A amputao sob uma perspectiva fenomenolgica

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  • UNIVERSIDADE DE SO PAULO ESCOLA DE ENFERMAGEM DE RIBEIRO PRETO

    GISLAINE CRISTINA DE OLIVEIRA CHINI

    A amputao sob uma perspectiva fenomenolgica

    Ribeiro Preto

    2005

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    GISLAINE CRISTINA DE OLIVEIRA CHINI

    A amputao sob uma perspectiva

    fenomenolgica

    Dissertao apresentada Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto da Universidade de So Paulo, para obteno do ttulo de Mestre em Enfermagem. rea de concentrao: Enfermagem Fundamental. Linha de pesquisa: Fundamentao Terica, Metodolgica e Tecnolgica do Processo de Cuidar em Enfermagem.

    Orientadora: Prof. Dr. Magali Roseira Boemer

    Ribeiro Preto

    2005

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    AUTORIZO A REPRODUO E DIVULGAO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

    Ficha Catalogrfica

    Chini, Gislaine Cristina de Oliveira A amputao sob uma perspectiva fenomenolgica. Ribeiro Preto, 2005. 138 p.

    Dissertao de Mestrado, apresentada Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto/ USP. rea de concentrao: Enfermagem Fundamental. Orientadora: Boemer, Magali Roseira. 1.Amputao. 2.Fenomenologia. 3.Corpo 4.Filosofia

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    FOLHA DE APROVAO

    Gislaine Cristina de Oliveira Chini

    A amputao sob uma perspectiva fenomenolgica

    Dissertao apresentada Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto da Universidade de So Paulo, para obteno do ttulo de Mestre em Enfermagem. rea de concentrao: Enfermagem Fundamental. Linha de pesquisa: Fundamentao Terica, Metodolgica e Tecnolgica do Processo de Cuidar em Enfermagem.

    Aprovado em: ______/ ______/ _______

    Banca Examinadora

    Prof. Dr Magali Roseira Boemer Instituio: Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto USP Assinatura:____________________________________________________________ Prof. Dr Adriana Ktia Corra substituda por Maria Lucia Zanetti Instituio: Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto USP Assinatura:____________________________________________________________ Prof. Dr. Manoel Antnio dos Santos Instituio: Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Ribeiro Preto - USP Assinatura:____________________________________________________________

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    Dedicatria

    A Deus e Nossa Senhora Aparecida Que sempre guiaram meus passos e permitiram que eu desenvolvesse esse estudo com sade, concretizando a realizao de um sonho. Aos meus pais Francisco e Clia Dedico a vocs este estudo e o meu amor. Serei eternamente grata por todo apoio e incentivo que me foram dados, durante toda a minha existncia. S consegui alcanar meus objetivos porque sempre tive vocs ao meu lado, torcendo pelas minhas conquistas. Ao meu namorado Marcos Por todo carinho, amor, companheirismo e apoio durante toda a minha trajetria. Agradeo sua presena em minha vida e a ajuda para superar todos os momentos difceis. Aos pacientes que sofreram amputao e contriburam para a realizao deste estudo Dedico este trabalho a todos os pacientes, que com muita sabedoria, compartilharam suas vivncias comigo, permitindo, assim, a realizao deste estudo e a concretizao de meu sonho. Em especial, agradeo ao paciente aqui chamado por Coragem, que veio a falecer durante a realizao deste estudo. vocs toda a minha gratido e meu afeto. Jamais os esquecerei ; vocs so parte da minha vida, do meu existir.

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    Agradecimentos

    Prof. Dr Magali Roseira Boemer Por sua amizade, incentivo e apoio. Obrigada por compartilhar da minha inquietao e lanar-se comigo, com toda sua experincia e sensibilidade, em busca da compreenso da vivncia, percebendo e auxiliando no percurso desta trajetria.

    Prof. Dr Adriana Ktia Corra e ao Prof. Dr. Manoel Antnio dos Santos Pelas importantes contribuies e pelo compartilhar de conhecimentos que ajudaram a enriquecer este estudo

    s amigas Prof. Dr Maria Sueli Nogueira e Aline Aparecida Monroe Minha gratido vocs que me impulsionaram no incio desta trajetria e permaneceram me apoiando e incentivando, durante toda esta caminhada. Aos meus familiares vocs que torceram por mim e compreenderam os momentos de ausncia, sempre me apoiando. Aos funcionrios das clnicas vascular e ortopdica do HCFMRP-USP Pela carinhosa recepo e por toda ajuda no desenvolvimento deste estudo.

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    Seja feliz

    ...Gostaria que voc sempre se lembrasse de que ser feliz no ter um cu sem tempestades, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem decepes. Ser feliz encontrar fora no perdo, esperana nas batalhas, segurana no palco do medo, amor nos desencontros.

    Ser feliz no apenas valorizar o sorriso, mas refletir sobre a tristeza. No apenas comemorar o sucesso, mas aprender lies nos fracassos. No apenas ter jbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato. Ser feliz reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreenses e perodos de crise. Ser feliz no uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu prprio ser.

    Ser feliz deixar de ser vtima dos problemas e se tornar um autor da prpria histria. atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um osis no recndito da sua alma. agradecer a Deus a cada manh pelo milagre da vida. Ser feliz no ter medo dos prprios sentimentos. saber falar de si mesmo... Ser feliz deixar viver a criana livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de ns...

    Autoria desconhecida

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    Resumo

    Chini, G.C. de O. A amputao sob uma perspectiva fenomenolgica. 2005. 138p.

    Dissertao (Mestrado), Escola de Enfermagem de Ribeiro Preto, Universidade de So

    Paulo, Ribeiro Preto, 2005.

    O presente estudo aborda a amputao desde o momento em que passa a fazer parte das

    inquietaes da autora, integrando seu mundo-vida, por meio de interrogaes relativas

    questo da amputao, suas implicaes e sentimentos experimentados pela pessoa que a

    vivencia. Constitui-se numa investigao de carter qualitativo, desenvolvida luz do

    referencial terico-metodolgico da fenomenologia e que busca compreender, ento, a

    vivncia de uma amputao, a partir da viso da pessoa que a experiencia. Inicialmente, a fim

    de compreender o fenmeno que se mostra diante de meus olhos, pedindo um aclaramento,

    realizei um levantamento bibliogrfico, o que me possibilitou conhecer a amputao sob

    vrios enfoques, alm de permitir a apropriao de algumas idias do pensamento filosfico

    de Merleau-Ponty, abordando a percepo, o corpo que percebe e percebido, na sua relao

    com o mundo, e o enraizamento do esprito neste corpo. Aps conhecer a amputao, sob o

    ponto de vista literrio, busquei o seu compartilhar com a pessoa a ela submetida, habitando

    seu mundo. Compartilhando desse momento, pude compreender seu sentido e seus

    significados, expressando-os sob a forma de categorias temticas. Desta forma, foi possvel

    desvelar algumas facetas do fenmeno amputao, alm de compreender a pessoa amputada e

    a amputao tal como ela se mostra em si mesma.

    Palavras-chave: amputao, fenomenologia, corpo.

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    Abstract

    Chini, G.C. de O. Amputation from a phenomenological perspective. 2005. 138p.

    Dissertation (Masters Degree), Ribeiro Preto School of Nursing, University of So Paulo

    (USP), Ribeiro Preto, 2005.

    This study addresses amputation as from the moment when it became part of the authors

    concerns, integrating her world and her life, through inquiries concerning the issue of

    amputation, its implications and the feelings of those who experience it. It is a qualitative

    investigation, conducted in the light of the theoretical and methodological framework of

    phenomenology. Thus, its aim is to understand the experience of amputation from the

    viewpoint of the amputee. Initially, in order to understand the phenomenon that stands before

    my eyes and calls for clarification, I conducted bibliographic research, which enabled me to

    understand amputation better and from several points of view, as well as allowing me to

    appropriate some of the ideas contained in Merleau-Pontys philosophic thoughts, in which

    perception, the perceiving and perceived body, is addressed in regard to its relation with the

    world and the deep-rooted position of the spirit in this body. After becoming acquainted with

    amputation from the literary point of view, I sought to share it with an amputee, inhabiting

    this persons world. By sharing this moment, I was able to understand its significance and

    meanings, expressing them in the form of thematic categories. Thus, it was possible to reveal

    some of the facets of the amputation phenomenon, besides understanding the amputee and

    amputation such as it reveals itself.

    Key words: amputation, phenomenology, body.

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    Resumen

    Chini, G.C. de O. La amputacin bajo una perspectiva fenomenolgica. 2005. 138p.

    Disertacin (curso de Master), Escuela de Enfermera de Ribeiro Preto, Universidad de So

    Paulo, Ribeiro Preto, 2005.

    El presente estudio aborda la amputacin desde el momento en que comienza a ser parte de

    las inquietudes de la autora, integrando su vida y su mundo, por medio de interrogaciones

    referentes a la cuestin de la amputacin, sus implicaciones y sentimientos experimentados

    por la persona que la vivencia. Se constituye como una investigacin de carcter cualitativo,

    desarrollada a la luz de la referencia terica-metodolgica de la fenomenologa y que busca

    comprender, as, la experiencia de una amputacin, a partir de la visin de la persona que la

    vivencia. Inicialmente, a fin de comprender el fenmeno, la autora intenta elucidarlo mediante

    un levantamiento bibliogrfico, lo que le permite conocer la amputacin bajo varios enfoques,

    y tambin la identificacin con algunas ideas del pensamiento filosfico de Merleau-Ponty,

    donde se aborda la percepcin, el cuerpo que percibe y es percibido, en su relacin con el

    mundo, y el arraigo del espritu al cuerpo. Despus de conocer la amputacin bajo el punto de

    vista literario, se propone compartir la experiencia con la persona que la sufri, habitando su

    mundo. Al compartir ese momento, comprende su sentido y sus significados, y los expresa

    bajo la forma de categoras temticas. De esta forma, fue posible develar algunas facetas del

    fenmeno amputacin, adems de comprender a la persona amputada y la amputacin tal

    como ella se muestra en su esencia.

    Palabras clave: amputacin, fenomenologa, cuerpo.

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    Lista de Tabelas

    Tabela 1 - Conhecimento produzido por enfermeiros sobre amputao e assistncia de enfermagem a pacientes amputados, divulgado em peridicos de enfermagem, no perodo de janeiro de 1990 a dezembro de 2003. ...................... 34 Tabela 2 - Conhecimento produzido por enfermeiros, no mbito da Ps- graduao, sobre amputao e assistncia de enfermagem a pacientes amputados divulgado nos catlogos do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn), no perodo de janeiro de 1970 a dezembro de 1997 ............................ 36 Tabela 3 - Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004 no HCFMRP USP, segundo local de realizao.................................. 48 Tabela 4 - Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo local e clnica de realizao .................. 49 Tabela 5 - Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo sexo, faixa- etria e local de realizao.50

    Tabela 6 - Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo local, clnica e nvel de amputao...... 51 Tabela 7 - Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo patologia, faixa etria e sexo ............... 52

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    Sumrio 1. Introduo ....................................................................................................... 13

    1.1. Incio de minha trajetria ......................................................................... 14 1.2. A busca pela literatura.............................................................................. 18

    2. O corpo na perspectiva filosfica de Merleau-Ponty...................................... 38 3. Caminho metodolgico.................................................................................. 41

    3.1. O referencial fenomenolgico e a proposta dessa investigao............... 41 4. A obteno dos dados ..................................................................................... 48

    4.1. Cuidados preliminares.............................................................................. 48 4.2. Observncia da dimenso biotica ........................................................... 54 4.3. O acesso aos sujeitos participantes deste estudo...................................... 55

    5. Construo dos resultados............................................................................... 60 6. Reflexes sobre o desvelado: um novo pensar a amputao ........................ 119 7. Referncias Bibliogrficas ............................................................................ 133 8. Anexos .......................................................................................................... 138

    8.1. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ....................................... 138 8.2. Parecer do Comit de tica em Pesquisa do HCFMRP-USP ................ 139

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  • 13

    1. Introduo

    Iniciarei este estudo reportando-me ao incio de minha trajetria nos caminhos da

    investigao, inquieta com a questo da amputao.

    Abordo, a seguir, o momento em que a amputao passou a fazer parte de meu mundo-

    vida, integrando meus pensamentos e questionamentos, deixando de ser algo distante para

    tornar-se parte do meu existir, no como algum que vive uma amputao em seu prprio

    corpo, mas como algum que percebe e sente, lanando-se em direo ao fenmeno, com

    vistas a compreend-lo.

    Posteriormente, recorro literatura com o propsito de conhecer a amputao em

    vrias de suas facetas, inclusive no que se refere filosofia. Em especial, aproprio-me, como

    forma de aproximao, de parte das idias do filsofo francs Maurice Merleau-Ponty, o qual

    trabalha a existncia humana ancorada no corpo que percebe e percebido.

    Busco, em ltima instncia, o compartilhar a amputao com o paciente a ela

    submetido, habitando seu mundo, estando aberta percepo da vivncia, em suas diversas

    formas de perceber e ser percebida. Desta forma, acredito ser possvel compreender a pessoa

    amputada e a amputao tal como ela se mostra em si mesma, em sua essncia.

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  • 14

    1.1 O incio de minha trajetria

    Ao final do primeiro ano de graduao em Enfermagem soube da existncia do projeto

    O tema da morte como via de acesso iniciao cientfica, o qual enfoca, em suas

    pesquisas, a morte e o morrer. Passei, ento, a observar como essa temtica evitada pelas

    pessoas, inclusive por docentes que capacitam futuros profissionais de sade, os quais iro

    conviver, em seu cotidiano, com a presena constante da morte.

    Segundo Santos (1983) o despreparo dos profissionais de sade, para vivenciar

    situaes de morte, leva-os a uma infinidade de sentimentos (de impotncia, de raiva, de

    culpa, de dor) e posterior negao do fenmeno morte e morrer, como forma de fuga e evaso.

    Percebendo a importncia desse preparo para que pudesse compreender a morte e o

    morrer, desde o incio da minha formao profissional, procurei inserir-me no referido

    projeto, iniciando-me nesse tema por meio do percurso de um caminho, o que implicou no

    estudo de diversas facetas que o envolvem, por meio de leituras de livros, artigos, teses e

    dissertaes acadmicas, assistindo a filmes e aulas expositivas semanais. Todas essas

    estratgias pedaggicas possibilitaram-me conhecimentos a partir de enfoques biolgico,

    psicolgico, sociolgico e tico, alm de permitir-me conhecer a proposta da metodologia de

    investigao fenomenolgica na conduo de estudos cientficos.

    Com Aris (1977; 1982), pude conhecer a histria da morte por meio da exposio do

    conceito e da evoluo do seu pensar ao longo dos tempos. Na Idade Mdia, a morte

    adquire maior dramaticidade, no existente at ento, uma vez que a pessoa toma conscincia

    de sua individualidade e comea a mostrar apego pelas coisas materiais, as quais, muitas

    vezes, eram deixadas Igreja, para que fossem celebradas missas e realizados os enterros.

    .

  • 15

    No sculo XVIII, a morte passa a ter um carter de ruptura, os sepultamentos passam a

    ser realizados em cemitrios longe das cidades, surgem os jazigos familiares e os testamentos

    onde eram expressos o desejo de conduo do culto morte e a diviso dos bens. J no sculo

    XIX, a morte do outro passa a ser aceita com maior dificuldade, com medo, sendo

    considerada como tabu e os testamentos passam a referir-se apenas aos bens materiais, pois os

    cerimoniais eram confiados, aos familiares, verbalmente.

    Nasce neste momento o desejo de poupar o enfermo e a sociedade e realiza-se a

    transferncia da morte em famlia para o hospital; sufocam-se as emoes. Observamos isto

    at hoje: a sociedade moderna privando o homem de sua prpria morte.

    Kovcs (1992) e Kastembaum e Aisenberg (1983) a abordam sob o enfoque

    psicolgico, ressaltando sua presena no processo de desenvolvimento humano, uma vez que

    j sentida desde a mais tenra idade, quando a criana ainda incapaz de formular

    concepes abstratas.

    O ser humano tende a personificar a morte (cada um a seu jeito) como figura macabra,

    de m aparncia, velha, associada a esqueleto, inescrupulosa, sem compaixo e sentimentos.

    Desta forma, o homem passa a ter, como resposta psicolgica morte, o medo, que normal,

    porm, denotado como sinal de fraqueza e imaturidade.

    Para Ziegler (1977), as diversas sociedades existentes possuem diferentes modos de

    encarar a idia de morte. Os africanos no sentem medo, nem agonia diante dela; acreditam na

    sua imortalidade e na volta ao Orum (cu), onde a vida no cessa e no se envelhece.

    Na sociedade ocidental, mercantilista, a morte vista como fim irrevogvel da vida,

    motivo de temor e agonia, sendo controlada por tanatocratas que no sabem como agir diante

    da ameaa de morte e acabam por destruir a identidade do doente hospitalizado. Este, por sua

    vez, mantido na ignorncia que o impede de compreender a si mesmo e alcanar a plenitude

    do ser.

    .

  • 16

    Enquanto seguia meu percurso em busca da compreenso do tema j abordado, um

    acidente automobilstico com um amigo de famlia, em fevereiro de 1.999, que teve como

    conseqncia a amputao de seu membro inferior esquerdo, despertou em mim interrogaes

    relativas amputao, suas implicaes e seu significado para a pessoa que a experiencia,

    principalmente por ser percebida como uma perda, de forma semelhante morte.

    Em novembro do mesmo ano visitei, com os demais alunos de graduao, o Instituto

    Lauro de Souza Lima, em Bauru-SP, que abriga e atende pacientes portadores de hansenase,

    em tratamento. Nesta visita, tive a oportunidade de conhecer uma senhora que declama para

    os visitantes os poemas que escreve, apesar de possuir ambas as mos amputadas, face ao

    comprometimento neurofuncional provocado pela hansenase, decorrente da instalao do

    agente etiolgico da doena (Mycobacterium leprae) no sistema nervoso perifrico, lesando

    nervos sensitivos e motores, conforme o relatado por Talhari e Neves (1997).

    Seus poemas so a razo de sua vida, mostram um pouco da saudade que sente do

    passado e refletem uma existncia marcada pela doena, sofrimento e estigmas sociais,

    decorrentes do fato de ser portadora de hansenase, tendo a sua capacidade funcional

    comprometida. Embora Diogo e Campedelli (1992) afirmem que a incapacidade funcional,

    gerada por uma amputao, leva perda de autonomia e aumento do grau de dependncia,

    pois passa a ser necessria a presena de outra pessoa que auxilie na realizao de atividades

    dirias (como higiene pessoal, colocao de sapatos e roupas, encaminhamento ao banheiro e

    at mesmo auxlio para locomoo se o comprometimento for de membros inferiores), esta

    senhora consegue ultrapassar essas dificuldades em busca da realizao de atividades que lhe

    so prazerosas, promovam sua autonomia e permitam um direcionamento para seu potencial

    criativo na redao de seus poemas.

    A partir desta visita, minha inquietao com a questo da amputao mostrou-se de

    forma crescente, impelindo-me a uma maior aproximao ao tema.

    .

  • 17

    Nesse sentido, li o estudo de Diogo (1993) o qual refere que alteraes biopsico-

    scioespirituais passam a existir e interferem na vida aps uma amputao, pois as pessoas

    sentem-se isoladas e diferentes, tendo, assim, alteraes de auto-imagem e de seu auto-

    conceito. A pessoa amputada sofre mudanas no seu estilo de vida e apresenta incertezas

    quanto s suas capacidades e atitudes de amigos e familiares, fato este que leva ao abandono

    ou reviso de suas expectativas para o futuro, j que o membro ausente ou coto passa a se

    constituir em lembranas constantes em sua vida.

    A percepo desfavorvel da auto-imagem corporal pode conduz-la a sentimentos de

    inferioridade e ansiedade, que devem ser amenizados pelos profissionais de sade com a

    estimulao do paciente para o auto-cuidado.

    Essa autora afirma tambm que a tristeza que se segue amputao no diferente da

    que se segue morte de um ente querido. A pessoa amputada passa por diversas fases, desde

    latncia e negao at depresso, sendo este processo semelhante quele que envolve os

    pacientes terminais, o qual relatado por Kbler-Ross (1985).

    Como parte da busca a essa maior aproximao ao tema e na tentativa de delimitar a

    regio de minha inquietao procurei tambm por algumas vivncias em um Hospital

    Universitrio e em um Hospital Particular, onde realizava estgio voluntrio; essas vivncias

    permitiram-me um primeiro contato com pessoas que necessitaram ter parte de seu corpo

    amputada. Conversando com elas, pude perceber que a amputao representa uma grande

    perda, alm de gerar algumas preocupaes relativas ao desempenho de atividades dirias.

    Representa tambm o alvio definitivo da dor para as pessoas que foram a ela submetidas em

    decorrncia de problemas circulatrios e conseqente necrose de uma parte do corpo. A

    necessidade de dilogo para algumas dessas pessoas, de silncio para outras e a densa

    presena de linguagem no verbal mostravam-se a mim de forma clara.

    .

  • 18

    Atravs dessas conversas pde ser estabelecida uma forma de comunicao, que

    segundo Silva et al. (2000), um processo de interao no qual compartilhamos mensagens,

    sentimentos, idias e emoes que podero influenciar o comportamento das pessoas, as quais

    reagiro a partir de suas crenas, valores, histria de vida e cultura. A comunicao pode ser

    verbal ou no verbal, sendo expressa atravs de gestos, expresses faciais, orientaes do

    corpo, posturas, relao de distncia entre os indivduos, organizao dos corpos no espao,

    entre outras.

    Trs anos aps estas primeiras vivncias, j cursando a ps-graduao, pude me

    reaproximar destas pessoas e, atravs da inter-relao estabelecida, reafirmar as inquietaes

    iniciais, porm, sem ainda compreender com clareza o que vivenciar este fenmeno.

    Ainda na tentativa de aproximar-me do tema e compreender o fenmeno amputao

    em suas diversas facetas, trazendo luz o que se mostrava oculto a mim, ou seja, os

    significados atribudos por uma pessoa que teve parte de seu corpo amputada, realizei um

    levantamento bibliogrfico sob diversos enfoques, o qual relato a seguir.

    1.2. A busca pela literatura

    Buscando conhecer a amputao sob o enfoque antomo-fisio-patolgico procurei, em

    livros didticos, por conhecimentos sobre as tcnicas para realizao de amputao, as

    patologias que levam perda de uma parte do corpo, o melhor nvel para realizao da

    .

  • 19

    cirurgia, de forma que se possa ter menor agresso anatmica e fisiolgica ao organismo, bem

    como sobre a aparelhagem ortopdica utilizada para a compensao de dficits anatmicos.

    O termo amputao designa, em cirurgia, segundo Luccia, Goffi e Guimares (2001),

    a retirada de um rgo ou parte dele, situado numa extremidade (lngua, mama, intestino reto,

    colo uterino, pnis, membros). Quando nos referimos ao aparelho locomotor, amputao

    definida como a seco de um membro feita na continuidade ssea, enquanto desarticulao

    a ablao parcial ou total de um membro na contigidade ssea, ou seja, atravs da

    articulao. Usando-se isoladamente o termo amputao, este entendido como sinnimo de

    amputao de membros.

    Neste estudo, sero consideradas tanto amputaes quanto desarticulaes de

    membros superiores e inferiores em qualquer nvel, por serem entendidas como intervenes

    cirrgicas mutilantes, que ocasionam graves danos funcionais e psquicos ao paciente.

    Segundo Luccia, Goffi e Guimares (2001) e Tooms (2003) a amputao o mais

    antigo de todos os procedimentos cirrgicos, sendo a amputao de uma mo ou p

    considerada como forma de punio em algumas sociedades antigas, ditas civilizadas.

    Durante muito tempo representou a nica possibilidade cirrgica para o homem.

    As primeiras amputaes cirrgicas consistiam em procedimentos grosseiros, em que

    um membro de um paciente, no anestesiado, era seccionado, sendo a hemostasia do coto

    aberto realizada atravs do esmagamento ou mergulho do mesmo em leo fervente. Por

    razes bvias, estes cotos eram pouco adequados para o uso das precrias prteses existentes.

    Resistir s cirurgias era considerado uma vitria, pois as mesmas eram feitas rapidamente, s

    vezes em um s golpe, e em nveis proximais para garantir boa cicatrizao.

    Hoje, para se obter uma boa funo ps-operatria, a cirurgia cuidadosamente

    planejada e as estruturas so adequadamente tratadas para que o coto se torne um

    elemento til. O conceito atual de amputao de cirurgia reconstitutiva e no de

    .

  • 20

    simplesmente ablao. A introduo das anestesias e das tcnicas asspticas

    possibilitou, aos cirurgies, modelar com cuidado os cotos de amputao, tornando-os

    bem acabados e funcionais, alm de antecipar, dentro dos limites possveis, a

    cicatrizao da ferida sem a ocorrncia de infeces.

    Ambroise Par, cirurgio militar francs, trabalhou no incio do sculo XVI para

    melhorar as amputaes, buscando cotos mais funcionais, utilizando ligaduras para controle

    de sangramento e projetando prteses relativamente sofisticadas. O estudo das amputaes

    ganhou novo interesse aps as guerras mundiais, onde um grande contingente de amputados

    passou a necessitar de reabilitao (TOOMS, 2003).

    A amputao de um membro lesionado ou enfermo, de acordo com este mesmo autor,

    deve ser o primeiro passo para o retorno do paciente a um lugar normal e produtivo na

    sociedade, devendo, ento, a operao ser planejada e realizada com os mesmos cuidados e

    habilidades que so utilizados nas cirurgias plsticas e reconstitutivas, sendo que a

    reabilitao deve ser supervisionada por profissionais especializados.

    Ramacciotti, Luccia e Freitas (2002) referem que o conceito de amputao como

    ltimo recurso j no existe mais, sendo que a mesma deve ser encarada como mais uma fase

    no tratamento do doente: primeira etapa do processo de reabilitao. A mutilao deve ser

    apenas do membro e no da alma dos doentes.

    Segundo Chaves (1961a), Smeltzer e Bare (1992a), Luccia, Goffi e Guimares (2001)

    e Tooms (2003) a amputao de uma extremidade necessria, geralmente, como resultado

    de:

    Doena vascular perifrica progressiva causa mais comum de amputao,

    principalmente em pessoas idosas que sofrem obstruo arterial em diversos nveis e

    conseqente dor intensa por falta de irrigao tecidual adequada;

    .

  • 21

    Deformidades congnitas a ablao cirrgica de parte ou todo um membro,

    congenitamente deficiente, pode estar indicada em casos onde h dficit funcional e/ou

    esttico e que se prev um melhor resultado com o uso de prtese, alm de uma funo geral

    mais adequada aps a cirurgia;

    Tumores benignos ou malignos em tumores benignos, a indicao cirrgica feita

    quando os mesmos so to volumosos que levam a um membro afuncional, ou seja, tem sua

    capacidade funcional comprometida para o desenvolvimento de tarefas. Para tumores

    malignos busca-se impedir a disseminao de metstases, atravs da remoo tumoral. A

    amputao alivia a dor, elimina o foco de crescimento do tumor e proporciona melhor

    qualidade de vida com uso de prtese, mesmo que a sobrevida do paciente no seja longa.

    Traumatismos graves com esmagamento e comprometimento das partes moles

    (quando no mais se encontra resultado com a utilizao de outras medidas teraputicas)

    constitui-se na segunda causa mais freqente de amputaes, sendo provavelmente a principal

    em adultos com menos de 50 anos. Geralmente so causadas por traumas de guerra ou da vida

    civil, destacando-se os acidentes de trabalho e de trnsito, responsveis por perdas extensas de

    substncias, leses graves por arrancamento, destruio e necrose de tecidos e contaminao

    grosseira.

    Infeces incontrolveis as infeces podem ser agudas ou crnicas. Geralmente as

    agudas esto associadas a traumas com destruio tecidual macia, sendo o ponto final nas

    tentativas de preservao do membro. A gangrena gasosa a mais temvel destas infeces

    exigindo cirurgia de urgncia. As infeces crnicas, normalmente seqelas de traumas

    graves, tm evoluo mais lenta e permitem maior demora para a tomada de deciso de

    amputar, o que leva, muitas vezes, perda de nveis mais distais para a realizao da

    amputao. Como causa comum nestes casos temos a osteomielite.

    .

  • 22

    Smeltzer e Bare (1992 b) afirmam que as causas mais freqentes para amputao, em

    pessoas jovens, so traumatismos graves ou tumores, enquanto que em pessoas mais idosas a

    principal causa relacionada doena vascular perifrica, caracterizada pela reduo de fluxo

    sangneo atravs dos vasos perifricos. A insuficincia arterial das extremidades

    (predominantemente inferiores), na maioria das vezes, encontrada em homens com mais de

    cinqenta anos e leva isquemia e conseqente necrose, que pode tornar necessria a

    realizao de uma amputao.

    Luccia, Goffi e Guimares (2001) referem que as amputaes de membros superiores

    e inferiores diferem entre si em diversos aspectos. A causa mais comum de amputaes de

    membros superiores, em tempos de paz, a leso traumtica por acidente de trabalho ou de

    trnsito.

    Os princpios gerais de tcnicas referentes a um e outro tipo de amputao apresentam

    caractersticas prprias, atendendo ao fato de que os membros superiores executam

    movimentos mais rpidos e delicados que os membros inferiores, devendo, assim, sempre que

    possvel, serem poupadas as articulaes desde as interfalangianas, pois a mo ,

    inquestionavelmente, o segmento mais importante dos membros superiores.

    A amputao de membro superior determina a perda de duas funes crticas, ou seja,

    a sensibilidade terminal e a capacidade de preenso e habilidade manipulativa. Desta forma,

    os amputados de membros superiores devem ser submetidos a um exerccio de recuperao

    funcional mais intenso e duradouro em centros de reabilitao especializados, carecendo

    possuir maior esprito de colaborao e desejo de reintegrao ao trabalho profissional e

    sociedade. A elaborao dos aparelhos protticos complexa, devendo ser procedida por

    pessoas com longas experincias.

    Tooms (2003) refere que atualmente qualquer coto de amputao bem constitudo,

    bem cicatrizado e satisfatoriamente protegido poder receber uma prtese, que dever

    .

  • 23

    funcionar excelentemente. No entanto, as percentagens de rejeio da prtese aumentam

    progressivamente a cada nvel mais elevado de perda de membro superior.

    Tendo em vista que muitas atividades podem ser desenvolvidas com apenas um

    membro, em algumas situaes as desvantagens para uso de prtese, em membro superior,

    acabam superando as vantagens para os amputados em nveis altos, mesmo quando so

    propostas prteses sofisticadas. Nestes casos, deve-se pensar com cautela antes de se fazer a

    opo pelo uso da prtese, que, muitas vezes, tem custo elevado e acaba no sendo til como

    desejado.

    Esse autor e tambm Luccia, Goffi e Guimares (2001) citam como nveis para

    amputaes de membros superiores, os seguintes:

    Amputaes de dedos

    Esto indicadas em leses traumticas de dedos que fogem ao alcance da cirurgia

    restauradora, osteomielite, osteoartrite de falange, refratria ao tratamento conservador,

    gangrena isqumica de dedo, anquilose interfalangiana e metacarpofalangiana que causa

    imobilidade do dedo. So preferveis em vista da possibilidade de reabilitao, devendo-se

    conservar, sempre que possvel, o polegar.

    Amputaes transcarpianas ou desarticulao de punho

    Amputao indicada em leses com comprometimento carpiano, sendo prefervel

    realizada atravs do antebrao, pois, desde que seja mantida a articulao radioulnar, sero

    preservados os movimentos de pronao e supinao que sero transmitidos, em 50%,

    prtese.

    Amputaes de antebrao

    So indicadas em leses traumticas de mo com esmagamento de partes moles,

    fraturas, comprometimento vascular extenso, fracasso no reimplante de mo, osteoartrite

    crnica de carpo e metacarpo com conseqente perda completa da funo. Deve-se buscar

    .

  • 24

    preservar qualquer mecanismo de pina, afim de aproveitar os movimentos de pronao e

    supinao, que conferem prtese maior eficincia.

    Desarticulao de cotovelo

    Atualmente, a maioria dos cirurgies acredita que a desarticulao de cotovelo

    prefervel ao invs de uma amputao mais proximal, pois a expanso dos cndilos umerais

    pode ser agarrada pelo soquete da prtese, podendo ser transmitida a rotao umeral ao

    dispositivo prottico.

    Amputaes de brao (acima do cotovelo)

    Pode resultar de leses traumticas de antebrao ou cotovelo (com perda excessiva de

    partes moles e comprometimento da irrigao sangnea), pinamento da artria braquial

    pelas extremidades sseas na fratura, gangrena isqumica do antebrao, tumores malignos no

    antebrao.

    Amputaes de ombro

    Esto includas nesta categoria as amputaes atravs do colo cirrgico do mero, a

    desarticulao do ombro e a amputao do quarto superior. A funo neste tipo de amputao

    fica to comprometida que a prtese, muitas vezes, acaba sendo somente um dispositivo de

    sustentao para as atividades que devem ser realizadas com as duas mos.

    Segundo estes autores, no h estatsticas precisas sobre o nmero de amputados

    existentes ou o nmero de amputaes realizadas anualmente, porm, sabe-se que

    aproximadamente 85% de todas as amputaes realizadas ocorrem em membros inferiores e

    que o nmero de cirurgias de membros direitos e esquerdos basicamente igual.

    Um grande nmero de pessoas tem se beneficiado da cirurgia arterial restauradora. No

    entanto, um grande contingente de pacientes ainda submetido amputao de membros,

    muitas vezes, como procedimento primrio. As amputaes de membros inferiores tm

    evoludo ao longo dos tempos, juntamente com as discusses envolvendo a qualidade de vida

    .

  • 25

    oferecida aos pacientes e novas tcnicas para diminuir seus limites e facilitar suas

    reabilitaes. A maioria dos portadores de doenas circulatrias perifricas tem condies de

    retornar em perfeitas condies de sade fsica e psquica ao convvio social e familiar aps

    amputao (RAMACCIOTTI, LUCCIA e FREITAS, 2002).

    Estes mesmos autores afirmam que temos como principal causa de amputaes de

    membros inferiores a aterosclerose obliterante, sendo que o nmero de portadores desta

    doena vem aumentando progressivamente em conseqncia dos novos hbitos modernos de

    vida e elevao da expectativa de vida populacional. A alta incidncia de diabetes na

    populao uma constante e sua taxa varia de 35% a 70%, dependendo da srie analisada. O

    diabtico tem quinze vezes mais risco de amputaes em membros inferiores que o indivduo

    no diabtico.

    Em seu estudo, Rodrigues (2002) aponta, como principais causas de amputao de

    membros inferiores para os diabticos, o p diabtico (68,8%), doenas vasculares (12,5%),

    osteomielite (9,8%), gangrena (8,8) e tumores (0,3%), enquanto para os no diabticos temos

    como causa principal as doenas vasculares (69,4%), seguida de osteomielite (12,6%),

    traumas (8,3%), gangrena (7,1%) e tumor (2,4%).

    Observando os nveis de amputao de pacientes diabticos e no diabticos

    constatou-se que os que possuam diabetes tiveram nveis de amputaes menores (mais

    distais) com relao aos no diabticos. Podemos verificar as seguintes propores: para os

    diabticos foram realizadas 24,5% amputaes em podctilos, 11,7% transfemurais, 11%

    transtibiais, 5,1% transmetatarsiana, 0,7% transmetatarsiana/transfemural, 0,2%

    desarticulao coxo-femural e 0,7% p, enquanto para os no diabticos temos 22,1%

    tranfemurais, 9,3% podctilos, 8,5% transtibiais, 4,5% transmetatarsianas, 0,9%

    desarticulao coxo-femural, 0,5% transmetatarsiana/transfemural e nenhuma de p.

    .

  • 26

    Estes dados condizem com o relatado por Ramacciotti, Luccia e Freitas (2002), os

    quais referem que a obstruo aterosclertica se d com maior incidncia no diabtico nos

    vasos de mdio e pequeno calibre. Este fato pode facilitar a cicatrizao do coto, permitindo

    nveis mais distais nas amputaes.

    Segundo Gils et al. (1999), amputaes das extremidades inferiores so seqelas

    comuns em pacientes diabticos que apresentam ulceraes nos membros inferiores.

    Aproximadamente sessenta e sete mil amputaes so realizadas na populao diabtica a

    cada ano nos Estados Unidos, representando uma taxa de 8,6 por ano entre mil pacientes,

    constituindo mais de 83% de todas amputaes no traumticas. A taxa de mortalidade dentro

    de trs anos depois da primeira amputao de extremidade inferior de 20%, enquanto num

    perodo de cinco anos chega at a 50%.

    Rodrigues (2002) expe o ndice de mortalidade intra-hospitalar para pessoas

    amputadas de membros inferiores, diabticas e no diabticas, em um hospital de base no

    interior paulista. Observou que 53,1% dos pacientes que foram a bito, no perodo estudado,

    eram diabticos e encontravam-se na faixa etria de 60 a 69 anos, enquanto os outros 46,8%

    dos pacientes que faleceram no eram diabticos e tinham entre 80 e 106 anos.

    Verificou, ento, que a maioria dos pacientes amputados que faleceu apresentava

    diabetes e era mais jovem que os demais. Este fato vem ressaltar a contribuio importante do

    diabetes nas amputaes de membros inferiores, principalmente se recordarmos o que j foi

    dito anteriormente quanto aos nveis das amputaes, ou seja, os diabticos so amputados

    normalmente em nveis mais distais que os demais pacientes com vasculopatias, sugerindo

    que deveriam ter, desta forma, uma melhor recuperao e reabilitao.

    No que se refere s amputaes recorrentes, estas tambm so mais freqentes em

    diabticos (53,9%), destacando-se a realizao de duas ou mais cirurgias.

    .

  • 27

    No Brasil, de acordo com Pedrosa et al. (1998), as amputaes em pessoas diabticas

    perfazem 50% das amputaes no traumticas, sendo as complicaes do p diabtico

    responsveis por 40 a 60% dessas amputaes. O status econmico e a inacessibilidade aos

    servios de sade, para pacientes diabticos, representam elevada probabilidade de

    amputao, sendo a taxa de hospitalizao recorrente estimada em 50% nos primeiros trs

    anos ps-amputao e a taxa de mortalidade quatro vezes maior que para pacientes diabticos

    no amputados.

    Algumas complicaes do p diabtico so causadas por insuficincia vascular, mas a

    maioria tem base neuroptica, possivelmente piorada por doena vascular. O p insensvel

    no proporciona feedback sensitivo, fazendo com que a pele sofra soluo de continuidade em

    decorrncia de repetidos traumas no percebidos. Ao examinar um paciente diabtico

    essencial que seja includa a avaliao dos ps, podendo-se, assim, com orientaes sobre

    sapatos e teste de sensibilidade, importante para a preveno de traumas, evitar um grande

    nmero de amputaes (SNIDER, 2000).

    Cada vez mais necessrio o envolvimento do profissional de enfermagem para com a

    pessoa portadora de doenas crnicas, como diabetes, que tem grandes implicaes para as

    amputaes, pois esta requer seguimento para o resto da vida. A preveno de complicaes

    depende da adeso ao tratamento, de mudanas no estilo de vida e do desenvolvimento de

    habilidades para o auto-cuidado. O enfermeiro tem se destacado no papel educativo destas

    pessoas e, cada vez mais, torna-se importante sua integrao equipe multidisciplinar, com

    vistas a contribuir, de maneira efetiva, nas estratgias educativas e na minimizao de agravos

    sade (RODRIGUES, 2002).

    Para isso, simultaneamente buscamos melhorar a qualidade de vida dos indivduos

    portadores de amputaes, pois, como referem Tennvall e Apelqvist (2000), a qualidade de

    vida apresenta-se reduzida em indivduos diabticos com amputaes maiores.

    .

  • 28

    No que se refere aos aspectos tcnicos, as amputaes so regidas por princpios

    fundamentais da tcnica operatria, podendo ser abertas ou fechadas. As amputaes abertas

    devem ser realizadas quando h infeco vigente ou iminente, para que haja completa

    drenagem de secrees, quando h dvidas sobre a vascularizao local ou mesmo se a

    musculatura remanescente est esmagada, com pouca vitalidade. As amputaes fechadas so

    realizadas em casos onde no h infeco e a musculatura e vascularizao local so

    adequadas, permitindo, assim, a sntese primria do coto.

    Chaves (1961b) relata que tal procedimento pode ser realizado por mtodo circular,

    elptico, ovalar ou em seco plana, no ponto mais distal capaz de uma cicatrizao

    satisfatria. Deve conservar-se ao mximo o comprimento da extremidade, compatvel com a

    erradicao do processo patolgico, sendo desejvel a preservao das articulaes do joelho

    e do cotovelo.

    O local exato para amputao deve ser determinado pela circulao na rea e as

    exigncias impostas pela prtese, apesar da possibilidade dessa ser adaptada, praticamente, a

    qualquer nvel de amputao. Este mesmo autor (1961) lembra tambm que os aparelhos

    ortopdicos (prteses) devem ser individualizados, pois s assim sero capazes de satisfazer

    as necessidades e funes especiais de cada paciente. A preocupao com o desenvolvimento

    mecnico, indicao e aplicao de prteses vem aumentando, bem como com a reintegrao

    da pessoa na sociedade, readaptao, recuperao fsica e profissional do amputado, afim de

    que este no se sinta um peso para a sociedade.

    Ramacciotti, Luccia e Freitas (2002) referem que a delimitao do nvel para

    amputao de membros inferiores, nos casos de doena vascular perifrica, um aspecto

    controverso, mas que, a princpio, deve ser proximal regio isqumica para proporcionar

    melhores condies de cicatrizao aos tecidos. A melhor poca para se proceder amputao

    quando j ocorreu a delimitao da rea isqumica e necrtica; no entanto, muitas vezes o

    .

  • 29

    momento ideal decorrente do balano entre a rea delimitada, as dores em repouso, o

    controle da infeco e as condies gerais do paciente.

    Para estes autores, a evoluo da cirurgia vascular vem ampliando as possibilidades

    de preservao das extremidades com a melhora dos nveis de amputao ou mesmo com o

    aumento do comprimento do coto. importante, para o processo de reabilitao, que se

    tenham cotos longos, pois o consumo de oxignio e o gasto energtico para a marcha so bem

    maiores em amputaes mais proximais, chegando a uma relao de 10% de aumento no

    consumo para pacientes com cotos longos, contra 40% de aumento no consumo para

    pacientes com cotos curtos, quando comparados a uma pessoa no amputada.

    Para estabelecimento de nveis para amputaes de membros inferiores, Luccia, Goffi

    e Guimares (2001), Ramacciotti, Luccia e Freitas (2002) e Tooms (2003) recomendam:

    Amputaes transfalangianas

    Amputao atravs da falange proximal, que indicada em casos de necrose

    localizada e bem delimitada dos podctilos. Podem ser realizadas do segundo ao quinto

    podctilos, apresentando pequeno dficit funcional. O hlux tem importante funo na marcha

    devendo-se buscar ao mximo a sua preservao.

    Amputaes transmetatrsicas

    Amputaes realizadas nos metatarsos que normalmente so acometidos por

    contigidade nos processos infecciosos ou na gangrena dos podctilos. Apesar da diminuio

    da rea plantar, proporcionam bons resultados do ponto de vista funcional, pois preservam a

    integridade dos movimentos do tornozelo.

    Amputaes proximais do p

    Amputaes utilizando nveis mais proximais do p, em conseqncia de osteomielite

    ou necrose ssea em amputaes transmetatarsianas, ou at mesmo perdas de rea do retalho

    .

  • 30

    plantar. Podem ser denominadas Lisfranc, quando realizadas nas linhas articulares

    tarsometatarsianas, e Chopart, quando realizadas na linha mediotrsica.

    Amputaes de Syme e Pirogoff

    A amputao de Syme consiste na desarticulao tibiotrsica com a exerse total do

    tornozelo. Quando se preserva a tuberosidade do calcneo juntamente com o retalho plantar,

    denominada amputao de Pirogoff. So indicadas quando as leses necrticas acometem o

    dorso podlico ou quando houve insucesso nas amputaes transmetatrsicas ou proximais do

    p.

    Amputaes transtibiais

    As amputaes transtibiais, ou abaixo do joelho, so as mais freqentemente

    realizadas, normalmente em nvel do tero mdio ou superior da perna, buscando a

    preservao da insero do tendo patelar e, conseqentemente, da funo do joelho.

    Desarticulao do joelho

    A desarticulao do joelho indicada em neoplasias, infeces, traumatismos e at

    mesmo em vasculopatias e determina a preservao do comprimento sseo e da musculatura

    da coxa intacta, mantendo, consequentemente, uma alavanca muito til ao paciente,

    conferindo-lhe uma maior autonomia.

    Amputaes transfemurais

    Inicialmente, a preocupao com as condies circulatrias levou os cirurgies a

    considerarem este o nvel mais seguro para a cicatrizao dos tecidos; no entanto, com os

    bons ndices de cicatrizao nas amputaes transtibiais e a necessidade da preservao

    articular do joelho, este nvel passou a ser o segundo mais freqente nas indicaes de

    amputaes por doena vascular perifrica.

    Desarticulao coxo-femoral

    .

  • 31

    So mais indicadas em vasculopatias devido progresso proximal da aterosclerose e

    face s complicaes infecciosas envolvendo enxertos nos procedimentos de revascularizao

    dos membros inferiores.

    SANTOS et al. (1999) afirmam que, em caso de amputaes traumticas (comuns em

    acidentes automobilsticos), o tratamento inicial deve ser rpido pela gravidade da leso, a

    qual pode causar morte por hemorragia, e pela possibilidade de reimplante do membro

    amputado.

    Para Smeltzer e Bare (1992b), a perda de uma extremidade exige grandes ajustamentos

    por parte do amputado e a percepo da amputao deve ser compreendida pela equipe

    assistencial. Lembram tambm que os principais objetivos dos cuidados de enfermagem ao

    paciente amputado so de promoo do alvio da dor e de percepo alterada (dor fantasma),

    promover cicatrizao da ferida, incentivar a independncia no auto-cuidado bem como

    ajudar no estabelecimento de uma auto-imagem aprimorada e superao da mgoa resultante

    da perda de uma parte do corpo.

    Anteriormente cirurgia deve-se avaliar o estado neuromuscular e funcional da

    extremidade, bem como o estado psicolgico do paciente, pois a avaliao de sua reao

    emocional amputao essencial para os cuidados de enfermagem, os quais, segundo Shull

    (1996), incluem o monitoramento da drenagem do coto, posicionamento do membro afetado,

    auxlio para os exerccios prescritos pela fisioterapia, bem como envolver e proteger o coto.

    Segundo Ramacciotti, Luccia e Freitas (2002), a aceitao da mutilao sofrida um

    processo complexo tanto para o paciente como para a famlia, devendo, sempre que possvel,

    o suporte psicolgico anteceder a fase cirrgica da amputao, ocorrer durante a fase de

    preparo para a protetizao e manter-se at a reintegrao social e laborativa do paciente.

    Juntamente com o crescente aumento no nmero de amputados, tanto por problemas

    vasculares, quanto por acidentes automobilsticos, observamos uma crescente preocupao

    .

  • 32

    com a reabilitao destes pacientes, reintegrao dos mesmos sociedade como pessoas

    produtivas e capacitadas, enfim, manuteno da vida com qualidade.

    Definir qualidade de vida, no entanto, parece ser tarefa complicada, pois no se

    encontra na literatura um consenso, uma vez que os diversos autores consideram aspectos

    diferentes, com relevncias diferentes, para conceituar e mensurar qualidade de vida.

    Para Diogo (1990) e Souza et al. (2003) a qualidade de vida para o idoso tem sido

    associada a questes de dependncia autonomia, sendo essas dependncias resultantes de

    alteraes biolgicas (deficincias ou incapacidades) e de mudanas nas exigncias sociais.

    Segundo Minayo, Hartz e Buss (2000), qualidade de vida uma noo eminentemente

    humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfao encontrado na vida familiar, amorosa,

    social e ambiental e prpria esttica existencial. Pressupe a capacidade de efetuar uma

    sntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padro de

    conforto e bem-estar.

    A relatividade da noo de qualidade de vida apia-se em trs fruns de referncia:

    _ Histrico em um determinado tempo de seu desenvolvimento econmico, social e

    tecnolgico, uma sociedade especfica tem um parmetro de qualidade de vida diferente da

    mesma sociedade em outra etapa histrica;

    _ Cultural valores e necessidades so construdos e hierarquizados diferentemente pelos

    povos, revelando suas tradies;

    _ Classes sociais em sociedades onde h desigualdades e heterogeneidades muito grandes,

    os padres de bem-estar so estratificados, sendo a idia de qualidade de vida relacionada ao

    bem-estar das camadas superiores.

    importante observar que a concepo de qualidade de vida composta, tambm, por

    valores no materiais como amor, liberdade, solidariedade e insero social, realizao

    pessoal e felicidade.

    .

  • 33

    No campo da sade, o discurso da relao entre sade e qualidade de vida, embora

    bastante inespecfico e generalizante, existe desde o nascimento da medicina social, quando

    investigaes sistemticas comearam a dar subsdios para polticas pblicas e movimentos

    sociais.

    Minayo, Hartz e Buss (2000) referem que a Organizao Mundial de Sade, por meio

    do grupo de qualidade de vida (WHOQOL Group), define qualidade de vida como sendo a

    percepo do indivduo de sua posio na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores

    em que vive e em relao aos seus objetivos, expectativas e preocupaes. De acordo com

    esta definio, a qualidade de vida para a pessoa amputada parece ser uma questo de

    domnio nico do mesmo, sendo ele o responsvel por defini-la e caracteriz-la em sua vida,

    em seu existir.

    Esta viso pode ajudar-nos a entender um pouco mais sobre o paradoxo das

    incapacidades, relatado por Albrecht e Devlieger (1999), baseado no seguinte

    questionamento: possvel uma pessoa incapacitada ter boa qualidade de vida? Segundo esses

    autores pessoas portadoras de deficincias incapacitantes referem ter boa qualidade de vida.

    Ultrapassar os limites das incapacidades difcil, mas, quando isto alcanado, torna-se

    motivo de satisfao e prazer, com conseqente melhora da qualidade de vida ou percepo

    da mesma. fundamental para isto conseguir-se o equilbrio entre mente, corpo e esprito.

    Por ser enfermeira, busquei, na literatura, por conhecimentos produzidos pelos

    enfermeiros sobre a amputao. Para tanto, procurei revisar peridicos indexados, publicados

    entre janeiro de 1990 e dezembro de 2003 ou a partir da data de incio das publicaes do

    peridico, em se tratando daqueles criados recentemente, uma vez que a incidncia de

    acidentes automobilsticos e doenas crnico-degenerativas que podem levar amputao

    vem aumentando progressivamente.

    .

  • 34

    Apresento a seguir uma tabela onde exponho os dados obtidos desse levantamento

    bibliogrfico, abrangendo as publicaes do conhecimento produzido por enfermeiros,

    referentes ao tema amputao e assistncia de enfermagem a amputados:

    Tabela 1 Conhecimento produzido por enfermeiros sobre amputao e assistncia de enfermagem a pacientes amputados, divulgado em peridicos de enfermagem, no perodo de janeiro de 1990 a dezembro de 2003.

    PERIDICOS

    PERODO CONSULTADO

    TOTAL DE

    VOLUMES

    TOTAL DE

    ARTIGOS

    TOTAL ARTIGOS AMPUTAO/ ASSIST.

    ENF. Revista

    Latino-am. Enferm. Jan. 1993 / Dez. 2003 11 642 02

    Revista Brasileira Enferm. Jan. 1990 / Dez. 2003 14 786 02

    Revista Gacha Enferm. Jan. 1990 / Dez. 2003 14 259 00

    Revista Esc. Enferm. USP Jan. 1990 / Dez. 2003 14 571 01

    Revista Paulista Enferm. Jan. 1990 / Dez. 2003 14 236 02

    TOTAL --- 67 2494 07

    Esta tabela permite observar a escassez de publicaes, nos ltimos anos, referentes ao

    assunto consultado, visto que, de 2494 artigos pesquisados, somente sete abordam a questo

    da amputao.

    Foram encontrados dois artigos na Revista Latino-americana de Enfermagem

    abordando o tema, sendo ambos do mesmo autor. Em um de seus artigos, Diogo (1997)

    menciona que a idade avanada no razo suficiente para o comprometimento da capacidade

    funcional, porm, a incidncia de doenas crnico-degenerativas, associada a incapacidades

    fsicas no idoso aumenta a dependncia e perda da autonomia. Em 2003, Diogo discorre sobre

    a reabilitao de idosos amputados, a importncia da avaliao da capacidade funcional para o

    processo de reabilitao e a associao entre o grau de dependncia e o tipo (unilateral ou

    bilateral) e nvel da amputao (transtibial, transfemural, outras), sendo que maior a

    probabilidade do indivduo viver bem na comunidade se ele sofrer uma amputao transtibial

    e unilateral.

    .

  • 35

    Santana (2000), na Revista Brasileira de Enfermagem, reflete sobre a experincia

    vivida pelo ser humano diabtico ao sofrer uma perda de parte do corpo. O corpo fsico,

    esprito, mais que isto, vida. Perder parte deste corpo ter que se acostumar com um novo

    ser em sua incompletude. O corpo fala e silencia quando da mutilao, pois a mesma cria

    reas de silncio medida que retira uma parte do ser, uma parte da sua existncia. Os

    diabticos verbalizam medo da mutilao e mostram-se despreparados para conviver com essa

    reduo corporal e alterao de sua presena no mundo.

    Neste mesmo peridico, Chini e Boemer (2002) abordam a importncia da realizao

    de estudos que busquem compreender a amputao e a pessoa amputada em sua vivncia/

    existncia, bem como apontam a lacuna existente na literatura de enfermagem sobre o

    assunto, uma vez que reduzido o nmero de publicaes sobre o tema.

    Na Revista da Escola de Enfermagem USP, Diogo (1993) discorre sobre a auto-

    imagem do idoso submetido amputao de membros inferiores, considerando que na

    sociedade atual, o padro de beleza caracterizado pela imagem do jovem sadio, de corpo

    delineado. Desta forma, o idoso amputado traz consigo estigmas impostos pela sociedade, ou

    seja, velho e deficiente.

    Dois artigos foram encontrados na Revista Paulista de Enfermagem. Em um deles, o

    autor Diogo (1995) discorre sobre a relao entre autonomia e capacidade de independncia

    dos indivduos na realizao de atividades, principalmente no que se refere ao idoso

    submetido a uma amputao e o preconceito a que submetido, apesar de seu grande

    potencial para a reabilitao. No outro, os autores Diogo e Campedelli (1992), abordam o

    tema sob a perspectiva da dependncia-autonomia e as alteraes decorrentes de uma

    amputao nas atividades da vida diria.

    Em pesquisa realizada no Banco de Dados Pubmed, o qual possui revistas indexadas

    internacionalmente pelo Medline, utilizando-se como palavras chave amputation and nurse e

    .

  • 36

    amputation and nursing, foram encontrados 583 artigos referindo-se questo da amputao.

    Esses artigos abordam a amputao sob vrios aspectos como: o cuidado de enfermagem e a

    amputao, preveno de amputaes em diabticos, a utilizao de prteses e a reabilitao,

    controle da ansiedade, entre outros. No podemos, no entanto, afirmar que todos os autores

    que publicaram suas pesquisas neste banco de dados so enfermeiros, uma vez que esta

    informao no consta dos artigos (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?CMD

    =Display&BD=pubmed).

    Prosseguindo na busca da produo acadmica dos enfermeiros sobre o assunto,

    voltei-me, tambm, para a rea de Ps-graduao, revisando os catlogos do Centro de

    Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn). A reviso abrangeu o perodo de janeiro de

    1979 a dezembro de 2000, sendo que at dezembro de 1997 os dados desta busca encontram-

    se expostos na tabela a seguir. partir desta data at dezembro de 2000, a reviso foi

    realizada pela pesquisa em CD-ROM, o qual no permite a visualizao do total de teses

    publicadas. Neste perodo no foram publicadas teses ou dissertaes abordando o assunto.

    Tabela 2 Conhecimento produzido por enfermeiros, no mbito da Ps-graduao, sobre amputao e assistncia de enfermagem a pacientes amputados, divulgado nos catlogos do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn), no perodo de janeiro de 1970 a dezembro de 1997.

    CATLOGOS PERODO

    CONSULTADO TOTAL

    VOLUMES TOTAL

    TESES/DISSERT.

    TOTAL TESES/DISSERT AMPUT./AS.ENF.

    Catlogos CEPEn Jan.1979 / Dez. 1997 15 1546 05

    TOTAL --- 15 1546 05

    Verificamos que a produo em nvel de ps-graduao referente questo da

    amputao mostra-se tambm reduzida, uma vez que, entre 1546 teses/dissertaes

    pesquisadas, somente cinco abordam o assunto. Este fato vem mostrar, de forma clara, a

    .

  • 37

    existncia de uma lacuna na literatura acerca de conhecimentos produzidos e publicados por

    enfermeiros a respeito do tema.

    Observando-se o aumento da realizao de amputaes e a crescente preocupao com

    a preveno das mesmas, principalmente no que se refere quelas resultantes de doenas

    crnico-degenerativas, bem como a garantia de melhores condies de vida para a pessoa que

    necessitou ser submetida amputao, passando a ser um portador de deficincia fsica,

    importante que enfermeiros contribuam com a produo de conhecimentos sobre o assunto, de

    forma a compreender o significado da amputao para a pessoa que a vivencia, desde os

    primeiros momentos, abrindo, assim, caminhos que conduzam esta pessoa a um melhor

    conviver com sua nova situao, com o habitar um novo corpo e, a partir desta compreenso,

    lanar-se no mundo, em plenitude.

    Devido ao reduzido nmero de trabalhos que buscam compreender o ser humano

    submetido amputao em suas emoes e sentimentos no consegui, na busca literria,

    respostas s minhas inquietaes. Algo permanecia oculto para mim apesar da reviso da

    literatura. As vivncias em hospitais possibilitaram-me um dilogo com pessoas que tiveram

    parte do corpo recentemente amputada. Nesses dilogos, pude perceber que a amputao, para

    elas, vai para alm da dimenso biolgica, perceptvel s pessoas. Nesse momento de minha

    trajetria, direcionei meu olhar para outra perspectiva de enfoque do tema ser amputado,

    buscando por caminhos que me possibilitassem explicitar a interrogao. Pude, ento,

    conhecer o referencial filosfico de Merleau-Ponty (1994), o que me auxiliou nesse novo ver

    a amputao.

    .

  • 38

    2. O corpo na perspectiva filosfica de Merleau-Ponty

    Buscando explicitar minha interrogao no que se refere questo da amputao,

    recorri filosofia, mais especificamente a algumas idias do pensamento filosfico de

    Merleau-Ponty, pois, como relatam Coelho Jr. e Carmo (1991), ele filsofo da existncia, do

    corpo, fenomenlogo da percepo, que nos instiga a todo instante, impedindo um

    pensamento cristalizado que se reduza seja explicao (que s d conta de detalhes

    materiais), seja devoo (que faz com que no se queira saber nada fora de sua vida, que

    coloquemos sua obra como um milagre fora da histria privada ou pblica). A influncia, a

    fora e o poder de seduo de seu pensamento obriga-nos a repensar nossa viso de homem e

    nossas certezas arraigadas.

    Maurice Merleau-Ponty nasceu em maro de 1908, na Frana, e inicia sua carreira

    acadmica como professor em 1930, aps ter cursado filosofia.

    Segundo Carmo (2000), Merleau-Ponty praticou uma filosofia que se preocupou com

    o homem mais na sua existncia que na sua essncia. O homem pensado em seu meio

    natural, cultural e histrico, ou seja, como ser-no-mundo, mais do que como ser ideal,

    privilgio anteriormente dado pela filosofia da conscincia. Almejava desenvolver uma

    filosofia que mostrasse o enraizamento do esprito no corpo, isto , a conscincia atada a

    um corpo que a liga ao mundo.

    De acordo com Verssimo (2005), um importante elemento da originalidade do

    filsofo refere-se ao fato dele remeter-nos experincia do ato perceptivo, como fundamento

    do movimento existencial de se projetar e se situar com os sentidos em nossa

    circunvizinhana. Investigando o ato perceptivo que o corpo desponta como sede

    privilegiada da nossa apropriao do mundo.

    .

  • 39

    Coelho Jr. e Carmo (1991) afirmam que Merleau-Ponty, em sua filosofia, pela

    investigao da percepo, tenta superar o dualismo corpo-esprito, unindo o extremo

    objetivismo ao extremo subjetivismo. Busca um conhecimento mais concreto, um pensamento

    que desse conta do homem como ser-no-mundo, ultrapassando tanto a concepo materialista

    da cincia positivista, que basicamente considera o corpo como objeto, quanto a viso

    espiritualista que desconsidera valorativamente o corpo, opondo-o alma. O ser-no-mundo

    um s ser que est a pelo corpo, ao mesmo tempo que dotado de um esprito, de uma

    essncia, sendo um ser nico em sua singularidade.

    Para Merleau-Ponty (1994) o corpo nosso meio geral de ter o mundo, constituindo-se

    como elemento primordial do existir. Por ele estamos inseridos no mundo, nos comunicamos,

    nos expressamos, experienciamos e estamos abertos s vivncias. Ele no objeto.

    Sendo o corpo, ento, a sede de nossas experincias, pude, atravs dessa incurso por

    algumas idias de Merleau-Ponty sobre o corpo e sua insero no mundo, percebendo e sendo

    percebido, permitir o emergir mais claro de minha interrogao: O que isto, a

    amputao?. Preencher este isto tarefa da fenomenologia. Minha preocupao se explicita

    e passo a ter a proposta de compreender a amputao tal como ela se mostra pessoa que a

    vivencia, utilizando-me para tanto da fenomenologia, uma vez que esse referencial busca a

    compreenso dos fenmenos vivenciados pelos sujeitos e no a explicao ou mensurao sob

    a tica de um fato.

    Desta forma, entendo ser necessria a realizao deste trabalho que, por meio dos

    depoimentos de pessoas que vivenciam o fenmeno amputao, pode desvelar algumas

    facetas que se mostram ocultas a mim, permitindo compreender o fenmeno da maneira que

    ele se constitui, em sua essncia.

    Segundo Merleau-Ponty (1994), por meio da fala retomamos o pensamento do outro,

    uma reflexo no outro, um poder de pensar segundo o outro que enriquece nossos prprios

    .

  • 40

    pensamentos. A fala um verdadeiro gesto e contm seu sentido, sua significao; um

    mundo. Desta forma, a amputao mostrar-se- a ns nestes depoimentos.

    .

  • 41

    3.Caminho metodolgico

    3.1.O referencial da fenomenologia e a proposta dessa investigao

    O positivismo (como denominao para a filosofia do sculo XIX) evoca as

    convices de Augusto Comte (1798-1857) de que o nascimento da cincia teria marcado o

    incio histrico da humanidade, sendo cincia compreendida como verdade, como pesquisa

    limitada a fatos, ou seja, a ocorrncias empiricamente verificveis com metodologia

    sistemtica e relaes constantes entre esses fatos. Deste modo, superam-se as pocas em que

    os fenmenos naturais e sociais eram vistos como manifestaes de seres divinos e todas as

    doutrinas consideradas no cientficas ou no verdadeiras (mitos, crenas religiosas, entre

    outros) eram tidas como saberes ilusrios e falsos (CUPANI, 1984).

    Esse mesmo autor refere ainda que com o Crculo de Viena, nova corrente intelectual,

    h o desenvolvimento do neopositivismo, que adota uma postura ainda mais radical, com a

    introduo da lgica matemtica como instrumento de anlise da linguagem humana,

    defendendo que o discurso humano s encerra conhecimento quando logicamente

    consistente.

    Na concepo positiva de cincia, esta tida como nico conhecimento vlido, sendo

    este: objetivo (suas afirmaes so controlveis mediante procedimentos definidos),

    metdico, desinteressado da realidade (a finalidade explicar o mundo, porm, o cientista

    deve manter uma relao de imparcialidade com o fenmeno pesquisado), crtico (tudo pode

    ser substituvel ou revisvel, caso se mostre falso, injustificvel ou intil), preciso (elaborado

    .

  • 42

    com linguagem sem ambigidade ou conotao subjetiva), possuidor de raciocnio lgico e

    matemtico (garantindo coerncia do pensamento) e conhecedor de leis para explicar e

    predizer os fenmenos.

    O modo de pesquisa positiva mostra-se eficaz na compreenso das cincias naturais e

    Comte prope sua aplicao ao mundo humano, sendo esta idia alvo de crticas, uma vez que

    os fenmenos humanos so muito mais complexos que os naturais, no comportando somente

    a metodologia cientfico-natural, que ignora a singularidade das pessoas, bem como sua

    liberdade (CUPANI, 1984).

    Para Merleau-Ponty (1994), na experincia vivida que podemos apreender a

    complexa trama do comportamento humano e no em situao criada em laboratrio.

    Segundo Martins, Boemer e Ferraz (1990), a fenomenologia surgiu no incio do sculo

    XX, com Edmund Husserl, como a cincia para as experincias vividas, contrapondo-se s

    idias positivistas de Augusto Comte, evidenciando que os seres humanos no so objetos e

    suas atitudes no podem ser vistas como simples reaes.

    Husserl censura as cincias humanas, principalmente a psicologia, por terem adotado o

    mtodo das cincias naturais e aplic-lo sem discernir que seu objeto diferente. Rejeita o

    naturalismo dessas cincias que, no tendo destacado a especificidade do seu objeto e

    tratando-o como se tratasse de um objeto fsico, confundem a descoberta das causas exteriores

    de um fenmeno com a natureza prpria deste (DARTIGUES, 2002).

    Para Capalbo (1984), a fenomenologia se apresenta como cincia descritiva, rigorosa,

    concreta, que mostra e explicita, que se preocupa com a essncia do vivido. ainda uma

    cincia do possvel, ou seja, refere-se possibilidade enquanto modo de ser da existncia

    humana, que possui projetos existenciais.

    Conforme o relatado por Merighi (2003), a fenomenologia nos convoca a retomar o

    caminho qualitativo da existncia, a redescobrir o sentido global do existir no mundo, o

    .

  • 43

    sentido de ser humano no mundo, o sentido de nossa existncia. No podemos abandonar nem

    a razo, nem a tcnica, mas sim recuperar o sentido do ser, da existncia humana, do ser

    humano no mundo.

    ressaltada, na fenomenologia, a importncia do sujeito no processo de construo do

    conhecimento, procurando interrogar a experincia vivida e o significado que o sujeito lhe

    atribui, ou seja, procura no priorizar o objeto e/ou sujeito, mas centra-se na relao sujeito-

    objeto-mundo, buscando a indissociao entre eles.

    A fenomenologia, na perspectiva de Husserl, possibilita ao pesquisador o acesso

    conscincia humana, a volta s coisas mesmas, s essncias, o que significa chegar

    verdades, realidade desprovida de esteretipos ou pressupostos em relao ao fenmeno

    pesquisado.

    Boemer (1994) refere que a fenomenologia o discurso esclarecedor do que se mostra

    oculto e tem o sentido de des-velar (tirar o vu, desocultar). Tem como objeto de estudo a

    realidade enquanto vivida pelos sujeitos (pesquisador e cliente), buscando descrever e mostrar

    o fenmeno sem tentar explic-lo e mensur-lo para, assim, alcanar a essncia do mesmo.

    Este envolvimento do pesquisador com o fenmeno que interroga, se d, segundo um

    pensar husserliano, nas investigaes fenomenolgicas, pois estas so caracterizadas pela

    discusso e esclarecimento da estrutura da conscincia. A mesma no uma substncia, nem

    redutvel quilo que a observao emprica pode propiciar. Conscincia, ento, ato que

    est voltado para algo, para o mundo exterior, para as coisas, para outros homens, para si

    mesma ou para seu ego, etc. (CAPALBO, 1984).

    Segundo Dartigues (2002), conscincia sempre conscincia de alguma coisa e est

    dirigida a um objeto. Por sua vez, o objeto s pode ser definido em sua relao conscincia,

    ele sempre objeto para um sujeito. Conscincia e objeto no so duas entidades separadas na

    natureza, mas sim se definem, respectivamente, a partir da correlao que lhes original.

    .

  • 44

    Conforme relatam Martins e Bicudo (1989), o fenmeno s se mostra enquanto

    fenmeno quando, vivendo no mundo, somos afetados por algo e esse algo no est claro para

    ns, pedindo-nos aclaramento, desvelamento. Ele se mostra de forma situada onde h um

    sujeito que vive uma situao. O acesso a ele se d pelo experienciar o fenmeno ou,

    indiretamente, pela metacompreenso, ou seja, por meio da descrio do compreender de

    algum.

    Os fenmenos se doam a ns por meio dos sentidos, eles se doam sempre dotados de

    um sentido ou de uma essncia que vai responder questo: o que ? Esta questo pode ser

    colocada sobre qualquer fenmeno e, se no o fazemos, porque estamos assegurados de sua

    essncia ou acreditamos que estamos (DARTIGUES, 2002).

    Carvalho (1987) relata que por meio da metodologia fenomenolgica podemos

    mostrar, descrever e compreender os motivos presentes nos fenmenos vividos que se

    mostram e se expressam de si mesmo na entrevista emptica. O mtodo fenomenolgico

    busca o que transcende as particularidades empricas de que se investe o fenmeno enquanto

    aparncia e, portanto, permite compreend-lo. A entrevista clssica busca obteno de dados

    sociais ou situacionais, enquanto na perspectiva fenomenolgica vemos e observamos, a partir

    do espao e tempo do cliente, sendo espao habitado o que se expressa pela amplitude da

    vivncia e no o espao geomtrico, e o tempo um engajamento e conscincia de si e no uma

    sucesso do que passa.

    Escutar a palavra do outro, do cliente, tornar-se sensibilidade, intuio, imbuir-se e

    impregnar-se de seus gestos e de toda a sua forma de dizer as coisas; como se pensasse seu

    pensamento e, assim, compreender esse pensamento, seu gesto, escutar o silncio que se faz

    comunicao, que se faz fala. No seu discurso, percebe-se um sentido que transcende o

    emprego das palavras, dos vocbulos e expresses culturais e idiomticas, prprias da cultura

    e da lngua em que se exprime.

    .

  • 45

    Desta forma, na entrevista pode emergir a conscincia de si, ou seja, a conscincia que

    o cliente tem de sua maneira de estar no mundo e de se posicionar face s situaes,

    permitindo ao entrevistador captar sua maneira de vivenciar o mundo. No se busca uma

    linguagem que seja a soma de pensamentos e idias e sim uma fala que possibilite a mediao

    com o outro e a comunicao com o mundo. Para compreender o pensamento do cliente deve-

    se penetrar seu mundo, sua vida e presena, impregnar-se e imbuir-se de seus gestos,

    abstraindo todo e qualquer preconceito, conforme ressalta Boemer (1994).

    Segundo Martins, Boemer e Ferraz (1990), o momento em que se d o encontro entre

    o pesquisador e o fenmeno (quando o fenmeno colocado em suspenso, diante dos olhos

    para que o pesquisador o veja de forma atentiva), constitui-se no que Husserl chamou de

    epoch, que significa reduo de toda e qualquer crena, teoria ou explicaes a priori, uma

    sada da maneira comum de olhar e um abandonar os preconceitos e os pressupostos em

    relao ao tema de estudo. O pesquisador deve, portanto, suspender suas experincias e

    pensamentos, atento s descries dos sujeitos de pesquisa para que, assim, consiga o

    desvelamento do fenmeno, da forma como ele , em si prprio.

    Ao recusar os conceitos prvios, as teorias e as explicaes a priori, o pesquisador no

    parte de um marco zero ou um vazio. Vive-se num pr-reflexivo e, enquanto este no se torna

    reflexivo, no se tem uma inteligibilidade do fenmeno. A reflexo deve incluir a

    possibilidade de olhar as coisas como elas se manifestam. a volta s coisas mesmas; lema da

    fenomenologia, segundo Husserl.

    Olhando as coisas como elas se mostram em si mesmas, podemos compreend-las e

    direcionar, de modo mais adequado, nosso olhar, nossas aes, atos e pensamentos. A fim de

    compreender as coisas e o mundo, a fenomenologia, e conseqentemente a filosofia, vem se

    mostrando como caminho possvel, passando a se integrar como alternativa metodolgica de

    pesquisa para as diversas cincias. Alguns autores, citados abaixo, j utilizam-se desta forma

    .

  • 46

    de investigao em diversas reas como, por exemplo, psicologia, educao e sade. A

    enfermagem, portanto, pode perfeitamente fazer uso desta possibilidade que se apresenta, uma

    vez que tem como objetivo, em seu trabalho, garantir o bem-estar do paciente que recebe a

    assistncia. Compreendendo a vivncia do cliente, centro de toda assistncia, capaz de

    proporcionar uma atendimento individualizado, coerente com o momento vivenciado pela

    pessoa que recebe o cuidado.

    Capalbo (1984) relata que a tendncia da enfermagem a de considerar o homem em

    seu todo, holisticamente, e no mais isoladamente em partes que funcionam mecanicamente,

    buscando, assim, superar os dualismos clssicos (oriundos da viso naturalista de homem)

    como mente e corpo, indivduo e sociedade, sade e doena, relacionamento pessoal e

    impessoal.

    Para Merighi (2003), a fenomenologia no vai explicar a doena; ela busca

    compreender o homem em sua totalidade existencial, enquanto homem inserido numa dada

    sociedade histrica e culturalmente situada. Ela contribui para a enfermagem, uma vez que a

    tendncia desta a de retomar e considerar o homem em seu todo, de modo holstico, e no

    mais isoladamente em partes. A assistncia sade volta-se, assim, para pessoas congruentes

    e livres e no mais pacientes annimos sobre os quais ir se atuar.

    Referem tambm Martins, Boemer e Ferraz (1990), Boemer e Rocha (1996) e Corra

    (1997) que a enfermagem, ao despertar para outras dimenses alm da biolgica, necessita de

    abordagens diversas de pesquisas para produzir conhecimentos. Nesse sentido, a

    fenomenologia mostra-se como um caminho possvel para a realizao de investigaes,

    vislumbrando um novo horizonte de compreenso da enfermagem nas relaes humanas, uma

    vez que o homem visto como um ser e no como conjunto de fragmentos. O conhecimento

    construdo com base na fenomenologia pode possibilitar transformao no sentido de que o

    cuidado de enfermagem se d para alm do biolgico e tcnico, proporcionando, assim, uma

    .

  • 47

    melhor qualidade do cuidado prestado e da inter-relao com o homem a quem se presta esse

    cuidado.

    de extrema importncia que a enfermagem incorpore em seu mundo vises

    fundamentadas no existir, vises de aproximao humanitria, pois o que se observa, de modo

    geral, um fazer mecnico, que no valoriza a individualidade de cada ser cuidado. O

    discurso acadmico, que enfoca um cuidar holstico, acaba como que sufocado pelo fazer

    cotidiano, norteado por uma viso organizacional e funcionalista. Somado a isto temos a falta

    de compreenso, por parte do profissional, sobre o momento vivenciado pelo paciente.

    Partindo desses pressupostos filosficos, vejo, na fenomenologia, a possibilidade de

    compreender o fenmeno, estar vivenciando uma situao de amputao, da maneira que

    ele se mostra em si mesmo e seu significado para a pessoa que o experiencia. Pela

    compreenso, desta experincia, possvel abrir novos horizontes que possibilitem um cuidar

    mais humano, voltado singularidade da pessoa.

    A fim de compreender o fenmeno que se encontra diante de meus olhos para

    investigao, busquei a descrio da experincia pelos sujeitos que a vivenciam, em um

    momento em que h a iminncia de uma futura condio no mundo, quando o poder ser uma

    pessoa amputada comea a mostrar-se a ela e, em um momento no qual a pessoa ainda est se

    apropriando de sua nova condio no mundo, em seu sendo amputado.

    .

  • 48

    4. A obteno dos dados

    4.1 Cuidados preliminares

    Para o desenvolvimento deste estudo foi escolhido, como contexto, o Hospital das

    Clnicas da Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto da Universidade de So Paulo

    (HCFMRP USP), mais precisamente as clnicas cirrgicas vascular e ortopdica do HC-

    Campus. Este hospital constitudo por duas unidades: HC-Campus, onde normalmente so

    internados pacientes para tratamento clnico ou cirrgico (eletivo/ ambulatorial), e HC-UE

    (Unidade de Emergncia) onde so atendidos pacientes de Ribeiro Preto e regio em

    situaes de urgncia e emergncia.

    A fim de delimitar qual das duas unidades seria mais adequada ao desenvolvimento do

    estudo, realizei um levantamento das amputaes, feitas no ano de 2004, nestas unidades,

    comparando-as. Apresento a seguir os dados obtidos deste levantamento, ressaltando que

    esto apresentados de forma simples, pois, uma anlise mais profunda, pode ser objeto para

    realizao de outro estudo.

    Tabela 3 Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004 no HCFMRP USP, segundo local de realizao.

    Ms UE Campus Total Janeiro 09 07 16 Fevereiro 08 04 12 Maro 07 02 09 Abril 05 02 07 Continua

    .

  • 49

    Continuao Ms UE Campus Total

    Maio 03 07 10 Junho 07 04 11 Julho 12 06 18 Agosto 12 06 18 Setembro 04 07 11 Outubro 10 05 15 Novembro 06 03 09 Dezembro 05 02 07 Total 88 55 143 Observamos, nesta tabela, que durante o ano de 2004, a quantidade de amputaes

    variou pouco de um ms para outro, sendo a maioria destes procedimentos realizados na

    Unidade de Emergncia do HCFMRP-USP. Isto pode ser correlacionado ao fato desta

    unidade realizar atendimentos emergenciais, incluindo-se a traumatologia, ou seja, todas as

    pessoas vtimas de acidente so encaminhadas e socorridas inicialmente nesta unidade, onde,

    muitas vezes, feita a amputao ou regularizao do coto.

    Tabela 4 Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo local e clnica de realizao.

    Clnica UE Campus Total Cirrgica 40 -- 40 Vascular -- 29 29 Ortopedia 21 11 32 Outros 27 15 42 Total 88 55 143 Esta tabela nos mostra a quantidade de amputaes segundo o local onde foi realizada

    e a clnica de internao responsvel pelo paciente. A Unidade de Emergncia do HCFMRP-

    USP no possui, como na unidade do Campus, uma clnica cirrgica voltada somente para a

    especialidade vascular. Nota-se que a maioria das amputaes, nesta unidade, foi realizada em

    pacientes internados na clnica cirrgica, sendo a mesma responsvel por cirurgias em geral,

    inclusive por amputaes decorrentes de problemas vasculares ou no.

    .

  • 50

    No HC-Campus, a maioria dos procedimentos foi realizada em pacientes internados

    na clnica vascular, ou seja, a maior parte das amputaes nesta unidade decorrente de

    patologias de ordem circulatria.

    Tabela 5 Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo sexo, faixa- etria e local de realizao.

    Faixa etria

    UE Masc. Fem.

    Campus Masc. Fem.

    Total

    00 10 03 -- -- 01 04 11 20 02 01 02 -- 05 21 30 12 01 -- 02 15 31 40 07 01 01 02 11 41 50 06 -- 03 05 14 51 60 16 03 10 04 33 61 70 10 01 08 04 23 71 80 07 08 07 03 25 81 90 04 05 01 01 11 91 100 01 -- 01 -- 02 Total 68 20 33 22 143 Analisando esses dados da tabela 5, observamos que a maioria dos pacientes que

    sofreu amputao, do sexo masculino, com predominncia na faixa etria de 51 a 60 anos,

    seguida de 71 a 80 anos e 61 a 70 anos. Essas observaes foram tambm relatadas por

    Tooms (2003), quando afirma ser elevada a incidncia da perda de membros na faixa etria

    dos 50 aos 70 anos, sendo, aproximadamente, 75% das amputaes realizadas em homens.

    Verificamos, tambm, que h uma grande discrepncia no nmero de amputaes

    realizadas em homens e mulheres, na Unidade de Emergncia, com destaque aos adultos

    jovens. Acredito que este fato deva-se maior susceptibilidade ao trauma, tanto

    automobilstico, quanto em acidentes de trabalho, do indivduo de sexo masculino.

    .

  • 51

    Tabela 6 Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo local, clnica e nvel de amputao.

    Nvel

    UE Cirurg. Ortop. Outros

    Campus Vasc. Ortop. Outros

    Total

    Amputao antebrao

    01 -- -- -- -- -- 01

    Amputao dedo p

    12 03 01 05 -- 05 26

    A. articulao metatarsofalangica

    01 02 01 -- -- -- 04

    Amputao infra- patelar

    19 01 07 11 02 04 44

    Amputao supra- patelar

    07 -- 06 06 04 02 25

    Amputao membro inferior

    -- -- 01 -- -- -- 01

    Amputao membro superior

    01 -- -- -- 01 -- 02

    Reviso amp. Traumtica

    -- 01 -- -- -- -- 01

    Desarticulao de dedo

    03 13 05 02 02 01 26

    Desarticulao coxo-femural

    01 -- -- -- 02 01 04

    Desarticulao de joelho

    -- -- -- 04 -- 01 05

    Amputao mo

    -- 01 -- -- -- 01 02

    Amputao transmetatarsiana

    -- -- 01 01 -- -- 02

    Total

    45

    21

    22

    29

    11

    15

    143

    Por essa tabela, verificamos a predominncia de amputaes de membros inferiores,

    principalmente a nvel infra-patelar, que so seguidas pelas de dedo do p e pelas supra-

    patelares. Esses dados vem ao encontro do relatado por Tooms (2003), quando refere que a

    maior parte das amputaes realizadas (cerca de 85%) so de membros inferiores.

    .

  • 52

    Tabela 7 Nmero de amputaes realizadas, no perodo de janeiro a dezembro de 2004, no HCFMRP USP, segundo patologia, faixa etria e sexo.

    Faixa etria Patologia//Sexo

    0-20 M F

    21-40 M F

    41-60 M F

    61-80 M F

    81-100 M F

    Total

    Neoplasia

    02 -- -- -- 03 01 -- -- -- -- 06

    Mal formao congnita

    -- 01 -- 01 -- -- -- -- -- -- 02

    Trauma

    04 02 20 01 06 02 01 -- -- -- 36

    Gangrena

    -- -- -- 03 03 02 01 -- -- -- 09

    Gangrena + trombose

    -- -- -- -- 01 01 08 05 04 01 20

    Trombose + embolia

    01 -- -- -- 05 -- 07 -- 02 01 16

    Diabetes + complicaes circulatrias

    -- -- -- -- 13 05 13 10 01 04 46

    Diabetes + infeco

    -- -- -- -- 04 01 01 01 -- -- 07

    lcera + osteomielite

    -- -- -- -- -- -- 01 -- -- -- 01

    Total

    07

    03

    20

    05

    35

    12

    32

    16

    07

    06

    143

    As causas de amputaes apresentadas na tabela, o so de maneira idntica s

    encontradas no sistema de registro do hospital, sendo que este elaborado com base nas

    anotaes e diagnsticos dos mdicos responsveis pelo procedimento/atendimento.

    Em consonncia com o encontrado na literatura (Smeltzer e Bare em 1992a, Luccia,

    Goffi e Guimares em 2001 e Tooms em 2003), o trauma responsvel pela maioria das

    amputaes em pessoas jovens, neste caso com idades entre 21 e 40 anos, sendo,

    predominantemente, do sexo masculino. A partir dos 40 anos, observamos que as causas

    vasculares passam a ser predominantes, com destaque notvel associao com diabetes (46

    casos).

    Fazendo este levantamento do nmero de procedimentos, bem como das

    caractersticas dos mesmos, realizados nas duas unidades do hospital, pude observar que

    .

  • 53

    poderia desenvolver este trabalho na unidade do HC-Campus, pois facilitaria meu acesso aos

    pacientes na vspera da cirurgia, devido ao carter eletivo e no emergencial das mesmas,

    sem trazer prejuzos ao estudo, pois a quantidade de procedimentos semelhante, bem como

    as patologias que levam amputao. Esta breve pesquisa possibilitou-me ir ao encontro do j

    constatado na reviso literria, no que se refere s patologias que levam amputao, nveis e

    sexo predominante, alm de conhecer as caractersticas do local onde seria desenvolvido este

    estudo.

    Ao delimitar a unidade do HC-Campus para o desenvolvimento deste estudo, o que me

    permitiria acompanhar o paciente desde o pr-operatrio at sua alta, acabei por fazer um

    recorte, espontneo e involuntrio, quanto ao contexto onde est inserida a amputao e o

    paciente amputado. Nesta unidade, a maioria das amputaes realizadas eletiva e em

    pacientes vtimas de doenas crnicas. Esta situao pode estar relacionada percepo

    imediata do paciente, sobre a cirurgia, uma vez que, na doena crnica, o paciente tem a

    possibilidade de optar pela realizao ou no da cirurgia, diferentemente do que ocorre no

    trauma.

    No trauma, as pessoas no possuem tempo hbil para decidir e pensar sobre a

    amputao e as mudanas que ocorrero em suas vidas. Muitas vezes, acordam sem um de

    seus membros e isto pode gerar, em um primeiro momento, reaes e atos que sero

    manifestados de modo diferente, quando comparados com aqueles expressos por pacientes em

    ps-operatrio de uma cirurgia programada. Assim, as situaes, apesar de vividas de modo

    prprio por cada pessoa envolvida, esto sempre relacionadas a um contexto que tambm

    imprime sentidos diversos.

    .

  • 54

    4.2 Observncia da dimenso biotica

    O Conselho Nacional de Sade, no uso da competncia que lhe outorgada pelo

    decreto n 93933 de 14/01/1987, aprovou as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de

    Pesquisas Envolvendo Seres Humanos, atravs da Resoluo 196/96. Esta Resoluo visa

    assegurar os direitos e deveres da comunidade cientfica, dos sujeitos da pesquisa e do Estado.

    Incorpora, sob a tica do indivduo e da coletividade, os quatro referenciais bsicos da

    biotica: autonomia, no-maleficncia, beneficncia e justia (CONSELHO NACIONAL DE

    SADE, 2005).

    So consideradas pesquisas com seres humanos aquelas que, individual ou

    coletivamente, envolvem os seres humanos, em sua totalidade ou em partes, direta ou

    indiretamente, incluindo, tambm, o manejo de informaes ou materiais. Estas pesquisas

    devem atender s exigncias ticas e cientficas fundamentais, ponderando os riscos e

    benefcios, evitando danos previsveis, observando a relevncia social, garantindo, assim, a

    autonomia e dignidade do paciente, bem como a defesa em sua vulnerabilidade.

    Em respeito dignidade humana, a pesquisa deve ser iniciada somente aps a

    assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelo paciente, sendo, isto, feito

    por espontnea vontade, sem represses ou penalidades. Toda pesquisa envolvendo seres

    humanos dever ser submetida apreciao de um Comit de tica em Pesquisa (CEP) da

    instituio onde ser realizada, porm, caso a mesma no o possua, o projeto de pesquisa

    poder ser avaliado por um Comit de outra instituio, preferencialmente indicada pela

    Comisso Nacional de tica em Pesquisa (CONEP). Esta Comisso constitui-se numa

    .

  • 55

    instncia colegiada, de natureza consultiva, deliberativa, normativa, independente, vinculada

    ao Conselho Nacional de Sade.

    A fim de garantir que sejam preservados os direitos humanos, bem como a integridade

    fsica e moral dos sujeitos participantes deste estudo e observando as Diretrizes e Normas

    Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos, este estudo foi submetido,

    inicialmente, apreciao do Comit de tica em Pesquisa do Hospital das Clnicas da

    Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto USP (HCFMRP- USP), obtendo parecer favorvel

    em 06/12/2004, na 194 Reunio Ordinria, processo HCRP n 8978/2004 (anexo I).

    A coleta de depoimentos foi iniciada em janeiro de 2005, aps a obteno do aval do

    Comit de tica em Pesquisa do hospital. As entrevistas foram realizadas com o

    consentimento do paciente, sendo iniciadas aps a assinatura do Termo de Consentimento

    Livre e Esclarecido (anexo II). Os mesmos eram assinados em duas vias, sendo que uma

    permanece em poder da autora e a outra foi fornecida ao paciente.

    Mesmo aps assinar o Termo, consentindo em participar, o paciente era

    constantemente informado sobre sua autonomia e respeitadas as suas vontades, uma vez que

    realizava as entrevistas somente quando o paciente encontrava-se disposto para tanto.

    4.3 O acesso aos sujeitos participantes deste estudo

    Buscando pelos depoimentos dos pacientes amputados, realizei entrevistas

    individuais, de janeiro a maio de 2005, com pacientes adultos, internados nas clnicas

    ortopdica e cirrgica (vascular) do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina de

    .

  • 56

    Ribeiro Preto da Universidade de So Paulo, unidade Campus. Foram entrevistados treze

    pacientes, sendo nove homens e quatro mulheres, com idade variando entre quarenta e quatro

    e oitenta anos. Realizei cinqenta e dois encontros com estes pacientes, geralmente de

    segunda a sexta-feira, em dias alternados. Por diversas vezes no pude realizar a entrevista,

    pois o paciente encontrava-se fazendo exames, recebia visita de familiares ou amigos e se

    mostrava mais acolhedor, naquele momento, visita ou no apresentava condies fsicas

    para falar (dor, sono, fadiga ou indisposio para conversar).

    Meu acesso aos pacientes se dava pela observao diria da escala cirrgica, o que

    permitia verificar a realizao de alguma amputao no dia seguinte, e dilogo com as

    enfermeiras das clnicas cirrgicas vascular e ortopdica.

    No primeiro encontro com o paciente que seria submetido amputao,

    solicitava, aps minha apresentao, a sua colaborao para o desenvolvimento do

    estudo, por meio de seus depoimentos. Nesse momento, explicitava a proposta deste

    trabalho, bem como o meu interesse em ouv-lo. Sendo expresso por ele o desejo em

    colaborar com o projeto e assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido,

    iniciava a coleta dos depoimentos, seguindo a cronologia exposta a seguir:

    A primeira entrevista, sempre que possvel, era realizada na vspera do dia

    programado para a amputao. Para essa entrevista, propunha ao paciente a seguinte questo

    norteadora: Como a cirurgia de amanh se mostra ao senhor(a)?

    As entrevistas subseqentes ocorreram a partir do primeiro dia do perodo ps-

    operatrio at a alta hospitalar, geralmente em dias alternados, como j dito anteriormente.

    .

  • 57

    Tiveram como base para a descrio do fenmeno a questo norteadora: Qual o significado

    dessa amputao para voc? Descreva para mim.

    Propunha-se, inicialmente, que essas entrevistas fossem realizadas em local que

    garantisse maior privacidade ao paciente (enfermaria ou refeitrio), pois a escolha de local

    mais apropriado para realizao da entrevista vem ao encontro do que referem Simes e

    Souza (1997) sobre a busca do investigador melhor forma de aproximao aos depoentes,

    levando-se em considerao o alcance dos objetivos propostos, alm das particularidades da

    clientela escolhida, adequao da questo norteadora e estratgia de obteno dos

    depoimentos. Todos estes fatores, interligados e ajustados, conduzem a descries singulares

    do objeto de estudo proposto e levam a um novo conhecimento, a um desvelar de facetas do

    fenmeno, aos olhos de quem o vivencia.

    Apenas uma entrevista, no pr-operatrio, foi realizada no refeitrio, sendo todas as

    demais efetuadas na enfermaria, devido s condies fsicas do paciente e/ou sua indisposio

    para deslocar-se. Por estes fatores, a entrevista tornava-se mais susceptvel a interrupes

    tanto por profissionais da equipe de sade, quanto por outros pacientes ou at mesmo

    familiares.

    Em consonncia com minha proposta metodolgica, no houve a determinao de

    pacientes quanto ao sexo, cor, estado civil, nvel scio-econmico, idade, motivo da

    internao, patologia que levou amputao. Observei, no entanto, que a clientela

    participante deste estudo foi constituda por nove homens e quatro mulheres, onze casados e

    dois vivos, sete brancos, cinco pardos e um negro, provenientes, em sua maioria, de outras

    cidades. Destes pacientes, sete sofreram amputao supra-patelar, cinco infra-patelar e um de

    mo. Dois pacientes, submetidos inicialmente amputao infra-patelar, foram,

    posteriormente, reencaminhados cirurgia para amputao em nvel superior (supra-patelar).

    .

  • 58

    As patologias que levaram estes pacientes a ter parte do corpo amputada foram:

    Sarcoma de partes moles (um paciente), Junta de Charcot associada a Diabetes Mellitus e

    Hipertenso arterial (um paciente), Obstruo arterial crnica (associada a outras patologias

    como: Necrose mida, Tromboangete, Hipertenso arterial, Diabetes Mellitus - sete

    pacientes), Infeco (dois pacientes), Tumor recidivante (um paciente) e Hemangioma

    cavernoso (um paciente).

    A maioria das entrevistas (trinta e uma) foi gravada, com permisso dos pacientes, e

    transcritas posteriormente. No foi proposta a gravao no primeiro encontro, pois

    necessrio conhecer o paciente e dar-me a conhecer nesse primeiro momento, sem o eventual

    desconforto que poderia ser gerado pela presena de um gravador. Em alguns casos, no fiz

    uso do gravador em entrevistas subseqentes, pois percebia que os pacientes, apesar de no

    negarem a possibilidade de gravao, ficavam retrados ao verem a conversa sendo gravada.

    Quando no utilizava o gravador, transcrevia os relatos imediatamente aps a realizao da

    entrevista, buscando pela maior fidedignidade possvel.

    Segundo Boemer (1994), no h um critrio amostral que indique o encerramento da

    coleta de dados (critrio este prprio da metodologia das cincias naturais). O critrio em

    fenomenologia o da repetitividade que expressa o mostrar-se do fenmeno, em sua essncia.

    Neste estudo, o invariante se fez presente aps a realizao de cinqenta e dois encontros com

    treze pacientes.

    Aps esses encontros, pude perceber que os discursos dos pacientes convergiram em

    diversos aspectos e pensamentos comuns prevaleciam (invariante). No entanto, na amplitude

    da vivncia, vemos que, apesar dos aspectos comuns existentes, os pacientes mostraram seu

    modo de ser nico e singular. Todo ser est inserido no mundo e em suas vivncias, que so

    particulares, mas deixa transparecer seu modo autntico de ser, mesmo em situaes

    .

  • 59

    semelhantes quelas vividas por outras pessoas. Apesar das semelhanas, as experincias so

    sempre vivenciadas de modo prprio, ou seja, em situaes singulares.

    .

  • 60

    5. Construo dos resultados

    Para Boemer (1994), durante a leitura dos discursos obtidos com as entrevistas deve

    ser buscado o invariante, ou seja, o que se repete, permanece e aponta para o que o

    fenmeno, em sua essncia. Estas descries incluem mensagens explcitas e implcitas,

    verbais e no verbais, alternativas e contraditrias. No haver um sistema pr-especificado

    de categorias. Tpicos e temas sero gerados a partir do exame dos dados e de sua

    contextualizao no estudo. Esta autora refere, ainda, a partir do estudo de Martins e Bicudo

    (1989), que a anlise das descries pode ser realizada em quatro momentos, descritos a

    seguir:

    Em um primeiro momento, a descrio deve ser lida do incio ao fim, com vistas

    obteno do sentido do todo e familiarizao com o texto que descreve a

    experincia vivida. O pesquisador no deve buscar qualquer interpretao do que

    est escrito, mas procurar colocar-se no lugar do sujeito tentando viver a

    experincia por ele vivida, no como um espectador, mas como algum que

    procura chegar aos mesmos significados atribudos pelo sujeito.

    Posteriormente, a descrio deve ser lida lentamente, enfatizando-se a

    identificao das unidades de significado. Nesta fase, devem ser pinados

    significados nas descries, pois uma unidade de significado , em geral, parte da

    descrio cujas frases relacionam-se umas com as outras, indicando momentos.

    .

  • 61

    Aps a obteno das unidades de significado, estas devem ser percorridas e

    expresso o significado nelas contido. O pesquisador detecta cuidadosamente as

    informaes singulares, porm, relevantes nas descries e distinge as de outras,

    tambm singulares, mas irrelevantes para o seu estudo.

    Em um quarto momento, as unidades devem ser sintetizadas, para se chegar

    estrutura e essncia do fenmeno.

    Esta caminhada, segundo Capalbo (1984), para se chegar ao ncleo essencial do

    fenmeno ou invariante presente na experincia vivida, constituda por uma srie de

    procedimentos que Husserl chamou de reduo. Reduo eidtica (expresso derivada do

    grego eidos que significa essncia) a aplicao metodolgica da descrio do fenmeno,

    visando deixar aparecer ou desvelar-se do acidental aquilo que essencial.

    Em todos os momentos, os dados precisam ser examinados, questionados amplamente,

    de forma a manter o foco de ateno no todo, sem perder de vista a multiplicidade de sentidos

    que podem estar implcitos no material (Boemer 1994).

    Seguindo a trajetria apontada acima para se chegar estrutura do fenmeno, foi

    possvel, no que se refere amputao, construir as seguintes categorias temticas que

    expressam o fenmeno:

    Vivendo o pr-operatrio numa tentativa de manter as aparncias;

    Vivncia permeada por um dualismo: o lgico e o vivencial;

    A dependncia como possibilidade de uma existncia marcada pelo sofrimento dirio;

    A dificuldade em habitar o mundo do hospital;

    A prtese como forma de se manter no mundo em plenitude;

    O membro fantasma como a extenso do corpo prprio

    .

  • 62

    A seguir, pela apropriao de algumas idias do pensamento filosfico de Merleau-

    Ponty sobre o corpo, tentarei, em um esforo interpretativo, expressar o sentido presente em

    cada categoria, buscando retratar a amputao sob a tica da pessoa amputada, com vistas

    compreenso do significado desta vivncia e quais as repercusses nas vrias esferas do seu

    existir e co-existir.

    Vivendo o pr-operatrio numa tentativa de manter as aparncias

    O paciente, aps consulta mdica, recebe a informao sobre a necessidade da

    cirurgia. Esta agendada e posteriormente o paciente internado. O cliente chega para a

    hospitalizao fragilizado, assustado, com medo do que h por vir. Geralmente

    encaminhado enfermaria, onde passar a conviver com pessoas desconhecidas, por um

    auxiliar de enfermagem e recebe as informaes e instrues sobre a rotina do hospital.

    Normalmente essas informaes so transmitidas de forma superficial, pobre em

    detalhes e as orientaes se caracterizam como gerais (no levando em conta a singularidade

    do cliente). O paciente, na maioria das vezes, no recebe esclarecimentos sobre os

    procedimentos a que ser submetido.

    Observa-se, em grande parte, que as angstias e dvidas dos clientes no so

    solucionadas, pois, muitas vezes, no conseguem, ao menos, realizar uma pergunta ao

    profissional de sade, to envolvido no fazer mecnico a que submetido na organizao

    institucional. O que se busca a quantidade de atendimentos realizados e o cumprimento das

    rotinas pr-estabelecidas, muitas vezes, esquecendo-se de que necessrio prestar um cuidado

    que seja dotado de qualidades, sendo, assim, mais efetivo.

    Aps estas orientaes bsicas o paciente recebe um pijama ou camisola do hospital e

    ao coloc-la d incio ao processo de sua descaracterizao. O indivduo nico e singular

    .

  • 63

    comea a ser envolto na rotina hospitalar, deixando de lado suas particularidades, respeitando

    apenas as imposies institucionais, abolindo o ser dotado de experincias nicas e de

    vontades e desejos prprios.

    Em um futuro prximo, o paciente viver experincias, muitas vezes inditas em sua

    vida, e isto constitui-se num fator gerador de sofrimento e angstia; portanto, receber apoio da

    equipe de sade e manter sua individualidade, apesar do ambiente hospitalar, essencial e

    fundamental ao equilbrio fsico e psicolgico.

    Durante o pr-operatrio, o paciente experiencia uma ambigidade de sentimentos,

    pois este momento da vida, em que a pessoa est prestes a assumir um novo modo de ser-no-

    mundo, dada a possibilidade de seu vir-a-ser uma pessoa com uma amputao, desperta uma

    infinidade de sentimentos, verbalizados ou no. H uma grande ambigidade no processo de

    comunicao, onde o no verbal contradiz o verbal.

    Apesar de suas falas serem afirmativas, concordando com a realizao da cirurgia,

    achando que era preciso, durante as entrevistas, os pacientes permitiam que o no verbal

    falasse por eles. Apresentavam expresses de desnimo, dor, angstia, medo, tristeza, choro,

    silncio e, na maior parte do tempo, permaneciam cabisbaixos, no me olhando nos olhos

    durante o perodo que ali permaneci. Os seus olhares eram vagos, perdidos pelo quarto,

    contradizendo, de certa forma, o que estava sendo dito naquele momento.

    Eu quero, precisa, amanh eu fao (paciente no me olhava,

    silncio). Humildade - E1*

    ____________________________________

    * As pessoas participantes deste estudo so identificadas, a fim de se manter o anonimato e preservar suas identidades, com nomes fictcios, que expressam os sentimentos que em mim permaneceram aps a realizao deste trabalho e convivncia com estas pessoas. A abreviatura (E) corresponde entrevista e o nmero ao respectivo encontro com o paciente. Os grifos so da autora.

    .

  • 64

    Podia cortar hoje. Acabava com isso (choro intenso). Carinho

    - E1

    As entrelinhas dos discursos trazem expressas essas dores vividas, que, muitas vezes,

    no eram verbalizadas. Os gestos comunicavam, a todo momento, a dificuldade em viver na

    iminncia de uma cirurgia mutilante.

    No houve, em nenhum instante, a referncia da perda iminente como algo doloroso,

    sofrido. No entanto, suas expresses faciais, corporais e o silncio que permeavam os

    discursos denunciavam a tristeza vivida.

    ... eu acho que tem que fazer, porque o Dr. perguntou na

    entrevista: o Sr. quer fazer? Eu quero, precisa, no precisa?

    Ento, vamos fazer (silncio). Esperana - E1

    Os pacientes expem, em seus discursos, a sua concordncia com a realizao da

    cirurgia, como que assumindo uma posio de autonomia perante a situao apresentada,

    apesar de deixarem transparecer que esto decidindo sobre algo que j certo, que j est

    decidido pela equipe mdica, ou seja, a cirurgia deve, tem que ser feita, porque o saber

    mdico j afirmou e decidiu isto. As falas mostram claramente essa submisso deciso

    mdica:

    .

  • 65

    (fazer a cirurgia) natural...falou que tem que fazer o

    servio... natural isso, no fiquei sentido (longo silncio).

    Autenticidade - E1

    Corta de uma vez. Eu que decidi. O mdico falou e eu decidi.

    Fora - E1

    O compartilhar com o mdico a deciso pela cirurgia, extremamente dolorosa, mesmo

    que de uma forma aparente, pois j estava decidido pela equipe de sade, parece trazer ao

    paciente um certo conforto, uma vez que passa a no se sentir como o nico responsvel pelo

    procedimento gerador de sofrimento e da deficincia, dividindo a culpa com o profissional

    de sade.

    Ele (mdico) perguntou se eu ia ficar zangado. Eu falei que

    no... se precisa, fazer o qu? Ele falou, a mdica falou...

    Humildade - E1

    Se cortar a perna a, dois ou trs dias e eu vou embora. Fui

    eu que falei para eles (silncio) . Perseverana - E1

    Com algumas excees, as entrevistas no pr-operatrio no eram extensas. O paciente

    no se negava a atender-me, porm, na maioria das vezes, era breve, sinttico, procurava

    desviar o olhar, como que impedindo que eu o fixasse em seus olhos. Acredito que olhar nos

    .

  • 66

    olhos expressa a verdade mais ntima e, assim, facilmente seria percebida a contradio entre

    o discurso verbalizado e a real significao atribuda quele momento.

    Perder uma parte do corpo ter alterada toda uma existncia, viver uma

    incompletude que traz consigo uma srie de alteraes no existir. ter que se

    adaptar/readaptar, aprender a viver novamente, agora assumindo uma outra perspectiva no

    mundo tanto para si, como para os outros, como para os objetos.

    O paciente em pr-operatrio busca e esfora-se para afastar de si o que considera

    doloroso, afirmando que se sente bem apesar das circunstncias, devendo, ento, fazer a

    cirurgia. Este esforo no passa de uma tentativa, pois o corpo expressa tudo aquilo que as

    palavras no dizem e, neste caso, as expresses verbais e no verbais divergem.

    Observar o corpo e sua expresso tarefa difcil; s vezes, ns prprios no nos damos

    conta do que comunicamos com nosso corpo. Se pararmos diante de um corpo e o olharmos

    atentivamente, veremos que ele diz muito mais do que intencionou dizer.

    Apenas um paciente, durante o pr-operatrio explicitou suas angstias, seu medo, sua

    ansiedade, sua tristeza, verbalizando que seu desejo por fazer a cirurgia era porque era

    preciso, mas que esta experincia era motivo de preocupao e dor. Nesse caso, podemos

    perguntar: era desejo ou submisso a uma situao limite? Acredito que ele se rendia

    fatalidade apresentada diante de si.

    ... eu falo, no t preparado. Ningum t preparado, tem

    incerteza, tem dvida. Ainda no vivi isso. Garra - E1

    ... eu sou frgil. Eu sei que sou. Porque a cisma que a gente

    tem, a insegurana que eu falei para voc, porque a gente

    frgil. A gente fraco. Tem f, mas vacila... Garra - E1

    .

  • 67

    ... quanto mais tempo voc prepara, mais tempo passa, pior

    fica a sua cabea. Pode entrar em depresso... eu no vou

    mentir para voc, acordo a noite e fico pensando... Garra - E1

    Apesar do sofrimento vivenciado em razo da iminente perda, o paciente v na famlia

    um motivo para tentar mascarar a dor sofrida. Preservar o ente querido do sofrimento

    vivenciado parece ser questo primordial e incontestvel.

    De certo modo, a preocupao com a famlia mostra-se como algo determinante para a

    tentativa de manuteno das aparncias e do contnuo esforo para no deixar transparecer a

    dor vivida. notrio que os pacientes procuram corresponder a uma imagem de pessoa forte,

    que no se deixa abater, que vive a situao da melhor maneira possvel, para que seus

    familiares no fiquem preocupados e angustiados.

    Sempre era referido que a famlia no queria, que a famlia chorava, porm eles

    aceitavam e se conformavam com tudo o que estava acontecendo. De certa forma, a

    preocupao com a dor da famlia parece encobrir a prpria dor.

    ... ficou tudo l em casa, chorando. Eu no choro, vai

    resolver. Eu decido. Fora - E1

    ... l, os outros no queriam. Na minha casa falou que no

    precisa. As vizinhas perguntaram e falaram que no precisa

    cortar... Humildade - E1

    .

  • 68

    Segundo os pacientes, suas famlias mostram-se solcitas e solidrias. No entanto, a

    idia de trazer ou vir a ser um problema para os familiares, parecia, para o paciente, algo

    assustador, devendo ser evitado. Desta forma, vestem uma mscara que encobre a verdadeira

    face triste da situao e que, muitas vezes, constitui-se num mecanismo perfeito, pois alguns

    familiares, presentes no momento da entrevista, relatavam que os pacientes estavam

    enfrentando a situao muito bem, no reclamavam, no estavam tristes.

    Para amenizar o sofrimento familiar, muitas vezes, os pacientes utilizam-se da morte,

    apesar de no a desejarem, como futuro prximo e, portanto, buscavam reduzir a importncia

    da amputao, em virtude da finitude. Agem como que abdicando de sonhos e iluses, bem

    como da manuteno da integridade fsica, j que o fim existencial no tarda a chegar, em

    funo da idade avanada e da doena.

    Este comportamento assumido corresponde apenas a tentativas de manuteno das

    aparncias, pois, na realidade, o paciente no quer a morte, apenas lana mo dela para a

    proteo emocional dos familiares.

    ... eu falo para os meus filhos: o problema meu, vocs j tem

    o de vocs, mas eles preocupam, t no fim da vida... mas as

    pessoas novas tm que fazer a vida, construir uma famlia.

    Esperana - E1

    ...eu quero viver, mas se eu no der trabalho para a famlia,

    se eu der prefiro ir (morrer). Eu no quero ir. Garra - E1

    Enquanto aguardam a cirurgia, apesar da dor e do sofrimento, vividos na expectativa

    da amputao e da perda, visualizam seu futuro, ainda que de modo pouco definido, como um

    .

  • 69

    futuro que exige adaptaes, mudanas. Conseguem ver que necessrio redimensionar seu

    existir e passam a fazer projetos que incluem, em grande parte, a prtese.

    Desde o pr-operatrio, a prtese j se mostra como de suma importncia para eles,

    indo ao encontro de suas expectativas de manter-se no mundo, em plenitude. Antes mesmo da

    realizao da cirurgia, quando se lhes apresenta a possibilidade de um virem-a-ser amputados,

    de virem-a-ter uma nova condio no mundo, enquanto a pessoa ainda no possuidora de

    dficit anatmico, a prtese j se mostra como objeto de desejo, sendo almejada, talvez numa

    tentativa de se continuar mantendo intacta a aparncia fsica. Por ser marcante sua presena

    no fenmeno amputao, o uso da prtese constitui-se em uma categoria temtica, a qual ser

    explicitada posteriormente.

    A experincia cirrgica se mostra ao paciente em suas possibilidades, pois torna

    possvel uma existncia de modo diferente. Assume suas perspectivas.

    Podemos ver a perspectiva de uma existncia incompleta, pois h uma perda de parte

    do corpo, o corpo prprio lanar-se- no mundo de modo diferente do j feito at ento, ou

    pode ser simplesmente a perspectiva de abertura novas vivncias, livre da dor, da parte

    deformada, da parte orgnica que tambm traz sofrimento e que, muitas vezes, modifica o

    movimento do ser-no-mundo.

    , tem que cortar, faz tratamento, faz tratamento e no

    melhora (paciente no me olha). A acaba com esse

    sofrimento, com essa tristeza (silncio)...amanh eu vou

    dormir... Fora - E1

    .

  • 70

    A cirurgia de amputao leva, ento, a uma nova condio no mundo, que possui novo

    significado, de acordo com a perspectiva observada pelo amputado ou pelos outros.

    Vivncia permeada por um dualismo: o lgico e o vivencial

    Vivenciar uma amputao implica em uma experincia marcada por alteraes bio-

    scio-psico-espirituais e culturais, repleta de estigmas, decorrentes da deficincia instalada e

    de sentimentos diversos, convergentes e divergentes, que se entrelaam e se unem formando

    um todo, que ajuda a compor o fenmeno que pude desvelar em perspectivas. uma vivncia

    constituda por sentimentos que se confundem, sendo, ento, permeada pela razo, que

    visualiza a cirurgia como necessria, e a emoo que no aceita a perda.

    Aproximando-me da amputao, percebo que ela pode ser, aos olhos de quem a

    vivencia, boa e ruim, alegre e triste, feliz e infeliz, fcil e difcil. Co-existem, em um mesmo

    cenrio, sensaes e sentimentos opostos, mas unidos entre si. Como, ento, considerar boa

    uma cirurgia que mutilante e leva a alteraes to importantes na vida do ser humano e de

    sua famlia?

    Essa experincia dolorosa e difcil se torna mais amena, medida em que percebida

    pela pessoa amputada como fonte de esperana. Esperana para o retorno vida, para

    continuar vivendo, como ser-a-no-mundo, nico em suas vontades, seus desejos e sua

    singularidade, mas tambm consciente das suas pluralidades.

    ... tenho a esperana de ser feliz como eu sempre fui na minha

    vida at agora, mas estou bem satisfeito com o trabalho. Eu

    .

  • 71

    procurei um meio de olhar minha situao. Autenticidade -

    E2

    Os pacientes amputados afirmam, em seus depoimentos, conhecer outras pessoas

    amputadas. Geralmente, so pessoas que sofreram amputao, mas que, apesar disto,

    conseguiram superar toda a dificuldade encontrada e continuam a se lanar em busca de novas

    experincias.

    Desta forma, a pessoa amputada busca na semelhana com outra pessoa, igualmente

    amputada, uma desconstruo de sua imagem corporal negativa, pois ele no mundo como

    outras pessoas, no to diferente, feio ou deformado. Ele compartilha essa existncia, com

    um corpo modificado, ainda de maneira nica, mas no exclusiva. Ver que outras pessoas

    tambm so e vivem assim, ameniza o sofrimento vivido.

    ... quantas pessoas amputam as pernas, t andando,

    pelejando, t lutando. Perde uma, t lutando. Inclusive

    tenho um amigo, que teve o mesmo problema que eu, que

    cortou primeiro um pedao, depois cortou mais um pouquinho

    e agora t dirigindo. Tem minha idade. isso que eu me

    espelho, e a pessoa teve fora... Otimismo - E1

    Tem uma pessoa que eu conheo que amputou a perna com

    dez anos, hoje ele deve ter uns cinqenta, mas ele trabalha

    normal. Ele tem stio, com uma muletinha s, ele trabalha

    normal, monta cavalo, dirige. A pessoa acostuma (silncio).

    Esperana - E1

    .

  • 72

    Ao mesmo tempo em que o ser humano nico e singular ele percebe, ou seja, toma

    conscincia de suas pluralidades, visto que no est sozinho no mundo. O ser co-existe com

    outros seres, com objetos e essa co-existncia permite apropriar-se das experincias dos

    outros, compar-las com as suas, ver-se semelhante, mas no idntico. Todo ser tem

    momentos de autenticidade em seu existir e esta parte fundamental do mundo vida de cada

    um, pois possibilita ao ser uma existncia nica no mundo.

    Segundo Merleau-Ponty (1994), o mundo fenomenolgico o sentido na interseco

    das minhas experincias com as do outro, sendo inseparvel da subjetividade e da

    intersubjetividade que formam uma unidade, expressa na retomada de minhas experincias

    passadas em minhas experincias presentes e da experincia do outro na minha.

    Apesar de verem como espelho pessoas bem sucedidas, podemos questionar at que

    ponto este sucesso real ou ideal como o verbalizado, pois observamos que, aps afirmarem a

    experincia positiva, ficam reticentes ou o silncio vem permear o discurso. Este sucesso

    parece apenas ser algo em que a pessoa se agarra para no desanimar, no desistir, j que a

    amputao passou a fazer parte da vida, do existir e conviver com ela agora essencial.

    A amputao, muitas vezes, constitui-se na perspectiva de uma mudana de vida, de

    uma vida melhor, uma vez que a pessoa passa a ver a possibilidade de voltar a fazer certas

    coisas que j no fazia mais, em decorrncia do processo patolgico instalado.

    Amanh eu vou dormir. Eu no durmo. Eu fico em p, j ca

    porque dormi em p, mas deitado di muito... Fora - E1

    .

  • 73

    No geral, so coisas, atividades simples, corriqueiras, mas que ganham grande

    importncia aos olhos de quem j no as pode realizar mais. Atividades como escovar os

    dentes ou calar os sapatos, por exemplo, que so realizadas de modo quase que mecnico no

    cotidiano de uma pessoa, para a pessoa amputada so atividades grandiosas, importantes, que

    s foram valorizadas aps a perda da possibilidade habitual.

    O horizonte de possibilidades no mundo muito grande. No entanto, ver quais as

    possibilidades que se abrem diante de ns parece um exerccio complexo, uma vez que, exige

    um esforo para adaptao e redimensionamento.

    O ser humano, muitas vezes, assume uma posio cmoda e empenhar-se na mudana

    de atitude acaba por tornar-se sofrido. Quando uma nova viso de mundo incorporada e o

    amputado percebe que, apesar da deficincia, continua vivendo, existindo no mundo, ele

    lana-se em busca de alternativas para desenvolver as atividades que lhe so necessrias e

    prazerosas. Acessrios para a vida diria comeam a fazer parte de suas vidas, integrados ao

    seu cotidiano. A aquisio da prtese, a qual abordaremos mais adiante, mostra-se como

    primordial; no entanto, tambm familiar ao amputado o uso constante de muletas, cadeiras

    de rodas, bengalas, palmilhas e at mesmo sapatos especiais, no caso de amputaes menores.

    Em virtude da maioria dos entrevistados ter sofrido amputao de membros inferiores,

    observa-se referncia a acessrios que auxiliassem a deambulao.

    ... eu vou colocar uma prtese. Agora vou pedir para o meu

    marido comprar uma muleta. Isso eu no tenho. Tenho trs

    cadeiras de rodas, mas muleta no tenho nenhuma. Acho que

    agora vai ajudar, depois eu coloco uma prtese e ando

    sozinha. Eu quero... Luta - E8

    .

  • 74

    Andava normal de muleta, em casa usava a cadeira, apoiava

    o p. Normal. Ia no banco. Agora fica difcil. Tem que

    modificar a casa por causa da cadeira de rodas. Tem que

    mexer no banheiro, trocar porto, fazer rampa, um punhado

    de coisas que tem que mudar. Superao - E1

    No caso dos pacientes acometidos por problemas vasculares, o alvio definitivo da dor

    mostra-se como algo prioritrio. A dor desconfortante, insuportvel, triste e limitante, pois,

    em certos momentos, a vida pra, no encontram foras para prosseguir, em decorrncia de

    todo o sofrimento. Neste momento, qualquer tentativa para aliviar/eliminar a dor bem vista,

    mesmo que custe a perda de uma parte do corpo. A amputao passa a ser vista como um mal

    necessrio.

    A literatura mostra que, apesar de toda a resistncia inicial, com o progresso da

    doena, o paciente acaba por pedir a amputao. Algumas falas mostram este momento:

    ... ficar seis meses sem dormir duro... cheguei at a dormir

    em p de tanto sono, sentado eu no conseguia, deitado doa,

    em p doa, duro, triste, sofria demais, demais, demais.

    Agora, se fosse para fazer outra vez, eu faria novamente,

    porque acaba todo o sofrimento... Fora - E2

    Eu cheguei a pedir a cirurgia, n. Eu falei, se o sr. no der

    jeito nisto eu no volto mais aqui no... vou tomar uma coisa

    qualquer (suicdio). Vou tomar um punhado de comprimido.

    .

  • 75

    O sr. no pode fazer isso (disse o mdico). Claro que posso,

    quem t sentindo a dor sou eu... Superao - E1

    No podemos dizer que o paciente aceita ou concorda com a amputao, mesmo

    porque vrios sinais denunciam que no. Na verdade, aceitam a alternativa, muitas vezes

    nica, para acabar com a dor. No momento em que a dor toma conta da vida da pessoa,

    determinando o seu cotidiano, o qual freqentemente deve ser modificado em funo do mal

    estar gerado, o paciente opta por qualquer soluo apresentada, mesmo que esta opo traga-

    lhe alteraes em sua imagem corporal.

    Decidir pela amputao extremamente difcil, algo srio, complicado, doloroso,

    motivo de infelicidade, mas inevitvel. Vejamos as falas:

    Eu esperava o problema solucionar sem eu precisar de uma

    medida como esta, to... medida sria, medida grave, mas

    infelizmente est solucionado, est solucionado (silncio). As

    dores acabaram tudo. Tudo em paz. Autenticidade - E2

    Agora, duvido que se voc conversar com um cara que teve

    esse problema meu aqui, ele vai cortar e falar que se

    arrependeu. No tem. No existe. Pode sentir ruim. uma

    maravilha. S quem sofreu sabe. Dia e noite doendo sem

    parar. duro (silncio)... quantas vezes eu pegava a faca e

    brincava que ia cortar assim... eu falei, ainda vou cortar.

    Fora - E3

    .

  • 76

    ... vinte dias, um ms sem dormir em cama, s sentado, s

    sentado, bebendo remdio e gua e televiso. A gente pede at

    a morte. Superao - E1

    bom porque tava incomodando muito... mas no deu certo

    igual eu pensava. Humildade - E2

    As dificuldades j assinaladas anteriormente neste estudo, para delimitao do local

    cirrgico e o nvel de amputao necessrio, em patologias vasculares, fazem com que muitos

    pacientes tenham que voltar ao centro cirrgico para amputar novamente. Somando-se a essas

    dificuldades temos a inadequao da avaliao global do paciente, principalmente no que se

    refere s condies circulatrias locais para delimitao do nvel a ser amputado.

    A cada cirurgia refeita o paciente revive o sofrimento inicial, a angstia de vivenciar

    uma nova cirurgia, uma nova anestesia, uma nova dor, no s fsica mas existencial. mais

    uma parte do corpo que perdida, que vai embora, que deixa o ser um pouco mais

    incompleto.

    , eu t. Muito triste. Vai ter que cortar mais um pouco da

    minha perna. Perseverana - E3

    . Precisava fazer, mas faz de uma vez s, seno depois tem

    que fazer de novo, ai j fez, ele falou, eu abaixei a cabea e

    chorei (silncio). Coragem - E2

    .

  • 77

    Bem, tem que fazer. Vai cortar de novo, mas para sarar. Eu

    venho sofrendo tanto com isso... Luta - E1

    Alm de alternativa para o alvio da dor, a amputao constitui-se como possibilidade

    de manuteno da vida, principalmente em pacientes com cncer. visualizada como um

    procedimento que deve ser feito, apesar de todas conseqncias fsicas e psicolgicas, se

    atravs dele conseguirmos prolongar a existncia. A esperana na salvao do corpo todo e,

    portanto, na preservao desta existncia, fator imprescindvel para a tomada de deciso e

    opo pela cirurgia. A morte vista como finitude que deve ser evitada. valorizado o

    sacrifcio de perda de uma parte do corpo.

    Para Merleau-Ponty (1994), o corpo veculo do ser-no-mundo e ter um corpo estar

    aberto s possibilidades do mundo. O corpo permite existir, experienciar. Ele no mundo

    expresso e fala por si e, na amputao, desta forma, haver, no conjunto do corpo, a

    delimitao de regies de silncio. Apesar destas regies de silncio estarem presentes, o

    restante do corpo que continua inserido no mundo e interligado entre si mantm sua

    expresso e isso o que, de certa forma, consola o paciente amputado.

    ... se no fizesse podia morrer. Eu tava te falando: fico entre

    a cruz e a espada. melhor dar um tiro certo. Ento, vamos

    tocar . Eu falei para ele: Dr., faa o que for preciso... Garra -

    E2

    , podia morrer (silncio). A falei, vo os anis e ficam os

    dedos... Coragem - E5

    .

  • 78

    ... vai cortar de novo, mas para sarar... a infeco pode

    subir para o resto e pegar os outros rgos, a tem que

    cortar... no fcil, mas tem que sarar. Luta - E1

    Ainda no pegou os rgos principais do corpo e a esperana

    da gente de viver mais um pouco... Esperana - E2

    Face dor e ao sofrimento, a amputao pode constituir-se como fonte de alvio e at

    de desejo em alguns momentos; entretanto, ela no perde seu carter de experincia difcil e

    dolorosa. Configura-se como algo triste, causador de sofrimento, medo e angstia e que

    requer uma srie de adaptaes dada a alterao brusca na vida, no existir, nos projetos

    humanos. Ser amputado existir de um modo diferente, ser-no-mundo e perceb-lo de

    maneira diferente, pois, se pelo corpo que percebemos e somos percebidos, no amputado

    esta inter-relao encontra-se afetada.

    Foi um choque de 600 w. Voc sabe que mais que um

    choque de 600 w, porque de 220 w eu t acostumado tomar...

    t acostumado com choque de 110, 220, mas quando cai de

    600 derruba a gente, fui l no fundo do poo... Garra - E1

    Ah! Muito difcil, muito difcil (longo silncio, paciente no

    me olhava). Eles cortaram a mo com a faca, eu falei para

    no fazer isso (silncio). Cortaram (paciente comeou a

    chorar). Eu tenho medo, moa. Medo (longo silncio).

    Amizade - E1

    .

  • 79

    ... voc vai amputar amanh cedo. Aquilo eu fui, derrubei,

    sabe? J me derrubou. Saber que tava com aquela perna ali e

    amanh no tava mais, j me derrubou. Eu falei: eu no

    quero no. Mas o sr. no pode (mdico falou). Falei no.

    Superao - E1

    Eu t assim (olhou para o coto). duro ficar assim. muito

    difcil, difcil. Hoje o mdico tirou o curativo e me mostrou.

    horrvel. muito feio. difcil. Vontade - E1

    A perda constitui-se extremamente importante, pois no somente fsica, tambm

    mental e social, enfim, existencial.

    A amputao assume um carter de temeridade e sofrimento muito grandes, constitui-

    se numa perda inestimvel, sendo a simples possibilidade de realizao algo que no

    cogitado pelo homem em seu existir. O homem no consegue visualizar-se em uma nova

    condio no mundo, tendo sua imagem corporal afetada. Sofrer uma amputao situao

    nunca antes imaginada. Por isso, vivenciada com tanto sofrimento, pesar e dor.

    Eu no esperava alcanar este ponto de vista, eu no achei

    que ia alcanar este ponto de vista, mas j que chegou... a

    situao esta. Autenticidade - E2

    Eu nunca imaginei passar por tudo isso. Setenta anos e agora

    passa por todo esse sofrimento. muito sofrimento. Eu

    .

  • 80

    nunca imaginei. Essa perna (foi cortada), a outra no sei. A

    gente no pensa (longo silncio). Perseverana - E3

    A gente encontra bem e nunca pensa que chega nada ruim na

    sua porta para te atrapalhar. Como eu, h poucos anos atrs

    no tinha problema nenhum. Sou um cara forte. A vem um

    negcio desse na vida. Isso deixa os neurnios queimando...

    Garra - E1

    Mostrando toda a dificuldade em conviver com a amputao, observo que ela sempre

    referida como a cirurgia resultante de algo triste, doloroso, feio, causador de problema e que

    por isso deveria ser cortado, tirado. Os pacientes buscam por um motivo para a realizao da

    amputao.

    Ia fazer curativo, eu no agentava olhar aquilo l, eu

    pensava que no tava em mim. Eu pensava que tinha que

    cortar... Fora - E2

    Aqui tem gente cortando. Tem perna fedendo... (silncio)..

    Perseverana - E2

    Foi porque aquela parte que tiraram j estava estragada, no

    tinha como recuperar ela (silncio)..Fora - E2

    A pessoa amputada reporta-se cirurgia no como procedimento cirrgico ou

    amputao e sim como o corte. O corte deve ser realizado, j que inevitvel, o quanto antes,

    .

  • 81

    como se assim o sofrimento fosse acabar. Na realidade ele no acaba, o que termina a

    angstia vivida na expectativa de perder parte do corpo, porm, o sofrimento resultante desta

    perda perdurar por toda a vida.

    ... eu quero acabar com isso. Corta de uma vez ... Fora - E1

    Cortar assume um significado que vai alm, que ultrapassa a idia de soluo de

    continuidade da pele e seco ssea. O corte se d nos sonhos, nas atividades dirias, nas

    atividades prazerosas, no lazer, nos relacionamentos, enfim, nos projetos existenciais, levando

    a um redimensionamento existencial.

    Esse redimensionar vem acompanhado de planos desfeitos, interrompidos, ou

    postergados, porm quando ainda so feitos, isso acontece de modos mais simples, modestos,

    restritos, como se no pudessem, em virtude da deficincia, realizar grandes sonhos ou

    projetos futuros.

    Eu s queria ir ficar com a minha velhinha, ver meus

    passarinhos. Eu vou brincar com meus netos. Perseverana -

    E6

    ... eu s quero a comidinha da velha e ficar com os meus

    meninos. E o JL, o meu netinho, ele gosta muito de mim, faz

    tempo que no vejo ele (choro). Perseverana - E7

    .

  • 82

    Tem que adaptar, andar de muleta, de cadeiras de rodas,

    mancar, at eu poder pr a prtese. Depois que pe a prtese,

    adaptao . Tudo adaptao, tentar andar. Garra - E2

    Alcanar a felicidade torna-se algo almejado, desejado, talvez por seu significado

    trazer, implicitamente, o sinnimo de viver bem.

    Ah, no sei no. Eu quero ver se eu consigo ser feliz ainda.

    Eu no sei quando, n, mas eu vou ser feliz (longo silncio).

    Carinho - E3

    ... tenho esperana de ser feliz como eu sempre fui na minha

    vida at agora ... Autenticidade - E2

    Vivenciar, ento, uma amputao experienciar um misto de sensaes e sentimentos

    que remetem basicamente ao alvio, pela suspenso de um processo patolgico causador do

    sofrimento e dor pela perda inestimvel de parte do corpo.

    A dependncia como possibilidade de uma existncia marcada pelo sofrimento dirio

    Outra questo, que mostrou ser motivo de preocupao para a pessoa amputada,

    refere-se dependncia. Tornar-se dependente assustador, motivo de infelicidade, de

    .

  • 83

    insegurana, de medo. A no realizao de atividades cotidianas ou mesmo a realizao com

    auxlio, leva o paciente a sentimentos de inferioridade, baixa auto-estima e preocupao.

    extremamente doloroso e desconfortante ser dependente e, em alguns casos, o paciente chega

    a preferir a morte a ser motivo de d, compaixo ou mesmo trabalho/esforo para seus

    familiares.

    ... eu quero viver, mas se no der trabalho para a famlia. Se

    eu der trabalho, prefiro ir. Eu no quero ir (morrer). Garra -

    E1

    queria ser feliz, era uma mulher que fazia de tudo. Hoje

    no posso. Minha filha no pode trabalhar, tem que cuidar

    de mim (paciente chorando muito silncio). Carinho - E3

    Olha, vai ser difcil. difcil. muito difcil. Vou ser

    dependente de tudo, para tudo, no posso fazer nada. Luta -

    E8

    Como afirmam Diogo e Campedelli (1992), as pessoas amputadas sentem uma grande

    preocupao em ficarem dependentes e apresentam dificuldade em visualizar as aes que

    podem executar, visando seu prprio bem-estar. Os pacientes, principalmente idosos,

    mostram-se dependentes para a realizao da higiene corporal, colocao de sapatos,

    encaminhamento ao banheiro, necessitam de acessrios para locomoo. Segundo essas

    autoras, fica explcita a importncia do profissional de sade na estimulao do paciente ao

    .

  • 84

    auto-cuidado, bem como aceitao de suas limitaes, permitindo o retorno s atividades e a

    reabilitao.

    Observamos que algumas instituies vem incorporando, em suas equipes,

    profissionais de mltiplas formaes, porm, isto ainda ocorre de forma tmida e heterognea,

    no contemplando a verdadeira necessidade de atendimento ao paciente. Notamos que h

    predominncia de um modelo centrado no biolgico e funcionalista, onde o indivduo visto

    como um conjunto de rgos e a rotina pr-estabelecida na organizao institucional deve ser

    prioridade.

    A fim de manter a ordem na organizao prestadora de assistncia, acabamos por

    naturalizar nossas aes em cuidados centrados no desenvolvimento de tarefas, fragmentando-

    os, sendo os mesmos, ento, pouco significativos quando se aborda a questo da existncia e

    do ir alm da dimenso biolgica, ultrapassando-a.

    Visualizamos um discurso, principalmente acadmico, onde se preconiza a

    humanizao assistencial, com vistas ao resgate da singularidade humana. Acredita-se que

    com um cuidado direcionado, individualizado e integral, consiga-se proporcionar um bem-

    estar maior ao paciente, possibilitando uma reduo no nvel de estresse obtido na

    hospitalizao, bem como uma antecipao no processo de reabilitao. O ideal que este

    processo se inicie na internao, no devendo ficar restrito somente ao ps-operatrio ou

    alta hospitalar.

    Infelizmente, o que vemos nos discursos e que poderiam, realmente, proporcionar uma

    melhor qualidade da assistncia prestada, ainda no ganhou fora e poder suficiente para que

    seja implementado, em nossas instituies, de modo adequado e eficiente. Acredito que

    mudando-se o enfoque biologicista vigente, por um enfoque mais humanitrio, obteramos

    maior satisfao dos profissionais que prestam cuidado e dos pacientes que recebem este

    cuidado personalizado.

    .

  • 85

    A enfermagem deve despertar para a transposio da viso biolgica e fragmentria,

    em busca de novos horizontes que possam direcionar seu fazer profissional, melhorando,

    assim, a qualidade de seu trabalho. No entanto, numa perspectiva fenomenolgica entendo

    que h necessidade de um olhar multi e interdisciplinar, que ajude a pessoa a redimensionar

    seu existir, abrindo-se para novos projetos de vida que os contemple neste novo modo de ser-

    no-mundo.

    Segundo Capalbo (1994), a interdisciplinaridade busca encontrar as relaes de

    interdependncia, estabelecendo, assim, relaes de reciprocidade, abandonando uma

    concepo fragmentria por outra unitria de saber e conhecimento. Ela envolve uma atitude

    que precisa ser vivida, uma atitude de abertura, acolhimento, trabalho em equipe, co-produo

    e dilogo. Implica, pois, na relao intersubjetiva que possibilita a efetivao concreta de

    trabalho em comum.

    Receber os cuidados dos profissionais de sade, sendo estes individualizados e

    planejados, essencial para que o processo de reabilitao se d de forma mais adequada

    possvel e consiga atingir os objetivos almejados.

    A reabilitao deve ser considerada como mais uma etapa fundamental do tratamento,

    pois permite que a pessoa continue a lanar-se no mundo e a viver novas experincias. a

    porta que se abre novamente ao existir. O processo deve ser iniciado desde o pr-operatrio,

    atravs de psicoterapia, que oferece um suporte emocional ao paciente prestes a perder parte

    do corpo.

    Para Tooms (2003), de extrema importncia o tratamento desde o momento em que a

    amputao se completou at a aplicao da prtese definitiva. Atualmente emprega-se, no

    ps-operatrio, o uso de curativos macios (tcnica convencional) ou curativos rgidos, os

    quais consistem em uso de aparelho gessado aplicado ao coto ainda em sala cirrgica. Esses

    curativos rgidos podem ser empregados com xito e de modo benfico, pois ajudam a moldar

    .

  • 86

    o coto, em todos os nveis de amputaes de membros superiores e inferiores e permite a

    deambulao precoce em amputaes de membros inferiores; o uso do curativo rgido ter

    continuidade at o uso da prtese definitiva, aproximadamente de quatro a oito semanas ps

    cirurgia.

    O retorno s atividades traz consigo uma sensao de plenitude, onde as possibilidades

    tornam-se concretas e deixam de fazer parte de um mundo desejado para um mundo

    vivenciado. Muitas vezes, alcanar este mundo exige um esforo grandioso, uma transposio

    de barreiras, pois necessrio um adaptar-se e readaptar-se, o que, num primeiro momento,

    pode parecer inalcanvel. Quando a viso de mundo se transforma e algumas angstias so

    superadas, a pessoa consegue ir alm e buscar por novos projetos.

    A dependncia leva perda de controle sobre as aes, gerando medo, insegurana e

    formao negativa da auto-imagem. A pessoa incorpora em si e traz conceitos de beleza e

    independncia pregados pela sociedade. Estar fora dos padres preconizados leva a

    sentimentos de marginalizao e excluso e, consequentemente, a pessoa sente-se inferior s

    demais.

    As pessoas olham na gente com cara de coitado; coitado, t

    sentindo dor. Na verdade . Isso vai derrubando a pessoa...

    Superao - E1

    A sensao de inferioridade, que toma conta dessas pessoas, faz com que elas sintam-

    se diferentes, um peso sociedade e um incmodo famlia. Ter que aceitar ajuda dos outros

    .

  • 87

    doloroso, mesmo porque, muitas vezes, no se sentem seguras quanto disponibilidade

    familiar para o cuidado.

    Incomoda, n. Talvez a pessoa te ajuda agora, depois voc

    chama ele outra vez. Talvez ele vem te ajudar com a mesma

    boa vontade que fez na primeira vez, mas na sua mente voc

    no pensa assim. Eu penso assim, t perturbando a pessoa

    demais. Eu acho que t perturbando, fico com isso na cabea.

    Fica difcil (pausa), mas tem que engolir, fazer o qu?

    (silncio) . Superao - E1

    Ao mesmo tempo em que buscam e almejam independncia, confrontam-se com uma

    imagem corporal que lhes revela uma realidade, muitas vezes, cruel. Temos o querer versus o

    poder, sendo este ltimo limitado pela deficincia, ou seja, a integridade fsica prejudicada.

    Este fato faz com que, em muitos momentos, a alta, to almejada a princpio, seja, ao mesmo

    tempo, temida.

    Os pacientes verbalizavam a vontade de ir para casa, porm, sabiam que a alta trazia

    consigo as conseqncias da cirurgia mutilante. Muitas vezes, ao falarem de suas casas e de

    sua alta, permaneciam cabisbaixos ou com olhar vago, solto pelo quarto, denunciando a

    tristeza vivida e a insegurana sobre seu novo modo de ser-no-mundo, principalmente com os

    outros, que so familiares e queridos. O medo acaba por tomar conta do ser que encontra-se

    to fragilizado diante da situao vivida.

    .

  • 88

    Reconstruir uma auto-imagem positiva imprescindvel. Estando seguros de

    seu corpo e de suas potencialidades, conseguem amenizar as dificuldades encontradas

    e transformar seu existir.

    A dificuldade em habitar o mundo do hospital

    A hospitalizao mostra-se de forma assustadora e desumana aos pacientes, os quais

    passam a habitar um mundo distinto do seu, desconhecido, permeado por situaes tensas e

    tristes, igualmente habitado por pessoas desconhecidas, com quem vo interagir de alguma

    forma, compartilhando vivncias, na maioria das vezes, dolorosas. O conviver nesse novo

    mundo gera angstia e apreenso, bem como o medo do que h por vir num futuro prximo.

    Boemer (1998) abordou, em seu estudo, a questo da hospitalizao e do paciente

    hospitalizado, observando situao semelhante apresentada.

    A desinformao est presente no s nas situaes mais graves, permeando todo o

    perodo de hospitalizao, manifestando-se em forma de datas imprecisas, resultados de

    exames que so feitos e refeitos, diagnsticos no confirmados, tratamento oferecido para

    uma doena que a pessoa doente no sabe qual , promessas no cumpridas, realizao de

    procedimentos e administrao de medicamentos desconhecidos ou no informados aos

    pacientes. Neste sentido, podemos observar as falas:

    , mas no chamaram ainda. Deixa a gente aqui morrendo de

    fome. Eu queria ir para casa, porque aqui no me do comida

    nunca. Coragem - E7

    .

  • 89

    ... o dia que eu tava fazendo cirurgia, mandaram ficar de

    jejum, ia fazer de manh. A eu fiquei sem comer, mas no

    fez. Fez tarde. Esperana - E9

    (Hospital) tem dia que eu acho bom, tem dia que eu acho

    ruim. Acho ruim porque eles pem fantasia na cabea da

    gente: tal dia vai fazer o exame e na hora cancela. A gente

    fica esperando. Outra coisa a comida sem sal. Fiquei cinco

    dias sem comer... Fora - E3

    Os pacientes internados ficam fragilizados e sentem-se submissos vontade do

    profissional de sade, principalmente no que se refere ao mdico. O profissional, tido como

    objeto detentor da verdade e do saber, centraliza as aes e decises, que no so

    compartilhadas com os pacientes e, muitas vezes, com os outros profissionais, levando, cada

    vez mais, a um sentimento de inferiorizao e submisso do paciente. Estes colocam suas

    vidas disposio do conhecimento e da vontade mdica.

    ... a situao operar, amputar um pedao da perna. Foi isso.

    a soluo do mdico; essa Autenticidade - E2

    ... tava todo mundo ali e perguntei para o grando, o mais

    sabido, o professor e perguntei se meu p tinha salvao ou

    no. Falei para ele: fica na mo do senhor Perseverana -

    E2

    .

  • 90

    ... eu t arriscando com confiana nos mdicos, mas a

    incerteza todos tem. Quem leigo igual eu, tem incerteza

    leigo no entende. Garra - E1

    Observamos nas falas que os pacientes se referem aos mdicos como mestres, porm o

    fazem sempre utilizando-se do plural, sem dar nomes aos mesmos. Este fato denuncia a

    impessoalidade vivida, pois, so muitos mdicos, muitos mestres, porm, nenhum assume

    posicionamento humanitrio de aproximao ao paciente, mantendo-se no anonimato.

    Predomina uma ausncia de vnculo emocional e afetivo com o paciente, estabelecendo-se

    uma relao estritamente impessoal e objetiva. A impresso que permanece a de um vazio,

    pois, ao mesmo tempo que o paciente de todos, no de ningum.

    O objetivo mdico tratar a doena e no o doente, uma vez que, observamos uma

    maior preocupao com o processo patolgico do que com o ser que sofre pela doena. No

    se considera a subjetividade e o existir do doente.

    No mundo da sade, como j comentado, a racionalidade tcnico-cientfica que vem fundamentando o atendimento, transformando o doente no objeto a ser tratado, com o qual o profissional, tambm objetificado, estabelece relaes muitas vezes estereotipadas e impessoais, sempre justificadas pela busca de proporcionar ao doente bem-estar, equilbrio e o retorno normalidade (BOEMER;CORRA, 2003, p. 265).

    Para Verssimo (2005), na enfermidade o doente pode experimentar a perda de

    controle sobre o seu prprio corpo e at sobre o mundo. O doente sente-se vulnervel ao

    perder a imagem de pessoa sadia e adquirir a imagem de uma pessoa doente. Diante desta

    situao, de extrema importncia que o paciente receba o apoio necessrio da equipe

    assistencial como um todo, pois a centralizao do atendimento na pessoa do mdico, traz

    prejuzo ao tratamento do paciente.

    .

  • 91

    Observamos, de modo geral, que esta equipe assistencial que trabalha integrada,

    cuidando de modo integralizado, ainda faz parte de uma idealizao, pois, na prtica, o que

    temos so trabalhos isolados, que apresentam resultados, muitas vezes, insatisfatrios, por

    serem realizados de forma incompleta, sem envolvimento inter e multidisciplinar adequado. A

    figura do mdico, detentor de saber, apresenta-se, ainda, como o pino de centro da ao

    assistencial e, desta forma, continua se sobrepondo aos demais profissionais, apoiando-se

    sempre na herana histrica e cultural, na qual o mdico tem importncia primordial no

    processo de sade-doena, cura e reabilitao.

    triste ver que com o passar dos tempos, apesar do avano tecnolgico surpreendente

    a que chegamos, ainda vejamos prticas assistenciais pautadas em idias retrgradas, mas que

    permanecem cristalizadas, direcionando o fazer profissional de muitos agentes de sade.

    Acho necessria, tambm, no s a mudana de atitudes dos profissionais de sade,

    com referncia ao tratamento do paciente. preciso que se estenda populao essa nova

    viso que deve nortear o cuidado em sade, pois, desta forma, quebram-se esteretipos e

    abrem-se novas portas ao fazer humanitrio, pautado na diviso e compartilhamento de idias

    e saberes prprios de cada rea do conhecimento.

    Segundo Bellato (1996), o que no necessidade imposta pela equipe de sade, no

    tem prioridade no hospital e, portanto, pode ser adiada indefinidamente. Em casa, no seu

    cotidiano, a pessoa doente possui uma rotina de cuidados com o corpo que se naturaliza no

    todo das aes realizadas. No hospital, o cuidado de si, da aparncia, fica esquecido, por ser

    desvalorizado na totalidade das rotinas da equipe de sade.

    Desprezar a dimenso existencial da pessoa doente desprezar a dimenso do corpo

    na apreenso sensorial do mundo, enquanto que situar o corpo atravs das pulsaes da vida

    cotidiana insistir nas permanncias vitais de suas modalidades prprias, seu carter de

    .

  • 92

    mediador entre o mundo exterior e o sujeito, pois a experincia humana se apia inteira sobre

    o uso do corpo.

    A equipe de sade reduz a pessoa a um corpo doente e este se torna objeto de sua

    manipulao, que se coloca, passivamente, como receptculo daquilo que, paradoxalmente,

    chamamos de cuidado. O procedimento tcnico, desenvolvido de forma mecnica, objetifica o

    corpo da pessoa doente hospitalizada e sua repetio cotidiana acaba por torn-lo

    naturalizado.

    A postergao de um procedimento se mostra ao paciente, muitas vezes, inconcebvel.

    No possvel esperar, adiar para o futuro, para amanhs felizes, as esperanas de melhora no

    estado de sade e o retorno s suas atividades corriqueiras. A melhora no estado de sade

    parece ser o cronmetro para se medir a eficcia do ritmo imposto s aes da equipe de

    sade. Para a pessoa doente, o tempo de hospitalizao , prioritariamente, ocupado com a

    expectativa da sua melhora e conseqente alta hospitalar. Se esta se d rapidamente, o tempo

    ganha densidade e parece curto. Ao contrrio, se a espera pela melhora se prolonga por um

    tempo maior do que o previsto, esse tempo tambm se alongar de maneira angustiante

    (BELLATO, 1996).

    O tempo a dimenso do realidade do ser-a. Estamos mergulhados na temporalidade,

    nela situados e envolvidos. O tempo, para o homem, o tempo vivido e no o cronolgico

    que se escoa por entre os dias e que no pode ser retomado. O tempo vivido est, ao contrrio,

    presente em ns e podemos retom-lo a qualquer momento em nossas experincias presentes

    e futuras.

    Merleau-Ponty (1994) nos fala que o passado, vivo em ns no horizonte do presente,

    no pode ser vivido tal como ele existiu, pois ele no existe mais. Porm, ele no est perdido

    para sempre, est ultrapassado, mas se conserva em ns. Posso reconhec-lo e falar dele como

    atual, como aquilo que acabou de passar. O futuro, por outro lado, espera, aquilo para o

    .

  • 93

    qual o nosso presente atual se volta e se liga, aquilo que se anuncia como projeto e se realiza

    por aquilo que vem e se faz presente. O presente vivo se expe a tal passado e se projeta para

    o futuro.

    Capalbo (2004,) ao abordar a questo da temporalidade, afirma que o passado est

    presente pela recordao, pelo olhar para o passado, pela memria que permite a

    reapropriao. O passado est ativo em latncia e pode ser reativado pelo presente atual. O

    presente implica olhar em face, estar como presena do que se mostra tal como , enquanto o

    passado existe para a reteno e o futuro para a pretenso.

    E no gosto de nada. Eu no quero. Eles sacanearam.

    Quebraram o trato. Trato trato. Cortaram a perna e no me

    deixam ir embora agora. Tem que deixar, nem que seja trs

    dias, eu preciso ir embora. Eu tenho que ir. Perseverana - E5

    Ansioso assim por causa da demora. Oito dias e eu aqui

    internado, esperando. Voc vai ficando ansioso, a minha

    vontade que tivesse sido h oito dias atrs, a talvez eu j

    tivesse pronto para ir embora para casa. Esperana - E1

    T louco para ir embora. Ficar internado bravo (silncio).

    Superao - E1

    A alta hospitalar acaba sendo visualizada como o passaporte para a vida e para o

    retorno s atividades que at podem ser realizadas no hospital, mas ficam como que

    reservadas para serem desenvolvidas longe do mundo hospitalar. A pessoa afirma que far,

    .

  • 94

    fora do hospital, tudo aquilo que fazia antes da cirurgia, muitas vezes negando as limitaes

    impostas pelo procedimento cirrgico, bem como sua nova condio no mundo.

    ... no fica s dentro de casa, vai andar, arruma uma

    bicicleta, a vai bater papo com os amigos e vai andar um

    pouco. No fica enfiado dentro de casa... Superao - E1

    ... No momento o que t mais me preocupando a vontade de

    ir para casa. o que t mais me preocupando. Cansei, enjoa.

    A casa da gente no tem igual. Em casa tem minha

    cadeirinha que eu posso andar para a rua... eu vou para todo

    lado, vou na igreja. Esperana - E9

    No h, em nenhum momento, a oferta, pelos profissionais de sade, de aes e

    cuidados preparativos para a alta hospitalar. O paciente sabe que enfrentar dificuldades, mas

    no recebe informaes que o ajudem a lidar com elas. Na prtica diria que se far o

    aprendizado, mas perde-se a chance, no hospital, de preparar e guiar esse paciente neste

    aprendizado que, inquestionavelmente, far parte de seu cotidiano na alta hospitalar.

    Um preparo para a alta fundamental, pois garante ao paciente a visualizao de

    novas alternativas, num horizonte infinito de possibilidades e perspectivas. Desta forma,

    amenizam-se as angstias e os temores experienciados pelos pacientes neste momento.

    A hospitalizao, principalmente quando prolongada, permite que aflore uma

    infinidade de sentimentos, que exigem do paciente um trabalho interior muito grande, um

    esforo em direo ao equilbrio e superao de todas as crises que possam vir. Os pacientes

    .

  • 95

    encontram-se sensveis, fragilizados pela vivncia da doena instalada e das conseqncias

    que a mesma traz consigo. Alm disto, so obrigados a conviver com pessoas estranhas e os

    familiares, muitas vezes, no podem acompanhar toda a internao. Isso gera sentimentos de

    solido e abandono.

    Desta forma, a presena de uma pessoa que compartilhe os sentimentos vivenciados

    neste momento, tornando-se familiar, disposta a ouvir e compreender sem criticar, acaba

    tornando-se fundamental.

    Observei, ao longo deste estudo, que os pacientes mostraram sentimento de apego com

    relao a mim, principalmente nas internaes prolongadas. Era a pessoa que sempre estava

    ali, que vinha disposta a ouvir o que eles queriam ou no falar, sem cobranas, sem a

    pretenso de respostas prontas e/ou corretas.

    Nesta postura de escuta permitia que aflorassem sentimentos ntimos, ao mesmo

    tempo que era tida como companhia, companheira, suavizando a dor pela hospitalizao e a

    solido, em que, muitas vezes, os paciente viam se imersos.

    Acredito que esta postura deveria ser tomada pela equipe de sade, prestadora de

    cuidado, como sendo essencial ao seu fazer cotidiano, pois permitiria o estabelecimento do

    vnculo, bem como o estreitamento dos laos entre profissional e paciente, alvo das aes

    preconizadas nas polticas nacionais de sade, do Sistema nico de Sade (SUS), para a

    humanizao assistencial. necessrio que os profissionais redimensionem seus objetivos,

    para que, assim, consigam mudar a prtica vigente de assistncia sade, desenvolvendo um

    trabalho com mpeto, garantindo maior qualidade s suas aes, obtendo-se melhores

    resultados que, com certeza, sero valorizados pelos pacientes e pela sociedade, de modo

    geral.

    Mudando-se a postura profissional, teramos, conseqentemente, a mudana de

    atitudes dos pacientes, que, em seus depoimentos, no faziam meno a outros profissionais

    .

  • 96

    que no mdicos. Apesar destes serem citados, isto era feito de forma que ficava explcita a

    impessoalidade vivida na relao mdico-paciente. O fato dos outros profissionais, que

    prestam cuidado, no serem citados vem nos mostrar que os mesmos esto mergulhados em

    um fazer cotidiano to inexpressivo, que no se mostra significante aos olhos de quem recebe

    o cuidado. Isto deve ser visto como um alerta aos profissionais que devem buscar um novo

    modo de agir, a fim de valorizar o trabalho prestado.

    Com o passar do tempo, medida que amos nos tornando familiares, ficavam mais

    tranqilos, at no que se refere ao posicionamento no leito. Acredito que eu era visualizada

    como a pessoa que, mesmo estranha e ainda que indo e voltando, estava preocupada com cada

    um deles, em sua singularidade, tendo um sentimento prximo ao dos familiares.

    ... fico feliz, porque voc t fazendo esta pergunta. Porque

    sabe que o sofrimento duro (silncio) . Carinho - E2.

    Segundo Boemer e Corra (2003), resgatar a singularidade humana na relao

    profissional de sade-paciente condio fundamental para que se consiga atingir a proposta

    de assistncia sade baseada em princpios de integralidade, eqidade e participao

    popular. Um pensar filosfico pode auxiliar neste propsito, uma vez que abre novas

    possibilidades de compreenso da experincia vivida, evitando decises ou atitudes

    reducionistas.

    Para essas autoras, necessrio compreender o doente como sujeito, cidado que traz

    para as instituies seus desejos, medos, sofrimentos e esperanas, ou seja, seu modo singular

    de vida. Considerar, ento, a singularidade compreender que a vida sempre um jogo entre

    o singular e plural e que estes so dimenses inseparveis do existir humano. Existir ser-no-

    .

  • 97

    mundo, poder ser, possibilidade, projeto e movimento. No movimento do existir humano

    que se faz possvel a autenticidade.

    Respeitando essa autenticidade do paciente amputado, assumia uma postura

    distinta daquela observada at ento, pelo paciente, no ambiente hospitalar. Afastava-se,

    naquele momento, o modo inautntico de cuidar, uma vez que isto no se resume apenas a

    atividades tcnicas, indo alm, pela fala e pela escuta.

    Esta inautenticidade do cuidado se d, pois o mesmo realizado sob a pauta de uma

    viso funcionalista, de modo fragmentado, no qual diversas pessoas cuidam de um mesmo

    paciente sem estabelecer, porm, vnculos com ele. No se observa a preocupao da equipe

    em apreender os significados atribudos quele momento. No se percebe que ao compreender

    a vivncia do paciente estamos compartilhando de uma existncia nica, singular, agora

    marcada por um processo patolgico e, at mesmo, uma alterao corporal e afetiva, que

    requerem um redimensionamento de expectativas e sonhos.

    No fazer autntico, buscamos resgatar a singularidade humana numa postura de

    abertura ao outro, sem preconceitos e idias cristalizadas que no possam ser mudadas. Nos

    abrimos ao outro pela fala e pela escuta, numa relao dialgica que nos permite trocar

    experincias, ajudando-nos a nos constituirmos como seres-a-no-mundo, compartilhando o

    mesmo cenrio. Sobre o dilogo nos fala Merleau-Ponty (1994, p.475):

    [...] Na experincia do dilogo, constitui-se um terreno comum entre outrem e mim, meu pensamento e o seu formam um s tecido, meus ditos e aqueles do interlocutor so reclamados pelo estado da discusso, eles se inserem em uma operao comum da qual nenhum de ns o criador. Existe ali um ser a dois e agora outrem no mais para mim um simples comportamento em meu campo transcendental, alis nem eu no seu, ns somos um para o outro, colaboradores em uma reciprocidade perfeita, nossas perspectivas escorregam uma na outra, ns coexistimos atravs de um mesmo mundo. No dilogo presente, estou liberado de mim mesmo, os pensamentos de outrem certamente so pensamentos seus, no sou eu quem os forma, embora eu os apreenda assim que nasam ou que eu os antecipe, e mesmo a objeo que o interlocutor me faz me arranca pensamentos que eu no sabia possuir, de forma que, se eu lhe empresto pensamentos, em troca ele me faz pensar[...]

    .

  • 98

    Por se tratar de uma possibilidade, de um fazer autntico, aberto ao dilogo e ao outro,

    e no mecanicista, os pacientes percebiam essa postura e me recebiam bem, raramente

    negando-me a entrevista. Em muitos momentos, percebia que no se recusavam a falar, mas

    seus gestos ou alguma frase, sinalizavam-me que, naquele momento, o silncio falava mais

    alto e que no havia tanta disponibilidade para a fala, quanto o esperado de incio.

    Acredito que a no recusa em falar era uma maneira de me manter ali, prxima a eles,

    com a certeza de que eu iria voltar novamente para ver como estavam. Eu voltaria de qualquer

    forma, independentemente da recusa ou no em dar a entrevista naquele momento, porm,

    talvez o medo de perder a pessoa que demonstrava interesse pela situao vivenciada por eles,

    fazia com que, na maioria das vezes, no se recusassem a conversar, embora no estivessem

    disponveis para isto.

    A fala, muitas vezes, permitia o emergir de sentimentos dolorosos, tristes, uma

    reflexo do momento difcil que estavam vivendo e, por isso, calar-se, em alguns instantes,

    parecia a melhor maneira de enfrentar a situao.

    Quando estava prxima a interrupo do relacionamento construdo atravs das

    minhas visitas, durante o perodo em que estavam internados, pela alta iminente do paciente,

    estes mostravam-se agradecidos pela minha presena, chegando a despedir-se com afeto, com

    choro e at mesmo fazendo convites para visitas em suas casas. Neste sentido, observemos as

    falas:

    Olha, sua presena uma vitamina para mim. No esquece de

    mim nunca, viu. Coragem - E9

    No, filha. S tenho que te agradecer por vir aqui. Voc um

    anjo. Perseverana - E 7

    .

  • 99

    (ao despedir-me, paciente que iria sair de alta, comeou a

    chorar).

    ... bom que voc vem aqui, tem que ter tempo, e a gente fica

    proseando e esquece um pouco. Eu fico feliz. Coragem - E11

    O membro fantasma como a extenso do corpo prprio

    Como forma de se manter a expresso e fala do corpo, temos, em maior ou menor

    intensidade, a presena do membro fantasma. O membro ausente toma forma e habita de

    maneira contnua o mundo do amputado.

    Como j dito anteriormente, o corpo nosso meio de ter o mundo. Portanto, ter um

    corpo juntar se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se neles.

    Desta forma, mantenho-me no mundo relacionando-me com os outros, com as coisas, com o

    prprio mundo, experienciando meu corpo prprio, vivendo plenamente.

    Em um amputado essa relao do corpo com o mundo alterada, no se vive

    plenamente, pois, se interrogado no corpo uma parte que no mais existe e que silencia. Em

    decorrncia da amputao so delimitadas, no corpo, regies de silncio.

    Para Merleau-Ponty (1994), na evidncia de um mundo completo em que ainda

    figuram objetos manejveis, na fora do movimento que vai em direo a ele, e em que ainda

    figuram os projetos, o doente encontra a certeza de sua integridade. Aps a amputao,

    preciso que o que manejvel atualmente para meu corpo torne-se aquilo que se pode

    manejar, ou seja, que deixe de ser manejvel para mim e torne-se manejvel em si.

    Quando um objeto visto como manejvel em si mesmo, abre-se a possibilidade para

    a sua manipulao, independentemente da deficincia instalada e, assim, o amputado tem a

    .

  • 100

    certeza de manter-se no mundo ntegro, capaz de lanar-se em projetos com a perspectiva de

    poder concretiz-los, logicamente, obedecendo s limitaes impostas por sua nova condio

    no mundo.

    Esses projetos que garantem integridade ao ser humano so possveis se eles estiverem

    corporalmente ntegros e, no amputado, isso possvel pela presena do membro fantasma,

    que assume posio de amigo e companheiro, cuja presena se torna necessria e

    incontestvel. O amputado sente seu membro, assim como posso sentir a presena de algum

    conhecido que no est diante de mim.

    O sentir to intenso e to verdadeiro, que o amputado consegue descrever-nos,

    precisamente, detalhes das sensaes vivenciadas, como coar o dedo, o cantinho da unha que

    machuca, o mosquito que pica, entre outros. Vejamos as falas:

    Eu sinto at a unha que doa, at aquela dorzinha, eu sinto

    at isso. Otimismo - E.2

    Di no peito do p. Lateja. D agulhada. Mas assim, no

    peito do p... Vontade - E.1

    ...Di rapaz, agora mesmo t doendo de lado do dedo... Fora

    - E.3

    Esses detalhes, por sua vez, so to reais ao amputado e to absurdos aos olhos dos

    demais, que, muitas vezes, o paciente chega a duvidar das suas prprias sensaes, de seus

    sentimentos e isto acaba por ser expressado em suas falas como algo estranho, engraado, no

    .

  • 101

    muito bem definido, que veio no se sabe de onde, mas est ali no seu lugar, ocupando seu

    espao.

    A despeito de qualquer estranheza que possa existir, ele permanece ali como parte

    integrante do corpo, como podemos observar nas falas:

    ... voc vai acreditar que voc t com o p. Voc no vai

    pensar, t sem p, eu no vou por ele embaixo, que eu no

    tenho p no. Voc vai pensar que tem, voc vai acreditar que

    t com ele. Ele me orientou sobre isto (mdico). Ento, por

    isso, que tudo isso aconteceu(queda), eu levei aquilo na

    esportiva, ainda eu falei, o p mentiroso t querendo me

    enganar. Otimismo - E.3

    ... engraado, a gente sente. Agora mesmo eu t sentido

    formigar o p (breve silncio). Esperana - E.1

    ... sobrou um pedacinho s de perna, mas a gente sente.

    Olhando o dedo, n? Interessante. Esperana - E.1

    ... a dor fantasma. Essa no tem cura. Vai sentir o dedo, o

    calcanhar... Eu acho graa. Achar o qu? Acho graa no ter

    p e sentir (silncio). Fora - E3

    O membro fantasma um meio do ser-no-mundo manter-se ntegro, aberto s aes do

    mundo em plenitude, manter-se aberto s possibilidades do seu vir-a-ser, dos seus projetos

    .

  • 102

    existenciais. Na tentativa de se descrever a crena no membro fantasma e a recusa da

    mutilao, forma-se a idia de um pensamento orgnico pelo qual se tornaria concebvel a

    relao entre o psquico e o fsico.

    Segundo o filsofo Merleau-Ponty (1994), o membro fantasma no admite nem uma

    explicao fisiolgica, nem uma explicao psicolgica, nem uma explicao mista, embora

    possa ser relacionado s duas sries de condies. Na explicao fisiolgica, o fenmeno se

    d como a simples persistncia das estimulaes interoceptivas e o membro fantasma apenas

    a representao do corpo que no deveria ser dada, j que o membro correspondente no est

    mais ali.

    No que se refere explicao psicolgica, o membro fantasma torna-se uma

    recordao, um juzo positivo ou uma percepo, a presena efetiva de uma representao.

    Depende da histria pessoal do doente, de sua recordaes, suas emoes ou suas vontades.

    Partindo destas explicaes objetivas e mecanicistas, fisiolgicas e/ou psicolgicas,

    fixando-nos somente nelas, reduziramos muito a dimenso existencial do fenmeno membro

    fantasma e sua importncia ao paciente amputado. Desta forma, recorro, ento, a Merleau-

    Ponty para tentar explicitar, de forma mais adequada, o fenmeno em questo.

    Esse fenmeno, que as explicaes fisiolgicas e psicolgicas igualmente desfiguram, compreensvel ao contrrio na perspectiva do ser-no-mundo. Aquilo que em ns recusa a mutilao e a deficincia um Eu engajado em um certo mundo fsico e inter-humano, que continua a estender-se para seu mundo a despeito de deficincias ou de amputaes, e que, nessa medida, no as reconhece de juri. A recusa da deficincia apenas o avesso de nossa inerncia a um mundo, a negao implcita daquilo que se ope ao movimento natural que nos lana a nossas tarefas, a nossas preocupaes, a nossa situao, a nossos horizontes familiares. Ter um brao fantasma permanecer aberto a todas as aes das quais apenas o brao capaz, conservar o campo prtico que se tinha antes da mutilao (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 121).

    .

  • 103

    Ligar o fisiolgico ao psicolgico, relacionando-os, possvel, ento, quando os

    mesmos esto integrados existncia e que so ambos orientados para um plo intencional ou

    para um mundo.

    . Faz parte da minha vida (perna amputada). Sente, sem

    dvida. O funcionamento do resto do corpo tambm

    pertence a ela (perna amputada). Esperana - E 9

    Segundo Merleau-Ponty (1994), a conscincia do corpo o invade, a alma se espalha

    em todas suas partes, o comportamento extravasa seu setor central. Esta unio entre alma e

    corpo no selada por um decreto arbitrrio, sendo realizada a cada instante no movimento da

    existncia. Se em um amputado algum estmulo se substitui ao da perna, no trajeto que vai do

    coto ao crebro, o paciente sentir uma perna fantasma porque a alma est imediatamente

    unida ao crebro e apenas a ele. A fuso entre a alma e o corpo no ato, a sublimao da

    existncia biolgica em existncia pessoal, do mundo natural em mundo cultural, possvel

    pela estrutura temporal de nossa experincia.

    Assim, o que encontramos atrs do fenmeno de substituio o movimento do ser no

    mundo, no sendo o membro fantasma um simples efeito de causalidade objetiva. O paciente

    parece ignorar a mutilao e contar com o seu fantasma como um membro real, j que ele

    tenta caminhar com sua perna fantasma e no se desencoraja mesmo por uma queda. Para o

    amputado ele no a perdeu, pois continua a contar com ela.

    .

  • 104

    ... eu fui ver que tava sem a perna. Coava, coava o p. Eu

    procurava esse outro pra coar o p que tava coando. Eu

    pedia para o rapaz trazer a perna, a perna amputada para eu

    coar, mas ele no sabia onde que tava, perguntei para o

    enfermeiro; eu preciso coar a perna amputada e ele falou que

    ia ver se achava ela por a, mas no achou no. Engraado a

    gente sente. Agora mesmo eu t sentindo formigar o p...

    (breve silencio) . Esperana - E1

    ... ento, noite eu tava cochilando, dormindo, assim, eu

    encostava uma perna na outra e parecia que tava gelado

    quando encostava perna na outra tava gelado, mas no ,

    pensamento. No podia encostar nessa porque no tinha a

    outra, n? Ento, isso a. Eu achava que ela tava gelada.

    Eu colocava ela em cima e depois abaixava, mas no eu

    no, alguma coisa em pensamento, sei l o que que que

    acontecia, a eu abaixava ela... Carinho - E2

    O membro fantasma no uma representao do membro, mas a presena ambivalente

    do mesmo, sendo que a recusa da mutilao no passa pelo plano da conscincia plena. A

    vontade de ter um corpo so ou a recusa do corpo doente no so formuladas pelo paciente.

    Ela existe em si. S compreendemos a ausncia de algo quando esperamos dele uma resposta

    que no mais existir e, muitas vezes, evitamos interrogar para no perceber este silncio; ns

    nos desviamos das regies de nossa vida em que poderamos encontrar esse nada, mas isso

    significa que ns a adivinhamos.

    Desta forma, o doente sabe de sua perda justamente enquanto a ignora e ele a ignora

    justamente enquanto a conhece. Qualquer estratgia de recusa da deficincia pode ser

    .

  • 105

    compreendida como um empenho do indivduo para manter-se aberto quilo que o corpo fazia

    antes que surgisse o dficit, um esforo para conservar o campo prtico que se tinha antes do

    adoecimento orgnico limitante.

    As recordaes que se evocam diante do amputado induzem a um membro fantasma,

    no como no associacionismo em que uma imagem chama uma outra imagem, mas porque

    toda recordao reabre o tempo perdido e nos convida a retomar a situao que ela evoca. O

    membro fantasma , portanto, como a experincia recalcada onde no tenho fora para

    transpor um obstculo, nem renuncio a um empreendimento, um antigo presente que no se

    decide a tornar-se passado. O tempo que passa no leva consigo os objetos impossveis, no

    se fechando sobre a experincia traumtica, assim, o sujeito permanece sempre aberto ao

    mesmo futuro impossvel, seno em seus pensamentos explcitos pelo menos em seu ser

    efetivo.

    Biffi (1991) reporta-se relevncia do conceito filosfico de tempo, mencionando a

    distino entre a fragmentao cronolgica (Cronos) e o Tempo vivido (Kairos), entendido

    como tempo real. O tempo vivido, que nasce de minha relao com as coisas, remete-nos a

    um passado imediato ou no, a um presente e a um futuro. Isto leva-nos a um empenho em

    realizar nossas atividades cotidianas, a usar ou querer usar o corpo atual como usava-se o

    habitual. Assim, o amputado quer fazer tudo o que fazia antes da cirurgia, em geral coisas

    simples e corriqueiras, apesar de, na doena, como afirma Merleau-Ponty (1994), os

    acontecimentos do corpo se tornarem os acontecimentos da vida diria. Observemos as falas:

    (Continuar criando galinha? Perguntei-lhe) Ah, sim. O que

    eu no posso mexer muito, mais eu ponho os menininhos

    para jogar uns tratos, eu continuo... tenho l umas quarenta,

    .

  • 106

    cinqenta cabeas de galinha caipira, mesmo n? Ento vai

    dando para o gasto, d para um amigo que gosta de comer um

    frango, mata... Otimismo - E2

    Muda que voc vai andar um pouco, no fica a s dentro de

    casa, vai andar, arrumar uma bicicleta, a vai bater papo com

    os amigo e vai andar um pouco... Superao - E1

    O corpo ocupa um lugar no espao e a experincia do corpo prprio nos ensina a

    enraizar o corpo na existncia, sendo que a essncia dos objetos no uma determinao

    espacial. O corpo possui um lugar no espao objetivo; ele no est no espao, mas habita o

    mesmo, sendo esta espacialidade primordial, pois se confunde com o prprio ser do corpo.

    Sobre o espao corporal e a estranheza que o membro fantasma pode causar, quando

    pensamos no espao do corpo que ele ajuda a manter, Merleau-Ponty nos fala:

    [...] se todavia os doentes sentem o espao de seu brao como estranho, se em geral eu posso sentir o espao de meu corpo enorme ou minsculo, a despeito do testemunho de meus sentidos, porque existe uma presena e uma extenso afetivas das quais a espacialidade objetiva no condio suficiente, como mostra a anosognosia, e nem mesmo condio necessria, como mostra o brao fantasma. A espacialidade do corpo o desdobramento de seu ser de corpo, a maneira pela qual ele se realiza como corpo (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 206).

    O membro fantasma, parte integrante do corpo prprio vem, ento, para manter o

    amputado em plenitude no mundo, numa tentativa de, na substituio, suprir a falta que a

    parte do corpo faz. Ele presena constante, indispensvel, pois, mesmo aps o ato cirrgico,

    o membro continua ali, sendo com o mundo.

    .

  • 107

    Eu sinto a perna. Eu sinto que essa perna minha t fazendo

    falta. Eu sinto que a perna t comigo de dia, de noite mesmo,

    eu sinto que di o dedo, di o calcanhar, sinto que di a sola

    do p, parece para mim que a minha perna t aqui, acho que

    no jogou fora, eles no jogam fora faz alguma coisa com ela,

    eu sinto que ela t comigo, de noite, a perna. Eu sinto que ela

    t comigo. Falei para a N. (filha) que coisa engraada, eu

    sinto que a perna t comigo. De noite eu sinto que ela t

    comigo. Eu quero encostar nessa aqui, mas no acho nada.

    No acho para encostar... mas sinto ela, eu acho falta dela.

    Ela d aquele tremor, aquela coisa ruim no meu dedo, aquele

    frio debaixo da sola do p, aquela dor terrvel eu sinto, parece

    que o ar puxa, a veia da gente puxa, o calor puxa tudo, puxa

    para o corao da gente, que t fazendo falta alguma coisa.

    Tem gente que talvez no sente isso. Eu j sinto. T faltando

    pedao meu. Tem gente que no pensa isso. No t junto

    comigo esse pedao. Eu sinto toda noite. Eu t dormindo, eu

    acordo, assim, pensando, com isso, assim. O p comea a

    tremer, tremer, aquela dor (silncio).. Faz falta (silncio).

    Carinho - E.3

    Se recolocarmos a emoo no ser no mundo, compreendemos que ela possa estar na

    origem do membro fantasma. Estar emocionado achar-se engajado em uma situao que no

    se consegue enfrentar e que, todavia, no se quer abandonar.

    .

  • 108

    A prtese como forma de se manter no mundo em plenitude

    Acredita-se que a prtese torne possvel a realizao de qualquer atividade,

    melhorando a auto-estima e, portanto, minimizando os efeitos negativos (fsicos e

    psicolgicos) resultantes da amputao. As prteses tornaram-se alvo de ateno,

    principalmente aps a Segunda Guerra Mundial, sendo melhoradas em sua qualidade para

    atender a muitos indivduos que perderam membros em decorrncia da guerra. Centros de

    pesquisa prottica e de engenharia da reabilitao vem projetando, desenvolvendo e avaliando

    novos componentes e tcnicas protticas, com novas informaes sobre biomecnica

    (TOOMS, 2003).

    Segundo este mesmo autor, houve um crescente interesse na melhora de tcnicas

    cirrgicas e dos cuidados ps operatrios e, o desenvolvimento das tcnicas estimulou o uso

    das prteses no ps operatrio imediato. Dessa forma, esta prtica de uso precoce da prtese

    tem estimulado melhoras na cirurgia de amputao, como desenvolvimento de tcnicas

    cirrgicas mais fisiolgicas, alm da pesquisa das funes biolgicas e biomecnicas bsicas

    do coto de amputao.

    Observa-se o impacto tambm, com o uso de prteses no ps-operatrio imediato,

    sobre a atitude do cirurgio que passou a perceber com mais intensidade sua responsabilidade

    quanto aos cuidados do paciente imediatamente aps a cirurgia e tambm quanto

    reabilitao.

    Para Luccia (2002), o mdico que estiver envolvido com o cuidado destes pacientes

    deve ter o mximo de informaes nessa rea para o atendimento ideal; deve possuir tcnica

    operatria, conhecimento da funcionalidade dos diferentes nveis de amputaes e

    caractersticas dos aparelhos ortopdicos.

    .

  • 109

    Apesar das prteses serem adequadas a quaisquer nveis de amputaes, observa-se

    que as realizadas em nveis mais distais proporcionam uma reabilitao mais eficiente. A

    reabilitao, ento, vem sendo considerada cada vez mais importante, pois se o processo

    ocorrer de forma adequada, o paciente ter uma vida praticamente normal, podendo realizar

    todas as atividades que quiser ou necessitar.

    Partindo do pressuposto de que a reabilitao tem por objetivo avaliar a funcionalidade

    dos indivduos com incapacidades, seqelas ou sujeitos a essas limitaes, buscando o

    desenvolvimento do potencial funcional, promovendo independncia e reinsero social, e

    que o nmero de pessoas portadoras de deficincia fsica crescente, , ento, elaborada a

    legislao brasileira em reabilitao (UNIVERSIDADE DE SO PAULO - USP, 2003).

    As principais publicaes que regulamentam a reabilitao no pas, iniciaram-se em

    1976 com a Lei n 6360 que dispe sobre a Vigilncia Sanitria a que ficam sujeitos os

    correlatos (aparelho ou acessrio) e regulamenta a ANVISA ( Agncia Nacional de Vigilncia

    Sanitria) para o setor de ortopedia tcnica, confeco e comercializao de artigos

    ortopdicos. A partir, desta data, decretos, portarias e leis tm sido publicados a fim de

    garantir e qualificar o atendimento pessoa portadora de deficincia fsica.

    De acordo com Universidade de So Paulo USP (2003), o HCFMRP- USP, local de

    desenvolvimento deste estudo, atravs da Portaria n 180 de 18/03/2002, foi cadastrado como

    um dos Servios de Referncia em Medicina Fsica e Reabilitao, com finalidade de prestar

    assistncia intensiva em reabilitao aos portadores de deficincia fsica, constituindo-se na

    referncia de alta complexidade em reabilitao motora e sensrio-motora, alm do

    credenciamento de leitos para reabilitao. Este cadastramento fruto da Portaria n 818 de

    05/06/2001, a qual resolve organizar e implantar redes estaduais de assistncia pessoa

    portadora de deficincia fsica e fixar critrios de definio de servios, fluxos e mecanismos

    de referncia, determinando s Secretarias Estaduais de Sade a organizao dessas redes.

    .

  • 110

    Em funo do credenciamento do HCFMRP- USP Rede Estadual de Servios de

    Referncia em Medicina Fsica e Reabilitao, foi criado em 2000, pela Portaria n 191 da

    Superintendncia do HCFMRP- USP o Centro de Reabilitao e Medicina Esportiva

    (CERME), a partir da juno de trs projetos independentes, mas relacionados. So eles:

    Centro de Reabilitao de Traumatismo Raqui-Medulares, Ncleo de Avaliao do Atleta e

    Servio de Reabilitao Respiratria.

    O CERME deu incio s suas atividades no ano de 2001, em estrutura adaptada e

    provisria, aps contratao de um fisiatra, o qual deixou o servio recentemente. At o

    momento no houve contratao de uma pessoa para substituio. Dentro do CERME foi

    institudo, entre outros, o Ambulatrio de rteses e Prteses, com atendimento semanal s

    quintas-feiras tarde, tendo iniciado atendimento em 03/10/2002. Recursos materiais foram

    obtidos com a Campanha Nacional de rteses e Prteses, no segundo semestre de 2002,

    sendo definido junto DIR XVIII (Diviso Regional de Sade) o fluxo de paciente

    amputados da regio.

    O referido servio tem por finalidade a implementao de programas destinados

    reabilitao de pacientes portadores de deficincias fsicas e molstias crnicas incapacitantes,

    visando o restabelecimento do seu potencial fsico, psicolgico, social, profissional e

    educacional, compatvel com suas doenas. Alm disso, visa o desenvolvimento de programas

    integrando aplicaes da medicina esportiva e da fisiologia do exerccio para o diagnstico,

    tratamento e preveno de leses relacionadas ao esporte e promoo de atividade fsica e

    sade em geral (UNIVERSIDADE DE SO PAULO - USP, 2003).

    Reconhecendo a importncia e os objetivos do CERME, necessria a implantao do

    Centro em local adequado, para que possam ser desenvolvidos os programas de reabilitao,

    entendidos como conjunto de medidas teraputicas de natureza multidisciplinar aplicadas de

    maneira racional e coordenada, visando o restabelecimento do potencial funcional e produtivo

    .

  • 111

    de indivduos acometidos por uma condio incapacitante especfica. O projeto para reforma

    das instalaes ainda no foi iniciado.

    Os pacientes portadores de deficincia fsica, atendidos no HCFMRP- USP, que

    necessitam de prteses e rteses, so encaminhados ao NGA-59 (Ncleo de Gesto

    Assistencial), apesar da DIR XVIII ter definido em 2002 que os pacientes atendidos pelo

    hospital requereriam o equipamento necessrio atravs daquele servio. A equipe do NGA-59,

    segundo o Relatrio de Atividades da Equipe Multiprofissional de Reabilitao do SUS/

    NGA-59, do ano de 2004, responsvel pela concesso de rteses, prteses e aparelhos

    auxiliares pelo SUS, na regio da DIR XVIII, a qual abrange vinte e quatro cidades da regio

    de Ribeiro Preto, sendo constituda por: um mdico ortopedista, um mdico fisiatra, um

    fisioterapeuta, um terapeuta ocupacional, um enfermeiro e duas assistentes sociais

    (RIBEIRO PRETO, 2004).

    Dos quatrocentos e trinta e seis pacientes atendidos por esta equipe em 2004, avaliados

    de acordo com diagnstico funcional, mais de um tero (36,7%) so amputados de membros

    inferiores, em sua maioria diabticos, representando um total de cento e sessenta pacientes.

    Os amputados de membros superiores constituem-se 2,1%, ou seja, nove pacientes. Observa-

    se que a maioria dos pacientes atendidos pela equipe do sexo masculino, assumindo 59,6% e

    est compreendida na faixa etria de quarenta a sessenta e nove anos.

    Foram entregues, em 2004, para os pacientes atendidos, apenas setenta e oito

    equipamentos, o que corresponde a 17,9% da demanda existente. A maioria das pessoas que

    necessita de prteses, rteses ou aparelhos auxiliares (82,1%) no recebeu nenhum

    equipamento. Dentre os aparelhos entregues, vinte e seis foram prteses de membros

    inferiores. A verba do SUS para a aquisio desses materiais vem sendo diminuda nos

    ltimos cinco anos, ocasionando uma demanda reprimida, devido reduo do nmero de

    equipamentos entregues em 85,8%.

    .

  • 112

    O custo destas prteses, normalmente, elevado e isto torna-se motivo de preocupao

    para o amputado, pois um sonho que, muitas vezes, no se realizar; o impedimento do

    movimento em direo ao mundo. Vejamos as falas:

    ... agora, as duas. Fica difcil,. Fica difcil pra pobre. Quem

    tem dinheiro mais rpido; no tem condies de comprar

    uma prtese, caro, custa oito mil reais, a mais barata. O

    hospital demora, muita gente. Superao - E1

    ... eu vou colocar uma prtese... depois eu coloco uma prtese

    e ando sozinha. Eu quero. Acho que cara, vamos ver. Luta -

    E8

    Eu tinha (pensado em colocar prtese), mas eu pensei que ia

    demorar muito porque cara... Fora - E2

    ... quem me falou (de colocar prtese) foi o mdico. Opera. Eu

    ainda falei para ele fica muito caro. Ele falou faz o pedido e

    o SUS d a prtese. Otimismo - E1

    No HCFMRP-USP, cenrio de nosso estudo, o processo para aquisio da prtese se

    d como explicitado anteriormente, sendo de forma insuficiente, ento, para o atendimento da

    demanda gerada no prprio hospital. A promessa do mdico para o fornecimento da prtese,

    em curto perodo de tempo, vaga e no condiz com o observado no cotidiano do servio.

    .

  • 113

    Adquirir a prtese parece ser sonho imprescindvel; desejado por todo amputado e os

    acompanha desde quando a cirurgia passa a ser uma possibilidade. A prpria equipe mdica

    ao comunicar a necessidade da cirurgia, j aborda a questo da reabilitao com o uso da

    prtese, talvez na tentativa de amenizar o sofrimento, causado pela amputao, que seu e do

    paciente.

    .

    ...o mdico falou que rpido, trs meses fazendo tratamento

    aqui, eu coloco a prtese e ando direitinho... Fora - E1

    ... na minha idade, mesmo que corta, o mdico falou que pe a

    prtese, d para mim andar. O mdico falou que vai dar para

    caminhar, andar, praticamente normal... Otimismo - E1

    Eles me prometeram. Quando falaram da cirurgia, j me

    falaram da prtese. Faz um tratamento de trs meses e pe

    uma prtese de primeiro mundo; ns damos para o senhor.

    Fora - E2

    constante a referncia sugesto do mdico no que se refere ao uso da prtese aps

    a cirurgia. O profissional de sade, desta forma, busca compensar o dficit que causar com a

    realizao da cirurgia, compensando tambm a culpa por ser causador da mutilao.

    Oferecer a prtese, ou seja, a alternativa para compensar o dficit, que ele ajudou, de certa

    forma, a concretizar, parece aliviar a carga ou culpa por ter contribudo para aquela

    situao.

    .

  • 114

    O mdico diante da amputao assume sua impotncia, assume que ele e a medicina

    no deram conta de impedir uma mutilao. Isto torna-se doloroso ao profissional que tem

    como ideal agir em prol do paciente, sempre buscando o melhor, o mais eficaz, enfim, o que

    possa garantir a integridade e bem estar. O profissional tenta postergar ao mximo a deciso

    pela amputao, sendo necessria, s vezes, at a interveno do paciente que j se encontra

    exausto diante da situao da doena. Ouvir que o paciente quer a cirurgia traz um certo

    alvio. Vejamos a seguinte fala de um paciente a esse respeito:

    Falei para o professor: me diz o que vai fazer, me d uma

    resposta. Eu quero ir embora. Ele falou que ia cortar,

    ento. Foi bom para eles, tirou um peso. Foi bom para eles.

    Azar o meu. Agora vai parar a dor. Eu no queria ficar

    sem o p. O meu filho tambm no queria. Mas no tem

    jeito. J fez a outra cirurgia para mandar sangue, mas no

    deu certo(silncio)...Perseverana - E.1

    A prtese torna-se, ento, uma forma de minimizao das frustraes, tanto do

    paciente quanto do mdico, sendo, para este ltimo, um meio de manter-se potente, til,

    detentor do saber e da verdade, responsvel pelo que h de melhor.

    A superao das dificuldades e realizao de atividades de extrema importncia,

    pois, como afirma Carvalho (1987), a ao que realiza a unidade do sujeito com o seu corpo,

    no movimento expressivo de experincia, realizando tambm o entrecruzamento de todos os

    motivos e necessidades do sujeito no mundo natural e social, tratando-se de efetuar, pela ao,

    a totalidade do ser e do existir do cliente.

    .

  • 115

    Deste modo, a prtese torna-se preocupao e passa a fazer parte do mundo do

    paciente submetido amputao, antes da alta hospitalar, ou at mesmo antes da realizao da

    cirurgia, como j exposto anteriormente.

    ... deixa essa perna pr l que a doena vai toda embora com

    ela. No seu corpo ela no fica. melhor viver com a prtese

    do que com a doena. Garra - E2

    ai fazer a cirurgia, depois eu posso pr uma prtese. Tem

    prtese boa (silncio). Luta - E 1

    Embora a prtese seja vista como de extrema importncia para a pessoa j submetida

    amputao, em alguns momentos ela visualizada como algo que traz dificuldades,

    sofrimento, que requer adaptao, requer um comear e recomear novamente. A pessoa

    reconhece que precisa da prtese para continuar desenvolvendo algumas atividades, ao

    mesmo tempo em que sabe tambm que no mais a parte orgnica do seu corpo que est ali.

    Ah, se colocasse e desse certo de andar bom, mas difcil. A

    hora que vem, tem que fazer um bom treinamento para

    colocar isso. Acho que outro sofrimento, n? (silncio).

    Superao - E1

    ... no tem outra, nem que a gente pega essas pernas

    mecnicas, mas no igual perna da gente, no couro da

    .

  • 116

    gente, no que nem a carne da gente. Talvez voc pega e

    no se d bem, machuca, no cala, no d certo. s vezes, se

    sente bem... Carinho - E3

    A prtese, que aos olhos de qualquer pessoa, apresenta carter de objeto, conjunto

    mecnico de metais, parafusos, plsticos, ao amputado assume carter de algo alm, uma vez

    que no s um objeto facilitador e sim algo que ser parte integrante do corpo prprio.

    Representa um horizonte de possibilidades.

    Constituir-se- num pedao/parte deste corpo prprio, que est no mundo e se lana

    em direo a ele a todo instante, percebendo, contactuando com o corpo e com as coisas.

    Tornar-se- parte fundamental do corpo, permitindo a percepo plena, de modo integral e

    completa, de forma semelhante ao membro fantasma.

    A prtese, no entanto, no ilusria, no fantasmagrica, invisvel; matria

    concreta, palpvel, visvel aos olhos de todos, inclusive dos no amputados, porm, no se

    pode, em funo disto, confund-la apenas como objeto facilitador. Sua presena e razo de

    ser vo alm das nossas simples e ingnuas interpretaes. Ela tornar-se-, como o membro

    fantasma, uma extenso do corpo prprio.

    Face a isso, observamos que sua presena na vida do amputado, enquanto a amputao

    ainda faz parte do seu vir-a-ser no pr-operatrio, j concreta e assume grande importncia

    no que se refere s possibilidades desse vir-a-ser no mundo. De modo geral, visualizada

    como a ponte que continua ligando o homem ao mundo plenamente; o passaporte para a

    manuteno da integridade fsica, apesar de no ser constituda de matria orgnica.

    .

  • 117

    As expectativas depositadas na prtese mostram-se grandiosas, pois, muitas vezes, ela

    parece ser a redeno para o mal que se abateu com a amputao, tornando-se objeto de

    preocupao e desejo ntimo de cada um. Vejamos as falas:

    ...daqui trs meses eles vo me dar uma prtese. J t

    preparada. Fica perfeito. S que daqui trs meses. Eles

    falaram. Fora - E3

    Eu quero (prtese). Claro. Eu no dispenso no. Se Deus

    quiser, vou pegar (pausa). Com a prtese, um pouquinho, voc

    t andando. Treina um pouquinho e pronto. bem melhor

    pegar a prtese do que ficar sem a prtese. Seria legal pegar a

    prtese... uma readaptao, a vida melhor. Viver melhor.

    Garra - E2

    O amputado passa a incorporar a prtese em seu ser, pois, segundo Merleau-Ponty

    (1994) incorporo, nas aes em que me envolvo por hbito, os instrumentos utilizados na ao

    e estes passam, ento, a fazer parte do corpo prprio, participando da estrutura original do

    mesmo. Assim, se a prtese vier a fazer parte do corpo prprio, ela deixar de ser objeto, uma

    vez que o corpo no objeto.

    A prtese representa possibilidade de movimento que, segundo o filsofo Merleau-

    Ponty (1994), s aprendido quando o corpo o compreende, ou seja, quando o incorpora a seu

    mundo. Mover seu corpo visar as coisas atravs dele, deix-lo corresponder a sua

    solicitao, que se exerce sobre ele sem nenhuma representao.

    .

  • 118

    Mover-se perceber, ir em direo a, experienciar. Para Merleau-Ponty (1994), a

    experincia motora do nosso corpo no um corpo particular de conhecimento e nos fornece

    uma maneira de ter acesso ao mundo e ao objeto. Refere tambm que o homem revela, em sua

    existncia, alguns movimentos para desviar-se de parte de seu corpo ou de sua vida em que

    corre o risco de encontrar um vazio, ou seja, desviar-se daquilo que impede sua adeso plena

    ao mundo e aos projetos que nele figuram. Desta forma, a prtese vem colaborar com esses

    movimentos de fuga, preenchendo o vazio existente, possibilitando a plenitude e respostas a

    um interrogar o corpo.

    As regies de silncio falaro, porque o membro ausente foi substitudo. A expresso

    do corpo poder ser dada, ser mantida como desejada.

    .

  • 119

    6. Reflexes sobre o desvelado: um novo pensar a amputao

    Com a realizao deste estudo foi possvel compreender e desvelar algumas facetas do

    fenmeno amputao, j que ele se mostrou em perspectivas. Isto se deu num perodo de

    transio na vida do paciente, contemplando dois momentos: um, no qual a amputao ainda

    se constitua em uma possibilidade, um vir-a-ser e outro, onde ocorria a recente concretizao

    dessa possibilidade, ou seja, ser amputado.

    Esta percepo, do mundo e dos fenmenos, se d a ns em perspectivas pois, segundo

    Merleau-Ponty (1994), o mundo em que estamos imersos inesgotvel para a nossa

    conscincia. Sempre haver um saber latente, secreto, alm da nossa percepo. Assim, os

    objetos no so dados por inteiro, ns os vemos por perfis: uma parte se manifesta, enquanto

    outra se esconde. caracterstica da coisa e do mundo se apresentarem a ns em perfis

    inacabados, parciais, sempre fragmentrios. Embora captemos a cada momento apenas

    determinadas facetas da coisa, mesmo assim ela se apresenta a ns em sua originalidade e isso

    nos permite ver o novo e o prprio, o particular de cada coisa ou situao.

    Na amputao, o corpo assume sua dimenso existencial de modo mais efetivo, pois

    o corpo que permite o existir e ele quem sofre alteraes na amputao, afetando a

    existncia. Observa-se a importncia vital do corpo enquanto meio de insero e relao com

    o mundo, pela percepo, alm da infinidade de sentimentos envolvidos no processo de

    alterao desse corpo e, portanto, de todo o existir.

    Para Merleau-Ponty (1994), no tenho um corpo, mas sou um corpo, que percebe e

    simultaneamente percebido, devendo, portanto, deixar de ser compreendido apenas como

    objeto. O corpo meu veculo de estar-no-mundo, meu ancoradouro neste mundo, meu

    .

  • 120

    mediador com ele, meu comeo e meu fim. O corpo prprio no como um objeto no mundo,

    mas como um meio de nossa comunicao com ele, o horizonte latente de nossa

    experincia, presena sem cessar. atravs do corpo que existo e existir refere-se ao

    movimento pelo qual o homem est no mundo, comprometido numa situao fsica e social

    que se torna seu ponto de vista sobre o mundo.

    O filsofo critica a viso mecanicista que considera o corpo como objeto.

    Diferentemente do que acontece com os objetos que ns podemos remover de nosso campo

    perceptual, ns no podemos nos destacar de nosso corpo, nem desloc-lo de nossa

    percepo. Desta forma, nosso corpo est permanentemente presente para ns, sendo esta

    permanncia primordial e isto nos capacita a observar os objetos.

    Ver um objeto ou possu-lo margem do campo visual e poder fix-lo, ou ento,

    corresponder efetivamente a essa solicitao e fix-lo. Vemos os objetos em perspectivas,

    dependendo do ngulo em que observamos. Isto nos permite ver sempre coisas novas, ter

    sempre o que descobrir, compreender e apreender. Olhar um objeto entranhar-se nele.

    O corpo, desta forma, perde esta concepo de objeto, pois impossvel entranhar-se

    nele prprio, pois ele j est a, emaranhado, unido a si mesmo e a perspectiva vivida, a de

    nossa percepo, no a perspectiva geomtrica ou fotogrfica.

    Os objetos esto sempre diante de meu corpo; eu mesmo, porm, nunca estou diante

    de meu corpo, pois estou no meu corpo, sou meu corpo. Nosso corpo no um objeto externo,

    no precisa ser localizado e as decises tomadas so imediatamente implementadas.

    Isto se d, segundo Merleau-Ponty (1994), pois meu corpo inteiro no uma reunio

    de rgos justapostos no espao. Eu o tenho em uma posse indivisa e sei a posio de cada um

    de meus membros por um esquema corporal em que eles esto todos envolvidos. As partes do

    corpo no esto distribudas umas ao lado das outras, mas todas inseridas, envolvidas umas

    nas outras, no so partes extra partes.

    .

  • 121

    O corpo no um receptculo passivo das aes de um mundo de coisas ou barreira

    que isola o esprito do seu exterior. No est na dependncia do poder soberano da

    conscincia; ele exerce um papel de mediador por excelncia, j que nos pe em contato com

    o mundo e marca a presena do mundo em ns. No tem um papel de passividade e inrcia,

    mas sim o de colocar-nos em contato com o outro e com o mundo.

    Merleau-Ponty (1994) afirma que ele no apenas um espao expressivo entre todos

    os outros e sim o prprio movimento da expresso, aquilo que projeta as significaes no

    exterior, dando-lhes um lugar, aquilo que faz com que elas comecem a existir como coisas,

    sob nossas mos, sob nossos olhos. O corpo nosso meio geral de ter o mundo.

    a partir do corpo prprio ou do corpo vivido que posso estar no mundo em

    relao com os outros e com as coisas, pois o corpo, atravs do sensvel, exerce a

    comunicao vital com o mundo, que faz com que ele se torne presente como local familiar de

    nossa vida. Este mundo, por sua vez, a sede das tarefas reais e potenciais a serem realizadas,

    o horizonte sempre presente na maneira pela qual o corpo existe. Desta forma, o corpo est

    atado ao mundo, sendo no espao mundano.

    O corpo vivido constitudo atravs das nossas experincias, fruto da nossa relao

    com o mundo, ao mesmo tempo que o meio pelo qual essa relao existe, pois ele permite o

    contato com o mundo. Nosso corpo est permanentemente aberto s vivncias, aguardando

    experincias que vm a constitu-lo, integr-lo. Vejamos o que nos fala o filsofo sobre isto:

    Quer se trate do corpo do outro ou de meu prprio corpo, no tenho outro meio de conhecer o corpo humano seno viv-lo, quer dizer, retomar por minha conta o drama que o transpassa e confundir-me com ele. Portanto, sou meu corpo, exatamente na medida em que tenho um saber adquirido e, reciprocamente, meu corpo como um sujeito natural, como um esboo provisrio de meu ser total (MERLEAU-PONTY, 1994, p.269).

    .

  • 122

    So as experincias vividas e percebidas que levam, ento, constituio do corpo

    prprio que est a-no-mundo, como possibilidade. O corpo prprio est no mundo como o

    corao est no organismo, mantendo o espetculo visvel continuamente em vida. Dessa

    forma, ele no se constitui como barreira que nos isola do mundo, mas, pelo contrrio, atua

    como uma ponte que nos coloca em permanente contato com o mundo (MERLEAU-PONTY,

    1994).

    Tudo aquilo que sei do mundo a partir de uma viso minha ou de uma experincia do

    mundo, sem a qual os smbolos da cincia no poderiam dizer nada. Todo universo da cincia

    construdo sobre o mundo vivido.

    O mundo no aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo, eu estou aberto ao

    mundo, me comunico com ele, mas no o possuo. Ele inesgotvel. Ele o sentido que

    transparece na interseco de minhas experincias com aquelas do outro, pela engrenagem de

    umas nas outras, sendo, portanto, inseparvel da subjetividade e da intersubjetividade.

    Esta relao homem/mundo se d atravs da percepo que liga o meu corpo ao

    mundo e o mundo a mim. Na percepo, os vrios sentidos no funcionam como fatores a

    serem coordenados, mas agem como poderes ou foras indivisveis, estruturando o mundo,

    numa experincia unificada.

    Perder parte do corpo doloroso e impe um novo modo de viver, de estar-no-mundo

    e se relacionar com ele, exigindo um redimensionar, pois o corpo foi alterado e,

    conseqentemente, a percepo do mundo e das coisas.

    Segundo Merleau-Ponty (1994), as coisas que eu percebo, percebo-as sempre com

    referncia ao meu corpo e isto se d somente porque tenho uma conscincia imediata de meu

    corpo e como ele existe para si. Nosso corpo no est aberto somente s situaes reais; ele

    est preparado para o virtual, para situaes imaginrias.

    .

  • 123

    Ao ser informado sobre a necessidade da realizao da cirurgia, o paciente abre-se s

    situaes imaginrias e passa por um momento onde j se mostra a possibilidade de um futuro

    diferente, do imaginado para ser vivenciado at ento, e acaba por ser obrigado a decidir sobre

    este futuro. Surge neste momento a primeira grande deciso que a pessoa deve tomar, ou seja,

    eliminar o processo patolgico, causador de sofrimento e dor, ou ser-no-mundo amputado,

    convivendo com uma modificao corporal e existencial?

    Esta perda extremamente dolorosa, sinnimo de sofrimento e marca o incio de

    uma nova condio no mundo, de uma nova forma de existir e co-existir. Busca-se, ento, a

    aparncia de algo que est superado, no entanto, a dor, fsica e existencial, faz parte do

    cotidiano da pessoa na iminncia da cirurgia mutilante. Por mais que seja difcil ou doloroso

    ser uma pessoa amputada, o paciente se rende situao limite/ limitante em que se encontra,

    na doena crnica, e opta pela realizao da cirurgia, com esperana de acabar com a dor

    fsica ou de se manter no mundo, afastando a idia de morte prxima.

    Quando h opo pela cirurgia, h tambm opo por um novo modo de estar-no-

    mundo que, inicialmente, se mostra ao paciente de forma confusa, indefinida. Desta forma,

    afloram sentimentos divergentes, que interagem entre si e permanecem unidos, permeando a

    existncia.

    Ao mesmo tempo em que o paciente pede, quer a cirurgia, para que possa acabar

    com o processo patolgico, rejeita a idia de ter seu corpo alterado pela perda de uma parte,

    sendo isto expressado nas entrelinhas dos discursos e no dito de forma no verbal. Isto

    denuncia a tristeza vivida. um modo de viver apresentado, mas nunca desejado.

    Diante da perspectiva apresentada, o paciente, no pr-operatrio, lana-se em busca de

    alternativas e tentativas para manter-se intacto em sua aparncia fsica (com a idealizao do

    uso da prtese) e emocional, expressando a todos, principalmente famlia, que est bem e

    deseja fazer a cirurgia, devendo esta ser aceita. Busca, desta forma, mascarar a dor sofrida.

    .

  • 124

    O co-existir de sensaes e sentimentos diversos, opostos ou no, presentes no pr-

    operatrio, permanecem no ps-operatrio, durante a hospitalizao e, provavelmente,

    perduram aps a alta.

    Para Merleau-Ponty (1994), isto ocorre porque somos permanentemente sensveis e as

    nossas sensaes se do numa configurao global onde ver tocar, ouvir ver, tocar ver,

    ou seja, ns podemos ver algo e termos a sensao do toque em nossas mos, percebendo a

    textura como ela . Permitimos, assim, que sentimentos e sensaes diversas compartilhem o

    mesmo cenrio, tornando-se parte da experincia vivida.

    Segundo o filsofo, toda percepo ocorre numa atmosfera difusa e escapa ao controle

    do sujeito, pois no um ato de vontade, de deciso de uma conscincia atenta, mas sim a

    expresso de uma situao dada. Prova disto que, por exemplo, vemos as cores

    independentemente de nossa vontade, porque somos sensveis a elas.

    A cirurgia que boa e fcil, pois permite o fim da dor e da patologia, tambm ruim e

    difcil, uma vez que promove uma existncia marcada por uma insero mundana distinta da

    vivenciada at o momento.

    A esperana um sentimento que se mostra presente para possibilitar o equilbrio

    entre os opostos, j que o paciente se agarra a ela como a uma ponte que possibilita o retorno

    ou manuteno da vida, do existir. Continuar vivendo, existindo, como ser-a-no-mundo

    fundamental e questo prioritria e essencial, apesar da dor sofrida, pois o corpo continuar

    inserido no mundo, falando, expressando, compartilhando. A esperana, na vida, acaba

    impulsionando a deciso pela cirurgia, com vistas a uma existncia modificada. preciso

    readaptar-se, reviver, redimensionando toda uma existncia.

    O existir modificado, pois modifica-se o corpo, o meio do ser-no-mundo, alterando-

    se toda a relao do homem com aquilo que o cerca, com ele mesmo, com os objetos, j que

    regies do corpo, silenciadas na amputao, continuam a ser interrogadas, questionadas.

    .

  • 125

    Ao ser questionada uma parte do corpo que no mais existe, haver uma resposta real

    e no mais ideal ou habitual. Essa nova realidade gera, em muitos momentos, medo, dor,

    angstia, pois ter que readaptar-se a um novo modo de existir e transpor barreiras em direo

    s possibilidades reais , num primeiro momento, algo complexo e difcil.

    Enquanto o paciente no visualiza claramente as possibilidades que se apresentam, que

    requerem redimensionamentos, sofre pela falta de perspectivas e a dependncia ganha

    amplitude na vivncia. A pessoa amputada passa a preocupar-se com a dependncia,

    vislumbrando-a como um futuro marcado por sofrimento. Imagina-se, supe-se, uma

    existncia condenada piedade dos outros, fato este que deixa de se mostrar to concreto

    quando o paciente tenta e consegue desenvolver atividades que promovem sua autonomia.

    Desta forma, torna-se evidente a importncia do desenvolvimento harmnico do

    processo de reabilitao, pois isto traz consigo no s perspectivas para um fazer cotidiano

    ideal, mas, sobretudo, traz perspectivas para um novo existir, para uma insero mundana

    plena e confortante.

    Os profissionais de sade devem estar atentos reabilitao do paciente, iniciando o

    processo desde o pr-operatrio. Deve-se acessar a pessoa e mostrar-lhe as alternativas e

    possibilidades disponveis, ajudando-a a visualizar aes, atos, gestos que sero possveis,

    mesmo aps a cirurgia, mantendo-se, assim, a expresso corporal.

    Reabilitar um paciente no s devolv-lo sociedade como uma pessoa que

    consegue ser independente, apesar da deficincia, ou que capaz de produzir. A reabilitao

    deve ser capaz de levar ao paciente perspectivas de um existir modificado, porm, um existir

    que permite manter-se aberto ao mundo e s coisas.

    Percebendo essa abertura ao mundo, em suas possibilidades, a pessoa amputada

    poder redimensionar seu existir, suas expectativas, seus projetos e valores e, assim, se

    adaptar e readaptar, aprender e reaprender, chegando a alcanar uma vida confortvel e plena,

    .

  • 126

    com qualidade. Uma boa qualidade de vida possvel quando conseguimos alcanar nossos

    objetivos, superando as dificuldades encontradas.

    A mutilao modifica o existir, mas no o interrompe. Ao adaptar-se s mudanas, as

    dificuldades diminuem e o paciente comea a perceber a vida de uma forma mais positiva.

    Planos que inicialmente so singelos e modestos podero, com o passar do tempo, ganhar

    densidade, tornando-se audaciosos e grandiosos para uma pessoa que convive com uma

    deficincia. Buscar o que vai alm, o que a princpio parece distante, o que deve impulsionar

    a pessoa e pode dar sentido existncia.

    Perceber o momento vivenciado pela pessoa amputada imprescindvel para o

    profissional de sade, membro de equipe multidisciplinar, envolvido no cuidado e na

    reabilitao deste paciente, pois, com perspiccia e sensibilidade, pode-se atuar de modo mais

    efetivo, trazendo-se um benefcio maior ao paciente, alvo de todo o trabalho.

    A equipe de enfermagem possui grande importncia no processo de cuidar e mesmo de

    reabilitar, porm, no seu cotidiano de trabalho, permite que suas aes fiquem tmidas e

    restritas, no assumindo uma postura to significante quanto necessria no tratamento do

    doente. Suas aes ficam como que suprimidas diante da rotina estabelecida e do fazer

    mecnico, predominante em toda a assistncia.

    medida que a equipe se envolve, de modo mais humanitrio, na assistncia do

    paciente, compreendendo o momento por ele vivenciado, assumindo uma postura de

    compartilhamento, ajuda e cuidado, consegue melhorar a relao equipe de sade e paciente e

    a dor vivida na hospitalizao amenizada.

    Ver-se em um hospital, rodeado por pessoas estranhas e distantes, sem o aconchego

    familiar e a companhia de pessoas significantes, , inicialmente, assustador e triste. Mostra-se

    fundamental, ento, o acolhimento da equipe de sade. Acolher buscar, ultrapassar as

    vises que nos prendem a prticas insatisfatrias, almejando-se sempre um novo horizonte de

    .

  • 127

    relaes, onde se d um compartilhar, uma troca de experincias que permite a interseco de

    objetivos e um novo modo de vivenciar o mundo.

    A doena crnica, causa de todas as amputaes dos participantes deste estudo, deve

    tambm ser abordada pelos profissionais, de modo que permita ao paciente compreend-la,

    tanto em sua gnese, quanto em suas implicaes, pois, assim, a pessoa pode perceber e

    reafirmar para si a dimenso de sua vivncia, valorizando ainda mais a preservao do corpo

    como um todo, permitindo-se, ainda, o pleno existir. Perder parte do corpo implica em perda

    existencial, vivencial, porm, no o fim desta existncia e isto conforta, de certa forma, a

    pessoa amputada.

    A literatura enfatiza os cuidados com o p diabtico e a preveno de leses, de forma

    a diminuir os altos ndices de amputaes em pessoas diabticas. Neste estudo, como j

    observado anteriormente, a maioria dos pacientes entrevistados sofreu amputaes em

    decorrncia de patologias associadas ao diabetes.

    Os ndices alarmantes de amputaes nestas pessoas tm gerado preocupaes nas

    esferas competentes de governo, j que se constitui em um problema de sade pblica. Desta

    forma, o cuidado com os ps e a preveno de amputaes foi alvo da campanha nacional de

    diabetes, em novembro deste ano. Torna-se cada vez mais importante o engajamento

    profissional nestas campanhas, com adequada orientao e monitoramento dos pacientes,

    visto que h um crescente aumento da populao diabtica no pas.

    A prtese assume papel importante nesse novo caminho a ser percorrido aps a

    amputao, nesse novo modo de viver, tornando-se sonho e desejo desde o pr-operatrio.

    Apresenta-se como possibilidade de um futuro independente e da manuteno da integridade

    fsica do corpo, permitindo vivncias plenas, onde a pessoa lana-se ao mundo,

    independentemente de suas limitaes.

    .

  • 128

    O paciente amputado v na prtese um apoio para si, medida que esta permite estar

    no mundo de forma aparentemente intacta e ideal, sendo aquilo que permite visualizar, com

    mais facilidade, o horizonte de possibilidades que se abre diante de ns, mas que, em muitos

    momentos, parece estar reduzido a um ponto ou lugar insignificante.

    Como diversas coisas se mostram divergentes ao paciente na vivncia de uma

    amputao, o uso da prtese tambm se encontra situado desta maneira. O paciente almeja o

    uso da prtese, porm, sabe que encontrar dificuldades para isto; o que vem a desanim-lo

    em alguns momentos, pois consciente de que aquilo no seu corpo. Esta sensao

    minimizada quando a prtese incorporada ao corpo prprio como parte dele, como parte do

    ser que existe, percebe e lana-se no mundo continuamente.

    Ainda na tentativa de se manter o corpo prprio aberto s vivncias em sua plenitude,

    temos o membro fantasma, que presena familiar e incontestvel, parte da realidade da

    pessoa submetida amputao.

    Isto nos leva a questionar a terminologia utilizada para designar o fenmeno de

    substituio do membro ausente, ou seja, membro fantasma. Podemos considerar essa

    expresso adequada ou no, se observarmos a tica da pessoa que a expressa.

    Este conceito mostra-se adequado quando o visualizamos pela tica da equipe de

    sade, onde o membro amputado no mais existe e considerado apenas como iluso,

    imaginao. Para a pessoa amputada, em sua singularidade, o seu membro que foi amputado

    no ilusrio, imaginrio ou fantasmagrico, pois parte de seu corpo, um pedao de si

    mesmo e, assim, continua a fazer parte de sua existncia. Ouvir que uma parte de si

    fantasma, no a vendo desta forma, provavelmente o que causa estranheza ao paciente,

    quando se depara, aps a cirurgia, com o fenmeno de substituio.

    O profissional de sade deve buscar a compreenso deste fenmeno como algo que se

    mostra real pessoa amputada. Ao admitir essa possibilidade, abre-se um caminho para uma

    .

  • 129

    relao dialgica, para a intersubjetividade, para um novo modo de pensar o cuidado e o

    cuidar.

    O membro fantasma a manuteno do corpo prprio intacto, perfeito, mesmo aps a

    cirurgia mutilante. Por meio dele conservamos nosso campo prtico de aes e realizamos

    nosso contato com o mundo, integralmente, sendo este essencial ao existir. Assume

    importncia inquestionvel para a pessoa amputada, uma vez que permite uma insero

    mundana plena. Ele no algo pensado, elaborado, mas simplesmente aquilo que est ali

    espontaneamente, a despeito de reflexes ou idias pr-concebidas, fazendo parte da vivncia,

    fazendo parte do ser-a-no-mundo, possibilitando gestos e aes percebidas no mundo. O

    membro fantasma mantm abertas as portas para a percepo.

    Para Merleau-Ponty (1994), na nossa ao cotidiana, atos inconscientes predominam

    sobre os conscientes, e toda atividade, reflexiva ou no, tem como fundamento a percepo do

    mundo. A todo o momento realizamos movimentos, gestos, ancorados numa crena

    perceptiva do mundo e das coisas que nos cercam, sem que a conscincia tenha que refletir

    sobre eles, a todo momento, pois refletir exige que eu me volte coisa, num esforo

    interpretativo.

    Os atos, os gestos, as palavras no seriam possveis se a cada momento tivssemos que

    pens-los antecipadamente. Eles ocorrem de maneira espontnea, sem seguir qualquer ordem

    reflexiva. Nossa presena no mundo se d de maneira espontnea, nossos sentidos esto

    abertos s diversas manifestaes corporais sem que necessitemos refletir, a cada momento,

    sobre os procedimentos para realiz-los. um engajamento no reflexivo, porm no impede

    que a reflexo venha a integrar a vivncia posteriormente.

    Neste estudo podemos dizer que a reflexo tornou-se evidente quando o paciente

    exps, em seus discursos, a sua vivncia, os seus sentimentos, os seus desejos e sonhos. A

    .

  • 130

    partir do momento em que se voltavam para a questo norteadora, exercitavam a reflexo e,

    pelo dilogo, deixavam transparecer suas emoes.

    Compreender o paciente amputado em suas emoes e sentimentos muito bom,

    principalmente, se pensarmos que pressupostos foram deixados margem e que a verdadeira

    experincia mostrou-se a mim. Acredito que a imagem pr-reflexiva ficou abafada pela

    grandiosidade da vivncia em si, pois esta muito mais rica e densa do que se mostrava a

    princpio.

    Os pacientes mostraram que viver uma amputao triste, difcil, doloroso, situao

    nunca antes imaginada, porm, apesar de todas as dificuldades e sofrimento, no se deixam

    abater. Mostram-se perseverantes, esperanosos, lutam contar o mal instalado. A expectativa

    de uma nova vida assume um carter de futuro surpreendente, onde estar vivo j motivo de

    felicidade e desejo para continuar vivendo. A cirurgia incorporada ao existir e, como parte

    dele aceita, mas no desejada.

    Embora seja marcada por sofrimento, afinal perder parte do corpo implica em perda

    existencial, os pacientes conseguem visualizar um futuro, a princpio confuso, mas que est

    aberto em suas possibilidades. Em muitos momentos, lanam mo de algo que auxilie nesse

    novo ver o mundo, passando a incorpor-lo na existncia. Nesse sentido observamos a

    presena do membro fantasma, da prtese, da famlia (que ponto de apoio, apesar das

    dvidas e da insegurana que rodeiam a pessoa amputada), do amigo bem sucedido, em

    situao semelhante, entre outros.

    A amputao assume, em grande parte, uma conotao ambgua, na qual a cirurgia que

    boa, ruim; o hospital que tira a dor fsica, promove a dor existencial; a prtese que auxilia

    no conviver com a amputao rejeitada por no ser parte do corpo; o membro fantasma que

    permite manuteno integral da relao do homem com o mundo, motivo de crena e

    dvida, a dor pela iminncia da perda mascarada pela falsa felicidade em realizar a cirurgia;

    .

  • 131

    o mdico que considerado mestre, detentor da verdade e do saber, tambm o responsvel

    por tornar concreta a perda, pela mutilao; enfim, a amputao que marca o incio de uma

    nova forma de viver, livre da dor ou da patologia maligna, marca o incio de uma fase sujeita

    dependncia.

    Compreender este momento essencial para que o profissional desempenhe suas

    atividades da melhor forma possvel, de modo mais efetivo e completo. Olhar a pessoa

    amputada, a partir da sua perspectiva, permite um cuidar direcionado singularidade da

    pessoa. Percebe-se que a sensibilidade profissional vem sendo decapitada pelo fazer cotidiano

    e isto corri a relao profissional-paciente, que cada vez mais torna-se superficial e distante.

    Observamos que a prtica assistencial, baseada na viso biologicista e funcionalista, s

    d conta da organizao institucional e da manuteno das tarefas e, isto, se mostra

    insuficiente ao atendimento do paciente. preciso buscar alm daquilo que j nos dado por

    si prprio na relao estabelecida entre profissional e paciente. O que deve ser almejado e

    alcanado uma prtica que consiga incorporar a si um movimento recproco, onde o

    profissional de sade se doa e se lana em direo ao paciente e este, por sua vez, age de

    modo semelhante, doando se ao outro na sua experincia.

    A enfermagem necessita despertar para o que vai alm do biolgico e que, muitas

    vezes, est sob nossos olhos e no conseguimos ver. O objetivo da profisso o cuidar,

    porm, este deve ser feito de modo que ganhe amplitude na vivncia. A equipe de

    enfermagem, abrindo-se ao mundo particular da vivncia, abre-se ao ser humano que est ali e

    clama por auxlio neste momento de sua vida, proporcionando um fazer completo e

    humanitrio.

    Desta forma, entendo que estudos como esse, que buscam compreender e apreender o

    ser humano em suas vivncias, podem ajudar a construir uma nova forma de relacionamento

    entre profissional de sade e paciente, j que permite uma troca de experincias e o

    .

  • 132

    compartilhar de vises e apreenses de mundos diferentes, com objetivos e propostas

    diferentes, singulares.

    Resgatar o humano e o singular, to preconizados atualmente para a assistncia, parece

    ainda ser tarefa complexa, uma vez que a estrutura na qual o profissional est inserido age,

    normalmente, de forma conservadora, priorizando aes que, em muitos momentos, parecem

    ser contrrias idealizao de um fazer cotidiano modificado e reestruturado.

    Cabe a ns plantarmos sementes frutferas para mudar as prticas vigentes, em um

    empenho grandioso, que deve ser constantemente reafirmado. Acredito que novos estudos

    como este devam ser realizados e venham a contribuir para isto, levando perspectivas

    diferentes, abrindo horizontes de possibilidades, que emergem a partir do vivenciar de uma

    situao. Como este estudo no teve, em nenhum momento, a pretenso de esgotar o assunto,

    abre-se aqui uma porta para a reflexo e para a busca de um futuro alternativo, consoante com

    as situaes experienciadas por cada ser.

    .

  • 133

    7. Referncias Bibliogrficas ALBRECHT, G.L.; DEVLIEGER, P.J. The disability paradox: high quality of life against all odds. Social Science & Medicine, 48, p. 977-88, 1999. ARIS, P. Histria da morte no Ocidente: da Idade Mdia aos nossos dias. Traduo Priscila Vianna de Siqueira, Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves, 1977, 180p. ARIS, P. O homem diante da morte. Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves, 1982. v.2, 670p. BELLATO, R. O mito do institudo e a banalidade do vivido no quotidiano do hospital. 1996, 144f. Dissertao (Mestrado), EERP, Universidade de So Paulo, Ribeiro Preto, 1996. BIFFI, E.F. de A. O fenmeno menopausa: uma perspectiva de compreenso. 1991, 120f. Dissertao (Mestrado), EERP, Universidade de So Paulo, Ribeiro Preto, 1991. BOEMER, M.R. A conduo de estudos segundo a metodologia de Investigao fenomenolgica. Rev. Latino-am. Enferm. v.2, n.1, p. 83-94, janeiro 1994. BOEMER, M.R. A morte e o morrer. Ribeiro Preto, Holos, 3 ed., 1998, 118p. BOEMER, M.R.; CORRA, A.K. Repensando a relao do enfermeiro com o doente: o resgate da singularidade humana. In: Branco, R. F. G. y R. A relao com o paciente teoria, ensino e prtica. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2003, cap.38, p.263-9. BOEMER, M.R.; ROCHA, S.M.M. A pesquisa de enfermagem: notas de ordem histrica e metodolgica. Revista Sade e Sociedade, v.5, n. 2, p.77-88, 1996. CATLOGOS DO CEPEn- CD-ROM. 75 anos ABEn, vol.1-18, 1979-2000, ISSN 15198618, 2001. CAPALBO, C. A filosofia de Maurice Merleau-Ponty: historicidade e ontologia. Londrina, Edies Humanidades, 2004, cap.2, p.71-86. ______.Alternativas metodolgicas de pesquisa. In: Seminrio Nacional de Pesquisa em Enfermagem, 3. Florianpolis, 1984. Anais. Florianpolis, Universidade Federal de Santa Catarina, 1984, p.130-57. ______. Apresentao. Seminrio Nacional sobre a interdisciplinaridade no ensino da filosofia,1994, p.10-4. CARMO, P.S. Merleau-Ponty uma introduo. So Paulo, EDUC, 2000, 161p. CARVALHO,A.S. Metodologia da entrevista: uma abordagem fenomenolgica. Rio de Janeiro, Editora Agir, 1987, 93p.

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  • 137

    REABILITAO E MEDICINA ESPORTIVA (CERME). Projeto de implantao de um Centro de Referncia em Medicina Fsica e Reabilitao para estabelecimento assistencial multidisciplinar dentro da rede de reabilitaao motora aos pacientes de Ribeiro Preto e regio. Ribeiro Preto, 2003. VERSSIMO, D. S. A pessoa com tumor cerebral e seus familiares em grupo de sala de espera: investigao da experincia vivida. 2005, 135f. Dissertao (Mestrado), FFCLRP, Universidade de So Paulo, Ribeiro Preto, 2005. ZIEGLER, J.. Os vivos e a morte. Rio de Janeiro, Zahar editores, 1977, 320p.

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  • 138

    8. Anexos

    8.1 Parecer do Comit de tica em Pesquisa do HCFMRP-USP

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  • 139

    8.2 Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

    TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

    Eu, Gislaine Cristina de Oliveira Chini, sou enfermeira, aluna da Escola de

    Enfermagem da USP de Ribeiro Preto. Estou fazendo um trabalho para que se consiga

    compreender o que para uma pessoa passar por uma cirurgia como a sua e com isso ajudar a

    melhorar a qualidade do cuidado de enfermagem para essas pessoas.

    Se o senhor(a) quiser participar, contar para mim como ter que fazer essa cirurgia.

    Eu virei na vspera da cirurgia e depois no primeiro dia aps a cirurgia at a alta hospitalar

    para a gente conversar; mas, se em algum dia desses, o senhor(a) no quiser conversar no h

    problema. Se o senhor(a) no se incomodar, eu gostaria de gravar, mas se isso no lhe deixar

    tranqilo, no precisamos fazer.

    Garanto que as nossas conversas e tudo que for falado aqui ser usado somente para o

    trabalho e seu nome no aparecer em nenhum momento.

    Essas conversas podem fazer surgir muitas emoes, principalmente por ser um

    momento difcil na vida das pessoas. Por outro lado, falar sobre este momento pode, muitas

    vezes, ajudar a enfrentar essa situao.

    Se quiser participar no ter nenhuma despesa e caso em algum momento, quiser

    retirar a autorizao isto poder ser feito, sem que afete o tratamento no hospital. Sempre que

    existirem dvidas sobre o trabalho elas podem ser esclarecidas no momento da entrevista ou

    pelo telefone que encontra-se nesta folha.

    ________________________ ________________________

    Nome: Gislaine C. O. Chini

    RG: Fone: (16) 3945-6916

    Ribeiro Preto, ____ de ______________de ________.

    .

    UNIVERSIDADE DE SO PAULOESCOLA DE ENFERMAGEM DE RIBEIRO PRETOGISLAINE CRISTINA DE OLIVEIRA CHINIGISLAINE CRISTINA DE OLIVEIRA CHINIFicha CatalogrficaGislaine Cristina de Oliveira ChiniAprovado em: ______/ ______/ _______Tabela 3 - Nmero de amputaes realizadas, no perodo de jaA busca pela literatura 18Construo dos resultados 60Reflexes sobre o desvelado: um novo pensar a amputao 119Introduo1.1 O incio de minha trajetriaAmputaes de dedosAmputaes de antebraoDesarticulao de cotoveloAmputaes de ombroPERIDICOSPERODOCATLOGOS

    O positivismo (como denominao para a filosofia do sculo XSegundo Martins, Boemer e Ferraz (1990), a fenomenologia surHusserl censura as cincias humanas, principalmente a psicolA dependncia como possibilidade de uma existncia marcada pA prtese como forma de se manter no mundo em plenitude