6. Manual de Higienizao das Mos

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

    HOSPITAL UNIVERSITRIO JLIO MLLER SERVIO DE CONTROLE INFECAO HOSPITALAR

    SCIH

    Higienizao das Mos

    Introduo

    As infeces relacionadas assistncia sade constituem um problema grave e um grande desafio,

    exigindo dos responsveis pelos servios de sade aes efetivas de preveno e controle. Tais

    infeces ameaam tanto os pacientes quanto os profissionais de sade, acarretar sofrimentos e

    resultados em gastos excessivos para o sistema de sade.

    Em 1845, Ignaz Semmelweis, reportou a reduo do nmero de mortes maternas por infeces

    puerperal aps implantao da prtica de higienizao das mos em um hospital em Viena. Desde

    ento, esse procedimento tem sido recomendado como medida primria no controle da

    disseminao dos agentes infecciosos.

    As mos so consideradas as principais ferramentas dos profissionais que atuam nos servios de

    sade, pois atravs delas que eles executam suas atividades. Assim, a segurana dos pacientes,

    nesses servios, depende da higienazao cuidadosa e frequente das mos desses profissionais.

    A Portaria do Ministrio(MS) n 2.616, de maio de 1998, estabelece aes mnimas a serem

    desenvolvidas sistematicamente, com vistas reduo da incidncia e da gravidade das infeces

    relacionadas aos servios de sade. A Resoluo da Diretoria Colegiada (RDC) n 50 da Anvisa, de 21

    de Fevereiro de 2002, dispe sobre Normas e Projetos Fsicos de Estabelecimentos Assistenciais de

    Sade, definindo, a necessidade de lavatrios/pias para higienizao das mos.

    As mos constituem a principal via de transmisso de microrganismos durante a assistncia prestada

    aos pacientes, sendo a pele um possvel reservatrio de diversos germes, que podem ser transferidos

    de uma superfcie para outra, pelo contato direto (pele com pele), ou indireto, atravs do contato

    com objetos e superfcies contaminados.

    A pele das mos alberga, principalmente, duas populaes de microrganismos:

    Os pertencentes microbiota residente so constitudos por microrganismos de baixa

    virulncia, como Estafilococcus, corinebactrias e micrococus. mais difcil de ser removida pela

    higienizao das mos com gua e sabo, uma vez que coloniza as camadas mais internas da pele

    ligada s camadas mais profunda da pele, composta de microrganismos de baixa virulncia:

    estafilococos coagulase negativos, micrococos e corinebactrias. No facilmente removvel com a

    lavagem das mos, podendo ser introduzida nos pacientes quando da realizao de procedimentos

    invasivos.

  • 2

    Os pertencentes microbiota transitria colonizam a camada mais superficial da pele, o

    que permite sua remoo mecnica pela higienizao das mos com gua e sabo, sendo eliminada

    com mais facilidade quando utiliza uma soluo anti-sptica. Exemplo das bactrias de Gram-

    negativo, como as enterobactrias (Escherichia coli) bactrias no fermentadoras (Pseudomonas

    aeruginosa) alm dos fungos. Coloniza as camadas superficiais da pele, sendo adquirida no contato

    com pacientes ou com superfcies contaminadas em proximidade com os pacientes. a mais

    frequentemente associada a infeces transmitidas no cuidado aos pacientes (Infeces

    Hospitalares), sendo facilmente removvel com a lavagem adequada das mos.

    A higienizao das mos apresenta as seguintes finalidades:

    Remoo da sujidade, suor, oleosidade, plos,clulas descamativas e da microbiota da pele,

    interrompendo a transmisso de infeces veiculadas ao contato.

    Preveno e reduo das infeces causadas pela transmisso cruzada.

    Insumos Necessrios para higienizao das mos

    gua A gua utilizada em servios de sade deve ser livre de contaminantes

    qumicos e biolgicos, obedecendo aos dispositivos da Portaria n 518/GM, de 25 de maro de

    2004, que estabelece os procedimentos relativos ao controle e vigilncia da qualidade deste

    insumo.

    Sabes Nos servios de sade, recomendam-se o uso de sabo lquido, tipo refil,

    devido ao menor risco de contaminao do produto. Este insumo est regulamentado pela

    Resoluo ANVS n 481, de 23 de setembro de 1999. A compra do sabo padronizado, deve ser

    realizado segundo os parmetros tcnicos definidos para o produto e com a aprovao do

    SCIH. So produtos de ao detergente que contm cidos graxos esterificados e hidrxido de

    sdio ou potssio. Disponveis em vrias formas: barra, lquido, etc. No tem atividade

    antimicrobiana. Retiram a sujeira, vrias substncias orgnicas e a flora transitria frouxamente

    aderida pele mas, em geral, no removem os patgenos das mos da equipe de sade

    hospitalar. Podem causar secura e irritao da pele. Ocasionalmente podem sofrer

    contaminao (colonizando as mos da equipe)..

    Agentes Anti-spticos - So substncias aplicadas pele para reduzir o nmero de

    agentes da microbiota transitria e residente. Entres os principais anti-spticos utilizados

    para higienizao das mos destacam-se : lcoois, Clorexidina, Compostos de iodo, Iodforos

    e Triclosan.

    Papel Toalha Deve ser suave, possuir boa propriedade de secagem, ser

    esteticamente aceitvel e no liberar partculas.

    lcoois - tem atividade antimicrobiana atribuda sua habilidade de desnaturar

    protenas. Solues contendo 60-95% de lcool so as mais eficazes (concentraes maiores

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    tem menor potncia). Tem excelente atividade germicida contra bactrias de Gram-positivos e

    Gram-negativos, M.tuberculosis e fungos. Tem ao contra a maioria dos vrus (para inativao

    do HBV e do HCV a concentrao deve ser de 60-70%). Tem pouca atividade contra esporos

    bacterianos, oocistos de protozorios e alguns vrus no envelopados e no lipoflicos. No tem

    atividade residual, no entanto, o re-crescimento lento. A adio de clorexidina, quaternrios

    de amnia ou triclosan s solues alcolicas resulta em atividade persistente.

    Produtos base de lcool so mais eficazes para a lavagem das mos e para anti-sepsia das

    equipes de sade do que outros sabes antimicrobianos, inclusive aqueles com PVPI e

    clorexidina. Tambm so eficazes na lavagem pr-operatria das mos da equipe cirrgica.

    Estudos recentes comprovam a eficcia do lcool etlico a 70%, glicerinado ou na forma de

    gel, em mos sujas com matria orgnica.

    No definida a quantidade ideal para aplicar s mos, ela pode variar conforme a

    formulao empregada (gel, espumas) mas deve ser suficiente para friccionar as mos , sem

    secar, durante 15 segundos.

    Problema do lcool: ressecamento das mos, que pode ser reduzido com a adio de glicerol

    (1-3%) ou agentes condicionadores de pele (emolientes ou umectantes).

    Clorexidina: Sua atividade antimicrobiana atribuda ligao e subsequente ruptura da

    membrana citoplasmtica. Tem boa atividade contra bactrias Gram positivos, sendo um

    pouco menos ativa contra bactrias de Gram-negativos e fungos e tendo ao mnima contra

    micobactrias. Tambm no esporicida. Tem ao contra vrus, principalmente aqueles com

    envelope (HSV, HIV, CMV, influenza). Existem formulaes aquosas ou detergentes (0,5% ou

    0,75%) e solues detergentes antisspticas (2% ou 4%). Tem ao residual significativa e

    nenhuma ou quase nenhuma absoro pela pele. Deve-se evitar o contato de preparaes

    com concentraes > 1% de clorexidina pelo risco de causar conjuntivite e leso de crnea. A

    ototoxicidade impede o seu uso em cirurgias de ouvido. Tambm deve ser evitado o contato

    direto com tecido cerebral e meninges. O uso freqente de solues com altas concentraes

    (4%) pode causar dermatite. A adio de baixas concentraes de clorexidina (0,5 a 1%) a

    preparaes alcolicas garante atividade residual.

    Iodo e iodforos: o iodo forma complexos com aminocidos e cidos graxos insaturados das clulas

    resultando em alterao da membrana celular e da sntese proteica. Tem ao bactericida contra

    bactrias de Gram-positivos e Gram-negativos, micobactrias, vrus e fungos, no sendo esporocida

  • 4

    nas concentraes normalmente utilizadas. A durao do seu efeito residual no est bem

    estabelecida, variando de 30-60 minutos a 6 horas em diferentes estudos. A presena de substncias

    orgnicas (sangue, escarro) reduz substancialmente sua atividade antimicrobiana. A maioria das

    preparaes empregadas para higiene das mos contm 7,5 10% de povidine.

    Quaternrios de amnia: so absorvidos membrana citoplasmtica levando sua alterao

    com a sada de constituintes citoplasmticos de baixo peso molecular. So primariamente

    bacteriostticos e fungistticos, tendo maior atividade contra bactrias de Gram-positivos do

    que sobre as bactrias de Gram-negativos. Apresentam fraca atividade contra micobactrias

    e fungos. Tem ao contra vrus lipoflicos. Sua atividade adversamente afetada pela

    presena de matria orgnica. Nas formulaes atualmente disponveis no recomendado

    como soluo anti-sptica para lavagem das mos. H novas formulaes em estudo.

    Hexaclorofeno: Inativa os sistemas enzimticos dos microorganismos, atuando como

    bacteriosttico. Tem boa atividade contra S. aureus mas fraca contra bactrias de Gram-

    negativos, micobactrias e fungos. Tem efeito residual e cumulativo. absorvido pela pele

    no usar jamais em queimados e em pacientes com reas extensas de pele sensvel.

    No recomendado para a lavagem anti-sptica das mos (falta de eficcia e segurana)

    Triclosan: penetra na clula bacteriana alterando a membrana citoplasmtica e a sntese de

    RNA, protenas e cidos graxos. Tem, em geral, atividade bacteriosttica de amplo espectro

    contra bactrias de Gram-positivos (melhor), bactrias de Gram-negativos, micobactrias e

    Candida spp. Tem ao residual e no afetado por matria orgnica. Est sob reavaliao do

    FDA, em 1994 foi classificado como categoria III SE (dados insuficientes para classificao

    como anti-sptico seguro e eficaz na lavagem das mos)

    ANTISSEPSIA CIRRGICA DAS MOS:

    Agentes mais ativos, em ordem decrescente:

    1) lcool 60-95% sozinho ou combinado com clorexidina (0,5 a 1%)

    2) Gluconato de Clorexidina

    3) Iodforos

    4) Triclosan

  • 5

    5) Sabo simples

    Tempo de esfregao:

    a) 5 minutos com detergente anti-sptico gluconato de clorexidina 2% - 4% ou iodforos

    (povidine)

    ou

    b) em duas fases: 1-2 minutos com soluo detergente anti-sptica (clorexidina ou povidine)

    seguido da aplicao de produto a base de lcool

    No h necessidade do uso de escova uma vez que ela pode ocasionar dano pele. A adoo de

    produtos adequados para anti-sepsia das mos dispensa a escovao com esponja ou com escova.

    Equipamentos Necessrios

    Lavatrios - Sempre que houver paciente (acamado ou no), examinado, manipulado,

    medicado ou tratado obrigatria a proviso de recursos para a higienizao das mos (por

    meio de lavatrios ou pias) para uso da equipe de assistncia. Para os ambientes que executam

    procedimentos invasivos, cuidado com pacientes crticos ou que a equipe de assistncia tenha

    contato direto com feridas, deve possuir, alm do sabo, proviso do anti-sptico junto as

    torneiras de higienizao.

    Dispensadores de sabo e anti-spticos - Para evitar a contaminao do sabo

    lquido e do produto anti-sptico, tm-se as seguintes recomendaes:

    Os dispensadores devem possuir dispositivos que facilitem seu

    esvaziamanto e preenchimento.

    No caso dos recipientes de sabo lquido e anti-spticos ou almotolias

    no serem descartveis deve-se proceder limpeza destes com gua e

    sabo (no utilizar o sabo restante do recipiente) secar e em seguida

    fazer desinfeco com lcool etlico a 70% no mnimo uma vez por

    semana.

    No completar o contedo do recipiente antes do trmino do

    produto devido ao risco de contaminao.

    Deve-se optar por dispensadores de fcil limpeza e que evitem o

    contato direto das mos. Escolher, preferencialmente, dos de tipo refil.

    Neste caso, a limpeza interna pode ser feita no momento da troca do

    refil.

  • 6

    Lixeira para descarte do papel toalha - Junto aos lavatrios e s pias, deve sempre

    existir recipiente para o acondicionamento do material utilizado na secagem das mos. Este

    recipiente deve ser de fcil limpeza, no sendo necessria a existncia de tampa. No caso de

    optar por mant-lo tampado, o recipiente dever ter tampa articulada com acionamento de

    abertura sem utilizao das mos.

    Uso de gua e sabo Indicao

    Sempre que apresentarem sujidade

    Antes de iniciar o trabalho, manusear medicamentos, alimentos e calar as luvas.

    Antes e aps o contato direto com o paciente.

    Efetuar procedimentos teraputicos e diagnsticos (sondagens, punes venosas, coleta de

    material para exames propeduticos, curativos e outros), mesmo quando houver indicao da

    utilizao de luvas.

    Realizar trabalhos hospitalares, atos e funes fisiolgicas ou pessoas, como alimentar,

    assoar o nariz, usar o banheiro, pentear os cabelos, fumar ou tocar qualquer parte do corpo.

    Preparar e manipular materiais e equipamentos (respiradores, nebulizadores, outros) e

    durante seu reprocessamento.

    Manipular materiais e equipamentos (p. ex., cateteres intravasculares, sistema fechado de

    drenagem urinria e equipamentos respiratrios).

    Manusear cada paciente e, s vezes, entre as diversas atividades realizadas em um mesmo

    paciente (p. ex., higiene e aspirao endotraqueal).

    Aps o contato direto acidental com secrees e material orgnico em geral.

    Contato indireto atravs de material e superfcies contaminadas.

    Retirar as luvas.

    Terminar o trabalho.

  • 7

    Uso de preparao alcolica Indicao

    Higienizar as mos com preparao alcolica quando estas no estiverem visivelmente

    sujas, em todas as situaes descritas a seguir:

    Antes e aps o contato com o paciente.

    Antes de realizar procedimentos assistenciais e manipular dispositivos invasivos.

    Antes de calar luvas para insero de dispositivos invasivos que no requeiram preparo

    cirrgico.

    Aps risco de exposio a fluidos corporais.

    Ao mudar de um stio corporal contaminado para outro, limpo, durante o cuidado ao

    paciente (Devem-se planejar os cuidados ao paciente iniciando a assistncia na sequncia: stio

    menos contaminado para o mais contaminado).

    Aps contato com objetos inanimados e superfcies imediatamente prximas ao paciente.

    Antes e aps remoo de luvas.

    Uso de anti-spticos Indicao

    Estes produtos associam detergentes com anti-spticos e se destinam higienizao anti-

    sptica das mos e degermao da pele.

    Higienizao anti-sptica das mos (Nos casos de precauo de contato recomendados para

    pacientes portadores de microrganismos multirresistentes. Nos casos de surtos).

    Degermao da pele (No pr-operatrio, antes de qualquer procedimento cirrgico, indicado

    para toda equipe cirrgica. Antes da realizao de procedimentos invasivos).

    As tcnicas de higienizao das mos podem variar, dependendo do objetivo ao qual se

    destinam. Podem ser divididas em:

    Higienizao simples das mos.

    Higienizao anti-sptica das mos.

    Frico de anti-sptico nas mos.

    Anti-sepsia cirrgica ou preparo pr-operatrio das mos.

    A eficcia da higienizao das mos depende da durao e da tcnica empregada.

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    Importante:

    Antes de iniciar qualquer uma dessas tcnicas, necessrio retirar jias (anis, pulseiras,

    relgio), pois sob tais objetos podem acumular-se microrganismos.

    Mantenha as unhas naturais, limpas e curtas.

    No use unhas postias quando entrar em contato direto com os pacientes.

    Evite utilizar anis, pulseiras e outros adornos quando assistir ao paciente.

    Aplique creme hidratante nas mos, diariamente, para evitar ressecamento na pele

    Quadro 1. Espectro antimicrobiano e caractersticas de agentes anti-spticos utilizados para higiene

    das mos

    Grupo Bactria

    Gram

    pos

    Bactria

    Gram neg

    Micobactri

    a

    Fungo Vrus Velocidade

    ao

    Efeito

    residual

    lcoois a +++ +++ +++ +++ +++ Rpida No

    Clorexidina b

    +++ ++ + + +++ Intermediria Sim

    Iodforos c +++ +++ + ++ ++ Intermediria Sim

    Triclosan +++ ++ + - +++ Intermediria No

    +++ atividade excelente ++ boa, porem no cobre todo o espectro + pobre nenhuma ao

    a- Concentrao recomendada: 70%

    b- Raras reaes alrgicas

    c- Irritao da pele e alergia mais freqentes

    (Fonte: Adaptada de CDC. Guideline for Hand Hygiene in Health-Care Settings, 2002)

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    Tcnicas para Higienizao das Mos

    Higienizao Simples das Mos

    Finalidade - Remover os microrganismos que colonizam as camadas superficiais da pele, assim

    como o suor, oleosidade e as clulas mortas, retirando a sujidade propcia permanecia e

    proliferao de microrganismos.

    Durao do Procedimento 40 a 60 segundos

    Higienizao Anti-sptica das Mos

    Finalidade Promover remoo de sujidade e de microrganismos, reduzindo a carga microbiana

    das mos com auxlio de um anti-sptico.

    Durao do Procedimento 40 a 60 segundos.

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    Referncias Bibliogrficas:

    ANVISA - Curso Bsico de Controle de Infeco Hospitalar da Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria

    2000.

    ANVISA Segurana do Paciente em Servio de Sade Higienizao das Mos Braslia D.F, 2009.

    BRASIL . Ministrio da Sade. Secretaria Nacional de Organizao e Desenvolvimento de Servios de

    Sade. Programa de Controle de Infeco Hospitalar. Lavar as Mos: informaes para profissionais

    de sade. Srie A: Normas e Manuais Tcnicos.. Brasilia DF: Centro de Documentao do Ministrio

    da Sade, 1989.

    Centers for Disease Control and Prevention. Guideline for Hand Hygiene in Health-Care Settings:

    Recommendations of the Healthcare Infection Control Practices Advisore Committee and the

    HICPAC/SHEA/APIC/IDSA Hand Hygiene Task Force. MMWR 2002;51(N RR-16).

    Resumo da Tese de doutorado da enfermeira Jlia Y. Kawagoe , defendida na Escola de Enfermagem

    da USP, publicado no Boletim eletrnico do CCIH (www.ccih.med.br) em setembro/04.

    http://www.ccih.med.br/

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    Bactrias Multirresistentes

    Introduo

    O crescente problema da resistncia bacteriana est difundido em todo o mundo, e o aparecimento de surtos hospitalares como consequncia do uso indevido de antibiticos constitui uma das maiores preocupaes para a sade humana. Assim, esta problemtica tem um grande impacto na morbilidade, na mortalidade e conduz a elevados custos nos cuidados para a sade pblica. Contudo, o uso inadequado das diferentes classes de antibiticos, conduziu emergncia de bactrias multirresistentes, as quais apresentam um perfil de resistncia a trs ou mais classes de antibiticos, sendo por isso as opes teraputicas cada vez mais limitadas. Alm da aplicao dos antibiticos na medicina humana, estes compostos so igualmente utilizados na agricultura e na agropecuria, e muitas vezes de forma incorrecta. A elevada presso selectiva constitui um factor importante na emergncia e disseminao de estirpes bacterianas multirresistentes, uma vez que as bactrias tm a capacidade de desenvolver ou adquirir mecanismos de resistncia, em resposta aos mecanismos de aco dos antibiticos de forma a sobreviverem na sua presena (Martinez 2009; Senka 2008).

    O uso dos antimicrobianos de uma maneira macia e indiscriminada exige medidas urgentes para combater o surgimento de novas cepas bacterianas multirresistentes, inclusive aos medicamentos antimicrobianos recentemente comercializados, levando a conseqncias importantes, com efeitos diretos na problemtica das infeces hospitalares. importante ressaltar que a racionalizao de antimicrobianos, oferece a oportunidade de determinar seu apropriado uso nos casos para os quais esto indicados, e, assim identificar situaes na qual seu uso seria imprprio (ANVISA 2007).

    Alguns conceitos importantes

    Bactria multirresistente (BMR): A caracterizao de uma bactria multirresistente depende de fatores clnicos, epidemiolgicos e microbiolgicos. Qualquer alterao do padro de resposta ao tratamento usual de uma infeco ou dos resultados dos testes de sensibilidade antimicrobiana de uma espcie de microorganismos deve ser avaliada quanto necessidade de medidas especiais de controle de transmisso.

    Pessoa colonizada: qualquer pessoa que possui cultura positiva para BMR, mas no possui sinais ou sintomas de infeco causada pelo microrganismo. Cada BMR coloniza, geralmente, stios especficos. Por exemplo, o MRSA coloniza a regio anterior das narinas, as leses cutneas e, menos freqentemente, o perneo, as axilas, o reto e a vagina. Enterococos colonizam intestino grosso e regio genital. As mos so provavelmente contaminadas a partir desses stios. A pessoa colonizada pode transferir BMR para outras pessoas, atuando como portador transitrio ou persistente.

    Portador persistente: pessoa que est persistentemente colonizada pelo BMR, em um ou mais stios. A colonizao pode persistir por tempo varivel: semanas, meses ou anos.

    Paciente infectado: paciente que apresenta evidncia clnica ou laboratorial de doena causada por BMR.

    Paciente com BMR: paciente colonizado e/ou infectado por BMR (NCIH 2009).

  • 14

    Aproximadamente 10% dos pacientes hospitalizados infectam-se freqentemente em conseqncia de procedimentos invasivos ou de terapia imunossupressora.

    Critrios gerais para infeco hospitalar: Quando se desconhecer o perodo de incubao do microrganismo e no houver evidncia clnica e dado laboratorial de infeco no momento da internao, convenciona-se infeco hospitalar toda manifestao clnica de infeco que se apresentar a partir de 72h aps a admisso1. So tambm convencionadas IH aquelas manifestadas antes de 72h da internao, quando associadas aos procedimentos diagnsticos e teraputicos, realizados durante este perodo. Quando, na mesma topografia em que foi diagnosticada infeco comunitria, for isolado um germe diferente, seguido do agravamento das condies clnicas do paciente, o caso dever ser considerado como infeco hospitalar. As infeces no recm-nascido so hospitalares, com exceo das transmitidas de forma transplacentria e aquelas associadas a bolsa rota superior a 24 horas. Os pacientes provenientes de outro hospital que se internam com infeco, so considerados portadores de infeco hospitalar do hospital de origem.1 Essas infeces por bactrias multirresistentes so comumente causadas por Estafilococos resistentes metilicina, Enterobactrias e Pseudomonas. A identidade do organismo causador pode fornecer alguma indicao em relao sua fonte, todavia, certos patgenos tm significado especial porque podem causar grandes surtos em todo hospital (ANVISA 2007 ; 1 Portaria n 2.616/1998). As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) so reservatrios freqentes das bactrias multirresistentes. A transmisso interpacientes amplificada em UTI, em funo da menor adeso higienizao das mos, associada ao excesso de trabalho.

    Aspectos epidemiolgicos da transmisso de bactria multirresistente

    Reservatrio: o local onde a BMR subsiste, multiplica e/ou permanece continuamente. No hospital, o principal reservatrio de BMR o paciente colonizado ou infectado por esse agente. A importncia do ambiente e das outras pessoas (profissional de sade e acompanhante) , na maioria das vezes, mnima. A introduo de BMR num hospital ocorre mais comumente por meio da admisso de um paciente colonizado ou infectado que atua como reservatrio. No modelo apresentado, o reservatrio pode-se constituir tambm em fonte, ao transmitir o microrganismo diretamente para um hospedeiro.

    Fonte de Transmisso

    (Reservatrio)

    Hospedeiro Suscetvel

    Via de Transmisso: Contato direto e indireto

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    Fonte de Transmisso: o local onde o BMR est presente ao se transferir para o hospe-deiro. No necessariamente esse local fornece condies para a permanncia contnua do agen-te. As mos dos profissionais de sade so as principais fontes de BMR no hospital. Ao cuidar de um paciente colonizado ou infectado com BMR, o profissional de sade pode-se tornar portador da bactria em suas mos. A contaminao das mos pode acontecer tambm a partir de stios colonizados da prpria pessoa ou a partir de artigos e superfcies contaminados com secrees, excrees, etc. Se no lavar as mos de forma adequada ou se no trocar as luvas, ele pode transferir o BMR para outro paciente, para o ambiente ou mesmo colonizar stios do seu prprio corpo. Embora, na maioria das vezes o profissional de sade seja apenas um portador transitrio, esse tempo pode ser suficiente para a disseminao de BMR.

    Via de transmisso: o modo como a BMR transferido da fonte para o hospedeiro sus-

    cetvel. A transmisso, predominantemente, ocorre atravs do contato direto ou indireto. Conta-to direto a principal via de transmisso de BMR. Nessa situao necessrio o contato fsico entre a fonte e o hospedeiro suscetvel, o que geralmente ocorre atravs das mos dos profissio-nais de sade. Contato indireto ocorre atravs de um objeto intermedirio. Roupas, luvas, ins-trumentos e outros artigos contaminados podem se interpor entre a fonte e o hospedeiro. Esta via particularmente importante para os microrganismos com capacidade de sobrevivncia no meio ambiente. Algumas BMR possuem grande capacidade de sobrevivncia em objetos inani-mados, inclusive em superfcies secas (Ex.: Enterococos e Acinetobacter baumannii).

    Hospedeiro suscetvel: o indivduo com potencial de ser colonizado/infectado ao entrar em contato com BMR. Geralmente, o paciente primeiro colonizado para depois tornar-se infec-tado.

    Fatores do hospedeiro propiciam uma maior vulnerabilidade colonizao e/ou

    infeco pelo BMR: paciente submetido antibioticoterapia, sobretudo se prolongada e/ou de largo espectro, paciente com traqueostomia ou em hemodilise, leses cut-neas, etc.

    Fatores ambientais aumentam a probabilidade de exposio ao BMR: hospitalizao prolongada, restrio ao leito com total dependncia da equipe de sade, internao em setores onde BMR freqente (por ex.: UTI e unidade de tratamento de queima-dos), internao em leito prximo a um paciente com BMR, etc.

    Medidas Preventivas de bactria multirresistente A principal estratgia para interromper a transmisso de BMR em hospitais estabelecer uma barreira entre a fonte de microrganismo e o hospedeiro.

  • 16

    As precaues bsicas e isolamentos so o principal conjunto de medidas para controlar a disseminao das bactrias multirresistentes e outros agentes infecciosos transmitidos, sobretudo pelo contato. A base da aplicao da aplicao das precaues o desenvolvimento de um modelo de gesto participativa que permita alcanar a seguinte meta: 100% das vezes, 100% da equipe, 100% dos cuidados.

    Medidas recomendadas para preveno Identificar precocemente o paciente colonizado ou com infeco; Identificao do isolamento por meio de placa ilustrativa. Respeitar as medidas de isolamento de contato preconizadas pela SCIH;

    Podemos simplificar as medidas recomendadas como sendo aquelas destinadas vigilncia epidemiolgica das infeces. Estas devem ser devidamente registradas e constantemente monitoradas.

    Investigao e medidas de conteno de surto de infeco/colonizao Bactrias Multirresistentes

    e ou por Enterococcus faecium resistente a vancomicina (VRE)

    Com a confirmao de casos de pacientes internados no HUJM com infeco e provavelmente

    colonizados por VRE e ou bactrias Multirresistentes, e considerando:

    1 2 1- Inexistncia de casos pregressos no HUJM 3 2- Elevada capacidade de disseminao cruzada por contato direto e indireto 4 3- Dificuldade de descolonizao 5 4- Possibilidade de ocorrncia de infeces por este agente

    6 5- Restrio nas opes para o tratamento de infeces . MEDIDAS ESPECFICAS UNIDADES DE INTERNAO

    1 - Bloquear as internaes eletivas nas unidades com casos de infeco at que todos os coloniza-dos deixem o hospital; - Os pacientes sob cuidados intensivos permanecero nas unidades de origem e se transferidos

    devem ser colocados em isolamento de contato, de preferncia em quarto privativo

    Fonte de Transmisso

    (Reservatrio)

    Hospedeiro Suscetvel

    Precaues Bsicas e Isolamentos

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    2 Agrupar pacientes colonizados ou infectados em quartos privativos ou coorte; 3 Adotar precaues de contato rigorosa (vide abaixo); 4 Colocar os pacientes atualmente internados nas unidades em quarentena, tanto para transfe-

    rncias entre unidades quanto para novos internados que preencham os critrios de risco para colonizao por patgenos multirresistentes;

    5 No permitir presena de alunos ou equipe no estritamente necessria aos cuidados dos pacientes;

    6 Agilizar alta dos pacientes atualmente internados para investigao diagnstica ou outros pro-cedimentos eletivos;

    7 Seguir as recomendaes de precauo abaixo listadas.

    UNIDADE DE EMERGNCIA REFERENCIADA

    1 - Notificar servio de atendimento mdico de urgncia (PS municipais) e a central reguladora de vagas sobre a existncia do surto e restrio de internao no setor com surto (no momento res-trito UTI adulto);

    2 - Notificar as outras reas do HUJM 3 - Manter internao somente de casos de urgncia ou emergncia

    PRECAUES DE CONTATO RIGOROSA

    PACIENTES

    1 Colocar pacientes colonizados em precauo de contato e quarto privativo, inclusive nas rein-ternaes

    2 Coorte: agrupar pacientes colonizados/ infectados por VRE no mesmo quarto 3 Higiene corporal diria com clorexidina degermante 4 Limitar a sada do quarto 5 Conter secrees

    EXAMES E PROCEDIMENTOS FORA DA UNIDADE

    1 Comunicar as equipes envolvidas que o paciente portador de VRE 2 Profissionais da sade devem adotar as recomendaes expressas no item 4), abaixo 3 Desinfetar com lcool 70% as superfcies aps o contato do paciente, inclusive macas e cadeiras

    de transporte

    EQUIPAMENTOS

    1 Uso individual de termmetros, esfigmomanmetros, estetoscpios e outros materiais; Os quartos com dois pacientes em precaues para VRE devem possuir materiais em nmero

    suficiente para atender individualmente cada paciente;

    2 Realizar desinfeco desses materiais com lcool 70% imediatamente aps o uso

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    PROFISSIONAIS REA SADE

    1 Profissionais da sade no correm risco adicional prpria sade ao atender pacientes colo-nizados por VRE

    2 Estabelecer coortes de funcionrios no cuidado dos pacientes colonizados por VRE; 3 No remanejar funcionrios entre as reas; 4 No permitir que funcionrios de outras reas prestem assistncia aos pacientes colonizados na

    unidade; 5 Todos profissionais da sade devem lavar as mos com clorexidina degermante antes e aps

    contato com o paciente, superfcies e equipamentos; 6 Usar luvas e aventais descartveis e uso nico ao entrar no quarto, desprezando ambos antes

    de sair do quarto; Lavar as mos com sabo com clorexidina degermante antes de sair do quarto dos pacientes

    colonizados por VRE;

    1 Reforar as medidas de precauo padro e higienizao das mos para os demais pacientes 2 Restringir entrada de material nos quartos ao estritamente necessrio 3 Mdicos, enfermeiros, fisioterapeutas e alunos devem proceder limpeza e desinfeco com

    lcool 70% dos materiais pessoais utilizados para examinar os pacientes, como estetoscpio, otoscpio, fita mtrica, martelo, adipmetro, espirmetro, etc.;

    4 No levar bolsas, sacolas, livros, cadernos ou outros objetos no necessrios ao atendimento ao paciente para as unidades de internao;

    5 Restrio temporria de entrada de alunos de graduao de medicina e enfermagem nas enfermarias;

    6 Alunos de medicina, enfermagem e fisioterapia temporariamente no devem atender a pacien-tes colonizados por VRE;

    7 No realizar visitas mdicas com os alunos da graduao em medicina beira do leito 8 Alunos de graduao devem ser orientados a no entrar em grupos maiores do que 3 pessoas

    nos quartos dos pacientes;

    A HIGIENIZAO DAS MOS FUNDAMENTAL!

    VISITANTES E ACOMPANHANTES

    1 Visitantes e acompanhantes devem realizar higiene das mos com clorexidina antes e aps sarem dos quartos e usar luvas e avental descartvel enquanto permanecerem nos mesmos

    2 Em vista do exposto: 1 Restringir nmero de visitantes aos pacientes colonizados a uma pessoa por dia, (inclusive

    nas UTIs) e orientar medidas de precauo similares s dos profissionais; 2 Restringir permanncia de acompanhantes apenas para pacientes selecionados;

    AMBIENTE

    1 Realizar limpeza terminal de todos os quartos aps a alta dos pacientes, postos de enfermagem e reas de apoio das enfermarias quinzenalmente e conforme esvaziamento das unidades;

    2 Limpeza das superfcies de contato (maanetas, leito, grades e equipamentos) dos quartos dos pacientes colonizados com lcool 70% a cada turno

    3 No utilizar o mesmo material para limpeza em quartos diferentes 4 Lavar e desinfetar os materiais aps a utilizao 5 Estabelecer coorte de funcionrios da limpeza para os quartos de pacientes colonizados

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    6 Substituir o sabo neutro por clorexidina degermante em todos quartos com precaues espe-ciais;

    7 - Retirar o lixo com maior freqncia

    ANTIBITICOS

    1 - Restrio rigorosa do consumo de vancomicina, cefalosporinas e metronidazol 2 - Disponibilizao de linezolida na farmcia

    INVESTIGAO

    1 Pesquisa de colonizao de todos os pacientes das unidades acometidas semanalmente ou de acordo com surgimento de novos casos;

    1 Pesquisa de colonizao de pacientes de alto risco nas outras unidades do hospital semanal-mente, colocando os colonizados em precauo de contato restrita nas respectivas unidades

    LABORATRIO DE PATOLOGIA CLNICA E MICROBIOLOGIA

    1 Ampliar capacidade de realizao de pesquisa de colonizao por VRE 2 Agilizar a liberao de resultados diretamente CCIH 3 Guardar as cepas de VRE para genotipagem 4 Treinamento dos funcionrios da coleta para seguirem a recomendao de troca de luvas e

    desinfeco do garrote entre os pacientes

    INFORMAO E NORMATIZAES

    1 - Sero centralizadas no SCIH 2 - Criar um mural ou outro meio para divulgao do andamento e resultado das aes

    OUTROS

    1 - Sinalizao de colonizao no pronturio, resumo de alta e com o paciente para reinternaes, atendimentos ambulatoriais, etc.

    2 Devido relevncia do que foi exposto, solicitamos a colaborao de todos os envolvidos, no

    intuito de impedir a disseminao deste surto.

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    Referncias Bibliogrficas

    Senkar, V.; Santiago, T.; Vijayan, K.; Alavandi, S.; Stalin, V.; Rajan, J.; Sanjuktha, M.;

    Kalaimani, N. (2008) Involvement of Enterobacter cloacae in the mortality of the fish, mogul

    cephalous. Letters in Applied Microbiology. 1-6.

    Martinez, J. (2009a) The role of natural environments in the evolution of resistance traits in

    pathogenic bacteria. Proceedings of the Royal Society. 276: 2521-2530.

    Agencia Nacional de Vigilncia Sanitria ANVISA- (2007) Investigao e Controle de

    Bactrias Multirresistentes. Gerncia de Investigao Preveno das Infeces e dos Eventos

    adversos. Gerncia Geral de Tecnologia em Servios de Sade. Braslia D.F.

    Ncleo de Controle de Infeco Hospitalar HRT Reviso (2009) NCIH/DGST/HRT -

    Controle de bactria Multirresistente.

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