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Autora Kellen Irene Rabelo Borges, Universidade do Estado de Par 2015 Trabalho de concluso de curso abordando os Saberes e Crenas do Quirlogo contemporneo.

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  • UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PAR

    CENTRO DE CINCIAS SOCIAIS E EDUCAO

    CURSO DE LICENCIATURA EM

    CINCIAS DA RELIGIO

    KELLEN IRENE RABELO BORGES

    A ARTE DE LER AS MOS:

    SABERES E CRENAS DO QUIRLOGO

    CONTEMPORNEO.

    Belm - PA

    2015

  • KELLEN IRENE RABELO BORGES

    A ARTE DE LER AS MOS:

    SABERES E CRENAS DO QUIRLOGO

    CONTEMPORNEO.

    Trabalho de Concluso de Curso apresentado como requisito

    para obteno de grau de Licenciatura Plena em Cincias da

    Religio, do Centro de Cincias Sociais e Educao, da

    Universidade do Estado do Par, sob a Orientao da Prof. Dr

    Maria Roseli Sousa Santos.

    Belm - PA

    2015

  • KELLEN IRENE RABELO BORGES

    A ARTE DE LER AS MOS:

    SABERES E CRENAS DO QUIRLOGO

    CONTEMPORNEO.

    Trabalho de Concluso de Curso apresentado a Universidade do

    e Estado do Par como requisito para obteno do grau de

    Licenciatura Plena em Cincias da Religio, do Centro de

    Cincias Sociais e Educao.

    Data da aprovao: / /

    Resultado: _______________________________________________

    Banca Examinadora:

    Prof Dr Maria Roseli Sousa Santos Orientadora.

    _______________________________________________

    Prof. Me Jos Antonio Mangoni/UEPA Avaliador.

    ________________________________________________

    Prof Me Marcia da Silva Carvalho/UNIPOP Avaliadora.

    ________________________________________________

  • In memria de minha av querida Raimunda da Conceio.

  • AGRADECIMENTOS

    Nesses agradecimentos no poderia faltar o sentimento de gratido que tenho por

    essa energia viva quase indizvel que estou habituada a chamar de Deus. Esse Deus que pode

    ser chamado por diversos outros nomes, compreendido de infinitas maneiras e expressado seja

    cataficamente ou apofaticamente. A esta manifestao, que nas Cincias da Religio podemos

    tambm chama-lo de hierofania, tenho uma profunda comoo de agradecimento.

    Gostaria de agradecer profundamente a minha famlia. Comeando pelos meus

    pais, Aracy e Luis, agradeo pelos seus ensinamentos, especialmente por sempre me dizerem

    que a maior herana que os pais podem deixar aos seus filhos a educao e amor pela

    leitura. Fao agradecimentos tambm as minhas irms: Smia e Luciane, duas mulheres que

    me ensinaram que ser profissionais em suas reas de atuao enfermagem e letras ter

    antes de tudo paixo pela profisso. Agradeo igualmente aos demais familiares que sempre

    estiveram ao meu lado, Tia Arailde, Tio Joaquim, assim como tambm meus primos, Jadson

    Magno e Jayne. Tambm agradeo, ao companheirismo que meu cachorro Thor nas

    madrugadas em que eu tecia esse trabalho de concluso de curso.

    Tenho um enorme agradecimento a fazer a Uriel Lopes, um irmo de alma, amigo

    e companheiro de cinco anos de caminhada. Obrigada por me fazer ter f e ver coragem no

    amor como j diz aquela linda composio de Rodrigo Amarante. Obrigada pela pacincia,

    pelo seu amor, respeito, pelas inmeras horas e dias de conversas sobre essa pesquisa.

    Agradeo pelas suas crticas como cientista social que ajudou a fazer ajustes a esse trabalho.

    Agradeo tambm aos meus amigos de graduao, em especial, Rafaela

    Figueiredo, Jessica Kerolaine, Stepheny Rahan e, Fabiola Coelho, que me ensinou a lutar sem

    desistir. Tambm agradeo a egressa do curso, Dyane Machado, pela sua amizade

    iluminadora. Eu no poderia esquecer de agradecer os meus caros amigos pelas conversas

    filosficas e esotricas: Keven Magalhes e Thiago Borba.

    Tambm agradeo a todos os professores do curso de Cincias da Religio pelo

    empenho como educadores e pesquisadores. Em especial a professora Roseli Sousa. Muito

    obrigada professora por me ensinar que um pesquisador precisa ser independente, assim como

    ter certeza do que quer pesquisar.

  • BORGES, Kellen. A ARTE DE LER AS MOS: saberes e crenas do quirlogo

    contemporneo. Trabalho de concluso de curso (Graduao em Cincias Religio) Universidade do Estado do Par, Belm, 2015.

    RESUMO

    O presente trabalho de concluso de curso resultado de pesquisas realizadas no campo de

    aplicao de tema a Arte de Ler as Mos. Essa temtica representa todo o complexo simblico dessa tcnica envolta de narrativas antigas. Ento a partir da tica das cincias da

    religio objetivou-se no geral: analisar como ocorrem as formas de apropriao de saberes

    Arte de Ler as Mos na contemporaneidade brasileira. E especificamente teve como objetivo:

    apresentar as narrativas e personalidades que compe a trajetria da leitura de mos, analisar

    o perfil daqueles que tm saber/conhecimento na Arte de Ler as Mos; e por fim,

    compreender como ocorrem as formas de apropriao Arte de Ler as Mos. No primeiro

    momento dessa pesquisa, atravs de um levantamento bibliogrfico, foram vistos alguns

    apontamentos sobre o universo da Arte de Ler as Mos por reconhecer que um assunto

    pouco conhecido e tambm abordado no espao acadmico. No segundo momento, para

    compreender como ocorrem na contemporaneidade brasileira os saberes voltado a Arte de Ler

    as Mos, apresento a pesquisa em sua natureza qualitativa para o desenvolvimento e

    finalizao desse trabalho. Os resultados apontam que possvel obter o saber e aprendizado

    para essa Arte atravs da tradio em famlia, atravs de cursos, e at mesmo por concepes

    que perpassam o fenmeno religioso.

    PALAVRAS-CHAVE: Arte de Ler as Mos; crenas; ecologia de saberes.

  • ABSTRACT

    This course conclusion work is the result of researches conducted on the effort of the theme of

    the Art of Hand Reading. This thematic represents all the symbolic complex of this technique shrouded on ancient narratives. So from the perspective of the sciences of religion

    this work aims in general to: examine how occur forms of appropriation of knowledge to Art

    of Hand Reading on Brazilian nowadays. And specifically aims: to present the stories and

    personalities that make up the trajectory of palm reading, analyzing the profile of those who

    have knowledge / expertise in Art of Hand Reading; and finally understand how occur forms

    of ownership to the Art of Reading Hands. At first this research, through a literature review,

    were seen some notes about the universe of Art of Hand Reading to recognize that is a little

    known subject and sparing discussed in academic space. In the second phase, to understand

    how they occur in the Brazilian contemporary knowledge aimed at the Art of Hand Reading,

    here I present the research in its qualitative nature to the development and completion of this

    work. The results show that is possible to obtain the knowledge and learning for this Art

    through the family tradition, through courses, and even by conceptions that pervade the

    religious phenomenon.

    KEYWORDS: Art of Hand Reading; Beliefs; Ecology; Knowledges.

  • LISTA DE ILUSTRAES

    FIGURA 1 Um resumo da linguagem simblica da leitura de mos ....................................... 11

    FIGURA 2 Na superfcie de Samudra, Vishnu e Lakshmi na serpente infinita ....................... 20

    FIGURA 3 Pgina de um manuscrito de XV Alguns smbolos nas mos ............................. 24

    FIGURA 4 Parte de um manuscrito do sculo XV Os dedos e o astros................................ 24

    FIGURA 5 Tratado do sculo XVI atribudo a Andrea Corvus Algumas Linhas. ................ 24

    FIGURA 6 Adrien Adolphe Desbarolles ................................................................................. 28

    FIGURA 7 William Warner, o Conde Louis Hamon (Cheiro). ............................................... 29

    QUADRO 1 Estratgia para a seleo dos intrpretes ............................................................. 36

    QUADRO 2 Desdobramento da estratgia de seleo virtual .................................................. 36

    QUADRO 3 Diviso didtica do questionrio ......................................................................... 38

    QUADRO 4 Perfil dos intpretes dessa pesquisa ..................................................................... 48

  • SUMRIO

    1. INTRODUO .................................................................................................................... 9

    1.1. Motivaes e Objetivos ....................................................................................................... 9

    1.2. A rea de aplicao dessa pesquisa .................................................................................. 11

    1.3. Estrutura do TCC ............................................................................................................... 12

    2. NARRATIVAS E PERSONALIDADES DA LEITURA DE MOS ............................ 14

    2.1. hast Jyotish e hast Samudrika Shastra ............................................................................... 14

    2.2. Mito e Lendas ................................................................................................................... 18

    2.2.1. As Marcas Auspiciosas ................................................................................................... 19

    2.2.2. Personagens lendrias do Ocidente. ............................................................................... 21

    2.3. Vestgios da leitura de mos na Europa ............................................................................ 22

    2.3.1. D Arpentigny e Desbarolles .......................................................................................... 25

    2.3.2. A Quirologia do sculo XX ............................................................................................ 28

    3. UNIVERSO METODOLGICO-TERICO ................................................................. 32

    3.1. Horizontes Metodolgicos ................................................................................................. 32

    3.1.1. Levantamento Bibliogrfico: o estado da Arte.. ............................................................. 33

    3.1.2. A construo da pesquisa qualitativa.............................................................................. 35

    3.2. Perspectivas Tericas. ....................................................................................................... 40

    3.2.1. O vasto campo de saberes. .............................................................................................. 40

    3.2.2. O fenmeno religioso no Brasil. ..................................................................................... 43

    4. O QUIROLOGO CONTEMPORNEO ......................................................................... 48

    4.1. O Perfil dos Intrpretes.. .................................................................................................... 48

    4.2. Apropriao dos saberes .................................................................................................... 50

    4.3. Ensino e Prtica da ALM................................................................................................... 54

    5. CONCLUSES E CONSIDERAES FINAIS ............................................................ 56

    REFERNCIAS ....................................................................................................................... 59

    APNDICES ............................................................................................................................ 62

    ANEXOS .................................................................................................................................. 64

  • 9

    1. INTRODUO

    1.1. MOTIVAES E OBJETIVOS.

    Diversas foram as tcnicas desenvolvidas no decorrer da histria da humanidade

    com a finalidade de revelar mensagens ocultas aos olhos dos leigos. O acesso ao universo

    desses mtodos tem um caminho curioso, porque so ferramentas que antes de tudo exigem

    conhecimentos e saberes para auxiliar na decodificao dos smbolos e, dentre as mltiplas

    praticas optei por abordar a leitura de mos. O primeiro contato com essa arte usufruir no ano

    de 2010, onde tive a oportunidade de conhecer uma mulher que se reconhecia como crist e

    estudante do espiritismo. Certo dia, depois de vrios assuntos abordados por ns, ela tomou

    para si as minhas mos e apontou as linhas, os sinais e montes se apresentam na mesma e

    quais eram seus significados.

    No ano de 2012, poca que adentrei no espao acadmico por meio do curso de

    Licenciatura Plena em Cincias da Religio, a partir de outra tica passei a observar ainda

    mais que diversas sociedades em diferentes pocas apresentavam seus mtodos de consulta

    oracular e adivinhaes para diversas questes sociais: ritos de cura, cerimnias religiosas,

    entre outros. Uma das referncias de extrema importncia que estive em contato durante a

    academia foi o livro de Evans Prietchard, Bruxaria, Orculos e Magia entre os Azandes

    (2005). Tal livro apresenta uma anlise aos moldes de um funcionalismo sobre os orculos, a

    magia e a bruxaria na dinmica da sociedade Azande.

    Ainda no ano de 2012, participei de uma oficina intitulada Poema Orculo: a arte e

    a espiritualidade nas tradies religiosas 1. Nessa oficina pude observar e interagir com o

    tar, o pndulo, as runas e entre outras coisas. Em contanto com tais mtodos pude perceber

    que no sabia como interpret-los, pois me faltava conhecimento e saber sobre essas prticas.

    Ento especulei que para entender uma mensagem desses objetos, preciso conhecer e saber

    no s a tcnica, mas especialmente a linguagem simblica. Notei que cada ferramenta com

    as quais estive em contato requeria uma compreenso que descodificasse os smbolos. Um

    leigo no assunto no compreende as informaes simblicas de tais artifcios se no possuir

    conhecimento e saber sobre elas. Apenas algum especializado, ou melhor, que conhece e tem

    saber sobre a linguagem simblica, pode decodificar a informao e revelar a mensagem.

    1 Evento Livros Sagrados: os registros da f, realizado no perodo 19 a 23 de maro de 2012, no Centro de

    Eventos Ismael Nery - Fundao Cultural do Par Tancredo Neves (Av. Gentil Bitencourt, 650 - Nazar, Belm -

    PA, 66035-340).

  • 10

    A partir dessas experincias em conjunto com as informaes que as Cincias da

    Religio estavam proporcionando, observei que em diferentes contextos e pocas, desde as

    antigas civilizaes at as sociedades contemporneas existiriam e ainda existem pessoas que

    exercitam a prtica de compreender a linguagem simblica seja de orculos ou adivinhaes.

    Pessoas que tm conhecimentos e saberes voltado, como por exemplo, para o tar, o pndulo,

    as runas e a leitura de mos ora chamada de Quiromancia ou tambm por Quirologia. Sem

    privilegiar as problemticas envoltas dos significados e das peculiaridades que os termos

    quiromancia e quirologia podem apresentar, procurei ficar concentrada primeiramente no

    tema da leitura de mos como um todo.

    No entanto, leitura de mos um termo muito modesto que no faz juzo a essa

    complexa prtica, j a quiromancia e a quirologia envolveriam muitas outras questes que no

    cabem propriamente nessa pesquisa. Ao considerar tais aspectos procurei uma nomenclatura

    que acolhesse expusesse a complexa tcnica da leitura de mos e as suas outras

    nomenclaturas. Dessa forma, a Arte de Ler as Mos uma nomenclatura que abarcam todas

    essas particularidades que pontuei, desde o simples termo leitura de mos, at as

    problemticas que circundam a quiromancia e a quirologia.

    A terminologia arte de extrema importncia, pois na perspectiva de Certau

    (1994, p. 42), as artes de fazer esto repletas de uma maneira de pensar investida numa

    maneira de agir, uma arte de combinar indissocivel de uma arte de utilizar. A partir do tema

    da leitura de mos, possvel observar que o fato de pensar e o agir combinaes

    indissociveis da arte de utilizar perpassa em duas instncias: primeira est relacionada s

    formas de apropriao dos conhecimentos, que ter um arcabouo de pensamentos capazes

    de entender a linguagem simblica e, segundo, diz respeito ao saber, ou seja, a forma de agir

    perante a vasta informao registrada durante toda uma vida.

    Segundo Certeau (1994, p. 139), uma arte um sistema de maneiras de fazer que

    so ajustadas a fins especiais e que so o produto ou de uma experincia tradicional

    comunicada pela educao, ou da experincia pessoal do indivduo. Dessa forma, ao mesmo

    tempo em que a Arte de Ler as Mos est representando todo o complexo simblico dessa

    prtica, saberes e crenas dos quirlogos2 contemporneos o foco da pesquisa. Nessa

    perspectiva, exponho ento, como objetivo geral: Analisar como ocorrem as formas de

    apropriao de saberes Arte de Ler as Mos na contemporaneidade brasileira. E os objetivos

    especficos abrangem:

    2 O termo quirlogo utilizado no sentido de aquele que tem saberes na rea da Arte de Ler as Mos. uma

    categoria que utilizei para abarcar os intrpretes dessa pesquisa.

  • 11

    I. Apresentar as narrativas e personalidades que compe a trajetria da leitura de mos.

    II. Analisar o perfil daqueles que tm saber/conhecimento na Arte de Ler as Mos.

    III. Compreender como ocorrem as formas de apropriao Arte de Ler as Mos.

    1.2. A REA DE APLICAO DESSA PESQUISA.

    A ttulo de informaes, apresentarei brevemente o que seria a Arte de Ler as

    Mos. No geral uma prtica que analisa uma srie de aspectos, como por exemplo, o

    formato e a textura das mos, at os dedos e as unhas, assim como tambm sinais e marcas

    que podem se apresentar nessas reas. Dentre todo o complexo universo da leitura de mos,

    procurei expor apenas algumas linhas, montes e sinais.

    Figura 1: Um resumo da linguagem simblica da leitura de mos.

    Fonte: Kellen Borges.

    Segundo King (1983, p. 19), normalmente, existem na mo sete linhas maiores e

    cinco menores. No entanto, nem todas as pessoas apresentam todas essas linhas, e como

    pretendo apenas apresentar de forma geral a Arte de Ler as Mos, abordarei apenas trs delas,

  • 12

    porque em minha opinio so mais simples de serem visualizadas: a linha da vida, a linha da

    cabea e a linha do corao. Vale ressaltar que essas linhas tambm podem ser conhecidas

    como linhas principais.

    A respeito das linhas principais, levado em considerao se o risco profundo,

    se forte ou claro, se est delineado tortuosamente ou no, se tem marcas e at mesmo se

    apresenta pequenas linhas que podem ascender ou decrescer para qualquer rea da mo, e

    entre outras particularidades. Na imagem acima reuni alguns informaes do universo da

    leitura de mos. uma representao didtica fcil de observar, e sem a complexidade que

    uma mo de verdade pode trazer.

    Alm das linhas, as mos podem ser dividas por montes. Na imagem procurei no

    s colocar nomes, mas tambm usar os smbolos que muito comum em alguns livros que

    tomei como base para fazer essa representao. Para King (1983, 15), h pelo menos oitos

    montes, desses oitos, apenas destaquei cinco: Vnus, Jpiter, Saturno, Apolo, Mercrio e

    Lua. Tais montes devem ser analisados na opinio de Pinheiro (2010, p. 33), o tamanho, a

    posio e a localizao de cada monte, em ambas as mos para uma melhor compreenso

    desses elementos.

    Em paralelos com as linhas e os montes, podendo est situado em qualquer parte

    da mo, podem ser encontrados uma srie de sinais, como por exemplo, marcas de nascenas,

    ou imagem que formam tringulos, crculos, quadrados, cruz, entre outros. H tambm, aquilo

    que Pinheiro (2010, p. 131), intitulou de sinais msticos, que so sinais considerados

    raros, como por exemplo: o hexagrama, smbolo totalizador do pensamento hermtico,

    ele representaria o equilbrio espiritual e a perfeita sintonia do intelecto fsico.

    Procurei no prolongar as linguagens simblicas que envolvem o universo da

    leitura de mos, apenas ressaltei alguns smbolos que so fceis de observar at mesmo na

    prpria mo. No pontuei todos os significados, pois no um dos objetivos dessa pesquisa.

    Procurei apresentar algumas informaes da leitura de mos, pois so esses alguns dos

    saberes e conhecimentos que os intrpretes dessa pesquisa saberiam reconhecer e diz-los nas

    mos de uma pessoa.

    1.3. ESTRUTURA DO TCC.

    Como pesquisadora, estou ciente da rdua e prazerosa tarefa do tema Arte de Ler

    as Mos: primeiro porque um tema escasso no espao acadmico, segundo que o assunto da

  • 13

    leitura de mos por si s uma temtica inesgotvel que atravs das Cincias da Religio

    reconheci um espao para abord-lo em panorama interdisciplinar e multidisciplinar. Para

    uma melhor compreenso dessa pesquisa, procurou-se estruturar sesses que esto

    organizadas da seguinte maneira:

    A primeira sesso, intitulada de Introduo, proporciono um apanhado geral a

    respeito pesquisa. Nela exponho as motivaes de propor tal temtica, assim como a descrio

    do objetivo geral e dos especficos a serem alcanados. Tambm, a ttulo de informaes

    apresentei alguns aspectos da rea de aplicao dessa pesquisa.

    Na segunda sesso, Narrativas e Personalidades da Leitura de Mos, em

    conjunto com as subsesses Hast Jyotish e Hast Samudrika Shatra, Mito e Lendas, e Vestgios

    da Leitura de mos na Europa, compus um possvel itinerrio, tendo como base as tradies

    envoltas da Arte de Ler as Mos. Temas esses possveis de se encontrados em livros que

    abordam esse tema.

    A terceira sesso, O Universo Metodolgico-Terico da Arte de Ler as Mos,

    subdivididos em Horizontes metodolgicos e as Perspectivas Tericas, exponho o tipo de

    pesquisa, e como ela foi desenvolvido e as ferramentas utilizadas. Em conjunto, tambm fao

    apontamentos sobre a base terica dessa pesquisa.

    E por fim, na quarta sesso, O Quirlogo Contemporneo, apresento os dados e a

    analises coletadas. Assim como tambm as Consideraes Finais, onde sintetizo o que foi

    alcanado nessa pesquisa.

  • 14

    2. NARRATIVAS E PERSONALIDADES QUE COMPE O PERCURSO DA

    LEITURA DE MOS.

    Existem diversas especulaes e hipteses a respeito de onde e como teria surgido

    a prtica de ler as mos e, poucas so as pesquisas concretas vinculadas a esse tema. Muitos

    autores que se dispem a abordar sobre a Arte de Ler Mos buscam compor um itinerrio

    dessa prtica desde sua possvel origem at os dias atuais. De acordo com Cheiro (1985),

    partindo-se dos antigos hindus, o estudo das mos pode ser acompanhado atravs de

    civilizaes como as da China, Tibete, Prsia, Egito e, finalmente Grcia. claro que outros

    povos so ressaltados, como por exemplo, Hebreus, Assrios e Romanos3, dificultando ainda

    mais um possvel bero para leitura de mos. A respeito do oriente, Zancanaro (2008, p.13),

    alega que surgimento de tal prtica sob a ptica oriental teria sido de maneira epifnica.

    Ao considerar que um tema pouco discutido no acadmico, verificou-se ser

    necessria a importncia de abordar ao pblico desconhecedor de tal arte as narrativas e

    personalidades que compem percurso da leitura de mos. Sendo assim, essa sesso ser

    responsvel por apresentar algumas narrativas que compe o percurso da leitura de mos,

    comeando pelas tradicionais referncias que so dadas ao oriente, como os sistemas: hast

    Jyotish e hast Samudrika Shastra. Narrativas com toque mtico e de carter lendrio tambm

    sero temticas dessa sesso, para que seja mostrado como a leitura de mo tem um caminho

    de tradio at o ocidente, onde vestgios dessa prtica aparecem em manuscritos antigos. E

    para finalizar, um esboo de tal arte no sculo XX. Dessa forma, para dar inicio a esse

    percurso farei consideraes respeito do primeiro espao a ser abordado nessa pesquisa, o

    oriente, para que gradativamente seja possvel apresentar o ocidente, tendo sempre como eixo

    norteador a tradio que abordada nos livros de tal temtica.

    2.1. HAST JYOTISH E HAST SAMUDRIKA SHASTRA.

    Entre tantas referncias encontradas nos livros que abordam tal temtica, procurei

    escolher apenas um tema e abord-lo. Tal escolha ocorreu pelo fato de ser um dos locais mais

    citados na tradio. Dessa forma, optei ento por abordar narrativas referentes Repblica da

    ndia, sendo esse territrio cogitado em alguns livros nativos como um dos possveis beros

    3 A respeito dos Romanos, a tradio aponta Jlio Cesar. Jlio Csar era to perfeitamente versado nesse estudo

    que: um dia recebeu em audincia um pretenso filho de Herodes, e logo descobriu o impostor, porque em suas

    mos faltavam todos os sinais da realeza (CHEIRO, 1985, p. 20).

  • 15

    da Arte de Ler as Mos. Segundo King (1983, p. 5), o tema da leitura de mos mencionado

    em antigos manuscritos indianos datados de 3.000 anos. Seguindo esta conjetura, destaquei a

    ndia como ponto de partida para delinear um percurso a partir das narrativas tradicionais que

    fazem aluses por meio de sistemas complexos que so encontrados no oriente que sinalizam

    possveis tcnica de ler as mos.

    No oriente4, situada mais precisamente na sia Meridional, a Repblica da ndia,

    como atualmente reconhecida, alcanou sua independncia no de 1947, aps uma resistncia

    considerada no violenta contra o poderio Ingls. Sua extenso territorial detm uma vasta

    histrica que presenciou a ascenso e quedas de grandes imprios. A Repblica da ndia

    considerada tambm o bero de quatro grandes sistemas religiosos: hindusmo, budismo,

    jainismo e sikhismo. Sendo detentora de uma cultura magnfica que remonta tempos

    imemoriais, com tradies, filosofias, etnias e diversas lnguas.

    Entre as literaturas mais antigas encontradas, os Vedas, de acordo Vaithilingam e

    Sekhar (2010, p.6), so uma mina de conhecimento, tanto material quanto espiritual.

    Transmitidos oralmente pelas famlias sacerdotais, os Vedas so considerados conhecimentos

    de teor sagrado que abordam desde as cincias da natureza e at o aspecto espiritual,

    transcendente e imanente. Dos Vedas, surgiam comentrios sobre seu contedo: Brahmanas

    interpretao dos brmanes Aranyakas Textos de autores que viviam em floresta e os

    Upanixades. A doutrina dos Upanixades est no Vedanta: o fim do Veda, ou os que esto

    colocados no final dos textos vdicos. Tambm possvel se referir aos Upanishads como

    Vedanta.

    De acordo com Vaithilingam e Sekhar (2010, p. 30), h ainda quatro Upa-Vedas

    ou Vedas subsidirios e seis Angas ou membro explicativos. Os Vedas subsidirios abordam:

    a cincia da vida e da sade, a cincia da guerra, a cincia da msica e da dana e a cincia da

    poltica. E os membros explicativos, que so comuns a todos os quatro Vedas expem: o

    conhecimento de fontica, a gramtica snscrita, a mtrica e versificao, a fisiologia ou

    etimologia, a astronomia e astrologia, e o mtodo ou ritual.

    Dentre os membros explicativos, o quinto componente intitulado de Jyotish.

    Segundo Vaithilingam e Sekhar (2010, p. 30), o Jyotish o responsvel pela astronomia e

    astrologia. O Jyotish ento, abordar a respeito dos movimentos dos copos celestes e sua

    influncia sobre as questes dos seres humanos. A tradio acerca do conhecimento a respeito

    4 A palavra oriente vem do latim oriens, o sol nascente, de orio, orire, surgir, torna-se visvel, palavra da qual

    nos vem tambm origem. (SPROVIERO, Mrio B. Oriente e Ocidente: demarcao, p. 2).

  • 16

    do Jyotish atribuda aos Rishis. De acordo com Ghanshyam (1998, 13), os rishis teriam

    estudado e analisado no decorrer do tempo atravs de observaes empricas os aspectos da

    vida humana fsico, psicolgico, emocional e espiritual se refletiam no prprio corpo do

    ser humano.

    H muitos sculos, os sbios da ndia traduziram a sabedoria dos Vedas em

    seis grandes textos chamados Vedangas (ou membros dos Vedas). Um dos

    principais membros o jyotish. O jyotish, que se traduz literalmente por senhor da luz, o estudo dos efeitos da luz sobre os seres humanos em particular, das luzes celestiais: o sol, a lua, as estrelas e os planetas (GHANSHYAM, 1998, p. 19).

    Para Defouw e Svoboda (2003), o jyotish seria praticado tambm por praticantes

    do budismo, do sikhismo, do janismos e entre outras tradies. No jyotish, Defouw e Svoboda

    (2003) alegam que o homem seria uma criao do cosmo. De uma forma geral, sem entrar nos

    detalhes complexos dessa tcnica, dito que os astros teriam grandes influncias nos seres

    humanos, e essa influncia poderia ser compreendida atravs do jyotish, ou estudo dos corpos

    celestes, a astrologia hindu. Dentro do jyotish teria outra categoria de estudo intitulada de

    Hast Jyotish, considerada como uma das referncias atribudas ao oriente, especialmente na

    ndia. Segundo Ghanshyam (1998), Hast Jyotish significa o estudo dos efeitos da luz dos

    corpos celestes sobre hast a mo.

    Assim como a Terra faz parte do sistema solar, que faz parte da Via Lctea que apenas uma pequena parte do universo assim tambm cada um de ns um universo microcsmico cheio de galxias, constelaes e sistemas

    solares. Cada clula, com seus prtons, neutros e eltrons, um sistema solar

    em miniatura. O corpo humano se organiza em formas que vo se repetindo

    at o nvel microscpio. Vemos, por exemplo, que no sistema circulatrio,

    com suas artrias, veias, capilares e vasos sanguneos que vo se ramificando

    em mltiplas escalas, as mesmas formas se repetem desde o grande at o

    pequeno. A configurao das linhas da mo segue o mesmo padro de

    ramificao multiescalar (GHANSHYAM, 1998, p. 19).

    Ainda segundo Ghanshyam (1998), os livros sagrados da ndia ensinam que cada

    ser humano um esprito. O corpo fsico aquele que se pode v e tocar seria apenas um

    dos trs corpos que a humanidade possui. Um segundo corpo seria dotado de vibrao elevada

    e sutil, o corpo astral a matriz de energia sutil que d origem ao corpo fsico.

    O corpo fsico se estrutura e se conserva de acordo com as especificaes do

    corpo astral. O terceiro corpo, conhecido como corpo causal, tem uma

    vibrao ainda mais sutil que a dos outros dois. Constitui a verdadeira base

  • 17

    do ser da pessoa a causa ou matriz original e passa, mudando de forma, de uma vida a outra. No estudo hast Jyotish, quando olhamos para a mo,

    estamos na verdade querendo ver os corpos astral e causal atravs do reflexo deles no corpo fsico (GHANSHYAM, 1998, p. 20).

    Para Marcio Pombo (2015), o hast jyotish seria uma enciclopdia de

    autoconhecimento atravs dos astros. Os registros de tal enciclopdia apresentam-se sob a

    forma de signos, como por exemplo, impresses digitais, linhas, montes e sinais. O conjunto

    dessas informaes compiladas nas mos similar a um mapa, cuja leitura desvela

    caractersticas da natureza humana em diversas reas: personalidade, relacionamentos

    afetivos, sade, entre outros.

    O Hast Jyotish ensina-nos, tanto as tcnicas de interpretar os diversos

    aspectos formados pelo conjunto de signos da mo humana, quanto os

    mtodos para acionar o livre arbtrio no sentido de transformar/corrigir

    quaisquer aspectos que, por motivos krmicos, estejam impedindo o

    desenvolvimento pleno do indivduo. funo do praticante do Hast

    Jyotish servir de intermedirio entre o consulente e as divindades csmicas

    encarregadas pela Divindade Suprema, no s de imprimir em suas mos sua

    trajetria krmica, mas tambm de lhe mostrar as chaves para abrir as portas de seu prprio potencial de superao (POMBO, 2015, s/p).

    O estudo da hast jyotish apresenta-se como um mtodo complexo baseado em

    apontamentos Vdicos que daria uma vasta produo, infelizmente nessa pesquisa no ser

    possvel fazer mais consideraes, pois fugiria demais ao tema proposto. Apresentou-se a hast

    jyotish por causa de alguns autores que escrevem sobre a prtica de ler as mos apontam

    como um sistema muito antigo de origem hindu. Dessa forma sugerindo especulaes e

    hipteses ndia como um dos beros da Arte de Ler as Mos.

    Uma segunda referncia que algumas literaturas nativas expem aludindo cultura

    hindu um mtodo de interpretao a partir do corpo humano: o Samudrika Shastra. De

    acordo com Vedic Vidya Institute (2005), o Samudrika Shastra um mtodo complexo de

    interpretao e anlises do corpo humano, onde todas as marcas naturais, genticas ou at

    mesmo as que so adquiridas com o decorrer da vida de uma pessoa levando considerao

    nas anlises.

    Dentro do Samudrik Shastra existem diversos ramos de estudo e conhecimento,

    como por exemplo, o estudo da face humana e das mos hast. Os ensinamentos

    do Samudrika Shastra concentram-se em grande parte atendo-se aos estudos das

    caractersticas presente na morfologia humana, desde o corpo at a aura. Em relao mo

  • 18

    alega Vedic Vidya Institute (2005), que ela torna-se um espelho, que reflete a natureza de seu

    dono e de seu destino. As marcas encontradas nas mos de uma pessoa atm-se a um bloco de

    estudo voltado para a Tradio Vdica chamada de Hast Samudrika Shastra.

    Um nmero expressivo de textos que abordam a respeito do Hast Samudrika

    Shastra est publicado nas lnguas da ndia, como por exemplo, o tmil, ou at mesmo em

    ingls. Para Om Namah Shivaya (2014), a cultura hindu apresenta alguns documentos tais

    como: Hast Samudrika Shastra, Ravana Samhita e Hast Sanjeevani que abordam essa

    temtica difcil de ser compreendida s pelas publicaes do ocidente que expe um breve

    aspecto de tal mtodo quase que impossvel de identific-los sem ajuda de outras literaturas,

    especialmente as que esto em publicao em ingls.

    O Hast Samudrika Shastra um mtodo complexo sobre os sinais auspiciosos, da

    mesma forma que o Hast Jyostih se apresenta com sua complicada tcnica que aborda a sobre

    a influncia dos astros nas mos. Tais tcnicas preferir no aprofund-las, alm delas no

    fazerem parte de um dos objetivos desta pesquisa, so repletas de peculiaridades que causaria

    um desfoque a esta pesquisa.

    Expus o Hast Samudrika Shastra e o Hast Jyostih porque so termos que

    aparecem ligeiramente e em alguns livros que buscam narrar e desenvolver a hipteses a

    respeito de o quo antigo a prtica de leitura de mos. Ao apresenta-los no tive o propsito

    de buscar uma origem definitiva ou comprovada baseada em tais sistemas. Apenas apresentei

    indicativos que so cogitados em algumas literaturas ao lado da ideia de origem5 por serem

    consideradas tcnicas antigas que remontam a cultura hindu. Mas sempre bom ressaltar que

    buscar uma origem para leitura de mos implica em diversas lacunas, e o material cientfico

    no suficiente porque que no existe um nmero expressivo de pesquisa em relao a esse

    tema na academia para gerar mais discusses.

    2.2. MITO E LENDAS DA TRADIO.

    Alguns autores que aborda a leitura de mos fazem aluses a grandes

    personalidades que compe a tradio da Arte de Ler Mos. Alguns nomes presente nas

    literaturas nativas so personagens de uma narrativa que aparenta ter carter mtico, e outros

    compe uma vasta produo de lendas. Para compreender a respeito de Mito e Lenda os

    5 Uso Origem no sentido do local que teria se originado possivelmente a Arte de Ler as Mos.

  • 19

    estudos de Eliade (1972) e Croatto (2001) so subsdios tericos que enriquecem o

    entendimento de tais temticas.

    Em torno do sculo XIX as concepes a respeito da ideia de mito comearam a

    mudar. Segundo Eliade (1972), invs de discutir o mito na acepo usual do termo, como

    inveno ou fico, ele foi aceito tal qual era compreendido pelas sociedades, onde mito

    designa uma histria verdadeira, extremamente preciosa por seu carter sagrado e

    significativo. Ao contrrio do que muito se acreditava o mito no algo falso ou mentiroso,

    ele uma narrativa responsvel por relatar um acontecimento dentro de uma sociedade. O

    mito o relato de um acontecimento originrio, no qual os deuses agem (CROATTO, 2001,

    p. 209).

    Dessa forma, o mito tem com intuito relatar o surgimento de uma instncia, uma

    lei, rito religioso, um sacrifcio, cerimnia, uma prtica e entre outros acontecimentos. Os

    deuses agem nesse tipo de narrativa instituindo algo para a sociedade. Como por exemplo, o

    Orculo de Delfos, que segundo Giebel (2013), foi institudo por Apolo, aquele que

    proclamava o vaticnio atravs da Ptia, sua sacerdotisa, para o consulente. E as lendas, de

    acordo com Croatto (2001), no narram fatos primordiais, apesar de serem considerados

    tambm importantes.

    2.2.1. As Marcas Auspiciosas.

    A Arte de Ler Mos sob a tica hindu, aparentemente apresenta uma antiga

    narrativa de carter mtico, onde um deus teria presenteado a sociedade com um tipo de

    anotaes sobre os sinais auspiciosos. At o momento em que essa pesquisa se desenvolvia

    no conseguir obter informaes se existem referncias dessa narrativa em portugus. De fato,

    obtive conhecimento sobre esse aspecto a partir de pesquisas em sites eletrnicos/web/ da

    internet no idioma ingls, como por exemplo, em Palm Reading Perspective. De acordo Palm

    Reading Perspective (2011), o livro intitulado Sariraka Sastra Indian Science of Hand

    Reading based on Kartikeyan System publicado em 1960, por Vak Ayer, ressalta que:

    H muito tempo o Senhor Vishnu estava gostando de sua nidra yoga, na companhia de sua consorte Lakshmi. O senhor Samudra apareceu e comeou

    a anotar as marcas auspiciosas sobre os corpos do casal divino - para orientao da humanidade (Palm Reading Perspective, 2011, s/p).

  • 20

    Essa narrativa de carter mtico aponta que a primeira vez que teriam sido

    anunciados sinais auspiciosos foi atravs do deus do Mar, tambm chamado de Samudra, em

    cuja superfcie Vishnu ao lado de Lakshmi repousava sob uma serpente. Existe pelo menos

    duas verso de como a humanidade teria sido presenteada com as anotaes dos sinais

    benefcios: de um lado conta-se que Samudra teria acolhido smbolos auspiciosos do casal

    divino e mais tarde presenteado a humanidade, onde antigos sbios, os rishis, da ndia teriam

    desenvolvido e aprimorado ainda mais esses ensinamentos e por outro lado, dito que Shiva

    que teria ensinado sobre sinais auspiciosos.6

    Figura 2

    Na superfcie de Samudra, Vishnu e Lakshmi na serpente infinita.

    Fonte: Pgina God Photos, 10/04/20147.

    Os famosos sinais auspiciosos so mencionado nas literaturas da Arte de Ler as

    Mos sinalizando grandes personalidades. Tais smbolos ressaltam caractersticas de uma

    pessoa ligada, ou pr-destinada a algo: seja uma espiritualidade ou uma religiosidade elevada,

    tambm apontaria as riquezas, um grande rei ou poltico, ou um esplndido orador,

    habilidades artsticas e entre outras caractersticas.

    As narrativas vinculadas tradio fazem referncias s marcas atribudas ao

    prncipe Vardhamana, mais conhecido por Mahavira o grande heri (SCHENKEL, 2013,

    p, 25). Igualmente ressaltam o prncipe Rama, de acordo com Jorge Stella (1966, p. 145),

    6 Cf. SHASTI; VASHISTH, 2013.

    7 Endereo do site < http://shirdisaibaba100.blogspot.com.br/2014/04/lord-sri-laxmi-narayana-beautiful.html >.

    Acessado em, Ago. de 2015.

  • 21

    um personagem do texto em snscrito intitulado Rmyana, como possuidor de tais

    smbolos. Sidarta Gautama, o Buda, tambm lembrando na tradio, como o possuidor de

    sinais que sinalizavam sobre seu grandioso futuro.

    Em algumas introdues dos livros que abordam a Arte de Ler Mos, prncipe

    Vardhaman o Mahavira, o prncipe Rama e Sidarta Gautama o Buda, aparecem atrelados

    hiptese dos sinais auspiciosos, se tornando ento, referncias comuns em algumas literaturas.

    Essa tradio se enquadra na categoria de lendas, um tema diferente daquilo que se

    compreende as narrativas mticas.

    De acordo com Croatto (2001, p. 233), tanto o mito como as lendas so

    considerados verdadeiras pelo narrador e sua assembleia. Os protagonistas dos mitos so seres

    divinos, e seus relatos narravam como e de onde teriam surgido, como por exemplo, uma

    prtica ou um rito. Diferente dos mitos que so considerados sagrados, as lendas podem ou

    no ter um teor sagrado em suas narraes, com a presena das divindades em alguns

    momentos. Na lenda o plano de fundo mundo j est organizado, e os seres humanos so

    seus personagens principais dos acontecimentos.

    2.2.2. Personagens lendrias do Ocidente.

    Alguns livros a respeito da Arte de Ler Mos que buscam introduzir o leitor nesse

    universo expem personagens ilustres. No ocidente, segundo Pinheiro (2010), Hipcrates,

    Anaxgoras, Aristteles, so alguns dos filsofos que mantiveram algum contanto com

    mtodo de analisar as mos. Assertivas como estas compe um relicrio de lendas que

    esbarram na construo de um percurso prximo a ideia de histrico leitura de mos no

    Ocidente.

    Para King (1983), alguns manuscritos medievais da Europa Ocidental sobre

    leituras de mos recotam a tradicional lenda de como tal prtica teria atingindo a Europa.

    Essas lendas narram descoberta do possvel manuscrito achado no altar de Hermes contendo

    aspectos da prtica de ler de mos. Alguns livros sobre a Arte de Ler Mos ressaltam o

    achado atravs de Anaxgoras, e outros a Aristteles. Outros materiais mencionam o fato de

    ser um trato rabe que foi descoberto durante as viagens por um desses filsofos.

    As diversas lendas que existem daquilo que se aproxima da ideia da chegada da

    leitura de mos no Ocidente, se apresentam confusas. Segundo King (1983), Aristteles teria

    descoberto o manuscrito e entregado ao imperador Alexandre Magno. Mas outra lenda alude

  • 22

    o fato que a expanso do imprio da macednia possibilitou que Alexandre III (Grande),

    nascido por volta de 356 a.C., tivesse entrado em contato com a leitura de mos. Para Pinheiro

    (2010), no oriente mdio se encontravam adeptos da prtica de ler mos, por causa expanso

    de seu imprio Alexandre Magno acabou descobrindo tal tcnica e levado Europa.

    Nas referncias que utilizei para compor esse captulo h outras personalidades

    que so aludidas como parte do universo da Arte de Ler Mos. Procurei citar apenas algumas

    com o intuito de apresentar um pouco a tradio envolta desse tema. Durante o levantamento

    bibliogrfico no encontrei mitos referentes Europa. Porm, lenda o que no falta.

    Especialmente as que so mencionadas filsofos, imperadores, e at mesmo religiosos.

    As lendas da leitura de mos que apresentam como personagens Hipcrates,

    Anaxgoras, Aristteles e o Imperador Alexandre III, compem narrativas que sugerem um

    tipo de marcador inicial da tradicional narrativa da leitura de mos no Ocidente, tendo como

    referncia a Grcia antiga. Outras lendas aludem presena de Jlio Csar como um versado

    nesse estudo (FLORENZANO, 1985, p. 20). Algumas dessas narrativas apontam hipteses

    de como a Arte de Ler as Mos teria chegado ao Ocidente.

    2.3. VESTGIOS DA LEITURA DE MOS NA EUROPA.

    Durante a parte do perodo histrico compreendido como Idade Mdia, que

    convencionalmente para Renaldi (2014), est situada entre o V e o XV sculo, a Igreja

    Catlica consolidou um vasto e slido patrimnio de bens materiais, tornando-se ento

    dentetora de um poder autoritrio. Acontecimento esse que se reverberou em muitos fatos

    histricos, como por exemplo, a inquisio no sculo XII.

    Em 1184 uma bula papal determinava que os bispos excomungassem todos que

    agissem contra os dogmas institudos pelo clero. No ano de 1233, o papa Gregrio IX criou o

    Tribunal do Santo Ofcio para perseguir e punir os dissidentes considerados hereges. Em

    1252, segundo Baigent e Leigh (2001. p. 19), o papa Inocncio IV autorizou uso da tortura

    como mtodo para obter confisses de prticas herticas.

    Dentre as vrias prticas consideradas herticas, se encontravam as consultas a

    mtodos de adivinhao do futuro. E a quiromancia, atravs do significado que seu termo

    carrega, no deixa de ser um mtodo que est envolvido nesse aspecto de vaticinar. De acordo

    Rinaldi (2014), a leitura do futuro era considerada perigosa e obra do demnio, os religiosos

    acreditavam que apenas Deus era o nico que podia saber o futuro de todos.

  • 23

    O cenrio na Europa nesse perodo se apresentava desfavorvel para todos os

    comportamentos, argumentos, ou questes contrrias aos dogmas institudos pelos cristos.

    Dentre os diversos povos perseguidos, os Ciganos foram tambm alvo de diversas

    brutalidades. Na tradio da leitura de mos, Pinheiro (2010), alega que a expulso dos

    ciganos de algumas partes da Europa ocorreu atravs das ameaas que boa parte da populao

    realizava instigados pela Igreja Catlica que nutrira receio ao modo de viver cigano e suas

    prticas, como por exemplo, a leitura de mos.

    No contexto da supremacia crist e seus dogmas, especialmente durante a Idade

    Mdia, a Arte de Ler as Mos parecia permanecer em atividade sigilosa temendo a Santa

    Inquisio. De acordo com Bel-Adar (1993), durante o medievo, a prtica de ler as mos

    entrou em aparente declnio e sua estrutura geral havia perdido quase toda a solidez apesar

    dos alguns segredos terem sido guardados tambm por hermetistas.

    Depois de um longo perodo de obscuridade a arte de ler as linhas das mos

    foi quase que somente cultivada pelos ciganos e de modo mais intuitivo do que cientfico homens ilustres como Saint-Germain, Raphael, Desbarolles e Papus devolveram-lhe o antigo prestgio. Hoje ela desperta mais ateno

    do que nunca e demonstra uma acentuada tendncia para retornar s velhas

    bases, isto , para considerar os tipos planetrios e operar em estreita ligao

    com a Astrologia, cincia hermtica fundamental (BEL-ADAR, 1993, p.10).

    O interessante notar que algumas problemticas se levantam, pois ao mesmo

    tempo em que os mtodos de adivinhao do futuro, em especial a quiromancia uma prtica

    que tambm tem propriedades de adivinhar era combatidos por ser considerada hertica,

    aparentemente foi guarda e estudada pelo magistrado cristo e cultivada em sigilo por pessoas

    no vinculadas ao clero. Um exemplo disso a especulaes a respeito de clrigos estudarem

    a morfologia das mos, suas linhas e seus sinais. Dentre eles mencionado o Padre Igncio

    Vieira (1678-1739), o provvel autor do Tratado de Chiromancia8, que no colgio de Santo

    Anto no sculo XVIII, estava responsvel pelas aulas de quiromancia.

    Embora o Santo Ofcio aterrorizasse a Europa, astrologia e as diversas mancias,

    ou seja, as adivinhaes, assim como outras prticas eram realizadas em sigilo. Determinados

    escritos que abordam a Arte de Ler Mos conseguiram sobreviver durante a Idade Mdia.

    Segundo King (1983), h manuscritos medievais da Europa que apontam a leitura de mos,

    geralmente relacionada Astrologia. Alguns dos manuscritos esto na Bodleian Library, a

    8 No site Europena think culture possvel encontrar o Tratado da Chriomancia.

  • 24

    principal biblioteca de pesquisa da Universidade de Oxford, uma das mais antigas da Europa,

    situado no Reino Unido desde o sculo XVIII.

    Figura 3 Parte de um manuscrito do sculo XV.

    Alguns smbolos nas mos.

    Fonte: (KING, 1983, p. 6)

    Figura 4 Pgina de um manuscrito do sculo XV.

    Os dedos e os astros.

    Fonte: (KING, 1983, p. 17)

    Figura 5 Tratado do sculo XVI atribudo a Andrea Corvus.

    Algumas linhas.

    Fonte: (KING, 1983, p. 41)

  • 25

    A tradio alega que a primeira publicao sobre a leitura de mos no Ocidente

    foi entorno do sculo XV. Segundo Pinheiro (2010), Johann Harlieb (1400-1541), escreveu

    Die Kunst Chiromantie, um tratado sobre a Arte da Quiromancia. Tambm Bartolomeu della

    Roscca (1467-1504), conhecido como Andrea Corvus de Mirandola (o Cocles), considerado

    autor das obras: Liber Chiromantiae e Anastasis Chiromantiae ac Physinomiae, ambas

    abordando marcas presentes nas mos.

    Philippus Aureolus (1493-1541), conhecido por Papus, teria tambm estudado a

    leitura de mos segundo as narrativas da tradio. Considerado mdico, alquimista, fsico,

    astrlogo astrnomo e excntrico. Papus teria criado um tratado responsvel por mostrava o

    micro e o macrocosmo se correspondendo pela natureza. Nesse tratado o corpo fsico, as

    plantas e os astros poderiam mostrar sinais que seria possvel de ler e interpretar. Segundo

    Cairo (2015, p. 26), a quiromancia, a fisiognomonia (estudo do carter atravs da leitura do

    rosto), a linguagem do corpo, apresentada.

    Johann Harlieb, Bartolomeu della Roscca, Philippus Aureolus so algumas

    personalidades da poca medieval. Eles compem uma parte do acervo da leitura de mos no

    ocidente, junto com outros nomes, que esto muitas vezes envoltos de lendas. deles que

    recorre hiptese de desenvolvimento e manuteno da leitura de mos durante a idade

    mdia. Em relao aos manuscritos, poucas literaturas se atm ao fato de expor ao leitor essa

    documentao que diz respeito leitura de mos no ocidente.

    2.3.1. Arpentigny e Desabarolles.

    Na tradio da leitura de mos possvel notar duas categorias que alguns autores

    destacam sendo diferente quanto as suas nomenclaturas: Quiromancia e Quirologia. A

    Quiromancia um termo vinculado adivinhao Quiro/mo e Mancia/adivinhao

    Adivinhao pelas mos. J a Quirologia um estudo sobre as mos Quiro/mo e

    Logia/estudo. No entrarei nas problemticas referentes aos termos, apesar de que farei

    apontamentos breves sobre ambas algumas vezes, nesse tpico apresentarei duas

    personalidades consideradas muito importantes para o desenvolvimento da leitura de mo

    durante o perodo considerado moderno.

    No sculo XIX, a leitura de mos parece ganhar novos delineamentos no ocidente

    com observaes, analises e interpretaes especficas: de um lado a fisionomia das mos, e

    do outro lado se encontra os sinais que as palmas podem e/ou no apresentar. Para Paraclitus

  • 26

    (2012), nesse sculo tiveram incio na Europa o que se pode chamar de estudos sobre o

    mtodo de ler as mos, um dos nomes que se sobressaia era o de Casimir Stanislas

    dArpentigny (1798-1865) e posteriormente o de Adolphe Desabarolles (1801-1886). Ambos,

    dentro da tradio, se destacaram pelos estudos e obras sobre a Arte de Ler as Mos.

    A respeito da histria de Casimir Stanislas dArpentigny (1798-1865) e seu

    envolvimento com leitura de mos um tanto incerto. As citaes sobre o seu nome nas

    referncias utilizadas para essa pesquisa, no revelam muitos fatos de sua vida, apenas seu

    mtodo de analisar as mos. Por meio de pesquisas virtuais, descobrir Handreling de autoria

    de Christopher Jones, reproduzido com permisso no site johnnyfincham.com, pgina

    intitulada de The Palsmistry, o nome de Casimir atrelado a algumas narrativas. Atravs da

    The Palsmistry (2015) pude descobrir que Casimir teria sido possivelmente um capito do

    exercito francs, e o fato de uma cigana ter lido suas mos, marcou sua vida a ponto de se

    debruar a estudar nesse tema e organizar o livro La Chirognomie de 1839.

    Segundo Desbarolles (2000), Casimir teria percorrido forjas e fbricas

    investigando os dedos e as mos de aritmticos, ferreiros e artistas para compor seu acervo de

    estudo das mos. Nesse acervo esto includas as peculiaridades que as mos e os dedos

    podem apresentar, em seu sistema possvel encontrar sete tipos de diferentes mos, todas

    com conceitos e definies que corresponde personalidade das pessoas.

    Uma classificao mais complexa, abrangendo sete tipos de mos, foi feita

    pelo quiromante francs do sculo XIX Casimir dArpentigny. [...] Nesta Classificao, os setes formatos de mo so os seguintes: I. Mo elementar;

    II. Mo Quadrada, por vezes conhecida como mo til ou prtica; III. Mo espatulada, conhecida ainda como mo ativo-nervosa; IV. Mo Filosfica ou nodosa; V. Mo cmica, artstica; VI. Mo Psquica ou idealista; VII. Mo mista (KING, 1983, p. 7-8).

    As analises de Casimir Stanislas dArpentigny reuniu um resumo sobre sete tipos

    de mos possveis de se encontrar e que revelaria a personalidade das pessoas. Para Pinheiro

    (2010), as observaes e anlises de Stanislas dArpentigny sobre a fisionomia das mos teria

    possibilitado outros rumos nas tcnicas de ler mos no ocidente no que diz respeito ao aspecto

    da forma e estrutura da mo: dedos, falanges, unhas, tamanho e etc. Apesar de toda a

    organizao de Casimir, King (1983) alega que so vrios os modelos de serem classificadas

    as formas de mos. O sistema de Casimir teria sido criticado por outros quirlogos e melhor

    organizado anos depois.

  • 27

    Em Os Mistrios da Mo Adrien Desbarolles expe suas anlises sobre o formato

    das mos, dedos, montes, linhas sinais e etc., citando algumas vezes as observaes de

    Casimir Stanislas d Arpentigny. Na segunda parte do livro, intitulado de Quirognomia,

    Desbarroles parece d voz ao Capito d Arpentigny, oferecendo a hiptese que ambos

    mantinham dilogos a respeito da prtica de leitura de mos.

    Perguntei um dia ao senhor dArpentigny como descobrira o seu sistema: , respondeu-me. E, com efeito, ao falar

    assim, estava em perfeito acordo com a sua doutrina por um lado, dado que

    tem os dedos pontiagudos, e, por outro, com a magia, que explica por que

    razo os homens com dedos pontiagudo esto mais sujeitos do que os outros

    s inspiraes divinas (DESBAROLLES, 2000, p.67).

    De acordo com o site Handreling de autoria de Christopher Jones, tambm pude

    obter conhecimento que Adrien Adolphe Desbarolles (1801-1886) teria sido um pintor

    parisiense e quiromante. Na The Palsmistry (2015) tambm expe que Desbarolles no livro

    Les Mysteres de la Main publicado pela primeira vez em 1859, com perspectivas dos

    ensinamentos cabalsticos de Eliphas Levi, especialmente no que diz respeito a ideia dos

    Trs Mundos representado pela smbolo M que algumas mos podem apresentar.

    A letra M que temos na mo indica tambm trs mundos. A primeira, a linha

    da vida, rodeia a criao, o amor, o mundo material. A segunda, a linha da

    cabea, estende-se at ao meio do mundo natural, ocupa e atravessa a

    plancie e o monte de Marte; a luta que d a fora e a razo na vida. A

    terceira, a linha do corao, encerra o mundo divino representado pelos

    momentos colocados na raiz dos dedos, que os fazem, como canais,

    comunicar com a luz astral; envolve a ambio ou a religio, a fatalidade, a

    paixo pela arte, a cincia hermtica, que vm todas dos astros (DESBAROLLES, 2000, p. 117).

    De acordo com Pinheiro (2010), Desbarolles tido como uma das personalidades

    famosas dessa poca sobre os estudos da Arte de Ler Mos. Na introduo de seu livro,

    intitulado Os Mistrios da Mo (2000), Desbarolles ressalta a ideia da harmonia do universo

    lanar sinais especficos nas mos que revelam situaes importantes. Tal obra dividida em

    trs partes: a primeira, responsvel pela Quiromancia: montes e linhas; Na segunda parte

    sobre Quirognomonia; e a terceira sobre observaes e aplicaes diversas. Com ele teria

    surgido anlises com nfase em smbolos que se apresentam nas mos: linhas, montes, cruz,

    tringulo, crculo e etc. Desbarolles tambm seria o autor do livro intitulado de Revelations

    Completa publicado em 1874.

  • 28

    Figura 6 - Adrien Adolphe Desbarolles

    Fonte: Pgina EUROPENA, think culture9.

    De acordo com Pinheiro (2010), o Capito Casimir Stanislas d Arpentigny e

    Adrien Adolphe Desbarolles so considerados os pais de quiromancia moderna. Sendo o

    Capito Casimir, o observador da fisionomia das mos. E Adrien Desbarolles o responsvel

    por aprimorar as anlises feitas por Casimir Stanislas d Arpentigny, abordando tambm as

    linhas e sinais presente nas mos.

    2.3.2. A Quirologia do sculo XX.

    No finalzinho do sculo XIX, o estudo a respeito do formato, da textura das mos

    e dos dedos, assim como tambm, sobre as linhas, os montes e os smbolos continuavam a ser

    criticados por no apresentar mtodos devidos e sistemticos aos moldes do cientificismo

    moderno. Apesar disso, segundo Pinheiro (2010), esse perodo que marca o possvel incio

    da moderna Quiromancia, que passa a ser considerada por alguns autores como sendo uma

    cincia e devendo, portanto, ser chamada de Quirologia.

    Quirologia o termo por ns preferido, a Quiromancia, por ser mais

    cientifico e por excluir toda ideia oculta. A Quirologia estuda, na mo, a

    marca astral, no que acreditava Desbarolles, o grande mestre deste

    conhecimento. A mo o gesto; o gesto a palavra, a palavra a alma; a alma o homem (CARDOSO, 2000, p. 159).

    9 Endereo do site <

    http://www.europeana.eu/portal/record/03915/3DA660A397CC7769DABBC56A5EB4041F24CE25C2.html >.

    Acessado em, Ago. de 2015.

  • 29

    Cogito que o termo quiromancia adivinhao pelas mos passava a ser trocado

    por quirologia o estudo das mos por causa do cientificismo da poca, mas verificar isso

    como mais detalhes mudaria o foco do objetivo proposto para essa sesso. No entanto a parti

    da citao de Cardoso (2000), o que se pode obsevar e especular, ao sugerir que o termo

    quirologia seria mais cientfico que quiromancia, pratica que estaria envolto de uma ideia de

    ocultismo. Deixando os problemas quanto ao termo, voltemos a condens-las nesta pesquisa

    com a Arte de Ler as Mos.

    Alguns dos livros sobre a leitura de mos buscam seguir uma sistematizao que

    pudessem revelar que o estudo sobre as mos tambm mereciam ser discutidos dentro da

    academia. Mas antes que esse fato seja abordado, busquei organizar as narrativas e

    personalidades que compe o percurso da leitura de mos o mais prximo de uma linearidade.

    Dessa forma, primeiro apresentarei William Warner, considerado um grande quirlogo do

    sculo XX, e depois apresentarei algumas publicaes importantes que envolvem o mundo a

    Arte de Ler as Mos.

    Figura 7 William Warner, o Conde Louis Hamon (Cheiro).

    Fonte: (KING, 1983, p. 41)

    O irlands William John Warner (1866-1927), conhecido como Conde Louis

    Hamon, de epteto Cheiro10

    , teria impulsionado o universo da Arte de Ler Mos a outros

    patamares. As tradicionais narrativas envoltas do famoso Cheiro compe uma biografia onde

    astrologia, numerologia e clarividncia contavam como suas habilidades.

    10

    Segundo FLORENZANO, (1985, p. 9), Pronunciar: Ki-ro.

  • 30

    As vrias teorias culminaram com os trabalhos do Conde Louis Hamon,

    melhor conhecido como Cheiro, que se tornou extremante famoso devido

    exatido de suas predies. Infortunadamente, ele tambm alegava possuir

    poderes ocultos, de forma que se tornou difcil separar o aspecto tcnico

    (leitura) da quiromancia, da parte psquica (oculta) de suas interpretaes,

    que tiveram como resultado aquele brilhantes predies (BROEKMAN, 1972, p. 11).

    William John Warner, Cheiro, tambm uma personalidade envolto de diversas

    lendas. Segundo King (1983, p. 80), a vida de Cheiro em um momento correspondia a de

    um quiromante da sociedade, em seguida de um conferencista pblico. O William teria escrito

    alguns livros com temtica do universo da leitura das mos, um deles intitulado Como ler as

    mos, publicado 1894. Nesse livro, Cheiro conta um pouco de sua vida, a baixo um treco

    traduzido por Florenzano.

    No meu caso, [...], vim a ficar em situao de poder concentrar a mente

    nesse estranho estudo da vida desde a mais tenra idade. De ento at aos

    vinte anos, estudei toda a literatura que me foi possvel obter sobre o tema.

    Viajei por certo pases, tal como a ndia, o bero do conhecimento oculto, e,

    por fim, em obedincia a um voto que fizera, durante os vintes anos,

    subsequentes dediquei-me a este Estudo como carreira profissional, lendo,

    de manh noite as mos de homens e mulheres e crianas, de toda sorte e condio, em todas as partes do mundo (FLORENZANO, 1985, p. 17).

    Diversas so as tradies que esto envolta na biografia de William John Warner,

    considerado por alguns autores como um famoso quirlogo do sculo XX. Ele sem dvida

    um das personalidades que mais apareceu vinculado a Arte de Ler as Mos nas referncias

    que utilizei. No entanto, William John Warner, no foi o nico que deixou publicaes a

    respeito da leitura de mos, o mdico do exrcito mexicano Arnold Krumm-Heller (1876-

    1949) tambm desenvolveu um trabalho sobre a temtica. O Tratado de Quirologia mdica:

    diagnostico das enfermidades, publicado em 1927, uma obra com anlises e prognsticos

    feitos atravs das mos dos pacientes de Arnold. Em seu tratado alega Krumm-Heller (1985),

    mais de trinta mil casos teria provados que sempre o mesmo sinal correspondia persistncia

    de uma doena, tais observaes e coletas clnicas que remontariam vinte anos de pesquisas.

    Outra personalidade a ser ressaltada Julius Spier (1887-1942), um psiclogo

    especialista na morfologia e linhas das mos. De acordo com King (1982), Spier, passou

    vrios anos reunindo arquivos e estudando milhares de impresses palmares, descobriu que a

    quiromancia indicava acuradamente o que ele denominou reais disposies do indivduo. O

  • 31

    nico livro de Julius Spier intitulado de The Hands of Children (1944), e sua introduo de

    autoria de Carl Gustav Jung (1875-1961).

    A Arte de Ler as Mos passou gerativamente pelos sculos atravs de

    personalidades que buscaram estudar sua prtica. Muitos outros nomes e narrativas poderiam

    ser citadas e esmiuadas brevemente, mas como pertence categoria de tradies e no existe

    um nmero expressivo de pesquisa como base, torna-se difcil abord-los completamente sem

    recorrer prpria literatura nativa. Literatura essa que por si s, j bem mais confusa por

    dispor informaes fragmentadas. Reconhecendo esse problema, o critrio para construir essa

    sesso valeu-se da ideia de escolher temas que aparecessem com mais frequncia nesses tipos

    de referncias, logo, possveis de serem apresentados.

  • 32

    3. O UNIVERSO METODOLGICO-TERICO DA ARTE DE LER AS MOS.

    Uma pesquisa que traz como objeto o tema leitura de mos, no deve

    desconsiderar as narrativas que compe esse tradicional universo. Apresent-lo expor uma

    parte da vasta tradio passvel de se encontrar em um nmero expressivo de referncias

    secundrias. Est pesquisa procurou apresentar um pouco desses elementos presente nas

    narrativas como forma de oferecer ao pblico que desconhecem a histria tradicional envolta

    no tema da Arte de Ler as Mos. Dessa forma esta sesso responsvel por apresentar o

    universo metodolgico e terico da pesquisa a partir do campo de aplicao de tema Arte de

    Ler as Mos.

    3.1. HORIZONTES METODOLGICOS.

    Ao considerar que o universo da leitura mos vasto, retirou-se uma unidade dele

    e indagou-se: como ocorrem na contemporaneidade brasileira, as formas de apropriao dos

    saberes Arte de Ler as Mos? A partir de ento, foi preciso realizar uma anlise no perfil de

    pessoas que tm saberes voltado nessa temtica para compreender a questo proposta. Para

    analisar as formas de apropriaes buscou-se estruturar um caminho onde as ferramentas

    metodolgicas proporcionassem dados que visibilizassem problemtica em seu contexto

    real. Dessa forma a metodologia compreendida como,

    o caminho do pensamento e a prtica exercida na abordagem da realidade.

    Neste sentido, a metodologia ocupa um lugar central no interior das teorias e

    est sempre referida a elas. A metodologia inclui as concepes tericas de

    abordagem, o conjunto de tcnicas que possibilitam a construo da realidade (MINAYO, 1994, p. 16).

    A abordagem metodolgica foi estabelecida em consonncia s concepes

    tericas adotadas diante do carter qualitativo do fenmeno em estudo o que permitiu realizar

    uma pesquisa que buscasse compreender como ocorrem as formas de apropriao dos saberes

    e conhecimentos na Arte de Ler as Mos na contemporaneidade brasileira. Para analisar tal

    problemtica, essa pesquisa que foi dividida em trs momentos que comungam entre si tendo

    como eixo norteador os objetivos que foram propostos: levantamento bibliogrfico, pesquisa

    de campo e a sistematizao dos dados coletados.

  • 33

    3.1.1. Levantamento Bibliogrfico: o estado da Arte.

    O primeiro momento desta pesquisa est relacionado ao levantamento

    bibliogrfico que de acordo com Marconi e Lakatos (2003, p. 158), na pesquisa bibliogrfica

    h um apanhado sobre os principais trabalhos j concludos capazes de fornecer dados atuais e

    relevantes relacionado ao tema. O levantamento bibliogrfico est atrelado a todos os

    objetivos, mas especialmente no objetivo de apresentar narrativas e personalidades que

    compe a trajetria da leitura de mos. Vale ressaltar que o material mais vasto produzido a

    respeito da leitura de mos de cunho nativo e, alguns deles expem pequenas introdues

    que conjeturam origens de tal prtica, dessa forma a pesquisa bibliogrfica de extrema

    importncia porque,

    A pesquisa bibliogrfica, ou de fontes secundrias, abrange toda bibliografia

    j tornada pblica em relao ao tema de estudo, desde publicaes avulsas,

    boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material

    cartogrfico etc. (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 183).

    Recorro tambm aplicao do estado da arte, ou segundo Ferreira (2002, p.

    258), estado do Conhecimento, que um mtodo que tambm faz parte da pesquisa

    bibliogrfica, mas que procura mapear a produo acadmica produzida por diferentes

    campos do conhecimento. Esse recurso possibilitou fazer um levantamento sobre pesquisas

    voltadas para o tema da leitura de mos na academia. Verifiquei atravs dos bancos de

    dados virtuais das universidades no Brasil, com a delimitao a partir do ano de 2010 at o

    ano de 2015, se existiam Trabalhos de Concluso de Curso, Dissertaes de Mestrado e at

    mesmo Teses de Doutorados com a temtica da leitura de mos. O resultado que obtive foi

    que no havia registros nos bancos virtuais de produo acadmica em tais categorias sobre a

    temtica.

    No entanto, encontrei em alguns artigos o tema da leitura de mos, mas com

    enfoque maior sobre o povo Cigano, como por exemplo: Jos, Tereza, Zlia... E sua

    comunidade: Um Territrio Cigano (2005), de Ademir Divino Vaz, e Anlise sobre prticas

    tradicionais na Cultura Cigana, com enfoque na Quiromancia e no nomadismo (2014), de

    Luciana de Assiz Garcia. Foi a partir da produo de Luciana de Assiz, que encontrei um

    trabalho de Concluso de Curso intitulado de Olhares Mltiplos: O significado da Quirologia

  • 34

    para pessoa com diferentes escolaridades, crenas e superstio. (2008), de Karine

    Zancanaro.

    O Trabalho de Concluso de Curso de Karine Zancanaro, at o momento do

    levantamento de dados no estava registrado no banco virtual de sua universidade. Em partes,

    ele est disponvel em seu blog11

    , referncia que Luciana de Assiz utilizou para compor sua

    pesquisa. Atravs do endereo do blog que conseguir obter algumas informaes sobre a

    pesquisa de Zancanaro, e contat-la para que pudesse disponibilizar sua pesquisa. E dessa

    forma obtive o conhecimento sobre: Olhares Mltiplos: O significado da Quirologia para

    pessoa com diferentes escolaridades, crenas e superstio. Essa pesquisa est situada na

    rea de Comunicao Social, pela Universidade Catlica de Minas Gerais, e foi tambm como

    um requisito parcial para obteno do grau Bacharel em Comunicao Social, habilitao em

    Publicidade e Propaganda.

    A pesquisa de Karine Zancanaro est dividida em trs momentos: levantamento

    do referencial terico, levantamento dos dados atravs de uma pesquisa qualitativa, e os

    tratamentos dos dados obtidos. Em resumo, pesquisa de Zancanaro (2008), trata-se dos

    resultados obtidos sobre a quirologia, como o propsito de identificar a imagem da

    quirologia, antes e depois do contanto com a mesma, por pessoas de variadas crenas, nveis

    de escolaridade e grau de superstio, assim como tambm, verificar quais desses fatores

    seriam variveis intervenientes para a construo do significado da quirologia por parte dos

    pesquisados (2008, p. 4).

    Como base para anlise, Zancanaro (2008, p. 4), partiu dos princpios da

    semitica social, e recorreu ao apoio de assuntos abordadas no instrumental terico: origem e

    teoria da quirologia, o olhar acadmico sobre a quirologia e superstio, origem e imagens da

    etnia cigana, e a origem da semitica, suas principais escolas mais semitica social. Todo

    esse aparato possibilitou que Zancanaro visualizar e organizar os dados coletados para

    identificar grupos interpretativos para trs principais imagens da quirologia: charlatanismo,

    prtica esotrica, e tcnica lgica capaz de propiciar autoconhecimento (2008, p. 4).

    A pesquisa de Karine Zancanaro revela horizontes para realizar outras pesquisas

    que envolva o tema da leitura de mos, que no seja s a partir da semitica, ela mostra

    indcios de acuidade da tcnica quirolgica empregada, fator de sustento para realizao de

    trabalhos futuros. (ZANCANARO, 2008, p. 4). Assim como tambm, uma pesquisa de

    11

    Quirologia Brasil disponvel em: < https://karinemaria.wordpress.com/2011/02/ >. Zancanaro tambm a Idealizadora da Quirologia Brasil disponvel: < http://www.quirologiabrasil.com.br/idealizadora.html >.

  • 35

    suma importncia, pois Zancanaro delineia um caminho possvel para trazer essa temtica

    para dentro das discusses e reflexes da academia.

    3.1.2. A construo da pesquisa qualitativa.

    Ao ter realizado o levantamento bibliogrfico, e visualizado as produes

    acadmica atravs do estado da arte, foi possvel construir um caminho para esta pesquisa.

    Com o propsito de apresentar as narrativas e as personalidades que compe o percurso da

    leitura de mos, estabeleo um dilogo entre pesquisa bibliogrfica e um estudo histrico para

    expor com melhor delineao dessa temtica. O estudo histrico pertinente diante do

    desafio desta pesquisa j que a Arte de ler as Mos um tema insuficientemente explorado

    dentro dos espaos de pesquisas acadmicas.

    O mtodo histrico preenche os vazios dos fatos e acontecimentos,

    apoiando-se em um tempo, mesmo que artificialmente reconstrudo, que

    assegura a percepo da continuidade e do entrelaamento dos fenmenos (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 107).

    As literaturas secundrias sobre a leitura de mos contm pequenos esboos sem

    uma abordagem especfica dessa temtica, especialmente no que diz respeito ao possvel

    bero dessa arte. A partir do levantamento bibliogrfico foi possvel construir um percurso

    histrico artificial, onde outras perspectivas nativas clarearam os temas que esto envolto da

    tradio. Dentro de uma lgica linear, a ferramenta artificial histrica, procurou apresentar um

    possvel percurso da leitura de mos que situem o leitor que desconhece a tradio.

    Para dar conta sobre proposio dos saberes e conhecimento Arte de Ler as

    Mos na contemporaneidade brasileira, recorro a uma pesquisa qualitativa com caracterstica,

    descritiva e analtica para contemplar o segundo e o terceiro objetivo: analisar o perfil

    daqueles que tm saber/conhecimento na Arte de Ler as Mos e compreender como ocorrem

    as formas de apropriao Arte de Ler as Mos. Dessa forma, a segunda etapa realizou-se

    atravs de uma pesquisa de campo de cunho qualitativa que,

    Trabalha com o universo de significados, motivos, aspiraes, crenas,

    valores e atitudes, o que corresponde a um espao mais profundo das

    relaes, dos processos e dos fenmenos que no podem ser reduzidos operacionalizao de variveis (MINAYO, 1994, p. 22).

  • 36

    Atravs da pesquisa qualitativa optou-se por balizadores para uma melhor

    delimitao da seleo no territrio brasileiro de pessoas que tm saberes e conhecimentos

    voltados rea de leitura de mos. A estratgia que balizam a seleo dos intrpretes ocorreu

    nos seguintes quesitos e consideraes:

    Quadro 1: Estratgia para a seleo dos intrpretes.

    Aps ter organizado a estratgia e seus balizadores para a seleo dos intrpretes,

    no primeiro momento, atravs dos recursos que as novas tecnologias de informao e

    comunicao/NTICs proporcionam, buscou-se durante trs meses12

    fazer uma pesquisa a

    partir de sites virtuais de buscas com as seguintes palavras: Quiromancia, Quirologia e Leitura

    de Mos. O banco de dados virtual revelou um nmero expressivo de pessoas que abordavam

    tais palavras em sites. Tendo em vista o vasto campo virtual, decidiu-se ento inserir um

    desdobramento para a estratgia. Dessa forma para uma nova busca virtual, considerou-se que

    sites e blogs estivessem de acordo com:

    Quadro 2: Desdobramento da estratgia de seleo virtual.

    12

    Est pesquisa comeou de fato com a realizao do projeto no segundo semestre do ano de 2014. No comeo

    do ms de novembro do mesmo ano, passei a realizar o levantamento de pesquisa virtual para os intrpretes, isso

    durou entorno de trs meses Novembro, dezembro de 2014 e Janeiro de 2015. Entre finalizao da busca virtual e o retorno das respostas das pessoas que iria participar, mais a coleta de dados, durou quatro meses de fevereiro at maio de 2015. Mais os dados da ltima intrprete, toda a pesquisa qualitativa de fato terminou no

    ms de setembro de 2015.

    I.Homens e Mulheres que obtm conhecimento na Arte de Ler as mos

    que pudessem participar por interesse e disponibilidade; Para que esta pesquisa fosse realizada sem fins lucrativos;

    II.Intrpretes de diferentes regies Brasil - Considerado que o fenmeno

    religioso se manifesta por diferentes concepes nas regies brasileiras.

    III.Acima de trinta anos; considerado que essa faixa etria estaria

    relacionada as solidificaes dos temas saberes e conhecimento dos

    intrpretes desta pesquisa;

    a) A pgina virtual estivesse estruturada no tema da pesquisa;

    b) Administrador da pgina ativo em suas publicaes - com ltima postagem do ano de 2015;

    c) sites, blogs, pginas de lngua portuguesa.

  • 37

    A partir do desdobramento a seleo de intrpretes reduziu o nmero de pessoas

    na busca virtual. Encontrei na pesquisa virtual, pginas estruturadas com o tema da pesquisa,

    com administradores ativos em suas postagens, com ltima publicao no de 2015 e em

    lngua portuguesa. Aps entrar em contato com alguns administradores, dois deles

    gentilmente aceitaram participar dessa pesquisa: Adriana e Jorge. Adriana, que proporciona

    workshop de leitura de mos, pedi que indicasse outra pessoa de seu meio que conhece essa

    tcnica, ela me indicou duas outras pessoas, dessas duas, apenas Jasmim13

    cordialmente

    continuou at o fim do das entrevistas.

    Tais selees tambm foram lanadas para metrpole do estado do Par. Mas no

    obtiveram sucesso. No encontrei administradores de pginas referentes ao tema na busca

    virtual. Ento recorri a uma pesquisa na metrpole tendo como referncias dois endereos

    cedidos por amigos que frequentaram estabelecimentos considerados esotricos por ambos.

    As duas pessoas que alegaram fazer leitura de mos no puderam participar dessa pesquisa,

    uma alegou no ter interesse, e a segunda solicitou um determinado valor lucrativo pelas

    informaes que poderia oferecer. Precisamente no ms de agosto, conversando com uma

    amiga egressa do curso de Cincias da Religio sobre a minha pesquisa, ela informou que sua

    tia sabia essas coisas de leitura de mos. E dessa forma, entrei em contato com a ltima

    intrprete para essa pesquisa.

    Por fim, est pesquisa acabou composta por quatro intrpretes14

    . com idades entre

    30 a 59 anos, com diferentes escolaridades, crenas e que tem saberes e conhecimentos

    voltados rea de leitura de mos e diferentes localidade do territrio brasileiro. As

    ferramentas usadas para sistematizar os dados e compor a anlises foram atravs de

    entrevistas e questionrios.

    Questionrio um instrumento de coleta de dados, constitudo por uma srie

    ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a

    presena do entrevistador. Em geral, o pesquisador envia o questionrio ao

    informante, pelo correio ou por um portador; depois de preenchido, o

    pesquisado devolve-o do mesmo modo. Junto com o questionrio deve-se

    enviar uma nota ou carta explicando a natureza da pesquisa, sua importncia

    e a necessidade de obter respostas (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 201).

    Atravs do questionrio foi possvel coletar os dados para essa pesquisa. E esse

    questionrio era norteado com trs temas: o primeiro intitulado de Perfil: nomes, idades,

    13

    Jasmini um nome espiritual de Flvia Lopes, ela pediu para utiliza-lo na pesquisa. 14

    Os intrpretes tero seus nomes divulgados. Os termos de concesso esto ao final desse trabalho.

  • 38

    localidade, escolaridade, religio e/ou espiritualidade, e tambm o contato com outras

    religies; O segundo responsvel pela Apropriao da Arte de Ler Mos (ALM): de onde

    provinha o conhecimento da ALM, processos de aprendizagem da ALM, mtodos durante o

    aprendizado e se recebia ajuda ou auxilio durante a prtica da ALM. E por fim, o terceiro

    visava o Ensino da ALM: como algum poderia dispor ou obter conhecimento da ALM,

    ensinar outras pessoas e estrutura do Ensino da ALM. Atravs dos temas, foi possvel

    organizar de uma forma mais didtica a anlise dos coletados. O quadro abaixo possibilita

    visualizar didaticamente tais informaes.

    Quadro 3: Diviso didtica do questionrio15

    .

    Com os questionrios didaticamente estruturados com temticas especficas foi

    possvel coletar os dados atravs de perguntas abertas. Trs vias desse questionrio, foram

    respondidos virtualmente e encaminhados pelo meu endereo de email. Tambm, por meio da

    internet pude enviar um questionrio minha amiga que mora nas proximidades da quarta

    intrprete dessa pesquisa, ou seja, em Icoaraci, para que ela pudesse d a sua tia. Com o

    retorno do questionrio imprimido e escrito manualmente no inicio de setembro, notei durante

    a anlise que algumas respostas no davam para compreender. Como o tempo que organizei

    para finalizar a anlise estava acabando, recorri a uma entrevista.

    A entrevista um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas

    obtenha informaes a respeito de determinado assunto, mediante uma

    conversao de natureza profissional. um procedimento utilizado na

    investigao social, para a coleta de dados (MARCONI; LAKATOS, 2003,

    p. 195).

    15

    O questionrio na integra para coleta de dados est nos apndices.

    Questionrio

    I - Perfil

    II - Apropriao da

    ALM:

    III - Ensino da ALM

    1.Nome;

    2.Idade;

    3.Localidade;

    4.Escolaridade;

    5.Religio e/ou Espiritualidade

    6.Contato com outras

    religies;

    7. De onde provm o

    conhecimento da ALM;

    8.Processos de

    aprendizagem da ALM;

    9.Ajuda ou auxlio para

    a prtica de leitura de

    mo;

    10.como algum poderia

    dispor ou obter conhecimento da ALM;

    11.Ensinar outras pessoas e estrutura do Ensino da ALM;

    12.Estrutura do Ensino da

    ALM;

  • 39

    Em setembro j com a entrevista agendada, me desloquei com um roteiro para

    auxiliar na coleta de informaes at Icoaraci, um distrito administrativo pertencente ao

    municpio de Belm. E de entrevista, passou a ser uma conversa calorosa, que fluiu

    gradativamente a partir do momento que as minhas mos foram analisadas. De fato, atravs

    da leitura realizada em minhas mos, que Maria gentilmente com sua voz meiga foi me

    revelando os dados para essa pesquisa.

    Durante a entrevista sucedeu, que apesar de ter estruturado um roteiro no foi

    possvel segui-lo na ordem linear que estava estabelecido, isso ocorreu porque a intrprete da

    pesquisa oferecia os dados no decorrer da anlise das minhas mos. Dessa forma, notei que as

    minhas mos haviam aberto espao para fluir melhor a entrevista, ento deixei que a

    entrevista prosseguisse de tal forma. Enquanto Maria analisava as minhas mos, tambm

    revelava algumas informaes que possibilitavam espaos necessrios para tecer as perguntas.

    E assim, ela ia analisando as minhas mos e respondendo as perguntas estruturadas, maneira

    essa que resultou na falta de linearidade do roteiro que estava constitudo.

    Dessa conversa com Maria, alm de obter dados, foi possvel absorver o

    conhecimento emprico de sua prtica de leitura de mos, tendo como referncias as minhas

    palmas, que as registrei e constam nos anexos desta pesquisa. Tambm acabei obtendo

    conhecimentos voltados a Arte de Ler as Mos, pois ao mesmo tempo em que Maria analisava

    as minhas palmas, ia descrevendo de uma forma bem didtica com indagaes para que eu

    relembrasse o que ela estava dizendo, como por exemplo, onde mesmo que fica a linha da

    vida?. De um lado foi extremamente produtiva essa entrevista que virou uma conversa, mas

    por outro, como o roteiro havia deixando de ser linear, um intenso trabalho realizou-se para

    transcrever o udio que estava gravado.

    Os procedimentos mencionados na segunda etapa da pesquisa viabilizaram a

    coleta dos dados para analisar os perfis daqueles que tem saberes e conhecimento na Arte de

    Ler as Mos, e compreender como ocorreram essas formas de apropriao. Foi possvel

    analisar o perfil dos intrpretes desde suas idades, a localidade em que vivem atualmente,

    escolaridade, suas crenas, no quesito religio ou espiritualidade at chegar aos seus saberes e

    conhecimentos para a Arte de Ler as Mos.

    Aps toda a coleta dos dados, por fim, chegou-se a terceira etapa dessa pesquisa:

    sistematizar os dados coletados e analis-los. A anlise consistiu na organizao do contedo

    em forma de quadro temtico com identificao das recorrncias, sensos e dissensos entre os

    contedos das diversas entrevistas. No primeiro momento o quadro foi elaborado centrado na

  • 40

    resposta de cada entrevista, depois foi feito o estudo comparativo entre elas. A sistematizao

    dessas duas etapas gerou resumos individuais (por entrevista) e coletivos (entre entrevistas). A

    anlise propriamente dita considerou: 1) a triangulao entre os estudos da teoria, 2) as

    sistematizaes das entrevistas por temtica e, 3) as consideraes que desenvolvi gerando as

    interpretaes que indicam os resultados diante do problema investigado no estudo.

    Para dar continuidade a esta pesquisa realizo adiante a triangulao entre os

    estudos das teorias que envolvem essa pesquisa, para que na prxima sesso, a sistematizao

    das entrevistas seja exposta e por fim, as minhas consideraes referentes aos dados obtidos.

    3.2. PERSPECTIVAS TERICAS.

    Em conjunto com os horizontes metodolgicos, os referencias tericos so bases

    substncias para essa pesquisa. De um lado estruturei consideraes feitas ao que seria a

    ecologia de saberes e a importncia de discutir tal proposta. E por outro lado, estabeleci

    apontamentos ao fenmeno religioso, especialmente no que diz respeito ao territrio

    brasileiro.

    3.2.1. O vasto campo de saberes.

    Dentro do espao delimitado ideia de ocidente, aos Gregos atribudo o

    surgimento do pensamento racional e filosfico. Mais tarde, aproximadamente no sculo XV

    na Europa, nascia a intitulada cincia moderna. Para Cervo e Bervian (2002), a cincia, at a

    Renascena, era tida como um sistema de proposies rigorosamente demonstrados,

    constantes e gerais que expressavam as relaes existentes entre seres, fatos e fenmenos da

    experincia. A novidade da cincia moderna, de acordo com Magee (2001), era o fato de sua

    insistncia em testar as teorias por confronto direto com realidade, verificando-as pela

    observao e mensurao dos dados que elas deviam explicar.

    Nas abordagens de Cervo e Bervian (2002, p. 5), h a reflexo de que cada poca

    elabora suas teorias segundo o nvel de desenvolvimento em que se encontra, substituindo as

    antigas que passam a ser consideradas como superadas e anacrnicas por novas ideias, ou

    outros paradigmas. O modelo de cincia moderna exclusivista e legitimadora do saber tema

    de discusses nas cincias humanas, pois cada vez mais se reconhece que uma nova

  • 41

    conscincia sobre as esferas que compe a sociedade vem tentando se estabelecer no

    alvorecer do sculo XXI.

    Novas abordagens epistemolgicas seguem nesse rumo que faz estalar as bases da

    supremacia do cientificismo para olhar a rede de interrelaes entre saberes e conhecimentos

    existentes na humanidade. Por meio do campo sociolgico Boaventura de Sousa Santos expe

    abordagens que reconhece a diversidade inesgotvel e inabarcvel das experincias de vida e

    de saber do mundo (SANTOS, 2008, p. 20 Artigo). Entre as crticas de Santos, encontramos

    o tema da razo indolente, uma discusso sobre o modelo de supremacia da racionalidade

    cientfica,

    que conhece mal os limites do que permite conhecer da experincia do

    mundo e conhece ainda menos os outros saberes que com ele partilham a

    diversidade epistemolgica do mundo. Alis, mais do que no conhecer os

    outros saberes, recusa reconhecer sequer que eles existam (SANTOS, 2008a,

    p.27).

    Nas reflexes sobre a epistemologia, Boaventura compe argumentos que mostra

    o quanto a racionalidade da moderna cincia no reconhece outros saberes, e at chega a se

    recusar em reconhecer que eles existam. De acordo com Santos (2002, p. 12), tudo que no

    legitimado ou reconhecido declarado inexistente, e a no-existncia assume a forma de

    ignorncia ou de incultura. E nesse aspecto que reside importncia, da sociologia dos

    saberes ausentes, para que seja feito a identificao dos saberes produzidos como no

    existentes pela epistemologia hegemnica (SANTOS, 2008a, p. 27).

    Outra crtica lanada por Boaventura (2008a, p. 94), que a experincia social

    em todo mundo mais ampla e variada do que a tradio cientfica ou filosfica ocidental

    conhece e considera importante e, no entanto, esta riqueza no levada em total

    considerao. Boaventura alega haver uma pluralidade infinita de saberes existentes no

    mundo, e at inatingvel quanto tal, considerando o aspecto que cada saber s pode d conta

    parcialmente, a partir da sua perspectiva especfica. No entanto,

    por outro lado, como cada saber s existe nessa pluralidade infinita de

    saberes, nenhum deles pode compreenderse a si prprio sem se referir aos outros saberes. O saber s existe como pluralidade de saberes [...] As

    possibilidades e os limites de compreenso e de aco de cada saber s

    podem ser conhecidas na medida em que cada saber se propuser uma

    comparao com outros saberes. Essa comparao sempre uma verso

    contrada da diversidade epistemolgica do mundo, j que esta infinita [...]

    Nessa comparao consiste o que designo por ecologia de saberes (SOUZA,

    2008a, p. 27-28).

  • 42

    Na perspectiva de Boaventura, a ecologia dos saberes parte da ideia de ser plural,

    onde cada saber est responsvel apenas por uma especificidade. Nenhum saber pode

    compreender-se a si prprio sem se referir aos outros saberes, ou seja, existe uma rede que

    conecta cada saber, formando uma ecologia de saberes. E dessa forma, Boaventura de Souza

    Santos, ento prope uma nova abordagem epistemolgica, a de reconhecer e compreender a

    ecologia de saberes.

    A ecologia de saberes visa criar uma nova forma de relacionamento entre o

    conhecimento cientfico e outras formas de conhecimento. Consiste em

    conhecer igualdade de oportunidades s diferentes formas de saberes envolvidas em disputas epistemolgicas cada vez mais amplas, visando a

    maximao dos seus respectivos contributos para a construo [de] um outro mundo possvel (SANTOS, 2008b, p.108).

    A partir das contribuies de Boaventura sobre a ecologia de saberes, se passa a

    observar ento a crtica feita monocultura do saber legitimada pela cincia moderna. De

    acordo com Santos (2002, p.17.), a ecologia de saberes permite no s superar a monocultura

    do saber cientfico, como a ideia de que os saberes no cientficos so alternativos ao saber

    cientficos. O relacionamento que pode haver entre o conhecimento cientfico e as outras

    formas de saberes consistem em tem conscincia de no subalternizar outros saberes, mas

    compreender que eles esto interligados. necessrio ento realizar discusses quanto ao

    critrio de validade alternativas sem que eles sejam desqualificados pelo rigor cientficos e

    seu cnone epistemolgico.

    A questo no est em atribuir igual validade a todos os tipos de saber, mas

    antes em permitir uma discusso pragmtica entre critrios de validade

    alternativos, uma discusso que no desqualifique partida tudo o que no

    se ajusta ao cnone epistemolgico da cincia moderna (SANTOS, 2008b, p.108).

    Para Boaventura (2008b, p. 142), o reconhecimento da diversidade epistemolgica

    do mundo sugere que a diversidade tambm cultural e, em ltima instncia, ontolgica,

    traduzindo-se em multiplicas concepes de ser no mundo. E ainda mais, essa multiplicidade

    de saberes se assenta no reconhecimento da pluralidade de saberes heterogneos. Na

    perspectiva da Gramtica do Tempo (2008), a ecologia de saberes est pautada no

    reconhecimento de diversos saberes e prticas exercitada pela humanidade. E tais prticas

    heterogneas implicam tambm na independncia complexa dos diferentes saberes que

  • 43

    constituem o sistema aberto do conhecimento em progresso constante da criao e renovao

    (2008b, p. 157). Dessa forma, no desqualificar as formas de outros saberes possibilitar

    reconhecer uma pluralidade de carter infinito.

    3.2.2. O fenmeno religioso no Brasil.

    A partir de uma tica imbuda de cientificismo, o fenmeno religioso passou

    tambm a ser objeto de pesquisas e por consequncia a ser criticado por alguns crticos

    modernos. Entre as tantas abordagens sobre o fenmeno religioso, ressalto apenas duas

    hipteses que foram lanadas durante o sculo XIX: de um lado em determinado momento da

    histria ocorreu o pronunciamento do fim da religio e, de outro, mais tarde se passava alegar

    o seu retorno: o retorno do sagrado. O suposto inevitvel desaparecimento da religio era

    uma ideia filha do positivismo e do evolucionismo cientfico que tinham como dominador

    comum,

    a busca de um paradigma de cientificidade subjacente s vrias disciplinas

    em jogo, capaz de fundamentar e garantir criticamente os prprios

    resultados, bem como a pesquisa tpica do pensamento da poca, marcada

    por aquilo que Eliade denominou como saudade das origines, daquele prius histrico, daquelas formas elementares, daqueles princpios germinais que constituiriam o incio (cronolgico-lgico-axilgico) do desenvolvimento religioso da humanidade (FILORAMO; PRANDI, 1999, p. 8).

    A crtica de Filoramo e Prandi justamente sobre as ideias advindas do casamento

    entre o ideal de evolucionismo e positivismo. A busca pelo incio do desenvolvimento

    religioso da humanidade e as anlises e explicaes para o fenmeno religioso at meados do

    sculo XX, delineou um contexto propcio para o discurso do suposto desaparecimento da

    religio. As pesquisas sistemticas e metdicas desenvolvidas por alguns crticos que

    absorviam as ideias da moderna cincia legitimadora da verdade e progressista teriam sido as

    bases para o discurso do fim da religio.

    As cincias sociais enquanto estiveram dominadas por uma srie de pressupostos

    de um contexto progressivo e evolucionista do sculo XIX estava com a sua tica voltada a

    outros horizontes do desenrolar da histria da humanidade, e no se atinha ao fato do contnuo

    exerccio do fenmeno religioso. A superao da ideia do fim da religio no ocidente ocorreu

    at bem pouco tempo atrs, atravs da hiptese de um retorno do sagrado ou da religio.

  • 44

    Retorno esse, na perspectiva de Clifford Geertz (2001), erroneamente concluindo, porque na

    verdade a religio sempre esteve presente, o problema era a ateno das cincias sociais terem

    se desviados para outros campos.

    Enquanto se desenrola a histria poltica explosiva do sculo nascente, o

    desdobramento mais notvel e o mais surpreendente que as cincias sociais se veem obrigadas a enfrentar na cena mundial com certeza aquilo

    que se usa denominar, muitas vezes erroneamente, como o retorno da religio. Erroneamente porque na verdade a religio nunca desapareceu foi a ateno das cincias sociais que se desviou a outros campos (GEERTZ, 2001, p. 10).

    No havia ento um retorno da religio, se a mesma nunca havia desaparecido.

    Esse fenmeno sempre esteve interligado com a estrutura social, impulsionada pela

    humanidade, porque a religio s existe no horizonte humano (CONCEIO, 2011, p.

    890). No sculo XXI compreende-se que no possvel afirmar um retorno da religio, se a

    religio jamais saiu do palmo social, o que se observa uma nova releitura e at

    ressignificao das tradies religiosas com o novo contexto que se delineia atravs de novas

    concepes e compreenso do mundo atual.

    Ao considerar que o fenmeno religioso se manifesta de diferentes formas nas

    sociedades tendo como norteador a tica do ser humano, logo, tal caracterstica expe um

    horizonte plural e diversificado. E no de hoje que se visualiza um nmero expressivo de

    diferentes sociedades, onde o fenmeno religioso foi e compreendido de maneiras

    particulares em diversas pocas e contextos. Sem estender essa temtica para propores

    gigantescas, delimitei-o a partir de onde est pesquisa foi realizada, o Brasil.

    A partir das abordagens de Ivo Oro (2013, p. 49), que teve como base os dados

    relacionados s religies, publicados pelo IBGE Censo Demogrfico 2010 e pela

    Fundao Getlio Vargas, de um modo geral o Brasil, mostrou-se um territrio possvel de se

    encontrar inmeras formas das pessoas se relacionarem com o fenmeno religioso, seja por

    meio de instituies religiosas ou desvinculadas delas. Uma diversidade plural que

    observvel em todo mundo, desde diferentes pocas e contexto. Mas no muito recentemente

    que tem se reconhecido e discutido tais temticas.

    Na atualidade essa presena diversificada e plural em que se manifesta o

    fenmeno religioso, na perspectiva de Ivo Oro (2013), em parte ocorreu por causa dos

    recursos de mdia e comunicao social em conjunto com a globalizao. Alm de outros

    fatos, tambm se deve ressaltar, por exemplo, o declnio da supremacia crist no ocidente e

  • 45

    sua separao com o Estado. Ainda de acordo com Ivo (2013, p. 76), o pluralismo religioso

    atual fornece condies para que se esteja em contato com elementos culturais e religiosos de

    diversas origens e procedncias.

    Os meios de comunicao possibilitam a difuso e divulgao de tudo o que

    ocorre, as pessoas esto continuamente em contato e, possivelmente,

    absorvendo e se impregnando de ideias, valores, propostas, smbolos de

    outras religies ou Igrejas que no especificamente da sua religio (ORO,

    2013, p. 77).

    O fato das pessoas poderem absorver valores, propostas, narrativas mticas,

    smbolos e ritos de outras religies que no seja especificamente de suas crenas, possibilita

    observa uma camada de prticas que vo se juntando a partir daquilo que o ser humano

    organiza e d flexibilidade. De acordo com Oro (2013), as pessoas que frequentam pouco as

    instituies religiosas ou no se ligam a nenhuma Igreja, tambm podem ter seus momentos e

    objetos religiosos. interessante ressaltar tambm nessa discusso a respeito da

    espiritualidade um dado que aparece no IBGE e vem ganhando espao para ser discutido.

    Ao analisar as espiritualidades, uma das sinalizaes importante enfatizado por

    Ivo Oro (2013) reconhecer que o ser humano possui uma pluralidade de dimenses que no

    se restringe apenas a matria fsica ou corprea, ou at mesmo as potencialidades

    neurobiolgicas: sentimentos, emoes, afetividade, pensamento entre outros aspetos. Mas

    que somos tambm esprito, pois muitas atividades no so materiais nem palpveis (ORO,

    2013, p. 74). Nessa perceptiva o corpo alimentado por outras dimenses que so cultivadas

    por distintas formas de enxergar o fenmeno religioso, seja por meio das instituies

    religiosas ou desvinculadas a elas. A partir da perspectiva de Ivo Oro, todas as pessoas tm

    propriedades que corresponde espiritualidade, mas cada pessoa exercita esse elemento de

    maneira diferente.

    Diversos elementos de diferentes religies ou espiritualidades podem ser

    agregados em um conjunto de prticas que tem significado para a pessoa que a pratica. Na

    perspectiva de Ivo Oro (2013), o contexto brasileiro pluralista e marcado pelo subjetivismo.

    Na contemporaneidade esse pluralismo de prticas religiosas ou de carter espiritual

    evidente e at mesmo se mistura ao cenrio de metrpole industrial. Tal caracterstica

    possvel de se observar no mapeamento realizado por Jos Magnani (1992), para instituies,

    espaos, associaes, ncleos centros e lojas dedicadas a diversas e diferentes prticas de

    tradies religiosas ou espirituais.

  • 46

    Uma das anlises construdas por Magnani o fato de que um contato mais

    sistemtico com esse universo, alm de mostrar um pblico que consome talvez at

    ingenuamente tais prticas, tambm revela um tipo mais exigente, informado que se dedica a

    alguns desses temas com outra atitude (1999, p. 10). Na urbe paulista, atravs da listagem

    organizada por Jos Magnani (1992), o conjunto de vrias e diferentes prticas coexistem

    entre si, como por exemplo, consulta a orculos e prticas adivinatrias, terapias orientais, e o

    fornecimento de cursos ou workshops vinculados s prticas, crenas, sistemas filosficos e

    entre outros temas. Elementos esses agora possveis de visualiza-los em toda a parte:

    nos anncios classificados de jornais e revistas, em lugar de destaque nos

    estandes das livrarias e no topo das listas do mais vendidos, tema de talk-

    shows da televiso e de chats na internet, faz parte de selecionados mai-lings

    mas tambm circula nos adesivos de automveis, divulgado em folhetos

    e,finalmente, estava, na poca, disponvel na linha 0900 de servios de

    telefone. (MAGNANI, 1999, p. 9-10).

    As prticas oferecidas por jornais, revistas, sites entre outras ferramentas da

    comunicao, em sua maioria, na perspectiva de Magnani (1992), so consideradas

    desprovidas de base cientfica, como por exemplo, as adivinhaes. Na perspectiva de Ivo

    Oro (2013), as religies institucionalizadas ainda repulsam e condenam tais prticas,

    chamando-as de supersties e crendices. Apesar de ser considerada no cientfico, a

    adivinhao para Pennick (1992), um mtodo de adquirir conhecimentos indisponveis por

    outros meios.

    o principio bsico da adivinhao transcende ou ultrapassa o quadro

    materialista do mundo prevalecente nos dias atuais. A viso cientfica do

    mundo analtica, no sentido reducionista. Ela procura e consegue, de maneira brilhante na maioria dos casos explicar a infinidade de fenmenos da existncia valendo-se da fsica, dividindo e decompondo

    cada matria e cada interao em seus componentes bsicos. Infelizmente,

    o inato sistema de crena adotado pela viso cientifica do mundo descarta

    qualquer outro sistema de maneira automtica exclusivo, afirmando representar a nica realidade objetiva. Quando h alguma ateno

    adivinhao, apenas para firmar que se trata de um sistema de crena cujo estudo est afeto antropologia social (PINNICK, 1992, p. 9).

    Esta discusso de Pinnick importante, pois d suporte para visualizar que as

    prticas e saberes voltados ao tema da adivinhao so subalternizados pela cincia moderna,

    que analtica, no sentido reducionista. Tomando o campo de aplicao dessa pesquisa, a

    Arte de Ler as Mos, uma prtica que situa em dois planos, ora por adivinhao, em seu

  • 47

    termo de quiromancia, ora por um rigor cientfico, atravs da forma de quirologia. Mas est

    pesquisa no est preocupada e nem tem o interesse de discutir se as adivinhaes so prticas

    verdadeiras. O propsito trazer para a discusso o fato de que existe um saber exercido e

    praticado por pessoas que lidam com tais tcnicas. E esses tipos de saberes e prticas foram e

    ainda permanecem subalternizados.

  • 48

    4. O QUIRLOGO CONTEMPORNEO.

    Analisar o perfil daqueles que tem saberes a Arte de Ler as Mos no sculo XXI

    consistiu em propor pessoas com nomes, idades, escolaridades e que se identificam com

    alguma religio ou espiritualidade, assim como se j estiveram alguma vez em contatos outras

    formas em que o fenmeno religioso possa se manifestar. Esses aspectos possibilitou

    compreender que cada um deles detm uma experincia especfica que compe um tipo de

    vitral, onde cada pedao uma unidade que reflete a colorida histrias de vida que eles

    possuem, desde infncia at a vida adulta. Dessa forma, essa sesso responsvel por trazer a

    anlises e resultado dos dados obtidos. Para uma melhor visualizao e abordagem da coleta

    dos dados, organizei os tpicos abaixo didaticamente de acordo com os temas que envolvia

    estrutura dos questionrios, mencionados anteriormente na metodologia.

    4.1. O PERFIL DOS INTRPRETES.

    A primeira parte do questionrio envolveu o tema do perfil dos intrpretes. Essa

    parte estava responsvel por coletar: nome, idade, localidade, escolaridade, religio ou

    espiritualidade, e contanto com outras formas em que o fenmeno religioso possa se

    manifestar. Nesses primeiros dados j foi possvel observar o carter de ecologia de saberes,

    como tambm, a diversificada da manifestao do fenmeno religioso no territrio brasileiro.

    No quadro a baixo possvel visualizar as primeiras informaes:

    Nome Idade Localidade Religio ou Espiritualidade Escolaridade

    Adriana 41 So Paulo Candombl Jj onde pretendo

    permanecer pelo resto de vida

    eu tiver.

    Superior Incompleto Curso

    de Direito

    Jasmim 30 Diadema no ABC

    Paulista

    Espiritualista*16

    Mestrado em Administrao

    e empreendedorismo

    Jorge 59

    Indaial, SC Sou Cristo Espiritualista.

    Desde os 7 anos de idade

    Superior Completo

    Ps em Logstica

    Maria das

    Graas

    56 Distrito de

    Icoariaci - PA

    Umbandista Esprita e Candomblecista

    Superior

    Psicologia

    Quadro 4: perfil dos intrpretes dessa pesquisa.

    16

    O asterisco sinaliza que essa resposta foi resumida com o intuito de melhor ser apresentada em um pargrafo.

  • 49

    Os quatros intrpretes dessa pesquisa ofereceram por diferentes abordagens

    diversos temas que formam unidades que resultam em um vasto saber, ou seja, uma ecologia

    de saberes, que na perspectiva de Boaventura (2008b, p. 142), tambm uma pluralidade de

    saberes heterogneos. Entre os saberes dos intrpretes procurei destacar trs aspectos que

    coexistem em suas vidas: os saberes voltado ao tema a Arte de Ler as Mos, os

    conhecimentos adquiridos pelo nvel superior e os conhecimentos nutridos pela religio ou

    espiritualidade em que eles se identificam.

    interessante notar que na pergunta relacionada ao contato com outras religies

    ou espiritualidades, todos os intrpretes alegaram pelos menos mais de trs tradies

    religiosas. Em suas respostas apareceram subsdios para visualizar a vasta manifestao do

    fenmeno religioso no Brasil, assim como a possibilidade de absorver ideias, valores,

    propostas, smbolos de outras religies e Igrejas (ORO, 2013, p. 77). No coloquei no

    quadro relacionado ao perfil, pois as respostas foram bem desenvolvidas por estar conectada a

    histria de vida de cada intrprete. Comeando por Adriana, a respeito do contanto com

    outras religies escreveu: Nasci em um lar catlico, trabalhei como voluntria de espiritismo

    30 anos entre kardecismo e umbanda, conheci a igreja evanglica, mas foi s de passagem

    por conhecimento.

    Dentre os intrpretes apenas Jasmim, a respeito de sua espiritualidade, concentrou

    uma resposta mais detalhada: Hoje no pratico nenhuma religio convencional, me considero

    espiritualista, acredito que cada religio com as quais tive contato tem aspectos positivos que

    podem me auxiliar na minha caminhada espiritual. Considero que tenho minha prpria

    religio. J faz uns trs anos que pratico. E sobre contato com outras religies ela escreveu:

    Sou uma curiosa de religies, fui criada na religio catlica, conheci ainda na infncia um

    pouco da evanglica, depois de adulta, conheci a budista, adventista, umbanda, candombl,

    kardecismo. Em sua fala possvel observar o absorvimento para si prprio benefcios de ter

    estado com outras religies, anteriormente abordado por Ivo Oro.

    Na abordagem de Jorge, possvel verificar no s o aspecto de absorvimento de

    diferentes concepes traada por Ivo Oro (2013), mas tambm a prpria tessitura de ecologia

    saberes de Boaventura. O contato com outras religies aconteceu desde sua infncia, e toda a

    sua vida ele se viu em contato com diferentes tradies religiosas: Sou filho de pai luterano e

    me catlica. Meus filhos estudaram em Colgio Adventista. Minha esposa foi Criada na

    Assembleia de Deus. Meu padrasto era da Igreja Reformada. Minha famlia batizada na

    Igreja Mormon, inclusive eu. Fao parte de todas estas religies. Fiz escola de aprendizes do

  • 50

    Evangelho. Fao parte da Fraternidade dos Discpulos de Jesus. Fao parte da Grande

    Fraternidade Branca do Espao. Fiz curso completo e fui mdium de Umbanda. E outras

    coisas mais como Mahikari, I am, etc.

    Com a necessidade de se realizar uma entrevista, almejando obter um melhor

    desenvolvimento de algumas respostas, Maria das Graas possibilitou uma compreenso das

    religies que escreveu em questionrio. Em entrevista alegou: Sou umbandista e fiz

    recentemente... ... feitura no Candombl. Eu sou do Ketu. Em dvida, perguntei se ela tinha

    ento passando de uma religio para outra, e sua resposta foi: Continuo nelas todinhas. E sou

    esprita. Sou mentora espiritual na mesa esprita. Eu abro a mesa esprita e fao a cura

    espiritual tambm. Entre as trs religies citadas por Maria a sua relao com o espiritismo se

    deu primeiramente dentro de sua casa por intermdio de sua me: eu seguia o espiritismo com

    ela [a me de Maria] em casa, ela abria a mesa esprita. Depois eu fui ser a secretria,

    depois eu fui ser a presidente de mesa. Hoje eu sou a presidente de mesa esprita,

    trabalhamos no espiritismo, fazemos cura espiritual.

    Assim como os demais intrpretes, Maria tambm est situada no plano da

    ecologia de saberes. Vrias unidades heterogenias de saberes compem a sua histria de vida:

    desde aos saberes vinculado a Umbanda-Espirta por onde ela preside e faz cura espiritual

    como os seus prprios saberes voltado a tema da leitura de mos, e a importncia que a

    graduao em psicologia teve em sua vida, que um dado muito interessante que est

    pesquisa revelou. O contato contanto com outras religies que Maria teve, foi o fato de sua

    graduao em psicologia, onde estudou a antropologia da religio: eu fui em vrias religies.

    Seicho-no-ie, eu fui ao Budismo, Espiritismo, Umbanda, Candombl, Igreja Evanglica... Eu

    percorri, estudei porque tem que ter a filosofia da das religies, cada religio tem a sua

    filosofia. Atravs da graduao em psicologia Maria conheceu outras religies porque

    precisava estuda-las na academia, em entrevista tambm informou o contato que esteve com

    as dissidncias da Igreja Evanglica, como a Batista e a Quadrangular.

    4.2. APROPRIAO DOS SABERES E CONHECIMENTOS.

    Na continuidade do questionrio, a segunda parte, intitulada de Apropriao, foi

    composta por quatro perguntas. Nesse item procurei no construir separadamente cada

    pergunta, organizei os pargrafos de acordo com as informaes dadas pelos intrpretes.

    Primeiro porque o questionrio era de carter aberto, e cada resposta est atrelada a outra. E

  • 51

    segundo, porque em entrevista com Maria impossvel querer apresentar sua informaes em

    blocos separados, quando na verdade todas as informaes partem de uma nica fonte. Mas

    gostaria de ressaltar que nessa parte do questionrio possvel visualizar primeiramente, em

    resumo dois grupos: os de tradio na famlia e aqueles que no tm tradio em suas

    famlias.

    Comeando por Adriana, em questionrio a respeito de onde teria provindo seu

    conhecimento sobre a Arte de Ler as Mos, respondeu: tradio na minha famlia minha tia

    hoje falecida foi quem me ensinou a ler mos e jogar cartas, passou alguns conhecimentos

    hermticos, astrolgicos, isso aos 08 anos de idade, mas o curso de astrologia me auxiliou a

    determinar e compreender a energia planetria contida nos montes das mos. Questionada

    sobre o seu Processo de Aprendizagem Adriana informou alguns livros e que teve sempre a

    intuio e as informaes da cigana, assim como tambm as pesquisas que realizou para

    compreender a eficcia das informaes. Em relao ao Mtodo durante aprendizagem,

    Adriana citou alguns autores com as quais esteve em contato, como por exemplo, Bel Adar,

    Cheiro, Ccile Sagne. E por fim, se referiu novamente a intuio da cigana: e a intuio que a

    entidade cigana Maria Dolores me favoreceu aprender, desde ento at hoje em minhas

    consultas e aulas que forneo me baseio nesses estudos e ajuda espiritual. Nessa frase

    possvel observar a finalizao de Adriana com ajuda espiritual, aspecto esse que perpassa a

    questo se receberia algum tipo de ajuda ou auxilio espiritual da sua religio e sua resposta foi

    a seguinte: Tenho o conhecimento, a didtica e o auxilio espiritual da cigana Maria Dolores.

    [...] O Candombl cultua orixs, [...] me auxilia na proteo, para que eu no absorva os

    problemas alheios, quando fao uma leitura, ler as mos estar em contato com o profundo

    do ser, e nem sempre a energia to agradvel o que poder ocasionar problemas

    obsessivos, desordens espirituais.

    Sendo tambm a leitura de mos tradio em sua famlia, Jorge descreveu que seu

    conhecimento teria provindo do conjunto entre seu dom de nascimento e os ensinamentos de

    sua me: Meu dom de nascimento e conhecimento prtico, provm da minha me, hoje

    chamada de Vov Dora. Meu conhecimento, provem do meu estudo autodidata e da minha

    experincia de mais de 50 anos lendo as mos das pessoas. Minha me conviveu com os

    ciganos na Hungria que moravam e trabalhavam na sua fazenda. Ela aprendeu com eles

    diversas artes, "mancias", recebeu o dom desde a juventude e aprendeu a ler a mo, tirar a

    sorte nas cartas, procurar gu com varinha e muitas outras coisas. Ela me passou, a beno

    e o conhecimento, bem como me ensinou na prtica durante vrios anos. Esta herana

    aliada ao meu dom de nascimento, fez de mim quem sou hoje. Do mesmo modo, eu transferi o

  • 52

    meu conhecimento aos meus filhos. O meu filho mais novo, Daniel, por ter o dom de

    nascimento, recebeu a minha bno (juntamente com o Patriarca da Igreja) patriarcal, por

    escrito, que se encontra nos arquivos da Brian Yung University - BYU nos Estados Unidos, e

    os demais segredos ciganos e da cabala, que esto na minha famlia h geraes. Entre

    tradio em famlia e o dom de nascimento que Jorge alegou, perpassa toda uma ecologia de

    conhecimento que tem precedncia muito antes de seu nascimento.

    Um fato curioso durante a infncia e pr-adolescncia de Jorge est atrelado

    tambm ao seu Processo de Aprendizagem na Arte de Ler as Mos. Jorge relatou que quando

    criana sentia muitas dificuldades de se expressar em portugus na escola, pois em sua casa,

    todos falavam em hngaro. Quando ele ficava muito nervoso, sua marca de nascena, situada

    no meio da testa, acima do nariz entre os dois olhos, ficava de colorao roxa, essa marca era

    motivo de gozao entre seus colegas de escola. Um dia, quando criana, teria voltado

    chorando para casa, e sua me o indagou sobre o que havia acontecido e ele contou que todos

    em sua sala na escola tinham habilidades especficas, um sabia desenhar, outro recitar, tocar

    violo, e s ele no sabia nada. De acordo com Jorge, eu queria ser popular, querido entre os

    colegas e no mais motivo de chacota. Ento sua me pacientemente teria dito que o ensinaria

    um segredo que se ele tivesse dom, nunca mais ficaria sozinho, nas palavras de Jorge: E de

    fato, ela me ensinou pacientemente a ler as cartas e a ler as mos e algumas outras coisas.

    Desenvolvi muito este dom mais tarde quando minha conscincia expandiu devido a um

    avistamento de nave extraterrestre que sobrevoou noite a minha casa na Vila Roslia,

    ainda na minha pre-adolescncia. Passei ento a ter o dom da vidncia e a minha

    mediunidade se ampliou ao longo dos anos durante os meus estudos esotricos. Entre outros

    processos de aprendizagem, Jorge tambm informou ter feito diversos cursos de modo

    autodidata atravs de livros.

    A respeito de mtodos durante a ALM, Jorge respondeu que fez diversos cursos

    de modo autodidata atravs de livros, como por exemplo, Elementos de Quiromancia, de

    Francisco Valdomiro Lorenz, Editora Pensamento. E fao uso permanente de livros nas

    consultas, como por exemplo, Enciclopdia de Quiromancia Prtica. Tambm aprendi com a

    minha me durante muitos anos, o que tambm um curso prtico. Nessa parte do

    questionrio Jorge informou tambm ser autor do livro: Como Ler a Mo de minha autoria

    publicado e venda na amazon.com (basta pesquisar por PURGLY). Sobre ajuda ou auxilio

    respiritual Jorge informou que seu Mentor Espiritual pertence Falange da Fraternidade da

    Rosa, da Cruz e do Tringulo, em suas palavras: um Preto Velho que me acompanha me

    inspirando nestes trabalhos. Tambem tenho cobertura espiritual da Fraternidade Branca do

  • 53

    Espao. interessante notar que nessa resposta Jorge foi o nico que mencionou o aspecto de

    como faz atendimento de suas consultas, ele informou que faz atendimento em estado

    sonamblico, meio dormindo e meio acordado. Tambm informou que em geral faz um

    trabalho onde resulta um relatrio de cerca de sete pginas sobre suas anlises.

    Os que declarao no ter a Arte de Ler as Mos na famlia obtiveram o

    conhecimento de tal prtica por diferentes modos. As formas de apropriao de

    saberes/conhecimentos de Jasmim, aconteceu durante um curso de quiromancia presencial por

    onde nutriu afetividade e admirao pelo mtodo: No tradio de minha famlia. Fiz

    cursos presenciais. Um workshop e me apaixonei pela leitura de mos, incrvel,

    maravilhoso o poder que se encontra na palma de nossas mos.

    No questionrio, Maria respondeu que a sua apropriao de saberes voltado ao

    tema da Arte de Ler as Mos teria provindo Atravs da Quiromancia, resposta que no pude

    compreender ao certo nesse primeiro momento. S atravs da entrevista ficou claro a sua

    resposta. Ela informou mais detalhadamente a respeito de seus saberes e conhecimentos

    estavam atrelados intuio de sua Cigana que havia aparecido em um sonho e informando

    alguns significados da leitura de mo: Eu, eu sonhei como uma cigana lendo a minha mo. A

    cigana lia a minha mo. E a, a partir do momento que aquela Cigana veio e leu a minha

    mo a eu me interessei em conhecer o significado do que ela tava me dizendo [...] Foi, a

    minha cigana. A minha cigana que me d toda essa intuio e a quiromancia foi a cigana.

    Ela vinha muito bonita ela pegava a minha mo, era uma senhora de idade e, ela usava um

    pito assim na cabea (fez o gesto com o cabelo para exemplificar o penteado). A no sonho

    ela dizia me d aqui sua mo a ela ia dizendo olha a linha da vida olha a linha do

    corao, olha a linha da sua cabea o seu destino est cruzado ela comeava a dizer... a eu

    acordei com aquilo... A eu digo assim meu deus eu vou ter que saber o significado melhor

    dessas coisas. A eu comecei, desde os 17 anos a me interessar a procurar a conhecer. A eu

    peguei... Eu mesmo comecei a desenhar a minha mo.

    Em questionrio, a respeito de seu processo de aprendizagem Maria respondeu:

    Lendo minha prpria mo despertou minha mediunidade cigana. Durante a entrevista foi

    possvel compreender mais detalhadamente tal resposta. O sonho que teve com a Cigana que

    lia a mo de Maria a deixou muito interessada em saber do que se tratavam todas aquelas

    informaes. Dessa forma, em um caderno17

    passou a registrar os conhecimentos que a

    17

    Esse caderno no tem apenas informaes sobre a leitura de mos, Maria informou que o mesmo contm sobre jogo de Bzios, Taro, o estudo da face humana, entre outras peculiaridades. Ao final desse trabalho h registros

    que fiz desse material.

  • 54

    Cigana instrua, como por exemplo, a textura das mos, unhas, montes, linhas, smbolos entre

    outras coisas mais. Em entrevista ela tambm informou e mostrou o desenhando de sua

    prpria mo e estudado pela mesma. A partir da entrevista ento ficou claro que o mtodo que

    Maria responde sobre o seu aprendizado ter sido atravs da Orientao atravs da

    Quiromancia (mediunidade). Ento o aspecto de ter lido a sua prpria mo ter despertado a

    mediunidade cigana de Maria, de um lado estava relacionado ao sonho que instrua, e de outro

    o aspecto de ter uma cigana que a acompanha.

    4.3. ENSINO E PRTICA DA ALM.

    possvel verificar que j foi traada uma vasta ecologia de saberes que perpassa

    pelas instncias do fenmeno religioso por diferentes abordagens dos intrpretes dessa

    pesquisa. Tal aspecto mostra que a experincia social em todo mundo mais ampla e variada

    do que a tradio cientfica ou filosfica ocidental conhece e considera importante (SOUSA,

    2008a, p. 94). E dessa forma, a partir da experincia social possvel construir uma cadeia de

    saberes heterogneo. Essa caracterstica foi possvel de se observar tambm nos dados

    coletados na terceira parte do questionrio responsvel pelo tema Ensino e a Prtica da Arte

    de Ler as Mos.

    A pergunta relacionada como algum poderia obter conhecimento para praticar a

    Arte de Ler as Mos, Adriana respondeu que Desde que haja interesse pelo tema e tenha a

    capacidade de desenvolver, alem do conhecimento a sensibilidade, que toda profisso, exige.

    A respeito da questo se ensinava outras pessoas ela respondeu: Sim, dou aulas atravs de

    cursos, workshops, j uma rotina que vivencio, e a procura tem sido frequente. Sobre a

    estrutura do assunto, Adriana escreveu sobre fazer uma programao desde: surgimento, as

    caractersticas, influencia e o mtodo preditivo, partindo em seguida as aulas pratica.

    Jasmim deu a seguinte resposta sobre, como algum poderia obter conhecimento

    sobre a Arte de Ler as Mos: todos somos energia e todos temos intuio e se nos propormos

    a estudar, nos dedicar e abrir nossos olhos para esse tipo de leitura que o mundo espiritual e

    energtico tem para nos mostrar, tudo fica muito simples e possvel a todos. Indagada se

    ensinaria outras pessoas, respondeu que sim, mas que precisaria de tempo e desenvolver um

    material para que isso se concretizasse.

    Alm de livros, cursos e atravs das ferramentas virtuais, como vdeos e blogs,

    onde fez referencia a sua pgina O Biometro, Jorge tambm ressaltou o aspecto de aprender

  • 55

    por meio da tradio em famlia, como por exemplo, o seu caso, onde sua me repassou

    conhecimento. No questionrio, tambm consta a informao que Jorge repassou para o seu

    filho, em conjunto com a sua beno patriarcal de transferncia dos dons. A respeito de

    ensinar outras pessoas, Jorge respondeu que est em seus planos oferecer um curso de como

    ler as mos online pela internet. Contudo, ainda no foi colocado em pratica por falta de

    tempo, j que ele est voltado para outros projetos. A estrutura que sobre as aulas, segundo

    Jorge, seria dividido em duas partes: Quirognomonia Palmisteria. A quirognomonia aborda

    As formas da mo em geral Os sete tipos de mo Os dedos As unhas O polegar Afinidades

    das mos A palmisteria aborda Os montes As 7 linhas principais das mos As outras linhas

    das mos e dos pulsos Durao de vida Sade Nmero de filhos Contato com extraterrestres

    Mediunidade Reflexologia palmar.

    Em questionrio Maria escreveu que as pessoas podem obter o conhecimento da

    Arte de Ler as Mos Atravs de Estudo Sobre o assunto - alm de tambm Ter mediunidade

    e Alma Cigana. Referente pergunta se ensinaria outra pessoa, ela respondeu Sim, se a

    pessoa se dedicar e ter mediunidade. Em entrevista, detalhou mais a respeito dessa

    informao: esse conhecimento [o conhecimento de ler as mos] vem da mediunidade de cada

    um. Ento no qualquer um que chega e vai saber... (Na breve gesticulao de suas prprias

    mos) Mesmo olhando isso aqui... (se refindo as mos) no sabe pegar a mo assim e ir

    dizendo... (pegou as minhas mos a apontou com o dedo indicador as trs linhas principais da

    vida para exemplificar que a pessoa que no tivesse mediunidade no sabia analisar as

    informaes que as mos podem revelar). Em questionrio, sobre a estrutura dos assuntos,

    Maria escreveu trs temas: Psicolgica. Mental e espiritual. Em entrevista, tais elementos se

    tornaram compreensivos porque, primeiro, Maria tem formao em psicologia, e estudos

    adquiridos tambm na Umbanda-Esprita.

    Finalizo aqui a coleta dos dados obtidos e ressalto a importncia da ecologia de

    saberes que tambm agrega as temticas do fenmeno religioso. A discusso sobre a ecologia

    de saberes de Boaventura de Sousa constri um caminho onde possvel tecer apontamentos

    e o reconhecimento sobre outros saberes, como por exemplo, os refrentes ao tema da Arte de

    Ler as Mos. Atravs do exerccio da prtica de ler as mos, seja atravs do ato da tradio

    em famlia, ou na realizao de cursos nessa temtica, tal tcnica se mantm vivia na

    contemporaneidade brasileira.

  • 56

    5. CONCLUSES E CONSIDERAES FINAIS.

    Alm de apresentar as narrativas e personalidades que compe a trajetria da

    leitura de mos, analisou-se o perfil daqueles que tm saberes/conhecimento voltado ao tema

    da Arte de Ler as Mos, para compreender como que ocorrem na contemporaneidade

    brasileira, as apropriaes desses saberes. possvel afirmar, com base nos dados obtidos,

    que os intrpretes so detentores de histrias especficas sobre suas apropriaes na tcnica de

    ler as mos, assim como todos se reconhecem ou se identificam com alguma religio ou

    espiritualidade. Outro aspecto identificado que todos possuem escolaridades intituladas de

    nvel superior, com apenas uma pessoa em estado de incompleto. Os seguintes cursos que

    apareceu nos questionrio foram: Direito e Psicologia. E em nveis mais prolongados de

    estudos surgiram: Mestrado em Administrao e Empreendedorismo, assim como tambm

    surgiu o Ps em logstica.

    Quando questionados sobre o contato com outras religies ou espiritualidades,

    atravs de diferentes abordagens comprovou-se ainda mais a possibilidade que as pessoas tm

    na contemporaneidade brasileira de conhecer outras manifestaes religiosas ou

    espiritualidades, discusso traada por Ivo Oro sobre o Fenmeno Religioso no Brasil (2013).

    A pesquisa revelou que o contato com outras religies um dado caracterstico entre os

    intrpretes. Em uma escala percentual, 100% dos intrpretes alegaram pelos mais de trs

    religies que estiveram em contato. Sendo predominantes entre eles as seguintes instituies:

    o Cristianismo, o Candombl e a Umbanda.

    Apesar das diferentes abordagens dos intrpretes sobre como teria se apropriados

    dos conhecimentos voltados ao tema da leitura de mos foi possvel separar, como

    mencionado anteriormente, dois grupos: os de tradio em famlia e aqueles que no tm

    tradio em suas famlias. Mas esse no o nico resultado que gostaria de ressaltar, um dado

    interessante que se revela nessa pesquisa so os elementos que perpassam a categoria de

    fenmeno religioso, como por exemplo, as seguintes designaes: Auxlio Espiritual da

    Cigana Maria Dolores, Mentor Espiritual Preto Velho, assim como, Inspirao da Cigana

    e mediunidade Cigana.

    A respeito de como algum pode dispor ou obter conhecimento referente leitura

    de mos, os endereos de sites virtuais surgiram como ferramentas contemporneas para

    leigos obterem conhecimento. Livros e cursos tambm aparecem como utenslios de

    aprendizados. Nessa perspectiva de aprendizado, os quatros intrpretes da pesquisa alegaram

  • 57

    que todas as pessoas poderiam obter saberes voltado ao tema da leitura de mos, assim como

    tambm se disponibilizavam a ensinar, tal tcnica por meio de uma estrutura didtica. Mas

    cada um deles ressaltou peculiaridades para esse mtodo, tais como: beno, estudo, intuio,

    interesse pelo tema, mediunidade e alma Cigana.

    A partir desse conjunto de informaes possvel compreender que apesar de

    diferentes abordagens coletadas esta pesquisa revelou as seguintes instncias:

    Todos os intrpretes esto na rea de graduao;

    Os dados revelaram boa parte das afirmativas j ressaltadas por Ivo Oro (2010), tendo-

    se baseado referencias dos dados do IBGE. As religies e espiritualidades citadas

    foram as seguintes: Catolicismo, Luterana, Assembleia de Deus, Adventista, Igreja

    Batista, Igreja Reformada, Quadrangular e evanglica (mais no especificada);

    Kardecismo, Mrmons e Umbanda e Umbanda-Esprita; Dentre naes de Candombl

    foram registras: Candombl (no especificado), Candombl Jj e Candombl Ketu;

    Budismo e Seicho-no-ie. No entanto surgiram nessa pesquisa outras formas de crenas

    e ensinamentos, como por exemplo, Grande Fraternidade Branca e I AM.

    Todos os intrpretes esto situados no fenmeno religioso, no so s pelo fato de se

    reconhecerem ou identificarem uma religio ou espiritualidade, ou por terem

    frequentando outros espaos e instituies religiosas ou de espiritualidade. Mas

    especialmente por causa dos elementos que passam pela categoria do fenmeno est

    diretamente conectado com a prtica da leitura de mos. Termos como: ajuda

    espiritual da Cigana Maria Dolores, intuitiva [...] Mentores e Mestre espirituais,

    Mentor Espiritual pertence Falange da Fraternidade da Rosa, da Cruz e do

    Tringulo. um Preto Velho que me acompanha me inspirando nestes trabalhos. e

    Espiritualidade mediunidade. Essas so algumas das caractersticas que compe

    tambm o fenmeno religioso.

    A respeito de onde provinham os saberes voltados a Arte de Ler Mos, os intrpretes

    revelaram questes que envolviam as suas prprias histrias de vida. Todos os

    intrpretes tiveram diferentes formas de adquirem o saber Arte de Ler as Mos. Tais

    conhecimentos podem est vinculados a uma habilidade que advm de uma tradio

    na famlia, como tambm livros e endereos virtuais, como por exemplo, sites, blogs,

    pginas e vdeos-aulas. Esta pesquisa ainda revelou que os saberes tambm podem

    advim atravs de cursos ou workshops e, at mesmo pela via fenmeno religioso:

    atravs de uma mediunidade.

  • 58

    Os dados revelaram ainda que apesar de haver aqueles que tm a Arte de Ler as

    Mos como tradio na famlia, e outros no, eles apontaram algumas concepes deles que

    perpassam o fenmeno religioso. Dessa forma, as experincias que compe os saberes dos

    intrpretes coexistem com elementos pertencentes ao fenmeno religioso, fato esse

    mencionado anteriormente. E esses saberes formam uma infinita cadeia de ecologia de

    saberes que so heterogneos.

    Trazer o tema da Arte de Ler as Mos para o espao acadmico discutir no s

    novas temticas, mas a importncia de abordar prticas que foram subalternizadas por um

    olhar cientificista que organizou uma monocultura do saber, crtica essa proposta por

    Boaventura de Sousa Santos. Nesta pesquisa procurou-se expor um pouco da histria de vida

    de cada interprete reconhecendo a proposta de Boaventura sobre a ecologia de saberes. Cada

    ser humano detentor de experincias nicas que trs em si um arcabouo de aprendizados.

    Um arcabouo formando de vrias unidades da vasta ecologia de saberes.

    O tema da Arte de Ler as Mos, seja atravs da quiromancia ou da quirologia,

    ainda tem muito que se problematizar. A prpria questo envolta da ideia de vaticinar o futuro

    atravs das mos, ou o estudo e anlise da linguagem simblica dessa prtica, e ainda mais,

    como permanecem em atividade na prpria contemporaneidade so alguns dos assuntos que

    deixo como proposta para futuras pesquisas. Reconheo que h muito que se observar dessa

    mtodo.

    Chegado ao trmino dessa pesquisa, tambm gostaria de ressaltar que h diversas

    outras formas de utilizar o mesmo tema e abord-la por diferentes linguagens e perspectivas

    metodolgicas e tericas. Recorrendo a frase de Adriana, Desde que haja interesse pelo tema

    e tenha a capacidade de desenvolver, alem do conhecimento a sensibilidade, que toda

    profisso, exige, possvel no s avanar para outros rumos essa pesquisa, como visualizar

    outras abordagens a partir dela, tecendo sempre uma vasta ecologia de saberes que coexistem

    com inmeros conhecimentos.

  • 59

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    based-on-samudrik-shastra-and-lal-kitab-NAF610/ >. Acessado em, 07 de Ago. de 2015.

    SPROVIERO, Mrio B. Oriente e Ocidente: Demarcao. Mirandum, Pamplona, v. 4, p. 49-

    58, 1998. Disponvel em: < http://www.hottopos.com/mirand4/orientee.htm. >. Acesso em,

    jun. 2015.

    VAITHILINGAM, Lalitha; SEKHAR, Nirmala. Vedas: uma introduo a jornada interior.

    Fundao Bhagavan Sri Sathya Sai Baba do Brasil, Rio de Janeiro, MAR, 2010. Disponvel

    em < http://www.sathyasai.org.br/vedas/por-que-vedas/audios-letras-etc/doc/vedas-uma-

    introducao.pdf >. Acessado em Mai, de 2015.

  • 62

    APNDICES

    APNDICE A Questionrio.

    UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PAR

    CENTRO DE CINCIAS SOCIAIS E EDUCAO

    LICENCIATURA PLENA EM CINCIAS DA RELIGIO

    QUESTIONRIO REFERENTE PESQUISA

    I Perfil

    1. Nome:

    2. Idade:

    3. Localidade:

    4. Escolaridade:

    5. J esteve em contato ou outras religies ou espiritualidades? Quais?

    II- Apropriao da Arte de Ler as Mos.

    6. De onde provm seu conhecimento da Arte de Ler as Mos?

    7. Como ocorreu seu processo de aprendizagem referente Arte de Ler mos?

    8. Quais mtodos foram usados durante seu aprendizado a Arte de Ler mos?

    9. Voc recebe ajuda ou auxlio espiritual para sua prtica a Arte de Ler mos?

    III Ensino da Arte de Ler as Mos.

    10. Como uma pessoa pode dispor ou obter conhecimento/saberes para praticar na

    Arte de ler mos?

    11. Voc se dispe a ensinar outras pessoas a Arte de Ler as Mos?

    12. Como voc estrutura o ensinamento da temtica da Arte de Ler as Mos para

    outras pessoas?

  • 63

    APNDICES B Roteiro da Entrevista com Maria

    Questes:

    1. De onde provm seu conhecimento de leitura mos?

    2. Como ocorreu seu processo de aprendizagem referente Arte de Ler mos?

    3. Quais os mtodos foram usados durante seu aprendizado a Arte de Ler mos?

    4. Voc recebe ajuda ou auxlio espiritual para sua prtica a Arte de Ler mos?

    APNDICES C Minha Mo depois da entrevista.

    APNDICES D Caderno de Maria.

  • 64

    ANEXOS

    Anexo A: Termo de Cesso Gratuita de Direitos sobre Depoimento Oral, Questionrios e

    Imagens.

    UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PAR

    CENTRO DE CINCIAS SOCIAIS E EDUCAO

    LICENCIATURA PLENA EM CINCIAS DA RELIGIO

    TERMO DE CESSO GRATUITA DE DIREITOS SOBRE DEPOIMENTO ORAL,

    QUESTIONRIOS E IMAGENS.

    CEDENTE, nacionalidade,

    , estado civil ,profisso , portador da Cdula de Identidade

    RG/n emitida pelo e do CPF

    domiciliado e residente na Rua/Av./ , .

    CESSIONRIO: Universidade do Estado do Par / Centro de Cincias Sociais e Educao -

    CCSE/ Curso Licenciatura Plena Em Cincias Da Religio, estabelecido na Rua do Una, n

    156 - Belm - Par - Brasil - 66.050-540 Telgrafo.

    OBJETO: Questionrio respondido exclusivamente para o curso Licenciatura Plena em

    Cincias da Religio.

    DO USO: Declaro ceder a Universidade do Estado/ curso de Licenciatura Plena em Cincias

    da Religio sem quaisquer restries quanto aos seus efeitos patrimoniais e financeiros a

    plena propriedade e os direitos autorais do depoimento de carter histrico e documental que

    prestei a pesquisadora .

    A Universidade do Estado do Par/CCSE/ Curso de Licenciatura Plena em Cincias da

    Religio fica consequentemente autorizado a utilizar, divulgar e publicar, para fins culturais, o

    mencionado depoimento, no todo ou em parte, editado ou no, bem como permitir a terceiros

    o acesso ao mesmo para fins idnticos, segundo suas normas, com a nica ressalva de sua

    integridade e indicao de fonte e autor.

    Local, dia/ ms/ 2015.

    Assinatura do Depoente/Cedente

  • 65

    Anexo B Termo de CESSO de Adriana.

  • 66

    Anexo C Termo de CESSO de Flvia Jasmini.

  • 67

    Anexo C Termo de CESSO de Jorge Purgly.

  • 68

    Anexo D Termo de CESSO de Maria da Conceio.

  • 9

    Universidade do Estado do Par

    Centro de Cincias Sociais e Educao

    Departamento de Filosofia e Cincias Sociais

    Curso de Licenciatura Plena em Cincias da Religio

    Travessa Djalma Dutra, s/n Telgrafo 66113-200 Belm-PA

    www.uepa.br