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  • DOI: 10.11606/issn.2316-9133.v22i22p45-61

    resumo Este texto parte de uma pesquisa que vem sendo desenvolvida acerca das experincias juvenis e conexes entre esferas online e ofine. Nesse estudo so traados percursos de signos de pixadores entre a cidade e o ciberespao. Foi tomado como locus de observao as redes de re-lacionamento do Orkut e Facebook de pixadores destacados de Fortaleza. Alm da etnografa no ciberespao, foram realizadas entrevistas online e contatos presenciais. Os pixadores tacam mar-cas no ciberespao. Observou-se que as marcas das siglas de pertencimento, o nome dos pi-xadores, podem defnir territrios no ciberespao no necessariamente acoplados aos ambientes da cidade. O xarpi pode ser apagado dos lugares fsicos da cidade e, mesmo assim, resistir ao efeito do tempo no ciberespao. Percebe-se ao longo da pesquisa que o ciberespao possibilita a partilha do nome e a visibilidade da sigla de pertencimen-to no universo das demais siglas, produzindo as-sim outros regimes de signos.palavras-chave Juventude; Ciberespao; Pixa-o; Linguagem

    Juveniles urban signs: routes of ilegal graffti in cyberspace

    abstract Tis text is part of a research about youth experiences and the connection between online and ofine spheres. Tis study follows the routes of grafti signs between the city and

    Signos urbanos juvenis: rotas da piXao1 no ciberespao2

    GlRia DiGenes3Universidade Federal do Cear, Fortaleza, Cear, Brasil

    the cyberspace. Our observation locus was social networks such as the Orkut and the Facebook from well-known grafti practitioners in Fortaleza. Be-sides the cyberspace ethnography, some online in-terviews and meetings took place. Te practitioners leave marks in the cyberspace. Te acronym marks of belonging, the grafti practitioners names, es-tablish territories in the cyberspace not necessarily attached to the city spaces. Te xarpi might be erased from the city spaces, and, even so, remains in the cyberspace. Te study shows that the cybers-pace makes the sharing of name and the display of acronyms of belonging possible within larger groups of other acronyms, so it brings other sign systems about.keywords Youth; Cyberspace; Grafti; Language

    PiXar para se destacar: linhas iniciaisRoland Barthes (2001, XIII) traduziu a se-

    miologia como uma aventura de deslocamento do sujeito. Assim como os muros e as paredes da cidade, os traos da escrita da pichao no ci-berespao exigem outros movimentos do olhar5. Nos arquivos virtuais de Raposo (integrante da galera Fera dos Grafteiros), tal qual destacado na fgura acima, encontra-se parte representativa de artigos publicados em jornais, percorrendo, no seu conjunto, a cronologia da pixao na cidade de Fortaleza. Interessa evidenciar com o destaque da ilustrao acima no o corpo da ma-tria jornalstica, que aparece ilegvel. Raposo,

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    pixador famoso da dcada de 1980, diante de um suposto desconhecimento da mdia da ln-gua falada pelos pixadores, faz uma espcie de interveno ao lado da pgina do jornal. A in-verso das slabas cria um dialeto prprio: gori-pe signifca perigo, josu sujou, xarpi vem de pixar e tala lata de tinta, dentre outras.

    Xarpi, a assinatura do pichador, represen-ta exatamente o avesso, o contrrio do nome, o contradito daquilo que se diz, do que se pactua como linguagem. Raposo assinala ainda, no seu perfl, na abertura de um de seus lbuns, constitudo apenas por artigos de jornais, os sig-nifcados que conformam o reverso da lngua: Aqui, a maior diferena da flosofa dos P.C.M (Pixadores contra o mundo). Certamente, o que parece mobilizar a cena da pixao no cibe-respao a criao de um campo de enunciao de poucos-para-poucos, ao invs da universa-lidade dos media pautada na comunicao de um-para-todos, ou de todos-para-todos. Isso signifca dizer que, mesmo num ambiente da internet marcado, em sua maioria, por perfs

    de livre acesso, tanto no Orkut como no Fa-cebook, observa-se um uso restrito dos signos que permeiam a comunicao entre pixadores. De algum modo, a utilizao da pixao no ci-berespao parece reproduzir a mesma dinmica da interveno realizada na geografa da cidade: uma comunicao de poucos-para-poucos, para que os que transitem na cidade sintam o impac-to da extenso dos riscos dessa outra lngua.

    Por tal razo, nossa insero no ambiente virtual a visita aos perfs de pixadores se-guiu um compasso semelhante a um processo presencial de percepo dos signos que com-pem e produzem a paisagem das pixaes urbanas. O desafo foi o de perceber se havia ou no interatividade entre os vrios sujeitos que compem a cena da pixao em Fortaleza e se o ciberespao, alm de melhor destacar os nomes, as trilhas deixadas por eles na cidade, propicia uma maior amplitude de conectivida-de e de aproximao. Para isso, quando houve oportunidade e abertura por parte do pixador, foram realizados alguns contatos via MSN6.

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    O ciberespao tem mobilizado olhares e in-tervenes que alargam o repensar sobre cami-nhos da tradio etnogrfca. Outras formas de conexo, de interao, de mobilidade tm, para alm do contato face to face, ampliado o espao de movimentao do prprio pesquisador em campo. No caso da ao dos pixadores no ci-berespao, observa-se o alargamento de esferas de expresso, compartilhamento e demarcao de ambientes e sujeitos sociais. Eles multipli-cam paredes, assinaturas e crews7 na esfera di-gital. No se trata de um outro lugar. Como indicaCristine Hine (2010, p. 9) no se deve classifcar a etnografa na arena do ciberespao como um modo distinto de percepo da cul-tura. Segundo a autora8, o uso da Internet si-mula uma experincia localizada culturalmente e, concomitantemente, se constitui numa in-terpretao fexvel do objeto.

    notria a necessidade de fexibilizao dos circuitos do objeto quando se trata de um enfo-que entre espaos. Ricardo Campos (2010, p. 37), acerca da abordagem etnogrfca sobre o grafti urbano em Lisboa, assinala que de todo modo a prpria noo de terreno9, ao se pesquisar experi-ncias de graftismo juvenil, deve ser tomada no sentido metafrico. Este espao fragmentado e disseminado, fsico e virtual, acompanhado por um tempo igualmente descontnuo. Assim como, tal qual relata Raposo seguir, so visveis as distncias e vcuos da atividade da pixao, antes e depois do uso da Internet.

    Em uma entrevista que pode ser facilmen-te encontrada no Google10, Raposo afrma: Em 1987, no havia Orkut, no havia MSN, porm a pixao surgiu como ferramenta de comunicao e expanso dos relacionamen-tos. Observa-se que o meio de conexo, de diminuio das distncias da comunicao, si-nalizado por Raposo, no diz respeito ao uso do computador, e sim difuso da pixao. Embora, primeira vista, parea paradoxal, a

    pixao surge tendo como propsito inicial a demanda por visibilidade, representando o ci-berespao apenas como uma ampliao dessa paisagem e uma esfera mais veloz de propaga-o e difuso dos xarpis. A ordem multi-plicar os espaos por onde circulam os nomes, ganhar visibilidade: Se destacar ter nome em todo o bairro afrma Seco (GDR Ga-rotos de Rua, 32 anos, que parou de pixar em 1998); arrebentar nos nomes fala Snow (GDR Garotos da Rua, 21 anos).11 Antes da intensifcao do uso dilatado das redes sociais no ciberespao12, a pixao possibilitou que atores de lugares sombreados das periferias multiplicassem marcas e estilos nos corredo-res das grandes cidades. No universo dos pi-xadores, repetir um modo de marcar, de no deixar o nome ser esquecido, e esse o uso mais signifcativo que fazem os tacadores de marcas ao ocuparem o ambiente virtual:

    Cada pixador tem o seu estilo, o meu estilo esse. A gente nunca muda o estilo que pra po-der ser conhecido pelo seu estilo, pq qnd vc fca mudando vc nunca vai ser conhecido pq cada canto q vc meter o seu nome vc fcar mudar o estilo de colocar as pessoas n vo conseguir identifcar a pixao. Ela tem q ter um padro s, o q acontece q qnto mais vc pixa, mais vc vai aperfeioando a sua letra (SECO).

    O perfl do pixador, a repetio de pa-dres e do desenho de letras o que possibilita, mesmo antes das redes de relacionamentos, a identifcao de seus nomes no papel cida-de, no contnuo artifcio de aperfeioamento de suas grafas. Basta abrir a pgina de um pixador nas redes sociais para identifcar o contorno e a extenso de seu grupo, de sua galera. Cada um aparece vinculado ao seu avatar13, sinalizando o nome que o identifca no circuito de pixao da cidade, como no exemplo abaixo:

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    Daniel acopla ao nome o duplo de sua identifcao e apresenta-se atravs de trecho de msica de Ana Carolina: Voc pode me ver, do jeito que quiser,eu no vou fazer esfor-o pra te contrariar. O que parece interessar no seu perfl lotado o modo como preten-de se mostrar, a utilizao do ciberespao como mais um lugar que vitriniza fliaes, preferncias diante de seus pares, pouco im-portando o campo de interpretao dos que esto fora desse ciclo.

    Diante da fragmentao de experincias, da volatilidade dos modos de vida urbanos, o ato de pixar, ao destacar o sujeito pixador para alm do muro, no espao mltiplo da tela vir-tual, possibilita que a marca se fxe, ainda mais, na memria da cidade. Numa reunio de pixa-dores no bairro Carlito Pamplona, Demo (WS Wild Street), ao ser indagado sobre qual seu intuito ao colocar o nome no muro, respondeu de forma direta: Divulgar. T passando nos canto e lembrar. Por tal razo, as formas da pi-xao se reproduzem e se diversifcam.

    Como bem explicou Snow, tem trs tipos de pixao: xarpi, letreiro e desenho15. O que, no geral, os de fora chamam de pixao, est bem mais relacionado ao xarpi propriamente dito. Indagado acerca do comentrio da pesquisadora (o que eu menos entendo o xarpi... Xarpi no tem letra), Snow explica, num papo virtual: tem, mais geralmente uma letra que apenas quem joga o nome entende.

    A sigla do pixador expressa o seu grupo de referncia, sua galera, sendo o xarpi sua mar-ca pessoal e intransfervel. O ritual de entrada numa sigla, a representao de um coletivo, acontece apenas quando o pixador j conse-guiu destacar o seu xarpi, j mostrou que tem coragem de sair para pixar e de enfrentar os cana.16 Para essa fnalidade, tem que pe-dir para os antigo, ne qualquer um que pode deixar os outro entrar no (SCORPION17 SDR Suicidas de Rua). Divulgar a sigla vai, no geral, ocorrer casado ao xarpi, como se o nomadismo dos pertencimentos possibilitasse a visibilidade e a repetio dos nomes dos pi-xadores, intensifcando a importncia da sigla.

    Sigla a principal subsigla s um complemento no todo mundo que joga subsiglaEu j joguei as subsiglas 3M3SOHmais s jogo TB (Terroristas do Bairro) agora18

    Eterniza-se o nome do pixador por meio das siglas e subsiglas que mediam o ato de jo-gar o xarpi no ciberespao. O que parece estar em jogo para os pixadores so dimenses que se alternam na tenso entre efemeridade e perma-nncia, entre esquecimento e lembrana. Bolle (1994, p. 287), num dilogo com Baudelaire e Benjamin, enfatiza o carter ambguo da escrita das grandes cidades: por um lado, o transit-

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    rio e o fugaz; de outro, o eterno e o imu-tvel. O esquecimento representa, para muitos moradores da periferia, o preo muito alto que comumente se paga no dia a dia da vida urbana. H uma luta incessante por visibilidade pbli-ca. Para que um xarpi possa ter lugar, fncar marcas e padres, faz-se necessrio mais do que tacar o nome de forma aleatria, que se trace e compartilhe um regime de signos que possa facilmente migrar para a esfera digital. Isso sig-nifca dizer que para ganhar destaque na cidade, para ser considerado, regra entre os pixado-res se valer de todos os suportes e ferramentas possveis para difuso do seu nome e das si-glas e subsiglas em que joga.

    Embora os regimes de signos constituam uma semitica, eles remetem a outros agencia-mentos que no so necessariamente lingusticos (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 61). Atra-vs de mquinas informacionais (GUATTARI, 1993, p. 178) e comunicacionais, os xarpis no se contentam em veicular apenas contedos re-presentativos, mas concorrem tambm para a confeco de novos agenciamentos de comuni-cao individuais e coletivos, para a produo de novas marcaes na cidade e para a cidade.

    E para que um regime de signos de mltiplos agenciamentos que envolvem a pixao se propa-gue e se sustente, torna-se necessrio outro pacto lingustico, um arranjo que desmaterialize o su-porte do nome e o traduza descolado da sua feio concreta, material, na esfera do ciberespao.

    Snow, da GDR, (no MSN) sinaliza que re-gras um pixador deve respeitar:

    1 : NO ATROPELAR O NOME DO OU-TRO2 : SE SUPERAR O NOME DO OUTRO OFEREER3 : HONRAR A SIGLA QUE ELE JOGA4 : NO USAR SEU NOME EM VO

    Atropelar o nome do outro a quebra de uma regra que pode fndar em confito ou mor-te. Como explica tambm Scorpion, atropelar num deixa passar por cima do pixo do cama-rada, no pode rasurar e nem pode atropelar, rasurar meter um X no xarpi do outro. como se, uma vez um signo fncado, ele tives-se j ganho um lugar, obtido um destaque, al-canado um plano de enunciao. De algum modo, atropelar o nome do outro representa trair, na lngua dos pixadores. Ao ser inda-gado se j havia vivido alguma experincia de atropelo, Snow destacou:

    Atropelou, mais o cabea da galera veio falar co-migo e pedir desculpas pelo membro que atro-pelou.e mandou o membro l pintar.ah no coloca meu nome nn no gosto de confar nesse mundo que vivo.(SNOW, entrevista MSN)

    Superar representa apenas o ato de pixar mais alto, de ultrapassar o desafo j alcanado pelo representante de outra sigla. No geral, essa regra possvel de ser burlada, a depender do lugar que cada pixador assume dentro da sigla. Se for o principal (assim eles denominam os chefes), a superao um ato natural, plausvel; se for um pequeno, vai ter rasurada a ousadia da superao.

    depende se voc for um pixador pequeno , e su-perar um cabea de uma galera. possivelmente ele vai passar um X no seu nome.mais se vc for um dos que arrepia na galera e superar , no d em nadas oferecemos pra quem consideramos. (SNOW, entrevista MSN)

    Superar signifca um ato que precisa ser propagado, algumas vezes oferecido para os pi-

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    xadores mais considerados, e o ciberespao o ambiente mais que propcio para essas exibies:

    Honrar a sigla que joga e no usar o seu nome em vo representam regras, que, inclusi-ve, promovem o entendimento de onde, como e com que siglas possvel e permitido realizar o ato da pixao. Forma-se uma aliana horizon-tal que acopla bairros, xarpis e siglas e que, muito embora no se situe, aparentemente, em lugar algum, move-se pela paisagem concreta da cidade e pelos interstcios do ciberespao.

    Bordas entre os espaos fsicos e digitais da pixao

    No campo da linguagem, o ato de pixar um jogo, de curtir um pouco, depois sair para riscar (SNOW). Provavelmente, por se

    colocar no plano da aventura e da inveno de novos nomes, de divulgao das siglas, de outras formas de enunciao de si, a pixao produza toda a emoo e a intensidade de uma disputa. De outro modo, a perspectiva de jogo ressaltada por Huizinga (2001) ultrapassa os li-mites dos torneios, das rivalidades, e assume o plano de um sistema de produo de signos de processos peculiares de signifcao:

    O jogo mais do que um fenmeno fsiolgico ou um refexo psicolgico. Ultrapassa os limites da atividade puramente fsica ou biolgica. uma funo signifcante, isto , encerra um de-terminado sentido. No jogo existe alguma coisa em jogo que transcende as necessidades ime-diatas da vida e confere um sentido ao. Todo jogo signifca alguma coisa. (2001, p. 3-4)Provavelmente, os pixadores movem-se por

    Fonte: Imagem pessoal. Av. Francisco S. Fortaleza-CE. (2012). Para os L.V. de rocha

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    meio do jogo de ultrapassar limites corporais e linhas de segmentao urbana, no movimento de produzir novos planos de signifcao sobre eles mesmos e sobre a cidade. Ao ultrapassar os limites da atividade puramente fsica e biolgica, ao pe-netrar no ciberespao, os nomes criam formas outras de visibilizar os jogos dos signos da pixao.

    Como diz Barthes (1992, p. 51), o signo uma fatia de visualidade, de sonoridade; a signifcao o ato que une signifcante e signifcado, cujo produto o prprio signo. Entre os que formam as siglas da pixao, o jogo tem incio na aventura de riscar nomes, de produzir outros processos de sig-nifcao diante de modos pactuados de vida na paisagem urbana. Para efetuar um outro regime de signos, no jogo de tacar nome, preciso desbravar linhas de fronteira, en-tre alto e baixo, entre longe e perto, entre permitido e proibido.

    Adrenalina, prazer a gostinho de ter seu nome l em cima onde ninguem pegou, o gosto que

    voc tem quando voc vai l e supera um cara de uma galera rival inexplicavel, a adrenalina de subir em um galpo por um poste inexplicavel (SNOW, entrevista via MSN)

    Pixar adrenalina. O que vale o que a pessoa t escrevendo ali na hora, eu vou mais por causa da aventura. Fui a primeira vez e gostei (DEMO WS, 28 anos)Pixar mt irado o corao batendo acelerado;; adrenalina a mil (SCORPION)

    Adrenalina, o gosto da aventura de escrever na hora, de marcar um muro, de pichar num lugar de improvvel acesso, tanto devido altura como por conta da inacessibilidade. Fica marca-da a sigla e amplia-se a notoriedade do pixador. Observa-se, por meio de vrios perfs de pixado-res, tanto no Orkut como no Facebook, fotos e vdeos postados no YouTube que referendam a ousadia do pixador e o gosto deixado pela aven-tura do jogo, como os exemplos acima desta-cados na monografa de Chagas (2012).

    Raposo F.G. (1990). Xarpis de Raposo, Ratinha, Sombra e Gabola19.

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    A imagem comentada pelo pixador Snow T.B., em um bate-papo via MSN:

    Qual exemplo de lugar que algum pegou que mais te chamou ateno? Um prdio no centro perto do IJF que o Cip G.Z.P. pegou. Que ele desceu at o meio do prdio pelos cabos de ao e botou VEM NA TRILHA.

    Para os pixadores, sair do anonimato, ser famoso, nunca ser esquecido uma saga pontilhada por afoitezas e riscos que ultrapas-sam os espaos cerceados da cidade e os limites interpostos pelo corpo orgnico. Por isso mes-mo, o xarpi digital desliza veloz pelo ciberes-pao. Na j mencionada entrevista de Raposo, disponvel no espao da internet provavel-mente de perguntas e repostas elaboradas por

    ele mesmo , uma curiosa indagao expressa novas modalidades de tacar o nome, assim como amplia a natureza dos muros e paredes.

    O qu voc acha dessa era xarpi digital? Muito mais interessante que correr os riscos desnecessrios por uma coisa que as meninas no valorizam.

    O xarpi digital elimina os riscos desneces-srios e profere diante das meninas outro sta-tus para a fgura do pixador. Assim, a demanda de no ser esquecido, de ultrapassar as barreiras do tempo e do espao amplia e d ainda mais visibilidade ao jogo de tacar nomes. No signi-fca dizer, como bem pontuou Simes (2010, p. 24), no livro intitulado Entre a rua e a internet: um estudo sobre o hip hop portugus, que:

    Fonte: Arquivo virtual na rede social Orkut20. Vem na trilha (detalhe)

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    o que se passa na internet s pode ser compre-endido tendo por referncia o que ocorre fora desta (em certa medida, vice-versa) [...] assim, qualquer texto on-line sempre um hipertexto, formado por mltiplas ligaes que nos reme-tem por diferentes circuitos, tanto a nvel inter-no como externo.

    Isso implica traar no apenas as marcas das siglas e o nome do xarpi, como tambm defnir territrios da pixao no ciberespao, no necessariamente acoplados e projetados no ambiente concreto da cidade. O xarpi pode ter sido apagado nos lugares fsicos da cida-de e, mesmo assim, resistir ao efeito do tempo no mbito do ciberespao. Lopes da Silveira (2011, p. 133), ao pesquisar sobre graftes e espao pblico virtual, sinaliza que o grafte extremamente permevel s inovaes tec-nolgicas. Diz ele que a aderncia das mdias deslocaliza socialmente o graftti, conduzindo constituio de redes atravs da internet; em segundo lugar, deslocaliza a imagem-graftti tornando-a virtualmente disponvel, desvincu-lada do espao fsico que a aloja.

    Essa deslocalizao das imagens produz do-bras diferenciadas do que se denomina espao pblico perspectiva j discutida em artigos anteriores (DIGENES; SILVA, 2012) , aquilo que Lopes da Silveira (2011) designa, tambm, como redes dobradas. Essas dobras de espao transpem a geografa urbana e se projetam nos corpos e nos xarpis que se de-senham nos interstcios entre sistemas online e of-line. Como discute Santaella (2007, p. 153), o corpo, cuja perda iminente foi to lastimada, est na realidade se transformando rapidamen-te em um conjunto de extenses ligadas a um mundo cbrido, pautado pela interconexo de redes e sistemas on e of-line.

    A imagem abaixo faz parte do lbum de fotos raras do pixador colecionador Rato M.P, deno-

    minado raridades, com quase 200 fotos. uma homenagem a quem Rato designa no letreiro da foto: O REI!!!!! TANGO ER. Como destaca Chagas (2012, p. 65), j tendo sido riscada h mais de 20 anos. Por isso mesmo, o mundo of-li-ne e on-line interpenetram-se e produzem novas conexes, permeada de feixes de espaos, de um tempo mvel e de corpos hbridos. Nota-se que a distino entre espaos fsicos e digitais tem, tambm, transposto as segmentaes e linhas divisrias entre geraes. Foi muito recorrente nesta pesquisa encontrar pixadores de todas as idades atuando, comumente, interligados s no-vas geraes de pixadores. O depoimento abaixo, de Pango, explicita a natureza mvel e desloca-da dessa superfcie de experincias.

    Pixao ta no sangue, isso ai eu vou fcar velho vou morrer com isso e no tem como apagar mais no. [...] s vezes a gente adrenalina, esquece que tem 37 anos e volta pros 15 anos de novo. (Pango, 37 anos, Sujando e Anarquizando +GDR)

    O espao digital dissipa as fronteiras entre geraes: somem nele as faixas etrias e dis-solvem-se os corpos. A sensao a gente adrenalina transmuda idades e constitui uma disposio corporal em estado permanente de potncia: eu vou fcar velho vou morrer com isso e no tem como apagar mais no. No seu estudo sobre os quartos na era digital, Feixa (2006, p. 82) destaca que os ritos de passagem entre geraes assumem um movimento espi-ral, caracterizados por mecanismos de noma-dismo social e de arritmia temporal.

    O termo gerao @ pretende expressar trs tendncias desse processo: em primeiro lugar, o acesso universal, ainda que no necessariamente generalizado, s novas tecnologias de informa-o e de comunicao; em segundo, a eroso das fronteiras tradicionais entre os sexos e os gne-

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    ros; e, em terceiro, o processo de globalizao cultural, que gera necessariamente novas formas de excluso social em escala planetria (FEIXA, 2006, p. 86).

    De um jeito ou de outro, os pixadores no devir-adrenalina22, lanados na onda da comu-nicao transversal, experimentam a sensao de corpos moldveis, facilmente adaptveis, erodindo fronteiras de classifcao etria, de classe social, entre outras. Como afrma Cane-vacci (2012, p. 54), so os corpos polifnicos e as tecnologias digitais, permutveis por ml-tiplos heterogneos de si. Raposo, j citado no incio deste texto, destaca que a necessidade de tacar nome, de expandir relacionamentos, projeta o pixador, desde o ato inaugural da pi-xao, como lugar de linguagem, de infndveis possibilidades de expresso de si.

    O corpo material do signo o som, as tintas, a grafia no pode existir sem o suporte material que o plasma (SANTA-ELLA, 2007, p. 191-192), e esse suporte, para alm da cidade, do spray, do nome para alm da tela do computador, se traduz no prprio corpo do pixador, condensado no seu xarpi desenhado manualmente e reproduzido digitalmente.

    Entre-cidades: a multido de xarpis digitais

    Cada vez em que vi, li e visitei perfs de pixa-dores, percebi uma ttica, comumente utilizada entre eles, de valer-se das multides para se escon-der e, concomitantemente, apregoar suas lin-guagens s avessas. A multido tanto multiplica

    Fonte: Arquivo virtual de Rato M.P. na rede social Orkut21.

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    imagens como promove, por vezes, uma confuso de sinais, provocando zonas de no viso.

    O jogo de tacar o nome tende a produzir--se, propositadamente, imerso numa multido de signos que formam e cadenciam o cotidiano das grandes metrpoles. Desse mesmo modo, um ar-senal de xarpis, de fotos de pixaes em locais proibidos, de depoimentos em vdeos, de chama-das para reunies ganham desapercebidamente o ciberespao. A ttica criar um mundo fora--dentro dos matizes multicoloridos que povoam e produzem linhas de segmentao no panorama das multides. O sentido apregoar-se, reprodu-zir-se, apoderar-se de todos os lados da cidade at no serem mais vistos, at se destacarem apenas para os participantes que integram o mesmo tor-neio de signos. O jogo traduzir o signo da pi-xao como mais uma pea do tabuleiro urbano, como se a antinorma fzesse parte da ordem. A arena, a mesa de jogo, o crculo mgico, o templo, o palco, a tela, o campo de tnis, o tribunal etc., tm todos a forma e a funo de terrenos de jogos [...] Todos eles so mundos temporrios dentro do mundo habitual (HUIZINGA, 2001, p. 13).

    O jogo cria o inabitual dentro da cadncia turva do cotidiano. Por tal razo, no ciberespa-o, bem mais que no fuxo da multido, os pi-xadores marcam reunies ampliadas, expem seus arquivos de memria e exaltam o valor das assinaturas nas folhinhas das agendas. O tipo de anncio abaixo, a cada evento da galera, ganha as telas virtuais:

    Deia23, ex-pixadora, no vdeo Fuga RM Entrevista DEIA RPM, fala, de uma forma muito tranquila, numa reunio ampliada de pixadores, acerca da importncia da pixao na sua trajetria de vida:

    Eu era muito nova naquela poca, estudei em colgio de freira, de padre, querendo ou no, foi uma maneira de como eu me expressar, conheci grandes pessoas. Era uma forma de manifestar, expressar que a gente no est aqui toa. Dei-xar algo e importante isso que sabe que um delito, mas eu tive que passar por tudo aquilo pra ser o que eu sou hoje, minha personalidade, minha maneira de agir toda foi graas ao que eu passei naquela poca.

    como se o proibido da pixao se ma-nifestasse luz do dia, no frenesi da multido. As palavras de Deia propagam um elogio pi-xao, seu papel na formao da personalidade do pixador, que, ainda que fora, distanciado pelo calendrio do tempo, permanece. Vale o risco de nunca esquecer que a gente no est aqui toa. Esse o ponto nevrlgico da expan-so das prticas da pixao para o ciberespao: a marcao da passagem do indivduo, que, mesmo imerso na guerra do ato de tacar no-mes, se multiplica no jorro da multido, no corao do Imprio.24

    Destacando os histricos, Seco assinala a importncia que teve Slayer, reverenciado pela maioria dos pixadores contatados e conhecido por pessoas que no participam das cenas da pi-xao: faleceu em 2008, por motivo de droga, crack, overdose. Era da Serrinha, cabea e fun-dador da E.D.T. (Esprito das Trevas), dcada de 80. A Av. da Universidade, ponto X dele, onde ele construiu a fama dele. preciso esco-lher um ponto para que a fama se consolide, para que o nome permanea, para que a sigla se distinga no emaranhado das linhas da mem-

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    ria. Apenas assim, tantas outras assinaturas surgiro em busca do destaque. A fnalidade no deixar o nome morrer, produzir um politesmo de selves (CANEVACCI, 2009, p. 234), compor uma cena social que se desloca de forma multilinear (DIGENES; SILVA, 2012, p. 3) e multiplica os movimentos dos pixadores na cidade e no ambiente da internet.

    As agendas,25 ou as denominadas folhi-nhas, condensam e preservam a memria dos nomes que compem a histria de pixao, cada lugar por onde o pixador arrebentou e as siglas que resumem sua passagem nesse mundo. Verifca-se que as folhinhas povoam inmeros perfs do Orkut e arquivos de fotos na linha da vida do Facebook. No geral, o ar-senal de nomes publicado nos perfs, alm de reverenciar os mais considerados na cena, ten-ta manter vivo outros que no mais metem o xarpi. Por isso, perder a agenda com as assina-turas, t-la confscada, representa, tal qual res-salta Scorpion, a seguir, uma perda irreparvel:

    nas reuniao neo povo leva as agendas pra pegar as assinatura dos outro pixadoresai tem vez quando o povo ta voltando pra casa e ta com a agente se a policia pegar eles rasga tudo e bate e vc dps : ai foda por quetem fez que tu tinha uma assinaturade um cara que ja morreu e o cara rasgae tu num pode fazer nd (Scorpion, entrevista via MSN)

    Um pixador que se destaca notado pela quantidade de assinaturas que ganhou de ou-tros pixadores, fundamentalmente dos conside-rados histricos, e que foram a ele dedicadas:

    Perfl de Snow26

    A memria digital dos xarpis realiza uma atualizao e um processo de vivifcao da pixa-o no tempo presente. As imagens que resistem efemeridade do tempo revitalizam o corpo do pixador. Bergson (1999, p. 14) assinala que

    as imagens exteriores infuem sobre a imagem que chamo meu corpo: elas lhe transmitem mo-vimento. E vejo tambm de que maneira este corpo infui sobre as imagens exteriores: ele lhes restitui movimento.

    A multiplicao das folhinhas dos xarpis no ciberespao possibilita que essa matria digi-tal, como um conjunto de imagens, provoque reaes e potencialize o ato de tacar nomes nas paredes, muros, outdoors, marquises, pedras e caladas da cidade no tempo de fruio do pre-sente. o corpo quem maneja e infui na pro-fuso das imagens exteriores. Por isso, como enfatiza Snow, a seguir, preciso dar lugar s len-das no tempo presente, para que se expresse em cada risco o lastro de uma memria.

    Terroristas dos baiross | A mais cruel ! desde 1986 ! ele joga muito nome, arrepia sempre

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    me chama a pakas pra sairvoce pode perguntar a qualquer pessoa quem o RATO TB que eles sabem uma lenda ele.arrepia muito muito mesmo

    Ser cruel signifca resistir diante dos riscos que compem a trajetria de vida do pixador, na guerrilha pela permanncia de imagens, daquele que arrepia muito, muito mesmo. Repetir o xarpi, no mesmo padro, para que a marca se fxe e se eternize. Para que qual-quer pessoa que seja indagada, nesse pacto fe-chado de linguagem, saiba dizer, sem titubear, quem o Rato TB, quem o Raposo, quem o Slayer, quem ...? Que arte essa, que quase sempre considerada suja, prtica ensejada por vndalos, expresso de riscos e rasuras na pai-sagem urbana?

    Partilhas entre arte e pixaoRetomemos Snow, pixador que condensa

    e preserva elementos da histria da pixao de Fortaleza e, ao mesmo tempo, est na ativa. Ao ser indagado sobre a dimenso artstica da pixao, ele responde:

    acho que uma forma de arte diferente.acho que uma maneira de se libertar de tudo que o sistema joga contra a gentea pixao um mundo fechado, onde a ideia no trocado com pessoas comuns mais sim de pixador pra pixadorse eu pixo uma avenida movimentada eu pixo pra outro pixador ver e falar nossa esse cara pe-gou ali. (Entrevista via MSN)

    O sistema joga contra a gente, da o intento de inventar uma outra lngua, um

    mundo fechado de comunicao em meio multido de signos que povoam as cidades. Por isso, para a maioria deles, pouco impor-ta se o pixador considerado ou no artista. Santaella (2007, p. 255), ao refetir sobre mediaes tecnolgicas e suas metforas, diz preferir o uso do termo estticas tecno-lgicas quando se trata da arte nos espaos intersticiais, aqueles que se desenham nas in-terfaces entre a condio fsica e digital. At porque, recorrentemente, os pixadores so indagados pelo mesmo motivo: voc con-sidera, como dizem os jornais, que a pixao enfeia e suja a cidade?

    A cidade j suja em tantos aspectos no acha? no s no visual .acho que uma maneira de expressar a indigna-o em alguns casos alguns pixam para mostrar sua revoltaoutros s pra se destacar na multido pra ganhar fama pra ganhar seu espao. (SNOW)

    Afrmar que a cidade j suja signif-ca dizer que a paisagem urbana est imersa em um emaranhado de marcas, publicidades ofciais e alternativas, sinais de uma intensa poluio visual, que tomam diversos equipa-mentos urbanos como suporte. Para o pixa-dor, destacar-se na multido implica tambm afetar, simultaneamente, instncias na esfera do ciberespao, carregando a prpria sujeira que permeia os espaos concretos das cidades para as redes sociais.

    Levando-se em conta as dobras, j aqui mencionadas, de circuitos e campos de ex-presso de siglas possibilitados pela dimenso fsica e concreta da cidade e do ciberespao, percebe-se que o xarpi digital insere-se num contexto que demanda, ainda bem mais, outras imerses terico-empricas e outras refexes metodolgicas.

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    Santaella (2007, p. 283) adverte que

    [...] no obstante a imensa diversidade de pos-sibilidades, questes e desafos que as estticas tecnolgicas contemporneas apresentam, uma constante est indiscutivelmente sempre presen-te: o carter processual de inacabamento em que o artefato j no existe em uma verso fnal, mas apenas em processos permanentes e cada vez mais acelerados e mutveis de vir a ser.

    Vale ressaltar que a ocupao do pixador no ciberespao no perpassada por nenhuma pretenso de destac-lo como net-artista ou qualquer condio correlata. Quando o pixa-dor cria um perfl no Orkut ou no Facebook, quando publica vdeos no YouTube, no trans-muda o pixo das ruas para uma verso alte-rada por manejo de ferramentas tecnolgicas e por programas e softwares dispostos na inter-net. O pixador simplesmente utiliza-se de um dobra de rede de relacionamentos para dar maior visibilidade aos seus xarpis, siglas e subsiglas, num processo ntido de inacaba-mento, como ressalta Seco:

    O que importa (no xarpi) no o formato, se ele vai juntar as letras demais, ou se a letra vai ser fcil de ler, o que importa ele (pixador) divulgar o nome dele em todo canto, isso vai fazer ele ser conhecido e respeitado. (SECO, set. 2010)

    O que importa a partilha do nome, a mu-tao provocada em outros pixadores pela di-vulgao e visibilidade da sigla no universo das demais siglas, a profuso de outros re-gimes de signos. Como diz Barthes (1984, p. 77), por razo de uma leitura fotogrfca, trata--se de a imagem provocar um interesse, uma fulgurao, um estalo, um pequeno abalo, um satori, a passagem de um vazio (pouco impor-

    ta se o referente irrisrio). a imagem da le-tra que revela o corpo ausente do pixador, seja nas telas da cidade, seja na quadratura do xar-pi digital. Compartilham-se os signos sensveis de uma outra lngua, como explicitou Raposo, no incio deste texto, traspassando o goripe (perigo) do vazio da comunicao no mundo fechado de linguagem.

    Nas trilhas de Rancire (2005, p. 67), ta-car marca no ciberespao pode signifcar uma nova partilha do sensvel. Isso signifca dizer que produzir une ao ato de fabricar o de tor-nar visvel, defne uma nova relao entre fazer e ver. Essa seria a arte da pixao, mais um ru-mor da lngua, mais uma forma de estar em todo canto, na posse de um respeitado nome.

    Notas1. Com a fnalidade de manter o uso do termo nativo,

    comumente utilizado pelos prprios jovens, mantere-mos Pixao, Pixo e Pixador com X.

    2. Parte representativa dessa pesquisa de campo (pre-sencial), com pixadores de Fortaleza, foi realizada por Juliana Chagas na monografa, sendo que a pesquisa no ciberespao foi realizada em parceria. Alm desses dados mais atualizados, durante o meu doutorado, so-bre Cartografas da Cultura e da Violncia: gangues, galeras e o movimento hip hop (1998), e em pesquisa realizada como bolsista do CNPq, Itinerrios de Cor-pos Juvenis: o jogo, o baile e o tatame (2003), detive--me a pesquisar as dinmicas da Pixao em Fortaleza.

    3. Professora doutora do Programa de Ps-Graduao em Sociologia da Universidade Federal do Cear e Coordenadora do Laboratrio das Juventudes-LA-JUS da UFC e, atualmente, Pesquisadora Visitante do Instituto de Cincias Sociais da Universidade de Lisboa.

    4. Disponvel em: . Acesso em: 11 ago. 2012.

    5. Preferimos, neste artigo, suprimir toda uma discusso tanto terica quanto metodolgica acerca do proces-so de construo da etnografa virtual, seus limites e possibilidades, j condensados no texto apresentado

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    no GT 01 Ciberpoltica, Ciberativismo e Cibercul-tura, da ANPOCS, em outubro de 2011, cujo ttulo : Redes sociais e juventude: uma etnografa virtual. Aqui, traaremos apenas linhas bsicas de refexo so-bre o desafo da pesquisa no ciberespao.

    6. Uma ferramenta de internet que signifca messenger system network, ou seja, sistema de mensagens via in-ternet.

    7. Grupo dewritersque pintam em grupo.8. Traduo livre.9. como os portugueses denominam a noo de cam-

    po de pesquisa.10. Disponvel em: 11. Todos os perfs de pixadores pesquisados no Orkut,

    de modo presencial, assim como os vdeos, encon-tram-se em anexo.

    12. Esse espao de existncia para entidades que no tm um lugar fxo, mas podem estar em inmeros lugares, e mesmo cruzando os ares, ao mesmo tempo, chamado ciberespao (SAN-TAELLA, 2007, p. 179).

    13. Representa a imagem que cada um escolhe para vestir o seu perfl.

    14. Disponvel em: .

    15. Xarpi: o codinome do pixador criado numa esttica prpria com letras estilizadas e sobrepostas, a esttica da marca depende da imaginao do pixador. Um sujeito fora do fenmeno da pixao no distingue as letras, muito menos executa a leitura do apelido; Boneco: ou Desenho. A assinatura no se traduz numa palavra, mas num desenho simples executado somente por linhas; letreiro: ou nome. legvel, conseguimos identifcar as letras e possvel a leitura do apelido (CHAGAS, 2012). Juliana Chagas, na sua monografa, indica, tam-bm, que optar por utilizar o termo pichao com x a partir da seguinte justifcativa: a palavra pichao, bem como suas derivaes (pixar, pixo, pixador etc), sero grafadas com x porque dessa forma que a fala dos nativos informam que as utilizam (2012, p. 8). Eu pre-feri utilizar o termo na sua grafa de uso mais universal.

    16. Gria utilizada para identifcar a polcia.17. No foi possvel obter de todos os contatos efetuados,

    presencialmente ou virtualmente, dados relativos faixa etria.

    18. Mesmo contrariando as regras de formatao de tex-tos cientfcos, preferimos preservar os modos como os pixadores apresentaram seus escritos, seja nos bate-

    -papos do MSN, seja nos seus perfs que compem as redes sociais.

    19. Disponvel em: . Acesso em: 22 ago. 2012.

    20. Imagem indisponvel para o livre acesso.21. Disponvel em: . Acesso em: 22 ago. 2012.

    22. No sentido do devir enunciado por Deleuze e Guat-tari, devir no uma evoluo, ao menos que uma evoluo por dependncia e fliao. O devir nada produz por fliao; toda fliao seria imaginria [...] ele da ordem da aliana (1997, p. 19).

    23. Disponvel em: . Acesso em: 5 maio 2012.

    24. De acordo com Hardt e Negri, no livro Multido, Surge agora um poder em rede, uma nova forma de soberania, que tem como seus elementos fundamen-tais, juntamente com as instituies supranacionais, as grandes corporaes capitalistas e outros poderes (2005, p. 10).

    25. Coleo de folhinhas de Rato. M. P. Disponvel em: . Acesso em: 22 ago. 2012.

    26. Disponvel em: . Acesso em: 21 ago. 2012.

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    AnexosPerfs pesquisados e lista de entrevistasPerfs de Pixadores pesquisados http://www.orkut.com.br/Main#Scrapbook?rl=mo&uid=16506895481688960513h t t p : / / w w w. f a c e b o o k . c o m / p e o p l e / Y m - I h u / 100002012022867

    Snow GDR (Garotos de Rua), 21 anosh t t p : / / w w w. o r k u t . c o m . b r / M a i n # P r o f i l e ? uid=6568033446462175046

    Malina GDR, 16 anosh t tp : / /www.o rku t . com.br /Ma in#Pro f i l e ?u id= 15614520718523072867

    Mano TB (Terrorista dos Bairros), 24 anosh t tp : / /www.o rku t . com.br /Ma in#Pro f i l e ?u id= 16045056522846791285

    Mina GDR, 22 anosh t tp : / /www.o rku t . com.br /Ma in#Pro f i l e ?u id= 3490031413673569551

    Mutante MF (Malucos Fobia), 25 anosh t tp : / /www.o rku t . com.br /Ma in#Pro f i l e ?u id= 13257128226095455207

    RATO TB, 28 anosh t t p : / / w w w. o r k u t . c o m . b r / M a i n # P r o f i l e ? uid=14313045527782705969

    Ruge FPX (Fissurados pelo Xarpi), Uns 30 anos ou mais...

    h t t p : / / w w w. o r k u t . c o m . b r / M a i n # P r o f i l e ? uid=12605002190216745606

    Ameaa GDR, 28 anos

    lista de entrevistas

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  • O Signos urbanos juvenis: rotas da piXao no ciberespao| 61

    (realizadas por Juliana Chagas)Tubaro. Pixador de (1995 a 1999) e grafteiro desde

    1999. Entrevista realizada em 2009.Scorpion S.R. Suicidas de Rua. Entrevista realizada

    pelo MSN em: 27 mar. 2010.Snow T.B. Terrorista dos Bairros. Entrevista realizada

    pelo MSN em: 27 mar. 2010.Demo W.S. Wild Street. Comeou com 13, 14 anos.

    Hoje (2010), tem 28 anos. Entrevista realizada no bairro Carlito Pamplona em: 16 set. 2010.

    MALA W.S. Wild Street. Tem 14 anos (2010), come-ou recentemente. Entrevista realizada no bairro Car-lito Pamplona em: 16 set. 2010.

    Sask D.N.G. Detonando no Grafte. Entrevista re-alizada no bairro Carlito Pamplona em: 16 set. 2010.

    Boy L.D.P. Loucos, Delinquentes e Psicopatas, 14 anos. Entrevista realizada no bairro Carlito Pamplona em: 16 set. 2010.

    Snow T.B. Terrorista dos Bairros. Entrevista realizada na reunio dos V.S. no Polo de Lazer da Av. Leste Oeste em: 26 mar. 2011.

    Snow T.B. Terrorista dos Bairros, entrevista realizada pelo MSN em: 21 nov. 2011.

    Pango S.A. Sujando e Anarquizando. Tem 37 anos e comeou na pixao em 1989. Entrevista realizada durante a reunio dos G.D.R., Garotos de Rua, no Cuca da Barra do Cear, em: 4 mar. 2012.

    Seco G.D.R. Garotos de Rua, 32 anos, gerao 90. En-trevista na reunio dos G.D.R., Garotos de Rua, no Cuca da Barra do Cear, em: 4 mar. 2012.

    Fuga R.M. Rebeldes da Madrugada, 35 anos, gerao 90. Entrevista na reunio dos G.D.R., Garotos de Rua, no Cuca da Barra do Cear, em: 4 mar. 2012.

    Canco R.P.M. Rebeldes Protestantes da Madrugada. Depoimento presente no vdeo Fuga RM entrevista Cano RPM. Disponvel em: . Acesso em: 30 abr. 2012.

    Raposo F.G. Feras dos Grafteiros. Entrevista realizada em 30 ago. 2009. Disponvel em: . Acesso em: 5 maio 2012.

    Fotgrafo da galeria Choque Cultural. Disponvel em: . Acesso em: 5 maio 2012.

    Crazy G.F. Depoimento presente no vdeo Fuga RM & AMIGOS.mpg. Disponvel em: . Acesso em: 5 maio 2012.

    Dia R.P.M. Depoimento presente no vdeo: Fuga RM Entrevista DEIA RPM.wmv. Dispon-vel em: http://www.youtube.com/watch?v=F0--tRZigSm4&feature=relmfu>. Acesso em: 5 maio 2012.

    Raposo F.G Feras dos Grafteiros. Depoimen-to presente no vdeo Fuga, RM & AMIGOS.mpg . Disponvel em: . Acesso em: 5 maio 2012.

    Hugo foi BECK E.M. Esquadro Maligno. Entrevista realizada pelo MSN em: 9 maio 2012.

    autora Glria Maria dos Santos Digenes Ps-Doutoranda / ICS-UFC/ ISCTE-IUL

    Recebido em 03/12/2012Aceito para publicao em 09/11/2013

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