29 personalidades desviantes

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    Parte de cartaz publicitrio para a Waverley Cycles, por Alphonse Mucha, 1898.

    Alan Indio Serrano

    Guilherme Mello Vieira Jair Abdon Ferracioli

    Anna Paula G. Macarini Mrio Aurlio Aguiar Teixeira

    e Grupo Consultores do QualiSUS-Rede da Regio Metropolitana de Florianpolis

    1. SITUAO A SER ABORDADA

    H, no conjunto da clnica, trs possibilidades etiolgicas para ocorrerem variaes importantes da personalidade, fugindo do normal estatstico:

    a) As mudanas graves da personalidade decorrentes de doena, de leso e de disfuno cerebral, enquanto sequelas de problemas orgnicos lesando o encfalo (tumores, epilepsias graves, acidentes vasculares cerebrais, traumatismos cranianos, etc.);

    b) As alteraes sequelares da personalidade, permanentes, funcionais, aps doena mental importante e grave (traumas psquicos em funo de grandes catstrofes assentados em personalidades pouco adaptveis e predispostas a reaes intensas; vivncia por anos de molstias psiquitricas como a esquizofrenia, etc.);

    c) Os transtornos especficos, constitucionais, da personalidade.

    As alteraes sequelares, orgnicas e funcionais so quebras ntidas (abruptas ou gradativas) segundo um histrico no qual os fatores de mudana so bem delimitados e clinicamente coerentes.

    Personalidades

    Desviantes

    Protocolo Clnico

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    Alguns gatilhos podem ressaltar traos de personalidade, em situaes especiais, como o abuso de substncias qumicas (como o lcool etlico, a cocana, os alucingenos e outras drogas), situaes altamente estressantes relacionadas a eventos traumticos, grandes perdas afetivas e mudanas de ambiente para pessoas de baixa adaptabilidade e de pouca resilincia.

    Os transtornos especficos de personalidade so variaes extremas da normalidade, dentro de um continuum em cujo centro esto as personalidades normais: no so doenas1. A Organizao Mundial da Sade os conceitua como expresso caracterstica da maneira de viver do indivduo e de seu modo de estabelecer relaes consigo prprio e com os outros2. Respondem pouco aos esforos dos servios de sade, apesar de tais servios serem bastante solicitados para abord-los, especialmente pelos operadores do Direito. Os transtornos de personalidade, como regra, no geram inimputabilidade e no atenuam a punibilidade diante de prticas criminosas.

    comum que operadores do Direito, sem conhecimento clnico, tentem aliciar mdicos e psiclogos para o fornecimento de atestados a fim de apresentar, juridicamente, reaes menores e at reaes normais a fatores sociais causadores de revolta ou de sofrimento como se fossem alteraes sequelares de personalidade. Nestes casos, o mdico deve usar critrios clnicos, e no critrios populares.

    O envolvimento de algumas pessoas, cujas personalidades tenham motivaes dissociais ou antissociais, em abordagens teraputicas grupais, em CAPS, hospitais e comunidades teraputicas, contribui para a desestruturao do grupo e no tem demonstrado qualquer eficcia para o sujeito3. comum, em mais de um tero dos jovens infratores da lei usando drogas ilcitas, descobrir-se que eles j cometiam crimes ou infraes graves antes de terem comeado a usar drogas4, 5, em funo de caractersticas de personalidade.

    Em que pese toda a formulao clssica da Psicopatologia para permitir a confeco de anamnese e de diagnstico6, 7, o papel do profissional

    1 CORDS, T.A.; LOUZ NETO, M.R. Transtornos da personalidade: um esboo histrico conceitual. In:

    CORDS, Taki Athanassios; LOUZ NETO, Mrio Rodrigues; STOPPE Jr., Alberto; et al. Transtornos da

    personalidade. Porto Alegre: Artmed, 2011. 2 OMS. Classificao Estatstica Internacional de Doenas e Problemas Relacionados Sade. 10. reviso.

    So Paulo: EdUSP, 1993, p. 359. 3 SCHNEIDER, J. A.; LISBOA, C. M.; MALLMANN, C. Relao entre dependncia de cocana e/ou crack,

    transtorno de personalidade antissocial e psicopatia em paciente internados em uma instituio de reabilitao.

    Revista Debates em Psiquiatria, ano 4, n. 3, maio-junho 2014, p. 24-33. 4 PARENT, I.; BROCHU, S. Quand les trajectoires toxicomanes et dlinquants se rencontrent: dix

    toxicomanes se racontent. Recherches et Intervention sur les Substances Psicoactives (RISQ). Montreal:

    RISQ, Conseil de Recherche en Sciences Humaines du Canada (CHRS), cole de Criminologie de

    lUniversit de Montral, 1999. Disponvel em: . 5 NUNES, Laura Maria Cerqueira Marinha. Anlise biogrfica, do estilo de vinculao e da personalidade,

    em indivduos com histria de abuso de substncias e condutas delinquentes. [Tese. Orient.: Carlos Mota

    Cardoso]. Porto: Universidade Fernando Pessoa, 2010. Disponvel em:

    . 6 JASPERS, Karl. Psicopatologia General. Buenos Aires: Editorial Beta, 1975.

    7 NARDI, A. E. et al. A hundred-year of Karl Jaspers' General Psychopathology (Allgemeine Psychopathologie)

    - 1913-2013: a pivotal book in the history of Psychiatry. Arq. Neuro-Psiquiatr., So Paulo , v. 71, n. 7, July

    2013. Disponvel em: .

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    da sade, em tais casos, limitado e polmico8. O mdico e o psiclogo podem fazer o diagnstico e distingui-lo das hipteses diagnsticas diferenciais, mas no tm ferramentas para apresentar solues. H, do ponto de vista da sade, uma intratabilidade para a maioria das pessoas com caractersticas graves de desvio de carter9. Alguns casos, porm podem ser alvos de medidas frmaco-cosmticas, para minorar sua impulsividade e agressividade, numa lgica de proteo a terceiros.

    Um problema especial o das personalidades dissociais, ainda erroneamente chamadas pelo defasado e inconveniente nome de psicopatias, por alguns autores. Este um grupo notrio, que geralmente procura contato com servios de sade sem que se disponha a efetivamente seguir regras ou conselhos a serem dados pelos profissionais10. Eventualmente so encaminhados pelo Judicirio ou por instituies prisionais para avaliao. No h evidncias cientficas suficientes para se montar planos teraputicos ou recomendaes visando uma prtica clnica voltada mudana das personalidades dissociais11.

    A fim de no estimular fantasias de onipotncia sobre os servios de sade, especialmente junto a operadores do Direito, os profissionais precisam ter cuidado ao emitir declaraes e atestados que possam ser mal interpretados.

    Mdicos e psiclogos devem se precaver para no dar a impresso de que os transtornos de personalidade sejam doenas ou dar a impresso de que sejam curveis pelos servios de sade. Alm de incorrer em erro, isto serviria medicalizao, psicologizao e judicializao de fenmenos humanos que extrapolam o potencial teraputico e os saberes das Cincias da Sade12. Pessoas que no so da rea da sade, como alguns operadores do Direito, administradores, diretores de rgos pblicos e assistentes sociais de reas distantes buscam nos discursos sanitrios oportunidades de medicalizao e de entrega de problemas ao SUS, que nem o sistema, nem as cincias biolgicas ou psicolgicas podem solucionar.

    2. CLASSIFICAO NA CID 10

    8 KENDELL, R.E. The distinction between personality disorder and mental illness. The British Journal of

    Psychiatry (2002) 180: 110-115. doi: 10.1192/bjp.180.2.110. Disponvel em:

    . 9 LEE, Jessica H. The Treatment of Psychopathic and Antisocial Personality Disorders: A Review.

    Londres: RAMAS (Risk Assessment Management and Audit Systems), UK Department of Health, 1999.

    Disponvel em: . 10

    NICE. Antisocial personality disorder: treatment, management and prevention (NICE Guideline 77). London:

    National Institute of Health and Clinical Excellence, reviso janeiro 2012. Disponvel em:

    . 11

    KHALIFA, Najat, et al. Pharmacological interventions for antisocial personality disorder. Cochrane

    Database of Systematic Reviews, Issue 9, 2014, Art. No. CD007667. DOI:

    10.1002/14651858.CD007667.pub8. Disponvel:

    . 12

    SERRANO, Alan ndio. Percias Mdicas e Juzo. In: PEREIRA, Hlio do Valle; ENZENWILER, Romano

    Jos. Curso de Direito Mdico. So Paulo: Conceito, 2011, p. 454-460.

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    F07 Transtornos de personalidade e do comportamento devidos a doena, a leso e a

    disfuno cerebral Alterao da personalidade e do comportamento que poderia constituir um transtorno residual ou concomitante de uma doena, uma leso, ou uma disfuno cerebral.

    F07.0 Transtorno orgnico da personalidade Transtorno caracterizado por uma alterao significativa dos modos de comportamento que eram habituais ao sujeito antes do advento da doena; as perturbaes concernem em particular expresso das emoes, das necessidades e dos impulsos. O quadro clnico pode, alm disto, comportar uma alterao das funes cognitivas, do pensamento e da sexualidade. Inclui: Estado ps-leucotomia orgnica, Personalidade pseudopsicoptica,

    Pseudodebilidade, Psicossndrome da epilepsia do sistema lmbico e Sndromes frontal, dos lobotomizados, ps-leucotomia

    Exclui: alteraes duradouras da personalidade aps doenas psiquitricas (F62.1) aps experincia catastrfica (F62.0), aps sndrome: ps-encefaltica (F07.1) ou ps-traumtica (F07.2) e transtorno especfico da personalidade (F60.-)

    F07.1 Sndrome ps-encefaltica Alterao residual do comportamento, no especfica e varivel, aps cura de uma encefalite viral ou bacteriana. A principal diferena entre esta sndrome e os transtornos orgnicos da personalidade que a mesma reversvel. Exclui: transtorno orgnico da personalidade (F07.0)

    F07.2 Sndrome ps-traumtica Sndrome que ocorre seguindo-se a um traumatismo craniano (habitualmente de gravidade suficiente para provocar a perda da conscincia) e que comporta um grande nmero de sintomas tais como cefalia, vertigens, fadiga, irritabilidade, dificuldades de c