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    5 0 A n o s D e p o i s ,a Guerra do Suez no Contexto

    d a s G u e r r a s I s r a e l o - r a b e s

    Abel Jos Santos LeiteMestre em Histria e Cultura Europeia Contemporneas

    Resumo

    No ano em que perfazem cerca de 50 anos so-bre a sua ecloso, a Guerra do Suez permaneceesquecida ou pouco conhecida do pblico por-tugus. Contudo, tratou-se de um conflito sig-nificativo na histria, no s por ter envolvidoas principais potncias mundiais, como ter de-sencadeado uma viragem radical em que, pelaprimeira vez, as potncias coloniais foram asgrandes derrotadas. Tal facto prenunciou umanova ordem mundial que perdurou como umparadigma alternativo de uma nova estratgiapoltica internacional. A crise do Suez veio ace-lerar o processo de descolonizao e o aumentodo peso poltico das presses internacionaissobre o mesmo. Estes acontecimentos foramdeterminantes na emergncia e desenvolvi-mento dos conflitos Israelo-rabes, cuja tensoainda hoje se faz sentir.

    Abstract50 Years Later, the Suez War in the Israeli-ArabConflict Framework

    Fifty years after the Suez War broke out, whether itis still consigned to oblivion or it is not well-knownto the public. However, it was a significant historicalconflict, not only because it involved the major worldpowers, but also because it led to a radical turningpoint. For the first time the great colonial powerswere defeated. This motivated a new world order,which would spread rapidly as an alternativeparadigm of a new international political strategy.The Suez War accelerated the process ofdecolonisation and the increasing political weight ofinternational pressure on it. The crisis was alsodeterminant to the beginning and development ofthe Israeli-Arab conflict, which tension we still haveto address today.

    Vero 2007N. 117 - 3. Sriepp. 7-34

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    50 Anos Depois, a Guerra do Suez no Contexto das Guerras Israelo-rabes

    Acaba de chegar do Egipto, creio? Sim. Foram vencidos pelos Egpcios. E no entanto eles corriam muito depressa nossa frente,abandonando as armas e por vezes as calas. Esse grupo de fugitivos, esse exrcito de pacotilha, incapaz dese servir do armamento que os Russos lhes tinham dado, essesoficiais de belos bigodes que vestiam cales para correr maisdepressa, venceram-vos, vocs os pra-quedistas, que se dizserem as melhores tropas da Europa Livre, e venceram correndona vossa frente! () Porque vocs tentaram praticar no Egiptoum jogo que j no adoptado. 1

    Jean Larteguy

    1. Introduo

    Em 1956 ver-se- desenrolar um conflito no Mdio Oriente envolvendo directamentea Frana, a Gr-Bretanha, Israel e o Egipto. No entanto, este conflito, que ficar conhe-cido como a Guerra de Suez, de curta durao e aparentemente esquecido e subvalori-zado, rapidamente se estenderia a um endurecimento das posies polticas de todas asgrandes potncias mundiais e viria a alterar, profundamente, a situao poltico-econ-mica europeia, tendo sido um conflito em que ningum pde, realmente, apresentar-secomo vitorioso,2 excepto Israel que, contudo, ter preferido que no se especulasse muitosobre o assunto, sobretudo no que respeita ao conluio, a ter existido,3 com a Frana e a

    1 Jean Larteguy, Os Centuries, Bertrand, Lisboa, s.d. (datado pelo autor em Julho de 1959), p.443.2 Apesar do lder egpcio, Gamal Abdel Nasser, ter proclamado a sua vitria poltica e militar, utilizando

    toda a sua mquina de propaganda, vangloriando-se de sozinho o Egipto ter enfrentado e derrotado aFrana, a Gr-bretanha e Israel, tal mensagem destinava-se apenas opinio pblica interna e dos estadosrabes. Nasser tinha perfeita conscincia de que perdera efectivamente o conflito, no se deixando cairna sua prpria propaganda. Cf. Michael B. Oren, La Guerra de los seis Dias Junio de 1967 y la formacindel Prximo Oriente moderno, Ariel, Barcelona, 2003, pp. 40-41.

    3 Shimon Peres afirma expressamente que se assinou um acordo tripartido em Svres, de 22 a 24 deOutubro de 1956, onde se traou um plano de ataque conjunto. Esse acordo, sugerido por MauriceBourgs Maunoury, (ao tempo ministro da defesa francs) contou com a presena do prprio de BenGurion e Moshe Dyan. Contudo, nada refere quanto presena britnica. Cf. Shimon Peres, Tempo para

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    Abel Jos Santos Leite

    Inglaterra. Hugh Thomas, que estudou este conflito volvidos dez anos, pelo que aindaconseguiu contactar directamente alguns dos principais intervenientes, achou curioso ofacto de os documentos oficiais no terem estado minha disposio e provavelmentejamais estarem de qualquer outra pessoa, pois, se eles existiram, cr-se que foramdestrudos nessa altura ou pouco depois.4 Para alm desse facto, todos pareciam tersofrido de uma verdadeira amnsia ou ento escudavam-se no segredo a que se encon-travam obrigados.

    Este acontecimento marca a extenso da Guerra Fria regio do Mdio Oriente,cabendo-lhe um lugar de destaque no agudizar das relaes entre os dois blocos que aprotagonizavam e que se vinham agravando, sobretudo a partir de 1954, por um lado,com a retirada do apoio sovitico a Israel transferido para os governos dos estadosps-coloniais de quem esperavam conseguir uma ameaa ao fornecimento petrolfero daEuropa e, por outro, com o estabelecimento estratgico da Liga do Norte, que formandouma aliana entre a Turquia, o Iro, o Paquisto, a Gr-Bretanha e os Estados Unidos,visavam garantir esse fornecimento e constituam uma sria ameaa fronteira da UnioSovitica, levando-os a optarem por apoiar a causa rabe, com particular nfase nointeresse dos palestinianos, j que era a mais fcil e popular forma de granjear simpatiasno mundo rabe e muulmano. Desta forma, no s colhiam simpatias e garantiaminfluncia na zona, como dificultavam a posio ocidental, encurralada entre o dilema deprocurar agradar s naes rabes e a Israel. Apesar da particularidade da intervenodirecta de potncias no regionais, este conflito inscreve-se no contexto clssico dasGuerras Israelo-rabes, j que contribuiu para a criao de um equilbrio de foras queiria perdurar por mais de dez anos. Nesta medida, e adoptando a designao clssica,podemos considerar como sendo quatro as guerras que o compem: a Guerra dainstaurao do estado de Israel 1948/49,5 de que no sairia nenhum acordo de paz; aGuerra do Suez de 1956; a Guerra dos Seis Dias de 1967 e a Guerra do Yom Kippur de1973. A partir deste ltimo conflito entrou-se no que podemos designar por perodo deguerra permanente.

    a Guerra, Tempo para a Paz, D. Quixote, Lisboa, 2004, p. 53. Segundo Hugh Thomas, O Caso Suez, EditoraUlisseia, Lisboa, s.d., p. 163, o tratado ter sido assinado por Guy de Mollet, Ben Gurion e o representantebritnico seria o secretrio dos Negcios Estrangeiros Selwin Lloyd, estando ainda presente Patrick Dean,subsecretrio-adjunto de Estado. Contudo, parece no haver provas documentais da reunio ou de quemnelas participou.

    4 Hugh Thomas, op. cit, p.9.5 Para os israelitas ficar conhecida como Guerra da Independncia e como al-Nakbah (o desastre) para os

    rabes, o que revela bem a profunda divergncia original.

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    Ao abordarmos este conflito pensamos ser de considerar alguns aspectos em geral:em primeiro lugar, h que salientar que um conflito em que a componente religiosa temum significado fundamental, opem-se dois povos, dois tipos de sociedade, duasculturas mas, e mais importante que tudo o resto, so duas religies que disputam osmesmos locais e os mesmos territrios, mutuamente simblicos e sagrados. Depois, edecorrente do anterior, trata-se de um conflito cclico, que se arrasta no tempo e quando,cinquenta anos depois, escrevemos estas linhas, ainda que com novas nuances, continuaa verificar-se com a mesma intensidade e somando pesadas baixas para ambos os lados.A grande alterao, em termos militares, deu-se com a introduo no status quo existentede um novo dado, o facto de Israel passar a dispor de armamento nuclear,6 queinviabiliza as pretenses dos estados rabes vizinhos de efectuarem qualquer tipo deataque convencional. No entanto, tal no ter evitado a guerra de 1973 nem o recursoisraelita ameaa de utilizao deste tipo de armamento, numa altura em que tudolevava a supor que j o teriam. Esta constatao e estas consideraes merecem, todavia,uma salvaguarda incontornvel, uma vez que a poltica oficial de Israel a este respeito a de ambiguidade estratgica.7 Finalmente, trata-se de uma zona do globo de extremaimportncia para a vida e a economia mundial, j que aqui que se encontram os lugares

    6 Cf. Shimon Peres, Tempo para a guerra, Tempo para a paz, p. 37. (foi a nossa suposta opo atmica)7 At data de hoje, nenhum dirigente israelita admitiu ou negou a existncia de armas atmicas nos

    arsenais israelitas. Como dados concretos sabemos apenas que Israel o nico pas do Mdio Oriente queno assinou o Tratado de NoProliferao Nuclear e que em Abril deste mesmo ano, foi libertadoMordechai Vanunu, que ainda se encontra sob grandes restries judiciais, aps ter cumprido 18 anos depriso por revelar informaes sobre o programa nuclear israelita, tidas como confidenciais e atentatriaspara a segurana do estado. Toda a informao relativa ao assunto rigorosamente restrita e baseadasobretudo em especulaes, j que este um dos segredos mais bem guardados de sempre. MohamedEl-Baradei, chefe da Agncia Internacional de Energia Atmica, sugeriu a 13 de Julho de 2004, emMoscovo, que Israel deveria considerar discutir a possibilidade de um Mdio Oriente sem armasnucleares. Se pouco ou nada se sabe ao certo sobre esta questo, s se pode conjecturar acerca da dataem que, efectivamente, Israel teria obtido armas nucleares. Para a maioria dos analistas Israel ter cercade duzentas ogivas nucleares e j teria cerca de doze em 1973, aquando da guerra do Yom Kippur.Contudo, apesar do peso dissuasor deste tipo de armamento, h que considerar dois aspectos: o anncioda sua posse poderia ter levado os soviticos a disponibilizarem este tipo de armamento aos rabes,forando a uma e

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