A Administração Pública no ordenamento jurídico ... ?· Estados de Direito democrático possam não…

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  • 1

    A Administrao Pblica no ordenamento jurdico,

    constitucional e legal, da Guin-Bissau

    Por Ana Cludia Marcos Carvalho

    Introduo

    Proponho-me hoje falar sobre a Administrao Pblica no ordenamento

    jurdico da Guin-Bissau. Este trabalho no pode dispensar qualquer

    dos sentidos em que a Administrao Pblica se apresente, portanto, a

    Administrao Pblica em sentido orgnico ou subjectivo, vulgo

    organizao pblica, e a Administrao Pblica em sentido material ou

    objectivo, a actividade administrativa tpica.1

    Com vista a atingir o objectivo que pretendo e que ser revelado nas

    concluses deste trabalho, adoptei a seguinte estrutura para esta

    conferncia.

    Comearei por justificar a necessidade de regulamentao da

    Administrao Pblica, as matrias em que essa necessidade se

    acentua e o nvel de regulamentao que se impe.

    Em seguida, traarei o quadro das normas constitucionais guineenses

    sobre a Administrao Pblica. Refira-se que a forma de abordagem

    nesse momento sobretudo inspirada no texto do Professor Doutor

    Jorge Miranda A Administrao Pblica nas Constituies

    Portuguesas,2 de modo que se revela uma apresentao sucinta e

    brevemente analtica.

    Adiante, continuarei com a exposio da regulamentao ao nvel legal

    sobre a Administrao Pblica, agrupada coerente e tematicamente,

    1 Sobre os vrios sentidos da expresso Administrao Pblica vide Diogo Freitas do Amaral, Curso de Direito Administrativo, volume I, 2 edio, Almedina, Coimbra, pgina 32 e seguintes, e Dicionrio Jurdico da Administrao Pblica, I Suplemento, pgina 13. 2 Correspondente interveno do Professor nas Jornadas de Direito Administrativo em homenagem ao Professor Marcello Caetano, realizadas em 18 de Maro de 1987, e cujo texto se encontra publicado sob aquele ttulo na Revista O Direito, Ano 120, 1988, Volume. III e IV, pginas 607 e seguintes.

  • 2

    sempre que possvel, e com o exame fugaz que uma conferncia to

    temporalmente limitada permite.

    Por fim, as concluses revelaro uma reflexo que tem sido constante

    na minha contnua observao sobre esta matria no ordenamento

    jurdico guineense.

    A necessidade de regulamentao da Administrao Pblica

    Procurar nesta fase razes para a regulamentao da Administrao

    Pblica seria quase equivalente a pr em causa o Direito

    Administrativo. Logicamente que essa necessidade se impe, que no

    se imagina um actual Estado de Direito democrtico sem um certo

    Direito Administrativo, enquanto aquele conjunto de normas jurdicas,

    que regula essencialmente a organizao e funcionamento da

    Administrao Pblica, bem como as relaes que esta estabelece com

    outros sujeitos de direito, no mbito da sua actividade administrativa

    de gesto pblica. Muito embora se reconhea que alguns, raros,

    Estados de Direito democrtico possam no ter um Direito

    Administrativo neste sentido, no deixando no entanto de ter uma

    Administrao Pblica subordinada Lei, com a diferena de essa Lei

    no ser distinta daquela que regula as relaes privadas.3 Portanto, a

    subordinao Lei existe, tem que existir.

    A essencialidade de se regulamentar de forma distinta, adequada,

    especial, a Administrao Pblica incide, creio, na importncia que

    esta se reveste para a sociedade em geral. Com efeito,

    Administrao Pblica quem cabe satisfazer as necessidades colectivas

    sentidas pela comunidade e que so assumidas como tarefa

    fundamental do Estado.

    3 Diogo Freitas do Amaral, supra, p.121.

  • 3

    Em regra, fala-se muito teoricamente das necessidades colectivas,

    embora alguma doutrina tenha vindo a apontar diversos exemplos

    dessas necessidades. No deixando de reproduzir alguma dessa

    doutrina4 parece-me digno apontar aqui alguns dos exemplos de

    necessidades da comunidade guineense que devem ser satisfeitos pela

    Administrao Pblica guineense, e que como tal merecem a nossa

    ateno.

    Caminhando no sentido daquelas que so consideradas as trs

    principais espcies de necessidades colectivas5, constata-se que, ao

    nvel da segurana, necessrio organizar e manter servios de polcia

    que garantam a proteco dos cidados, a ordem e a tranquilidade

    pblicas, servios de Foras Armadas, servios que fiscalizem os

    transportes pblicos e privados que realizam a deslocao das pessoas

    no territrio, em especial rodovirios, fluviais e martimos do

    conhecimento geral a existncia de sinistros com consequncias fatais

    para as vidas humanas, - servios de bombeiros que permitam uma

    resposta mais rpida e eficaz s ocorrncias em que se impe a sua

    interveno tambm so conhecidas as dificuldades de interveno

    destes servios, como recentemente se pode verificar no grande

    incndio do mercado central de Bissau.

    Ao nvel da cultura, numa espcie que no se pode distanciar do social,

    no pode deixar de se falar nos estabelecimentos de ensino,

    insuficientes e, em regra, exguos, com carncia de meios humanos e

    materiais. A pouca relevncia que dada a vectores culturais como

    museus, bibliotecas, a ciclos de conferncias e outros meios de

    4 Sobre necessidades colectivas vide Freitas do Amaral, Dicionrio, supra, p. 13, Joo Caupers, Introduo Cincia da Administrao Pblica, ncora Editora, 2002, p. 71. 5 Sobre necessidades colectivas de segurana, cultura e bem-estar veja-se Freitas do Amaral, Dicionrio, supra, p. 15.

  • 4

    divulgao de cultura. Refira-se especificamente as dificuldades de

    muitos dos artistas guineenses que j se dedicam s artes, literrias,

    artes plsticas, txteis, msica, cinema e teatro, e a escassez do

    despontar de novos artistas.

    Ao nvel do bem-estar econmico-social h uma grande necessidade de

    servios de obras pblicas que possam ajudar a desenvolver o pas,

    muitas das carncias passam por diversas infra-estruturas

    inexistentes ou destrudas aps o conflito poltico-militar de

    1998/1999. Mas na rea da construo impe-se ainda o

    licenciamento e fiscalizao de obras particulares. premente o

    reordenamento do territrio, dos espaos urbanos e rurais.

    Um imperativo para o bem-estar social a organizao de servios de

    sade, servios de saneamento bsico e de limpeza, de distribuio de

    servios de gua e electricidade, realidades longnquas da maioria dos

    cidados guineenses e que actualmente constituem as mais bsicas

    condies para uma vida condigna.

    ainda essencial a criao ou apoio de sistemas de assistncia social

    vlidos voltados para os mais desfavorecidos, sobretudo crianas e

    idosos.

    Ao nvel econmico as carncias so muitas, mas a ausncia de meios

    financeiros por parte do Estado e a consequente dificuldade de

    investimento deste, leva a que pelo menos existam e actuem

    efectivamente servios que licenciem, fiscalizem as indstrias e o

    comrcio, as condies e a conformidade com a lei dos

    estabelecimentos, dos mercados; servios alfandegrios e fiscais.

  • 5

    Esta apenas uma enumerao exemplificativa de alguns dos servios

    que devem caber Administrao Pblica, e que me parecem merecer

    uma referncia especial no caso particular da Guin-Bissau. Mas

    muitos outros poderiam ser apontados, servios diplomticos e

    consulares, servios de registo civil, comercial, predial, melhoramentos

    de meios e vias de comunicao.

    A chamada de ateno, no inocente, nem imparcial, para alguns

    destes problemas, serve para demonstrar a necessidade de leis sobre

    estas matrias. Claro que, muitas das solues para estes problemas

    passam tambm por condies fsicas, mas verdade que nada disto

    se dever fazer sem leis prvias, adequadas, pensadas exactamente

    para o bom desenredo destas questes.

    Para alm das leis necessrias sobre essas matrias, natural a

    existncia de leis sobre a formao da vontade administrativa e sobre a

    actuao dessa. Consequncia dessa actuao so as leis que visam

    proteger a comunidade face Administrao Pblica, as normas

    garantsticas dos administrados.

    Aponto assim a necessidade de regulamentao da Administrao

    Pblica no que diz respeito organizao que a sustenta normas

    orgnicas - s relaes que se estabelecem ou possam estabelecer com

    outras entidades mas em especial com os administrados normas

    relacionais -, e actuao que se lhe impe no cumprimento dessa sua

    misso, em sentido lato, de satisfao das necessidades da

    comunidade em que se insere normas procedimentais. E o caminho

    que vos proponho de seguida o da verificao do que acabo de dizer

    no ordenamento jurdico da Guin-Bissau.

  • 6

    A Administrao Pblica na Constituio da Guin-Bissau

    O texto constitucional em vigor na Guin-Bissau e que cumpre

    analisar data de 1984, com as sucessivas alteraes que tiveram lugar

    em 1991, 1993, 1995, e 1996.

    Em matria de tarefas assumidas pelo Estado como fundamentais h

    um crescimento acentuado e diversificado, face Constituio

    aprovada em 1973, a qual, naturalmente, tinha como grandes

    preocupaes afirmar a independncia do Estado e organizar o poder

    poltico para o novo Estado. Enquanto que nesse texto parcas so as

    tarefas que se vo reflectir nas funes a desempenhar pelas entidades

    administrativas, o caso de alguns preceitos que referem a

    necessidade de criar condies econmicas e culturais para o

    desenvolvimento social, e a preocupao com o trabalho e com o

    ensino, reveladas no artigo 14; a Constituio actual assume tarefas

    to diversificadas que vo desde o bem-estar em geral, ao qual se refere

    o artigo 11, n. 2, sade pblica, segurana social, educao,

    cultura e ao desporto, segurana e defesa, como o demonstram

    respectivamente os artigos 15, 46, n. 3, 16 e 49, 17, 20 e 21.

    Ao nvel da organizao administrativa, encontra-se na Constituio a

    atribuio expressa ao Governo da funo administrativa, no artigo

    96, o qual assim o rgo supremo da Administrao Pblica, tal

    como em Portugal.6

    As competncias administrativas do Governo guineense constam de

    algumas alneas do artigo 100, das quais se assinala a alnea a) como

    a mais importante, segundo a qual, compete ao Governo dirigir a

    6 Artigo 182 da Constituio da Repblica Portuguesa.

  • 7

    Administrao Pblica, coordenando e controlando a actividade dos

    ministrios e dos demais organismos centrais da Administrao e os do

    poder local.

    Este o principal preceito no que diz respeito Administrao central7

    e que prev o poder de direco sobre essa. Esta Constituio no

    consagra a Administrao indirecta do Estado, apesar de ela existir na

    realidade guineense. Consagra-se apenas a Administrao central,

    referida, e a local, perifrica e autnoma.

    Sobre a Administrao local do Estado ou perifrica, para alm da

    referncia da alnea a), do artigo 100, trata o artigo 107, n.1, de

    dividir o territrio em regies, subdivididas em sectores e seces, para

    efeitos poltico-administrativos; o artigo 108 estabelece os

    representantes mximos do Governo nessa diviso e subdivises o

    Governador de Regio e o Administrador de Sector -, os quais so, nos

    termos do n. 2 desse artigo, evidentemente, nomeados e exonerados

    pelo Governo, ainda que sobre proposta do ministro da tutela; e, o

    artigo 114, n. 1, prev a participao do Administrador de Sector na

    Assembleia Municipal, rgo da Administrao local autrquica, que

    veremos j de seguida.

    Restam nesta Constituio, ao nvel de normas sobre a Administrao

    Pblica, as que se referem Administrao autnoma, e que nesta

    apenas tratam das de tipo territorial, como se evidencia no artigo 7.

    Portanto, em relao Administrao autnoma, regulam-se as

    Autarquias Locais, no captulo especialmente dedicado ao Poder Local,

    7 Tambm o artigo 87, alnea a) da Constituio da Repblica da Guin-Bissau s refere a competncia reservada Assembleia Nacional Popular, salvo autorizao conferida ao Governo, para legislar sobre organizao da administrao central e local.

  • 8

    captulo VI, do Ttulo III, que compreende os artigos 105 a 118, os

    quais alternam preceitos referentes Administrao local do Estado e

    Administrao local autnoma.

    H uma preocupao evidente com a questo da autonomia das

    autarquias locais e com o reforo do poder das mesmas. -lhes

    atribudo poder regulamentar prprio por via do artigo 112, n. 1. Os

    artigos 105, n. 1 e 110, n. 1 conferem-lhes autonomia

    administrativa, patrimonial e financeira.

    So autarquias locais na Guin-Bissau os municpios, as seces

    autrquicas e as juntas locais: artigo 106. Constituem rgos das

    autarquias, segundo o n. 1, do artigo 111, uma Assembleia com

    poderes deliberativos, eleita por sufrgio universal, directo e secreto, e

    um rgo executivo; o que no caso dos municpios corresponde

    respectivamente Assembleia Municipal e Cmara Municipal [artigo

    113, alnea a)].8

    Na relao com rgos de poder de soberania, cabe ao Governo o poder

    de tutela, que se limita tutela legal e inspectiva sobre a Autarquias

    Locais, nos termos do artigo 112, n. 2 e da Lei que veremos adiante;

    e, cabe Assembleia Nacional Popular criar e extinguir as Autarquias

    Locais e dissolver os seus rgos nos termos dos artigos 117 e 116.

    Ao nvel de garantias dos administrados no h uma especial garantia

    administrativa, cabendo a impugnao de quaisquer modos de

    actuao da Administrao no genrico direito dos cidados justia,

    consagrado no artigo 32, como o direito de recorrer aos rgos

    8 As alneas b) e c) prevem os como rgos deliberativos e executivos, para as Seces Autrquicas e para as Juntas Locais, a Assembleia de Seco e a Comisso de Seco, e a Assembleia dos Moradores e a Comisso Directiva dos Moradores, respectivamente.

  • 9

    jurisdicionais contra os actos que violem os seus direitos reconhecidos

    pela Constituio e pela lei.

    Um aspecto louvvel a consagrao da responsabilidade civil do

    Estado e das demais entidades pblicas, dos seus rgos, funcionrios

    e agentes, no artigo 33 da Constituio guineense, no obstante a

    falta de regulamentao legal dessa disposio.

    Sem querer avanar antecipadamente com concluses deste trabalho,

    constata-se desde j que nesta Constituio faltam ainda diversas

    normas e sobretudo princpios sobre funcionamento e actividade

    administrativa e uma carncia grave em matria de garantias dos

    administrados, j que todas as normas referentes Administrao

    Pblica foram j analisadas neste breve momento.

    A Administrao Pblica na Lei guineense

    A perspectiva da anlise da Administrao Pblica na lei guineense

    tem que obedecer a uma determinada arrumao sob pena da

    exposio se tornar confusa.

    Ao nvel da Administrao Central do Estado podemos encontrar em

    vigor a Lei Orgnica do Governo, que corresponde ao Decreto-Lei n.

    20/95 de 25 de Dezembro9, a Ordem n. 1/92 que aprova Normas para

    a criao, organizao e controlo dos servios civis do Estado10 e a Lei

    de Organizao Poltico-Administrativa do Territrio11, que estabelece

    no s a diviso do territrio mas tambm o funcionamento da

    Administrao perifrica. Esta ltima lei a nica que trata de matria 9 Publicada no 1 suplemento do Boletim Oficial n. 52, de 25 de Dezembro de 1995. 10 Publicada no 1 suplemento do Boletim Oficial n. 30, de 30 de Junho de 1992. 11 Lei n. 4/97, de 2 de Dezembro, publicada no 1 Suplemento ao Boletim Oficial n. 48 de 1997.

  • 10

    respeitante Administrao Local do Estado ou Administrao

    Perifrica.

    J tinha enunciado que a Constituio guineense no consagra a

    Administrao Indirecta mas existe uma Lei das Bases Gerais das

    empresas de capitais pblicos12, o que permite afirmar que, na

    realidade, existe na Guin-Bissau uma Administrao Pblica

    tripartida, ou seja, central ou directa, indirecta e autnoma.

    Tal tripartio no resulta portanto da Constituio mas confirma-se

    que verdadeiramente existem entidades juridicamente distintas do

    Estado que desenvolvem uma actividade materialmente estadual.

    Em relao Administrao Local Autrquica a lista

    consideravelmente mais extensa. Podemos contar com uma Lei de

    Bases das Autarquias Locais13, com uma Lei para a criao e extino

    de Autarquias Locais14, Leis sobre a Tutela do Estado sobre as

    autarquias locais15 e sobre a Autonomia Financeira e Patrimonial das

    Autarquias16. E Leis especficas para os Municpios, uma Lei-quadro17 e

    um decreto-lei que cria municpios e estabelece os seus respectivos

    limites18.

    A actividade administrativa tem sido descurada na sua maioria,

    defendendo parte da doutrina que se mantm em vigor o Estatuto do

    Funcionalismo Ultramarino19 que data de 1956.20 Quem defende a sua

    12 Decreto n. 55/93, de 25 de Outubro, publicado no Boletim Oficial n. 43 de 1993. 13 Lei 5/96, de 16 de Setembro, publicada no Boletim Oficial n. 38, de 1996. 14 Lei 5/97, de 2 de Dezembro, publicada no 1 Suplemento ao Boletim Oficial n. 48 de 1997. 15 Lei 3/97 de 7 de Abril, publicada no Boletim Oficial n. 14 de 1997. 16 Lei 7/96, de 9 de Dezembro, publicada no Boletim Oficial n. 49, de 1996. 17 Lei 6/97, de 2 de Dezembro, publicada no 1 Suplemento ao Boletim Oficial n. 48 de 1997. 18 Decreto-Lei 4/96, de 9 de Dezembro, publicada no Boletim Oficial n. 49, de 1996. 19 Decreto n. 40.708 de 1956. 20 Sobre a divergncia de opinies consultar Madalena Nora, Colectnea de Legislao Administrativa, policopiada, Biblioteca da Faculdade de Direito de Bissau.

  • 11

    manuteno em vigor, apesar da revogao expressa pelo diploma que

    publica o Estatuto do Pessoal da Administrao Pblica, procura evitar

    o completo vazio legal nesta matria dada a inexistncia de qualquer

    Lei que regule de forma geral o procedimento da actuao da

    Administrao Pblica na Guin-Bissau. A manuteno do Estatuto do

    Funcionalismo Ultramarino verdadeiramente desactualizado e disforme

    da realidade acarreta problemas de compatibilizao com leis mais

    recentes sem que se possa falar em revogao ou interpretao

    actualista, como o caso quando comparados os artigos do Estatuto

    do Funcionalismo Ultramarino com os artigos da Lei de Bases das

    Autarquias Locais que determinam as consequncias do acto invlido

    que padea dos mesmos vcios. Podemos ter actos que padecem do

    mesmo vcio com consequncias diferentes quanto sua invalidade

    consoante se trate de actos de rgos das Autarquias Locais ou de

    actos dos demais rgos da Administrao Pblica.21

    Mais recentemente o legislador traz luz algumas leis sobre contratos

    pblicos, sobre a modernizao da adjudicao dos contratos pblicos,

    as Empreitada de obras pblicas e o Cdigo dos contratos pblicos,

    este acompanhado de disposies particulares relativas aos concursos

    pblicos22.

    Sobre a funo pblica, no sentido do elemento humano que integra a

    Administrao Pblica, deparamo-nos valiosamente com o Estatuto do

    Pessoal Dirigente da Funo Pblica23, com o Estatuto do Pessoal da

    Administrao Pblica24 e com o Estatuto Disciplinar dos Servios da

    21 Confirmar artigos 466 e 467 do EFU e 39 e 40 da LBAL. 22 Respectivamente Decreto-Lei n. 2/2002, Decreto-Lei n. 3/2002, Decreto-Lei n. 4/2002 e Decreto 4/2002, todos de 3 de Dezembro de 2002, publicados no Boletim Oficial n. 48 de 2002. 23 Decreto n. 30-A/92 de 30 de Junho, Suplemento ao Boletim Oficial n. 30 de 1992. 24 Aprovado pelo Decreto n. 12-A/89, de 28 de Fevereiro, mas que s entrou em vigor em 1994.

  • 12

    Administrao Pblica25, leis, todas elas, da dcada de 90, que reduzem

    as carncias nessa matria em termos legislativos, muito embora falte

    sobretudo a efectividade prtica.

    No mbito do contencioso administrativo apenas podemos contar com

    a Lei Orgnica dos Tribunais26 que cria os tribunais administrativos e

    determina a competncia dos mesmos, sem no entanto se imiscuir no

    respectivo processo, e com remisses para uma lei desse mbito que

    ainda no existe. Nem fisicamente os prprios tribunais

    administrativos. Considera-se ainda em vigor parte da Reforma

    Administrativa Ultramarina27, datada de 1933, e inaplicvel pela sua

    desactualizao e desadequao face s estruturas actuais.

    Concluses

    Este o panorama geral do ordenamento jurdico na Guin-Bissau

    sobre Administrao Pblica. As existncias a nvel constitucional e a

    nvel legal. Face ao que disse aqui e da observao que tenho realizado

    neste campo permito-me concluir o seguinte:

    I) A Guin-Bissau, em especial o legislador guineense, ainda no

    dispensou Administrao Pblica a ateno que se impe. A

    Constituio guineense no pode continuar a ignorar a

    Administrao Pblica, a vinculao desta a princpios que

    merecem consagrao constitucional, as garantias devidas a todos

    os administrados num Estado de Direito democrtico. A

    Constituio guineense necessita urgentemente de se ocupar

    destas matrias, o que alis j se procurou fazer com a

    25 Lei 9/97, de 2 de Dezembro, publicada em Suplemento ao Boletim Oficial n. 48 de 1997. 26 Lei 3/2002, de 20 de Novembro, publicada no Boletim Oficial n. 47. 27 Decreto n. 23.229 de 15 de Dezembro de 1933.

  • 13

    Constituio que em 2001 foi aprovada pela Assembleia Nacional

    Popular mas no promulgada pelo Presidente e que, a propsito

    deste assunto e sem quaisquer outras consideraes,

    lamentavelmente no entrou em vigor.

    II) Esse lamento estende-se ao factor das tarefas fundamentais

    assumidas pelo Estado cujo aumento quantitativo e qualitativo

    desejvel. A anlise da actual Constituio guineense permitiu o

    apercebimento das parcas tarefas que cabem ao Estado, atendendo

    quelas necessidades colectivas que antes foram consideradas

    como devendo caber ao Estado. Portanto, a referncia a um bem-

    estar do povo28 expresso na Constituio no basta, esta deve ser

    mais exigente, mais especfica, de modo a que se possam exigir

    certas e determinadas prestaes ao Estado.

    III) Felizmente, a existncia das Leis enunciadas sobre funo pblica

    colmatam de certa forma a falta de normas constitucionais sobre a

    funo pblica, que devem ser consideradas de extrema

    importncia para o seu bom funcionamento e desenvolvimento.

    Encontra-se, s a ttulo de exemplo, no Estatuto do Pessoal da

    Administrao Pblica a consagrao da igualdade de condies e

    oportunidades para todos no artigo 22, alnea b), e toda uma srie

    de normas que visam um sistema que procura dar relevo ao

    profissionalismo e ao mrito e evitar os favoritismos. Temas que

    merecem uma dignidade constitucional e que por isso se aguarda

    esse reconhecimento.

    IV) inaceitvel que, desde logo, o dirigente mximo da

    Administrao Pblica no tenha uma Lei que o regulamente de

    28 Artigo 11, n. 2.

  • 14

    forma actual, adequada realidade, que apresente a sua

    organizao coincidente com o que existe efectivamente, que

    determine as competncias que cabem a cada Ministrio, que

    regulamente as relaes entre os diversos membros do Governo e

    dos servios dependentes. Pode-se dizer que o problema da falta de

    regulamentao legal essencial sobre Administrao Pblica se

    inicia no topo.

    V) Causa alguma estranheza que a Lei se ocupe to

    insignificantemente sobre a Administrao Estadual indirecta, h

    apenas a Lei das Bases Gerais das Empresas de Capitais Pblicos,

    e nada sobre outras formas de Administrao Indirecta, como por

    exemplo Institutos Pblicos, e por outro lado se ocupe com alguma

    ponderao sobre Autarquias Locais, quando estas permanecem

    por instituir. No ignoramos que a no realizao de eleies que

    tem obstado s Autarquias Locais tem sido impossibilitada pelas

    condies fsicas.

    VI) A insuficincia de Leis administrativas patente quando

    pensamos em matrias em concreto. No existe e deve considerar-

    se urgente a produo de normas que consagrem princpios que j

    no podem deixar de vincular qualquer Administrao: legalidade,

    igualdade, imparcialidade, transparncia, boa f, especializao,

    aproximao dos servios s populaes, participao dos

    interessados, desburocratizao, desconcentrao,

    descentralizao, unidade da Administrao, e que para serem

    efectivos necessitam de explicitao e no se tratarem de meros

    princpios implcito no princpio do Estado de Direito democrtico29.

    Sobre os princpios da descentralizao e da desconcentrao no 29 Nesse sentido Filipe Falco Oliveira, Direito Pblico Guineense, Almedina, 2005, p. 230.

  • 15

    existe uma consagrao mas existem figuras j aqui referidas que

    marcam uma abertura a esses princpios, o caso da existncia

    das Autarquias Locais e da Administrao perifrica.

    VII) Tambm normas sobre a competncia para a prtica de actos,

    funcionamento de rgos colegiais, delegao de competncias e

    substituio, mecanismos de participao dos interessados nas

    decises que lhes dizem respeito se impem enquanto contributos

    para imprimir racionalidade na actividade e funcionamento da

    Administrao.

    VIII) E ainda normas que consagrem verdadeiras garantias para

    os administrados, direitos como a informao, acesso a arquivos,

    notificao, fundamentao pelo menos dos actos desfavorveis

    para os particulares -, petio, queixa ou reclamao, ao

    recurso hierrquico, ao recurso contencioso de todos os actos

    lesivos dos direitos e interesses legalmente protegidos.

    IX) Significa isto que existe uma carncia grave sobre procedimento

    administrativo. No existe neste momento um diploma que regule

    de forma global, sistemtica e coerente o modo de proceder da

    Administrao Pblica perante os particulares, o que se traduz na

    vigncia de ambiguidades que prejudicam os particulares e pem

    em causa um bom e regular funcionamento da Administrao.

    (Como as que referimos antes sobre actos invlidos).

    Para terminar, gostaria de assinalar a insuficincia do Direito por si s

    para pr e manter em funcionamento uma Administrao Pblica

    eficaz, eficiente, capaz de responder a todas as questes que lhe so

    colocadas. Melhorar o funcionamento da Administrao passa tambm

  • 16

    por uma abordagem prtica; boa legislao e muito boa vontade

    poltica.

    Obrigada a todos pela vossa ateno.

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