30 20 ir 12 48 maos - ?· dois ir maos As fetAc As e o AlcAnce culturAl de umA históriA que nAsceu…

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  • dois ir

    maosAs fAcetAs e o AlcAnce culturAl

    de umA histriA que nAsceu clssicA, Ao conquistAr

    A imAginAo dos leitores e AlcAnAr outrAs

    formAs de linguAgem

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    lorenzo rochA, JuliAnA PAes e enrico rochA Dois irmos, 2017

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    artigo

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    por Beatriz resende

    Ao fAlAr dA cidAde, obrA mostrA elementos dA culturA dA AmAzniA e, dessA formA, fAlA de todo o brAsil e seduz leitores de outrAs lnguAs, AfirmA pesquisAdorA

    Monique BourscheidDois irmos, 2017

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    artigo

    O ncleO da narrativa O cOnflitO de dOis gmeOs, cOmO em esa e jac, de machadO de assis

    Beatriz resende crtica, pesquisadora, doutora em Literatura comparada e professora titular de Potica do departamento de cincia da Literatura da Faculdade de Letras da universidade Federal do rio de Janeiro (uFrJ)

    sua Cidade Flutuante. O fim da casa que substituda pela loja de quin-quilharias importadas segue para-lelo aos conflitos polticos que cul-minam com o golpe de 1964 e a ocupao da cidade por militares.

    No se trata, porm, nem de ro-mance poltico nem de depoi-mento, nem mesmo memria, ainda que de tudo isso se trate. o debate em torno da tica e do afeto, com suas dificuldades, que atravessa a narrativa.

    O ncleo da narrativa o confli-to entre dois irmos gmeos que talvez j brigassem desde o incio da concepo do romance, como Pedro e Paulo, os gmeos rivais de Esa e Jac, de Machado de Assis, obra que serve de provoca-o inicial, brigavam ainda no ventre da me.

    Se Yaqub independente, capaz de vencer sozinho na vida pelo prprio trabalho, tambm frio e mesquinho. Se Omar um es-troina, violento e egosta, tam-bm o orador eloquente que toma como suas as palavras de Laval, o poeta assassinado.

    ois irmos o segun-do romance de Mil-ton Hatoum, lana-do 11 anos depois da publicao de Relato de um certo Oriente,

    obra saudada com entusiasmo pela crtica literria, verdadeiro marco da literatura brasileira contempo-rnea. Com seu primeiro livro, Ha-toum mostrava a ns, brasileiros, que tambm aqui o Oriente fora uma inveno do Ocidente.

    O longo perodo de criao de Dois irmos j revela a importncia que o autor d elaborao dos perso-nagens, do cenrio, de cada par-grafo, de cada frase, observao das cores, dos gostos, dos cheiros.

    Dois irmos conta a histria de uma famlia de imigrantes libaneses que se estabelece e cria sua descendn-cia em Manaus durante o sculo XX e vai at a decadncia da fam-lia, dos laos familiares, o desapa-recimento da cidade antiga, com

    dximo e depois encara forte o que for preciso. Nael, caracolzinho entre pedregulhos, junta em si as duas culturas, vive entre duas di-ferentes classes sociais e, sobretu-do, move-se entre a casa e toda a cidade, at as fronteiras, pelos rios, pelas casas pobres ou ricas. O bas-tardo o mais completo habitan-te da cidade com seus contrastes.

    Levar Dois irmos TV espalhar por todo o pas uma histria que falando de Manaus fala de todo o Brasil. Fala dos que foram respon-sveis por crimes, mas tambm dos que nos deram esperanas, mostra a todos o que h de desco-nhecido, cheiros, gostos, frutas, rvores, pssaros, em toda a cul-tura indgena nessa Amaznia que seduz leitores de todas as lnguas em que as narrativas de Milton Hatoum so hoje traduzidas.

    Ficar o desafio de usar toda a capacidade que o diretor Luiz Fer-nando Carvalho j demonstrou na transposio de uma linguagem para outra para traduzir em ima-gens marcas nicas da narrativa: o cheiro de arnica, banha de cacau e leo no corpo de Omar; a nhaca de pelame de jaguar; o cheiro de uma natureza morta que teima em renascer; o cheiro de Zana e seu braseiro, cheiro de jasmim; o cheiro do amanhecer e da folha-gem mida; o cheiro de cupuau pesado e maduro; o cheiro de lodo que empestava as praias do iga-rap; os cheiros misturados, de essncias daqui e de l, que en-chiam a casa.

    Os gmeos se opem, divergem em tudo, mas perigosamente coin-cidem em seus amores. No ape-nas uma mulher que objeto da disputa afetiva, so todas. Antes de mais nada a me, a preferir sem-pre o mais prximo, ao alcance de seus carinhos. Mas tambm a irm, que assume o papel que deveria ser destinado aos rapazes e toca o negcio da famlia. E Domingas, a ndia que se torna me do neto de Halim, o patriarca consumido pela paixo carnal e arrebatadora pela mulher, Zana, a me.

    Domingas, rf da miservel con-dio indgena na Amaznia, a companheira fiel, a protetora, ser-vil mas digna, e tem a sensibili-dade de artista a esculpir suas madeiras no quarto dos fundos.

    Na casa da famlia, o rabe falado nos momentos de crise ou de pai-xo, o pequeno altar rene Zana e Domingas em oraes. Mas so mesmo as comidas com seus gos-tos e cheiros que parecem dominar o cenrio, marcando unies e se-paraes, saboreadas na felicidade, deixadas de lado nas separaes.

    O narrador, cujo nome, no roman-ce, s saberemos no final, primei-ro espreita, em seguida se faz pr-

  • criador ecriaturas

    por milton hatoumentre aspas

    12 13

    Aspectos histricos e psicolgicos dA trAmA so debAtidos entre Autor do livro e elenco dA minissrie

    o romance Dois irmos foi o segundo da carreira de Milton Hatoum. Lanado em 2000, o livro chamou ateno da rotei-rista Maria Camargo no ano se-guinte. Desde ento, a adaptao

    da obra para a TV passou por um processo que incluiu conversas por seis anos com o diretor Luiz Fernando Carvalho. Em 2014, durante a preparao da minissrie, o autor se encontrou com o elenco no Rio de Janeiro para uma conversa sobre aspectos que envolvem a cons-truo da obra e dos personagens. A seguir, extratos das falas do escritor.

    Cau Reymond Dois irmos, 2017

  • 14

    entre aspas

    milton hatoum escritor, nascido em manaus. Formado em arquitetura pela universidade de So Paulo (uSP), estudou literatura comparada na universidade Sorbonne (Paris III) e foi professor de literatura francesa na universidade Federal do amazonas. autor de relato de um certo oriente, Dois irmos, Cinzas do Norte e rfos do Eldorado

    O ano de 1998 foi de ruptura na minha vida. Tinha publicado um romance [Relato de um certo Oriente] em 1989 e, quando voltei da Frana em 1984, fiquei em Manaus, onde le-cionava na Universidade Federal do Amazonas. E no conseguia escrever outro romance. As coisas em Manaus comearam a dar errado. E quando alguma coisa comea a dar errado, surge o momento da es-crita. Transcender a vida atravs da linguagem...

    Em 1997, perdi pessoas muito queridas, minha relao com o trabalho na universidade se tor-nou problemtica, eu no tinha mais tempo para ler e escrever. Eu queria escrever um ro-mance que estava mais ou menos armado na minha cabea, era uma questo latente, desde a leitura de Esa e Jac, de Machado de Assis. E esse romance era o Dois irmos. Deixei minha cidade e decidi no ser mais professor univer-sitrio. Eu dava aula de

    A construo do narrador foi a mais difcil. O narrador uma questo central da prosa de fico, em qualquer gnero: romance, conto, novela, teatro. Na construo do narrador do romance, pensei no filho de uma ndia com um dos irmos. Um narrador que no fosse de uma classe social privilegiada. Um dos meninos ou curumins com os quais convivi na escola pbli-ca, o Colgio Estadual do Amazonas, antigo Pedro II. Sem essa convivncia, no sei se teria construdo esse narrador. Nael est numa es-pcie de limiar, na fronteira social, pois ele um filho bastardo numa famlia qual ele pertence e no pertence ao mesmo tempo. o neto do Halim alguns acham que ele filho do Halim, mas isso apenas mais uma conjetura, matria de discusso. Ele foi salvo pelo av, que o esti-mulou a estudar. Nas primeiras verses, esse narrador foi um problema porque ele testemu-nhava esse drama familiar a distncia. Meu editor e mais dois ou trs leitores fizeram essa crtica, achavam que o narrador no se envolvia muito nessa histria, e que o romance ganharia fora dramtica se Nael fosse mais presente, mais

    atuante nas palavras, nos atos, no pensamento. Agora, quando voc muda o tom e a posio do narrador e a relao dele com as outras perso-nagens, tem de mudar as 270 pginas. Esse narrador tinha de ser o observador e ao mesmo tempo uma personagem mais ativa. Tive de reescrever o manuscrito e tentar dar mais for-a a este narrador e encontrar a voz dele, a voz da Domingas e das outras personagens. Eu teria que respeitar as origens de Nael, que no poderia ser um narrador muito erudito, de tom elevado, mas tambm no seria um narrador inculto: ele tem uma formao intelectual e, mais importante ainda, tem uma sensibilidade para observar, espreitar e depois elaborar no pensamento essas observaes. Nael d voz ao passado dos outros e dele mesmo. Ele o por-ta-voz da memria da tribo, a voz de uma das verses possveis da histria desse cl em de-composio. Encontrar a voz desse narrador foi o maior desafio, porque tudo depende dessa voz, da atitude dela diante dos outros. Traduzir os outros num pequeno mundo paralelo, in-ventado, uma das tarefas do romancista.

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    lngua e literatura francesa e tinha uma carga horria pesada, que me impedia de ler. E es-crever, antes de mais nada. Sem tempo para ler, perdia o nimo para escrever. Porque a maior parte do meu tempo dedicado lei-tura, e o que escrevo depende disso. Esbocei o Dois irmos em Manaus e em 1998 me mu-dei para So Paulo.

    Sem nenhum exagero, durante quase dois anos escrevi todos os dias. Por alguma superstio ou algum mistrio, eu achava que essa hist-ria de Halim, Zana e seus filhos me libertaria de alguma coisa, uma angstia pesada... Um movimento, uma agitao do passado em di-reo ao presente. Eu queria me libertar disso, enfrentar esse diabo que me provocava, e a inveno uma forma de soltar todas as amar-ras, os fantasmas, a opresso de fora e de den-tro. Isso aconteceu quando escrevi o livro; depois aconteceu uma coisa inesperada: pas-sei a viver, modestamente, de literatura.

    antonIo FagundeS (HalIm) Dois irmos, 2017

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    eNsNo esboo do romance, a decadncia da famlia

    e a da cidade estavam juntas. A Manaus de Dois irmos est sendo destruda aos poucos. Halim perde a mulher, o amor de Zana; ao mesmo tempo perde os amigos e o espao afetivo de Manaus, como a Cidade Flutuante, um bairro popular com casas de madeira, construdo sobre toras e passarelas nas guas do rio Negro. Os sobrados neoclssicos e art-nouveau vo sendo demolidos, e a transformao que est aconte-cendo no interior dessa famlia tambm acon-tece em Manaus e no Brasil. So os anos da di-tadura. O quadro histrico no foi enfatizado porque no um romance histrico, mas tem cenas, como a do assassinato do poeta e profes-sor Laval, que so metforas da degradao do ensino pblico e da dificuldade de ser artista naquele perodo da nossa histria. Pensar na poesia e na arte no meio daquela brutalidade era uma questo. Por isso, para mim, a cena do assassinato de Laval e, depois, a cena em que Omar l um poema no coreto da praa so uma encenao do luto, mas tambm de resistncia. O sentido histrico est presente nessa cena.

    De um modo geral, a gente tende a fazer uma relao direta entre a biografia do autor e as personagens. E no assim. Muita coisa veio das leituras cannicas, dos textos sagrados, que so para mim textos literrios; dos ro-mances, alguns do sculo XIX; de alguns mitos amerndios, que tm histrias de gmeos rivais; para algumas tribos uma espcie de maldio ter filhos gmeos. Eu quis enfatizar a loucura da me, porque no fundo isso, se Zana fosse uma me normal no caberia num romance. A literatura surge com a paixo, e a paixo o momento do desequilbrio, e o desequilbrio conduz ao pathos, catstrofe. Mas, alm dessa questo da me, eu pensei em criticar ou pelo menos abordar dois mitos brasileiros: o primeiro o lado extico da Amaznica e o segundo, o do Oriente extico. Falar de um modo realista da vida familiar em Manaus e de uma famlia libanesa, rabe, sem cair no exotismo. Outra coisa que quis desconstruir ou ironizar foi o mito de So Pau-lo como locomotiva do Brasil, na figura do Yaqub. Quem mora em So Paulo escuta essas

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    Antes de comear a escrever, penso em cada personagem. A palavra inglesa para persona-gem diz muito: character. Qual o carter des-sa pessoa? Que mscara ela vai usar para ex-pressar seu modo de ser, que pode ser s o modo de ser aparente da vem a personagem caricatural. Ou pode ser uma caracterizao interior, o que sempre mais difcil e mais desejvel. Para Dois irmos, outra grande di-ficuldade foi no tornar cada irmo o bem e o mal... Eles vo se transformando ao longo do livro, um vai ficando o outro e vice-versa. Um pode ser o avesso do outro... Pensei nesse es-pelhamento: a fuso de um irmo no outro e as diferenas entre eles. Queria, com essa con-fuso, dar mais espessura, mais profundidade psicolgica a cada irmo.

    coisas... Mas a cidade e seu poder econmico, industrial, foram construdos por todos: pau-listas, migrantes brasileiros de todas as regies, migrantes estrangeiros que se tornaram bra-sileiros. Pessoas da minha famlia que migra-ram para So Paulo se tornaram mais locomo-tivas que a prpria locomotiva, assimilaram esse discurso de que So Paulo move o Brasil. Tentei desmistificar essa polarizao, esse embate entre Yaqub, o engenheiro exitoso, e Omar, o dissipador da provncia... O embate entre o civilizado, com muitas aspas, e o

    primitivo, tambm muitas aspas. Essa dico-tomia no existe, uma ideologia negativa

    sobre os outros. Pode ser o outro do Amazonas, o outro sertanejo, nordes-tino, indgena, negro... Os brasileiros so mestios h sculos, mas muitos desprezam esses outros, que fazem parte constitutiva da nossa sociedade. Da a escolha do narrador, uma es-colha tica, mas no ideolgica. Nael um mestio, filho de uma ndia com um brasileiro de origem rabe. E ele, Nael, ser a memria da tribo.

    Cau Reymond (yaqub) e bRbaRa evanS (lvIa)Dois irmos, 2017

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    entre aspas

    A maior transgresso moral, fsica e simblica da famlia se d atravs da relao incestuosa de Rnia com o sobrinho (ou meio-irmo) Nael. um momento em que ela rompe com um tabu que universal. E para fazer justia ao [escritor] Raduan Nassar... Quando ele leu a primeira verso, meio crua ainda, disse uma coisa que foi fundamental: o narrador tinha um certo pendor afetivo por um dos irmos. Na aproximao do fim, ele quase que ficava enlevado com um dos irmos. Mas o Raduan observou que, para fazer sentido e dar mais ambiguidade a esse mistrio da paternidade e dar mais fora ao narrador Nael, eu no devia aproxim-lo de nenhum dos gmeos. Eu o deixaria no fundo da casa escrevendo as suas memrias, para dar mais dignidade a ele, uma solido radical. Acho que Raduan estava cer-to. Porque no fazia mesmo sentido o narrador ser mais afetuoso com um dos gmeos, ou ser mais cmplice... A dvida moral que percor-re quase todo o livro j no o atormenta, ele tinha superado isso pela memria, pela lin-guagem, pelo trabalho, pela vida... Aprender a viver que o viver mesmo, diz Riobaldo no Grande serto: veredas.

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    Goethe e outros grandes escritores, Flaubert, Balzac, Stendhal, traba-lharam com romances de forma-o ou de aprendizagem, que so temas universais. Eu os reli muito. Minha inteno era escrever ao menos um romance de formao, e acabei escrevendo dois, pois o Cinzas do Norte vai nessa direo. Esse tipo de romance realista narra um drama de famlia, recortado no tempo e no espao, em que o narrador conta a histria da sua vida, que problemtica, e as etapas que ele vai queimando: vai deixando de ser ingnuo, e, na passagem da juventude maturidade, as experincias se somam, se acumulam: o amor, a morte dos amigos e parentes, o conhecimen-to das coisas, a conscincia de estar no mun-do, a desiluso. Tentei construir meu roman-ce de formao caboclo, modesto, naquele pequeno lugar, mas com personagens que fossem crveis, convincentes e com alguma complexidade. Essa experincia da formao, que a experincia da vida, da passagem do tempo, importante para quem escreve fico. Se um jovem escritor de 30 anos no teve ain-da uma experincia das decepes, das gran-des iluses que vo se perdendo, difcil es-crever. O que eu tentei foi dar forma literria

    Eu s comeo a escrever quando tenho uma intuio das ltimas cenas. Comeo pelo fim e vou at as origens, fazendo a travessia sinuosa do romance. Depois que voc escreve, as coisas vo mudando, como na filmagem e na vida. O Cinzas do Norte demorou cinco anos. Quando o terminei, eu tinha um filho, minha me tinha morrido. O romance a arte da pacincia. Como esculpir com argila, voc suja as mos e comea a moldar uma personagem, em tenso crescen-te com as outras, at chegar quilo que Arist-teles chamava de anagnrise, que uma es-pcie de esclarecimento, de reconhecimento ou revelao de algo que estava escondido, mas latente. A morte de Halim o momento em que se esclarece tudo o que estava por trs. A fam-lia est esfacelada, somando mortes reais e sim-blicas, e a cidade est morrendo para Halim. E depois disso o caminho para a agonia, os gran-des conflitos que terminam no trgico, que o mundo sem sada. Na tragdia no h sada pos-svel, o duelo entre os dois irmos, a agresso violentssima do Omar e depois a morte da me, narrada na abertura do romance. Mas entendo que para um filme na TV talvez seja mais forte deixar a morte da matriarca para o fim...

    a uma experincia de vida, que passava tam-bm pela observao de Manaus, do interior do Amazonas, das ndias e caboclas que eu vi padecer, dos curumins que eram moleques de recados, da pequena burguesia e da elite ma-nauara, uma sociedade que tinha sado do ciclo da borracha e vivia numa cidade estag-nada desde 1915, espera de alguma coisa. Tracei um arco temporal longo, de 40 anos, em que Manaus e Belm ficaram adormecidas at o advento da Zona Franca em 1967, quando a cidade assume uma espcie de protagonismo regional por causa das indstrias de produtos eletrnicos e da reativao do comrcio, ser-vios etc. A chegada dos aventureiros sim-bolizada pelo indiano Roshiram...

    elIane gIaRdInI (Zana)Dois irmos, 2017

  • 2120

    entrevista

    RecRiaR o tempo e a memRia contidos no Romance foi o maioR desafio da minissRie Dois irmos, constatam o autoR milton Hatoum, a RoteiRista maRia camaRgo e o diRetoR luiz feRnando caRvalHo

    Loucos por Literatura

    com Luiz Fernando CarvaLho, MiLton hatouM e Maria CaMargo

  • 22 23

    entrevista

    a transformao do romance Dois irmos em minissrie , oficial-mente, um projeto gestado h 14 anos. Desde que a roteirista Maria Camargo sentiu o impac-to da leitura de Milton Hatoum.

    A ideia, no entanto, de alguma maneira respi-rava antes de o livro ser lanado, desde que o diretor Luiz Fernando Carvalho conheceu Hatoum ao apresentar o filme Lavoura arcaica.

    H famlias espirituais, em que uma coisa leva a outra, diz o diretor. A paixo por literatura irmana os espritos mesmo em desafios com-plexos como o de adaptar para a TV uma saga que atravessa dcadas. A histria enreda con-flitos sutis e exige reconstituio de pocas distintas e a incluso de um personagem invisvel que a Manaus da era de ouro da borracha at a criao da Zona Franca. Lev-la para a TV foi a saudvel loucura desse trio de criadores reunidos nesta conversa mediada por Luiz Costa Pereira Junior e aqui resumida.

    como o livro virou minissrie?milton Hatoum Quando escrevi Dois ir-mos, no o fiz pensando numa adaptao. Mas o interesse por adapt-lo comeou em 2002, numa Bienal do Livro no Rio, pouco depois de eu ter publicado o romance.

    maRia camaRgo Cheguei ao livro em 2002, a partir de uma entrevista em que Mil-

    ton falava uma coisa muito bonita: Para ser escritor, preciso ter vivido coisas muito fortes na vida, mas preciso ainda mais de maturao para isso se tornar literatura. De-pois disso, tinha de l-lo. O Relato de um cer-to Oriente, voc lanou quando?

    mH Em 1989.

    mc Fui livraria atrs do Relato e encontrei Dois irmos. No dormi. Os personagens estavam vivos ali, o narrador me levava a um lugar a que nunca tinha ido e, ao mesmo tempo, no havia exotismo naquilo. Eu me reconheci naquela famlia e me emocionei com a me que no amava os filhos do mesmo modo. Amanheci o dia chorando, foi visceral. J era roteirista havia uns trs anos. E pensei: Bom, essa histria universal, mas alm de tudo tem uma estrutu-ra aqui, uma saga. Eu trabalhava na Globo, fiz um parecer sugerindo a adaptao, entre 10 e 16 captulos. Esperei uma resposta, que no veio. Foi quando encontrei o Milton na Bienal.

    mH Maria sugeriu escrever o roteiro e at produzir um filme, pois se apaixonara pela obra. Gostou tanto que fiquei comovido [risos]. Quando voc encontra um leitor fervoroso, de uma lealdade extrema ao livro, fica satisfeito. Em 2006, o Luiz Fernando Carvalho incluiu o ttulo no Quadrante, um projeto que desen-volveu na Globo, para adaptar fices de vrias regies do Brasil. A Maria j tinha comeado a fazer o roteiro...

    luiz feRnando caRvalHo Foi Maria quem me fez o convite de trabalhar o Dois irmos. Mas h um subsolo nisso tudo. Raduan Nassar e Milton so amigos e a poca do lan-amento do filme Lavoura arcaica [inspirado no romance homnimo de Nassar] foi a mes-ma do livro Dois irmos. Houve um momento em que fui morar na casa de Raduan para ter-minarmos o filme, e Milton foi um dos primei-ros a ver o longa.

    mH Raduan havia lido meu manuscrito. Ele um leitor severo, no enseba: Eu faria isso, isso e isso, depois me olhava: Onde encon-trou tanta loucura? De onde saiu a loucura do Lavoura arcaica? No foi da sua cabea?, e comeamos a rir. Ns trs ficamos dez horas vendo duas, trs vezes o Lavoura arcaica. Veio da uma empatia pelo trabalho do Luiz Fer-nando. Se voc no admirar esteticamente o diretor, no funciona.

    lfc Na verdade, so famlias espirituais. Uma coisa leva a outra. Mas meu primeiro impulso foi transformar o livro em cinema. Quando fui reler o livro, eu me toquei: Meu Deus, no cabe....

    mc Teria de ser outro recorte.

    lfc A se perderia todo o paralelismo com o Brasil.

    mH A noo de tempo ia ficar mais difcil de ser elaborada...

    mc Muito filme trabalha com o tempo, mas teria de ser outra coisa.

    lfc E num outro momento do cinema na-cional, para comportar uma obra que neces-sitaria de uma durao diferente da comercial.

    mH A questo, para mim, no era fazer meu livro vender mais. Eu queria outra linguagem esttica, inventiva, que transformasse o Dois irmos numa obra audiovisual de fato inova-

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    dora. A gente no sabe exatamente o que nos diz um texto quando a gente l. A obra do Raduan assim. Borges diz que clssico o livro que a gente l com prvio fervor e uma misteriosa lealdade. No aquele que a crti-ca colocou l em cima. esse fervor e essa lealdade que voc tem por uma obra de arte.

    mc uma histria de paixo...

    mH De paixo. Acho que essa empatia com o Luiz Fernando, com a Maria foi fundamen-tal, como foi com o Luiz e a obra do Raduan. Eu revi o filme h pouco tempo, 15 anos depois. Tudo surgiu de novo. Toda a magia, a msica, a sequncia de imagens, o sentimento, a pai-xo pelos objetos, pelo detalhe. Uma obra de arte, quando se v muitas vezes, como se visse pela primeira vez.

    mc J li Dois irmos 25 vezes.

    mH Fico at preocupado [risos].

    mc Outro dia, eu o li de novo para conferir algo do roteiro e vi coisas que nunca tinha lido. Pensei: Gente, como assim? Ou sou desme-moriada ou muito apaixonada pela obra. O livro d isso, tem tanta coisa ali. E cada vez que leio entendo os personagens de um modo. Numa leitura, tenho dio da Zana porque, cara, o que uma mulher privilegiar um filho e deixar o outro desse jeito? Na prxima leitura, constato: coitada, ela se apaixonou por esse filho como quem se apaixona por um homem ou uma ideia e no consegue fazer diferente. Tenta ser me, mas s desaprende. Todos os personagens esto cobertos de razo para ser o que so, e trgi-co porque no conseguem fugir disso.

    mH Achei que seria difcil recriar os vrios planos do livro, o psicolgico dos personagens e os lugares que se transformam, a oposio Norte-Sudeste do Brasil e as culturas diferen-tes. Como eles conseguiriam? Mas no s con-seguiram como ampliaram o quadro histrico da ditadura. A literatura de que gosto no nem s de ao nem s introspectiva, a con-fluncia do drama humano e da ao. Trabalhar isso em imagens no fcil.

    mc Mas fazer isso no livro tambm no . No consigo me apaixonar s pelo enredo, h o jeito como as palavras so colocadas ali. tudo uma coisa s.

    Quais elementos da obra fizeram vocs acreditarem que era vivel adapt-la?mc H muitos fatos dramticos, os perso-nagens esto vivos ali. Com o tema de gmeos, a tentao fazer a dramaturgia esquemtica, a oposio entre gmeo mau e bom, mas no livro no h isso: s vezes, um at fica demo-naco em contraste com o outro, mas, se a gente avana a leitura, v que no isso.

    lfc Apesar de ser um pico emocional, uma histria que se passa no mbito de uma famlia. uma histria com milhares de cruzamentos, de emoes, de memrias, mas que so evoca-das por meia dzia de personagens. Em termos de produo, a obra tem uma dramaturgia mui-to concisa, quase uma pea de teatro. Isso facilita em termos de produo, mas no de realizao. Realizao outra coisa. saber como esses seis personagens ficam em carne e osso, passando por esse mundo emocional e a ao desse outro personagem invisvel que a

    memria e o tempo. Como incluir isso dentro de uma casa, uma cidade, os personagens con-tracenando com o tempo que escorre, que pas-sa como um rio? O livro um rendado de tem-po, espao, memrias, afetos, e a adaptao deve conseguir ser a sntese disso.

    nesse rendado de tempo, a densidade dos personagens e o rico mundo exterior devem ser costurados. como no errar a mo? lfc Um dos valores do romance contar a histria desses seis personagens enquanto conta a histria do pas do sculo XX. A voz do Nael, o narrador, est nos anos 1980. H um arco temporal que rebate nos quartos, nos corredores, na mesa da famlia. Ento voc ala a literatura a uma literatura que ficcional,

    mas est dialogando com sociologia, antropo-logia, a histria das imagens. Quando voc est falando de memria, fala como era 1920, 1930, que cor havia, qual a paleta das roupas. E nos 1950? Que lente de cmera se usava para filmar? Como era a msica? E a ancestralida-de rabe? Quer dizer, voc faz um painel his-trico, antropolgico, que est nas entrelinhas. Mesmo Manaus no a Manaus extica, de carto-postal; um recorte muito rigoroso. H autocrtica sobre o que virou Manaus. H uma aula de histria...

    mc E com um narrador muito particular. O porta-voz do tempo o Nael. A histria no seria o que se narrada por outra pessoa. A memria inventa mesmo quando quer ser fiel

    a Literatura de que gosto no nem s de ao nem s introspectiva, a confLuncia do drama humano e da ao

    entrevista

    MiLton hatouM escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmos, Cinzas do Norte e rfos do Eldorado

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    ao passado. Ento, a gente est fazendo uma coisa que realista, mas no , porque o ponto de vista de algum...

    lfc A realidade no existe. Como dizia Ma-chado de Assis, a realidade uma cadela, no serve pra nada.

    mc um realismo filtrado.

    lfc linguagem.

    mc o olhar do Nael, pura linguagem.

    mH O realismo no trabalho do Luiz Fernan-do recusa a reproduo do real, o documen-

    tarismo naturalista. Essa transcendncia do naturalismo no uma excluso do realismo, mas a incluso de uma imaginao produtiva.

    lfc Em outras palavras, se ns estamos dian-te de um livro, entramos numa sala de cinema ou de teatro, fazemos isso para reencontrar, re-conectar a vida. Mas, se naquela leitura, naque-le filme, quando se acende a tela, no houver uma mnima diferena entre a vida que est na tela e a vida que h l fora, no faz sentido entrar na sala de cinema ou abrir um livro. E essa diferen-a a linguagem. So coisas muito sutis e, s vezes, uma vrgula a mais e voc passa um outro sentido. Se deixo na tela o rosto de um persona-gem um segundo a mais, ele deixa de ser cmico

    e passa a ser trgico; deixa de ser cmico e passa a ser tragicmico, pattico. Ento tudo isso nos transmitido como um vrus pela obra principal. Ns somos aquelas formiguinhas que trabalham a sntese desse negcio todo.

    o que h na minissrie que no est no livro?mc Se pegasse as palavras do Milton e fizes-se a cena como escrita no livro, no funciona-ria na TV. At tentei. Mas no conseguia ser fiel alma de cada momento. Se a cena era impor-tante para a histria caminhar, teria de des-mont-la e fazer outra coisa. Tive de me apro-priar da histria e torn-la minha, seno no conseguiria. Ento entraram referncias fami-liares, de coisas que vi e esto contidas no modo como escrevi as cenas. Mas o mais difcil foi pensar estruturalmente. Como pegar um livro desse tamanho sem a tendncia de transcrev-lo? At porque as cenas no caberiam todas, h muita coisa no original. Mesmo tendo dez ca-ptulos, eu poderia fazer uma verso maior. Como fazer tudo caber na medida? Como mon-tar uma estrutura em que, mesmo sendo dife-rente do original, permanea o que Milton es-tabelece como a natureza trgica da histria?

    o livro comea com uma morte e vai dando pistas dos personagens. a estrutura da minissrie acompanha isso?mc Mudou. Ela no comea com a morte da Zana, mas a chegada de Yaqub em Manaus. A chegada um marco, um disparador de algo que faz a gente voltar ao passado. Na verdade, so trs tempos se entrelaando. H o do nar-rador, que na verdade o do Halim contando a Nael o que o narrador Nael vai depois nos

    contar. Da chegada de Yaqub ao final, a his-tria segue cronologicamente, entremeada pelo passado. Porque a trama sobre a mem-ria. Nunca me passou pela cabea ou pela do Luiz Fernando fazer algo cronolgico, porque contra a natureza do romance. difcil fazer adaptao em que se cruzam tempos, mas a gente no tinha opo. Era a natureza do livro.

    mH Melhor pensar em linguagens distintas, em que uma fala da outra profundamente. No se deixa de admirar a novela do Thomas Mann para admirar o filme Morte em Veneza. O pa-ralelismo entre eles existe na medida em que se comunicam profundamente. Comparar li-vro e verso a pior coisa...

    mc meio inevitvel ocorrer, mas...

    mH No o caminho. A minha leitura do roteiro no esperava encontrar o livro tal como foi escrito.

    mc Ele o autor dos sonhos de todo rotei-rista.

    Quais as referncias que a histria deveria reforar? seria natural pensar em caim e abel, na enchente bblica...mH Para mim, a Bblia um texto literrio. Ler a Bblia ao p da letra loucura. Muita gen-te faz isso e perigoso. A rivalidade de irmos no est s na Bblia, mas em todas as literatu-ras e nos mitos, porque os mitos so viajantes, no pertencem a uma nica cultura. H irmos rivais na mitologia amerndia, nas Mil e uma noites, nos egpcios, em Borges. No tive um modelo nico, mas Esa e Jac, de Machado de Assis, foi referncia, mais pelo Machado do que pela histria. No fundo, a literatura mito e aparece em tudo quanto lugar. O meu desafio

    se fizesse a cena como escrita no Livro, no funcionaria na tv. at tentei. mas no seria fieL aLma de cada momento

    entrevista

    Maria CaMargo roteirista de cinema e TV. Autora de novelas como Lado a lado, especiais e infantis como Stio do Picapau Amarelo, entre outros

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    foi tornar essa a histria de um momento es-pecfico, um lugar e uma famlia, na cidade onde nasci. transformar o meu lugar numa coisa maior, mais geral, se possvel universal.

    Houve alguma cena mais difcil de recriar?mc A da morte do Halim. Eu chorava muito, no conseguia digitar.

    mH Nem me deixaram ver. Agradeci. Porque me emocionou quando a escrevi. s vezes, a gente se pergunta, tudo isso papel, lpis e caneta, mas no bem assim. Significa muito estar possudo por esses conflitos, escrever a morte de um personagem que lhe querido e pensar na morte recente do prprio pai. Isso muito freudiano. Freud dizia que o grande trau-ma a morte do pai. Pode ser questionvel...

    mc Vale para mim. Ao ler e escrever, revivi a morte do meu pai. As histrias vo se somando.

    mH Vi uns trechos e o Luiz disse: Melhor no ver a morte do pai. Fomos embora conciliados.

    concebeu toda a narrativa antes de escre-v-la? mH O livro nasceu de uma crise. Ao terminar o primeiro romance, fiquei anos pensando em como escrever essa histria que j estava meio armada na cabea. Passei trs anos com Dois irmos. Isso depois de ter visto a cidade da mi-nha infncia ser destruda o centro histrico, os casares, os igaraps, a transformao de um lugar que j foi digno num espao catico e hostil. Como sou arquiteto, queria contar uma histria que fosse trgica e ao mesmo tempo trouxesse a narrativa dessa decadncia.

    manaus a real protagonista?mH Eu gostaria que fosse uma das personagens.

    essa referncia se d na minissrie?mc Sim. Conheci a Manaus do Milton antes da real. Sabia que ia encontrar a cidade do fim do livro, sem nada de idlico, sem mangueiras sombreando as caladas, igaraps, Cidade Flutuante, mas com o rio tornado esgoto. Es-tava mais ou menos preparada para aquilo

    quando cheguei rua dos Bars, onde mora a famlia do romance. das mais caticas do centro, desemboca no porto. Chorava tanto que me senti um dos personagens vendo no que aquilo se tornou. Encaro o perodo entre a belle poque e a Manaus catica como um percurso dramtico de um personagem. Ten-tei construir isso.

    mH E como. O roteiro excepcional.

    lfc A grande vitria da Maria foi no ser s roteirista, mas ser tambm uma escritora. Esta paixo pela literatura, este encontro, um encontro de trs loucos por literatura.

    mH isso o que eu queria dizer.

    lfc A gente sabe o valor da palavra, o valor da imagem da palavra. Milton sabe a imagem da palavra. Eu sei a palavra da imagem e Ma-ria tambm. Essas coisas todas se cruzam, e um grande desafio.

    se estamos diante de um Livro, entramos numa saLa de cinema ou de teatro, fazemos isso para reencontrar, reconectar a vida

    entrevista

    Luiz Fernando CarvaLho diretor e roteirista. No cinema, escreveu e dirigiu Lavoura Arcaica (2001) a partir da obra de Raduan Nassar. Na TV, assinou a direo de novelas como Renascer (1993), Rei do Gado (1996), Meu pedacinho de cho (2013) e Velho Chico (2016), alm de minissries como Os Maias (2001), Pedra do Reino (2007) e Capitu (2008). Criou, escreveu e dirigiu Hoje dia de Maria (2005), Afinal, o que querem as mulheres? (2010) e Suburbia (2012), entre outros

    veja Mais na verso digitaL app.cadernosglobo.com.br

  • por KEILA GRINBERG

    Leitura de Dois irmos pode ser conduzida tambm por fatos histricos que remontam ao imprio otomano no scuLo XV

    um romance de

    contextos a s levas de imigrantes rabes que vieram Amaznia, os efeitos das duas guerras mundiais na geopoltica, as trans-formaes em Manaus do apogeu da borracha criao da Zona Franca, os impactos da ditadura militar no Brasil. Esses e outros acontecimentos permeiam a narrativa de Dois irmos e ajudam a explicar os contextos presentes no

    livro. Em palestra para elenco e equipe de produo da minissrie nos Estdios Globo, no Rio de Janeiro, a historiadora Keila Grinberg abordou fatos que marcaram o Brasil e o mundo antes e durante o perodo em que a trama se desenvolve. A seguir, extratos das falas da historiadora.

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    KEILA GRINBERG doutora em histria do brasil pela universidade federal fluminense (uff) e professora associada do departamento de histria da universidade federal do estado do rio de Janeiro (unirio), com ps-doutorado pela universidade de michigan

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    A minha inteno abordar o romance Dois irmos luz dos contextos em que se situa. Na obra de Milton Hatoum, a histria um pano de fundo, mas intervm na narrativa. O tempo tratado de forma no linear, o que permite ao autor dar luz a temas sem que os fatos histricos ocupem discusses centrais na trama. Isso per-mite tambm que seus personagens encarnem ideias sobre o Brasil, sobre a maneira como se percebe uma sociedade to hierarquizada.

    O fato inaugural a imigrao de srios, liba-neses e marroquinos Amaznia. Para enten-der isso, til uma linha do tempo com as re-ferncias que no esto to claras na obra. nos anos 1890 que nasce Halim, no sul do Lbano. Zana nasce no norte, por volta de 1900, em Biblos. Ele chega ao Brasil em 1905 com o tio Fadel; ela, um ano depois, com o pai Galib, que em 1914 inaugura o restaurante Biblos, para um ano depois retornar ao Lbano.

    O primeiro contexto a ser entendido a razo que os levou a sair do Lbano. Entre o sculo XIX e o XX, o Imprio Otomano est em crise. Como os EUA fecham suas portas, cerca de 130 mil libaneses e srios vm ao Brasil. um momen-to de definio do que ser o mundo no sculo XX, pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

    O Imprio Otomano comea no sculo XV, quando o povo otomano, j muulmano, con-quista Constantinopla. O episdio se chama

    queda porque o vemos pela tica dos bizan-

    tinos, herdeiros dos romanos, e sua conquista foi o sepultamento do que restara do Imprio Romano. J o Otomano existiu at o incio do sculo XX e ocupou o norte da frica, os atuais Oriente Mdio e Blcs.

    A cultura mediterrnea o corao desse im-prio, que espalhou islamismo pela frica e ligou a religio muulmana ao mundo rabe. Quando Dois irmos comea, o Lbano era um lugar em runas, com alta dvida externa com Frana e Inglaterra, e os britnicos lidando com um movimento de independncia na Turquia.

    O que leva algum a cruzar o oceano? As con-dies econmicas tm peso, mas so s o cal-do, no fazem ningum dar um basta e dizer

    Vou tentar a vida em outro lugar. Nenhuma motivao parece comparvel ao rearmamen-to que instituiu o servio militar obrigatrio entre otomanos. Das regies que viraram Tur-quia, Lbano e Marrocos, o estopim foi o servi-o militar obrigatrio (mesmo no Egito j in-dependente). A Turquia teve independncia em 1921, mas manteve a obrigatoriedade. Para os libaneses, era ser obrigado a integrar um exr-cito que no representava sua comunidade, no era muulmano como eles. Ao fim da Primeira Guerra, o Imprio Otomano partilhado. Al-gumas reas so ocupadas por Frana (Lbano), outras pela Inglaterra (atuais Israel e Palestina). Em 1926, o Lbano se separa. Volta a ser ocu-pado na Segunda Guerra pelos franceses nazis-tas, para s em 1941 ficar independente de novo.

    Biblos possivelmente a mais antiga cidade do mundo. Foi capital da Fencia, quando se chamava Amonaco e prola do Oriente. beira-mar, com montanhas ao fundo e arqui-tetura imponente, dominada por cristos ma-ronitas, era onde Galib vivia. J Halim vem de uma rea menos desenvolvida, muulmana. Portanto, os dois viviam a rivalidade secular de muulmanos e cristos, numa dinmica sul e norte que se reproduz em Dois irmos.

    Minorias como cristos e judeus tinham uma espcie de governo comunitrio prprio na re-gio e eram deixadas em paz desde que pagas-

    sem impostos. Com a crise, os impostos aumen-tam. Como cristos e judeus tinham mais instruo que os muulmanos, comearam a ser vistos como os que roubavam os melhores empregos, e no deveriam estar num pas mu-ulmano. Assim, quando a imigrao comea, o nmero de muulmanos a vir para c pe-queno. significativo que o pai de Halim seja muulmano. O conflito muulmano-cristo transparece no romance. Quando Halim se apai-xona por Zana, as crists maronitas no aceitam e at encomendam novenas para separ-los.

    Na colonizao, Manaus foi um entreposto de venda de especiarias. A grande cidade da Ama-znia era Belm. No incio do ciclo da borracha, por volta de 1879, Manaus ganha relevo. Das estradas de ferro otomanas ao sistema de na-vegao de Manaus, tudo era fruto do desen-volvimento industrial ingls da poca.

    O livro toma Manaus como cidade de imigran-tes. Por um lado, h libaneses, srios e judeus marroquinos que falam portugus misturado ao rabe, francs e espanhol. Por outro, h os que vieram da floresta. Tecnicamente, a po-pulao indgena no imigrante porque no vem de fora, mas na prtica to imigrante quanto quem veio do outro lado do oceano.

    Todos vivenciaram um centro cosmopolita. O Teatro Amazonas de 1896. Em 1910, Manaus tem sistema de tratamento de esgoto que no havia no Rio de Janeiro ou em So Paulo e um centro de pesquisa sobre doenas tropicais. Uma cena com Abbas mostra a cidade europeizada. Ele compra um chapu prestao. preciso ateno a isso. O ingresso de prestamistas (ven-das a crdito) no Brasil se d com a imigrao srio-libanesa. Mas os avanos tm reverso: a misria nos seringais. De 1880 a 1912, ocorre a primeira explorao da borracha, que produz riqueza, uma cidade admirvel e a belle poque. quando Manaus e Belm querem ser Paris. Mas quando as pessoas do porto, os carre-gadores e os que vendem produtos do interior ficam sem funo, pois a borracha brasileira deixa de ser a matria-prima para os pneus da indstria automobilstica.

    Imigrantes como Halim e Galib no foram aos seringais, embora portugueses e espanhis tenham ido, assim como, no Sul, italianos e alemes foram ao campo. Os imigrantes oto-manos ficam na cidade. Fazem o que j faziam: comrcio. Primeiro de porta em porta, depois em lojas e restaurantes; de todo modo, uma funo que exige pouca escolaridade. Os liba-neses eram alfabetizados, uma vantagem so-bre a populao de base africana e indgena.

    Essa Manaus cosmopolita, com presena in-glesa e depois americana, acaba em 1912. Os seringais comeam a ficar longe das regies centrais. Nessa poca so explorados os serin-gais da sia, o que desbanca a Amaznia. Por isso, na histria do Brasil, se usa a expresso

    ciclos, a ideia de que algo comea e acaba sem gerar riqueza para alm de si mesmo.

    A Manaus do romance a que j viveu a belle poque. Um perodo de estagnao em que a cidade fica merc de si mesma porque no tem mais influxo externo, que s voltar com a Zona Franca. Esse contexto, no romance, marcado pelo nascimento de Domingas, em 1915, a julgar pelas referncias de que ela era dez anos mais velha que Yaqub e Omar. Os anos 1920 sero de mudana na estrutura da famlia. O pai Galib morre no Lbano. Em 1923, Zana e Halim abrem a loja na rua dos Bars. A rua representa ascenso: o casal deixa o res-taurante rabe, muito perto do rio, e se insta-la em rea mais nobre.

    livro toma manaus como cidade dos imigrantes

    srios e libaneses chegam ao Brasil na virada do sculo XIX para o XX

    o ano de inaugurao do Teatro Amazonas

    130 mil

    1896

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    O comrcio agora o de tecidos, botes, mi-angas, pequenas coisas que as casas tinham de ter. No sculo XIX, as pessoas compram tecidos e mandam a costureira fazer roupas, em vez de fazer elas mesmas. Lojas como a de Halim foram fundamentais ao crescimento urbano. em 1923 que Domingas, batizada e alfabetizada (sinais da adequao civili-zao europeia), oferecida por uma freira ao casal. Aos poucos, perde as origens indgenas e vira empregada. Em 1925, nascem Yaqub e Omar. Quatro anos depois, nasce Rnia.

    A primeira gerao de imigrantes de comer-ciantes; a segunda, a de Yaqub, vai faculda-de, numa ascenso que corresponde da clas-se mdia ps-guerra. Yaqub vai ao Lbano em 1938 e volta em 1945. quando nasce Nael. O livro deixa vago o ano, e de propsito, para enfatizar a dvida de paternidade entre os gmeos. A oposio entre eles se intensifica no Natal de 1949, quando Yaqub comunica famlia que vai cursar engenharia na USP. Ser engenheiro era chave para largar o passado imigrante e virar classe mdia. Yaqub ser aquele que vai construir, em oposio a Omar, que no faz nada e est estagnado em Manaus.

    A Segunda Guerra acentua a crise da cidade, com racionamento de energia e comida. Ma-naus vive s escuras. Zana e Domingas costu-mam esperar o carvoeiro e h referncia a enlatados trazidos por avies norte-america-nos. Essa informao situa a ao em perodo

    posterior a 1942, ano em que o Brasil entra no conflito. Bases americanas so instaladas em Belm e Natal. a poca dos soldados da bor-racha, um grupo de quase 50 mil militares, a maioria nordestinos, a extrair borracha para os EUA. Quando acaba a guerra, vo para Ma-naus. Erguem palafitas beira dos igaraps, nos barrancos e clares da cidade.

    O livro trabalha a ideia de periferias da civili-zao. Manaus periferia. Mas h as periferias de Manaus. A aldeia do Lbano periferia de Manaus. A floresta tambm. Manaus perife-ria de So Paulo e ser de Braslia. Jogos como esses vo se construindo no romance. Manaus ser as duas coisas, centro e periferia. Nesse processo, Yaqub se torna mais que brasileiro, torna-se paulista, um expoente do progresso. Visita Manaus na poca da inaugurao de Braslia, que a da reforma da loja. A loja pros-pera quando Yaqub comea a ajudar o irmo. Esse trecho do livro tem dimenso poltica clara, as referncias greve dos porturios em janeiro de 1964 e, em abril, a viso do golpe militar por meio da morte de Laval e destrui-o da Cidade Flutuante. A Zona Franca se materializa em 1967, embora no seja projeto da ditadura (o decreto que a cria de 1957).

    O romance acaba com a morte de Halim em dezembro de 1968, a de Domingas em 1970, a mudana de Rnia para um bangal e a morte de Zana. Com a Zona Franca, h um segundo apogeu de Manaus, com a indstria de substi-tuio de importaes. O romance enfatiza a oposio moderno-antigo, progresso-estagna-o, que Omar e Yaqub encarnam. Havia noites de blecaute enquanto a capital do pas era inau-gurada. A ideia de futuro promissor se dissolve no mormao amaznico. Domingas esvazia a geladeira nova antes de cada blecaute para trans-ferir tudo para a velha, de querosene. A onda passou, chegou lenta a Manaus e, em vez de trazer desenvolvimento, acentuou a estagnao.

    Perto do golpe de 1964 h j duas cidades, uma que muda na superfcie e outra que permane-ce. Omar aceita a ajuda de Yaqub, que de So Paulo lhe envia produtos. A loja deixa de ser

    armarinho de coisas da Amaznia e vende camisetas, carteiras e bolsas, que se encontram em qualquer lugar do pas. Quando Halim se d conta, no vendia mais rede, malhadeira, caixa de fsforos, iscas, lanterna e lamparina, coisas de uso ribeirinho.

    Quando o pai reclama que a Cidade Flutuante est cercada por militares, Yaqub responde: que os terrenos do centro pedem para ser ocu-pados. Manaus est pronta para crescer. E verticalmente, pois a era da especulao imo-biliria. quando as pessoas deixam os sobrados e vo a apartamentos, escolas e cinemas esto fechados, as lanchas da Marinha patrulham o rio Negro, rdios trazem comunicados militares.

    A cidade est crescendo quando a famlia fecha a loja, porque a greve dos porturios terminou em confronto com o Exrcito. A Zona Franca muda o traado urbano, est no meio da cida-de, e traz outros imigrantes. Hatoum mostra aqui nostalgia, no da belle poque, mas da cidade que tem rvores, armarinho, carrega-dores e cheiro prprio, onde as pessoas esto mais misturadas e h cultura amaznica, cos-mopolita. Essa cidade deixa de existir com a Zona Franca e a Amaznia militar. No toa, o romance chega ao fim nesse momento.

    a demolio do passado, quando Halim v o fim da Cidade Flutuante. Os moradores xingam os demolidores, no querem morar longe do porto. Manaus agora est cheia de indianos, coreanos, chineses, os novos estrangeiros. Ha-toum conta o fim da Manaus de Halim, olha uma cidade que se mutilara e crescia, afastada do porto, irreconcilivel com seu passado. A Zona Franca tudo, menos Manaus.

    Uma maneira de ler o livro ver Manaus como protagonista, no contexto ou pano de fundo. ela que perpassa a histria, a cidade em que ningum de l. No h oposio entre quem est dentro e fora, pois todos so de fora. Mes-mo quando se reclama dos indianos, s ques-to de quem chegou primeiro. Dois irmos retrata o duplo movimento de grandeza e de-cadncia de uma cidade. Da a referncia bi-

    nria a Caim e Abel, e poderosa a imagem da enchente bblica que encerra o livro, um di-lvio em que sobra quem conta a histria. Nael o sobrevivente e, por isso, narra.

    Os gmeos representam uma s pessoa, os lados do Brasil do futuro e do atraso, de estag-nao e modernidade. Omar cmplice da prpria fraqueza, de uma escolha mais pode-rosa do que ele. A ambio desmedida de Ya-qub o fez sair de Manaus e enriquecer. Sua ambio faceta do Brasil num perodo de busca, mas de explorao e destruio. E o contraponto Omar no alpendre, entre a inr-cia da ressaca e a euforia da farra noturna. As atitudes inesperadas e a paixo de Omar, assim como a sordidez da ambio de Yaqub, fazem o leitor oscilar entre um e outro. Mas, no final, sobra pouco dos dois. Estagnao e ambio so os dois lados da mesma destruio.

    os gmeos representam uma s pessoa, os lados do brasil do futuro e do atraso

    marca a instalao da Zona Franca de Manaus

    1967

  • manausa bela poca de

    artigo

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    por AnA MAriA DAou

    no sculo XIX, capItal amazonense ganha novas feIes com fluXo de InvestImentos e de pessoas IntensIfIcado pelo cIclo da borracha

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  • 38 39

    artigo

    AnA MAriA DAou doutora em antropologia, professora do departamento de geografia da universidade federal do rio de Janeiro (ufrJ) e autora do livro A belle poque amaznica (zahar, 1999)

    leciam na cidade como mdicos, advogados, funcionrios pblicos, professores ou inter-medirios no comrcio junto s grandes firmas e companhias de navegao, enquanto os tra-balhadores pobres, arregimentados sobretudo no Cear, Maranho e Piau, passavam pela capital, de onde iam para os seringais.

    A borracha, cientificamente denominada He-vea brasiliensis, j era conhecida pelos europeus desde o sculo XVIII, no registro de viajantes a quem impressionavam as qualidades de im-permeabilizao e inigualvel elasticidade, observadas nos usos que os nativos faziam do leite extrado do caule da rvore, o ltex. Sua aplicao industrial se faria cada vez mais sig-nificativa atrelada aos recursos tecnolgicos que propiciaram a estabilidade do produto e potencializaram suas qualidades como subs-tncia isolante por excelncia. Bem antes da inveno dos automveis a combusto, a no-vidade dos silenciosos pneus de borracha foi usada em veculos de trao animal e nas mo-dernas bicicletas. Luvas de borracha favore-ceram a assepsia mdica e os preservativos sem costuras longitudinais dificultavam a trans-misso de doenas venreas. Assim, a falta da

    maravilhosa substncia seria um transtorno para as mais essenciais condies de existn-cia dos povos civilizados: a comunicao el-trica a grande distncia e o telgrafo por cabo submarino ficariam definitivamente interrom-pidos sobre a superfcie do globo, nos termos de um jornalista norte-americano em artigo publicado no lbum do Par, de 1908.

    perodo que compreende os anos 1880 e se estende at a Primeira Guerra Mundial veio a ser co-nhecido como bela poca, ex-presso da euforia e do triunfo da sociedade burguesa, das con-

    quistas do progresso tecnolgico e da dissemi-nao de novos valores que transformariam profundamente sociedades por inteiro, sendo, por todo o planeta, as cidades o lugar onde as mudanas se fizeram de modo grandiloquente. Para falar de Manaus na belle poque, preciso balizar medidas sociais, polticas e econmicas que favoreceram a insero de regies remotas do planeta, como a Amaznia, nos fluxos globais associados expanso das economias industriais.

    Em 1867, a abertura da bacia do Amazonas ao comrcio internacional foi efusivamente co-memorada em Manaus e Belm. No final da dcada seguinte, em Manaus, era visvel o movimento de chegada de mercadorias e pas-sageiros, entre eles ingleses, franceses, espa-nhis, alemes, italianos, rabes e judeus do norte da frica, alm dos portugueses j pre-sentes de longa data. Igualmente numerosos, brasileiros para l se deslocaram no exerccio das mais distintas ocupaes. Em geral, che-gavam homens, jovens e solteiros para os quais o casamento significou sua insero definitiva na cidade animada pela crescente exportao de borracha. Os mais qualificados se estabe-

    o

    Na Amaznia, na segunda metade do sculo XIX, nada pde deter a febre da seringa, ou da borracha, objeto de severas crticas pelos setores j estabelecidos em face do abandono da agricultura e da pesca, com notvel redu-o do volume comercializado de peles e gor-duras animais, leos vegetais, ervas diversas, castanha, cacau e peixes secos. A empresa seringalista se ajustava aos ideais liberais, de livre-comrcio e enriquecimento e atendia aos interesses de europeus e norte-americanos em garantir o de acesso matria-prima prio-ritria para suas economias industriais. Para isso, foram significativas as medidas que, en-tre 1850 e 1870, alteraram o quadro de isola-mento do vale do Amazonas, a comear pela criao da provncia do Amazonas, nova uni-dade administrativa, desmembrada do vasto domnio do Gro-Par.

    Entre 1890 e 1912, grande parte da riqueza propiciada pela exportao da borracha no Par e no Amazonas foi revertida no embele-zamento das capitais, no pagamento dos po-lticos locais e do funcionalismo que ali vivia. O engenheiro Eduardo Ribeiro (1892-1896) promoveu a transformao definitiva de Ma-naus. Mobilizou recursos financeiros, conhe-cimento tcnico e uma ampla rede de articu-lao que propiciou a convergncia dos interesses da elite poltica e comercial. A ci-dade e sua transformao se constituram em um grande investimento material e simblico que proporcionou aos olhos dos que ali viviam a superao de um atraso histrico e se tornou

    emblemtica do empreendimento civilizador sobre a floresta. Uma verdadeira cartografia da civilizao se traduziu na suntuosidade dos edifcios-monumentos, no ajardinamento das praas, na amplitude das ruas e no casario renovado. No faltaram os asilos, os presdios e os hospitais, espaos privilegiados para o exerccio das intenes de controle sobre po-bres, doentes e desvalidos, bem como orfana-tos que, na capital, se ocupariam das crianas indgenas chegadas do interior na proporo em que avanava a explorao dos seringais.

    Mecanismos legais tanto promoveram o con-trole do espao urbano quanto orientaram a expanso da cidade para as novas reas que adentravam a mata, em relativo abandono do rio. O Cdigo de Postura, de 1893, restritivo em relao aos hbitos vigentes, afastou os moradores pobres, e as casas de madeira e palha, mais frgeis, indesejveis em uma ci-dade sonhada que espelhasse o progresso e a ordem pretendidos, foram demolidas. O novo regime renomeou ruas e praas, e apenas em alguns casos foi mantida a toponmia alusiva aos nomes indgenas de antigos habitantes do stio urbano, como a rua dos Bars.

    Os vapores que ancoravam no porto voltavam carregados de novssimos materiais de cons-truo, o que favoreceu o ritmo acelerado das obras e a montagem do cenrio da belle poque: estruturas de ferro, bancos, quiosques e todo o mobilirio urbano utilizado nos espaos para onde afluiria o pblico, como as praas remo-deladas, com coretos e quiosques, postes de iluminao. Apareciam tambm nos gradis das escadarias dos sobrados, palacetes e prdios administrativos, nos portes do teatro, nos pavilhes do mercado pblico ou na escadaria da Biblioteca Pblica. Das reformas na cidade, alm dos engenheiros e tcnicos da superin-

    marca a abertura da bacia do Amazonas ao comrcio internacional

    1867

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    artigo

    tendncia, participaram artistas italianos, ar-quitetos, pintores, escultores e decoradores que, desde o final dos anos 1870, haviam atua-do nas reformas na catedral e do Teatro da Paz. Tiveram presena garantida em Manaus, des-tino final dos navios da companhia de nave-gao Ligure Brasiliana, que, subvencionada pelo governo, garantiu a chegada dos revesti-mentos, adereos e materiais diversos utiliza-dos nas obras de acabamento do Teatro Ama-zonas, onde atuaram tambm os artistas brasileiros. E, claro, nos navios oriundos do porto de Gnova, vinham os cantores respon-sveis pela lrica a ser privilegiada no Teatro Amazonas, inaugurado no final de 1896.

    No estilo das moradias de polticos, profissio-nais liberais e negociantes, situadas nas ruas recm-abertas, o acabamento em azulejo e ancorado nos padres portugueses esteve me-nos visvel em prol da italianizao das fa-chadas, onde materiais pr-fabricados, fron-tes e brases com monogramas as singularizavam1. No centro comercial, o ecle-tismo das lojas, cafs, ourivesarias, agncias bancrias, restaurantes e hotis tambm se apresentava, e a diversidade do conjunto evo-cava a ascendncia de seus proprietrios, a especializao dos negcios ou as ambies afinadas com a notvel expanso do comrcio europeu: O Novo Mundo, High Life Bar, Clube dos Terriveis, A la ville de Paris, Grandes Ar-

    mazs da Turquia, Joalheria Pelossi, Photo-grafia Allem, Confeitaria Avenida, London Bank, os escritrios da Booth Line ou da frota da Hamburg Sdamerikanische.

    Linhas de bondes garantiriam a circulao en-tre os novos bairros e o antigo centro comercial, que se manteve estreitamente vinculado ao movimento dos navios, embarcaes, cobertas e canoas que geravam a efervescncia da vida social que animava as ruas em torno do anco-radouro do rio Negro. Ali, os referenciais des-critos para a pequena cidade de meados do sculo se mesclavam com os fluxos da moder-nidade prximos ao Mercado Pblico, amplia-do e renovado, nas cercanias da matriz, da igreja de Nossa Senhora dos Remdios ou pra-a, remodeladas e ajardinadas. Dia e noite, no embarque da borracha, no esvaziamento dos navios carregados de mercadorias para os gran-des armazns, circulavam os estivadores, os carregadores ou aqueles que conferiam e sele-cionavam borracha a ser embarcada. No eram desprezveis os que chegavam em pequenas embarcaes carregadas de vveres, peixe, fru-tas e farinhas, e atracavam na rampa do mer-cado depois de terem descido os grandes rios em busca da modernidade, do conforto e dos prazeres que a cidade oferecia. Nos hotis de luxo, nas casas de diverso, nos bares e bordis,

    a bebida e a prostituio satisfaziam homens de negcios, viajantes, trabalhadores exauridos e solitrios dos quais se ocupavam as mulheres que animavam as noites e ameaavam a moral e os bons costumes da elite endinheirada, fre-quentadora dos saraus musicais, banquetes, bailes e das apresentaes da lrica no Teatro Amazonas, quando no estava nas viagens tran-satlnticas para Lisboa, Londres ou Paris.

    Implantado a mil e seiscentos quilmetros acima da foz do Amazonas, em meio flores-ta equatorial primitiva [...], o Teatro Ama-zonas teve reiterado seu valor de catedral caracterstica da cultura burguesa2 quando as casas de pera se tornaram templos pro-fanos e mobilizaram o esforo de indivduos e governos na construo desses espaos, va-lorizados por seus fins educativos e enobre-cedores do esprito.

    A construo do Teatro Amazonas que se consagraria como o smbolo mais acabado da Manaus modernizada foi favorecida pelas circunstncias que orientaram investimentos financeiros e esforos materiais para sua edi-ficao, decorao, seleo da programao. Depois de inaugurado, o edifcio assumiria as funes de novo templo mundano na socie-dade da belle poque, como casa de pera, um dos notveis objetos de mundializao da cultura do perodo, e como espao privilegia-do de afirmao da ordem republicana, em franca evocao no colorido da cpula que encima o edifcio. No alto da nova avenida, o

    1. derenji, Jussara. Arquitetura nortista, a presena Italiana no incio do sculo XX. manaus: secretaria de estado e cultura, 1998

    2. hobsbawm, eric. A era dos imprios 1875-1914. rio de Janeiro: paz e terra, 1994. p. 53

    edifcio do teatro se imps na paisagem urba-na. A cpula colorida que tanto acentuava o tamanho e a monumentalidade do edifcio passou a capturar o olhar do forasteiro que chegasse ao ancoradouro do rio Negro.

    Alm de sala de espetculos, o teatro foi o grande salo da belle poque, ponto de encon-tro da elite em seu crculo ampliado de pol-ticos, magistrados, negociantes, representan-tes das casas comerciais, estrangeiros e brasileiros, homens e mulheres que partici-pavam de bailes e banquetes ali realizados. Estar no teatro implicava uma ateno simul-tnea de observador e de observado, e, no foyer ou salo nobre, situado no ltimo andar, o pblico era convidado a desfilar sob o olhar das figuras mitolgicas representativas das artes no Amazonas, pintadas no teto do salo.

    A partir de 1911, a entrada no mercado da pro-duo dos seringais cultivados no Sudeste Asi-tico acabou com o monoplio da produo brasileira e inviabilizou a exportao da borra-cha da Amaznia. Sem a pujana dos anos 1910, a paisagem urbana manteve-se fiel ao projeto da belle poque, mas a cidade, em franco dis-tanciamento das disciplinas excludentes quan-to ao uso do espao urbano, forosamente abri-garia parte dos inmeros trabalhadores que, retornados dos seringais falidos, chegavam tomados pelas doenas ou sem recursos. Nos anos 1920, sem a febre da seringa, foram reto-madas atividades agrcolas e extrativistas, mas a falncia dos seringais continuou e a cidade passou a se expandir de outra maneira. No por-to, outros fluxos interrompidos pela Primeira Guerra foram retomados, propiciando a vinda de indivduos que haviam permanecido na ter-ra de origem ou o retorno de jovens, filhos de brasileiros e estrangeiros radicados em Manaus, que haviam sado em viagens e estudos.

    TeaTro amazonas se consagraria como o smbolo mais acabado da manaus modernizada

    o perodo de pujana

    econmica gerada pelo ciclo da borracha

    1890-1912

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    por lcia S

    MesMo antes das priMeiras publicaes no sculo XiX, regio j reunia lnguas e culturas Milenares e narrativas sofisticadas

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    artigo

    lcia S professora de Literatura e Cultura Brasileiras na Universidade de Manchester (Inglaterra). Autora do livro Literaturas da floresta: textos amaznicos e cultura latino-americana (Eduerj)

    As primeiras publicaes extensas de narrativas ou cantos indgenas da Amaznia datam do sculo XIX e incluem a Poranduba amazonen-se, de Barbosa Rodrigues (1890), e A lenda de Jurupari (1890), publi-cada em italiano por Ermanno Stradelli. Ambos os textos foram inicialmente recolhidos em nheen-gatu pelo tariana Maximiano Jos Roberto na regio plurilngue do Alto Rio Negro. A essas colees devem-se acrescentar, j em prin-cpios do sculo XX, as Lendas em nheengatu e portugus (1928), de Antonio Brando do Amorim, tam-bm oriundas das transcries de Maximiano Jos Roberto, e o segundo volume da coleo Do Roraima ao Orinoco (1917), publi-cado em alemo por Theodor Koch-Grnberg. Essas duas lti-mas obras exerceram um papel muito importante no modernismo brasileiro de 1922: foi no livro de Koch-Grnberg que Mrio de An-drade foi buscar o heri e grande parte das tramas e subtramas de Macunama (1928). E as lendas de Brando do Amorim, alm de in-flurem, tambm, em Macunama, tiveram um papel decisivo na com-posio de Cobra Norato (1931), de Raul Bopp. Convm enfatizar este

    a sua coleo de textos sobre a Ama-znia, publicada postumamente com o ttulo s margens da histria (1909),

    Euclides da Cunha declarou que a Amaznia era um territrio pouco propcio ocupao humana.1 De-duz-se dessa observao que a Amaznia seria tambm um ter-ritrio sem literatura ou, ao menos, um territrio onde a ocorrncia de literatura no passaria de um acidente ou anomalia. Mas a Ama-znia, ao contrrio do que nos queria fazer crer Euclides da Cunha, j era, muito antes da che-gada dos europeus, habitada por centenas de povos com lnguas e culturas milenares e tradies de cantos e narrativas sofisticadas e complexas que certamente podem ser descritas como literatura, des-de que a nossa definio de lite-ratura seja aberta o suficiente para incluir as artes verbais. Nos pargrafos seguintes, vou discor-rer brevemente sobre algumas tendncias da literatura da Ama-znia, sem nenhuma pretenso de esgotar o assunto ou fazer jus ao imenso nmero de obras produ-zidos na/sobre a regio.

    n

    ponto: sem as narrativas amern-dias da regio do Amazonas, o mo-dernismo de 1922 no teria duas de suas obras mais importantes, e a literatura brasileira no teria o di-visor de guas que foi Macunama. Mas no s isso: as Lendas em nheengatu e portugus deveriam, por seus prprios mritos, integrar o panteo modernista, pela lingua-gem deliciosamente lrica e brin-calhona da traduo de Amorim e pelas histrias, que levam a comu-nicao entre humanos e animais a um nvel muito mais profundo do que o das fbulas europeias.

    parte e independentemente das narrativas indgenas, a floresta amaznica provocou, desde o seu primeiro contato com os europeus, um fascnio que algumas vezes se traduziu em horror e outras em xtase; em sensaes de pavor e de prazer, no raro simultneas, ligadas s dimenses exageradas da floresta, ao seu imenso nme-ro de animais e plantas (muitos deles desconhecidos) e estra-nheza (do ponto de vista europeu ou europeizado) das culturas que a habitavam e habitam. o que se pode ver tanto em escritores que apenas estiveram na Amaznia na condio de viajantes, como Eu-clides da Cunha, quanto de auto-res que viveram na regio, como Alberto Rangel, autor de Inferno verde (1908), e at mesmo em es-critores de l oriundos, como In-gls de Souza, cujo protagonista em O missionrio (1888) acaba de-

    vorado pela selva. Mas a imagem infernal da Amaznia nesses au-tores no se deve apenas imen-sido da floresta: est tambm relacionada violncia e explora-o humana causadas pelo comr-cio da borracha em fins do sculo XIX e princpio do XX. A Amaz-nia se torna, assim, nessas obras, palco de injustias sociais a serem denunciadas. De um lado, est a riqueza extrema dos seringalistas, alimentando excessos e deprava-es; do outro, a escravizao de indgenas e a semiescravizao dos seringueiros nordestinos, que migraram para a regio na espe-rana de fazer fortuna mas termi-naram vtimas da explorao, das doenas e da misria.

    A literatura social da Amaznia, inaugurada pelo ciclo da borracha, tem continuidade com a obra neor-realista do paraense Dalcdio Ju-randir, que retrata o perodo de decadncia e penria que se seguiu desvalorizao da borracha no cenrio econmico mundial a par-tir da segunda dcada no sculo XX. A obra de Jurandir, embora comparvel de regionalistas nor-destinos como Jos Lins do Rego,

    1. Cunha, Euclides da. margem da histria. So Paulo: Lello, 1967. p. 12.

    teve um destino muito distinto, sendo ignorada pela maior parte das histrias literrias nacionais. O ambiente amaznico que se revela na obra de Jurandir , no geral, es-tril e melanclico: personagens sem viso de futuro ou perspectiva, imersos em ambientes urbanos de-cadentes, onde a gua que carac-teriza a natureza fluida da Amaz-nia aparece quase sempre descrita como charco, pntano, estagnao

    como se pode ver, por exemplo, no seu primeiro romance, Chove nos campos de Cachoeira (1941).

    A partir da dcada de 1970, a an-lise social da Amaznia ganha uma voz irnica na obra do amazonen-se Mrcio Souza. Galvez, impera-dor do Acre (1976), o seu romance mais bem-acabado, exibe uma veia satrica com traos de humor machadiano e oswaldiano. Galvez narra, em tom de farsa, a revolu-o acriana liderada pelo espanhol Luis Galvez no final do sculo XIX. Mad Maria (1980), seu segundo romance, trata da Madeira-Ma-mor, a malfadada tentativa de construir uma estrada de ferro no atual estado de Rondnia para escoar a borracha.

    a floresta amaznica provocou um fascnio que algumas vezes se traduziu em horror e outras em xtase

  • o ano da publicao

    de Mad Maria, romance de Mrcio Souza sobre a construo da estrada de ferro Madeira-Mamor

    o ano em que surgem as

    primeiras publicaes da literatura amazonense

    1980

    1890

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    artigo

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    Mas no poderamos falar da Ama-znia brasileira sem mencionar os seus grandes centros urbanos: Be-lm, uma das cidades mais impor-tantes do perodo colonial e capi-tal de um pas autnomo que resistiu a fazer parte da nao bra-sileira aps a independncia (um captulo pouco comentado da nos-sa histria oficial); e Manaus, a cidade surgida no meio da selva com a ascenso econmica da bor-racha e definida justamente pela opulncia oriunda do ltex (veja-se, como exemplo, o seu mais conhe-cido monumento, o Teatro Ama-zonas) e pela presena marcante do rio, da floresta e das culturas indgenas. Belm serve de cenrio para vrios dos romances de Ju-randir, e tanto Belm quanto Ma-naus aparecem tambm na obra histrica de Souza, mas com Mil-ton Hatoum que o cenrio urbano amazonense entra, atravs de Ma-naus, definitivamente, para o ima-ginrio da literatura brasileira.

    A Manaus de Hatoum caracteri-zada pela impermanncia humana: imigrantes libaneses, chegados h pouco mais de uma gerao, con-vivem com indgenas desterrados e outros imigrantes. Em vez de ser um espao de reteno, um settle-ment, a cidade das obras de Hatoum

    habitada por personagens que parecem sempre recm-chegados ou prestes a partir, insatisfeitos com uma vida urbana frequente-mente descrita como culturalmen-te estagnada, ou por relaes fa-miliares e sociais opressivas. Grandes casares do passado apa-recem em seus romances rodos por fungos e sendo destrudos, aos poucos, por goteiras, como se a floresta estivesse sempre a ponto de reocupar a cidade. uma ima-gem urbana que no deixa de se assemelhar, em muitos aspectos, Belm de Jurandir. Mas Hatoum, que criador de matriarcas feno-menais, descreve de forma admi-rvel as sutilezas da malha social amazonense, como o caso do narrador testemunha de Dois ir-mos (2000), figura to brasileira na sua indefinio entre persona-gem de dentro e de fora, neto e empregado, bastardo e herdeiro. As culturas indgenas amazonenses nunca chegam a ocupar uma po-sio central nos seus romances, mas esto sempre por perto, mar-ginalizadas, relegadas ao quarto da empregada/amante/me nos fun-dos da casa, aos orfanatos ou s palafitas da cidade flutuante. E mal poderia ser de outra forma, j que os romances e contos de Hatoum tendem a ser narrados desde o pon-to de vista de personagens mascu-linos com ascendncia libanesa e/ou europeia, que vm o indgena como um um outro misterioso e vagamente assustador. Uma apa-rente exceo seria o romance r-fos do Eldorado (2008), cujo pro-

    tagonista paralisado pela paixo doentia por uma rf indgena. Essa paixo destruidora, que nunca se materializa porque a jovem, Di-naura, pertence mais dimenso do sonho do que da realidade, alimentada pelas histrias contadas pela mulher que o ajuda a criar, Flo-rita histrias que tm uma im-portncia esttica e estrutural no romance. Mas ao final descobre-se que as histrias tinham sido inven-tadas por Florita, e o lastro da he-rana indgena se esvai, converte-se em mentira, em inveno.

    Entretanto os povos indgenas ama-znicos, que continuam resistindo, admiravelmente e contra todas as previses, s mais variadas tenta-tivas de aniquilao por sucessivos governos brasileiros, vm se em-penhando em publicar, nos ltimos 15 anos, as prprias narrativas. o caso da Federao das Organizaes Indgenas do Rio Negro, uma en-tidade de carter poltico cujas ini-ciativas incluram a edio de vrios volumes de cosmogonias e histrias de diferentes grupos do Alto Rio Negro. o caso tambm de escri-tores individuais indgenas que comeam a surgir por todo o Bra-sil, incluindo-se, claro, a Ama-znia (veja-se, por exemplo, a obra prolfica de Daniel Mundurucu e

    povos indgenas amaznicos vm se empenhando em publicar, nos ltimos 15 anos, as prprias narrativas

    Cristiano Waipichana). Um dos livros mais impressionantes a emergir desse cenrio A queda do cu (2015), publicado inicial-mente em francs pelo paj ia-nommi Davi Kopenawa (em parceria com o antroplogo Bru-ce Albert). Kopenawa revela no livro a concepo de mundo ia-nommi, contrastando-a com a concepo de mundo daqueles a quem ele chama de brancos. Contrariando a viso euclidiana da floresta inabitada espera de ser colonizada e civilizada pelo Estado-nao brasileiro, o livro de Kopenawa vem ressaltar o papel fundamental dos habitan-tes originais da Amaznia na de-fesa da floresta e, com ela, do planeta onde vivemos.