86980247 agricultura familiar camponesa na construcao do futuro

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  • Outubro de 2009

  • CONSELHO EDITORIALClaudia Schmitt - CPDA/UFRRJ Programa de Ps-graduao de Cincias Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

    Eugnio Ferrari - CTA/ZM Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata, MG Ghislaine Duque - UFCG Universidade Federal de Campina Grande; e PatacJean Marc von der Weid - AS-PTA Agricultura Familiar e AgroecologiaJos Antnio Costabeber - Emater Ass. Riograndense de Empreendimentos de Assistncia Tcnica e Extenso Rural, RS

    Maria Emlia Pacheco - Fase Federao de rgos para a Assistncia Social e Educacional, RJRomier Sousa - GTNA Grupo de Trabalho em Agroecologia na Amaznia Slvio Gomes de Almeida - AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia Tatiana Deane de S - Embrapa Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuria

    EQUIPE EXECUTIVAEdio - Paulo PetersenProduo - Adriana Galvo FreireBase de subscritores - Ndia Maria Miceli de OliveiraCopidesque - Rosa L. Peralta e Glucia CruzReviso - Glucia Cruz e Sheila DunaevitsTraduo - Rosa L. Peralta e Gabriel B. FernandesFoto da capa - Luciano SilveiraProjeto grfico e diagramao - I Graficci

    Impresso - Grfica ReprosetTiragem - 10.000

    A AS-PTA estimula que os leitores circulem livremente os artigos aqui publicados. Sempre que for necessria a reproduo total ou parcial de algum desses artigos, solicitamos que a Revista Agriculturas: experincias em agroecologia seja citada como fonte.

    Apoios:PETERSEN, PAULO (org.)

    Agricultura familiar camponesa na construo do futuro / Paulo Petersen (org) - Rio de Janeiro: AS-PTA, 2009.

    168p.:il.; 24cm

    ISBN: 978-85-87116-14-7

    1- Agricultura familiar; 2- Agricultura Camponesa; 3- De-senvolvimento Rural; 4- Agroecologia; I. Petersen, Paulo. II. AS-PTA. III. Ttulo.

    CDD 338.10981

    EXPERINCIAS EM AGROECOLOGIA

    Revista Agriculturas: experincias em agroecologiaEdio Especial

    www.agriculturas.leisa.info

    Rua Candelria, n. 9, 6 andar. Centro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil 20091-904

    Telefone: 55(21) 2253-8317 Fax: 55(21)2233-8363

    E-mail: revista@aspta.org.brwww.aspta.org.br

  • Sumrio

    Introduo ................................................................................................... 05Sete teses sobre a agricultura camponesa ............................................... 17Jan Douwe van der Ploeg

    O agricultor familiar no Brasil: um ator social da ................................... 33construo do futuroMaria de Nazareth Baudel Wanderley

    Um novo lugar para a agricultura ............................................................. 47Jean Marc von der Weid

    Construo e desafios do campo agroecolgico brasileiro .................... 67Slvio Gomes de Almeida

    A construo de uma Cincia a servio do campesinato ....................... 85 Paulo Petersen, Fbio Kessler Dal Soglio e Francisco Roberto Caporal

    Agroecologia e Economia Solidria: trajetrias, .................................. 105confluncias e desafiosCludia Job Schmitt e Daniel Tygel

    Socioambientalismo: coerncias conceituais e prticas ...................... 129entre os movimentosMarijane Vieira Lisboa

    Um olhar ecofeminista sobre as lutas por sustentabilidade ............... 139 no mundo ruralEmma Siliprandi

    A Agroecologia e os movimentos sociais do campo ............................ 153Depoimentos de Alberto Broch, Altemir Tortelli e Joo Pedro Stdile

    Publicaes .............................................................................................. 163

  • Agricultura familiar camponesa na construo do futuro

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    O mundo contemporneo atravessa uma crise sem precedentes. No se trata de um fenmeno conjuntural, mas do esgotamento de um projeto civilizacional que tem o seu fundamento no ato de acumular riquezas nas mos de minorias, sem considerar os limites naturais e humanos neces-srios a sua prpria reproduo. A decorrncia imediata desse projeto falido, mas ainda vigente, o alastramento, o agravamento e a interconexo de males que acom-panham a humanidade desde sempre e a instalao de uma crise sistmica global. Em face da abrangncia, profundidade e complexidade dessa crise, j se tornou lugar-co-mum a afirmao de que nos encontramos diante de uma encruzilhada histrica. De fato, a combinao de uma populao mundial crescente e cada vez mais urbanizada com a degradao acelerada dos recursos naturais e as mudanas climticas globais molda um cenrio perturbador que nos confronta com dilemas decisivos.

    Como alimentar uma populao mundial crescente? Como superar a pobreza e o desemprego estrutural? Como manter os nveis de produtividade alcanados pela agricultura industrial sem dar continuidade ao uso intensivo de combustveis fsseis e deteriorao da base biofsica que sustenta os processos produtivos da agricultura? Como construir mecanismos de adaptao dos sistemas agrcolas s j inevitveis mudanas climticas globais? Como assegurar a viabilidade da agricultura frente a mercados cada vez mais imprevisveis, competitivos e subordinados aos interesses dos setores industrial e financeiro?

    O grande desafio que se apresenta diante de questes com esse nvel de com-plexidade que o futuro j est em grande medida condicionado por decises co-locadas em prtica no passado ou que esto sendo aplicadas no presente com base em projetos e interesses de curto prazo, que esto exatamente no cerne da crise global sistmica que ronda a humanidade. Solues do tipo mais do mesmo continuam sendo propugnadas sem que as razes fundamentais que ocasionaram o atual estado de crise sejam levantadas e enfrentadas. Pelo contrrio, tais proposies nada mais fazem do que prolongar e acentuar a vigncia dos mecanismos geradores da crise, projetando-os para o futuro.

    A Histria, no entanto, j nos ensinou que a abertura de novos horizontes para a Humanidade muitas vezes vem de onde menos se espera. E parece ser exatamente essa a realidade que se desenha nossa vista:

    Introduo

  • Agricultura familiar camponesa na construo do futuro

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    Diante de um mundo crescentemente urbanizado, novas ruralidades apontam caminhos fecundos para a redistribuio demogrfica e a descentralizao eco-nmica com a criao de postos de trabalho digno.

    Diante de uma agricultura cada vez mais artificializada, novos mtodos de mane- jo tcnico reconectam a agricultura e a Natureza, assegurando nveis produtivos elevados e a conservao da base ambiental que d sustentao ecolgica agricultura.

    Diante da expanso desmedida de grandes fazendas monocultoras, que operam pela economia de escala, pequenas unidades de produo demonstram que a economia de escopo, viabilizada pela diversidade produtiva e pela integrao de atividades, uma estratgia consistente para conviver com ambientes econmi-cos cada vez mais errticos e opressores.

    Diante do crescimento sem precedentes dos fluxos internacionais das commodi-ties agrcolas promovido pela ordem econmica neoliberal, assistimos reemer-gncia e ao fortalecimento das cadeias curtas de comercializao e revaloriza-o dos produtos locais.

    Diante da crescente mercantilizao da agricultura a montante e a jusante e da disseminao da racionalidade do empreendedorismo capitalista no campo, o afastamento estratgico dos mercados de insumos e de produtos ressurge por meio de trocas no-monetarizadas, fundamentando a moderna economia solidria em tradicionais relaes sociais de reciprocidade.

    Esse conjunto de fenmenos que se insinua de forma quase imperceptvel para o conjunto da sociedade pode ser sintetizado pela noo de recampesinizao do mun-do rural. De fato, quando so considerados em conjunto, esses processos encontram sua coerncia nas motivaes dos camponeses de continuarem existindo e, dentro do possvel, de prosperarem num mundo que lhes cada vez mais hostil. Contrarian-do a antiga previso do inevitvel desaparecimento dos camponeses frente ao avano da agricultura industrial e do capitalismo no campo, so exatamente eles e suas orga-nizaes que se apresentam nos dias de hoje, em plena era neoliberal, como uma das mais significativas foras de resistncia ordem hegemnica da globalizao. Alm de expressarem capacidade para resistir ao poder econmico e poltico-ideolgico que nega a sua permanncia enquanto modo de vida e modo de produo, as respostas camponesas a esse mundo hostil podem tambm ser interpretadas como sinais an-tecipatrios da sociedade democrtica e sustentvel que queremos ver construda e consolidada.

    A recampesinizao, noo proposta por Jan Douwe van der Ploeg, professor da Universidade de Wageningen, Holanda, pode ser interpretada como uma forma de resistncia da agricultura familiar que se expressa como luta por autonomia na era da globalizao (feliz definio que est no ttulo da edio brasileira de seu mais recente livro ver resenha na pgina 164). No artigo elaborado para esta edio especial da Revista Agriculturas (pg. 17), o professor van der Ploeg deixa claro que, aps a moder-nizao agrcola ocorrida a partir dos anos 60 do sculo passado, j no podemos nos ater aos antigos dualismos entre o modo de produo patronal e o familiar, ou o ca-pitalista e o campons, ou ainda do grande e do pequeno produtor. A modernizao baseada nos preceitos tcnico-cientficos da Revoluo Verde introduziu mudanas substanciais nas formas de gesto tcnica e econmica dos sistemas agrcolas, tornan-

  • Agricultura familiar camponesa na construo do futuro

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    do esses clssicos dualismos absolutamente inapropriados para a interpretao dos fenmenos socioeconmicos do mundo rural contemporneo.

    A industrializao da agricultura induziu processos de especializao produtiva; a disseminao do empreendedorismo baseado na economia de escala; e uma forte de-pendncia da agricultura a insumos comerciais e a mercados de produtos dominados por grandes complexos agroindustriais. Essas transformaes foram