3 As teorias da polidez nos estudos lingusticos e sociol ? As teorias da polidez nos estudos lingusticos

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3 As teorias da polidez nos estudos lingusticos e sociolgicos O estudo da desculpa, numa abordagem sociolgica, tem privilegiado a funo das desculpas como um restaurador da ordem em suas diversas instncias: moral, social, institucional, pessoal dentre outras. Aijmer (1996) refere-se a desculpas como um ritual mesmo quando uma pequena ofensa praticada numa situao corriqueira como um simples encontro na rua, e o pedido de desculpas permite a que cada um siga seu caminho, ainda que no completamente satisfeitos de que o assunto tenha se encerrado, mas pelo menos agindo como se o equilbrio ritual tenha sido restaurado. Tavuchis (1991) afirma que desculpa em seu conceito mais elementar uma forma de comunicao oral que engloba vrias funes morais e comunicativas em que se avultam cinco modalidades. A primeira condio a ocorrncia explicita de ofensa e a legitimao do sofrimento causado. O reconhecimento da dor causada cria espao para a reparao, permitindo que o ofensor demonstre respeito pela memria das vitimas. A percepo desse evento doloroso pode transformar o trauma da vitimizao em lamentaes envolvendo ambos os agentes da interlocuo e dessa forma iniciando-se a reconstruo das relaes. O reconhecimento torna-se vital para o processo de uma futura reconciliao. A segunda das condies diz respeito ao comportamento de o ofensor assumir a responsabilidade pelo dano. Corresponde a uma confisso e tem impacto positivo para ambas as partes e, alm de prover as condies para a soluo do conflito, permite ao falante ter a percepo do deslize como consequncia do evento original. Essa aceitao da responsabilidade traz em si uma expresso de remorso profundo e a promessa de que no vai mais ocorrer. Em aditamento, a terceira condio da caracterizao do erro e da assuno da responsabilidade pode determinar implicitamente a impossibilidade de desfazer a assimetria entre o falante e o ouvinte em funo da ambiguidade entre poder e o ato de desculpar-se. Essa ambiguidade acrescenta um elemento de DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 22 tenso: a ofensa exige uma resposta, entretanto os parmetros so vagos. Por no se assumir explicitamente sua responsabilidade, o falante deliberadamente assume a vulnerabilidade do movimento encetado como desfecho. A ambiguidade cria espao para o surgimento de novas respostas ao evento. Como quarta caracterstica, institucionaliza-se um intercmbio simblico em que o ofensor legitima a dor do ofendido na convico de que seus valores sociais e morais conduzam-no a uma reao tambm polida. Segundo o autor, essa peculiaridade uma forma de reciprocidade entre constrangimento (shame) e poder. Invertem-se os papis, pois o sujeito da ao se pe como objeto do perdo do ouvinte, que pode ou no aceitar o pedido de desculpas. Mas a ambiguidade est presente tambm no universo do ouvinte, uma vez que a posio de vulnerabilidade unilateral de quem produziu o ato permite ao ofendido responder do modo que desejar, assumindo o controle, mas cria a obrigao moral de responder positivamente. Como quinta e ltima acepo, o proferimento da desculpa e sua reposta cria o rito prprio de permitir o fluxo natural das situaes (letting go) e fazer o certo (making things right), pela crena dos interactantes de que qualquer ao no tem o poder de cura dos males causados. A interferncia do simblico propicia o perdo e a reconciliao. Dentre as estratgias, o processo de correo simblica manifesta-se como desculpas e explicaes. Desculpas envolvem confisso e expresso de arrependimento e remorso por uma ao danosa, para a qual no h defesa. Implcitos no arrependimento esto traos como o oferecimento de reparo, a autopunio, o sentimento de vergonha ou promessa de redimir-se. Atravs das desculpas, pede-se perdo e redeno para o que no razovel, justificvel. Por seu turno, explicaes (excuses) so uma defesa, uma forma de pedir parte ofendida para ser razovel, pois algo ou algum foi o verdadeiro responsvel pela ofensa que desuniu o que era unido. Ao justificar-se, o ofensor desvia a ateno do agente da ao para categorias convencionais de causalidade, desresponsabilizando-se pela ofensa. Na viso de Trosborg (1987: p. 147), nas sociedades ocidentais padres apropriados de comportamento social so percebidos como normas de polidez e entendidas como estratgias da interao. A autora estabelece dois critrios como DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 23 fundamentais. O primeiro assume a natureza de orientao defensiva da prpria face; o segundo, orientao protetora da face do outro que teve algum ou alguns de seus valores atingidos, como tentativa de evitar o confronto. O conceito de face e suas caracterizaes sero oportunamente abordado na prxima seo deste captulo, baseado em Goffman e em Brown & Levinson. Na sua avaliao, Trosborg define que uma desculpa surge no momento em que normas sociais de convivncia so quebradas e se h indubitavelmente uma ofensa real, ou potencial, e dois participantes: o ofensor e a vtima. O ato de desculpar-se uma ao para reparar a situao, e o ofensor d cincia ao ofendido de que lamenta. Em contextos envolvendo reclamao/desculpas h trs papis funcionais relativos ao ofendido, reclamao e ao ofensor. Em consequncia, toda resposta implica o objetivo de aplacar e recuperar a imagem social, pois ao se tornar um ofensor sua competncia social est em jogo. E no cenrio das desculpas pblicas de polticos, para onde se volta o olhar desta dissertao, O pedido de desculpas , sobretudo, uma confisso de culpa, uma demonstrao honesta de incompetncia4. Diversas situaes estaro presentes, e uma delas se concretiza pelo fato de o falante reconhecer que h um conflito, mas no se responsabiliza por ele, e numa atitude de evitar o comprometimento da face, o ofensor assume um papel oposto polidez. A autora apresenta seu modelo dividido em cinco categorias. a) Recusa explcita de responsabilidade, como estratgia de garantir ou forar inocncia. b) Recusa implcita foge da responsabilidade ignorando a reclamao ou desviando o assunto c) Justificativa apresenta argumentos procurando dissuadir-se de sua culpa, considerando que o ato no se caracterizou como ofensa ou que pode explicar-se d) Transferncia de responsabilidade culpar um terceiro gerando uma nova ofensa cujo responsvel pode ser o prprio reclamante. e) Ataque ao reclamante se o reclamante falha em sua defesa, o reclamado o ataca. 4 NETO, Alexandre. Confisso de culpa. In: O Globo. 28/7/2008. DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 24 Brown & Levinson, por seu turno, se apropriam do conceito de face de Goffman como uma noo abstrata definindo como algo em que o indivduo investe emocionalmente. Criam os conceitos de face positiva e face negativa, pois na interao ela pode ser perdida, mantida ou reforada. De maneira geral, as pessoas so cooperativas e assumem que a prpria face como a do outro devem ser preservadas, e a cooperao provm do reconhecimento da vulnerabilidade mtua da face. Em consequncia, em toda interao se exige um processo de defesa contra as ameaas que surgem no curso dos eventos (61). A polidez positiva (p.101) abrange um amplo espectro por se tratar de um desejo de manuteno de valores e aes considerados desejveis para ambos os interlocutores e no se refere especificamente a uma face particular atingida por um ato de ameaa face, como ocorre na polidez negativa. Pela polidez positiva, as expresses em muitos aspectos so representaes de um comportamento esperado entre pessoas ntimas e orientada aprovao e respeito personalidade de cada um envolvido no evento, preservao de valores em condio de reciprocidade. Asseguram os autores que talvez a nica caracterstica que distingue as expresses de polidez positiva da linguagem normal do dia-a-dia entre as pessoas ntimas seja uma dose de exagero, refletindo uma atitude de insinceridade na busca de aprovao (Que maravilha! No consigo imaginar como a senhora conseguiu ambientar suas rosas de forma to requintada!), mas que pode ser compensado pela implicatura de que o falante deseja sinceramente que a preservao da face positiva do ouvinte seja evidenciada. E nisso reside a fora da expresso lingustica da polidez positiva. Diferentemente do espectro mais amplo da polidez positiva, o a polidez negativa (op. cit., p.129) restrita e focal, cuja funo minimizar uma particular imposio de um ato de ameaa face como um ritual de evitao. Na cultura ocidental a polidez um comportamento negativo e a mais elaborada e a mais convencionalizada estratgia de reparo face ameaada, um componente de um manual de etiquetas. Nesse caso a expresso lingustica marcada por uma indiretividade padronizada, por um pessimismo polido forado pela incerteza do sucesso do pedido de desculpas. Pela estrutura do enunciado, nota-se uma nfase no relativo poder do ouvinte, pois uma forma de marcar a fronteira do distanciamento social entre os interlocutores. Numa direo inversa da polidez DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 25 positiva, que procura reduzir esse distanciamento e aproximar as pessoas, a polidez negativa um mecanismo que visa colocar um freio no curso da interao Sob a perspectiva de que a imagem social vulnervel, os autores propem o modelo de polidez positiva, polidez negativa e indiretividade, como estratgias de mitigao dos riscos que esto envolvidos na interao. Mencionaremos aqui as que interessam para a posterior anlise dos dados. Estratgias de polidez positiva: a) perceba o outro demonstrando interesse pelos seus desejos e necessidades; b) procure acordo; c) evite desacordo; d) oferea, prometa; e) explicite ou simule reciprocidade. Estratgias de polidez negativa: a) seja convencionalmente indireto e seja evasivo; b) minimize a imposio; c) demonstre respeito; d) pea desculpas; e) evite os pronomes eu e voc f) declare o ato de ameaa face como regra geral. Na indiretividade: a) faa pressuposies; b) diminua a importncia; c) seja contraditrio; d) empregue metforas; e) seja irnico e ambguo; f) seja vago, hipergeneralize. O conceito de face integra, nessas circunstncias, as estratgias de polidez como instrumento de atenuao dos atos de ameaa face, considerando que na sua maioria os atos de linguagem so potencialmente geradores de ameaa. Brown DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 26 & Levinson (1987) constroem um modelo da face que pode ser ameaada constitudo em quatro categorias. a) Atos ameaadores da face negativa do falante consubstanciados na promessa de no futuro empenhar-se em evitar ato lesivo ao seu prprio territrio. b) Atos ameaadores da face positiva do falante, sob a forma de desculpas, confisses e autocrticas, alm de comportamentos no-recomendveis. c) Atos ameaadores da face negativa do interlocutor constituem o conjunto de atos impositivos, como ordens, proibies e as ofensas; d) Atos ameaadores da face positiva do interlocutor caracterizados pelas crticas, censuras e refutaes. E as estratgias se processam de acordo com o risco que apresentam. a) De forma direta, sem ao reparadora. b) Com polidez positiva apontando para a face positiva do interlocutor. c) Com polidez negativa apontando para a face negativa do ouvinte direcionada ao desejo de preservao do prprio territrio. d) De forma indireta como estratgia de fugir da responsabilidade ou minimizando os danos. e) No faz-la; que pode ser na forma de ignorar o assunto. Locher (2004: 60) conceitua a polidez como prtica do rito social, e os participantes estabelecem um contrato que pode sempre ser negociado durante a interao, e as contribuies dos participantes so avaliadas como respeito a essas normas Os atos de fala trazem em si uma potencial ameaa imagem que cada interactante tenta construir para si mesmo, e o conceito de face dos estudos de Goffman so o ponto de partida para muitos estudiosos, pois as teorias sobre polidez esto intimamente ligadas aos estudos que desenvolveu a respeito dos atos de preservao da face como uma condio e um ritual da ordem social e manuteno do equilbrio5 Por tudo quanto foi visto at aqui nas teorias, fica claro que os estudos de Goffman sobre face constituem um substrato terico fundamental a orientar as pesquisas no campo das interaes sociais, conforme se delinear a seguir. 5 BARGIELA-CHIAPINI, DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 27 3.1 Goffman e a construo da imagem como preservao da face Toda pessoa vive num mundo social de encontros diretos ou mediados e nas interaes tende a estabelecer um padro de comportamento verbal ou no-verbal e por meio deles avalia o outro e a si mesmo e procura construir sua autoimagem. A esse movimento, Goffman criou o termo face, definido como um valor social positivo a que a pessoa aspira (1967: 76) e que os outros acreditem que ele possua. Nos encontros sociais cada indivduo estabelece um padro de atos verbais, e os outros participantes percebero que ele mais ou menos voluntariamente tomou uma posio, de tal forma que, para lidar com a resposta [...] deve levar em considerao a impresso que possivelmente formaro dela (1980: 76). A opinio na realidade a impresso sobre sua individualidade, sobre a face que ela tenta construir e impor nas relaes sociais. o valor social positivo de uma imagem do eu (self) delineada por atributos a exigir aprovao. O autor usa uma dupla definio do self, como uma colagem de implicaes expressivas do continuum dos eventos da interao e como um jogo ritual em que o jogador com ou sem honra, com ou sem diplomacia, capaz de enfrentar as contingncias do julgamento presentes na situao (id.: 96). E dentro da lgica e da previsibilidade do comportamento humano que procura se adaptar ao rito das relaes, esse comportamento liga-se ideia de que obtido resultado, a pessoa tende a se sentir bem, e se as experincias no so satisfeitas, tende a se sentir mal ou se magoar (ib. 77). Esse percurso de duas vias, visto que a face prpria e a dos outros so construtos da mesma natureza, e so as regras do grupo e da natureza da situao que indicam a quantidade de sentimento em relao face que se realiza no fluxo dos eventos. Estes so determinantes para se perceber se o indivduo tem, est em ou mantm a face pretendida de si mesmo, apoiada e evidenciada por julgamentos dos outros envolvidos na interao. Ao contrrio, quando a pessoa sente que est na face errada ou fora da face, sua tendncia sentir-se envergonhada e inferior pelo que aconteceu atividade por culpa sua e pelo que pode acontecer sua reputao como DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 28 participante (79). So situaes que Goffman percebe como exigncias do cdigo social de at onde se deve ir para salvar a face. E considera que, a partir do momento que assume sua autoimagem, ela se expressa por meio de uma face e das expectativas que deve preencher e como forma de autorrespeito e passa a recusar certas aes. Entretanto, ainda que a face social possa ser o que a pessoa tenha de mais pessoal, trata-se de um emprstimo por parte da sociedade e que poder ser-lhe retirada caso no se comporte de modo a merec-la constituindo-se, portanto, uma coero social (p. 81). Goffman estabelece trs categorias de ameaa face, assim resumidas: a) introduzida pelo participante contra sua prpria face; b) introduzida pelo participante contra a face dos outros; e c) pelos outros contra sua prpria face ou contra a face do participante. Em sntese, o conceito de face integra as estratgias de polidez como instrumento de atenuao dos atos de ameaa, e a polidez constitui o meio de conciliar o desejo mtuo. Quanto aos nveis de responsabilidade que podem ameaar a face, pode-se pensar que a pessoa agiu inocentemente, por talvez no ter percebido as consequncias do seu ato caracterizando-se uma gafe, A variedade de situaes a serem levadas em considerao traz ainda a possibilidade de ofensas eventuais, que surgem como uma consequncia no planejada, mas s vezes antecipada de ao ao que o ofensor desempenha apesar de suas consequncias ofensivas, embora no tenha intuitos malvolos (p. 84). Nesse sentido, so frgeis os limites entre se considerar como maledicncia ou ofensa eventual. Para certos tipos bsicos de elaborao da face por manobras protetoras, Goffman prope o processo de evitao e o processo corretivo. No processo de evitao, o locutor declina de contatos com probabilidade de ofensa ou deixar que transaes delicadas sejam conduzidas por intermedirios. Situam-se nesse caso os eventos entre naes, e a manifestao se d por delegao de responsabilidades a representantes diplomticos, assessores de imprensa etc. Ou ainda: a pessoa pode se mostrar respeitosa e polida, usa da discrio, usa linguagem evasiva por meio de circunlquios ou artifcios, ambiguidade com inteno de preservar a face dos outros, mesmo no sendo possvel preservar seu bem-estar. Pelo processo corretivo, no se consegue de incio evitar um evento DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA 29 comprometedor, havendo a tendncia de imput-lo como incidente para ratific-lo como uma ameaa que merece ateno. O prximo captulo se refere metodologia aplicada pesquisa desenvolvida para este trabalho, e sero caracterizados os cenrios em que ocorreram as ofensas que resultaram em pedidos de desculpas no contexto da poltica. DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 0610581/CA

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