6967030 kant immanuel critica da razao pura

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Retrato de lmmanuel Kant (1724-1804), pintado em 1768 por J. W. Beker (1744-1782) por encomenda do livreiro de Kant em Knigsberg.

CRTICA DA RAZO PURA Immanuel KantTraduo de

MANUELA PINTO DOS SANTOSe

ALEXANDRE FRADIQUE MORUJOIntroduo e notas de

ALEXANDRE FRADIQUE MORUJO

5 E D I O

SERVIO DE EDUCAO E BOLSAS

FUNDAO CALOUSTE GULBENKIAN

Traduo do original alemo intitulado KRITIK DER REINEN VERNUNFT de IMMANUEL KANT, baseada na edio crtica de Raymund Schmidt, confrontada com a edio da Academia de Berlim e com a edio de Ernst Cassirer.

Reservados todos os direitos de harmonia com a lei Edio da Fundao Calouste Gulbenkian Av. de Berna I Lisboa 2001

PREFCIO DA TRADUO PORTUGUESA

A Crtica da Razo Pura, de que apresentamos esta traduo em lngua portuguesa, um monumento nico na histria da filosofia, traduzindo uma verdadeira revoluo no pensamento ocidental, e resultado de uma longa e profunda meditao. Tradicionalmente, divide-se a atividade filosfica de Immanuel Kant (1724-1804) em duas fases. Na fase inicial, designada por pr-crtica, as reflexes incidem predominantemente sobre problemas da fsica e, naturalmente, tambm sobre questes estritamente metafsicas dentro dos cnones racionalistas de Leibniz-Wolff, embora j se note, para o final do perodo, a influncia da leitura de Hume e, com ela, aflorarem aspectos de uma nova atitude filosfica, por exemplo, em Os sonhos de um visionrio explicados pelos sonhos da metafsica (1764) e no artigo Sobre os primeiros princpios das diferenas das regies no espao (1768). Mas na pequena dissertao latina, De mundi sensibilis arque intelligibilis forma et principiis (1770), expressamente elaborada para concorrer ctedra de lgica e metafsica, que se apresentam nitidamente pontos de vista anunciadores da segunda fase, a poca de maturidade, que se inicia com o 'opus magnum' da Crtica da Razo Pura. Logo aps a defesa da dissertao, empenha-se Kant em meditar e redigir a obra que abrangia todas as suas novas concepes. Em carta a Marcus Herz (7 de junho de 1771), amigo com quem disputou, nas provas pblicas, segundo o uso acadmico de ento, a tese latina De mundi sensibilis... e seu confidente intelectual, d notcia de que trabalha num estudo sobre os limites da sensibilidade e da razo, em que dever

estudar no s os conceitos fundamentais e as leis relativas ao mundo sensvel, como ainda dar "um esboo do que constitui a natureza do gosto, da metafsica e da mora . Em resumo, nesse estudo rene-se o que mais tarde constituir a matria das trs Crticas. Mas a prioridade dos problemas tericos em breve se far anunciar. Assim, em. carta ao mesmo Marcus Herz (21 de Fevereiro de 1772), procura Kant, antes de mais, encontrar o segredo da metafsica at hoje no revelado; "pergunto-me: em que bases se funda a relao com o objeto daquilo que designamos por representao? . E esclarece o seu correspondente: `encontro-me agora a ponto de formar uma critica da razo pura, atinente natureza da conscincia, tanto terica como prtica, na medida em que simplesmente intelectual; elaborarei primeiro uma parte sobre as fontes da metafsica, seus mtodos e limites; e public-la-ei talvez dentro de trs meses . Nesta carta anuncia-se, pela primeira vez, o ttulo da primeira critica, Crtica da Razo Pura, embora concebida como um todo, englobando a segunda das crticas, a Crtica da Razo Prtica. Mas tambm surge j delineada a independncia da primeira critica, ao afirmar que o estudo compreender "uma crtica, uma disciplina, um cnone e uma arquitetnica da razo pura." A meditao kantiana no vai demorar trs meses, mas dez longos anos e a obra que a condensa, a Crtica da Razo Pura, redigida apressadamente em quatro ou cinco meses, foi editada em Riga, por Hartknoch, no ano de 1781. Em carta a Mendelssohn (16 de Agosto de 1783) afirma Kant ter posto "grande ateno no contedo, mas pouco cuidado na forma e em tudo o que respeita fcil inteleco do leitor." 4 Pressentia, por isso, o filsofo de Knigsberg e comunicao ao seu amigo Marcus Herz (11 de Maio de 1781) que, dada a novidade e a dificuldade dos seus pontos de vista, com poucos leitores poderia contar ao princpio 5 . Efetivamente, os espritos formados no racionalismo das luzes consideraram a obra obscura e imprpria para principiantes. Outros (por exemplo, ________________ Kant's gesammelte Schriften, herausgegeben von der Kniglich Preussischen Akademie der Wissenchaften, Band X, Zweite Abtei1ung: Brietwechsel, erster Band, zweite Auflage, 1922, p. 123. 2 Ibidem, p. 130. 3 Ibidem, p, 132. 4 Ibidem, p. 345. 5 Ibidem, p. 269.

Hamann) apontaram-no como o "Hume prussiano e, depois das recenses de Garve e de Feder, foi a doutrina exposta na Crtica da Razo Pura identificada com o idealismo subjetivo de Berkeley. Kant no ficou satisfeito com a recepo do seu livro. Se nos Prolegmenos a toda a metafsica futura que se queira apresentar como cincia (1783), vasados nos moldes da Popularphilosophie da poca, pretende apresentar uma iniciao ao seu pensamento, na segunda edio da Crtica, hin und wieder verbesserte (1787), suprime, acrescenta, encurta, altera, com a finalidade de melhor esclarecer a sua doutrina. So ampliadas a introduo e algumas passagens da "esttica transcendental". Refunde-se totalmente a deduo dos conceitos puros do entendimento e, parcialmente, o captulo "Da distino de todos os objectos em geral em fenmenos e nmenos". Na "Analtica dos princpios" acrescenta-se a "Refutao do idealismo" e a "Observao geral sobre o sistema dos princpios". refundido e encurtado o captulo relativo aos "Paralogismos da razo pura". Este novo texto, que pretende escapar crtica de idealista com as correes introduzidas, foi da em diante o nico a ser reproduzido na terceira edio (1790), na quarta edio (1794), na quinta (1799) e nas duas edies pstumas de 1818 e 1828. Mas j em 1815 lamentava Jacobi que na segunda edio faltassem algumas passagens da primeira, a seu ver imprescindveis para uma suficiente inteligncia do idealismo kantiano. E Schopenhauer, por seu turno, apoiando a impugnao kantiana da coisa em si, considerava uma concesso ao realismo a crtica a Berkeley que se desenvolve na segunda edio, concluindo pela importncia da primeira e considerando a segunda "um texto mutilado, corrompido e, de certo modo, no autntico". Estas opinies opostas levaram os futuros editores a apresentar as duas edies da Crtica. Assim, Rosenkranz (1838) vai reproduzir a primeira edio como fundamental e apresentar em suplemento as variantes mais importantes da segunda edio. Uma edio das obras completas, devida a Hartenstein e do mesmo ano de 1838, toma como base o texto de 1787, acrescentando em notas as variantes menores de 1781 e em apndice os trechos respeitantes deduo dos conceitos puros do entendimento e aos paralogismos da razo pura. A Kantphilologie, florescente na segunda metade do sculo passado, ajudou a fixar o texto do filsofo e, assim, Benno Erdmann, na sua quinta edio da Crtica da Razo

Pura, integrada nas obras completas editadas pela Academia. Real das Cincias da Prssia (posteriormente Academia Real das Cincias de Berlim) como vol. II, refazendo parcialmente a histria do texto kantiano, demonstrou a exigncia de nos aproximarmos do texto genuno de Kant, que o de 1787; mas tambm sublinhou a necessidade de se apresentar um texto que torne possvel o estudo das diferenas entre as duas edies consideradas fundamentais. Por isso, nessa mesma edio da Academia das Cincias, consagra o terceiro volume primeira edio da Critica, at ao fim dos paralogismos da razo pura ("Reflexo sobre o conjunto da psicologia pura em conseqncia destes paralogismos"), parte onde residem as grandes discrepncias atuais. 'A partir desta edio ficou estabelecido o cnone da Crtica da Razo Pura: texto de base o da segunda edio, apresentando as variantes da primeira. * * *

Tem sido afirmado, e com razo, que o modelo da cincia da natureza que se encontra na base da filosofia de Kant. Esta no seria mais do que a filosofia considerada possvel para o mestre de Knigsberg em poca impregnada de fervor cientfico. Na verdade, todo o pensamento kantiano tem presente essa cincia exata, emergente na Idade Moderna e que se vai impondo, progressivamente, a todos os domnios do real. A matemtica e a lgica, como afirmado no prefcio da segunda edio da Crtica da Razo Pura, j entre os gregos tinham iniciado o caminho seguro da cincia e no sculo XVII a fsica comeara a trilhar a mesma via, alcanando a perfeio nos Principia Philosophiae Naturahs de Newton. A filosofia necessitaria tambm, imperiosamente, de se esquivar multiplicidade de opinies antagnicas e de se elevar, por sua vez, a um estatuto cientfico que lhe conferisse um rigor indesmentvel. Com - Descartes j se pretendera construir a filosofia sobre a base de um minimum quid firmum et inconcussum, o cogito, a partir do qual se. deduziriam, por um discurso maneira dos matemticos, todas as outras verdades do sistema. Esse minimum quid, ainda no propriamente um princpio, um proton, pois em Descartes h um recurso a Deus para fundamentar a sua verdade. A experincia ontolgica da causalidade alheia ao cogito e da o recurso omnipotente causalidade e

infinita perfeio divina . Mas, pondo de lado toda a conceitualizao tradicional, o discurso cartesiano transforma-se numa mathesis universalis, cincia da proporo, que inclui, como caso particular, as relaes algbricas. Esta posio, passando por Leibniz, vai amadurecendo e com Wolff atingimos a perfeio racionalista. A filosofia transforma-se numa cincia, cujo mtodo no difere do matemtico. Processa-se em anlise que repousa nos princpios de identidade e da contradio. este mtodo matemticocartesiano de Wolff que vai ser abordado pela crtica empirista que culmina no cepticismo de Hume. A noo de substncia afastada em benefcio de um sujeito meramente "psicolgico", simples agente de associaes de representaes sensveis. E mesmo que essas associaes expliquem, de certo