30 20 ir 12 48 maos - ?· dois ir maos As fetAc As e o AlcAnce culturAl de umA históriA que nAsceu…

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<ul><li><p>dois ir </p><p>maosAs fAcetAs e o AlcAnce culturAl </p><p>de umA histriA que nAsceu clssicA, Ao conquistAr </p><p>A imAginAo dos leitores e AlcAnAr outrAs </p><p>formAs de linguAgem</p><p>Os </p><p>chei</p><p>ros </p><p>de M</p><p>anau</p><p>s</p><p>Cria</p><p>dor </p><p>e cr</p><p>iatu</p><p>ras</p><p>Louc</p><p>os p</p><p>or li</p><p>tera</p><p>rura</p><p>Um</p><p> rom</p><p>ance</p><p> de </p><p>cont</p><p>exto</p><p>s</p><p>A b</p><p>ela </p><p>poc</p><p>a de</p><p> Man</p><p>aus </p><p>Lite</p><p>ratu</p><p>ras </p><p>da A</p><p>maz</p><p>nia</p><p>Doi</p><p>s em</p><p> dob</p><p>ro</p><p>128</p><p>36 42</p><p>48</p><p>20</p><p>30</p><p>lorenzo rochA, JuliAnA PAes e enrico rochA Dois irmos, 2017</p></li><li><p>9</p><p>artigo</p><p>8</p><p>por Beatriz resende </p><p>Ao fAlAr dA cidAde, obrA mostrA elementos dA culturA dA AmAzniA e, dessA formA, fAlA de todo o brAsil e seduz leitores de outrAs lnguAs, AfirmA pesquisAdorA</p><p>Monique BourscheidDois irmos, 2017 </p></li><li><p>10 11</p><p>artigo</p><p>O ncleO da narrativa O cOnflitO de dOis gmeOs, cOmO em esa e jac, de machadO de assis</p><p>Beatriz resende crtica, pesquisadora, doutora em Literatura comparada e professora titular de Potica do departamento de cincia da Literatura da Faculdade de Letras da universidade Federal do rio de Janeiro (uFrJ)</p><p>sua Cidade Flutuante. O fim da casa que substituda pela loja de quin-quilharias importadas segue para-lelo aos conflitos polticos que cul-minam com o golpe de 1964 e a ocupao da cidade por militares.</p><p>No se trata, porm, nem de ro-mance poltico nem de depoi-mento, nem mesmo memria, ainda que de tudo isso se trate. o debate em torno da tica e do afeto, com suas dificuldades, que atravessa a narrativa.</p><p>O ncleo da narrativa o confli-to entre dois irmos gmeos que talvez j brigassem desde o incio da concepo do romance, como Pedro e Paulo, os gmeos rivais de Esa e Jac, de Machado de Assis, obra que serve de provoca-o inicial, brigavam ainda no ventre da me.</p><p>Se Yaqub independente, capaz de vencer sozinho na vida pelo prprio trabalho, tambm frio e mesquinho. Se Omar um es-troina, violento e egosta, tam-bm o orador eloquente que toma como suas as palavras de Laval, o poeta assassinado.</p><p>ois irmos o segun-do romance de Mil-ton Hatoum, lana-do 11 anos depois da publicao de Relato de um certo Oriente, </p><p>obra saudada com entusiasmo pela crtica literria, verdadeiro marco da literatura brasileira contempo-rnea. Com seu primeiro livro, Ha-toum mostrava a ns, brasileiros, que tambm aqui o Oriente fora uma inveno do Ocidente.</p><p>O longo perodo de criao de Dois irmos j revela a importncia que o autor d elaborao dos perso-nagens, do cenrio, de cada par-grafo, de cada frase, observao das cores, dos gostos, dos cheiros.</p><p>Dois irmos conta a histria de uma famlia de imigrantes libaneses que se estabelece e cria sua descendn-cia em Manaus durante o sculo XX e vai at a decadncia da fam-lia, dos laos familiares, o desapa-recimento da cidade antiga, com </p><p>dximo e depois encara forte o que for preciso. Nael, caracolzinho entre pedregulhos, junta em si as duas culturas, vive entre duas di-ferentes classes sociais e, sobretu-do, move-se entre a casa e toda a cidade, at as fronteiras, pelos rios, pelas casas pobres ou ricas. O bas-tardo o mais completo habitan-te da cidade com seus contrastes.</p><p>Levar Dois irmos TV espalhar por todo o pas uma histria que falando de Manaus fala de todo o Brasil. Fala dos que foram respon-sveis por crimes, mas tambm dos que nos deram esperanas, mostra a todos o que h de desco-nhecido, cheiros, gostos, frutas, rvores, pssaros, em toda a cul-tura indgena nessa Amaznia que seduz leitores de todas as lnguas em que as narrativas de Milton Hatoum so hoje traduzidas.</p><p>Ficar o desafio de usar toda a capacidade que o diretor Luiz Fer-nando Carvalho j demonstrou na transposio de uma linguagem para outra para traduzir em ima-gens marcas nicas da narrativa: o cheiro de arnica, banha de cacau e leo no corpo de Omar; a nhaca de pelame de jaguar; o cheiro de uma natureza morta que teima em renascer; o cheiro de Zana e seu braseiro, cheiro de jasmim; o cheiro do amanhecer e da folha-gem mida; o cheiro de cupuau pesado e maduro; o cheiro de lodo que empestava as praias do iga-rap; os cheiros misturados, de essncias daqui e de l, que en-chiam a casa. </p><p>Os gmeos se opem, divergem em tudo, mas perigosamente coin-cidem em seus amores. No ape-nas uma mulher que objeto da disputa afetiva, so todas. Antes de mais nada a me, a preferir sem-pre o mais prximo, ao alcance de seus carinhos. Mas tambm a irm, que assume o papel que deveria ser destinado aos rapazes e toca o negcio da famlia. E Domingas, a ndia que se torna me do neto de Halim, o patriarca consumido pela paixo carnal e arrebatadora pela mulher, Zana, a me. </p><p>Domingas, rf da miservel con-dio indgena na Amaznia, a companheira fiel, a protetora, ser-vil mas digna, e tem a sensibili-dade de artista a esculpir suas madeiras no quarto dos fundos.</p><p>Na casa da famlia, o rabe falado nos momentos de crise ou de pai-xo, o pequeno altar rene Zana e Domingas em oraes. Mas so mesmo as comidas com seus gos-tos e cheiros que parecem dominar o cenrio, marcando unies e se-paraes, saboreadas na felicidade, deixadas de lado nas separaes.</p><p>O narrador, cujo nome, no roman-ce, s saberemos no final, primei-ro espreita, em seguida se faz pr-</p></li><li><p>criador ecriaturas</p><p>por milton hatoumentre aspas</p><p>12 13</p><p>Aspectos histricos e psicolgicos dA trAmA so debAtidos entre Autor do livro e elenco dA minissrie</p><p>o romance Dois irmos foi o segundo da carreira de Milton Hatoum. Lanado em 2000, o livro chamou ateno da rotei-rista Maria Camargo no ano se-guinte. Desde ento, a adaptao </p><p>da obra para a TV passou por um processo que incluiu conversas por seis anos com o diretor Luiz Fernando Carvalho. Em 2014, durante a preparao da minissrie, o autor se encontrou com o elenco no Rio de Janeiro para uma conversa sobre aspectos que envolvem a cons-truo da obra e dos personagens. A seguir, extratos das falas do escritor. </p><p> Cau Reymond Dois irmos, 2017 </p></li><li><p>14</p><p>entre aspas</p><p>milton hatoum escritor, nascido em manaus. Formado em arquitetura pela universidade de So Paulo (uSP), estudou literatura comparada na universidade Sorbonne (Paris III) e foi professor de literatura francesa na universidade Federal do amazonas. autor de relato de um certo oriente, Dois irmos, Cinzas do Norte e rfos do Eldorado</p><p>O ano de 1998 foi de ruptura na minha vida. Tinha publicado um romance [Relato de um certo Oriente] em 1989 e, quando voltei da Frana em 1984, fiquei em Manaus, onde le-cionava na Universidade Federal do Amazonas. E no conseguia escrever outro romance. As coisas em Manaus comearam a dar errado. E quando alguma coisa comea a dar errado, surge o momento da es-crita. Transcender a vida atravs da linguagem... </p><p>Em 1997, perdi pessoas muito queridas, minha relao com o trabalho na universidade se tor-nou problemtica, eu no tinha mais tempo para ler e escrever. Eu queria escrever um ro-mance que estava mais ou menos armado na minha cabea, era uma questo latente, desde a leitura de Esa e Jac, de Machado de Assis. E esse romance era o Dois irmos. Deixei minha cidade e decidi no ser mais professor univer-sitrio. Eu dava aula de </p><p>A construo do narrador foi a mais difcil. O narrador uma questo central da prosa de fico, em qualquer gnero: romance, conto, novela, teatro. Na construo do narrador do romance, pensei no filho de uma ndia com um dos irmos. Um narrador que no fosse de uma classe social privilegiada. Um dos meninos ou curumins com os quais convivi na escola pbli-ca, o Colgio Estadual do Amazonas, antigo Pedro II. Sem essa convivncia, no sei se teria construdo esse narrador. Nael est numa es-pcie de limiar, na fronteira social, pois ele um filho bastardo numa famlia qual ele pertence e no pertence ao mesmo tempo. o neto do Halim alguns acham que ele filho do Halim, mas isso apenas mais uma conjetura, matria de discusso. Ele foi salvo pelo av, que o esti-mulou a estudar. Nas primeiras verses, esse narrador foi um problema porque ele testemu-nhava esse drama familiar a distncia. Meu editor e mais dois ou trs leitores fizeram essa crtica, achavam que o narrador no se envolvia muito nessa histria, e que o romance ganharia fora dramtica se Nael fosse mais presente, mais </p><p>atuante nas palavras, nos atos, no pensamento. Agora, quando voc muda o tom e a posio do narrador e a relao dele com as outras perso-nagens, tem de mudar as 270 pginas. Esse narrador tinha de ser o observador e ao mesmo tempo uma personagem mais ativa. Tive de reescrever o manuscrito e tentar dar mais for-a a este narrador e encontrar a voz dele, a voz da Domingas e das outras personagens. Eu teria que respeitar as origens de Nael, que no poderia ser um narrador muito erudito, de tom elevado, mas tambm no seria um narrador inculto: ele tem uma formao intelectual e, mais importante ainda, tem uma sensibilidade para observar, espreitar e depois elaborar no pensamento essas observaes. Nael d voz ao passado dos outros e dele mesmo. Ele o por-ta-voz da memria da tribo, a voz de uma das verses possveis da histria desse cl em de-composio. Encontrar a voz desse narrador foi o maior desafio, porque tudo depende dessa voz, da atitude dela diante dos outros. Traduzir os outros num pequeno mundo paralelo, in-ventado, uma das tarefas do romancista. </p><p>Na</p><p>rr</p><p>ati</p><p>va</p><p>GN</p><p>ese</p><p>lngua e literatura francesa e tinha uma carga horria pesada, que me impedia de ler. E es-crever, antes de mais nada. Sem tempo para ler, perdia o nimo para escrever. Porque a maior parte do meu tempo dedicado lei-tura, e o que escrevo depende disso. Esbocei o Dois irmos em Manaus e em 1998 me mu-dei para So Paulo.</p><p>Sem nenhum exagero, durante quase dois anos escrevi todos os dias. Por alguma superstio ou algum mistrio, eu achava que essa hist-ria de Halim, Zana e seus filhos me libertaria de alguma coisa, uma angstia pesada... Um movimento, uma agitao do passado em di-reo ao presente. Eu queria me libertar disso, enfrentar esse diabo que me provocava, e a inveno uma forma de soltar todas as amar-ras, os fantasmas, a opresso de fora e de den-tro. Isso aconteceu quando escrevi o livro; depois aconteceu uma coisa inesperada: pas-sei a viver, modestamente, de literatura. </p><p>antonIo FagundeS (HalIm) Dois irmos, 2017</p></li><li><p>16 17</p><p>entre aspas</p><p>seN</p><p>tid</p><p>o h</p><p>ist</p><p>ric</p><p>o</p><p>per</p><p>soN</p><p>aG</p><p>eNsNo esboo do romance, a decadncia da famlia </p><p>e a da cidade estavam juntas. A Manaus de Dois irmos est sendo destruda aos poucos. Halim perde a mulher, o amor de Zana; ao mesmo tempo perde os amigos e o espao afetivo de Manaus, como a Cidade Flutuante, um bairro popular com casas de madeira, construdo sobre toras e passarelas nas guas do rio Negro. Os sobrados neoclssicos e art-nouveau vo sendo demolidos, e a transformao que est aconte-cendo no interior dessa famlia tambm acon-tece em Manaus e no Brasil. So os anos da di-tadura. O quadro histrico no foi enfatizado porque no um romance histrico, mas tem cenas, como a do assassinato do poeta e profes-sor Laval, que so metforas da degradao do ensino pblico e da dificuldade de ser artista naquele perodo da nossa histria. Pensar na poesia e na arte no meio daquela brutalidade era uma questo. Por isso, para mim, a cena do assassinato de Laval e, depois, a cena em que Omar l um poema no coreto da praa so uma encenao do luto, mas tambm de resistncia. O sentido histrico est presente nessa cena. </p><p>De um modo geral, a gente tende a fazer uma relao direta entre a biografia do autor e as personagens. E no assim. Muita coisa veio das leituras cannicas, dos textos sagrados, que so para mim textos literrios; dos ro-mances, alguns do sculo XIX; de alguns mitos amerndios, que tm histrias de gmeos rivais; para algumas tribos uma espcie de maldio ter filhos gmeos. Eu quis enfatizar a loucura da me, porque no fundo isso, se Zana fosse uma me normal no caberia num romance. A literatura surge com a paixo, e a paixo o momento do desequilbrio, e o desequilbrio conduz ao pathos, catstrofe. Mas, alm dessa questo da me, eu pensei em criticar ou pelo menos abordar dois mitos brasileiros: o primeiro o lado extico da Amaznica e o segundo, o do Oriente extico. Falar de um modo realista da vida familiar em Manaus e de uma famlia libanesa, rabe, sem cair no exotismo. Outra coisa que quis desconstruir ou ironizar foi o mito de So Pau-lo como locomotiva do Brasil, na figura do Yaqub. Quem mora em So Paulo escuta essas </p><p>am</p><p>az</p><p>Nia</p><p> e o</p><p>rie</p><p>Nte</p><p>Antes de comear a escrever, penso em cada personagem. A palavra inglesa para persona-gem diz muito: character. Qual o carter des-sa pessoa? Que mscara ela vai usar para ex-pressar seu modo de ser, que pode ser s o modo de ser aparente da vem a personagem caricatural. Ou pode ser uma caracterizao interior, o que sempre mais difcil e mais desejvel. Para Dois irmos, outra grande di-ficuldade foi no tornar cada irmo o bem e o mal... Eles vo se transformando ao longo do livro, um vai ficando o outro e vice-versa. Um pode ser o avesso do outro... Pensei nesse es-pelhamento: a fuso de um irmo no outro e as diferenas entre eles. Queria, com essa con-fuso, dar mais espessura, mais profundidade psicolgica a cada irmo. </p><p>coisas... Mas a cidade e seu poder econmico, industrial, foram construdos por todos: pau-listas, migrantes brasileiros de todas as regies, migrantes estrangeiros que se tornaram bra-sileiros. Pessoas da minha famlia que migra-ram para So Paulo se tornaram mais locomo-tivas que a prpria locomotiva, assimilaram esse discurso de que So Paulo move o Brasil. Tentei desmistificar essa polarizao, esse embate entre Yaqub, o engenheiro exitoso, e Omar, o dissipador da provncia... O embate entre o civilizado, com muitas aspas, e o </p><p>primitivo, tambm muitas aspas. Essa dico-tomia no existe, uma ideologia negativa </p><p>sobre os outros. Pode ser o outro do Amazonas, o outro sertanejo, nordes-tino, indgena, negro... Os brasileiros so mestios h sculos, mas muitos desprezam esses outros, que fazem parte constitutiva da nossa sociedade. Da a escolha do narrador, uma es-colha tica, mas no ideolgica. Nael um mestio, filho de uma ndia com um brasileiro de origem rabe. E ele, Nael, ser a memria da tribo. </p><p>Cau Reymond (yaqub) e bRbaRa evanS (lvIa)Dois irmos, 2017</p></li><li><p>18 19</p><p>entre aspas</p><p>A maior transgresso moral, fsica e simblica da famlia se d atravs da relao incestuosa de Rnia com o sobrinho (ou meio-irmo) Nael. um momento em que ela rompe com um tabu que universal. E para fazer justia ao [escritor] Raduan Nassar... Quando ele leu a primeira verso, meio crua ainda, disse uma coisa que foi fundamental: o narrador tinha um certo pendor afetivo por um dos irmos. Na aproximao do fim, ele quase que ficava enlevado com um dos irmos. Mas o Raduan observou que, para fazer sentido e dar mais ambiguidade a esse mistrio da paternidade e dar mais fora ao narrador Nael, eu no devia aproxim-lo de nenhum dos gmeos. Eu o deixaria no fundo da casa escrevendo as suas memrias, para dar mais dignidade a ele, uma solido radical. Acho que Raduan estava cer-to. Porque no fazia mesmo sentido o narrador ser mais afetuoso com um dos gmeos, ou ser mais cmplice... A dvida moral que percor-re quase todo o livro j no o atormenta, ele tinha superado isso pela memria, pela lin-guagem, pelo trabalho, pela vida... Aprender a viver que o viver mesmo, diz Riobaldo no Grande serto: veredas. </p><p>tab</p><p>u u</p><p>Niv</p><p>ersa</p><p>l</p><p>ro</p><p>ma</p><p>Nce</p><p> de </p><p>for</p><p>ma</p><p>o</p><p>estr</p><p>utu</p><p>ra</p><p>s</p><p>Goethe e outros grandes escritores, Flaubert, Balzac, Stendhal, traba-lharam com romances de forma-o ou de aprendizagem, que so temas universais. Eu os reli muito. Minha inteno era escrever ao menos um romance de formao, e acabei escrevendo dois, pois o Cinzas do Norte vai nessa direo. Esse tipo de romance realista narra um drama de famlia, recortado no tempo e no espao, em que o narrador conta a histria da sua vida, que problemtica, e as etapas que ele vai queimando: vai deixando de ser ingnuo, e, na passagem da juventude maturidade, as experincias se somam, se acumulam: o amor, a morte dos amigos e parentes, o conhecimen-to das coisas, a conscincia de estar no mun-do, a desiluso. Tentei construir meu roman-ce de formao caboclo, modesto, naquele pequeno lugar, mas com personagens que fossem crveis, convincentes e com alguma complexidade. Essa experincia da formao, que a experincia da vida, da passagem do tempo, importante para quem escreve fico. Se um jovem escritor de 30 anos no teve ain-da uma experincia das decepes, das gran-des iluses que vo se perdendo, difcil es-crever. O que eu tentei foi dar forma literria </p><p>Eu s comeo a escrever quando tenho uma intuio das ltimas cenas. Comeo pelo fim e vou at as origens, fazendo a travessia sinuosa do romance. Depois que voc escreve, as coisas vo mudando, como na filmagem e na vida. O Cinzas do Norte demorou cinco anos. Quando o terminei, eu tinha um filho, minha me tinha morrido. O romance a arte da pacincia. Como esculpir com argila, voc suja as mos e comea a moldar uma personagem, em tenso crescen-te com as outras, at chegar quilo que Arist-teles chamava de anagnrise, que uma es-pcie de esclarecimento, de reconhecimento ou revelao de algo que estava escondido, mas latente. A morte de Halim o momento em que se esclarece tudo o que estava por trs. A fam-lia est esfacelada, somando mortes reais e sim-blicas, e a cidade est morrendo para Halim. E depois disso o caminho para a agonia, os gran-des conflitos que terminam no trgico, que o mundo sem sada. Na tragdia no h sada pos-svel, o duelo entre os dois irmos, a agresso violentssima do Omar e depois a morte da me, narrada na abertura do romance. Mas entendo que para um filme na TV talvez seja mais forte deixar a morte da matriarca para o fim... </p><p>a uma experincia de vida, que passava tam-bm pela observao de Manaus, do interior do Amazonas, das ndias e caboclas que eu vi padecer, dos curumins que eram moleques de recados, da pequena burguesia e da elite ma-nauara, uma sociedade que tinha sado do ciclo da borracha e vivia numa cidade estag-nada desde 1915, espera de alguma coisa. Tracei um arco temporal longo, de 40 anos, em que Manaus e Belm ficaram adormecidas at o advento da Zona Franca em 1967, quando a cidade assume uma espcie de protagonismo regional por causa das indstrias de produtos eletrnicos e da reativao do comrcio, ser-vios etc. A chegada dos aventureiros sim-bolizada pelo indiano Roshiram... </p><p>elIane gIaRdInI (Zana)Dois irmos, 2017 </p></li><li><p>2120</p><p>entrevista</p><p>RecRiaR o tempo e a memRia contidos no Romance foi o maioR desafio da minissRie Dois irmos, constatam o autoR milton Hatoum, a RoteiRista maRia camaRgo e o diRetoR luiz feRnando caRvalHo</p><p>Loucos por Literatura</p><p>com Luiz Fernando CarvaLho, MiLton hatouM e Maria CaMargo</p></li><li><p>22 23</p><p>entrevista</p><p>a transformao do romance Dois irmos em minissrie , oficial-mente, um projeto gestado h 14 anos. Desde que a roteirista Maria Camargo sentiu o impac-to da leitura de Milton Hatoum. </p><p>A ideia, no entanto, de alguma maneira respi-rava antes de o livro ser lanado, desde que o diretor Luiz Fernando Carvalho conheceu Hatoum ao apresentar o filme Lavoura arcaica. </p><p>H famlias espirituais, em que uma coisa leva a outra, diz o diretor. A paixo por literatura irmana os espritos mesmo em desafios com-plexos como o de adaptar para a TV uma saga que atravessa dcadas. A histria enreda con-flitos sutis e exige reconstituio de pocas distin