50 - dignidade do homem

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Texto de Cornélio à Lápide traduzido da Obra "TESOROS DE CORNELIO Á LÁPIDE" - Tomo II, por Uyrajá Lucas Mota Diniz.

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Cornelius a Lapide, sj (1597-1637)+DIGNIDADE DO HOMEM

Traduo por Uyraj Lucas Mota DinizO homem criado imagem de Deus

Deus tirou o universo do nada: um s sinal de sua vontade, aquela nica palavra fiat (faa-se) bastou. Para governar a este universo faltava um chefe, um rei. Tudo j existia, menos aquele rei que devia reinar sobre todo a criao, posto que tudo fora criado para ele.

Ento, a Augusta Trindade entrou como em conselho, e pronunciou logo solenemente a seguinte deciso: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem mostram - Faamos o homem nossa imagem e semelhana (Gen. I, 26). Somente o homem foi criado imagem de Deus. Por isso, o homem a finalidade, o objeto do mundo criado.

Clemente de Alexandria chama ao homem de Planta Celestial: Planta coelestis (Lib. Strom.); porque tem suas razes no Cu. As plantas tm suas razes na terra; porm, o homem tem sua raiz em regies superiores; a rvore nutre-se da terra; porm, o homem no pode viver seno do Cu.

Que maior honra poderia apetecer ao homem, questiona Santo Ambrsio, que o haver sido criado imagem de seu Criador? Quis major honor homini potuit esse, quam ut ad similitudinem sui factoris conderetur? (Lib. De Dignit. Humanae Condit., c. III).

Se examinarmos fielmente e com prudncia a origem de nossa criao, diz o Papa So Leo, veremos que o homem foi feito imagem de Deus, a fim de que imite a seu divino Autor; pois a dignidade de nossa raa consiste em que a semelhana da Divindade brilhe em ns como em um espelho.Homem animal, que te rebaixas at fazer-te semelhante aos animais selvagens; e muitas vezes, at fazer-te inferior a eles, e invejas seu estado, necessrio que hoje compreendas tua dignidade pelas admirveis singularidades de tua criao e pelas outras honras que te foram tributadas. Vs fostes criados, no como as outras criaturas, por uma palavra de mandato: Fiat, Faa-se; mas por uma palavra de conselho: Faciamus, Faamos.

Deus toma conselho Consigo mesmo, como quem pretende fazer uma obra prima. Antes do homem, tudo o que Deus havia criado no universo era incapaz de conhecer, amar, servir a seu Criador e de possu-Lo. Deus deu ao homem todas estas prerrogativas divinas, por cuja razo, para form-lo, no Se props outro modelo seno a Si mesmo.

Por meio destas palavras: Faamos ao homem nossa imagem e semelhana, Deus expressa todas as formosuras do homem e, ademais, todas as riquezas que lhe deu com sua graa, entendimento, vontade, retido, inocncia, conhecimento claro de Deus, amor infuso deste Primeiro Ser, e segurana de gozar com Ele da mesma felicidade.

Faamos o homem... a estas palavras aparece a imagem da Augusta Trindade, Pai, Filho e Esprito Santo.

Semelhante ao Pai, tem o ser; semelhante ao Filho, tem a inteligncia; semelhante ao Esprito Santo, tem o amor. Deus tem a inteligncia, a vontade, o amor. O homem, feito imagem de Deus, possui tambm a inteligncia, a vontade e o amor. Eis aqui a imagem da Santssima Trindade; o cumprimento daquelas palavras: Faamos ao homem nossa imagem e semelhana - Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram (Gen. I, 26).

O homem parece-se com Deus por trs conceitos:

1 por natureza, porque somos de uma natureza racional e inteligente, assim como Deus tambm razovel e inteligente;

2 pela graa, que, diz So Bernardo, consiste nas virtudes; e

3 a semelhana perfeita e infinita com Deus ter lugar no cu, com a Presena e a Glria beatfica.

Tributemos a honra que devida, diz So Gregrio Nazianzeno, imagem de Deus que est em ns; reconheamos nossa dignidade: Imaginem Deus imagini reddamus, dignitatem nostram agnoscamus (Serm. de Nativit.).

A imagem natural de Deus est na alma, que esprito, que no material, que gil, imensa, inteligente, livre, imortal. Esta imagem de Deus natural no homem; no se pode ter perdido pelo pecado de Ado; porm, perdeu sua formosura e perfeio.

outra imagem de Deus no homem, uma imagem sobrenatural, que consiste na graa e justificao do homem, pela qual o homem faz-se partcipe da natureza divina; e esta imagem ser cabal na glria e na vida eterna. Porque a graa, diz Santo Agostinho, a alma da alma: Gratia est anima animae (Trat. de Cogn. Verae Vitae).

Ado foi criado nesta graa, que uma verdadeira imagem de Deus. Esta semelhana da alma com Deus pela graa depende da vontade do homem; pecando, perde-a; porm, pela graa e pela justificao, volta a encontr-la e reabilita-se.

Somente o homem foi criado semelhana de Deus. O sol, que to resplandecente e belo no est feito imagem de Deus. A lua e a estrelas, que adornam o firmamento, no foram feitas imagem de Deus. A terra e suas variadas produes no foram, tampouco, feitas imagem de Deus. O vasto Oceano, apesar de sua imensidade, no foi feito imagem de Deus. Somente o homem e o Anjo possuem essa prerrogativa infinitamente preciosa.

homem, exclama So Pedro Crislogo, por que, sendo to honrado por Deus, desonras a ti mesmo? Por que s to vil a teus olhos, tu, to grande e precioso aos olhos de Deus? No vs que, ao desonrar-te, desonras a Deus, cuja imagem s? (Serm.).

Preo inestimvel do homem

Esta natureza racional do homem, que constitui a imagem de Deus, encerra seis qualidades principais, seis propriedades excelentes:

1 a alma espiritual e indivisvel, como Deus tambm esprito indivisvel;

2 a alma imortal;

3 est dotada de inteligncia, vontade e memria;

4 goza do livre arbtrio;

5 apta para a sabedoria, a virtude, a graa, a beatitude, a viso de Deus e todo o bem;

6 a alma preside e domina, com seu poder, tudo no homem e na criao; e acrescente-se uma stima propriedade:

7 assim como todas as coisas esto eminentemente contidas e encerradas em Deus, assim tambm se acham todas as coisas no homem. Com sua inteligncia, de tudo se apropria, porque representa em seu esprito uma imagem ou semelhana de tudo o que h. As coisas mais preciosas, diz So Joo Crisstomo, no se podem comparar a alma, nem tampouco o mundo inteiro: Nullius rei pretium est cum anima conferendum, ne totus quidem numdus (Homil. III, in Epist. ad Cor.).

Jamais tivssemos conhecido nossa grandeza, no haveramos tampouco compreendido jamais nosso alto destino, sem o auxlio da revelao da Sagrada Escritura.

O Senhor Deus, diz o Gnesis, derramou sobre o rosto do homem um sopro de vida, e este tornou-se o homem vivente com alma racional: Dominus Deus inspiravit in faciem ejus spiraculum vitae, et factus est homo in animam viventem (Gen. II, 7).

E no que Deus tenha boca, como os homens, para dar um sopro; mas a Escritura fala assim para dar-nos a entender que Deus estima a alma e a quer como uma emanao de Sua prpria vida. bem verdade que tirou nossa alma do nada, como o fez a todas as demais criaturas; porm, ao revelar-nos o Esprito Santo que foi um sopro divino, quer nos dizer que Deus a produziu com um afeto to particular e to terno, que como se a houvesse tirado das regies de Seu Corao.

Ademais, a Sagrada Escritura no nos diz que Deus fez nossa alma com suas mos, como nosso corpo, nem que a tenha criado falando, do modo como criou a todos os demais seres; mas respirando, aspirando, para dar-nos a entender que como se houvesse dado nascimento a uma queridssima concepo que lavara em Suas entranhas durante toda a eternidade.

como se a Sagrada Escritura dissesse que a alma procede do interior de Deus, assim como a respirao ou o sopro no mais do que uma sada ou entrada contnua de ar que vai a visitar o corao,... no lhe deixa mais que um breve momento, e logo volta a ele a ponto de refresc-lo e conservar-lhe a vida. Da mesma maneira, nossa alma no saiu de Deus seno para voltar a entrar Nele; Ele no a expirou seno para voltar a aspir-la novamente. Pois, se ela aliviou, de certo modo, o Seu corao ao sair Dele, parece que O alivia e O consola, de certo modo, quando ali mesmo volta por alguma amorosa inspirao. se soubssemos o que significa a nossa alma para o corao de Deus! No pode viver sem ela; o mesmo Deus no est contente sem ela!

Vede o lao admirvel que Deus quis fixar entre seu Esprito e o nosso.

O Esprito Santo uma sagrada emanao do corao de Deus, emanao que o cumula de uma maneira infinita em Si mesmo; e nossa alma um sopro de Deus, sopro que Lhe d complacncia at fora de Si mesmo. O Esprito Santo a ltima das inefveis produes de Deus em Si mesmo; e nossa alma a ltima de todas as admirveis produes de Deus fora de Si mesmo.

A alma est to admiravelmente elevada acima do corpo, que se pode dizer que se aproxima mais de Deus que Lhe criou, que ao corpo ao qual est unida. E, para dizer a verdade, somente ela, entre todas as criaturas da terra, tem alguns rasgos visveis das perfeies de Deus; ela mais elevada que o Cu, mais profunda que o abismo, mais vasta que o universo, ela to duradoura como a eternidade.

- Deus esprito, e a alma esprito;

- Deus simples e indivisvel, e a alma simples e indivisvel;

- Deus imvel, tudo pe em movimento e vivifica, e a alma age igualmente em relao ao corpo ao qual anima;- Deus inteligente, e a alma inteligente;

- Deus quer, e a alma quer;

- Deus ama-se, e a alma, amando a Deus, ama-se verdadeiramente a si mesma;

- Deus fez todas as coisas, e a alma opera, e os limites de sua ao no se podem assinalar;

- Deus livre e domina todas as coisas criadas, e a alma tem o livre arbtrio, e segundo sua vontade, move os membros do corpo;

- Deus tudo tem presente em Sua memria, e a alma possui tambm esta faculdade;

- Deus onipotente, e o homem, se o quer, dispe do poder divino, faz coisas admirveis e compreende outra multido de coisas na extenso de seu esprito;

- Deus o fim de todas as coisas, e o homem o fim de todas as criaturas;

- Deus est todo no mundo e todo em cada parte do mundo; e

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