a água e os sonhos bachelard, gaston

Download A água e os sonhos BACHELARD, Gaston

Post on 13-Aug-2015

238 views

Category:

Documents

3 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

Gaston Bachelard A gua e os SonhosEnsaio sobre a imaginao da matria

Martins FontesSo Paulo 1998

Ttulo original: L'EAU ET LES RVES Copyright Librairie Jos Corti, 1942 Copyright Livraria Martins Fontes Editora Ltda., So Paulo, 1989, para a presente edio Ia edio junho de 1989 2* tiragem fevereiro de 1998 Traduo ANTNIO DE PDUA DANESI Reviso da traduo Rosemary Costhek Ablio Preparao do original Flora Maria de Campos Fernandes Reviso grfica Coordenao de Maurcio Balthazar Leal Produo grfica Geraldo Alves

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bachelard, Gaston, 1884-1962. A gua e os sonhos : ensaio sobre a imaginao da matria / Gaston Bachelard ; [traduo Antnio de Pdua Danesi]. - So Paulo : Martins Fontes, 1997. - (Coleo Tpicos) Ttulo original: L'eau et les rves. Reimpresso de 1989. ISBN 85-336-0819-5 1. gua 2. Imaginao 3. Psicanlise 4. Sonhos I. Ttulo. II. Srie. 97-5619 CDD-154.63 ndices para catlogo sistemtico: 1. gua e sonhos : Psicologia 154.63 2. Sonhos : Psicologia 154.63

Todos os direitos para a lngua portuguesa reservados Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Rua Conselheiro Ramalho, 3301340 01325-000 So Paulo SP Brasil Tel. (011) 239-3677 Fax (011) 605-6867 e-mail: info@martinsfontes.com http :l lwww.martinsfontes.com

NDICEIntroduo Imaginao e matria 1

I. As guas claras, as guas primaveris e as guas correntes. As condies objetivas do narcisismo. As guas amorosas 21 II. As guas profundas As guas dormentes As guas mortas. "A gua pesada" no devaneio de Edgard Poe 47 III. O complexo de Caronte. O complexo de Oflia IV. As guas compostas 97 V. A gua maternal e a gua feminina 119 VI. Pureza e purificao. A moral da gua 139 VII. A supremacia da gua doce 157 VIII. A gua violenta 165Concluso A palavra da gua 193

73

INTRODUO

IMAGINAO E MATRIAAjudemos a hidra a esvaziar seu nevoeiro.MALLARM, Divagations, p. 352

I As foras imaginantes da nossa mente desenvolvem-se em duas linhas bastante diferentes. Umas encontram seu impulso na novidade; divertem-se com o pitoresco, com a variedade, com o acontecimento inesperado. A imaginao que elas vivificam tem sempre uma primavera a descrever. Na natureza, longe de ns, j vivas, elas produzem flores. As outras foras imaginantes escavam o fundo do ser; querem encontrar no ser, ao mesmo tempo, o primitivo e o eterno. Domia histria. Na natureza, em ns e fora de ns, elas produzem germes; germes em que a forma est encravada numa substncia, em que a forma interna. Expressando-nos filosoficamente desde j, poderamos distin-4 guir duas imaginaes: uma imaginao que d vida causa 4> formal e uma imaginao que d vida causa material; ouTmais ^v ' mos conceitos, expressos de forma abreviada, parecem-nos efetivamente jndisgensveis a um estudojilosfico completo da criao potica. E necessrio que uma causa sentimental, uma causa do corao se torne uma causa formal para que a obra tenha a( Brevemente, a imaginao formal e a imaginao material. Estes lti-

2

AAGUAEOS SONHOS

variedade do verbo, a vida cambiante da luz. Mas, alm das imagens da forma, tantas vezes lembradas pelos psiclogos da imaginao, h conforme mostraremos imagens da matria, imagens diretas da matria. A vista lhes d nome, mas a mo as conhece. Urna_alegria dinmica as maneja, as modela, as torna mais leves. Essas imagens da matria, ns as sonhamos substancialmente, intimamente, afastando as formas, as formas perecveis, as vs imagens, o jdeyir das superfcies. Elas tm um peso, so um corao. Sem dvida, h obras em que as duas foras imaginantes atuam juntas. mesmo impossvel separ-las completamente. O devaneio mais mvel, mais metamorfoseante, mais totalmente entregue s formas, guarda ainda assim um lastro, uma densidade, uma lentido, uma germinao. Em compensao, toda obra potica que mergulha muito profundamente no germe do ser para encontrar a slida constncia e a bela monotonia da matria, toda obra p potica q que_adc|uire_suasJ ^ ^ ^^ substancial deve, mesmo assim, florescer, adornar-se. Deve acolher, para a primeira seduo do leitor, as exuberncias da beleza formal. Em vista dessa necessidade de seduzir, a imaginao trabalha I mais geralmente onde vai a alegria ou pelo menos onde vai uma j alegria! , no_ sentido^das formas e das cores, no sentido das variedades e das metamorfoses, no sentido de um porvir da super' fcie. Ela deserta a profundidade, a intimidade substancial, o volume. Entretanto, sobretudo imaginao ntima dessas foras vegetantes e materiais que gostaramos de dedicar nossa ateno nesta obra. S um filsofo iconoclasta jjode empreender esta pesada tarefa: discernir todos os sufixos da beleza, tentar encontrar, jx>trs das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam, ir prpria raiz da fora imaginante. // No fundo da matria cresce uma vegetao obscura; na noite da matria florescem flores negras. Elas j tm seu veludo e a frmula de seu perfume. II Quando comeamos a meditar sobre a noo de beleza da matria, ficamos imediatamente impressionados com a carncia

IMAGINAO E MATRIA

da causa material na filosofia esttica. Pareceu-nos, em particular, que se subestimava o poderlndTvidualizante da matria. Por que se associa sempre a noo de indivduo de forma? No haver uma individualidade em profundidade que faz com que a matria seja, em suas menores parcelas, sempre uma totalidade? Meditada em sua perspectiva de profundidade, uma matria precisamente o princpio que pode se desinteressar das formas. No o simples dficit de uma atividade formal. Continua sendo ela mesma, a despeito de qualquer deformao, de qualquer fragmentao. A matria, alis, se deixa valorizar em dois sentidos: no sentido do aprofundamento e no sentido do impulso. No sentido do aprofundamento, ela aparece como insondvel, como um mistrio. No sentido do impulso, surge como uma fora inexau- J rvel, como um milagre. Em ambos os casos, a meditao de / uma matria educa uma imaginao aberta. S quando tivermos estudado as fbrmas, atribuindo-as sua exata matria, que poderemos considerar uma doutrina completa da imaginao humana. Poderemos ento perceber que a imagem uma planta que necessita de terra e de cu, de sjjbjtncia e de Torma. As imagens encontradas pelos homens evoluem \ lentamente, com dificuldade, e compreende-se a profunda observao de Jacques Bousquet: "Uma imagem custa tanto trabalho humanidade quanto uma caracterstica nova planta." Muitas *" imagens esboadas no podem viver porque so meros jogos for- ' mais, porque no esto realmente adaptadas matria que devem ornamentar. Acreditamos, pois, que uma doutrina filosfica da imaginao deve antes de tudo estudar as relaes da causalidadejnaterial com a causalidade formal. Esse problema se coloca tanto para o poeta como para o escultor. Asjmagens poticas tm, tambm em elas, uma matria. ^do tsp i /.

III

J examinamos esse problema. Em La psychanalyse dufeu, propusemos marcar os diferentes tipos de imaginao pelo signo dos elementos materiais que inspiraram as filosofias tradicionais e as cosmologias antigas. Com efeito, acreditamos possvel estabe-

4

AAGUAEOS SONHOS

lecer, no reino da imaginao, uma lei dos quatro elementos, que classifica as diversas imaginaes materiais conforme elas se associem ao fogo, ao ar, gua ou terra. E, se verdade, como acreditamos, que toda p^tia_devejeceber componentes por fracos que sejam de essncia material, ainda essa classificao pelos elementos materiais fundamentais que deve aliar mais fortemente as almas poticas. Para que um devaneio tenha prosseguimento com bastante constncia para resultar em uma obra escrita, para que no seja simplesmente a disponibilidade de uma hora fugaz, preciso que ele encontre sua matria, jjreciso que urnuelemento material lhe d sua prpria substncia, sua prpria regra, sua potica especfica. E no toa que as filosofias primitivas faziam com freqncia, nesse caminho, uma opo decisiva. Associavam a seus princpios formais um dos quatro r elementos fundamentais, que se tornavam assim marcas de tempetamentos filosficos. Nesses sistemas filosficos, o pensamento erudito est ligado a um devaneio material primitivo, a sabedoria tranqila e permanente se enraza numa constncia substancial. E, se essas filosofias simples e poderosas conservam ainda fontes de convico, porque ao estud-las encontramos foras imaginantes totalmente naturais. sempre a mesma coisa: na ordem da filosofia, s se persuade bem sugerindo devaneios fundamentais, restituindo aos pensamentos sua avenida de sonhos. Mais ainda que os pensamentos claros e as imagens conscientes, os sonhos esto sob a dependncia dos quatro elementos fundamentais. Foram numerosos os ensaios que ligaram a doutrina dos quatro elementos materiais aos quatro temperamentos orgnicos. Assim que um velho autor, Lessius, escreve em Uart de vivre longtemps (p. 54): "Os sonhos dos biliosos so de fogo, de incndios, de guerras, de assassnios; os dos melanclicos, de enterros, de sepulcros, de espectros, de fugas, de fossas, de tudo quanto triste; os dos pituitosos, de lagos, de rios, de inundaes, de naufrgios; os dos sangneos, de vos de pssaros, de corridas, de festins, de concertos e at mesmo de coisas que no ousamos nomear." Por conseguinte, os biliosos, os melanclicos, os pituitosos e os sangneos sero respectivamente caracterizados pelo fogo, a terra, a gua e o ar. Seus sonhos trabalham de preferncia o elemento material que os caracteriza. Se admitirmos que a um erro biolgico sem dvida manifesto mas bem geral pode

IMA GINA O E MA TERIA

5

corresponder uma verdade onrica profunda, estaremos prontos a interpretar os sonhos materialmente. Ao lado da psicanlise dos sonhos, ento, dever figurar uma psicofisica e uma psicoqumica dos sonhos. Essa psicanlise bastante materialista se juntar aos velhos preceitos que queriam fossem as doenas elementares curadas pelas medicinas elementares. O elemento material determi

Recommended

View more >