8ª Edição - O Espectro

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Jornal acadmico online do Ncleo de Cincia Poltica.

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  • O ESPECTRO Ncleo de Cincia Poltica - ISCSP UL 8 EDIO - 24 de Maro de 2014

    SCAR GASPAR De seu nome, Gaspar! Poltica Interna, 3

    YA B A S TA !

    A resiste ncia zapatista dura ha 20 anos. Ha 20 anos pegaram em armas, disseram basta e desde enta o jamais obedeceram

    a autoridade estatal e capitalista. Comearam a decidir de forma auto noma e com muitas dificuldades te m

    melhorado as suas condio es de vida. De Chiapas vem um grito de revolta e um exemplo de resiste ncia! Globo, 7

    PRTUGAL

    A Moda dos

    Tachos

    Poltica Interna, 3

    BILL GATES

    Tecnologia e

    Emprego

    Economia, 6

    PAI S

    Os smbolos

    alternativos de

    uma democracia

    em crise

    Poltica Interna, 5

    IDELGIAS

    O Regresso dos

    Liberais?

    Destaque, 9

  • 02 | 24 Maro 2014

    O ESPECTRO

    EDITORIAL

    Insanvel Divergncias insanveis. Incr vel como em duas palavras se consegue sintetizar a reunia o entre o primeiro-ministro e o l der do maior partido da oposia o. As palavras de Anto nio Jose Seguro deixam transparecer a falta de orientaa o para os desafios que Portugal vai enfrentar a partir de 17 de Maio deste ano, isto e , a falta de estrate gias concertadas de actuaa o para o po s-Troika. Mas o mais fascinante de todo este encontro na o esta presente nas concluso es e soluo es que dele sa ram se pensou em nenhumas acertou em cheio na quantidade. A verdadeira atraa o vem da troca de acusao es entre ambos, no debate quinzenal, do passado dia 20. To Ze acusou o Pedrinho de so querer brincar quando precisava de fazer novos cortes. Pedrinho relembrou o To Ze que na o pode ser so o Governo a jogar com algo que ambos compactuaram com as regras. PS na o compactua com a pol tica do Governo e este, por sua vez, acusa o PS de competir com o Governo com o mero objectivo de cair nas prefere ncias do eleitorado. Voltamos ao recreio do jardim infantil, com as t picas birrinhas entre duas crianas que querem ter o mesmo brinquedo nas ma os, brinquedo esse com que nenhum dos dois sabe brincar. mais complicado e que ja ningue m tem pacie ncia para estes discursos infantis. Com o final do PAEF a aproximar-se rapidamente, e incr vel como ja esquecemos a governaa o sustentada se e que alguma vez a lembramos em prol do recorrente lambe-botismo cro nico a senhora Merkel ou do discurso do se e assim, eu na o quero. No entanto, so os mais limitados de racioc nio na o conseguem aperceber-se que o jotismo cro nico daquelas que seriam duas das mais preponderantes figuras pol ticas nacionais jamais lhes permitira serem os l deres que o pa s precisa para sair da crise. E nisso, o To Ze e o Pedrinho e uma semelhana insana vel.

    Ricardo Agostinho Presidente do NCP-ISCSP

    FICHA TCNICA

    Coordenao Adriana Correia Vice-Coordenao Joana Lemos Coordenador de Entrevistas e Reportagens Adriana Correia Reviso Adriana Correia e Cristina Santos Editor Isa Rafael Plataformas de Comunicao Andre Cabral, Jose Salvador, Joa o Martins e David Martins Cartaz Cultural Joa o Miguel Silva Redao Isa Rafael Joana Lemos Joa o Pedro Louro Joa o Pedro Rodrigues Joa o Silva Rui Campos Rui Coelho Tiago Sousa Santos

    CONTACTOS Facebook: facebook.com/Espectro Correio electrnico: jornaloespectro@gmail.com Twitter: twitter.com/_Espectro

  • 24 Maro 2014 | 03

    O ESPECTRO

    PLI TICA INTERNA

    O P I N I O d e T I AG O S O U S A S A N TO S

    D e s e u n o m e , G a s p a r !

    Caiu o pano! s actores tiraram as ma scaras e a pea teve in cio. encenador ficou incre dulo com a forma como os person-agens passaram da fica o teatral a realidade, esquecendo conscientemente o que haviam ensaiado. palco deixara de fazer sentido e os protagonistas representavam agora no mesmo plano que a plateia, o que deixava o arquitecto daquele acto inseguro. enredo desenrolava-se em redor de uma disputa entre fam lias, que se gladiavam numa negociaa o de valores de uma herana comum. Uns, recorrendo a mo-de stia e a contena o, na o encon-travam forma de ver esses mes-mos valores aumentados, mes-mo que isso pudesse valer-lhes a apreciaa o colectiva. s out-ros, se o guia o tivesse sido se-guido, lutariam com todos os argumentos poss veis por um aumento da recompensa. A pea estava assim desenhada e sairia desta diale tica de teses e anti-teses a s ntese que represen-taria o meio termo entre as

    propostas de cada fam lia. Que emocionante debate seria! A plateia na o chegou a assistir a este desfecho. Na o por falta de ensaio por parte dos actores. esforo, esse, ningue m o nega. desfecho encenado ao n vel da plateia, no acto de rebelia o dos personagens, colocou as duas fam lias a discutir sobre os mesmos valores herdados, referidos no texto original, mas desta feita discutiam sem discordar. aumento do valor era irresponsa vel e os dois la-dos entenderam-no a tempo. A discussa o era uma desculpa para a continuidade do espe-ta culo, uma forma de entreter o pu blico. Anto nio Jose Seguro, o encenador, deixou a sua pea a livre interpretaa o dos ac-tores e o personagem princi-pal, de seu nome Gaspar, in-verteu o dia logo, deixando o pensador desta magnificente obra sem saber como con-quistar a aprovaa o daqueles que ali, em pleno teatro, haviam gasto o seu dinheiro na esperana de ficarem presos a

    um conjunto de tramas que fizessem valer o ingresso. Afi-nal o sala rio m nimo na o pode ser aumentado, as circunsta n-cias assim o determinam. Afi-nal tudo o que antes se passou foi um discurso vago, popu-lista e marcado pela demagog-ia que tanto caracteriza o Par-tido Socialista de Anto nio Jose Seguro. Todas as cr ticas e todas as culpas apontadas a Pedro Passos Coelho na o pas-saram sena o de uma tentativa de angariaa o pre via de votos, quando no seio daquela fora pol tica todos sabiam que era imposs vel ser diferente. Isto, claro esta , se quisermos con-tinuar a ser um Estado. Em pleno Teatro Pol tico Nacional,

    as ma scaras ca ram, a realidade tomou a pea de assalto, a co-ere ncia foi esquecida. A plateia tem a agradecer a altura em que a sanidade se apoderou dos ac-tores, assim pode saber com o que contar daqueles que pun-ham em causa a contena o do actual executivo. s mesmos que agora, pelas as palavras de scar Gaspar, consideram im-poss vel regressar aos n veis de ha tre s anos atra s. Quando a pea se submeter a cr tica, em 2015, veremos se o ingresso valeu a ponderaa o nele depos-itada, ou se por outro lado, a plateia vai decidir-se pelo en-redo que teve o papel de estabi-lizar a loucura em que o acto se tornou.

    O P I N I O d e I S A R A FA E L

    A m o d a d o s t a c h o s

    A existe ncia de tachos em Portugal na o e novidade nenhuma. E na o me refiro aos tachos de inox que se tem na cozinha. Refiro-me a um sentido figurativo em que a obtena o de um emprego, normalmente bem remunerado, deve-se na o ao me rito e reconhecimento de um ind viduo mas atrave s de um especial favorecimento. Este modo de desenrascar o amigo, o familiar ou o apoiante que fez uns quantos favores e bastante comum em Portugal. Diria ate que e habitual ou considerado normal. Uma investigadora da Universidade de Aveiro Patr cia Silva - acabou de confirmar o que ja e do conhecimento popular. Esta

    concluiu que as nomeao es para a Administraa o pu blica sa o influenciadas por interesses partida rios, independentemente do partido que se encontra no Governo, para recompensar servios prestados ao partido do poder. estudo verifica que a maioria destas nomeao es serviram para recompensar lealdades. Quando este foi revelado nos meios de comunicaa o social, na o houve esca ndalo nem indignaa o. A populaa o portuguesa ha muito que esta a par das modas pol ticas, desde os ditos tachos a s regalias exorbitantes da elite pol tica. Simplesmente conformou-se com isso, tal como se conforma com tudo o

    resto. E o pensamento t pico portugue s deixa andar, a espera que algo mude por si so . Mas relativamente a isto, a mudana esta muito longe de acontecer pois na o ha nada nem ningue m que impea esta realidade. s habituais tachos dentro da esfera pol tica continuam em voga. Uma moda intemporal, com previsa o para perdurar. Uma moda que os pol ticos na o querem abdicar porque lhes conve m. Assim como conve m aos seus apoiantes e camaradas. Enquanto houver benef cios e vantagens para os dois lados, havera sempre tachos. Estes tornam-se cada vez mais apelativos a qualquer indiv duo que queira sobreviver na conjuntura

    actual de crise e austeridade, pois cada um e capaz de fazer uns favores para receber um bom emprego e para poder sustentar-se convenientemente. E a lei da sobrevive ncia. E e a forma mais fa cil de sobreviver. Mas ate quando podera isto acontecer? Ate quando ira seleccionar-se indiv duos sem capacidades para um determinado emprego, tirando a oportunidade a outros? Ate quando os indiv duos podera o ser privilegiados simplesmente por possuirem vantajosos contactos e usa -los para benef cio pro prio? A resposta esta em no s. Enquanto no s permitirmos, enquanto fecharmos os olhos a este tipo de realidade, na o deixara de acontecer.

    DR

  • PLI TICA INTERNA

    04 | 24 Maro 2014

    O ESPECTRO

    Constantemente nas bocas do mundo, o liberalismo raramente e objecto de uma cr tica devidamente fundamentada na correcta compreensa o da tradia o ideolo gica em causa. E a essa tarefa que se propo e o teo rico pol tico John Gray em Ps-Liberalismo: Estudos em Pensamento Poltico. Trata-se de uma compilaa o de artigos e ensaios que da continuidade a Liberalismo: Ensaios de Filosofia Poltica, publicado no final da de cada de 80. autor oferece uma perspectiva acerca da ideologia liberal, a luz do contexto histo rico que a viu nascer, enquanto expo e a sua teoria do pluralismo enquanto proposta pol tica po s-liberal para o se culo XXI. Iniciada numa e poca dominada pelo pensamento iluminista, a tradia o liberal viria a estruturar-se em torno de um nu cleo de valores pro prios da modernidade ocidental: universalismo, individualismo, igualdade e progresso. Com os contributos cla ssicos de Locke, Kant e Mills, bem como os mais recentes por figuras como Rawls ou Dworkins, o liberalismo foi-se desenvolvido no sentido

    COLUNA EX LIBRIS

    de incorporar conceitos como lei natural, sistema educativo nacional, welfare, engenharia social, etc. Actualmente, os dogmas epistemolo gicos que sustentavam o programa pol tico iluminista sa o postos em causa pela noa o de incomensurabilidade. A luz deste conceito avanado na de cada de 50 por Isaiah Berlin, haveria uma diversidade de valores, muitas vezes incompat veis, mas resistentes a qualquer comparaa o com pretenso es de objectividade. Neste contexto axiolo gico, John Gray propo e a substituia o da velha ideologia liberal pelo pluralismo radical, encorporado em valores como descentralizaa o, pacifismo e, sobretudo, defesa de uma sociedade civil forte e heteroge nea (independentemente de se tratar de um regime democra tico ou autorita rio, de economia capitalista ou socialista). A obra termina com um repto para que, face aos vindoros desafios (guerras, desastres ecolo gicos, fundamentalismos), sejam sempre os nossos esforos investidos na defesa da sociedade civil.

    CRTICA LITERRIA,

    por Rui Coelho

    Ps-Liberalismo

    John Gray

    O P I N I O d e J O O P E D R O L O U R O

    A i r r e s p o n s a b i l i d a d e t e m l i m i t e s

    Nos u ltimos dias, assistimos ao aparecimento de um Manifesto assinado por 70 personalidades, membros da nossa elite, que propunha a Reestruturaa o da D vida. Para quem este termo faz alguma confusa o, isto significa o seguinte: Senhores credores, no s sabemos que devemos dinheiro mas na o vamos pagar porque na o conseguimos. Por muito respeito que possa ter por personalidades como Adriano Moreira ou Manuela Ferreira Leite, nunca poderia concordar com tal proposta. Seria um disparate. A escassos dois meses de sairmos do Programa de Ajustamento, dizer na o consigo pagar e o mesmo que deitar a rua os sacrif cios que todos os portugueses fizeram e fazem ao longo destes tre s anos. E na o podemos dizer por diversas razo es. Dizer que na o pagamos e o mesmo que dizer que somos irresponsa veis. E o mesmo que dizer para nos aumentarem os juros. E o mesmo que dizer para na o nos emprestarem mais dinheiro, pois na o tera o retorno. Perder amos toda a credibilidade externa que ganha mos. Hoje, os juros da d vida sa o dos mais baixos da Europa, 4,49% em Maro deste ano, quando em 2011 se apresentavam nos 11,4%. Isto deve-se a responsabilidade e ao cumprimento das obrigao es que assumimos, na o como Governo, mas como pa s. Custa-me a crer que os subscritores deste manifesto acreditem, de facto, no que assinaram. Alia s, tenho a certeza que alguns deles sabem

    que esta o errados. E importante tambe m que se diga que alguns destes famosos subscritores contribu ram para a exorbitante d vida que temos. Alguns foram os (ir) responsa veis que hipotecaram o futuro da minha geraa o, que me fara o pagar por nego cios que na o fiz, por obras megalo manas que na o quis. E consensual, ate no Governo, que a austeridade e bastante elevada. Na o ha du vidas disso. Contudo, foi um caminho necessa rio e incontorna vel juntamente com a redua o da despesa pu blica no sentido de cumprirmos com o programa de ajustamento que assina mos e de voltarmos aos mercados. s resultados falam por si. Em 2013, tivemos um de fice de 5% quando, em 2010, era de 9,9%. No 1 trimestre de 2013, o desemprego era de 17,7%. No 4 trimestre do mesmo ano, o desemprego ja se situava nos 15,6%. As exportao es ja representam acima de 40% do PIB e, para dar mais um exemplo, a nossa balana comercial e hoje sino nimo de superavit. Fico satisfeito pelos nossos credores na o terem dado atena o a este manifesto. Seria catastro fico para Portugal e dar amos um passo para o segundo resgate, o que significaria mais sacrif cios e mais cortes. s portugueses na o querem isso, eu tambe m na o. Na o sejamos irresponsa veis. Se devemos, temos que pagar.

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  • O P I N I O d e J O A N A L E M O S

    O s s m b o l o s a l t e r n a t i vo s d e u m a d e m o c ra c i a e m c r i s e

    Apo s mais de tre s meses depois da u ltima manifestaa o, as foras de segurana voltaram a carga para a maior manifestaa o no sector ate a data. Contra os cortes e o congelamento das carreiras se manifestaram, mas desta vez com uma enorme expectativa

    por parte da populaa o, que por mais que tenha uma imagem menos positiva das foras de segurana nos u ltimos anos, no fundo, acabam por ve -las como uma muleta e um apoio a sua pro pria luta, nem que seja pelo legado histo rico nacional. Mas mais importante que analisar a ramagem, vale a pena perceber a importa ncia destes protestos e qual o seu impacto subjectivo, o seu significado e simbolismo, apreendidos de

    forma intuitiva pelo povo mas que provocam reaco es muito conscientes por parte do Governo. Mais que discutir a sua legitimidade, importa verificar as suas conseque ncias reais e o porque da escolha de um reperto rio de aca o desta natureza por parte das foras

    de segurana. Tendemos a observar este sobe e desce como rid culo, como uma expressa o non-sense de quem se manifesta, sedentos de apenas criarem desacatos ou de demonstrar a sua fora f sica, mas a verdade e que o simples gesto de subir as escadas tem muito que se lhe diga. E ainda que o impacto noticioso destas manifestao es se tenha ja dissipado, a imagem do

    PLI TICA INTERNA

    24 Maro 2014 | 05

    O ESPECTRO

    passado Novembro continua a ter fora e continua a ser relembrada pelas massas. E e esta mesma fora que o Governo pretendeu contrariar na u ltima manifestaa o pois na o so a partir do momento em que as pro prias foras de segurana, que configuram a base da prossecua o da

    segurana enquanto objectivo principal de um Estado, se manifestam se instala um certo clima de instabilidade social, tambe m se questiona o monopo lio da fora deste mesmo Estado e do Governo que a sua dianteira se posiciona, demonstrando a quem manda, quem realmente manda. A fragilidade de um regime e ta o ou mais proporcional quanto maior for a vontade de

    mudana das suas foras de segurana, e o simbolismo da subida da escadaria da Assembleia da Repu blica na o passou despercebido a um Governo que necessita de uma pol cia calma apo s os u ltimos meses de contestaa o, na o severa, mas anormal para este pa s de brandos costumes. Tornou-se imperativo para o Governo impedir a subida na o so pela lo gica dos desacatos mas sobretudo pela lo gica da rebeldia que significou desobedecer ao quadro da legalidade tanto defendido por Miguel Macedo. E porque a pol tica na o e so feita de teo ricos e grandes volumes mas em grande parte de emoo es catalisadoras de um pensamento que pode tornar-se altamente reivindicativo, era necessa rio impedir que outra invasa o acontecesse, e que mesmo que tivesse perdido o seu impacto em relaa o pelo inexora vel efeito da banalizaa o e da perda do factor surpresa, continuaria a ter uma fora simbo lica extrema, ainda para mais acontecendo uma segunda vez. Nada mudara nos pro ximos vindouros e as manifestao es populares continuara o a na o passar disso mesmo, mas como diriam os mais velhos podes na o os mudar, mas havera s de os chatear.

    DR

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  • O P I N I O d e J O O P E D R O R O D R I G U E S

    Te c n o l o g i a e E m p r e g o

    crucial discutir esta tema tica. desemprego estrutural (desemprego causado pela diverge ncia entre as qualificao es oferecidas e requisitada pelas empresas, regra geral de longa ou muito longa duraa o) aumentou significativamente e e inquestiona vel que mesmo havendo crescimento

    econo mico o crescimento do emprego sera enviesado para as profisso es qualificadas. u seja, o impacto da inovaa o tecnolo gica tendera a ser cada vez maior e a incidir na o so sobre os setores em trabalho-intensivos em que as qualificao es dos trabalhadores sa o geralmente baixas, mas tambe m em a reas diversas como a enfermagem, o telemarketing ou a contabilidade. debate pol tico sobre o desemprego estrutural deve por isso estender-se a um horizonte temporal mais alargado. Nesta mate ria e imprescind vel a antecipaa o, uma vez que se trata de uma problema tica cuja resolua o carece de um prazo alargado

    s avanos tecnolo gicos das u ltimas duas de cadas te m sido realizados a um ritmo exponencial e muitos sa o os desafios e oportunidades que deles adve m. A tecnologia aproximou o mundo e veio melhorar significativamente a nossa qualidade de vida, tornou o nosso trabalho mais eficiente, tarefas rotineiras mais co modas

    e ce leres, permitiu avanos medicinais de extrema importa ncia e possibilita-nos produzir mais e com maior qualidade. No entanto, muitos sa o os desafios que os benef cios encerram. Recentemente, Bill Gates, o guru da tecnologia do se culo XX que transformou o mundo, alertou para o facto de a evolua o tecnolo gica poder, num futuro pro ximo, fazer aumentar de forma exponencial o desemprego estrutural ao tornar obsoletas profisso es por via do desenvolvimento da automaa o e tecnologia artificial. Numa altura em que a crise econo mica e financeira causou o aumento do desemprego nos EUA e em toda a Europa, e

    de atuaa o e na o e pass vel de respostas reativas. A adaptaa o social tem de ter in cio no presente para que se evitem grandes tenso es e conflitos sociais no futuro. A sustentabilidade da sociedade assim o exige. Debater esta questa o passa primeiramente por revolucionar o paradigma de

    ensino, imuta vel nos seus traos basilares desde o in cio do se culo XX e adapta -lo para futuro. mundo muda a cada dia, caem governos, iniciam-se guerras, o homem vai a lua, a Unia o Sovie tica desmorona-se, os EUA te m o 1 presidente negro, mas o ensino continua igual. Tirando as reguadas, o reprovar quando se tira negativas e o respeito aos docentes, o ensino pouco mudou desde o tempo dos nossos bisavo s. Continua-se hoje em dia estimular o individualismo, a memorizaa o a prete rito do esp rito cr tico e os testes standard sa o a forma de avaliaa o privilegiada, na o havendo assim uma real avaliaa o da compreensa o

    individual das mate rias lecionadas nem da sua aplicaa o pra tica, estando a escola imbu da num forte esp rito de normalizaa o. E ainda mais incr vel que a aprendizagem tecnolo gica seja completamente posta de parte, condenando os alunos a completa incompreensa o do mundo que os rodeia e afastando-os do mundo produtivo, por na o adquirirem capacidades e conhecimento diretamente aplica veis no mundo empresarial. Estou seguro que este debate na o ocorrera antes do assunto atingir o estatuto de drama social, ou seja, antes da robo tica causar desemprego em massa e po r em causa, mais uma vez, a sustentabilidade social. A pol tica e toda ela feita a curto prazo, mais concretamente no prazo de uma legislatura, visto que pensar a 10/15/20 anos na o atrai votos no presente as pessoas querem saber dos problemas que te m agora. E exatamente essa dina mica a grande causadora da nossa situaa o atual. Ha dez anos os governos na o se preocupavam em ser despesistas dado o benef cio eleitoral que da obtinham e o o nus recair no futuro. Tambe m na o se preocuparam os governos dos anos 90 com o problema demogra fico perfeitamente expeta vel e hoje deparamo-nos com grandes dificuldades em assegurar o sistema da segurana social e o pro prio Estado Social. Sonho pelo dia em que assistirei a governaa o de um pol tico portugue s visiona rio que na o governe para o partido nem para a legislatura seguinte ou que na o se cinja a pequena pol tica. Ainda acredito nos dias de nevoeiro.

    DR

    06 | 24 Maro 2014

    O ESPECTRO

    ECNMIA

  • O P I N I O d e R U I C A M P O S

    Ya B a s t a !

    A 1 de Janeiro de 1994 entra em vigor o NAFTA (North American Free Trade Agreement), um acordo econo mico celebrado entre os EUA, o Me xico e o Canada que criou um espao econo mico sem barreiras comerciais ou relativas ao investimento. Nesta mesma data o Exe rcito Zapatista de Libertaa o Nacional apresenta a sua Primeira Declaraa o da Selva de Lacandona, onde declara guerra ao estado mexicano e exige que o povo mexicano tenha acesso a terra, a sau de, a alimentaa o, ao trabalho, a habitaa o e que possa viver em democracia, em paz e com justia. Esta declaraa o pu blica foi acompanhada por um conjunto de aco es pol tico-militares, caracterizadas por ocupao es de edificios governamentais e tambe m por combates contra as foras repressivas do Estado mexicano. A entrada em vigor do NAFTA foi, talvez, o factor que precipitou a formaa o do EZLN mas na o chega para explicar o porque deste combate, ate porque os zapatistas afirmam que sa o o produto de 500 anos de lutas. EZLN nasce porque os indigenas mexicanos te m ao longo da histo ria sido constantemente oprimidos, saqueados, desrespeitados e ate mesmo mortos. Esta opa o pela luta armada apesar de na o ter sido a primeira, foi sim aquela que restava perante um Estado e um sistema que na o queria ouvir nem salvaguardar os direitos mais ba sicos destas populao es. Comeou como uma guerrilha, mas rapidamente passou a ser um movimento pol tico e social bastante mais abrangente porque a pro pria dina mica da luta assim o determinou e obrigou os zapatistas a procurarem va rias formas de se fazerem ouvir e acima de tudo de defenderem a sua autonomia e a sua liberdade.

    Apesar da defesa dos povos indigenas ser uma das grandes preocupao es do EZLN, a sua luta pol tica na o se esgota nesta questa o. Ao longo dos anos os herdeiros de Zapata, te m procurado englobar na sua luta todo o povo mexicano que e explorado e oprimido, como te m demonstrado solidariedade para com outros povos, que por esse mundo fora lutam e resistem a injustia e a opressa o. Do ponto de vista ideolo gico, na o e inteiramente consensual a caracterizaa o sobre o EZLN mas e curioso que eles pro prios na o assumem a ligaa o a uma ideologia em particular, apesar de haver claramente uma ligaa o a esquerda e a outros sectores mais radicais ou revoluciona rios (anarquistas, marxistas). ponto fundamental para se entender o EZLN e ver que a teoria e pra tica zapatista sa o o fruto do pro prio modo de vida ind gena. Quer isto dizer que a noa o de propriedade colectiva da terra, do trabalho pensado e realizado com base

    nas necessidades de todos e das deciso es tomadas por consenso em assembleias sa o assim consideradas, porque fazem parte da histo ria e do patrimo nio colectivo desses mesmos povos. A melhor definia o ideolo gica passa por ver a forma como se organizam os zapatistas e retirar as respectivas concluso es, mas prefiro chamar zapatismo por respeito a histo ria e por respeito a autonomia desses povos. Por zapatismo entenda-se o seguinte, e um movimento social subversivo, anticapitalista e revoluciona rio que procura a partir da base, construir uma alternativa que elimine as formas de exploraa o do homem pelo homem. zapatismo na o se resume ao EZLN e na verdade, hoje em dia, o mais interessante e mesmo analisar a forma como as comunidades auto nomas de Chiapas gerem o quotidiano e procuram desenvolver aquelas a reas extremamente pobres, ao mesmo tempo que

    resistem a s foras repressivas e a pressa o do Estado mexicano. Estas comunidades auto nomas, auto-designadas de Caraco is, foram criadas com o objectivo de gerir colectivamente os recursos e de organizar a defesa contra ataques militares ou paramilitares. rganizam-se de acordo com leis pro prias, que sa o completamente independentes das leis centrais do Estado mexicano. Dentro dessas leis existe a Lei Revoluciona ria das Mulheres, que estabelece um conjunto de obrigao es para que haja igualdade entre homem e mulher em todos os campos da sociedade. A resiste ncia zapatista dura ha 20 anos. Ha 20 anos pegaram em armas, disseram basta e desde enta o jamais obedeceram a autoridade estatal e capitalista. Comearam a decidir de forma auto noma e com muitas dificuldades te m melhorado as suas condio es de vida. De Chiapas vem um grito de revolta e um exemplo de resiste ncia!

    DR

    24 Maro 2014 | 07

    O ESPECTRO

    GLB

  • O P I N I O d e J O O S I LVA

    To n y B e n n , 1 9 2 5 - 2 0 1 4

    Tony Benn foi um pol tico trabalhista brita nico. Nasceu numa fam lia rica, em 1925, e o seu pai tornou-se visconde, num t tulo criado especificamente para ele, quando Tony era adolescente. Conheceu, antes de ser maior de idade, personalidades como Mahatma Gandhi e Lloyd George. Veterano da II Guerra Mundial, tornou-se deputado, na Ca mara dos Comuns, em 1950. Pregou a descolonizaa o pac fica de A frica. A morte de seu pai, em 1960, garantiu-lhe, por sucessa o, o t tulo de Visconde de Stansgate, e com isto a impossibilidade de permanecer na Ca mara dos Comuns, pois os detentores de t tulos honor ficos eram impedidos de estar na Ca mara dos Comuns, e passavam obrigatoriamente para a Ca mara dos Lordes. Lutou, durante va rios anos para a alteraa o dessa obrigatoriedade, e, em 1963,

    conseguiu. Renunciou ao seu t tulo e voltou a ser eleito para a Ca mara dos Comuns, e de la na o mais saiu ate 2001. Foi Ministro, entre 1966 e 1970, e Secreta rio de Estado, entre 1974 e 1979. Na de cada de 80, enquanto o Partido Trabalhista virou a direita, Benn virou a esquerda. Defendeu a nacionalizaa o da indu stria, o abandono da Unia o Europeia, e, ate , o fim da monarquia. Apoiou a unificaa o Irlandesa e os movimentos pacifistas da mesma, foi contra a Guerra das Malvinas e a Guerra do Iraque. Apoiou a Greve dos Mineiros, entre 1984 e 1985, contra o governo de Thatcher, e tentou depois a amnistia dos mineiros que haviam sido presos durante essas greves, ainda que sem sucesso. Quando, em 2001, abandonou o cargo de deputado, afirmou que ia

    dedicar mais tempo a pol tica. Criou a associaa o Stop the War, em 2001. Esteve na frente, em 2003, da maior demonstraa o pol tica que o Reino Unido ja viu, contra a Guerra do Iraque e em favor da Palestina. Benn foi sempre um pregador da democracia, voz dos sem poder, por quem sempre lutou. Nunca foi um conformista, e lutou sempre pela paz, mesmo contra o seu pro prio partido. Talvez por isso tenha sido marginalizado no Partido Trabalhista. Benn faleceu no passado dia 14 de Maro. Nunca teve medo de remar contra a mare e, de pequenos gestos e pequenas aco es, deixou um grande legado, de um homem justo, de causas. Esteve sempre no lado da justia, contra tudo e contra todos, e ficara , por isso, no lado certo da histo ria.

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    O_Espectro

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    JORNAL JORNAL JORNAL

    ECONMICO ECONMICO ECONMICO

    1911?1911?1911?

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    08 | 24 Maro 2014

    O ESPECTRO

    GLB

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  • 24 Maro 2014 | 09

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    O P I N I O d e R U I C O E L H O

    O R e g r e s s o d o s L i b e ra i s ?

    Se ha cliche que me irrita e a popularizaa o do termo neo-liberal (ou a sua variante ultra-liberal) como ofensa de arremesso. Tal frustraa o, aliada a eminente celebraa o do vige simo segundo aniversa rio do falecimento do economista austr aco Friedrich Hayek, serve de pretexto a esta breve reflexa o sobre o liberalismo.

    Com ra zes no se c. XVII, o liberalismo e a ideologia moderna que defende a maximizaa o das liberdades civis (expressa o, religia o, associaa o) e econo micas, num contexto pol tico onde o exerc cio do poder e juridicamente bastante limitado.

    A actual conjuntura prima pela oferta desafios e oportunidades a esta ideologia centena ria. papel dos partidos e movimentos pol ticos liberais sofreu um acentuado decre scimo ao longo do se c. XX, com a consolidaa o do modelo democra tico ocidental. No entanto, hoje assistimos a uma redescoberta de valores como a liberdade, a autonomia face ao poder e ao aprofundamento da participaa o democra tica, constituindo potencialmente a u ltima oportunidade de aggiornamento liberal.

    A primeira fragilidade que o liberalismo deve ultrapassar, se quiser ser novamente pertinente, e a sua herana modernista. A ideologia de Locke e Adam Smith comeou como um discurso de afirmaa o da burguesia face ao Ancie n Regime. Nesse sentido teve um papel histo rico fundamental,

    assegurando a institucionalizaa o de regimes assentes no rule of law, divisa o dos poderes, igualdade jur dica e liberdades civis.

    Derivado desse contexto, o liberalismo desenvolveu uma ligaa o muito estreita com outro discurso burgue s com um papel homo logo: o Iluminismo. Hoje, os princ pios luministas de racionalismo, universalismo e progresso sa o amplamente criticados em favor de quadros axiolo gicos mais abertos e existenciais.

    No esforo de superaa o dos limites iluministas do pensamento liberal, algumas pistas podem ser encontradas nas obras de Rorty ou John Gray. Partindo de posicionamentos filoso ficos e pol ticos diferentes, ambos os autores apelam a um liberalismo que complemente a defesa da liberdade com uma forte valorizaa o da diversidade, numa lo gica pluralista e anti-dogma tica.

    A segunda debilidade a ser superada e a tende ncia conservadora e pro -capitalista que impera em certas faco es ditas liberais. Com a consolidaa o dos regimes democra ticos ocidentais e o crescimento do socialismo enquanto feno meno pol tico, o liberalismo foi-se aproximando progressivamente da direita pol tica, assumindo em diversas circunsta ncias o papel de defensor do establishment. Tais tomadas de posia o opo em-se

    notavelmente ao papel histo rico desempenhado pela ideologia, na defesa radical da autonomia individual face aos preceitos religiosos ou tradicionais, bem como na luta pelo aprofundamento da democraticidade e inclusividade dos regimes pol ticos.

    Em relaa o a decorrente promoa o de um regime econo mico que cada vez mais e posto em causa, seria

    importante descobrir as reflexo es de autores como Kevin Carson ou Charles Johnson, conotados com a ala esquerda da Escola Austr aca (a mesma corrente econo mica a que pertenceu outrora o

    pro prio Hayek). Estes te m feito um o ptimo trabalho na distina o entre economia de mercado e capitalismo, clarificando como este u ltimo so pode existir mediante uma intervena o estatal continuada que distora os mecanismos de distribuia o de riqueza em favor da concentraa o do capital.

    Assim, o peculiar per odo que atravessamos oferece desafios e oportunidades muito concretas

    ao liberalismo. Se este sera capaz de sacudir o po e tornar-se novamente relevante, dependera apenas daqueles que, ao contra rio de mim, subscrevem tal ideologia.

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