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A angstia e os novos sintomas

A angstia e os novos sintomas

Eny Lima Iglesias

Palavras-Chave: Angustia; Gozo; Sintoma; Outro.Keywords:Enjoyment - anxiety - sympton - Big Other.

Resumo: A autora aponta sintomas que o mundo globalizado vem sofrendo em conseqncia das mudanas nas relaes com o Outro que deixou de estruturar comportamentos, gozos e emoes. Em duas vinhetas clnicas apresenta as manifestaes atuais da angustia e de novos sintomas. Abstract:The author points out symptoms that the globalized world is suffering as a consequence of the changes in the relationships with the Big Other, who is no longer able to structure behaviors, enjoyment and emotions. In two clinical vignettes, she presents current manifestations of the anxiety and new symptoms.

Quero neste trabalho trazer questionamentos sobre o saber-fazer do psicanalista frente angstia que aparece nos sintomas contemporneos e expressam a patologia do Outro, revelando que o trauma de hoje, seja ele social ou familiar, cada vez menos orientado pela metfora paterna. Tratam-se das manifestaes atuais da desagregao do significante Nome do Pai, que Lacan listava com ironia como: pai humilhado, pai acabrunhado, pai derrisrio, pai caseiro, pai passeador etc., Cottet acrescenta a estes:

As figuras inquietantes que assinam a modernidade do trauma: pais homossexuais, pais portadores de HIV, pais doentes mentais ou pedfilos, pais ou mes abandonadores. Os lutos patolgicos e as rupturas sentimentais dolorosas completam essas formas de abandono em que a incidncia do real traumtico atinge seu ponto mais alto (1)

A angstia um sinal, diz Freud, mas, o que podemos fazer com ela no dia-a-dia da clnica? Sempre estamos nos deparando com sujeitos ameaados por um excesso de gozo - gozo hiperlocalizado ou deslocalizado, como novas apresentaes do real nos novos sintomas neurticos e nos novos fenmenos psicticos. O apelo dramtico feito ao analista no decorrer de uma anlise, pode ser pensado como uma forma de demanda, que requer uma interveno, que transforme a angstia em desejo de anlise, na medida em que esse apelo uma esperana de que o desejo do analista possa manifestar os efeitos do inconsciente, e garantir a continuidade da circulao pulsional, motor da transferncia.

Na clnica atual, nos deparamos, com freqncia, com as doenas do Outro evidenciadas na inconsistncia do Outro, no todo, onde o corpo e a imagem so os campos preferenciais onde se manifestam as dificuldades psquicas: novos sintomas, doenas da mentalidade ou novas modalidades da psicose, que so questes que os analistas precisam responder. O momento em que o sujeito se v afetado pela angstia, quando se v afetado pelo desejo do Outro (2) . Nesse sentido, Lacan reafirma: "no caminho que condescende o meu desejo, o que o Outro quer - aquilo que ele quer - mesmo que no saiba em absoluto o que quer -, , no entanto, necessariamente, minha angustia" (3).

A heterogeneidade das demandas e variedades de casos confronta essa prtica com os efeitos neurticos caractersticos do mal-estar da civilizao, onde o sujeito, submetido aos efeitos do discurso da cincia, aprofunda sua rejeio ao inconsciente.

Orientar-se no inconsciente significa saber quais so as cadeias e os significantes primordiais que determinam suas aes, fantasias e sintomas. Nesse sentido, orientar-se, corresponde ao ganho de saber adquirido e elaborado em uma anlise, a partir da decifrao do prprio inconsciente, e em particular, ao acrscimo sobre o saber inconsciente de um saber elaborado sobre o objeto, causa de desejo, cujo topus se encontra fora do inconsciente, e da ordem de um real irrepresentvel . (4)

Os novos sintomas vm dizer desses novos tempos, onde os pacientes recusam o inconsciente, e tratam angstia atravs da atuao. Freud operava com sintomas que faziam uso do inconsciente, sendo possvel decifr-lo e dizer sua verdade. Atravs do mecanismo privilegiado do recalcamento, percebia como os pacientes lidavam com a angstia. Freud considerava a angstia como base fundamental de todos os afetos enganadores, porque seriam modificaes operadas para lidar com a angstia. Na falta de referenciais que permitiriam simbolizar o afeto, este sujeito no se enganaria, ele atuaria.

A angustia desprovida de causa, mas, no de objeto. No s, ela no sem objeto, como tambm, muito provavelmente, designa o objeto, digamos, mais profundo, o objeto derradeiro, a Coisa. nesse sentido, como lhes ensinei a dizer, que angustia aquilo que no engana . (5)

A verdadeira dimenso clnica da angstia seria, pois, o que Freud chamou de "inquietante familiaridade", que reside no ser de cada sujeito, ou seja, o estranho, que tem relao com o real e, ultrapassando as barreiras do interno/externo, provoca angstia. O estranho como algo que deveria permanecer oculto, mas veio luz, apresentar-se-ia nas diversas manifestaes da angstia contempornea atravs de acting-out, e passagem ao ato, pois o sujeito no sabe lidar com o mal-estar e perseverar na vida. Escolhi dois casos clnicos, a titulo de exemplos, para mostrar como os novos sintomas so trazidos para a anlise. Fao dois recortes para apresentar o tema da depresso e do fracasso escolar como sintomas da globalizao (6).

Vou falar de Pat que se apresenta no 1 encontro, muito sofrida com o termino de uma relao amorosa. Dizia ser insuportvel estar vivendo. Pensava em se matar, mas, temia o que causaria me e filhas. Achava que poderia, nessa situao, causar prejuzos na sua vida profissional e familiar, bem como em outros compromissos, porque ela no conseguia parar de chorar No dormia bem. No se concentrava no trabalho. No cuidava da casa que estava uma baguna s.

No tinha vontade de fazer nada. Referia-se que esse relacionamento comeara como um amigo que consolava uma amiga, que estava arrasada aps a morte de um grande amigo. Era algum muito especial, que morava fora. Conversava com ele todos os dias quando ia do trabalho para casa. "Era um verdadeiro substituto do meu pai, que perdi aos cinco anos de idade". Esses sintomas depressivos, ela os experimentou outra vez, quando teve que se afastar da famlia, das filhas pequenas por motivo de trabalho. Foi medicada. Referiu-se, como em outros trminos de relacionamentos, em que ela teve outra postura:

15 minutos de sucesso, no fim dos quais, estava tudo arrumado na cabea, apagado da vida e da memria. Esquecia-se logo. J, com este caso, eu no conseguia me equilibrar, pois ele abdicou de estar numa relao saudvel, gostosa, por causa da crtica de amigos, que queriam traz-lo para junto da esposa, com quem vivia infeliz.

Afirmou necessitar de medicao, pois no estava suportando seu mal-estar. Disse-lhe que queria ouvi-la mais e pude pontuar no final: o que parecia estar insuportvel era no conseguir, dessa vez, resolver em quinze minutos a situao. Estava demandando algo, medicao, que no imaginrio popular tem ao imediata como se em quinze minutos resolvesse tudo com sucesso absoluto.

No encontro seguinte achei-a profundamente abatida, faces melanclicas. Seus relatos alternavam entre lamrias, auto destrutividade e a clebre frase: "no consigo". Falou de suas tentativas de sair no fim de semana, indo de barzinho em barzinho, at chegar naquele onde tinha recordaes do parceiro. Porm, o "eu no consigo", no saa de sua cabaa, de sua boca. Ela no saa de seu gozo fantasmtico, que insuportvel. A demanda de alvio, de cura, gera uma resposta: fale, mas sua fala para ser medicada, afinal de contas, ela filha de uma poca onde o ser medicado ou o automedicar-se se torna obrigatrio, pois se impregnou na fantasia tirnica em que a angstia para ser sedada, medicalizada.

O discurso da cincia oferece s terapias cognitivas comportamentais, assim como s terapias medicamentosas, que pretendem ser mais eficientes quanto ao resultado e, tambm, mais rpidas. Assim, para o slogan: "todos deprimidos" contrapem-se, "abaixo os deprimidos" para que a produtividade no caia, e o imperativo da sade e do bom humor seja sustentado nas pesquisas.

Estamos num mundo globalizado onde a quebra das tradies e da autoridade simblica deu lugar a um novo mundo, onde os sujeitos circulam a deriva das pulses na caa de satisfaes incessantes, sem nenhuma preocupao com as exigncias ticas do ideal do eu, num esforo para assegurar um prazer seguro, que dissolva todo o mal-estar. So incitados a acumularem recursos materiais para evitar a escassez, anular a falta. No sabem que a falta que sustenta o desejo. No sabem que, como diz Lacan, "no uma falta do sujeito, mas uma carncia imposta ao gozo situado no nvel do Outro ". (7)

No quarto encontro, Pat diz ter passado o dia na cama, s levantando para vir sesso. "No consegui levantar-me para ir ao trabalho. Todo empenho pelo tratamento no est resolvendo e agora estou tambm com anorexia". Sua fala estava entremeada de sorrisos, que pareciam de satisfao e gozo. Digo-lhe que estava alegre, satisfeita com o sofrimento que estava dando a se mesma. Retruca: "eu fao coisas ou falo manifestando o contrrio". Digo-lhe: como est gozando, ao contrrio, com desprazer? Marco o retorno e ela me pede um atestado de comparecimento para o trabalho. Nego-lhe dizendo no poder atestar que concordava com seu gozo mortfero. Saiu dizendo: "no volto mais", ao ser surpreendida com a falta de solidariedade da analista.

Logo, uma descoberta contingencial e uma interveno do analista, entre outras coisas, podem desencadear no sujeito um excesso pulsional, um excesso de gozo que ameaa a anlise com acting-out ou interrupes abruptas. Cottet (8) diz que: Formas de gozo aberrantes ou excessivos desencadeiam uma reivindicao significante. Essas pessoas querem que lhes dem sentido ali, onde h cada vez menos sentido. Muitos psicoterapeutas se oferecem para dar sentido, explicar e compreender o sofrimento sem ver que, por trs desse sofrimento, h uma escolha subjetiva, ou seja, uma