincia de seu gene original, o CYP2A6. No ex- terior esto sendo testados medicamen- tos capazes de imitar o efeito das muta- es e inibir ou ao menos retardar a ao da enzima, o que poderia ser um passo importante para diminuir a de- pendncia em relao nicotina. Benefcio duplo - Alm de tornar mais lenta a destruio da nicotina e, assim, diminuir o desejo de fumar, as mutaes propiciam um segundo tipo de ganho aos seus portadores: reduzem a taxa de ativao de substncias pr-cancerge- nas presentes nos derivados de tabaco. Isso porque, no organismo, a forma nor- mal da enzima CYP2A6 ativa as nitrosa- minas, substncias txicas encontradas no cigarro, e as transforma em elemen- tos que predispem ao cncer. J as ver- ses anormais da enzima, decorrentes das alteraes genticas, no fazem isso. "As mutaes so duplamente benfi- cas", comenta Gisele. Logicamente, a carga gentica no o nico fator que pode favorecer ou inibir o tabagismo. Aspectos culturais e socioeconmicos tambm contam. Nas naes mais ricas o consumo de cigarros cai h dcadas. O mesmo no ocorre nas regies mais pobres. Tanto que 80% do 1,3 bilho de fumantes do mundo est em pases em desenvolvi- mento. No Brasil, onde cerca de 200 mil pessoas morrem por ano em razo de problemas de sade relacionados ao tabagismo, como infarto, enfisema, derrame e cncer, o consumo de cigar- ros per capita caiu 32% entre 1989 e 2002. Mas h duas vezes mais fumantes entre as camadas menos instrudas - provavelmente mais pobres tambm - do que nas parcelas mais abastadas da populao. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 51 CINCIA BIOLOGIA Nos rios do Brasil Bilogos registram 2.122 espcies de peixes de gua doce no pas movimento nas bancas de peixes no Mercado Municipal de So Paulo pequeno no comeo da tarde de uma quinta- feira quente e ensolarada. Quem pra no boxe 33, rua B, em um dos ltimos cor- redores da lateral esquerda do merca- do, pode escolher entre corvinas, sardi- nhas, tainhas e salmes - Iodas espcies do mar, algumas s vezes com 1 metro de comprimento. O nico peixe de gua doce, o pintado, que chega a 2 metros, uma estrela solitria nas prateleiras cheias de gelo picado. Mais adiante, ou- tra banca, no boxe 29 da rua C, exibe cercados de sardinhas, garoupas, merlu- zas e outros exemplares do mar, mais apreciados pelos fregueses. Em um pas cortado por milhares de rios, pode-se estranhar a escassez de o de quem estuda o assunto h mais de 20 anos. "A diversidade de peixes de tfica e ecolgica, de baixo valor comer- cial", comenta Naercio Aquino Menezes, do Museu de Zoologia da Universidade de So Paulo (USP). O Catlogo de peixes de gua doce no Brasil que ele coorde- nou, apresenta 2.122 espcies encontra- das nos rios do pas - quase o dobro do que havia sido listado em 1948 pelo bilogo norte-americano Henry Fowler, em um levantamento pioneiro. NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 0 raro bagre Cetopsorhamdia sp.: de 5 a 7 centmetros $mz SS&M Tucunar, de at 80 centmetros: entre pescadores, fama de brigador A piaba Moenkliausia sp.: em riachos, com 5 a 10 centmetros de comprimento De 10% a 15% das espcies eram ainda desconhecidas e es- to sendo cientificamente des- critas. o caso de uma piabinha azulada de cerca de 4 centmetros, co- letada no alto Xingu e alto Tapajs, em Mato Grosso, dotada de uma glndula na nadadeira anal que produz ferom- nio, substncia que atrai as fmeas du- rante a poca de acasalamento. Ou do dmgonichtys, algo como drago chins, um bagre longo e rolio que ganhou esse apelido por causa dos bigodes com- pridos e do focinho protuberante - tem cerca de 15 centmetros e vive nos rios do Brasil Central entocado nas pedras das corredeiras. Rivulus zygonectes. dos rios Tocantins, Araguaia e Xingu: fmea morre aps a desova e o macho depois da fecundao Mais que no mar - Para complementar os levantamentos anteriores e subsidiar a formulao de polticas pblicas para a explorao pesqueira de forma sus- tentvel, os especialistas que prepara- ram o Catlogo percorreram 20 esta- dos, da Paraba ao Rio Grande do Sul, durante cinco anos. Apesar do esforo, reconhecem: provvel que o trabalho no esteja completo. Podem existir pelo menos mais 2 mil espcies a serem descritas, acredita Ricardo Macedo Cor- ra e Castro, coordenador do Labora- trio de letiologia da USP de Ribeiro Preto e um dos autores do catlogo, do qual participaram tambm equipes do Museu Nacional da Universidade Fede- ral do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Museu de Cincias e Tecnologia da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Cirande do Sul (PUC-RS). Mesmo esse total j PESOUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 53 supera o nmero de peixes marinhos: ao longo da costa brasileira vivem 1.297 espcies, apresentadas no ano passado no Catlogo das espcies de peixes mari- nhos do Brasil editado por essas mes- mas equipes do Museu de Zoologia da USP e do Museu Nacional da UFRJ (ve- ja Pesquisa FAPESP n 94). Calcula-se que existam 25 mil esp- cies de peixes marinhos e fluviais em todo o planeta. De acordo com um le- vantamento publicado em 2003 pela PUC do Rio Grande do Sul, as Amri- cas Central e do Sul abrigam cerca de 4.400 espcies de peixes de rios j iden- tificadas, alm de outras 1.600 que ain- espcies do novo inventrio, o Brasil responde por cerca de 30% dessa diver- sidade, em conseqncia da variedade de ambientes aquticos - rios, riachos, igaraps, lagos e lagoas. "A evoluo geomorfolgica da Amrica do Sul propiciou a formao de uma elevada diversidade de ecossistemas aquticos que favoreceram o desenvolvimento de uma fauna de peixes que no encontra paralelo em outras partes do mundo", comenta Menezes. A regio com maior variedade de peixes - quase mil - , previsivelmente, a bacia amaznica, em decorrncia, em primeiro lugar, de suas prprias dimen- ses: a maior bacia hidrogrfica do mundo, com uma drenagem de 5,8 mi- lhes de quilmetros quadrados, equi- valente a quase meia Europa, dos quais 3,9 milhes no Brasil. Em segundo lu- gar, a prpria diversidade de ambientes: h rios de trs categorias, de acordo com sua colorao - de guas brancas como o Amazonas, o Madeira e o Jamari, guas claras como o Tapajs e o Tocan- tins e guas pretas como os rios Negro e Uatum. Alm disso, o volume de gua gigantesco: dos 20 maiores rios do mun- do, dez esto na Amaznia. O maior de- les, o Amazonas, com 6,5 mil quilme- tros e uma distncia entre as margens que varia de 4 a 50 quilmetros, res- ponsvel por 20% da gua doce despe- jada anualmente nos oceanos. rs peixes simbolizam a Amaznia. O primeiro o pirarucu {Arapatma gigas), um dos maiores peixes de h_ gua doce do mundo, com at 3 metros de comprimento e 150 quilos, de aspecto primitivo, com uma cabea longa e o corpo que se afina at chegar cauda arredondada. O outro, que tambm faz parte da culinria da Regio Norte, igualmente servido en- sopado, o tambaqui {Colossoina ma- cropomum), frugvoro, com at 1 metro e 30 quilos. O terceiro o tucunar (Cichla ocellaris), carnvoro, com at 80 centmetros c 15 quilos, reconhecido pela mancha negra arredondada - o ocelo - na cauda. Servido geralmente grelhado ou cozido com vegetais, o mais assduo dos trs no Mercado Mu- nicipal de So Paulo. Mesmo assim, vende pouco. "Quando muito, uns dez por semana", observa Reginaldo Gomes de Souza, atendente da banca do boxe 29. "S quem do Norte conhece." Limo e coentro - A segunda regio em diversidade de peixes, com quase 500 espcies, a regio cortada por trs rios: o Paran, de 4 mil quilmetros de exten- so, o Paraguai, com 2.621 quilmetros, e o Uruguai, com 1.770. Pelo tamanho e, sejamos justos, pelo sabor, destaca-se o pintado (Pseudoplatystoiua corruscans), bastante apreciado quando servido na brasa, em cubinhos, temperado apenas com algumas gotas de limo. "O limo tira o gosto da carne", previne Joo Gual- berto, funcionrio da banca 29 do mer- cado paulista. Ele ensina: com o pintado pode-se fazer tambm uma moqueca, com leite de coco, salsinha, cebola e - eis o segredo - uma boa pitada de coen- tro. um peixe, como se diz no merca- do, que tem sada: cerca de 50 so ven- didos por semana. Nos rios dessa regio tambm se encontra o dourado (Sahni- uits maxillosus), predador voraz de at 25 quilos. J na bacia do So Francisco existem cerca de 150 espcies, entre elas o curimat (Prochibdus vimboides), de lbios carnosos, e a tabarana {Salniinus hilarii), conhecida pelo focinho pontia- gudo e pelas nadadeiras avermelhadas da cauda. Todos esses so peixes explorados comercialmente. Em 2002, o Brasil pro- Contrastes: o minsculo Corydoras difluviatilis, que se alimenta de insetos enterrados na areia dos rios, e o pintado, de at 2 metros duziu, por meio da pesca extrativista, 680 mil toneladas de peixes. Desse to- tal, 455 mil toneladas (67%) vieram dos mares e 225 mil (33%) de rios. O Brasil, onde a atividade pesqueira gera cerca de 800 mil empregos diretos, ocu- pa a 27a posio no mercado mundial, com exportaes crescentes: US$ 120 milhes em 1998 e US$ 330 milhes em 2002. ara os pesquisadores, no entanto, o cenrio no animador. "A pesca extra- tivista ultrapassou os limi- M tes da sustentabilidade", la- menta Paulo Andreas Buckup, da UFRJ. Uma relao publicada pelo Ministrio do Meio Ambiente no final de maio lis- 0S PROJETOS extino - 135 so de gua doce. A cons- tatao refora a necessidade de cuida- dos redobrados, em especial com as es- pcies pequenas e frgeis, classificadas como de relevncia cientfica e ecol- gica, que em geral vivem em riachos. Como se alimentam de pequenos in- vertebrados, frutos e folhas que caem das rvores, tornam-se vtimas fceis do desmatamento das beiras de rios, da poluio e das grandes obras, como as usinas hidreltricas. A variedade de peixes dos riachos brasileiros, at agora muito pouco co- nhecidos talvez por causa do baixo valor comercial, s se tornou um pouco mais clara medida que os pesquisadores Conhecimento, conservao e utilizao racional da diversidade da fauna de peixes do Brasil COORDENADOR NARCIO AQUINO MENEZES - Museu de Zoologia/USP INVESTIMENTO R$ 1.051.000,00 - Pronex (CNPq) puxavam a rede. Em rios como Mogi- Guau, Piracicaba e Tiet, na regio do alto Paran, o grupo da USP de Ribei- ro Preto coletou 17 mil exemplares de peixes, com 15 espcies novas - uma delas o minsculo Corydoras difluvia- tilis, que se alimenta de insetos enterra- dos na areia do fundo dos rios Pardo e Mogi-Guau. Em um riacho da Mata Atlntica, na divisa de So Paulo com o Rio de Ja- neiro, a equipe do Museu de Zoologia reencontrou o Trichogenes longipinnis, de longa nadadeira caudal e um corpo castanho-claro com manchas escuras e outros traos relativamente primitivos em relao aos outros bagres - tendo, por essa razo, importncia evolutiva. "O fato de ter uma distribuio restrita lativamente primitiva revela a impor- tncia dos ecossistemas aquticos da regio no contexto da histria evoluti- Diversidade de peixes da bacia do alto rio Paran MODALIDADE Projeto Temtico COORDENADOR USP de Ribeiro Preto INVESTIMENTO R$486.037,11 (FAPESP) va dos peixes de gua doce da Amrica do Sul", comenta Menezes. A expedio ao Brasil Central, prio- rizada por conter afluentes importantes da bacia amaznica em regies pouco exploradas, foi a nica que reuniu as quatro equipes. Os 16 pesquisadores desembarcaram em Cuiab, capital de Mato Grosso, no dia 15 de janeiro de 2002, sob um sol escaldante, prontos pa- ra enfrentar a poca das chuvas. Quando voltaram para casa, 15 dias depois, ti- nham percorrido 5 mil quilmetros de estradas esburacadas e enlameadas. Haviam apanhado cerca de 50 mil pei- xes de cerca de cem espcies, incluindo sete novas da famlia dos loricarideos, que incluem os cascudos - com menos de 5 centmetros, boca em forma de ventosa e o corpo revestido por uma couraa ssea, vivem escondidos sob folhas e troncos de rvores que ficam s margens dos rios. BM m PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 55 O mural de Carlos Magano, feito nos anos 1950 e recm-restaurado, um smbolo da faculdade PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 57 USP TU trajetria da Faculdade de Educao da Universidade de So Paulo (USP) pode ser narrada em trs etapas, e todas elas so marcadas pelo com- promisso com a construo de uma escola pblica, leiga e aces- svel a todos. O embrio sur- giu no incio da dcada de 1930, na Escola Normal Se- cundria da Praa da Rep- blica, no centro paulistano, onde hoje funciona a Secre- taria de Educao do Estado de So Paulo (o prdio, por sinal, um smbolo do ensino leigo: foi erguido nos primeiros anos da Repblica com verba e terreno que o finado Imprio reservara construo de uma catedral). Numa poca em que quase a metade da populao in- fantil estava fora da escola e a maioria dos professores primrios levava na bagagem apenas quatro anos de ins- truo primria, um grupo de docentes da Escola Nor- mal da Praa comeou a articular a fundao de uma pio- neira instituio de ensino superior de pedagogia. A idia dos educadores Antnio Sampaio Dria, Manuel Loureno Filho e Fernando de Azevedo tambm tinha um cunho nacionalista, uma vez que era gigantesco o fosso entre o grau educacional dos brasileiros nativos e o dos imigrantes europeus. Desse esforo surge, em 1933, o Instituto de Educao, centro de nvel superior vin- culado Escola Normal. Teve vida efmera como insti- tuio independente. Em 1934 incorpora-se nascente Universidade de So Paulo e, em 1938, transforma-se em Seo de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras (FFCL), incumbido, principalmente, da tarefa de dar formao pedaggica a professores secundrios de diversas disciplinas formados pela USP. Um segundo momento importante para a histria da faculdade remonta ao ano de 1956, quando o Minis- trio da Educao e Cultura (MEC) e a USP assinam um convnio e montam, dentro da Cidade Universitria, o Centro Regional de Pesquisas Educacionais (CRPE) de So Paulo. Tratava-se de um brao de um rgo do MEC, o Instituto Nacional de Estudos Pedaggicos (Inep), vol- tado para pesquisas e treinamento de professores. Seu idealizador era o filsofo da educao Ansio Teixeira, cujas idias nortearam uma notvel renovao pedag- gica em meados do sculo 20 e deram lastro ao incio da ampliao do acesso escola aos brasileiros mais pobres. O CRPE partilhava professores com a Seo de Peda- gogia da FFCL, mas as instituies seguiam independen- tes. Cada uma delas tinha sua Escola de Aplicao: a do CRPE, apenas de ensino bsico; a da USP, a Escola Fide- lino de Figueiredo, de ensino ginasial e mdio. O dia Io de janeiro de 1970 marca a terceira etapa da trajetria, com a fundao da Faculdade de Educao nos moldes em que ela funciona hoje. A unidade cria- da, na esteira da reforma universitria de 1968, com a emancipao da Seo de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras, e sua fuso com o CRPE, que cede suas instalaes e acaba extinto. Da FFCL, a Faculdade de Educao herdou professores formados sob a influncia das misses estrangeiras que fizeram a USP e inspirados pela Campanha em Defesa da Escola Pblica, liderada pelo socilogo Florestan Fernandes no incio dos anos 1960. Do CRPE, recebeu sua sede atual (parcialmente demolida e reconstruda, por problemas de movimentao de solo), educadores que formaram geraes de pesquisadores, como Roque Spencer Ma- ciel e Laerte Ramos de Carvalho, alm da Escola de Apli- cao (aquela que pertencia Faculdade de Filosofia, la- boratrio de experincias inovadoras, foi sumariamente fechada pela ditadura). "As preocupaes dos criadores do Instituto de Edu- cao e do CRPE ajudam a explicar a nossa tradio de pesquisa, historicamente voltada para a expanso e a melhoria do ensino pblico", diz Celso de Rui Beisiegel, professor de Sociologia da Educao, que comeou a carreira como pesquisador do CRPE e ajudou a fundar a unidade nos anos 70. Com cerca de 800 alunos de pedagogia, 600 de ps-graduao, 8 mil matrculas na licenciatura e 107 docentes, a instituio segue como referncia em pesquisas educacionais. Alguns exemplos de projetos apoiados pela FAPESP ilustram a diversi- dade temtica e o espectro de preocupaes que orien- tam os pesquisadores da faculdade. Um dessas linhas de investigao a formao de professores e a anlise de aprendizado das cincias. "Temos um grupo robusto, que tambm produz e avalia material didtico", diz a professora Myriam Krasilchik, pesquisadora no campo do ensino da biologia, que foi diretora da Faculdade de Educao e vice-reitora da USP. Nos ltimos tempos, Myriam envolveu-se num projeto de educao ambien- tal em duas cidades do interior paulista. A professora Anna Maria Pessoa de Carvalho trabalha com duas equipes de professores de colgios pblicos em busca de experincias inovadoras no ensino da fsica tanto nas escolas fundamental e mdia. Um dos objeti- vos dos grupos levantar os tipos de experincias que possibilitam o aprendizado do aluno. Foram produzi- dos 15 vdeos com imagens de sala de aula, capazes de sinalizar algumas experincias didticas que ajudam o aluno a aprender. Outro resultado prtico foi o guia pa- ra professores Termodinmica - Um ensino por investiga- o, com prticas metodolgi- cas desenvolvidas pelo grupo de professores do ensino mdio. A grande concluso que o apren- Cenas dos anos 1960: dizado de fsica depende de ati- professoras estagirias vidades em sala de aula capazes no prdio do CRPE de provocar argumentaes e de (alto); me de aluno permitir aos alunos o levanta- ajudando em aula de mento e o teste de hipteses. cincias no Colgio de Numa experincia sobre di- Aplicao ( esq.); latao, por exemplo, os profes- professoras em sores colocam uma bexiga no treinamento e alunos bocal de um recipiente de vidro em aula de linguagem e aquecem sua base. A bexiga ( dir.) 58 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 I lfl ! M/r' : fcr\ ^ PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 59 USP 7D infla - o que serve de ponto de partida para a discusso do fenmeno. "Os alunos debatem e algum deles acaba sugerindo que a bexiga inchou porque o ar quente, afi- nal, sobe. Em seguida, vira-se o recipiente de cabea para baixo e a bexiga continua inflada. O professor conduz as discusses rumo real explicao, que a dilatao do ar, e os alunos constrem seus conhecimentos formu- lando hipteses e colocando-as prova", diz a professo- ra Anna. Outra iniciativa com bons efeitos a discusso de textos originais de cientistas, em que os alunos per- cebem a importncia do trabalho de equipe, da curiosi- dade e da perseverana nas descobertas. "A maioria das pessoas no se lembra de nada do que aprendeu nas au- las de fsica", diz Anna. "Alguns dizem que gostavam das atividades de laboratrio, mas tambm no conseguem lembrar exatamente do que gostaram. um sinal de que o ensino tradicional de fsica est falido." O esforo em desenvolver uma nova metodologia esbarra sobretudo na parca carga horria da disciplina nas escolas pblicas. "Com uma aula por semana, d para fazer muito pou- co", afirma. A Faculdade de Educao tem forte tradio tambm no estudo da histria da educao. Se a corrente hegemnica, at os anos 1970, voltava-se para a histria das idias pedaggicas e o perfil dos tericos, dos anos 80 para c o foco recaiu sobre novos protagonistas: professo- res e alunos. "A dcada de 1980, de modo geral, marca uma mu- dana na pesquisa da faculda- de, agora mais voltada para o cho da escola e para a plurali- dade de orientaes tericas", explica a professora Marlia Spsito, presidente da Comis- so de Pesquisa. Um exemplo dessa verten- te o esforo para levantar a trajetria do livro didtico no Brasil. Sob a liderana da pro- fessora Circe Bittencourt, o Centro de Memria da Educa- o, vinculado faculdade, vem construindo um acervo de obras didticas, material es- colar e depoimentos orais de professores e alunos. Uma tese sobre o tema defendida pela professora Circe em 1993, "Li- vro didtico: conhecimento his- trico", ser publicada em livro nos prximos meses pela Edi- tora Unesp. As obras didticas so obtidas de fontes di- versas, como sebos e bibliotecas, com o objetivo de aju- dar a compreender a dinmica da educao no passa- do. Se o livro estiver usado, com exerccios respondidos, mais rica essa compreenso. Numa obra antiga os pes- quisadores encontraram at fragmentos de papel com cola para prova, combustvel importante para o estudo dos usos e costumes das escolas. No acervo h raridades publicadas no sculo 19, algumas delas obti- das na Frana, onde se imprimia boa parte dos livros usados nas es- colas do Brasil Imprio. "Minha vida freqentar sebos", diz a pro- fessora Circe. "Quando os sebos ainda no sabem que a gente est interessada, sai barato", ela explica. Uma limitao para a pesquisa que os livros didticos distribudos pelo go- verno, hoje, tm de ser reaproveitados, inibindo a inte- rao dos alunos. "Tentamos preencher essa lacuna re- colhendo cadernos", afirma a professora. possvel citar outras contribuies da Faculdade de Educao, como o trabalho terico da professora Mar- lia Spsito sobre os jovens, em especial sobre polticas pblicas para a juventude no Brasil nos ltimos anos. 60 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Acima, autoridades na inaugurao do CRPE, em 1956. Abaixo, funcionrio embala publicaes pedaggicas para enviar a professores Ou as pesquisas da professora Tizuko Morchida Kishi- moto no Laboratrio de Brinquedos e Materiais Peda- ggicos. Ao avaliar o potencial dos brinquedos em ativi- dades pedaggicas, o laboratrio busca colber subsdios para a formao de professores de educao infantil. A professora Selma Garrido Pimenta, atual diretora da faculdade, desenvolve um trabalho que se tornou refe- rncia sobre a formao de professores em todo o pas. Um dos frutos dessa linha de pesquisa foi um projeto que coordenou, voltado investigao do processo de produo do conhecimento dos professores, desenvol- vido entre 1996 e 2000 em duas escolas pblicas da pe- riferia de So Paulo. O combustvel da pesquisa foi a reflexo dos prprios professores sobre as prticas peda- ggicas, uma metodologia qualitativa inovadora. Destacam-se, ainda, as pesquisas dos professores Cel- so Beisiegel sobre polticas pblicas e as conseqncias da expanso do ensino. Sua contribuio mais recente foi a pesquisa Construo de banco de dados sobre experin- cias de professores da universidade pblica na administra- o da educao pblica das ltimas dcadas. Orientados por Beisiegel e pelo professor Romualdo Portela de Oli- veira, tambm da faculdade, sete alunos percorreram vrios estados do Brasil coletando e registrando infor- maes sobre as atividades de professores em universi- dades pblicas na elaborao e na execuo de polticas educacionais. Levantaram documentos, entrevistaram educadores e promoveram seminrios com a participa- o desses professores a fim de entender o trabalho que desenvolviam e debater a sua importncia. A instituio conhecida como formadora de qua- dros. Secretria da Educao do Estado de So Paulo por quase oito anos, a pedagoga Rose Neubauer saiu dos quadros docentes da instituio. Outra professora, Lise- te Arelaro, foi Secretria de Educao do Municpio de Diadema. Num passado recente, a faculdade forneceu uma vice-reitora para a USP, Myriam Krasilchik, e dois pr-reitores de graduao, Celso Beisiegel e Snia Penin, ainda em exerccio. "A faculdade justifica sua presena dentro da Universidade de So Paulo", orgulha-se o pro- fessor Beisiegel. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 61 O SciELO Brasil chega a novembro com 131 revistas e mais de 9 milhes de acesso feitos at outubro. A biblioteca eletrnica est presente tambm no Chile, em Cuba, na Espanha e em outros pases iberoamericanos. Em outubro, durante a 12a Conferncia Internacional de Editores de Cincia, no Mxico, houve a 2a Reunio Regional da Rede SciELO com representantes de oito pases (veja reportagem completa na pgina 26) Biblioteca de Revistas Cientficas disponvel na Internet www.scielo.org Literatura O percurso de Machado O estudo "Macha- do de Assis, leitor e crtico de teatro", de Joo Roberto Faria, professor de litera- tura brasileira na Universidade de So Paulo (USP), tem como objetivo prin- cipal traar o perfil de Machado de Assis enquanto leitor e cr- tico de teatro. Pri- meiro, o pesquisador situa o escritor no contex- to teatral do sculo 19, nos anos de 1850 e 1860, quando entraram em choque, nos palcos do Rio de Janeiro, a esttica romntica e a realista. "Antes de se dedicar mais intensamente ativi- dade literria que o consagrou, Machado tor- nou-se conhecido como folhetinista, crtico teatral, crtico literrio, comedigrafo, poeta e tradutor de poemas, peas teatrais e romances", lembra o autor. O artigo acompanha a extensa produo jornalstica de Machado de Assis, na qual se notabilizou como crtico, detendo-se tambm na atividade de censor do Conservat- rio Dramtico Brasileiro que o escritor exerceu por algum tempo. Ao acompanhar o percurso intelectual de Machado, em sua juventude lite- rria, o autor procurou analisar, compreender e explicar suas idias em relao arte dramtica e ao teatro brasileiro. "Os amigos admiravam a inteligncia e o brilho do rapaz pobre que co- meara como tipgrafo e, j aos 20 anos, era uma pea-chave no debate cultural do seu tem- po, com intervenes corajosas e por vezes contundentes nos textos crticos e nos folhetins que publicava em vrios jornais do Rio de Ja- neiro", cita o pesquisador. "Foram esses escritos que o transformaram no nosso principal cr- tico literrio e teatral da dcada de 1860", acre- dita Faria. REVISTA ESTUDOS AVANADOS - VOL. 18 - SO PAULO - 2004 N 51 www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010 3-40142004000200020&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Comunicao Pauta pblica para a TV "Uma pauta pblica para uma nova televi- so brasileira", de autoria de Regina Mota, professora do Departamento de Comunica- o Social da Universidade Federal de Minas Gerais, coloca em debate algumas questes re- lativas ao desconhecido universo da televiso pblica no Brasil. A idia apresentar alguns elementos conceituais de uma "pauta pblica" dos meios de comunicao no Brasil, em parti- cular da televiso. "Nos ltimos cinco anos, vem ocorrendo um movimento contnuo e crescente de mudanas conceituais nas televises estatais e concesses de canais educativos no Brasil", acredita Regina. "O fenmeno uma reao dessas emissoras ao atraso na legislao, cons- tante ingerncia administrativa dos governos estaduais e ao eterno problema do financia- mento dessas instituies." A partir de depoi- mentos de acadmicos e profissionais liberais, o artigo apresenta elementos dessa participa- o cidad e pauta pblica na televiso. O tex- to considera que, diferentemente do que os profissionais da comunicao julgam, h no Brasil uma demanda por uma "televiso asser- tiva", que examine e apresente interesses so- ciais de longo prazo de maneira reflexiva e transformadora. "No momento, o Brasil inicia timidamente a discusso de um modelo de te- leviso digital para o pas, privilegiando a tec- nologia, para fazer face disputa de mercado travada entre os que detm os atuais padres de digitalizao." Segundo ela, essa seria uma oportunidade para rever a legislao do setor, uma vez que a mudana remodelar todos os servios oferecidos pelos meios eletrnicos, in- cluindo as formas de acesso. Quando a autora fala de uma programao que possa estabelecer uma nova relao com o pblico, isso pressu- pe um deslocamento da sua conscincia: de mero espectador, o pblico pode repensar a sua relao com o mundo e com a televiso. REVISTA SOCIOLOGIA E POTICA TIBA - IUN. 2004 N 22 - CURI- www.scielo.br/scielo. php?script=scLarttext&pid= S0104-44782004000100007&lng=pt&nrm=iso& tlng=pt 62 NOVEMBRO DE 2004 PES0UISA FAPESP 105 Oftalmologia Sade ocular Apresentar estimativas referentes prevalncia da cegueira e de baixa viso realizadas pela Organizao Mundial de Sade (OMS); discutir os aspectos relacio- nados s estratgias com vistas ao planejamento de programas preventivos; ressaltar a necessidade de rea- lizar pesquisas epidemiolgicas e operacionais para a formao de recursos humanos e aperfeioamento da infra-estrutura de servios especializados. Essas so as metas do artigo "A perda da viso - estratgias de pre- veno", de Edma Rita Temporini e Newton Kara- Jos, professores de Oftalmologia da Universidade Es- tadual de Campinas e Universidade de So Paulo. De acordo com o trabalho, o conceito de oftalmologia em sade pblica relativamente recente. "Se os princ- pios de sade pblica forem aplicados a programas de preveno da cegueira, o nmero de cegos de uma po- pulao ou de uma comunidade pode ser significante- mente reduzido", acreditam os pesquisadores. "O con- trole e a diminuio de ndices de cegueira por meio de programas especficos assumem importncia vital em programas nacionais de sade ocular." Segundo esti- mativas baseadas na populao mundial referentes cegueira e baixa viso, divulgadas pela OMS, em 1990 havia 38 milhes de indivduos cegos e 110 milhes apresentavam viso deficiente e risco de cegueira. J em 1996, o ndice aumentou para 45 milhes de cegos e 135 milhes de portadores de baixa viso. "O aumento progressivo da cegueira e deficincia visual pode ser atribudo, em especial, ao crescimento populacional, ao aumento da expectativa de vida, s dificuldades de acesso da populao assistncia oftalmolgica e in- suficincia de esforos educativos que promovam a adoo de comportamentos preventivos." ARQUIVOS BRASILEIROS DE OFTALMOLOGIA - VOL. 67 - N 4 - SO PAULO - JUL./AGO. 2004 www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004- 27492004000400007&ng=pt&nrm=iso&tlng=pt Fsica Energia solar via satlite "Por ser um pas localizado em sua maior parte na regio intertropical, o Brasil possui grande potencial de energia solar durante todo ano. Alm disso, a radia- o solar constitui uma opo limpa e renovvel de produo de energia", segundo o artigo "Levantamen- to dos recursos de energia solar no Brasil com o em- prego de satlite geoestacionrio - o Projeto Swera", de Fernando Martins, Enio Pereira e Mariza Echer, pes- quisadores da Diviso de Clima e Meio Ambiente, Centro de Previso do Tempo e Estudos Climticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A idia conhecer a disponibilidade dessa fonte de energia e seu aproveitamento, por meio de modelos computacio- nais para estimar o fluxo de energia solar na superfcie. O trabalho apresenta uma reviso sobre os princpios que esto por trs desses modelos, seguindo como exemplo a transferncia radiativa Brasil-SR. Trata-se de metodologia empregada no mapeamento do potencial energtico solar da Amrica Latina pelo projeto Solar andWind Energy Resource Assessment (Swera), finan- ciado pela Diviso de Ambiente Global por meio do Programa das Naes Unidas para o Ambiente. REVISTA BRASILEIRA DE ENSINO DE FSICA - VOL. 26 - N 2 - SO PAULO - 2004 www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 47442004000200010&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Sociedade Direitos dos adolescentes Discutir questes que dizem respeito sade sexual e reprodutiva dos adolescentes o objetivo do artigo "Direitos sexuais e reprodutivos: algumas considera- es para auxiliar a pensar o lugar da psicologia e sua produo terica sobre a adolescncia", de autoria de Maria Filgueiras Toneli, professora da Universida- de Federal de Santa Catarina. O estudo se baseia em dois eixos fundamentais. O primeiro diz respeito a noo de direitos sexuais e reprodutivos fundamenta- da no que as grandes conferncias promovidas pela Organizao das Naes Unidas preconizam. O segun- do eixo aborda o discurso mdico-cientfico como dis- positivo que oscila entre as estratgias de governo das populaes e a incitao do sujeito para se ocupar de si mesmo. O artigo mostra que em 1990 foi publi- cada, no Brasil, a lei 8.069, denominada Estatuto da Criana e do Adolescente. "De fato, nas duas ltimas dcadas houve um avano considervel nas polticas pblicas voltadas para a infncia e a juventude no Brasil", acredita Maria. Entre as iniciativas desse pero- do pode-se apontar a criao do Conselho Nacional da Criana e do Adolescente, o Programa de Ateno Integral Sade da Mulher, o Programa de Sade do Adolescente, o Programa de Preveno e Controle das Doenas Sexualmente Transmissveis e do HIV/Aids, a incluso da educao sexual nos parmetros curricu- lares nacionais e da sexualidade como tema transversal na rea da educao. " preciso pensar essas iniciati- vas em um cenrio que inclui agentes sociais bastante diversificados que disputam a tutela da infncia e da juventude no contexto brasileiro", diz. PSICOLOGIA E SOCIEDADE ALEGRE - 2004 VOL. 16 - N 1 - PORTO www.scielo,br/scielo.php?script=scLarttext&pid=S0102- 71822004000100013&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 63 TECNOLOGIA Cremes resfriados sem energia externa Um sistema de congelamento instantneo permite que em poucos minutos, apenas com um processo de evaporao totalmente natural, um creme para uso cosmtico aumente sua eficcia. Ao ser aplicado, o creme baixa a temperatura ra- pidamente, a uma taxa de 5C por minuto. Dessa forma, os lipdios (molculas orgnicas insolveis em gua), que so a principal matria-prima dos produtos cosmticos, so- frem uma retrao molecu- lar, o que faz com que pene- trem na pele de forma mais eficiente. Assim que atinge os poros e se reaquece, o mate- rial volta sua estrutura nor- mal. O sistema utiliza uma cermica especial e um pro- cesso de evaporao a vcuo que absorve o calor do pro- duto, resfriando-o rapida- mente sempre que necess- rio. "Ns desenvolvemos um sistema de congelamento r- pido e controlado, sem o uso Carro urbano dos sonhos Compacto, com apenas 1 metro de largura, produ- zindo menos poluio e gas- tando menos combustvel. Esse o carro dos sonhos daqueles que tm a preocu- pao com o ambiente co- mo um fator essencial para a compra de um veculo. A materializao desse novo carro, chamado de Clever Car, do ingls compact low- emission vehicle for urban transport ou veculo para transporte urbano compac- to e com baixa emisso de poluentes, est sendo reali- zada por uma equipe de pesquisadores de institui- es de pesquisa e de em- presas de nove pases euro- peus. O projeto de US$ 2,7 milhes financiado pela Unio Europia. O protti- po do Clever Car est sen- do construdo com chassi e carroceria de metal e com acomodao para apenas um passageiro atrs do ban- co do motorista. Alm de ser mais fcil de manobrar e possuir trs rodas como Compacto e menos poluente os triciclos, ele dever ser mais barato que os vecu- los convencionais. O novo carro atingir a velocidade mxima de 80 quilmetros por hora e o motor vai fun- cionar com gs natural comprimido. Entre as ins- tituies que desenvolvem o carro esto o Instituto Francs do Petrleo, a Uni- versidade de Bath, na In- glaterra, e a empresa BMW. O lanamento est previsto para dezembro de 2005. (London Press) de energia externa, no qual a temperatura cai 70 vezes mais rapidamente do que em uma geladeira comum", relata Fadi Khairallah, fundador da Ther- magen, empresa responsvel pela descoberta que foi ba- seada em tecnologia desen- volvida pela Agncia Espacial Europia (ESA). A tecnologia foi testada durante o rali Pa- ris-Dacar por pilotos da equi- pe Pescarolo, que puderam tomar lquidos temperatura de 15C no meio do deserto. Para controlar o processo de Cosmtico mais eficaz com temperatura controlada resfriamento, a equipe de pes- quisadores da Thermagen usou o mesmo programa de simulao utilizado para cal- cular o funcionamento dos motores do foguete espacial francs Ariane. (ESA) No Egito,trigo tolerante seca Pesquisadores egpcios apre- sentaram uma novidade que poder mudar a milenar cul- tura do trigo no Egito. Eles in- troduziram um gene de ceva- da em uma variedade local de trigo que torna a planta resis- tente seca. Enquanto as va- riedades convencionais neces- sitam de at oito irrigaes por plantio, a transgnica pre- 64 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 cisa de apenas uma. A nova semente foi desenvolvida du- rante quatro anos por pes- quisadores do Instituto de Pesquisa e Engenharia Gen- tica em Agricultura do Cairo (Ageri). Eles iniciaram o tra- balho transferindo o gene chamado HVAI1 da cevada para o trigo. Depois, com as sementes geneticamente mo- dificadas em mos, eles fize- ram o cultivo em estufas e no campo. O coordenador da pesquisa, Ahmed Bahieldin, disse para a agncia Sci- Dev.Net que o trigo transg- nico cresceu e teve um rendi- mento melhor que as plantas no-modificadas. Ele acredita que a cultura ser importante para as reas pouco favor- veis a esse tipo de plantao em condies de falta de irri- gao, salinidade e alta tem- peratura. A primeira semente geneticamente modificada do Egito dever primeiro passar por estudos de segurana pa- ra consumo humano e para o ambiente antes de ser coloca- da venda. Computadores mais sensveis Tornar os computadores mais parecidos com os seres huma- nos na maneira de pensar e agir. Esse o objetivo de um projeto que rene 160 pesqui- sadores de 27 instituies da Europa, coordenados pela Uni- versidade Queen de Belfast, na Irlanda do Norte. "Com- putadores que respondem de acordo com as emoes hu- manas podem soar como fic- o cientfica, mas esse limite est prestes a ser quebrado", diz Roddy Cowie, da Facul- dade de Psicologia da univer- sidade e coordenador do pro- jeto. Foram destinados 10 milhes para a pesquisa, que tem durao prevista de qua- tro anos e envolve a criao de uma interface multimodal que permitir mquina per- ceber e responder de acordo com o que o usurio espera dela. "Atualmente, o uso dos computadores limitado pelo fato de que precisamos de um teclado e uma tela pa- ra acess-los. Haveria uma enorme diferena se ns pu- dssemos interagir com eles falando normalmente, talvez por meio de um microfone ou transmissor", disse Cowie. "As interfaces de pronncia que existem atualmente igno- ram os comandos caso a frase no esteja completa", ressalta. Por isso os pesquisadores en- volvidos no projeto esto de- senvolvendo mtodos de pro- gramao para tornar os computadores mais intuiti- vos. Dessa forma eles pode- riam ter um tipo de "persona- lidade", mostrar algum grau de autonomia e, em geral, es- tabelecer uma relao social com o usurio. BRASIL Avio agrcola movido a lcool Ipanema sai de fbrica certificado para voar com lcool A aeronave agrcola Ipanema, equipada com motor movido a lcool hidratado, recebeu em outubro a certificao do Centro Tcnico Aeroespacial (CTA). Com isso tornou-se o primeiro avio de srie no mundo a sair de fbrica cer- tificado para voar com esse tipo de combustvel. O Ipa- nema, fabricado pela Neiva Indstria Aeronutica, subsi- diria da Embraer, o cam- peo de vendas da empresa, com quase 30 anos de produ- o e cerca de mil unidades vendidas. A escolha do lcool foi motivada pelo fato de o Brasil ser um grande produ- tor desse tipo de combustvel. O motor a lcool permite um aumento em torno de 5% na potncia, melhorando o de- sempenho do avio pela di- minuio da distncia de de- colagem, velocidade e altitude mximas. Alm disso, polui menos que a gasolina de aviao porque no possui chumbo em sua composio. A Neiva j registrou o nome AvAlc (Aviation Alcohol) no Brasil para o uso dessa fonte de energia. At agora, a em- presa j recebeu 69 pedidos de converso do motor a ga- solina para lcool, trabalho previsto para ser executado at janeiro do ano que vem. A certificao do Ipanema ocor- reu no mesmo ms em que a empresa comemorou 50 anos. Fundada em 12 de outubro de 1954 pelo projetista Jos Car- los Neiva, no Rio de Janeiro, para produzir os planadores BN-1 e Neiva B Monitor, dois anos depois transferiu-se para Botucatu, no interior do Es- tado de So Paulo, onde est at hoje. No comeo da dca- da de 1980, a Embraer com- prou o controle acionrio da empresa e passou a responder pela produo de todos os avies leves fabricados pela Neiva. Alguns anos depois transferiu a montagem do turbolice Braslia para Bo- tucatu. Hoje produz compo- nentes do jato ERJ 145, da Embraer, alm de partes do Super Tucano, avio de trei- namento militar. PESOUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 65 cisa de apenas uma. A nova semente foi desenvolvida du- rante quatro anos por pes- quisadores do Instituto de Pesquisa e Engenharia Gen- tica em Agricultura do Cairo (Ageri). Eles iniciaram o tra- balho transferindo o gene chamado HVAI1 da cevada para o trigo. Depois, com as sementes geneticamente mo- dificadas em mos, eles fize- ram o cultivo em estufas e no campo. O coordenador da pesquisa, Ahmed Bahieldin, disse para a agncia Sci- Dev.Net que o trigo transg- nico cresceu e teve um rendi- mento melhor que as plantas no-modificadas. Ele acredita que a cultura ser importante para as reas pouco favor- veis a esse tipo de plantao em condies de falta de irri- gao, salinidade e alta tem- peratura. A primeira semente geneticamente modificada do Egito dever primeiro passar por estudos de segurana pa- ra consumo humano e para o ambiente antes de ser coloca- da venda. Computadores mais sensveis Tornar os computadores mais parecidos com os seres huma- nos na maneira de pensar e agir. Esse o objetivo de um projeto que rene 160 pesqui- sadores de 27 instituies da Europa, coordenados pela Uni- versidade Queen de Belfast, na Irlanda do Norte. "Com- putadores que respondem de acordo com as emoes hu- manas podem soar como fic- o cientfica, mas esse limite est prestes a ser quebrado", diz Roddy Cowie, da Facul- dade de Psicologia da univer- sidade e coordenador do pro- jeto. Foram destinados 10 milhes para a pesquisa, que tem durao prevista de qua- tro anos e envolve a criao de uma interface multimodal que permitir mquina per- ceber e responder de acordo com o que o usurio espera dela. "Atualmente, o uso dos computadores limitado pelo fato de que precisamos de um teclado e uma tela pa- ra acess-los. Haveria uma enorme diferena se ns pu- dssemos interagir com eles falando normalmente, talvez por meio de um microfone ou transmissor", disse Cowie. "As interfaces de pronncia que existem atualmente igno- ram os comandos caso a frase no esteja completa", ressalta. Por isso os pesquisadores en- volvidos no projeto esto de- senvolvendo mtodos de pro- gramao para tornar os computadores mais intuiti- vos. Dessa forma eles pode- riam ter um tipo de "persona- lidade", mostrar algum grau de autonomia e, em geral, es- tabelecer uma relao social com o usurio. BRASIL Avio agrcola movido a lcool Ipanema sai de fbrica certificado para voar com lcool A aeronave agrcola Ipanema, equipada com motor movido a lcool hidratado, recebeu em outubro a certificao do Centro Tcnico Aeroespacial (CTA). Com isso tornou-se o primeiro avio de srie no mundo a sair de fbrica cer- tificado para voar com esse tipo de combustvel. O Ipa- nema, fabricado pela Neiva Indstria Aeronutica, subsi- diria da Embraer, o cam- peo de vendas da empresa, com quase 30 anos de produ- o e cerca de mil unidades vendidas. A escolha do lcool foi motivada pelo fato de o Brasil ser um grande produ- tor desse tipo de combustvel. O motor a lcool permite um aumento em torno de 5% na potncia, melhorando o de- sempenho do avio pela di- minuio da distncia de de- colagem, velocidade e altitude mximas. Alm disso, polui menos que a gasolina de aviao porque no possui chumbo em sua composio. A Neiva j registrou o nome AvAlc (Aviation Alcohol) no Brasil para o uso dessa fonte de energia. At agora, a em- presa j recebeu 69 pedidos de converso do motor a ga- solina para lcool, trabalho previsto para ser executado at janeiro do ano que vem. A certificao do Ipanema ocor- reu no mesmo ms em que a empresa comemorou 50 anos. Fundada em 12 de outubro de 1954 pelo projetista Jos Car- los Neiva, no Rio de Janeiro, para produzir os planadores BN-1 e Neiva B Monitor, dois anos depois transferiu-se para Botucatu, no interior do Es- tado de So Paulo, onde est at hoje. No comeo da dca- da de 1980, a Embraer com- prou o controle acionrio da empresa e passou a responder pela produo de todos os avies leves fabricados pela Neiva. Alguns anos depois transferiu a montagem do turbolice Braslia para Bo- tucatu. Hoje produz compo- nentes do jato ERJ 145, da Embraer, alm de partes do Super Tucano, avio de trei- namento militar. PESOUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 65 LINHA DE PRODUO DRASIL .: Ces imunizados com menos riscos Z COi Uma nova vacina contra a arvovirose canina, baseada tecnologia do DNA re- combinante, foi desenvolvi- da na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e j est sendo produzida pelo Laboratrio Hertape. A previso que no incio de 2005 ela j esteja no mer- cado. Enquanto a vacina mineira usa apenas prote- nas do vrus para estimular o sistema de defesa dos ces, as vacinas atualmente dis- ponveis no pas utilizam o prprio vrus enfraquecido. Para produzir a nova vaci- na, os pesquisadores anali- sam o material gentico do vrus e selecionam alguns ge- bactria, responsvel pela produo de protena do v- rus que vai ativar a gerao de anticorpos. "A vantagem do novo mtodo que a amamentao no prejudi- ca a imunizao dos filho- tes", diz a professora Erna Kroon, coordenadora do Laboratrio de Vrus da universidade e integrante da equipe do projeto. Com 30 dias os filhotes j podem ser vacinados. A parvovirose uma doena que causa pro- blemas intestinais e grave desidratao, alm de ser de fcil contgio. Os animais so vacinados ainda filhotes, entre a sexta e a nona sema- na de vida, fase em que mui- mentados. Por isso o gran- de problema da aplicao da vacina tradicional que os anticorpos maternos im- pedem a multiplicao do vrus atenuado e, com isso, diminuem sua eficincia. Outra vantagem apontada que por ser uma protena no h risco tanto na pro- duo da vacina como na disseminao de vrus no ambiente. Os estudos que resultaram no novo produ- to foram iniciados em 1999 pela equipe do professor Paulo Csar Peregrino, a pedido do Hertape. nes para colocar em uma -~tos ainda esto sendo ama- Soja identificada em 30 segundos Metodologia desenvolvida no Instituto de Qumica da Uni- versidade Estadual de Cam- pinas (Unicamp) possibilita em apenas 30 segundos, sem necessidade de repetir a an- lise, diferenciar as sojas trans- gnica, normal e orgnica. A caracterizao dos diferentes cultivares do gro impor- tante para obter a certificao da origem do alimento, exi- gncia feita por vrios pases importadores do produto. A China, por exemplo, um dos maiores compradores mun- diais, no permite a entrada de transgnicos em seu terri- trio. Pelo novo mtodo, o extrato de isoflavonas, subs- tncias existentes na soja, ana- lisado no espectrmetro de massas, equipamento que permite visualizar com preci- so o universo molecular. A partir de um marcador qu- mico, o equipamento faz a di- ferenciao dos cultivares. O resultado apresentado na tela do computador por meio de grficos e dados estatsti- cos. A principal vantagem da nova metodologia, apontada pelos pesquisadores envolvi- dos no estudo, que ela d uma resposta direta, sem mar- gem para dvida. A tcnica em uso atualmente, que utili- za a biologia molecular, pode gerar um resultado "falso po- sitivo", o que exige nova an- lise para confirmao. Marcador qumico caracteriza cultivares da soja Petrleo testado em laboratrio As instalaes destinadas ao Laboratrio Experimental de Petrleo (Labpetro), na Uni- versidade Estadual de Cam- pinas (Unicamp), j esto prontas. Assim que estiver fi- nalizada a infra-estrutura e os equipamentos comprados, o que deve ocorrer at o final deste ano, o laboratrio, fruto de parceria entre a universi- dade e a Petrobras, entrar em operao. A empresa brasilei- ra repassou em setembro, como parte de um convnio destinado implementao do Labpetro, R$ 1,3 milho, valor que se soma aos R$ 900 mil destinados universidade no ano passado para a cons- truo das instalaes. O la- boratrio tem como objetivo 66 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 desenvolver tecnologias que permitam Petrobras aperfei- oar o processo de produo de petrleo, principalmente o de alta viscosidade. Alerta sobre roubo de carro no celular Algum arromba a porta do seu carro para roub-lo e ime- diatamente aparece no visor do celular uma mensagem de alerta, no importa a distncia em que voc esteja do vecu- lo. "Ao digitar um cdigo com dois nmeros no teclado do telefone, o carro bloqueado, sem necessidade de o usurio entrar em contato com uma central de monitoramento, como ocorre com outros sis- ^>CX Bloqueio pelo telefone temas venda no mercado", diz Cldiston dos Santos Sil- va, um dos criadores do siste- ma. O Kalarm, nome comer- cial do alarme que est na fase de prottipo, foi desenvolvi- do pela Sea Wireless, empresa incubada no Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecno- lgico (CDT) da Universida- de de Braslia (UnB). "O dis- positivo permite ainda que o proprietrio controle a velo- cidade do carro quando esti- ver sendo dirigido por outra pessoa", relata Silva, scio da empresa. As funes sero definidas no momento da compra, que se dar na forma de um contrato de concesso, a um preo aproximado de R$ 400,00 e mais uma taxa de manuteno mensal em torno de R$ 25,00. A previso que dentro de oito meses es- tar no mercado, mas os s- cios da Sea Wireless esto procura de um investidor para comear a produzir o sistema em escala industrial. Operador treinado para termeltrica Da mesma forma que um piloto de avio utiliza um si- mulador para treinar mano- bras, os operadores de cen- trais termeltricas, usinas geradoras de energia eltrica, agora tambm tm um local de treinamento. O primeiro simulador de centrais terme- ltricas do pas j est instala- do na Universidade Federal de Itajub (Unifei), em Minas Gerais. " um laboratrio de qualificao de operadores", explica o professor Marco Antnio Nascimento, do N- cleo de Excelncia em Gera- o Termeltrica e Distribu- da da universidade. No centro de treinamento esto instala- das oito estaes de trabalho, que reproduzem a sala de con- trole de uma usina. O modelo utilizado o de uma termel- trica de ciclo combinado (ope- ra com duas turbinas a gs e uma a vapor), com potncia de 712 megawatts (MW), ten- do como combustvel gs na- tural ou diesel. O simulador complementa os cursos teri- cos para operadores que, ao longo do tempo, costumam repetir procedimentos bsi- cos, mas quando ocorre uma emergncia nem sempre es- to preparados para tomar a deciso mais correta. Patentes Inovaes financiadas pelo Ncleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec) da FAPESP. Contato: nuplitec@fapesp.br Casca de arroz: um resduo bem aproveitado Energia e slica Processo desenvolvido no Instituto de Fsica de So Carlos da Universidade de So Paulo (USP) permite preservar o valor comer- cial da slica extrada da casca de arroz quando ela queimada a tempera- turas de at 800C para gerar energia eltrica em centrais termeltricas. An- tes de ser utilizada, a ma- tria-prima passa por uma etapa de escolha de modo de preparao: as cascas podem ser lavadas em gua quente ou pr-aque- cidas e modas, sem o uso de cidos. Esse processa- mento antes da queima final resulta em grande melhoria na qualidade desse rejeito agrcola, po- luente do solo e da gua e, normalmente, despre- zado pelos agricultores. O resultado final a trans- formao da massa org- nica em slica de dimen- ses de partculas nano- mtricas e sem carbono. A slica pode ser usada na construo civil, na in- dstria de tintas e verni- zes, em pastas de dentes e pneus, alm de servir de condicionador quan- do aplicado com adubo, para reter a gua de solos arenosos. Todo o proces- so deve ser feito em uma termeltrica, o que resul- ta na produo de ener- gia eltrica durante o pro- cesso de queima. Ttulo: Aproveitamento da energia e dos compostos inorgnicos resultantes da queima da casca e da planta do arroz Inventores: Milton Ferreira de Souza e Marcos Csar Persegil Titularidade: USP/FAPESP PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 67 TECNOLOGIA FARMACOLOGIA Extrato de pariparoba exerce ao antioxidante contra o sol e deve chegar ao mercado em breve mostrou em estudos realizados na Faculdade de Cin- cias Farmacuticas (FCF) da Universidade de So Paulo atividade protetora contra os raios ultravio- L. leta do tipo UVB, os mais lesivos para a pele. A descoberta resultou em um pedido de patente e interessou empresa Natura, que disputou e venceu a licitao de concesso to de produtos de uso cosmtico (gel, creme, filtro solar), com exclusividade para o Brasil e o exterior, realizada pelo Grupo de Assessoramento ao Desenvolvimento de Inventos (Gadi), da universidade. "O potencial antioxidante da molcula encontra- da na pariparoba, responsvel por proteger a pele dos radicais livres, chamou a ateno da Natura", diz Jean Luc Gesztesi, pes- quisador da rea de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa. "Por isso temos a firme inteno de usar o extrato em produtos cosmticos." Por enquanto ainda no h data prevista de lana- mento, porque o desenvolvimento de um produto demora de seis meses a dois anos. Mas a empresa j tem contrato com um produtor para fornecer o extrato da raiz da pariparoba (Potho- morphe umbellata) dentro de algumas especificaes, como a porcentagem exata do princpio ativo. A padronizao impor- tante para garantir que a resposta do extrato vegetal seja sem- pre a mesma, caracterstica chamada de reprodutibilidade. "A pariparoba usada h muito tempo pela medicina popu- lar para tratamento de m digesto, doenas do fgado, como ictercia, e queimaduras", diz a professora Silvia Berlanga de Moraes Barros, orientadora de Cristina Dislich Ropke na tese de doutorado, financiada pela FAPESP, que levou descoberta da atividade fotoprotetora da planta da famlia das piperceas, encontrada principalmente nos estados de So Paulo, Minas Gerais, Esprito Santo e sul da Bahia. As pesquisas com a pari- paroba comearam, na realidade, com uma investigao sobre a atividade de proteo heptica atri- buda planta, que no foi concluda. "Um olhar mais detalhado sobre a pa- riparoba mostrou que ela apresentava uma substncia que j havia sido des- crita pelo grupo de fitoqumica do Ins- tituto de Qumica da USP em 1981", re- lata Silvia. 'O composto (4-nerolidil- catecol), molcula en- I contrada no extrato da raiz da planta, tinha al- gumas caractersticas de estrutura qumica muito semelhan- tes s do alfa-tocoferol (vitamina E), antioxidante usado em formulaes cosmticas que hoje esto nas pratelei- ras para preveno do envelhecimento cutneo, porque um excelente prote- tor da membrana celular", diz a pesqui- sadora. A semelhana de caractersticas levou a um estudo in vitro para medir a atividade antioxidante do composto extrado da raiz, realizado pelo profes- sor Paulo Chanel Deodato de Freitas, tambm da FCF, na poca em que ele fazia doutorado, concludo em 1999. "Como verificamos que o composto ti- nha atividade bem mais potente que a do alfa-tocoferol e apresentava carac- tersticas fsico-qumicas que poderiam justificar o uso em formulaes cosm- ticas, resolvemos test-lo na pele", con- ta Silvia. Os experimentos foram feitos ento em camundongos sem plos, uma linhagem desenvolvida pelos biotrios, que no precisam ser depilados, evitan- do-se assim microleses na pele e inter- ferncia nos resultados da pesquisa. O estudo tinha como objetivo mos- trar se o extrato de pariparoba inibia a peroxidao espontnea da pele - rea- o qumica tambm chamada de oxi- dao -, que contribui para o envelhe- cimento cutneo e pode ocorrer ainda por radiao solar. "No nosso modelo, ns tratvamos os animais com uma formulao muito simples, sem ne- nhum tratamento tecnolgico", diz Silvia. Depois de aplicado e o excesso ser retirado, o produto permanecia na pele por um perodo predeterminado. A seguir, as pesquisadoras avaliavam se a oxidao era mais reduzida nos ani- mais tratados com o extrato. "Os exa- mes de microscopia feitos nos camun- dongos mostraram que o composto previne o envelhecimento cutneo", re- lata Silvia. Aps essa constata- o, as pesquisadoras decidiram reproduzir o que acontece na natureza, com a exposio dos ani- mais radiao ultravio- leta. Nessa etapa foi esco- lhida uma formulao para o extrato e feito um estudo de permeao, que significa quanto do produto fica na pele e quanto absorvido. Essa informao importante porque parte das leses por radiao, como o cn- cer de pele, por exemplo, concentra-se na epider- me e parte, como o foto- envelhecimento, na ca- mada da pele logo abaixo, ou seja, a derme. O estu- do levou ao desenvolvi- mento de uma formula- o em forma de gel com o extrato retirado da raiz. Embora outras partes da planta tambm apresen- tem a substncia com ati- vidade antioxidante, na raiz que ela se concentra mais intensamente. Raiz com propriedade antioxidante Raios UVB - A prxima etapa foi expor os camun- dongos radiao UVB, uma parte da radiao ultravioleta que penetra at a epiderme. Os raios UVB atuam sobre a superfcie da Terra entre 10 e 15 ho- ras e so os principais responsveis pe- las queimaduras solares e, a longo pra- zo, pelo cncer de pele. O tratamento com os camundongos foi feito duran- te dez minutos, quatro vezes por se- mana, por um perodo de 22 semanas. "Com isso verificamos que enquanto a radiao promove grande aumento das clulas da camada da epiderme, a chamada hiperplasia epitelial, que po- de levar ao desenvolvimento de clulas cancergenas, os animais tratados com o extrato apresentavam hiperplasia reduzida", relata Silvia. Foi quando a pesquisadora percebeu que estava di- ante de algo novo, porque at aquele momento no havia sido comprovada em estudos a atividade fotoprotetora da pariparoba. Em funo dessa cons- tatao, em 2002 foi apresentado o pe- dido de patente do uso do extrato de Pothomorphe umbellata em prepara- es dermocosmticas ou farmacuti- cas para preveno e combate ao dano causado pele pela exposio excessiva aos raios ultravioleta do sol e a lmpa- das de bronzeamento artificial, alm das alteraes causadas pelo envelheci- mento cronolgico. Outras funes da pariparoba continuam a ser pesquisa- das no laboratrio da Faculdade de Ci- ncias Farmacuticas da USP. Os estu- dos esto centrados nos mecanismos bioqumicos de ao da planta. "As pes- quisas mostram resultados interessan- tes na rea farmacutica, mas que ainda no podem ser revelados", diz Silvia. A ligao entre reduo da hiperplasia e controle de crescimento celular pode significar a ponte para frmacos que regulem o desenvolvimento de clulas cancergenas. Para chegar ao extrato da raiz que j possui resultados comprovados em laboratrio, os pesquisadores utilizam uma tcnica clssica de extrao a frio, 70 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Extrato pronto para uso cosmtico chamada percolao. um mtodo to- talmente artesanal, em que as razes, aps serem colhidas, so secas e mo- das. Depois passam por uma peneira, chamada tamis, com os poros controla- dos, para que a extrao obedea a um padro predeterminado. S ento fei- ta a extrao a frio com etanol, para retirada do extrato bruto. Por esse m- todo a raiz tem de ficar constantemen- te umedecida pelo etanol para que as substncias qumicas sejam extradas por decantao. Isso demora de dois a trs dias, at que seja esgotado tudo o que tinha a ser extrado. S ento fei- ta a retirada da molcula de interesse para ser incorporada formulao em forma de gel ou creme. Depois de o pedido de patente ter sido efetuado, Silvia achou que era o momento de a universidade abrir uma licitao para escolher um laboratrio que pudesse produzir comercialmente produtos cosmticos base de paripa- roba. A licitao envolve o pagamento de royalties sobre a venda do produto, que a empresa prefere no revelar, e a transferncia de tecnologia por parte da universidade. A USP e a FAPESP, responsvel pela concesso da bolsa de doutorado, recebero, cada uma, 50% do contrato com a Natura. As duas instituies vo repassar parte dos va- lores para os pesquisadores. A Funda- 0 PROJETO Uso de extrato de Pothomorphe umbellata para preparar composies dermocosmtica e/ou farmacutica MODALIDADE Programa de Apoio Propriedade Intelectual (PAPI) COORDENADORA SILVIA BERLANGA DE MORAES BARROS INVESTIMENTO R$6.400,00 (FAPESP) o financiou tambm o pedido de re- gistro internacional da patente, por meio do Programa de Apoio Proprie- dade Intelectual do Ncleo de Patente- amento e Licenciamento de Tecnologia (Papi/ Nuplitec). O uso do extrato da pariparoba um dos projetos com potencial inova- dor que tem origem na universidade e a Natura aposta no seu aproveita- mento comercial. Para isso, a empresa lanou no primeiro semestre deste ano o programa Natura Campus, que resultou em 44 projetos apresentados pelas universidades e institutos de pes- quisa empresa, dos quais 13 foram selecionados e enviados para a FA- PESP, como parte do programa Parce- ria para Inovao Tecnolgica (PITE). Destes, sete foram aprovados pela Fun- dao. Para Gesztesi, a gerao de no- vos conhecimentos na universidade aplicados pela indstria pode contri- buir para o desenvolvimento de pro- dutos diferenciados. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 71 ITECNOLOGIA METALURGIA Reciclagem Empresa transforma sucata em matria-prima usada na produo de ligas de alumnio YURI VASCONCELOS Uma guinada na linha de produo e o ar- rojo para pesquisar e desenvolver um pro- duto mais adequado s necessidades do mercado foram os dois principais motivos que levaram a Mextra, uma pequena empresa de en- genharia especializada no processa- mento de metais, a alcanar a posio de liderana na fabricao de pastilhas com produtos metlicos usadas na pro- duo das ligas de alumnio. Com sede no municpio de Diadema, na Grande So Paulo, a companhia deve atingir em 2004 um faturamento de US$ 6 milhes, praticamente o dobro do ano passado, com 60 funcionrios. Parte dessa receita proveniente de vendas para o mercado externo. "Aproxima- damente 30% do volume de produ- o, estimada em 200 toneladas men- sais, comercializado para cerca de 20 clientes no exterior. Embora tenhamos 26 anos de atuao no mercado, faz apenas seis anos que criamos a linha de fabricao de pastilhas. Devemos a ela o formidvel crescimento da em- presa", afirma o engenheiro metalur- gista Ivan Calia Barchese, um dos scios da Mextra. Pastilhas portadoras de elementos de liga - tambm chamadas de pasti- lhas endurecedoras - so fundamentais para a fabricao da grande maioria de produtos de alumnio, como janelas re- sidenciais, utenslios domsticos e at asas de avio. Essa interao impor- tante porque o alumnio um material 72 NOVEMBRO DE 2004 PES0.UISA FAPESP 105 naturalmente malevel e para aumen- tar sua resistncia mecnica necess- rio adicionar os tais elementos de liga. Os mais comuns so ferro, cobre, cro- mo, mangans e titnio. "Feitas de ps prensados ou compactados, essas pasti- lhas so semelhantes s efervescentes de vitamina C em tamanho gigante (me- dem 85 milmetros de dimetro e 40 de espessura e pesam cerca de 1 quilo) que, adicionadas ao alumnio em estado l- quido, se dissolvem conferindo a ele novas propriedades mecnicas", afirma o engenheiro metalurgista Lcio Salga- do, pesquisador-colaborador do Insti- tuto de Pesquisas Energticas e Nuclea- res (Ipen) do Ministrio da Cincia e Tecnologia (MCT). Inovao em pastilhas - Para ganhar mercado e firmar-se como lder do seg- mento, o pulo-do-gato da Mextra foi inovar o processo de fabricao dessas pastilhas compostas de dois elementos metlicos. No lugar de fazer uma pasti- lha a partir da mistura de dois ps distin- tos (por exemplo, de ferro e de alumnio, que a mais procurada do mercado), a empresa investiu na pesquisa e na ela- borao de um novo processo para obteno de um p pr-ligado, que j contivesse em sua estrutura final os dois elementos. "A partir da fuso de sucatas de ao e de alumnio e de um processo chamado atomizao, produzimos as pastilhas na composio desejada e no precisamos mais utilizar ps compra- dos no mercado", conta Ivan Barchese. "Desenvolvemos um produto adequa- do do ponto de vista ambiental, uma vez que usamos material reciclado, e com custo de produo inferior ao do ven- dido no mercado. Alm disso, as pas- tilhas tm qualidade superior, porque as propriedades do p, como tamanho e composio qumica do gro, podem ser mais bem controladas, j que sua fa- bricao feita por ns." O desenvolvimento do p pr-liga- do com ferro e alumnio s foi possvel com o apoio financeiro da FAPESP por meio do Programa Inovao Tecnol- gica em Pequenas Empresas (PIPE). O trabalho contou com a fundamental participao do Instituto de Pesquisas Tecnolgicas do Estado de So Paulo (IPT), que domina a tecnologia do pro- cesso de atomizao de ps metlicos. "Atomizao um processo semelhan- te pulverizao. A liga metlica fundi- da de ferro e alumnio pulverizada e transformada em p, j na composio adequada", diz o pesquisador Salgado, que foi o coordenador do projeto PIPE. "Embora o processo de atomizao se- ja conhecido e dominado em escala co- mercial desde os anos 1940, at hoje nenhuma empresa do mundo tinha fei- to uma liga de ferro e alumnio por esse mtodo", conta Salgado. Em funo do ineditismo do produto em nvel mun- dial, as pastilhas da Mextra, na propor- o 90% de ferro e 10% de alumnio, e o processo de produo resultaram em patentes depositadas no Instituto Na- cional de Propriedade Industrial (INPI) e tambm em outros dois pases: Esta- dos Unidos e Venezuela, onde esto os Forno transforma sucatas em um filete lquido de metal que depois ser pulverizado e transformado em p Sucata: material deve ter mnimos teores de carbono e outras impurezas, para o processo, como cobre, cromo, nquel e silcio principais clientes da empresa. A Mex- tra deve depositar, em breve, patentes em outros pases. "O primeiro passo do pro- cesso de produo das pastilhas a escolha da sucata, que deve ser composta de ao com teores mnimos de carbono", diz Sal- gado. Tambm no desejvel que ela tenha impurezas de outros elementos, principalmente cobre, cromo, nquel e silcio. Feita a seleo, a sucata, cuja to- nelada vendida por cerca de R$ 500, fundida em um forno a induo (o aquecimento direto no metal e no nas paredes do forno) e aquecida at uma temperatura da ordem de 1.700C. Depois que o metal toma a forma lqui- da, ele escorre para uma grande panela vazada atravs da qual se produz um fi- lete lquido com cerca de 12 milmetros de dimetro. Com o uso de um dispo- sitivo chamado bocal de atomizao, esse filete bombardeado por um ja- to de gua de alta presso, levando sua pulverizao e produzindo o p. "O choque da gua com o filete em estado lquido leva a uma fragmentao do metal", afirma Salgado. "Para controlar o tamanho e a morfologia das partcu- las, os principais parmetros a serem ob- servados so presso e vazo da gua, temperatura do metal lquido e dime- tro do filete", diz ele. De acordo com Barchese, o proces- so de fabricao do p metlico por atomizao est praticamente conclu- do. "Por enquanto, a nova pastilha de ferro e alumnio colocada no merca- do em pequena quantidade. Estimamos que j foram produzidas cerca de 20 to- neladas do produto. No momento es- tamos adequando algumas etapas da produo para atender os clientes de forma mais ampla", diz Barchese. A Mextra investiu cerca de R$ 2 milhes na montagem de uma planta industrial para a fabricao do p atomizado. No futuro, a empresa ter capacidade de produzir 400 toneladas por ms da pas- tilha com material reciclado. "Alm do produto inovador, o processo tambm uma novidade, pois todo o maqui- nado foi desenvolvido ao longo do de- senvolvimento do PIPE, que deve ser concludo em abril do prximo ano", informa Barchese. "Acreditamos que dentro de dois anos nossa pastilha pr- ligada entrar de vez no mercado." Clientes no exterior - Atualmente, a Mextra tem em seu portflio de clientes os principais produtores de alumnio do pas, como as indstrias Alcoa, Al- can, Companhia Brasileira de Alum- nio (CBA), BHP Billiton e Valesul, uma subsidiria da Companhia Vale do Rio Doce. "A Alcoa, por exemplo, s com- pra pastilhas de ferro produzidas por ns. Entre as vrias aplicaes do p prensado que vendemos para eles est a produo de folhas finas de alumnio para embalagens, conhecidas como te- trapak. Esse um material muito sofis- ticado e a pastilha empregada precisa ser de boa qualidade, caso contrrio a lmi- na de alumnio pode ficar com impure- zas e romper durante o processamento", explica Barchese. No exterior, a Mextra vende seus produtos para fbricas dos Estados Unidos, Canad, Mxico, Espa- nha, Frana, Colmbia, Venezuela, Ar- gentina, Taiwan e pases do Oriente Mdio. Um contrato firmado recente- mente com a Alcan visando a exportao para a Europa prev a entrega de ps metlicos produzidos por atomizao. A parceria com o IPT para o desen- volvimento do p atomizado foi a se- gunda firmada entre a Mextra e o cen- tro de pesquisas paulista. Antes dela, a empresa j tinha recorrido, em 2000, ao Programa de Apoio Tecnolgico Ex- portao (Progex), promovido em con- junto com o IPT, o Servio Brasileiro de Apoio s Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de So Paulo e a Financiado- ra de Estudos e Projetos (Finep), do Ministrio da Cincia e Tecnologia. "Na- quela ocasio, estvamos pretendendo disputar o mercado internacional e sa- bamos que precisvamos ter um pro- duto com qualidade e preo competi- tivo. Procuramos o IPT para nos ajudar a aperfeioar nossas pastilhas, que na- quela ocasio j eram exportadas para uma empresa venezuelana. A parceria inclua a realizao de estudos de com- pactao das pastilhas sem perda de efi- cincia. Isso significa que elas no po- dem ser duras demais, pois nesse caso 74 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 levam muito tempo para se dissolver no alumnio lquido, nem muito fr- geis, pois correm o risco de se esfarelar durante o transporte", conta Barchese. Os bons resultados desse trabalho con- junto serviram para iniciar as pesquisas visando ao desenvolvimento das pasti- lhas pr-ligadas de ferro e alumnio. A Mextra foi criada em 1978 pelo engenheiro Eduardo Barchese, pai de Ivan, que decidiu colocar em prtica sua tese de doutorado defendida na Es- 0 PROJETO Produo de ps-metlicos, pr-ligados por atomizao para aplicao na fabricao de pastilhas para adio de elementos de liga em banhos metlicos de alumnio MODALIDADE Programa Inovao Tecnolgica em Pequenas Empresas (PIPE) COORDENADOR Lcio SALGADO - Ipen-Mextra INVESTIMENTO R$ 373.600,00 (FAPESP) cola Politcnica da Universidade de So Paulo (Poli-USP) sobre a transforma- o de minrios em metais por meio de uma tcnica chamada aluminotermia (obteno de altas temperaturas por meio do calor gerado em reaes qu- micas entre o alumnio era p e xidos metlicos). Montou uma empresa pe- quena focada na fabricao de metais e ligas metlicas dirigidas para os merca- dos de fundio e siderrgico. Eduardo Barchese tambm foi professor na Poli- USP e na Faculdade de Engenharia In- dustrial (FEI). Aos especiais - Hoje a indstria est estruturada em trs diferentes setores. A Diviso Cromo fabrica oxido de cro- mo verde, produto utilizado como ma- tria-prima na fabricao de refratrios especiais e como pigmento verde na in- dstria cermica. Essa mesma diviso responsvel pela fabricao de cromo metlico, metal que a Mextra foi pionei- ra na fabricao no Brasil, e carbeto de cromo, ambos empregados na produo de eletrodos e aos especiais que exigem propriedades metalrgicas superiores, tais como resistncia mecnica abra- so e corroso. Outro setor da empre- Pastilhas com 90% de ferro e 10% de alumnio: usadas pelas indstrias para aumentar a resistncia mecnica das ligas de alumnio sa a Diviso de Servios Especiais, que oferece servios de moagem, classifi- cao de metais e desenvolvimento de ligas metlicas de acordo com as neces- sidades do cliente. Esse mesmo setor be- neficia ferro ligas, mangans em esca- ma ou p e ligas de alumnio. A terceira diviso a de pasti- /% lhas de elementos de liga ^^^ para alumnio. Essa linha m W de produtos, o carro-che- ^L -m. fe da empresa, foi batiza- da de Mextral. Alm das pastilhas de p de ferro e alumnio atomizado, a em- presa oferece ao mercado outras quatro pastilhas, produzidas a partir da mistu- ra de diferentes ps metlicos (cromo, mangans, cobre ou titnio). Todas, ex- ceto a de ferro, tm em sua composio de 10% a 25% de p de alumnio e ca- da uma confere uma propriedade dife- rente ao alumnio. As pastilhas de ferro, por exemplo, aumentam a resistncia mecnica do material temperatura elevada, enquanto as de cromo redu- zem a corroso sob tenso. As pastilhas de mangans e cobre elevam a dureza do alumnio, ao passo que as de titnio melhoram as propriedades mecnicas em geral. Os bons resultados comerciais da Mextra, que possui um sistema de qua- lidade baseado na certificao ISO 9001:2000, levaram a uma expanso da empresa, que dever inaugurar at o incio do prximo ano uma nova uni- dade fabril na cidade de Taubat, na re- gio do Vale do Paraba, em So Paulo. A construo da fbrica, orada em R$ 3 milhes, contou com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES). Quando comear a funcionar, a instalao de Diadema ficar voltada para a fabrica- o de pastilhas pr-ligadas de ferro e de alumnio. "Estamos otimistas com o futuro da empresa. Fabricamos um pro- duto global e estamos certos de que, com os investimentos que temos feito nos ltimos anos, iremos cada vez mais ocu- par um lugar de destaque no mercado internacional", diz Barchese. PESUUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 75 ITECNOLOGIA AGRICULTURA Um gro para germinar Regio Nordeste ganha nova variedade de amendoim de pele clara e resistente seca MARCOS DE OLIVEIRA Se sairmos por este Brasil afora per- guntando quem gosta de p-de-mo- leque e paoca, poucos, muito pou- cos, vo responder no. Doces feitos de amendoim ou mesmo o gro pu- ro e torrado ou cozido fazem parte das prefe- rncias nacionais, principalmente na Regio Nordeste, responsvel pelo segundo lugar em consumo no pas com 50 mil toneladas de va- gens por ano, embora s produza 13 mil to- neladas. Com tamanha popularidade e altos ndices de protena, o amendoim dever es- tar mais disponvel nos campos dessa regio a partir do segundo semestre do prximo ano quando uma nova variedade de sementes de- senvolvida pela Empresa Brasileira de Pesqui- sa Agropecuria (Embrapa) estar disponvel aos agricultores. Chamada de BRS Havana, ela foi preparada especialmente para o semi-rido nordestino com as caractersticas de ser resis- tente seca e render boa produtividade para as condies da regio. Outra vantagem im- portante da nova semente a pelcula de cor creme que envolve os gros, e no vermelha como a maioria das existentes no mercado. Pelculas da cor da semente so extrema- mente importantes para o agricultor vender sua produo para a indstria de doces e pro- dutos elaborados com amendoim. "Como a pelcula creme da cor da semente, a inds- tria pode moer diretamente os gros para fa- zer pastas, doces e salgados sem se importar com as impurezas visuais deixadas pela pe- lcula vermelha", diz a agrnoma Roseane Cavalcanti dos Santos, responsvel pelo de- senvolvimento das sementes BRS Havana na Embrapa Algodo, em Campina Grande, na Paraba. "Com a semente parecida com a pe- lcula elimina-se uma fase do processo indus- trial, chamada de despeliculao." A nova variedade, desenvolvida ao longo de quatro anos, foi planejada para proporcio- nar um outro benefcio aos agricultores. As novas sementes resultam em plantas de porte mdio e eretas, do jeito ideal para pequenos e mdios produtores que fazem a colheita com a mo, sem maquinrio, como acontece em grande parte das culturas da Regio Sudeste, responsvel por 80% da produo nacional (cerca de 300 mil toneladas anuais), e feita, muitas vezes, em rotao com a cana-de-a- car. Grandes produtores preferem as varie- dades que crescem rentes ao solo, chamadas de rasteiras, porque elas favorecem a colhei- ta mecnica. Roseane aponta tambm um ga- nho nutricional na nova semente. "A preser- vao da pelcula garante ao consumidor uma maior dosagem de vitaminas do complexo B, como riboflavina e tiamina. Alm disso, as no- vas sementes contm 27% de protena e bai- xo teor de leo, 43%, um fator exigido pelo mercado porque assim o produto se torna me- nos indigesto e com melhor consistncia pa- ra o fabrico de paocas." Para formar a nova semente, Roseane li- derou uma equipe multidisciplinar de pes- quisadores da Embrapa Algodo, da Empre- sa Baiana de Desenvolvimento Agropecurio (EBDA), da Empresa Pernambucana de Pes- quisa Agropecuria (IPA), da Embrapa Tabu- leiros Costeiros, de Sergipe, e da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Eles utilizaram 250 tipos (tambm chamados de acessos) de se- mente da mesma espcie comercial de amen- doim, a Arachis hypogaea. A principal varie- dade utilizada para se chegar BRS Havana foi um tipo denominado Pelcula Havana, ce- dido pelo Instituto Agronmico de Campi- nas (IAC) e pouco utilizado pelos agriculto- res da Regio Sudeste, onde tambm existem 76 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 outras variedades especficas com pel- cula creme. Atualmente, sementes com esse tipo de pelcula tm sido muito pro- curadas pelos produtores nacionais de amendoim, especialmente das regies Sudeste e Centro-Oeste do pas, que pre- ferem as variedades rasteiras, como por exemplo a IAC Caiap. "O problema que as rasteiras, alm de se adaptarem melhor ao clima do Sudeste, no so adequadas ao pe- queno e mdio agricultor por crescer muito rente ao solo e ter ciclo de 120 a 140 dias, da plantao at a colheita. Os produtores do Nordeste pre- ferem ciclos de 90 dias e smen tes bem tolerantes seca", diz Roseane. A BRS Havana, alm de ter essas caractersticas, tem a produtividade seme- lhante variedade Tatu, plantada na regio, e pos- sui de trs a quatro semen- tes por vagem. "Na estao das guas (janeiro a maro) no semi-rido, a BRS Ha- vana produz entre 1.800 e 2.500 quilos de vagem por hectare (kg/ha), enquanto a Caiap, que possui duas semen- tes em cada vagem, tem uma pro- duo entre 2.300 e 3.500 kg/ha, po- rm necessita de muito mais gua para se desenvolver, exigindo investimentos em irrigao e equipamentos para a co- lheita mecanizada." Hbrido antif ungos - Os avanos cien- tficos no cultivo do amendoim, uma das poucas espcies comerciais da fa- mlia das leguminosas a dar frutos em- baixo da terra (existem espcies de amendoim forrageiro - Arachis pintoi e A. glabrata - que possuem essa carac- terstica), tambm acontecem em Bra- slia, na Embrapa Recursos Genticos e Biotecnologia. L, um grupo de pesqui- sadores, coordenados pelo agrnomo Jos Francisco Valls, desenvolveu plan- tas hbridas de amendoim resistentes mancha-preta, mancha-castanha e ferrugem, doenas provocadas por fun- gos que podem dizimar at 70% da produo. "Os fungos atacam as folhas que depois caem, deixando a planta sem fotossntese. Assim, no h o cres- cimento dos gros e a produtividade reduzida", explica a agrnoma Alessan- dra Pereira Fvero. "O que ns fizemos foi levar a resistncia natural contra os fungos de duas espcies selvagens (no selecionadas pelo homem) para a esp- cie comercial por meio de cruzamen- to." As duas espcies so a Arachis ipansis e a A. duranensis, originrias da Bolvia e da Argentina. Tambm esto em testes os cruzamentos de A. hypo- gaea com A. hoehnei (do Mato Grosso do Sul), A. cardenas (da Bolvia) e A. helodes (Mato Grosso), entre outras. Pelcula da mesma cor da semente favorece uso industrial do amendoim A primeira fase do projeto foi cru- zar as duas espcies silvestres que gera- ram plantas hbridas estreis e com 20 cromossomos. O problema que a esp- cie comercial possui 40 cromossomos, impossibilitando o cruzamento. A sada foi duplicar os cromossomos dos h- bridos silvestres por um processo qu- mico em laboratrio utilizando uma substncia chamada colchicina. Com isso, os ps de amendoim silvestres pas- saram a contar com 40 cromossomos e se tornaram frteis. Assim foi possvel fazer o cruzamento dos hbridos silves- tres com a espcie comercial de forma normal por polinizao cruzada das flores. Os cruzamentos resultaram em plantas frteis com 50% do genoma da espcie cultivada e 50% da silvestre. Em relao s sementes, as hbridas pos- suem um ou dois gros por vagem, co- mo acontece nas espcies silvestres. As comerciais tm at quatro gros. "Para chegar a mais sementes numa vagem precisamos fazer mais cruzamentos para melhorar o hbrido", avalia Ales- sandra. Essa etapa de melhoramento da planta vai comear a partir do plantio das novas sementes na Estao Experi- mental do IAC, na cidade de Pindora- ma, em So Paulo, sob os cuidados dos pesquisadores Srgio Almeida de Mo- raes e Igncio Jos de Godoy, tambm do IAC. O trabalho de ambos j resul- tou no desenvolvimento de cinco varie- dades nos ltimos oito anos, sendo duas j comercializadas. Coleo estratgica - "O plantio dos hbridos, que de- ve comear at o final deste ano, vai nos mostrar tam- bm se a resistncia aos fun- gos prevaleceu na semente hbrida", explica Alessan- dra. Se comprovados os re- sultados em campo, o apro- veitamento gentico dos amendoins selvagens pode crescer. Na sede da Embrapa Recursos Genticos esto reu- nidas sementes de 76 espcies de amendoim das 81 existentes no mundo. "Uma das cinco que fal- tam da regio da cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e est extinta", diz Alessandra. No Brasil fo- ram encontradas 64 espcies, sendo 47 exclusivas do pas. A espcie cultivada, segundo os lti- mos estudos, surgiu na rea entre o sul da Bolvia e noroeste da Argentina, em- bora existam evidncias de centros de variao (hbitats secundrios provavel- mente fruto de transporte e cultivo de humanos) na regio do rio Xingu, no Mato Grosso, e no Peru. "Os ndios, que j cultivavam o amendoim quando os portugueses chegaram ao Brasil, devem ter espalhado as sementes pelas Am- ricas", conta Alessandra. Alm do de- senvolvimento de novas variedades de amendoim, mais resistentes a doenas, mais produtivas e adaptveis seca, as pesquisas realizadas na Embrapa po- dem, no futuro, ajudar na repovoao de reas desmaiadas. Outra possibilida- de oferecer genes que exeram algu- ma funo importante e necessria pa- ra experimentos em transgenia, com a transferncia de genes do amendoim para outras espcies. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 77 I TECNOLOGIA QUMICA g marcantes Grafite para lpis e lapiseiras ganha mais resistncia com a incorporao de um nanocomposto SYLVIA LEITE A multinacional alem Faber- g^k Castell, com a utilizao de L^^ tcnicas avanadas de carac- M terizao e tecnologia de- JL. -A. senvolvidas em parceria com o Laboratrio Interdisciplinar de Eletroqumica e Cermica (Liec) da Uni- versidade Federal de So Carlos (UFS- Car), obteve um grafite mais resistente, sem alterao da deposio, que a in- tensidade da marca do grafite sobre o papel, e da maciez do produto. As me- lhorias implementadas como resultado de dois anos de pesquisas permitiram que os lpis e o grafite para lapiseiras, chamado de minas, alcanassem o nvel de qualidade internacional, sem altera- o do preo para o consumidor, relata Vladimir Barroso, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da empresa. Na produo de lpis grafite, a em- presa lder nacional, com cerca de 2,5 milhes de grosas (unidade de medida que eqivale a 12 dzias) anuais, alm de ser a nica fabricante de minas para lapiseira do grupo em todo o mundo. De acordo com Barroso, a melhoria da resistncia e a manuteno de outras qua- lidades dos produtos vo garantir a lide- rana no mercado nacional e ajudaro a Faber-Castell a expandir sua partici- pao em novos mercados. "Desenvol- ver um produto que atendesse s exi- gncias do mercado internacional era fundamental para preservar essa parti- cipao", diz o professor Edson Leite, coordenador da pesquisa no Liec, labo- ratrio que integra o Centro Multidis- ciplinar de Desenvolvimento de Mate- riais Cermicos (CMDMC), um dos dez Centros de Pesquisa, Inovao e Di- fuso (Cepid) financiados pela FAPESP. Patente do catalisador - O principal desafio da equipe de pesquisadores con- sistiu em preencher os poros e as fis- suras deixados na estrutura das minas de grafite durante a etapa de queima ou sinterizao, quando os compostos orgnicos ali presentes se decompem transformando-se em gs. Para isso, foi empregado um nanocomposto organo- metlico, ou molculas orgnicas liga- das a metais, que j havia sido desen- volvido e patenteado pelo Liec para ser usado como catalisador (acelerador de reaes qumicas), principalmente na converso de metano e etanol em hi- drognio. "Nossa tarefa foi adaptar esse 0 PROJETO Nanocomposto para grafite MODALIDADE Centros de Pesquisa, Inovao e Difuso (Cepid) COORDENADOR ELSON LONGO - Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cermicos INVESTIMENTO R$ 1.200.000,00 anual para todo o Cepid (FAPESP) R$ 1.000.000,00 especfico para o projeto (Faber-Castell) nanocomposto ao grafite e ao processo de produo da empresa", conta Leite. A utilizao do nanocomposto, alm de ser compatvel com o coeficien- te de expanso trmica (aumento de volume dos materiais durante o aque- cimento) e com a estrutura cristalogr- fica (arranjo estrutural interno) do gra- fite, permitiu um bom desempenho do produto final e um custo aceitvel pelo mercado. "Antes da parceria com o Liec, ns pensamos em usar um composto obtido por pesquisadores japoneses que custava US$ 2 mil o quilo e possua re- duzida estabilidade, necessitando de cuidados especiais de transporte, arma- zenagem e manuseio. O desenvolvimen- to do novo composto no Liec levou o produto a um custo 600 vezes inferior ao material japons, sem apresentar di- ficuldades de estocagem e de manuseio, alm de ter a vantagem de no conter solventes txicos em sua composio", diz Barroso. O gasto adicional decorrente da in- troduo de mais um componente na formulao do grafite foi compensado, segundo o gerente de P&D da empresa, pelo aumento da resistncia do produ- to. Essa alterao proporcionou redu- o de perdas na industrializao dos lpis e das minas. "Com o grafite mais resistente, obtivemos uma reduo de 2% sobre o ndice de rejeitos e um con- seqente aumento de produtividade", comemora Barroso. No entanto, era pre- ciso ainda realizar melhorias nas mat- rias-primas (grafite, argila e resinas) e em vrias etapas do processo de produ- 78 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Lpis com o novo grafite: resistente sem perder a maciez e a intensidade da escrita no papel o (mistura, extruso, pirlise e sinte- rizao) para permitir sua adaptao ao grafite. Os detalhes desse processo e a composio do organometlico e suas modificaes so tratados como segre- do industrial pelos pesquisadores. Eles revelam apenas que foram estabeleci- das melhorias na pureza das matrias- primas e na homogeneizao dos mate- riais. "Desenvolvemos metodologias de ensaios para avaliar o impacto de cada etapa do processo e das matrias-pri- mas no produto acabado", conta Leite. Para a empresa, as tecnolo- gias desenvolvidas em par- ceria com o Liec custaram cerca de R$ 1 milho, desem- bolsados em dois anos. Des- se total, R$ 160 mil foram repassados ao laboratrio para manuteno de equi- pamentos e pagamento de tcnicos. Outro resultado dessa parceria veio em forma de elogios dos pesquisadores alemes, na sede da Faber. "Eles ficaram bastan- te surpresos com as tecnologias intro- duzidas no processo", diz Barroso. Ele ressalta que o departamento de P&D brasileiro o nico que a multinacional mantm fora da sede. Oito pesquisado- res, da universidade e da empresa, tra- balharam diretamente no processo de melhoria do novo grafite. "Essa parceria com o Liec possibilitou a contratao de dois doutores, que antes pertenciam equipe do laboratrio, e a capacitao de todos os funcionrios da empresa que se envolveram de alguma forma co- m o projeto", diz Barroso. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 79 CAPA ARQUEOLOGIA . | Pr-histria * ilustrada Pinturas e gravuras revelam a diversidade de formas e estilos da arte rupestre nacional MARCOS PIVETTA Cinco homens encurralam um bicho imenso. Esto ar- mados, arcos e flechas em suas mos. O robusto ani- mal, talvez um veado, parece apoiar as patas traseiras no cho ao passo que as da frente cortam o nada. Cer- cado, o cervo ensaia a fuga enquanto cada membro do quinteto firma a mira. Do combate, s sair um vencedor - ou cin- co (veja imagem ao lado). Mas nunca se saber quem. Isso no im- porta. Importa que a cena de caa est preservada h milhares de anos e apenas parte de uma imensa pintura rupestre da Toca do Estevo III, um dos mais de 700 stios pr-histricos encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara, criado em 1979 em So Rai- mundo Nonato, municpio do sudeste semi-rido do Piau. Rostos, rostos e rostos. Enigmticos. Rindo. Com ar srio. Com cabelo, ou seria um cocar. Alguns acompanhados de tronco e membros. Outros soltos no ar, sem corpo. Todos expressivos, em- bora sem interagir entre si. A sucesso de cabeas forma mais um mosaico do que uma cena. Bichos por perto, aparentemente no h. Quem sabe, no mximo, um peixe estilizado ao lado de uma cara feliz. Afinal, o rio Cajueiro, um dos afluentes do Amazonas, corre ali ao lado. difcil interpretar as gravuras rupestres de Boa Vista, um dos sete stios pr-histricos de Prainha, municpio do noroeste do Par. Redigidos em linguagem simples, acessvel a no-especialistas, dois livros recentes, dos quais se extraram as imagens acima descri- tas, do tratamento de protagonista para a arte rupestre nacional. Em outras obras, esse tipo de vestgio arqueolgico raramente ultrapassa a condio de coadjuvante de fsseis de animais ainda mais antigos, de artefatos ou mesmo de esqueletos do Homo sapiens. A primeira cena, uma pintura cheia de movimen- to e cor, faz parte de Imagens da Pr- histria - Parque Nacional Serra da Pintura na Serra da Capivara, trabalho da francesa Anne- Capivara: parque no Marie Pessis, professora da Universi- Piau tem 600 stios dade Federal de Pernambuco (UFPE) com arte rupestre 80 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 81 Pintura encontrada no stio Toca da Entrada do Baixo da Vaca, no Piau: ritual de figuras humanas e mascarados e diretora cientfica da Fundao Museu do Homem Americano (Fumdham), entidade de pesquisa, sem fins lucrativos, que administra o parque federal ao la- do do Instituto Brasileiro do Meio Am- biente e dos Recursos Naturais Renov- veis (Ibama). A segunda, uma gravura mais esttica e sem tinturas, consta do t- tulo Arte rupestre na Amaznia - Par, de Edithe Pereira, pesquisadora do Mu- seu Paraense Emlio Goeldi, de Belm. A s publicaes mostram a di- /% versidade de tcnicas, for- L^k mas e temas exibidos pela /m atividade grfica pr-his- ^L. JL. trica em duas reas do territrio nacional, o Nordeste e a Ama- znia. "As pinturas rupestres so uma porta de entrada para o conhecimento da vida na Pr-histria, mas devem ser observadas com um olhar que permita ir alm do mostrado, sem interpretaes infundadas", escreve Anne-Marie. "Os grandes temas que preocupam a socie- dade atual so, em parte, os mesmos que preocupavam as populaes em pocas pr-histricas." Editado no final do ano passado pela Fumdham, com patroc- nio da Petrobras, o livro sobre os stios arqueolgicos da Serra da Capivara uma viagem fartamente ilustrada e tri- linge - escrita em portugus, francs e ingls - ao mundo perdido dos anti- gos habitantes que, um dia, ocuparam os 130 mil hectares do parque. Lanado em abril deste ano, o ttulo a respeito da arte rupestre na Amaznia uma co-produo do Museu Goeldi e da editora da Universidade Estadual de So Paulo (Unesp), com patrocnio da Minerao Rio do Norte. Na obra, so inventariados 111 stios com arte rupes- tre, em especial gravuras, no Par. Nada mau para um estado (pr-) historica- mente associado produo de cermi- cas, como a marajoara. "Diante da bele- za da cermica paraense, a arte rupestre foi deixada de lado por muitos pesqui- sadores, que nem citavam a sua exis- tncia em trabalho", afirma Edithe, que, aps a concluso do livro, obteve infor- maes sobre mais 15 stios com pintu- ras e gravuras da Pr-histria no Par. A atividade grfica nos primrdios da humanidade, basicamente desenhos pintados ou gravados sobre pedra por povos do passado distante, est presen- te em todos os continentes, com exceo da glida Antrtida. Alvo tanto de estu- dos de pesquisadores como da curiosi- dade de turistas, as grutas de Lascaux, na Frana, e de Altamira, na Espanha, so famosas mundialmente por abrigar esse tipo de patrimnio cultural da hu- manidade. A caverna de Chauvet, tam- bm na Frana, descoberta apenas em 1994, apresenta pinturas de cavalos fei- tas h 30 mil anos. So os mais antigos desenhos de que se tem notcia. De di- menso quase continental, o Brasil rico em arte rupestre de norte a sul, de leste a oeste. "Os stios com arte pr-his- trica acompanham a adaptao do homem ao meio e variam com ele", diz Pedro Igncio Schmitz, da Universida- de Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em So Leopoldo, Rio Grande do Sul. "Aparecem no territrio brasileiro des- de o incio de sua ocupao." Patrimnio da humanidade - Alm da Amaznia e do Nordeste, h grafismos pr-histricos nas regies Sul e Centro- Oeste, como atestam pinturas e gravu- ras encontradas, por exemplo, em Ser- ranpolis e Caiapnia (Gois) e em So Pedro do Sul (Rio Grande do Sul). No Sudeste, esse tipo de vestgio arqueol- gico comum s em Minas Gerais - So Paulo pobre em arte rupestre. Ape- sar da abundncia de grafismos, s h duas ou trs dcadas o pas passou a olhar com mais carinho e rigor cient- fico os traos primordiais deixados pe- los seus mais remotos antepassados. Em territrio nacional, a maior concen- trao conhecida dessa antiga manifes- tao cultural encontra-se no interior do Parque Nacional Serra da Capivara, con- siderado Patrimnio Mundial pela Unes- co (rgo das Naes Unidas dedicado cultura) desde 1991. Estima-se que ha- ja cerca de 60 mil figuras pintadas (ou gravadas) no parque. Numa regio inserida no chamado Polgono das Secas, onde a caatinga en- contra o cerrado e no faltam chapa- 82 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 r Arte rupestre em Gois iacima) e no Rio Grande do Sul ( esq.): estilos diferentes das, a unidade de conservao a mo- rada de mais de 700 stios arqueolgi- cos. "Em cerca de 600 h arte rupestre, em especial pinturas", diz a arqueloga Nide Guidon, diretora-presidente da Fumdham, que enfrenta constantes di- ficuldades financeiras para manter o parque e desenvolver a regio. "So mi- lhares de figuras que formavam um sis- tema grfico de comunicao, um dos primeiros a ser criado no mundo." A maior parte da arte rupestre de So Rai- mundo Nonato se encontra em abri- gos sobre rochas, locais com paredes relativamente protegidas da ao das intempries. Essa caracterstica, soma- da ao atual clima semi-rido, atuou a favor da preservao das marcas feitas pelos primeiros habitantes da regio. O s arquelogos costumam agrupar pinturas e gra- vuras pr-histricas de estilo e temtica seme- lhantes, feitas muitas ve- zes com a mesma tcnica, numa uni- dade artstica denominada tradio. A mais antiga e complexa tradio de arte rupestre brasileira a Nordeste, caracterizada por pinturas de cenas e acontecimentos que sugerem movi- mento, com homens (de no mximo 15 centmetros) interagindo entre si ou com animais. um tipo de pintura com alta carga narrativa. So desenhos geralmente em tons vermelhos, s ve- zes com algum amarelo e eventualmen- te outras cores, que retratam cenas de caa, de dana, de sexo. Uma represen- tao clssica da tradio Nordeste a de um conjunto de homens em torno de uma rvore, como se estivessem pres- tando uma reverncia ao vegetal. Se- gundo alguns pesquisadores, essa, di- ramos, escola pictrica surgiu h 23 mil anos, talvez antes, e foi praticada at pelo menos 6 mil anos atrs. Seu epicentro foi a rea hoje ocupada pelo Parque Nacional Serra da Capivara, de onde se irradiou para outros estados do Nordeste e pores do Centro-Oes- te e norte do Sudeste. "As tradies no obedecem s fronteiras administrati- vas atuais", afirma o pesquisador Andr Prous, do Museu de Histria Natural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que estuda arte rupestre em vrias regies mineiras, como a Serra do Cip, Diamantina e Lagoa Santa, e em outros estados. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 83 Obra editada pelo Museu Goeldi e Unesp faz inventrio de 111 stios paraenses com grafismos pr-histricos, sobretudo gravuras ( dir.) A pesar de predominante, a tra- i^k dio Nordeste no a ni- L^^ ca presente na Serra da Ca- m pivara. Outra importante .^L. JL. tradio, tambm mostra- da nas pginas de Imagens da Pr-hist- ria, a Agreste, de origem provavel- mente mais recente, de 9 mil anos atrs. Em alguns stios do parque, como a Toca da Entrada do Baixo da Vaca e as Tocas da Fumaa I, II e III, desenhos dessa es- cola se sobrepem ao da unidade arts- tica Nordeste. Na tradio Agreste, me- nos refinada que a Nordeste, quase no h cenas narrativas e as figuras, em geral homens, so maiores e estticas. Os ni- cos acontecimentos retratados que de- notam algum movimento so as pin- turas de caadas. Essa escola menos rebuscada de arte rupestre surgiu pro- vavelmente na margem pernambuca- na do rio So Francisco, local de clima mais ameno do que o serto do Piau. Os pesquisadores acreditam que essa linha de pintura desapareceu h 2 mil anos. Outra tradio encontrada esporadica- mente no parque a Geomtrica, que, como o nome sugere, produz grafismos mais abstratos, geralmente com linhas tracejadas, e seria originria da Bahia. Nominar autores da arte rupestre virtualmente impossvel. Os desenhos so produes coletivas, comunitrias e annimas. Podem ter sido executados por membros de uma ou de vrias cul- turas que habitaram, de maneira con- comitante ou no, uma regio. Ento a presena de dois estilos de arte rupestre num mesmo stio arqueolgico signifi- ca o qu? Que dois povos distintos, com habilidades grficas dspares, viveram ali em momentos diferentes do passado re- moto? Ou que diversas geraes de uma mesma cultura acabaram desenvolven- do formas novas de utilizar pigmentos minerais (dissolvidos ou no em gua) para desenhar nas rochas? difcil di- zer. "Uma tradio pode ser a expresso de uma etnia, mas tambm de vrias", pondera Prous. Mais tortuosa ainda a busca pelo significado dos desenhos da Pr-hist- ria. Em Arte rupestre na Amaznia - Pa- r, Edithe Pereira rememora as princi- pais tentativas de anlise da arte rupestre na regio Norte feitas por pesquisado- res e alguns viajantes. Entre o sculo 17 e o final do 19, essa forma de manifes- tao cultural em territrio amaznico foi alvo mais da curiosidade de aventu- reiros que da exegese rigorosa de cien- tistas. No sculo 20, alguns especialistas mais srios, mas preconceituosos ou fan- tasiosos, exploraram novos stios ar- queolgicos e opinaram sobre o tema. cio indgena - Depois de percorrer o rio Negro e observar as suas gravuras, o etnlogo alemo Theodor Koch-Grn- berg sentenciou, numa obra escrita em 1907, que os grafismos no queriam di- zer nada. "Ele disse que eram resultado, nica e exclusivamente, do cio indge- na", diz a pesquisadora do Museu Em- lio Goeldi. Desenhos pr-histricos en- contrados em outras partes do globo tambm foram alvo desse tipo de co- mentrio. Na dcada de 1930, um par- tidrio da idia de que gregos e fencios estabeleceram colnias no Brasil e na Amrica do Sul, Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, "traduziu" para o por- tugus uma srie de sinais "escritos" em gravuras e pinturas rupestres. Silva Ra- mos comparou os traos presentes na arte pr-histrica com as letras de anti- gos alfabetos e, assim, "decifrou" a voz esculpida nas rochas. A partir dos anos 1950, o interesse pela arte rupestre amaznica refluiu em 84 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Livro mostra os estilos de arte rupestre do serto do Piau e, em menor escala, do Serid, no Rio Grande do Norte ( esq.) favor de trabalhos que passaram a explo- rar a espetacular cermica marajoara e tapajnica. Mas, quando comeou a es- tudar a atividade grfica de povos pr- histricos na Amaznia, no fim da d- cada de 1980, Edithe percebeu que havia muito o que ser pesquisado no Par. Depois de vasculhar a lite- ratura sobre o tema, em- preender viagens a stios j conhecidos e descobrir novos locais com antigas representaes pictricas, a arquelo- ga reuniu informaes sobre 111 pontos do estado onde os ndios da Pr-hist- ria deixaram suas marcas. So 77 stios com gravuras, 29 com pinturas, 4 com gravuras pintadas e somente 1 com gra- vuras e pinturas. A maior parte dos gra- fismos produzidos no Par no se en- contra em cavernas ou abrigos sobre rochas, como acontece no Nordeste e em outras partes do pas. Est situado em rochas que surgem ao longo do curso dos rios, locais que, s vezes, ficam sob as guas seis meses por ano. A maior concentrao de stios - 37 com gravu- ras e 2 com pinturas - fica na bacia do rio Trombetas, no noroeste do estado. Em termos estilsticos, a arte rupes- tre no Par, em especial em sua poro norte-noroeste, acima do rio Amazo- nas, pouco tem a ver com as pinturas e gravuras de outras partes do Brasil. As figuras humanas, e com menor freqn- cia de animais, so representadas qua- se sempre de forma esttica, sem que seja possvel identificar a representao de cenas. "As gravuras rupestres dessa regio se assemelham mais s que en- contramos nos demais pases amaz- nicos", afirma Edithe. H o predomnio de figuras humanas, com cerca de 50 centmetros de tamanho, s vezes s a cabea, em outras tambm h o corpo. Alguns rostos entalhados parecem conter expresses de alegria ou triste- za. Existem tambm gravuras de mu- lheres, aparentemente grvidas. At ho- je um desafio situar no tempo essas representaes. No Par, apenas um stio pr-histrico foi alvo de datao. No incio dos anos 1990, a arqueloga norte-americana Anna Roosevelt esti- mou em 11.200 anos as pinturas rupes- tres da Gruta do Pilo, tambm chama- da Gruta da Pedra Pintada, na regio de Monte Alegre, no baixo Amazonas. A idade do stio, demasiado antiga segun- do alguns pesquisadores, alvo de po- lmica at hoje. Alis, controvrsia no falta quan- do o assunto determinar a idade de amostras de arte rupestre. Amparada por dataes feitas com os mtodos do carbono 14 e termoluminescncia, a equipe de Nide Guidon sustenta que algumas pinturas da Serra da Capivara, no Piau, foram realizadas 48 mil anos atrs. Ao lado de restos de fogueiras pr-histricas, igualmente antigas se- gundo Nide, a arte rupestre do Nordes- te seria a prova de que o homem chegou Amrica antes do que se pensa. uma afirmao que se choca com uma das idias mais difundidas pela arqueologia tradicional, a de que o Homo sapiens chegou Amrica h cerca de 12 mil anos. "Os europeus aceitam essas da- taes", diz a diretora-presidente da Fumdham. "Alguns norte-americanos, no." Como se v, na Amrica, a arte rupestre pode ser mais do que uma for- ma de pr-escrita dos povos pr-hist- ricos, mais do que um dos primeiros le- gados culturais da humanidade. Pode ser a chave para se saber quando o ho- mem fincou p no ltimo continente colonizado por nossa espcie. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 85 I HUMANIDADES Mario de Andrade, por Anita Malfatti, e Clarice Lispector: literatura pode ser quase bolsa de valores LITERATURA Companheiro de viagem Estudo discute razes para se aventurar nos romances brasileiros JOS CASTELLO Por que importante ler os romances brasileiros? E como escolher as melhores portas de entrada para seu complexo universo? Essas perguntas acabam de receber estimu- lantes respostas da crtica e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marisa Lajolo. Como e por que ler o romance brasileiro, livro da co- leo "Como e por que", da editora tica, torna-se, de imediato, uma es- pcie de guia no s para os leitores de primeira viagem, mas tambm para aqueles acostumados a circular por nossa fico. "Tenho a maior dificuldade em dar receitas universais", adverte Marisa. "Re- comendar livros, mesmo para quem a gente conhece, nem sempre d certo, o que dir para quem a gente no co- nhece!" De fato, o mundo da leitura - exerccio ntimo, experimentado em recolhimento e silncio - regido pelo particular. Muitos fatores ajudam a explicar por que gostamos de um li- vro, e no nos interessamos por outro, e, ainda assim, nenhum deles, e nem mesmo sua soma, chega a explicar es- ses dois fatos. Por que alguns preferem Guimares Rosa, e outros Clarice Lispector? Por que o grupo de leitores entusiasmados de Graciliano Ramos nem sempre o mes- mo daqueles que devoram, com o mes- mo fervor, a obra de Machado de Assis? Existem respostas para essas perguntas? Se no existem explicaes prontas, es- sas divergncias servem, ao menos, para deliciosos exerccios intelectuais. a eles que Marisa Lajolo se entrega. "Acho muito interessante discutir o que o tal leitor sem hbito de leitura leu ou o que ele no leu. E por que leu o que leu e por que no leu o que no leu", diz Marisa. De fato, so muitos os mo- tivos que levam um leitor a ler um ro- mance: a opinio de amigos, a atrao por um ttulo, o ato de abrir um livro ao meio e ao acaso, dar uma espiada enviesada numa livraria... Maneiras, in- certas, de, como Marisa sugere, "deci- dir, enfim, se o livro tem alguma coisa a lhe dizer". Marisa, claro, tem sua seleo pes- soal de livros prediletos. "Vou respon- der montando uma estante marota, s de autores falecidos e que foram im- portantes em minha histria de leitu- ra", ela explica. E, assim, chega a uma lista de onze ttulos: A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, Iracema, de Jos de Alencar, Dom Casmurro, de Machado, So Bernardo, de Graciliano Ramos, A chave do tamanho, de Mon- teiro Lobato, Grande serto: Veredas, de Rosa, O tempo e o vento, de Erico Vers- simo, Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado, Quarup, de Antnio Callado, A hora da estrela, de Clarice, e Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Bolsa de valores - Uma lista respeitvel - mas nem por isso imune s interfe- rncias dos elementos pessoais. "Se eu tivesse que disfarar o personalismo da seleo, embrulharia a lista no argu- mento da recepo. So obras que sem- PESOUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 87 pre tiveram muitos leitores, que foram reescritas em diferentes linguagens e que, acho, ainda tm coisas a dizer aos brasileiros de hoje." O fato que, como diz Marisa, a literatura uma espcie de bolsa de valores, em que ttulos e as- sinaturas sobem e descem, sem que se possa entender claramente os motivos. Mas quase sempre que autores so res- gatados, ou valorizados, isso se faz em causa prpria, ela alerta - para que se- jam proclamados precursores disso ou daquilo, "para conferir a patina do tem- po a um determinado trao literrio". um jogo, o literrio, que ningum pra- tica ingenuamente. Marisa reconhece que, ela tambm, para escrever seu Como e por que, se submeteu a essa lgica do resgate. Em seu caso, tentando prestigiar nomes como Paulo Setbal e Coelho Neto, "escritores que foram lidssimos em seu tempo, mas que hoje so completa- mente desqualificados pelos estudos li- terrios". Ela admite ainda que sem- pre mais difcil falar da produo do presente: no calor da hora, um conjun- to de obras sempre incompreensvel. Com o passar do tempo, a crtica liter- ria procura agrupar e gerenciar esses li- vros, classificando-os em "escolas lite- rrias", "estilos", "geraes", "ismos". So tentativas, dignas - mas no definitivas. Mas, ento, como ensi- nar literatura? Marisa imagina um curso ideal, "meio como se diz que Scrates ensi- nava", quer dizer, ensinar passeando de- vagar com os alunos, discutindo leituras, declamando poesia. Mas, reconhece, o ensino de literatura sempre se compro- mete com algum tipo de sistematizao. A seu ver, todas se eqivalem. O que im- porta, mesmo, se o professor um lei- tor "maduro, experiente e apaixonado". O romance o gnero da versatili- dade. "Abrange tanto livres maravilho- sos e difceis quanto livrinhos igual- mente maravilhosos, porm simples e diretos, que todo mundo l e comenta", diz. Talvez por isso o romance represen- te, melhor que qualquer outro gnero, a arena na qual mais se manifestam os de- sencontros entre o grande pblico e a crtica. "Escrevi meu livro com um olho em cada rea, tentando levar o leitor a cobrir todo o campo e conhecer as jo- gadas ensaiadas dos dois times", ela ad- mite. Diferentes romances ajudam na construo de diferentes imagens do Brasil. E h sempre novas imagens a criar, novas perspectivas a descortinar. Mas, ainda assim, Marisa Lajolo acre- dita que o romance no nasceu para ser ensinado em escolas e para cair em exa- mes. "Muito pelo contrrio, o romance parece ter nascido como alternativa s produes escritas, eruditas e srias, inacessveis grande maioria dos lei- tores." Contudo, com o tempo, ele foi abocanhado pela escola, "correndo o risco de perder o lance de emoo e en- volvimento". Marisa d um exemplo: a informao de que So Bernardo, de Graciliano, um romance "metalin- gstico", como os crticos costumam defini-lo, mais relevante do que a ex- perincia dramtica que a leitura do romance oferece a seus leitores? No . Ainda assim, com a sistematizao do ensaio, a perspectiva do prazer da leitu- ra fica em segundo plano. essa a bar- reira que o leitor deve ultrapassar. Marisa Lajolo no est sozinha em suas avaliaes, parte significativa dos romancistas e crticos brasileiros con- corda com ela. " importante ler o ro- mance brasileiro porque toda a nossa vida, nossa histria, nossa lngua e lin- guagens muito prprias que passam por ele", avalia, por exemplo, o roman- cista Srgio SanfAnna. E s por isso: no mais, ler e encontrar suas prprias razes. "Por que ler o romance brasilei- ro? Porque ele fala de uma realidade que conhecemos", faz coro o romancis- ta Igncio de Loyola Brando. "Mostra personagens que esto em torno de ns, nos so familiares, amigos. Sabemos a linguagem, os cdigos, nos sentimentos prximos." Porque nos ajuda a enten- der quem somos. Embate - Muitas vezes, admite Loyola, incrvel perceber que somos ns, brasileiros, que estamos ali naquele romance. Por isso, ele acredita que "o romance brasileiro pode nos ajudar a entender o nosso modo de viver, de ser e de pensar". Ler romances j apren- der - e, por isso, o leitor no precisa ser um especialista, no precisa apren- der a ler. Cada leitor se faz sozinho, no embate silencioso com os livros. Ainda assim, Loyola pensa que o caminho de entrada no mundo do romance brasi- 88 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 WRb^B^ J^9NP ' /. JH A s I A ^mm leiro deve comear pelos romancistas contemporneos. Ele coloca Erico Ve- rssimo logo na primeira posio, e em seguida Jorge Amado, mas logo depois vm nomes como Lygia Fagundes Tel- les, Dalton Trevisan, Antnio Torres, Moacyr Scliar e Salim Miguel, entre- meados com nomes obrigatrios co- mo Graciliano, Z Lins, Callado, Ra- chel, Mario e Oswald de Andrade, Cornlio Pena. , sempre, uma lista in- terminvel, mesmo quando o leitor se pauta, unicamente, por seus padres pessoais. De qualquer modo, Loyola acredita que um autor como Guima- res Rosa deve ser guardado, de prefe- rncia, para depois. "S depois, eu le- ria o Rosa, porque acho que ele precisa de toda essa preparao." preciso, sempre, fazer escolhas, e depois acreditar nelas, ou o leitor se perder. "Dostoievski costumava dizer que todos os escritores russos eram her- deiros de Gogol", compara o romancis- ta pernambucano Raimundo Carrero. "Ns podemos assegurar que somos todos filhos de Machado de Assis." Mes- mo quando a escolha, como essa, tende unanimidade, ainda assim preciso certa prudncia. Carrero, porm, tende a achar que a simples existncia de Ma- Jorge Amado (esq.) e Machado de Assis: na lista dos livros prediletos de Marisa Lajolo chado uma razo suficiente para a lei- tura de romances brasileiros. " uma razo forte demais", ele enfatiza. No s- culo 20, destaca a vitalidade, em parti- cular, de dois movimentos: o Modernis- mo e o Regionalismo. "Eles geraram, entre outros, romances como Macu- nama, Vidas secas e Fogo morto'' Raimundo Carrero recor- da, ainda, uma declara- o do grande escritor mexicano Juan Rulfo, autor de uma obra mni- ma, mas fabulosa, segundo a qual o Brasil tem uma literatura superior norte-americana. Para entender o peso dessa opinio, basta lembrar, por con- traste, que os Estados Unidos so o pas de Hemingway, Faulkner e Fitzgerald. Mas, Carrero contrape, a tradio fic- cional brasileira produziu nomes como Guimares Rosa, Clarice Lispector, Os- man Lins e Autran Dourado, ao lado de quem faz questo de colocar Erico Verissimo e o em geral esquecido Dyo- nlio Machado, alm de Lima Barreto e Alencar. Na segunda metade do scu- lo 20, Carrero escolhe os nomes de Ig- ncio de Loyola Brando, Joo Ubaldo Ribeiro, Adonias Filho, Rachel de Quei- roz e Joo Antnio. E ainda Antnio Torres, Joo Gilberto Noll e Srgio Sant'- Anna. So tantos nomes, tantas esco- lhas, que toda tentativa se perde sem- pre na disperso e na fragmentao. Televiso - O jornalista e bigrafo Al- berto Dines, autor de Morte no paraso, biografia de Stefan Zweig, prefere refa- zer a pergunta colocada por Marisa La- jolo e ampli-la assim: "Como e por que ler textos brasileiros?" Dines rei- vindica a importncia do ensaio, da bio- grafia, do conto e da crnica. E, numa direo contrria, reflete criticamente sobre o destino da prosa de fico no Brasil. "A prosa brasileira est desapare- cendo, em parte por causa da academia e dos cientificismos, em parte por cau- sa dos polticos incapazes de expressar suas idias com correo", diz. "E, aci- ma de tudo, por causa do predomnio absoluto da televiso na formao de, pelo menos, duas geraes de brasilei- ros - inclusive de muitos intelectuais entre aspas." Dines alerta, ainda, que nem sempre as melhores coisas esto onde julgamos encontr-las. "Li, recentemente, as me- mrias do romancista israelense Amos Oz e as considero o seu melhor roman- ce", ele exemplifica. Recorda, tambm, os textos preciosos que compuseram os diferentes comentrios sobre Fernando Sabino, o escritor mineiro falecido em outubro. "O desabafo de Antnio Cn- dido foi tocante - ele se sente sozinho!", recorda. "Reunidos, costurados e refe- renciados, esses obiturios comporiam uma espcie de biografia", sugere, mos- trando que nem sempre o que se deve ler est nos livros. De fato, o romance brasileiro um territrio inesgotvel. "O Brasil desi- gual demais, vasto demais territorial- mente, com regies to diversas e um abismo entre classes, o que o torna um pas especial", recorda o escritor e crti- co gacho Paulo Bentancur. "Ele no horizontal, como a Monglia, vertical - e, s vezes, at catico. Mas isso, cla- ro, no garante boa literatura." Bentan- cur lembra que fcil perder-se na lite- ratura brasileira, "ela imensa, como o pas". Nem por isso devemos abdicar da aventura. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 89 I HUMANIDADES COMUNICAO 0 drama nosso de cada dia Estudo prope que o jornalismo a principal narrativa contempornea FRANCISCO BICUDO H quase 40 anos, o ento jovem reprter Luiz Gonzaga Motta foi enviado para a cidade de So Joo Nepomuceno, interior de Minas Gerais, para apurar o caso de uma urubu fmea que criava pintinhos como se fossem seus filhotes - e, pior, eles tinham sido roubados. O jornalista conversou com moradores locais, anotou tudo o que viu e ouviu e voltou para o Rio de Janeiro com a certeza que o material renderia no mximo uma pequena nota cu- riosa. Quando abriu o Jornal do Brasil do dia 19 de novembro de 1967, tomou um susto: a reportagem sobre a me-urubu era a man- chete da pgina 21 da edio. Motta guarda at hoje o recorte de jornal em um canto especial, na gaveta da mesa-de-cabeceira. Mas confessa que ficou in- trigado: por que um assunto aparentemente to banal conquistara tanto destaque? "O episdio redirecionou minha vida intelectual", admite. Depois de concluir o mestrado, em 1973, na Univer- sidade de Indiana, e o doutorado, em 1977, na Universi- dade de Wisconsin-Madison, ambas nos Estados Unidos, passou a se dedicar ao estudo das narrativas. Conseguiu finalmente entender o alvoroo provocado pela matria da me-urubu: o texto encantava porque era capaz de contar uma boa histria e de fazer referncia a dramas que estariam tambm relacionados a angstias huma- nas, como as questes da negritude e da maternidade. Satisfeito por ter encontrado o caminho, seguiu em fren- te. E, depois de mais de 20 anos debruando-se sobre o tema, Motta no hesita em afirmar: o jornalismo, ativi- dade que tem suas marcas de identidade e caractersti- cas especficas, conquistou o status de principal e mais representativa narrativa da contemporaneidade. " fun- damentalmente por meio dele que tomamos contato com as histrias e personagens do mundo atual", afirma. "Mas essa supremacia traz uma srie de riscos", alerta o pesquisador, que deve oficializar, ainda neste semestre, a criao do Ncleo de Estudos de Narratologia da Uni- versidade de Braslia (UnB). Para o jornalista, que resgata idias j presentes na Potica de Aristteles, compreender as narrativas im- Polcia indicia filho portante porque so elas que nos colocam em contato com nossas prprias experincias, medos, virtudes e fraquezas, provocando efeitos catrticos e de identifica- o e despertando sentimentos muitas vezes escondi- dos. "Quando lemos um texto e nele nos reconhecemos, somos transportados para a histria", afirma. Com a oficializao do ncleo, ele pretende consolidar traba- lhos que j vm sendo desenvolvidos pelo grupo da UnB h 12 anos, alm de ampliar as linhas de investi- gao e estudo. Atualmente a equipe desenvolve qua- tro teses de doutorado, trs dissertaes de mestrado e mais duas pesquisas de iniciao cientfica, abordando temas como mdia e memria cultural, jornalismo co- mo forma de conhecimento e de mediao social e a re- presentao dos polticos nas notcias de televiso. To- dos os estudos seguem a idia do jornalismo como uma narrativa especfica, com caractersticas intrnsecas, e di- ferente, portanto, de outras formas de narrativa, como a literatura, o cinema e a histria. Segundo Motta, h pelo menos quatro elementos que garantem vida pr- pria ao jornalismo. 90 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 Novas evidncias reforam suspeita contra filho AMUA VIVE PESADELO, DIZ ME t g s\\ >or morte de casal i O primeiro deles estaria ligado re- lao sempre conflituosa que estabe- lecemos com o tempo. Motta recorre s teorias do filsofo francs Paul Ricouer para afirmar que o jornalismo a for- ma que o homem contemporneo en- controu no apenas para lidar com o tempo, mas para tentar domin-lo. Sur- giria dessa relao a sensao de apro- priao. O pesquisador lembra que, ao presentificar as aes e apresentar a idia de que tudo est acontecendo aqui e agora - estratgia reforada inclusive pelos verbos usados em suas manche- tes e textos -, o jornalismo preenche o tempo de contedo. "Passamos a orga- nizar passado e futuro a partir do mo- mento atual", explica. J o segundo elemento aponta o jornalismo como uma forma de expresso colocada entre a his- tria e a literatura. Isso porque, ao mesmo tempo que trabalha com a inteno de buscar a ver- dade possvel e est baseado no conhe- cimento racional, na organizao lgi- ca de idias, devendo se sustentar em fatos e documentos concretos, faz uso de recursos narrativos literrios para contar suas histrias. Segundo Motta, mesmo no jornalismo que se pretende totalmente objetivo, nos textos mais ridos e frios, possvel encontrar dra- mas humanos, enredos, personagens, dilogos, conflitos, ritmo, clmax e am- bientaes. Ele usa como exemplo no- tcias que tratam das taxas de juro no pas. primeira vista, poderiam ser consideradas matrias tcnicas - por- tanto menos atraentes. No entanto, elas recorrem a estratgias discursivas que tm como propsito humanizar a nar- rativa - as explicaes do ministro da Fazenda, o destaque para o impacto do aumento ou da queda dos juros sobre o consumo popular, a descrio da reu- nio do Comit de Poltica Monetria (Copom), as crticas de polticos da opo- sio. Motta garante: no h texto jor- nalstico sem narrativa, que pode apare- cer com maior ou menor intensidade. E, se a inteno criar identidade e atrair a ateno do leitor, o pesquisador destaca outra das principais estratgias da narrativa jornalstica: o uso do sus- pense. "H sempre um sentido que no se completa e que mantm acesas per- guntas como 'o que vai acontecer ama- nh?'", destaca o professor. A explicao ajuda a compreender aquele que con- siderado o terceiro elemento definidor - a seqncia de captulos e episdios. Motta lembra que o incio e o fim das histrias contadas pelo jornalismo so apenas mais ou menos definidos - e ja- mais estabelecidos com preciso abso- luta. Em geral, uma notcia aparece por conta de um momento de ruptura, conquistando destaque e gerando re- percusses na sociedade, at que se chega a uma situao em que se acredi- ta que ela tenha se esgotado - e o fato desaparece. A recente invaso de uma escola em Beslam, na Rssia, por militantes sepa- ratistas chechenos, fazendo mais de mil refns, a grande maioria crianas, ilus- tra as afirmaes do pesquisador. A ocupao da escola marca a ruptura - a ordem natural dos fatos foi alterada. A partir de ento, transportados para a histria, passamos a acompanhar, dia- riamente, as negociaes com a polcia, o sofrimento dos parentes, a invaso iminente do local para tentar libertar os refns. Logo depois do desfecho, que re- sultou na morte de dezenas de pessoas, quando a situao volta ao normal, acaba perdendo importncia e no de- mora a sumir do noticirio. "H uma sucesso de episdios conectados en- tre si que formam a narrativa", refora Motta. Apesar do carter aparentemen- te aleatrio - ou at mesmo autoritrio - do ciclo de vida do noticirio, o pes- quisador faz questo de lembrar que a relao que as notcias estabelecem com o pblico no impositiva. Resgatando as teorias de pensadores como Hans Ro- bert Jauss e Wolfgang Iser, da Univer- sidade de Constanza, no sul da Alema- nha, que falam da recepo como um ato ousado e criativo, ele garante que o leitor quem converte textos em inter- pretaes, introduzindo nele seus mar- cos de referncia e a sua compreenso prvia do mundo. Em sua anlise, o pesquisador no esquece a dimenso tica da atividade - justamente o quarto e ltimo elemen- to-chave. Motta afirma que as histrias contadas pelo jornalismo tm sempre um pano de fundo moral, que estabele- ce lies de vida, delineia as fronteiras entre o bem e o mal, o permitido e o proibido, o belo e o feio, ajudando a consolidar valores e princpios e uma teia de tecidos e significados que garan- tem a ordem social. Estaria prximo, como define o pesquisador, das fbulas infantis, sempre preocupadas com fi- nais morais. O caso do ex-assessor de Assuntos Parlamentares do Ministrio da Casa Civil, Waldomiro Diniz, lem- brado como uma das mais recentes e importantes situaes que seguem esse caminho. Para o professor da UnB, o risco se manifesta quando a narrativa jornalstica utiliza sua dimenso tica de forma exagerada, extrapolando as funes da profisso e passando a ocu- par papis que so da polcia, como acontece em casos de telefones gram- peados ou com os dossis annimos que chegam s redaes e so publica- dos ou veiculados. Com base nessas quatro ca- ractersticas, Motta no tem dvidas em afirmar que o jornalismo no reproduz fatos, mas revela verses possveis sobre eles. A proposta contra- ria um dos mais antigos mitos que mar- cam a profisso - a idia da neutralidade e do jornalismo como uma fotografia fiel e exata da realidade. Conhecida co- mo "teoria do espelho", e nascida nos Es- tados Unidos, no final do sculo 19, a te- se ainda hoje encontra respaldo tanto em redaes quanto em cursos universi- trios, inclusive no Brasil. Para contes- tar essa perspectiva, Motta dialoga com autores como Eduardo Meditsch, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que aborda a singularidade jornalstica e sua capacidade de suscitar dvidas e de estimular o esprito crtico e a produo de conhecimento; com Cremilda Medina, da Escola de Comu- nicaes e Artes da Universidade de So Paulo (ECA-USP), que trata o jornalis- mo como a arte de tecer o presente; e tambm com Alfredo Vizeu, da Univer- sidade Federal de Pernambuco (UFPE) que classifica a notcia como uma cons- truo social da realidade e apresenta o jornalismo como um saber explicativo. Ao reforar a supremacia conquis- tada pela narrativa jornalstica e desta- 92 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 car o espao que ocupa nas sociedades atuais, o pesquisador afirma que ela pode ser vista como uma espcie de herdeira do teatro grego, que, na Anti- gidade, era o responsvel por explici- tar e levar para os palcos tragdias e co- mdias da humanidade. J na era da globalizao, as conquistas e os confli- tos so narrados pelo jornalismo - e por meio dele que promovemos a nos- sa catarse moderna. Da guerra contra o Iraque s eleies municipais no Brasil, do debate sobre clulas-tronco e clona- gem discusso sobre a taxa de juros, do Protocolo de Kyoto alta dos preos do petrleo - os mais diversos assuntos s parecem ganhar significado e exis- tncia concreta quando publicados pe- los jornais ou veiculados pelas rdios, TVs e internet. Para Motta, a experin- futilidades e fofocas. "So idias hege- monicamente vigentes na sociedade, in- dependentemente de sua real pertinn- cia no contexto histrico", completa. A fragmentao e a superficia- ^k lidade, outras caractersticas / ^k do jornalismo contempor- /m neo, ajudam a compor um ^L, -A_ cenrio ainda mais peri- goso. A preocupao maior das notcias com o factual, o imediato e o parcial, e a ausncia de contextos, de causas e con- seqncias e de explicaes leva a uma apreenso muito frgil e desconectada da realidade. "Enxergamos apenas a pon- ta do iceberg, compara Motta. O gran- de risco, segundo o pesquisador, seria a formao de sujeitos alienados e atomi- zados, incapazes de estabelecer relaes Testemunha com medo Guarita do vigia que diz ter visto Gil Ruai sair da casa do pai foi queimada. Ele quer passar a palavra de Deus na priso' cia de ler, ver ou ouvir notcias se trans- formou em um ato ritualstico que se repete diariamente. a maneira que encontramos para manter contato per- manente com a realidade. "A histria que fica a jornalstica", refora. Raquel Paiva, coordenadora do pro- grama de ps-graduao da Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ), concor- da com o professor da UnB e diz que o jornalismo quem nos aponta os fatos que seriam importantes, dizendo quais os assuntos que merecem ser conheci- dos e os que podem ser descartados. Ela chama a ateno, no entanto, para um dilema mais do que perigoso: algumas das marcas principais da atual atividade jornalstica so a velocidade de produ- o e a rapidez de circulao, que se es- tabelecem com srios prejuzos para a qualidade da informao. "A volatilida- de favorece o erro e o discurso do senso comum, que acaba por reforar estere- tipos, preconceitos e excluses" adverte a professora, que tambm estuda as nar- rativas desde meados dos anos 1980. Ela cita como exemplo a imagem que muitas vezes o jornalismo constri da mulher, como algum que estaria ape- nas preocupado com a aparncia e com e de compreender a complexidade das situaes, e sem o repertrio necessrio para participar das discusses pblicas. A linguagem de videoclipe anestesia e paralisa. O conflito rabe-israelense pa- rece ser sintomtico dessa situao: sa- bemos que h ataques militares e de ho- mens-bomba acontecendo diariamente, mas ser que conseguimos compreen- der de fato as razes de tanto dio e as histrias desses dois povos? Como contraponto fragmentao, Raquel sugere a necessidade de cons- truo do que chama de narrativas in- clusivas - capazes de ir alm do factual, de oferecer detalhes e descries e de in- centivar a reflexo, promovendo assim a democratizao do conhecimento. Seria o resgate da reportagem de mais longo flego, da narrativa em profundidade e do jornalismo interpretativo - aquele que oferece o maior nmero possvel de re- laes e de informaes ao pblico, sem escorregar nas opinies ou no sectaris- mo e na parcialidade. Motta sugere que outras narrativas - histria, literatura, cinema - se juntem jornalstica para ajudar a compor realidades mais com- plexas e menos impositivas. "O jornalis- mo uma narrativa importante", refor- a. "Mas no a verdade absoluta." ca PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 93 RESENHA Um majestoso marqus Reedio recupera brilho da biografia de Pombal TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA Nove anos depois de voltar do Par, onde vivera des- de formado, com grande sucesso, e iniciara carrei- ra de homem de letras, Joo Lcio de Azevedo publicou em Lisboa O Marqus de Pombal e a sua poca. Nota prelimi- nar de duas pginas esclarecia que se tratava de uma obra infensa a polmicas. Pela anlise de do- cumentos originais, ultimamente acrescidos de testemunhos do prprio Marqus, em cartas e no- tas particulares, apresentava-se como verso "algu- ma vez porventura" diversa dos "fatos, quais se passaram", embora, decerto, comprometida com a verdade: "A verdade histrica, que realmente a verdade crtica". Gestava-se ento no pas um outro regime. E como Pombal h muito se impunha entre os exem- plos dos republicanos, o livro editado teve uma ven- da expressiva. Treze anos mais tarde, ao comentar com Capistrano as peripcias de nova edio, o prprio Joo Lcio adiantava que, para alm do que dera a Antnio Srgio, para matriz, s possua o exemplar que utilizava. Em caso de necessidade, muito difcil seria alcanar um terceiro, sendo es- gotado o estoque da Livraria de A. M. Teixeira, e no se encontrando nos alfarrabistas nenhuma outra cpia. A nova edio acabou por sair no Rio de Janei- ro em meados de agosto de 1922. Com patrocnio da Seara Nova e da Renascena. A essa altura, o seu autor era tambm conhecido por uma srie de ou- tros trabalhos, quase todos clssicos j nascena, como Evoluo do sebastianismo, Histria de Ant- nio Vieira e Histria dos cristos-novos. Juntavam- se a eles diversos artigos de erudio, em vrias revistas, de que merece destaque o Boletim de 2a classe da Academia das Cincias de Lisboa. Anos de- pois, sairiam tambm as pocas de Portugal econ- mico: para alguns, sua maior obra-prima. Surge agora em So Paulo o ambicioso projeto de reeditar todos os ttulos autnomos desse not- vel representante da historiografia portuguesa, ou, mais propriamente, luso-brasileira. E O Marqus de Pombal e a sua poca o volume que marca o ar- 0 Marqus de Pombal e a sua poca Joo Lcio de Azevedo Alameda / Ctedra Jaime Corteso 400 pginas / R$ 54,00 ranque da iniciativa. Exis- tem detrs dessa escolha ra- zes institucionais, ligadas programao acadmica de uma entidade atualmente mantida com o concurso do Instituto Cames, do Minis- trio dos Negcios Estran- geiros de Portugal: a Ctedra Jaime Corteso. A partir de meados do ms de novem- bro, tanto na Universidade de So Paulo (USP) como na Pinacoteca do Estado e no Museu do Ipiranga, vo ocorrer debates e exposies em torno do novo papel que o governo d'el-rei d. Jos reconheceu a So Paulo, sobretudo a partir do governo do Mor- gado de Mateus. Permanecendo, porm, ainda hoje, como uma espcie de referncia obrigatria entre especialistas do sculo 18, e tendo interesse prova- do para leitores de outras reas ou simples aman- tes de boa prosa, O Marqus de Pombal e a sua po- ca dificilmente uma aposta arriscada. Neste novo volume, todo o trabalho denota cui- dado e muito bom gosto. A mancha das pginas agradvel e o tamanho adotado convida leitura na palma da mo. O personagem que serve de tema surge na capa com os irmos que o ajudaram a fazer fortuna: Paulo de Carvalho e Atade, sacerdote da Igreja Pa- triarcal, e Francisco Xavier de Mendona Furtado, secretrio de Estado dos Negcios Ultramarinos. Abraam-se os trs num oito deitado - sinal de in- finito -, como que a representar as grandes virtu- des da unio. Outra gravura marcante se encontra no termo da obra, por contraponto a esse retrato encomen- dado para o futuro: A expulso dos jesutas, de Ra- fael Bordalo Pinheiro - onde nos ombros do ma- jestoso marqus repousa a cabea do Z Povinho. Amigo chegado de Columbano, talvez Joo Lcio se divertisse com essa stira. Aos nossos olhos, ela relembra tambm a duradoura eficcia da sua obra na desmontagem de idias-feitas. TIAGO C. P. DOS REIS MIRANDA doutor em Histria Social pela Universidade de So Paulo (USP) e pesqui- sador do Centro de Histria da Cultura da Universi- dade Nova de Lisboa 94 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP 105 LIVROS Freud: a presena da antigidade clssica Ana Lcia Lobo Associao Editorial Humanitas/ FAPESP 332 pginas / R$ 30,00 A partir do estudo aprofundado da bibilioteca particular de Freud, incluindo-se todas as anotaes e grifos feitos pelo pai da psicanlise neles, a pesquisadora quis averiguar a ligao fundamental entre os seus estudos e descobertas e as suas leituras sobre textos da antigidade clssica. O que surge um painel fascinante de como boa parte das concluses que levaram criao da psicanlise derivam dessas suas buscas pela cultura dos gregos e romanos. Associao Editorial Humanitas (11) 3091-2920 www.fflch.usp.br/humanitas Um moralista nos trpicos: o Visconde de Cairu e o Duque de Ia Rochefoucauld Pedro Meira Monteiro Boitempo 328 pginas / R$ 42,00 A obra restabelece o dilogo entre o Visconde de Cairu e o autor francs das Mximas. Assim podemos colocar frente a frente um dos fundadores do Imprio brasileiro e o cnico espectador da decadncia da aristocracia francesa moderna. Entre os dois, em comum, o conservadorismo como ideal. Mas com base tambm, j que se colocava diante de ambos o dilema de erguer uma sociedade e depois mant-la, contendo "desvios" de conduta. Boitempo Editorial (11) 3872-6869 www.boitempo.com Nascimento da antropologia cultural: a obra de Franz Boas Margarida Maria Moura Editora Hucitec 400 pginas / R$ 65,00 Nascido em 1883, na Alemanha, Franz Boas, aps uma viagem ao Canad, escreveu um artigo que virou o destino da antropologia. Ao criticar o mtodo evolucionista vitoriano, lanou as bases para a uma nova antropologia, que deixava de ser feita nos gabinetes para se desenvolver no trabalho de campo. Entre os seus vrios discpulos, mesmo indireto, est o nosso Gilberto Freyre. Editora Hucitec (11) 3060-9273 www.hucitec.com.br \>*asi|7Qi; 2 ZT~ PRODUO - DO BRASIL -1 1 Grandesertao.br Willi Bolle Duas Cidades / Editora 34 480 pginas / R$ 44,00 Um especialista na literatura rosiana, o professor de literatura alem da Universidade de So Paulo, Willi Bolle, consegue a proeza de trazer uma nova luz ao mais estudado dos textos de Rosa, Grande Serto: Veredas. Para Bolle, o clssico pode ser lido como uma reescrita crtica de Os Sertes, de Euclides da Cunha, e, dessa forma, o pesquisador consegue inserir a obra de fico em meio a todo o manancial de grandes estudos de interpretao do Brasil, entre esses, os estudos de Freyre, Srgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Faoro, Celso Furtado e, entre outros, Antnio Cndido. Livraria Duas Cidades (11) 3331-5134 / Editora 34 (11) 3816-6777 www.duascidades.com.br / www.editora34.com.br Modos de ver a produo do Brasil Jos Ricardo Figueiredo Autores Associados/EDUC/FAPESP 648 pginas / R$ 59,00 Baseado no conceito marxista de modos de produo, o autor traa um panorama fascinante das vrias teorizaes que pretendem dar conta de como se estruturou o processo econmico e social brasileiro. Trata-se, sem dvida, de um trabalho de flego, que analisa, de forma consistente, as idias de Celso Furtado, Varnhagen, Roberto Simonsen, etc. Educ (11) 3873-3359 www.pucsp.br/educ A militarizao da burocracia: a participao militar na administrao federal das comunidades e da educao Suzeley Kalil Mathias UNESP/FAPESP 232 pginas / R$ 35,00 Uma tema delicado tratado com seriedade nessa pesquisa sobre como se deu a relao entre os militares e as polticas pblicas, entre os anos de 1963 e 1990, ou seja, pouco antes do golpe e no fim da ditadura. de assustar o quanto educao e comunicao atuais esto presas ao passado autoritrio dos anos de chumbo. Editora da Unesp (11) 3242-7171 www.editoraunesp.com.br PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 95 Na fila do correio NELSON DE OLIVEIRA A fila das agncias do correio to longa e arrastada que, para as pessoas no se irritarem ainda mais, f\ h cartazes espalhados por toda parte pedindo aos usurios que evitem os temas polmicos. O 1 V aviso muito claro: no discutam poltica. No comentem a ltima partida da seleo brasileira. No falem sobre o captulo final da novela das oito, tampouco sobre a conjectura de Poincar ou a pro- priedade ferromagntica da nanoespuma de carbono. De preferncia, no abram a boca, que para no ficarem ainda mais irritados. Essa a mensagem dos cartazes. pena que ningum d a menor bola a eles. No se sabe exatamente como o tumulto comeou. Parece que a garota de jaqueta vermelha, com deze- nas de envelopes azuis, era secretria do matemtico cuja equipe comprovara, havia poucas horas, a teoria das cordas. A senhora de vestido caqui e brincos helicoidais sentiu-se ultrajada. Ela no aceitava o resul- tado de muitas das equaes da tal comprovao. Quando soube que a garota era secretria do mate- mtico, comeou a resmungar baixinho. Depois mais alto. Ento passou a ofend-la. Em seguida a agre- di-la. A garota teve que sair do correio s pressas. O velhote de cavanhaque, meias roxas e colete cinza deu fora senhora de vestido caqui e brincos he- licoidais: Esses cientistas nunca se decidem. Ora dizem que o mundo assim, ora dizem que assado. Fazem gato-sapato das nossas crenas mais queridas, sem a menor cerimnia. Sacripantas! a se- nhora de vestido caqui e brincos helicoidais esbravejava. A matria do Universo, por exemplo. Cristo Rei! Primeiro Tales disse que o ingrediente bsico do Universo era a gua. Depois Anaxmenes disse que era o ar. Ento Herclito disse que era o fogo. A vieram os atomistas dizendo que a matria do Universo era formada da combinao mecnica e fortuita de tomos... Diabos, decidam-se! Depois Thomson descobriu o eltron e desmentiu a idia do tomo indivisvel a magricela de tatuagem no ombro direito meteu a colher. Depois Rutherford concebeu o modelo planetrio do tomo: pequenos pontos distribudos no imenso espao vazio. , pequenos pontos girando em torno do ncleo. Como no sistema solar o ve- lhote disse, antes de entregar os envelopes ao atendente. Depois Planck, Einstein e Bohr incorporaram ao modelo de Rutherford a hiptese dos quanta. Isso ps fim idia de que o tomo seria o constituinte ltimo da matria o enfermeiro de colar de madre- prola disse, assoando o nariz num leno de papel. A senhora de vestido caqui e brincos helicoidais estava possessa: Se dependesse deles, dado o imenso intervalo vazio entre os eltrons e o ncleo atmico, a gente passaria a vida acreditando que o tomo constitudo basicamente de nada... ou no ? T errada? O mundo feito de nada?! Lembram quando o tempo ainda era tido como uma das intuies a priori dos sentidos? Lembram? ergueu o dedo raivoso a professora de bale com manchas nas bochechas. Para Newton e Kant o tem- po sempre existiu. Mas para os fsicos de hoje, ah, no, para essa corja o tempo uma dimenso que pas- sou a existir a partir de determinado momento da formao do Cosmo! Outro exemplo? Essa teoria das cordas. At h poucas horas as leis que regiam o microcosmo no faziam sentido no macrocosmo e vice- versa. E a senhora de vestido caqui e brincos helicoidais: , cada lei na sua praia. Cada qual contava a sua verso da histria. Agora essa maldita teoria das cordas! atalhou o enfermeiro de colar de madreprola. Mame, que teoria essa? quis saber o menino fantasiado de Homem-Aranha. Fala baixo, Horcio. Vem c que eu te explico. Sabe a teoria geral da relatividade? Sei. Sabe a mecnica quntica? , me! claro! Ento. Na procura do modelo capaz de unificar as leis do macrocosmo com as do microcosmo, a ltima caixinha encontrada essa a da teoria das cordas. Segundo essa teoria a partcula fundamental do 96 NOVEMBRO DE 2004 PESQUISA FAPESP105 Universo no se parece com um ponto, mas sim com uma linha. Ainda segundo esse modelo, as dimen- ses da realidade no so apenas quatro: comprimento, largura, altura e tempo. So dez! Sendo que as ou- tras seis so pequenssimas, imperceptveis aos nossos sentidos. Ah... Entendi. Teorias. Teorias. Teorias a senhora de vestido caqui e brincos helicoidais no conseguia se con- trolar. O tumulto foi ganhando propores assustadoras. A chamada eletrnica soava, os atendentes faziam sinal, porm ningum mais se dirigia aos guichs. Ningum queria mais saber de cartas, cartes-postais ou encomendas. Cara, t farto desse troca-troca! algum no meio do amontoado gritou. No comeo a Terra era plana. Na poca de Pitgoras ela se tornou esfrica e foi parar no centro do Universo. Durante treze sculos o modelo cosmolgico que prevaleceu foi o geocntrico, aperfeioado por Ptolomeu. Mas claro que a alegria durou pouco. claro que Coprnico tinha que jogar gua fria na rapaziada. Jogou gua fria? Ento, pra esquentar as idias, devia ter sido atirado na fogueira, o gajo. Que nem fizeram com Giordano Bruno. Bem-feito pra esse Giordano. Quem mandou mexer com o que estava quieto? Com Coprnico a gente deixou de figurar no centro do Universo. Mas a crena de que o Sol loca- lizava-se no centro da galxia durou mais um tempinho. Ah, era to bom quando a gente estava no centro. No entendo essa necessidade de estar fora do centro de tudo, de descentrar-se a qualquer custo. a sensao de vazio. Os jovens de hoje adoram a sensao de vazio. Principalmente os matemti- cos. Eles adoram! O ilustrador de livros infantis: Tudo culpa dos pr-socrticos. Foram eles, no ? Os primeiros sujeitos a explicarem a origem do Universo e do homem, e a realidade sensvel, sem lanar mo de mitos e deuses? No adianta tentarem me enganar. Foram eles os primeiros cientistas, sim! Foram eles que deram a deixa para Ptolomeu, Galeu, Newton, Einstein e toda a corja. A costureira com problemas respiratrios: Para o inferno os pr-socrticos! O entregador de pizza vesgo e meio coxo: Para o inferno a causalidade! Para o inferno as cincias exatas! Para o inferno o pensamento lgico! As cenas que se seguiram jamais deveriam ter sido mostradas na tev. A turba saiu em passeata e se misturou s pessoas preocupadas apenas com abobrinha, banana e tangerina, na feira montada em fren- te ao correio. O quebra-quebra comeou quando, ofendido com as declaraes sem p nem cabea da se- nhora de vestido caqui e brincos helicoidais, o dono da barraca de ovos atirou doze deles na velha e nos seus partidrios (para ele a teoria das cordas era de inestimvel valor). Se as pessoas respeitassem mais os cartazes afixados nos correios, a taxa de violncia nas nossas cida- des nunca atingiria nveis to insuportveis. NELSON DE OLIVEIRA escritor e mestre em Letras pela USP. Publicou, entre outros, Naquela poca tnhamos um gato, Subsolo infinito e O filho do crucificado. PESQUISA FAPESP 105 NOVEMBRO DE 2004 97