2012. Municipios SP [Vol1]

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Prticas Mdicas e de Sade nos Municpios paulistas: a histria e suas interfaces

Coleo Medicina, Sade & Histria

Andr Mota Maria Gabriela S. M. C. Marinho (organizadores) Ana Silvia Whitaker Dalmaso Andr Mota Antonio Celso Ferreira Cssia Maria Baddini Fernando Salla Cristina de Campos Eliza Pinto de Almeida Fatima Aparecida Ribeiro Helosa Helena Pimenta da Rocha Joana Azevedo da Silva Jos Fernando Teles da Rocha Karla Maestrini Luis Ferla Marcela Trigueiro Gomes Marcia Regina Barros da Silva Marcos Cesar Alvarez Maria Alice Rosa Ribeiro Maria Aparecida Muniz Maria Cecilia Cordeiro Dellatorre Maria Cristina Turazzi Maria Gabriela S. M. C. Marinho Maria Lucia Caira Gitahy Maria Lucia Mott (In Memoriam) Marili Peres Junqueira Olga Sofia Faberg Alves Paula Vilhena Carnevale Vianna Ricardo Mendes Antas Jnior Tais dos Santos Tania Regina de Luca

Prticas Mdicas e de Sade nos Municpios paulistas: a histria e suas interfacesColeo Medicina, Sade & Histria

Comisso de Cultura e Extenso Universitria

2011 by Prof. Dr. Andr Mota Profa. Dra. Maria Gabriela Silva Martins da Cunha Marinho Direitos desta edio reservados Comisso de Cultura e Extenso Universitria da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo CCEx-FMUSP Proibida a reproduo total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorizao expressa da CCEx-FMUSP

UNIVERSIDADE DE SO PAULO Reitor: Prof. Dr. Joo Grandino Rodas Vice-Reitor: Prof. Dr. Hlio Nogueira da Cruz Pr-Reitoria de Cultura e Extenso Universitria Pr-Reitora: Profa. Dra. Maria Arminda do Nascimento Arruda Pr-Reitor Adjunto de Extenso: Prof. Dr. Jos Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres Pr-Reitora Adjunta de Cultura: Profa. Dra. Marina Mitiyo Yamamoto Faculdade de Medicina Diretor: Prof. Dr. Giovanni Guido Cerri Vice-Diretor no exerccio da Diretoria da FMUSP: Prof. Dr. Jos Otvio Costa Auler Junior Comisso de Cultura e Extenso Universitria Presidente: Prof. Dr. Jos Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres Vice-Presidente: Prof. Dr. Cyro Festa Neto Museu Histrico Prof. Carlos da Silva Lacaz Coordenador: Prof. Dr. Andr Mota ASSISTNCIA TCNICA ACADMICA Mrcia Elisa da Silva Werneck SERVIO DE CULTURA E EXTENSO UNIVERSITRIA Coordenao: Meire de Carvalho Antunes

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) Vnia Aparecida Marques Favato CRB-8/3301 P912 Prticas mdicas e de sade nos municpios paulistas: a histria e suas interfaces / Andr Mota e Maria Gabriela S.M.C.Marinho. -- So Paulo: USP, Faculdade de Medicina: CD.G Casa de Solues e Editora, 2011 304 p. : il. ; 21 cm. (Coleo Medicina, Sade e Histria, 1) Vrios autores ISBN: 978-85-62693-03-8 1. Medicina So Paulo (Estado) Histria. 2. Medicina - Prtica So Paulo (Estado). 3. Sade Pblica So Paulo (Estado). I. Mota, Andr. II. Marinho, Maria Gabriela S.M.C. III . Ttulo. CDD 610.98161

Imagem da capa Rua do Comrcio, Bragana Paulista, 1909 - Fundo Oswaldo Russomano Centro de Documentao e Apoio Pesquisa em Histria da Educao da Universidade So Francisco (CDAPH-USF) As imagens rerproduzidas no captulo A Medicina e a Lei: o Cdigo Penal de 1890 e o exerccio de curar. Prticas mdicas e autos criminais em Bragana: assimetrias da modernizao pertencem igualmente ao mesmo fundo e esto sob a guarda do CDAPH-USF, que autorizou o presente uso.

Editora CD.G. Casa de Solues e Editora Gregor Osipoff www.cdgcs.com.br

Museu Histrico Prof. Carlos da Silva Lacaz da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo Av. Dr. Arnaldo, 455 sala 4306 Cerqueira Csar So Paulo-SP Brasil CEP: 01246-903 Telefone/fax: 55 11 3061-7249 mhistorico@museu.fm.usp.br www.fm.usp.br/museu

In Memoriam de Maria Lucia Mott

SumrioPrefcio...................................................................................................................................................................................9Jos Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres

Parte 1 A INSTITUCIONALIZAO DA MEDICINA EM SO PAULO.............................................13Antonio Celso Ferreira Tania Regina de Luca

Medicina e prticas mdicas em So Paulo: uma introduo............................ 15 De Criadeiras a Fazedoras de Anjos: as amas de leite e a criana desvalida sob o olhar da medicina..................................................................37Jos Fernando Teles da Rocha Helosa Helena Pimenta Rocha

Criminologia e medicina legal em So Paulo: juristas e mdicos e a construo da ordem ...................................................................... 63Luis Ferla Marcos Csar Alvarez

Revistas mdicas paulistas e a nova realidade republicana .........................89Mrcia Regina Barros da Silva

Maria Lucia Mott Maria Aparecida Muniz Olga Sofia Faberg Alves Karla Maestrini Tais dos Santos Marcela Trigueiro Gomes

Perfil dos mdicos e mdicas em So Paulo (1892-1943)....................................105

Parte 2 Medicina e as artes de curar em municpios paulistas ..........................131 A Medicina e a Lei: o Cdigo Penal de 1890 e o exerccio de curar. Prticas mdicas e autos criminais em Bragana: assimetrias da modernizao..............................................133

Maria Gabriela S. M. C. Marinho Fernando Salla

Andr Mota Cssia Maria Baddini

Dilemas revelados e mito desfeito: Sorocaba e a epidemia de febre amarela na Repblica Velha ..............................................................153 O Vale do Ribeira entre 1970 e 1990: sade, educao, poltica e participao de sujeitos ............................................................................................ 183

Ana Silvia Whitaker Dalmaso Joana Azevedo da Silva Maria Ceclia Cordeiro Dellatorre Maria Cristina Turazzi

Cristina de Campos Maria Lucia Caira Gitahy

gua tambm questo de Sade Pblica: Geraldo Horcio de Paula Souza e o debate sobre o abastecimento da cidade de So Paulo: propostas para a superao da crise, 1913-1925 ......................................................215 A sade pblica nas cidades de Rio Claro, So Carlos e Araraquara, em fins do sculo XIX .................................................................................................235 Sanatrios, tecnologia mdica e cultura urbana: uma visita cidade sanatorial de So Jos dos Campos na primeira metade do sculo XX ....................................................................................................... 259Paula Vilhena Carnevale Vianna Ftima Aparecida Ribeiro

Maria Alice Rosa Ribeiro Marili Peres Junqueira

Eliza Pinto de Almeida Ricardo Mendes Antas Jr.

Os servios de sade no estado de So Paulo: seletividades geogrficas e fragmentao territorial ......................................281

Sobre os autores..................................................................................................................................................... 296

PREFCIOEm um artigo publicado em 2006 , a Professora Norma Crtes, da Universi dade Federal do Rio de Janeiro, desenvolve uma interessante discusso sobre o carter do conhecimento histrico. Dialogando com o vigoroso pensamento do filsofo Hans-Georg Gadamer, e fortemente apoiada nele, a historiadora defen de a tese, ainda hoje polmica, de que a Histria no dispe de um mtodo, no sentido clssico das cincias modernas. Antes, o conhecimento histrico pode ser melhor compreendido, segundo a autora, como um tipo de sabedoria prtica, no sentido da phronesis aristotlica, atualizada por Gadamer na sua Hermenutica Filosfica. Em outros termos, Crtes reafirma a estreita relao que, pelo menos desde Dilthey, estabelecida entre uma reflexo filosfica consciente de suas limitaes temporais e imediatamente interessada no sentido prtico-moral de toda expresso racional e uma conscincia histrica que recusa tanto o relativismo contextualista do historicismo romntico quanto a pretenso objetivista de uma Histria que se julga capaz de conhecer os fatos em si, resgatando-os sos e salvos de uma espcie de exlio a que a distncia temporal os teria condenado. Herdeiro e reconstrutor de uma tradio filosfica que passa por nomes como Dilthey, Husserl e Heidegger, Gadamer estabelece um point of noreturn, tanto para a Filosofia como para a Histria, no caminho do abandono da moderna hipostasia da relao sujeito-objeto do conhecimento. Filosofar ser sempre, se gundo essa tradio, pensar desde um horizonte temporal e sempre para alm dele; ser a superao dialtica da facticidade pelo reconhecimento, a cada vez, de seu sentido existencial. Historiar, por sua vez, ser sempre participar ativa mente de uma dada experincia de pensamento; ser explorar, desconstruir e reconstruir a temporalidade que constitui a facticidade da existncia, incluindo, evidentemente, o pensar a existncia. Nesse sentido, Crtes e Gadamer tm ra zo quando vm no procedimento histrico menos a aplicao sistemtica de um mtodo cognitivo que um movimento relativamente livre de apropriao crtica de experincias temporalmente circunstanciadas e sempre repletas de implicaes morais, ticas e polticas ainda que tal movimento dependa de rigorosas tcnicas de produo e interpretao de evidncias que sustentem a validade da narrativa histrica. Se as mtuas interpelaes entre Hermenutica Filosfica e Histria fecun dam ambos os campos com ricas aproximaes e diferenciaes, o que pode ser testemunhado pelo debate travado entre Koseleck e Gadamer2, maiores ainda sero os efeitos de desacomodao de velhos dogmatismos quando se trata deaspectos filosficos e histricos de campos cientficos e tecnolgicos. que no ambiente das cincias a temporalidade no costuma1 Crtes, Norma. Descaminhos do mtodo: notas sobre histria e tradio em Hans-Georg Gadamer. Varia Histria. V.22, N.36, julho/dezembro de 2006. Disponvel em http:// www.scielo.br/pdf/vh/v22n36/ v22n36a03.pdf. 2 Koselleck, Reinhart; Gadamer, Hans-Georg. Historia y hermenutica. Barcelona: Paids, 1997.1

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ser tomada nem como des tino inescapvel, nem como contingncia a ser contornada: ela sequer reconhe cida! Com efeito, as revolues cientficas e tecnolgicas fizeram-se acompanhar da potente iluso iluminista de uma razo que caminha, segura e celeremente, das trevas para a luz, da suscetibilidade ao controle. O tempo aqui s uma espcie de cenrio desta crnica de progressivos e completamente administrveissucessos no conhecimento e domnio racional do mundo. principalmente con tra essa iluso cientificista (mas no contra a cincia, como muitos mal interpre tam) que a hermenutica gadameriana se levanta no clssico Verdade e Mtodo3. Gadamer, na contramo dessa iluso, fala-nos da tradio como fonte de racionalidade, da produtividade cognitiva do preconceito, da conscincia hist rica como antdoto para o relativismo, da histria dos efeitos como via de acesso aos significados. Dessa forma, ajuda a colocar em novas bases a auto-compreen so das cincias humanas, mas tambm a dos empreendimentos cientficos e tecnolgicos de modo geral uma reconstruo que ser, em larga medida, com partilhada por autores de linhagens tericas e preocupaes to diversas quanto Habermas, Rorty ou Giddens. Qualquer cincia e suas correlatas tcnicas so filhas de seu tempo, isto , so parte de uma experincia prtica que se projeta desde a, e para a, sua exis tncia temporal por meio das regularidades e permanncias de suas pretenses de verdade (ainda que no sentido de quase-verdades, tal como postulada por Costa4). A tarefa hermenutica da compreenso de uma cincia em sua atualida de, com seu fundamento histrico, assim como a tarefa da compreenso histri ca de uma cincia em seu passado, com seu fundamento hermenutico, no so outra coisa, portanto, que as duas faces de um mesmo movimento de uma razo prtico-moral que se debrua sobre essa experincia humana, realimentando-a de sentido e de possibilidades de compartilhamento de sentido. Se tal (re)apropriar-se do sentido de nossas prticas cientficas e tecnolgicas um exerccio fundamental em qualquer campo do conhecimento, dado o car ter emancipatrio do movimento compreensivo e auto-compreensivo da expe rincia hermenutica mediada pelo procedimento histrico (ou ser a experi ncia histrica mediada pelo procedimento hermenutico?), que dizer quando o campo de conhecimento em questo refere-se a prticas mdicas e de sade pblica? Desde o passado hipocrtico, no qual reconhecemos, por afirmao ou ne gao, a identidade dos saberes e prticas de sade de nossos dias, aprendemos a reconhecer na busca racional das verdades dos fenmenos scio-vitais um ele mento fundamental para o estabelecimento de bases normativas de enorme al cance individual e coletivo. Em momentos de importantes inflexes histricas o campo de conhecimento a que chamamos genericamente de cincias da vida e da sade tem desempenhado papis de3 Gadamer, Hans-Georg. Verdade e mtodo: traos fundamentais de uma hermenutica filosfica. Petrpolis: Vozes; So Paulo: Editora Universitria So Francisco, 1997. 4 Costa, Newton Carneiro Affonso da. O conhecimento cientfico. So Paulo: Discurso Editorial, 1997.

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grande relevncia, como na emergncia do racionalismo clssico na Grcia, no antropocentrismo cultural do Renascimento, na construo cientficotecnolgica da modernidade ocidental, assim como no impressionante movimento contemporneo rumo engenharia gentica da vida. Assim, no ser difcil entender nossos sentimentos de curiosidade, satisfa o e esperana diante do presente trabalho. Curiosidade por encontrar nesta obra coletiva competentes pesquisadores de formao diversa, como historiado res, mdicos, socilogos, gegrafos, enfermeiros, antroplogos, todos envolvi dos na mesma tarefa prtico-moral de fazer falar de novo, no modo de dizer hermenutico, experincias das cincias e tcnicas da sade to significativas na construo das prticas de sade paulistas e brasileiras. Satisfao porque esta publicao inaugura a coleo Medicina, Sade e Histria do Museu Histrico Prof. Carlos da Silva Lacaz, da Faculdade de Medicina da USP, consolidando o processo de restauro e revitalizao iniciado na instituio em 2007. Para alm das atividades museais propriamente ditas, o Museu tornou-se, desde ento, sob a liderana dos historiadores Andr Mota, seu coordenador, e Gabriela Marinho, pesquisadora associada, um ativo centro de produo e difuso de conhecimen to histrico sobre medicina, sade pblica e reas afins. Portanto, nada mais ade quado para a realizao do escopo desse novo Museu que fazer fluir para a comunidade acadmica e tcnica interessada pesquisas histricas de qualidade e interesse, como as veiculadas neste primeiro volume. Por fim, mas no menos forte, o sentimento de esperana. Esperana de ver a rea da histria se incorporar radicalmente cultura institucional e acadmica de uma instituio como a Faculdade de Medicina da USP, to importante plo irradiador de pesquisa, ensino e extenso em nosso pas. Esperana de ver nosso Museu contribuir consistentemente para o campo da Histria brasileira, de modo geral, e da histria das prticas de sade em particular. Esperana, especialmen te, de que a auto-compreenso prtica das cincias e tcnicas da sade propicia das por produes como esta possa fazer nossa medicina e nossa sade pblica mais sbias e generosas; de que possa tornar-nos melhores que nossos antecessores, de modo anlogo ao que Georg Steiner prope para a literatura, nas belas palavras que Crtes usa como epgrafe do artigo aqui citado: A alma mais forte do precedente maior, a proximidade da verso rival, a existncia, a um s tempo opressiva e libertadora, de uma tradio comum, liberta o escritor da armadilha do solipsismo. Um pensador ou artista verdadeiramente original simplesmente o que excede ao pagar suas dvidas. Jos Ricardo de C. M. Ayres

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Parte 1 A INSTITUCIONALIZAO DA MEDICINA EM SO PAULO

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Medicina e prticas mdicas em So Paulo: uma introduoAntonio Celso Ferreira1 Tania Regina de Luca2 Desde as ltimas dcadas do sculo XX cresceu mundialmente o interesse pela histria das cincias, rea que se tornou promissora no mbito historiogrfico e tem aberto amplos espaos para o dilogo entre os historiadores e os profissionais dos diversos campos do saber. Como bem assinalou Michel de Certeau em texto publicado na dcada de 1970 e que se tornou referncia terica valiosa, nessa aproximao com outras modalidades de conhecimento, a histria no deixou de manter a funo que exerceu durante sculos por razes bem diferentes e que convm a cada uma das cincias constitudas: a de ser uma crtica (DE CERTEAU, 2000, p. 90). Entenda-se por crtica, sob tal perspectiva, a possibilidade de investigar os modos prprios de constituio dos saberes no que tange a vrios aspectos: seus caminhos e desvios; os agentes e sua relao com a sociedade, lugares de produo e instituies reguladoras; modelos epistemolgicos e tcnicas; terrenos de atuao e tipos de prtica. No tem sido diferente a contribuio da histria (e das cincias humanas em geral) medicina desde a abordagem pioneira de Michel Foucault, sobretudo, em O nascimento da clnica (FOUCAULT, 1977), obra publicada originalmente em 1963 em que o autor trata dos deslocamentos desse saber clssico na Europa do sculo XIX. A difuso de suas idias estimulou, desde ento, toda uma srie de novos estudos sobre as instituies e prticas mdicas. Entre ns, exemplo significativo da inaugurao dessa safra temtica foi o livro Ordem mdica e norma familiar, publicado na dcada de 1970, em que Jurandir Freire Costa (1999) analisou o papel desempenhado pela medicina brasileira no estabelecimento das normas familiares burguesas. Mas os estudos acerca do assunto no pararam de por a: ao contrrio, tenderam a ampliar-se progressivamente em vrias pesquisas que tomaram como objeto suas principais instituies e atores, em momentos determinantes, o que bem atesta a presente coletnea. Apesar disso, h ainda muito a pesquisar sobre a histria da medicina e das prticas mdicas no Estado de So Paulo, onde atualmente convivem sofisticadas clnicas, disponveis para os mais ricos, ao lado dos servios pblicos de sade extremamente precrios destinados massa da populao. Da Faculdade de Medicina, fundada em 1913, s diversas1 2 Professor Titular em Histria do Brasil Contemporneo da FCL, UNESP-Assis, onde atua nos cursos de graduao e ps-graduao. Professora Livre-Docente em Histria do Brasil Republicano, FCL, UNESP-Assis, onde atua nos cursos de graduao e ps-graduao.

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escolas superiores existentes nos dos dias de hoje, na capital e no interior, o contraste evidente. Maior ainda se torna, quando se constata que, h pouco mais de um sculo, pouqussimos eram os mdicos atuantes na regio, a maioria formada nas faculdades do Rio de Janeiro ou da Bahia, e que a grande parte da populao continuava fiel s prticas caseiras de cura, tpicas da sociedade colonial. Da s radicais transformaes ocorridas no ensino de medicina e na prpria rea profissional dos mdicos e dos agentes de sade, outro fosso de grande magnitude se constata. Os estudos histricos, portanto, muito tm a contribuir para o entendimento desse processo de mudanas, cujas razes remontam poca do domnio ibrico, mas que encontra seu momento de inflexo na segunda metade do sculo XIX, quando se inicia o desenvolvimento econmico e a modernizao do Estado de So Paulo, que criaram as condies para alterar padres culturais e cientficos vigentes na regio. Neste artigo, pretende-se traar, em grandes linhas, a trajetria da medicina paulista em trs perodos distintos: do incio do povoamento em So Vicente e no planalto (sculo XVI) aos finais do sculo XVIII; do governo de D. Joo VI s derradeiras dcadas do sculo XIX; e da primeira metade do sculo posterior. Embora tal periodizao seja um tanto generalizante e coincida com os principais marcos da cronologia poltica brasileira (Colnia, Monarquia e Repblica), sua lgica corresponde s mudanas ocorridas no prprio campo mdico regional, como aponta a bibliografia sobre o assunto, da forma como ser exposto nas pginas seguintes.3 Neste aspecto, ela pode ser til neste texto introdutrio, cuja finalidade apresentar um quadro abrangente do tema que ser discutido em suas especificidades ao longo do livro.

Sangrias, ervas e caridade na So Paulo de PiratiningaNos dois sculos em que permaneceram na Amrica portuguesa (1549 a 1759), foram os padres da Companhia de Jesus os principais encarregados da assistncia mdica nos povoados da imensido colonial. Em sua obra sobre as coordenadas gerais da histria da medicina no Brasil,3 certo que os marcos de referncia histrica, sejam eles de natureza econmica, poltica, cultural, tcnica, arquitetnica ou outra, so sempre discutveis porque, alm de corresponderem s circunstncias do lugar e da temporalidade prpria investigao, uma vez escolhidos, tornam-se definidores dos objetos estudados. A esse respeito, so ilustrativos os nomes adotados por alguns autores para distinguir as fases da histria da cidade de So Paulo, entre outros, nas obras de Ernani da Silva Bruno (arraial dos sertanistas, burgo de estudantes, metrpole do caf e cidade contempornea), Benedito de Lima Toledo (cidade de taipa, de tijolo e cidade erguida em cima deles).Ver BRUNO, Ernani da Silva. Histria e tradies da cidade de So Paulo. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1953, 3 vols. e TOLEDO, Benedito Lima de. Trs cidades em um sculo. 2. Ed. So Paulo: Duas Cidades, 1983. O significado desses modos de periodizar discutido em Glezer (2007, p. 145-148).

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imprescindvel para o conhecimento do tema, Lycurgo de Castro Santos Filho (1977, p. 119) lembra que: Os padres e irmos no somente administravam o seu imprio comercial, como exerceram, eles prprios, os mais variegados ofcios, dentro de seus estabelecimentos. Entre esses ofcios constataram-se os relacionados com a assistncia mdica. Eles foram fsicos, cirurgies-barbeiros, enfermeiros e boticrios4. Embora nem todos possussem cartas de autorizao para o exerccio desses ofcios, que j haviam se constitudo na Europa desde o sculo XII, os padres de Santo Incio, alm do trabalho da catequese do ndio, assistiram s parturientes, medicaram, lancetaram, sangraram, combateram a embriaguez, visitaram enfermos, ordenaram atividades fsicas e praticaram a caridade. Em suas casas e misses instalaram enfermarias no s para o tratamento dos prprios religiosos, como tambm dos nativos e demais habitantes. Esse papel, representativo do que Jurandir Freire Costa chamou de teologia do poder familiar,5 foi desempenhado na vila de So Vicente e nos arraiais pouco a pouco instalados no planalto e em suas cercanias do sculo XVI ao XVIII. A pobreza, a disperso populacional e o isolamento da rea em relao ao controle metropolitano contriburam ainda mais para reforar tal poder. A respeito das primeiras providncias adotadas para sua misso na vila de Piratininga, informa Jos de Anchieta, em 1954: permanecemos [...] em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas [...] onde esto ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitrio, o refeitrio, a cozinha, a despensa (SANTOS FILHO, (1977, p. 126). As cartas jesuticas, escritas no sculo XVI para relatar as atividades missionrias aos superiores da Companhia, deixaram registros preciosos sobre as enfermidades que acometiam a populao e a teraputica empregada pelos padres. As doenas mais comuns do norte ao sul da colnia eram a varola, o sarampo, a malria, a disenteria, a sfilis, alm das afeces hepticas, pulmonares, gstricas, renais e cardacas. Uma das primeiras notcias dessas molstias na regio foi a peste da varola que em 1563 dizimou numerosos colonos e ndios. Em seu estudo sobre o cotidiano da sociedade colonial paulista, Alcntara Machado (1972, p. 99) descreve os mtodos dos inacianos para combater esse grave mal: A comear pela garganta e pela lngua, cobria-se o corpo inteiro de uma como lepra. Apodrecidas, as carnes se destacavam, lanando4 Fsicos eram os poucos mdicos propriamente ditos, licenciados pela Universidade de Coimbra ou de Salamanca. Dava-se o nome de cirurgies-barbeiros queles que, alm de sangrar, aplicar ventosas e sanguessugas ou extrair dentes, ainda barbeavam e cortavam o cabelo. A partir do sculo XIX surgiria o ofcio especfico do barbeiro, distinto do mdico. 5 Idem, p. 43. Trata-se de COSTA, Jurandir Freire. Ordem mdica e norma familiar. 4. Ed. Rio de Janeiro: Edies Graal, 1999.

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cheiro e criando gusanos. Morriam os padecentes em trs ou quatro dias. Os padres de Jesus serviam ento de mdicos, enfermeiros e boticrios, assim aos ndios, como aos colonos. Combatiam a doena horrvel com sangrias, e tambm cortando toda a carne, e depois lavando o corpo com gua quente. Muitos no dizer de Anchieta recobraram a sade com estas medicinas. Releva notar que no foi sem hesitao que os inacianos se iniciaram na prtica da flebotomia. Mas, consultado, Santo Incio respondeu lindamente que a tudo se estendia a caridade. As prticas mdico-cirrgicas dos jesutas, transplantadas para a Amrica, seguiam os preceitos do saber mdico ibrico do incio da Idade Moderna, mas progressivamente se mesclaram aos modos de cura praticados pelos indgenas. Baseavam-se, originalmente, na filosofia humoral de Hipcrates e nas idias de Galeno, recompostas pelo arabismo e pela escolstica. Tratava-se, segundo Lycurgo de Castro Santos Filho, de uma arte j amesquinhada e apoucada num meio obscurantista ainda imerso no medievalismo que permaneceu fechado por sculos ao renascentismo6 A sangria era o remdio para a maioria das doenas. As fontes indicam que mais de um sculo depois, em 1691, os enfermos ainda eram sangrados vinte e trinta vezes at morrerem, uma vez que os mdicos cirurgies estavam convencidos de que todos os males eram atribuveis sobejido do sangue (MACHADO, 1972, p. 103). Alm desse procedimento, eles escarificavam, aplicavam ventosas e sanseguessugas, bem como realizavam pequenas cirurgias. A prtica foi to comum que, afora os jesutas, outros colonos tambm aprenderam o ofcio. Ao compulsar os inventrios e testamentos do perodo, Alcntara Machado encontrou, entre outros bens descritos para transmisso aos herdeiros, os principais instrumentos utilizados pelos cirurgies-barbeiros: navalhas; tesouras de barbear; lancetas e agulhas; ferros de botica e de tirar dentes; alicates; pinas e escarnadores (MACHADO, 1972, p. 102). Mas a sangria no era empregada unicamente pelos jesutas e colonos de origem europia. Entre os indgenas, os pajs a utilizavam no tratamento de afeces gerais ou localizadas, assim como amputavam membros e extraam dentes cariados. Entretanto, a base da medicina nativa consistia na explorao de uma grande variedade de vegetais, dentre eles a copaba, a capeba, a maaranduba, a jurubeba, o maracuj, o caju, o jaborandi, o guaran, o tabaco, a umbaba... Os padres da Companhia de Jesus apropriaram-se desse conhecimento, identificando e catalogando as espcies vegetais, observando suas propriedades teraputicas, extraindo e conservando seus sucos em suas farmcias. Difundiram, ademais, suas receitas nas vrias misses coloniais e tambm na Europa. Em So Paulo, a Botica do Colgio foi durante sculos a mais importante farmcia da cidade (SANTOS FILHO, 1977, p. 121-131).6 Idem, p. 153. Neste caso Lycurgo de Castro Santos Filho, como se indica no texto.

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Os jesutas no foram, contudo, os nicos beneficirios da medicina indgena. Como salienta Srgio Buarque de Holanda, especialmente desde o incio do bandeirismo, no sculo XVII, intensificou-se a interao entre os mamelucos e os ndios. Em suas incurses pelo interior, os sertanistas conheceram uma enorme variedade de remdios dos bugres, extrados da botica da natureza, que seriam alm dos patus e outras magias oriundas da mesma cultura, incorporados a partir de ento no cotidiano da gente paulista (HOLANDA, 1957). Na ausncia de fsicos e cirurgies gabaritados e em nmero suficiente para cuidar da populao, alis, as tarefas mdicas eram comumente exercidas tambm por mzinheiros, triagueiros, benzedeiros e curandeiros de toda a casta (MACHADO, 1972, p. 99). Embora a edilidade local tentasse regular a atividade sanitria, designando nos arraiais os juzes dos fsicos, aos quais incumbia a tarefa de expedir licenas para esse ofcio, o nmero de mdicos seguiria insuficiente at o sculo XVIII. O problema era o mesmo em Portugal, onde [...] bastava um simulacro de exame perante o fsico-mor ou cirurgio-mor do reino, para ser admitido ao exerccio da arte qualquer indivduo, com estudos sumarssimos [...] Mdicos idiotas, assim chamava o povo expressivamente a esses antepassados [...].(MACHADO, 1972, p. 99-100) Durante o sculo XVIII, os letrados da colnia procuraram compensar a falta de cursos superiores e os parcos estudos com a fundao de academias cientficas e literrias, que tambm proliferavam na Europa. Tinham como objetivo reunir os interessados no conhecimento e na difuso das cincias naturais e das letras. Em Salvador, foram criadas a Academia Braslica dos Esquecidos e a Academia Braslica dos Renascidos (1759); no Rio de Janeiro, a Academia dos Felizes (1736) e a Academia Cientfica (1771). Os registros disponveis indicam que, dentre os membros dessas agremiaes, participaram alguns professores de medicina, cirurgia e farmcia, bem como fsicos, boticrios, bacharis em leis, sacerdotes e outros letrados. A Academia Cientfica, que alcanou maior notoriedade, mantinha correspondncia com a Academia Real de Cincias da Sucia (SANTOS FILHO, 1977, p. 358-368). Em So Paulo, entretanto, somente no sculo XIX surgiriam entidades dessa natureza. A ao mdica na So Paulo colonial, realizada por padres ou leigos, era orientada pelas concepes de caridade crist da poca. As Santas Casas de Misericrdia nuclearam as prticas caritativas, mas os jesutas no participaram formalmente dessas instituies em razo das regras religiosas proibitivas nesse quesito. Originadas em Portugal no sculo XV sob a proteo da coroa, elas se espalharam pelas colnias da Amrica, da frica e da sia, estimuladas pelos privilgios concedidos pelo rei aos membros da irmandade: iseno das aposentadorias, de servir nos cargos municipais e das inspees por parte dos bispos e funcionrios reais. As obras da Misericrdia, estabelecidas na metrpole, incluam visitas a pobres envergonhados para a distribuio de esmolas; inspeo das prises para proporcionar alimento, assistncia jurdica e religiosa aos19

prisioneiros pobres; enterro dos pobres e justiados e socorro aos doentes (MESGRAVIS, 1976, p. 33). No Brasil, a casa mais antiga foi fundada por Brs Cubas em 1543 para socorrer marinheiros doentes que aportavam depois da penosa travessia do Atlntico (MESGRAVIS, 1976, p. 38). Seguiram-se as de Salvador, Esprito Santo, Olinda, Rio de Janeiro, Porto Seguro, Sergipe e Paraba, Itamarac, Belm, Igarassu e Maranho, fundadas da segunda metade do sculo XVI a meados do subseqente. Ainda que de maneira indireta e lacunar, as fontes histricas tambm sugerem a existncia de uma Santa Casa em So Paulo desde o sculo XVI, como observa Laima Mesgravis em seu estudo precursor a respeito do tema. No entanto, a ao da misericrdia na vila de Piratininga no incluiu, inicialmente, a construo de um hospital, em virtude das condies de pobreza e da pequena densidade demogrfica do planalto. O trabalho da Irmandade envolveu, basicamente, as missas pelas almas dos defuntos, a distribuio de esmolas, o tratamento domiciliar dos doentes, o enterro dos pobres e indigentes. No sculo XVII foi construda uma igreja que passou a ser a sede dos servios religiosos e ainda o lugar para os sepultamentos. Predominaram, testa da Irmandade, [...] elementos da elite local descendente dos primeiros povoadores ou a ela ligados pelos laos do matrimnio (MESGRAVIS, 1976, p. 57). Desde o sculo XVIII, tais aes seriam afetadas por uma srie de acontecimentos precipitados pela corrida do ouro, pela Guerra dos Emboabas, pela expulso dos jesutas e pelas transformaes administrativas da capitania. A descoberta do metal precioso acarretou o xodo da maior parte da populao economicamente ativa; a guerra mobilizou grande quantidade de jovens, retirando-os das funes produtivas; ao longo da centria So Paulo perdeu os territrios de Minas Gerais, de Santa Catarina, Gois e Mato Grosso. Tal situao levou piora das finanas locais, o que teve forte impacto no papel da Misericrdia. Apesar disso, em 1714 foi fundado o primeiro hospital da Santa Casa de So Paulo, construdo em edifcio conjugado igreja. A documentao registra, entretanto, as condies precrias tanto das instalaes fsicas como dos recursos econmicos da Irmandade no decorrer do sculo, que prejudicaram consideravelmente o trabalho efetivo da Misericrdia, sobretudo, no tocante assistncia mdica (MESGRAVIS, 1976). Nesse contexto adverso e marcado por aflies variadas, restava populao recorrer s benzeduras, magia e a oraes milagrosas, como esta: Em nome de Deus Padre, em nome de Deus Filho, em nome do Esprito Santo, ar vivo, ar morto, ar de estupor, ar de perlesia, ar arrenegado, ar excomungado, eu te arrenego em nome da Santssima Trindade (apud MACHADO, 1972, p. 105).20

Hospitais de misericrdia e prestgio mdico na provncia paulistaA historiografia sobre a medicina concorde em assinalar o sculo XIX como divisor de guas no que diz respeito fundao de novas instituies que passariam a regular o ensino e a prtica dessa rea de saber. No dizer de Michel Foucault, nessa poca que surge o mito de uma profisso mdica nacionalizada, organizada maneira do clero e investida ao nvel da sade e do corpo de poderes semelhantes aos que este exercia sobre as almas (FOUCAULT, 1977, p. 35). No foi diferente o que ocorreu em Portugal e no Brasil, em particular em So Paulo. Isto no significa, todavia, que as aes de caridade diante da doena e as prticas populares de cura tenham inteiramente desaparecido no novo cenrio da cincia, embora passassem a ser submetidas progressivamente nova ordem. No Brasil, mudanas fundamentais ocorreriam a partir de 1808, quando D. Joo VI criou duas escolas cirrgicas: a da Bahia e a do Rio de Janeiro, ambas estabelecidas em hospitais militares. Cinco anos depois, elas seriam transformadas em academias, o que possibilitou maior regularidade e institucionalizao aos cursos (SCHWARCZ, 1993, p. 195). Doravante, os mdicos paulistas seriam formados nessas escolas e viriam substituir os raros fsicos, provenientes da metrpole, ou os cirurgies-barbeiros, prticos na maioria. Nem por isso eram em nmero suficiente para cuidar da populao ou capacitados altura para cumprir a nobre misso, a eles atribuda, de sanear a sociedade. Alm da insuficincia das dotaes financeiras para o seu funcionamento, at 1870 as faculdades nacionais careciam de um projeto cientfico slido. Em contrapartida, a populao do planalto paulista apresentava uma leve tendncia de crescimento: de 9 mil habitantes em 1836 para 12 mil em 1855; de 20 mil a 30 mil se consideradas tambm as freguesias de Cotia, Embu, So Bernardo e outras (MESGRAVIS, 1976, p. 97).7 Desde o incio do sculo, a economia da provncia desenvolveu-se de forma lenta com a lavoura canavieira at o florescer da cafeicultura que passaria a suplant-la por volta de 1850. No rastro do caf, a populao urbana do interior paulista tambm aumentou significativamente e novas cidades surgiram no oeste. A elite regional fortaleceu-se nesse surto de progresso e ganhou prestgio poltico pelo papel de ponta desempenhado no processo de independncia do pas. Os bacharis em Direito, formados na Academia do Largo de So Francisco primeira instituio de ensino superior da provncia, fundada em 1827 e os mdicos, ainda que originrios das famlias de fazendeiros, renovariam a feio dos grupos dominantes locais. O cotidiano da cidade de So Paulo era, contudo, ainda marcado pelo marasmo, pelo menos at 1870, quando esse panorama se alterou em7 Ver tambm: MORSE (1970, p. 171).

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decorrncia das novas benfeitorias urbanas e do maior afluxo de pessoas, incluindo os imigrantes e os negros paulatinamente libertos das fazendas. Desde a primeira metade do sculo, contudo, agravaram-se os problemas de sade pblica na capital. Para Laima Mesgravis (1976, p. 98), apesar do seu acanhamento, a cidade [...] atraa inmeros pobres, doentes, lzaros, alienados que vinham capital em busca de algum socorro para sua misria e seus males. As autoridades municipais interioranas livravam-se dos problemas enviando esses infelizes a So Paulo, onde existia a Santa Casa da Misericrdia, nica instituio organizada de assistncia social. Foi nesse quadro que a Irmandade da Misericrdia se reorganizou, com a adoo do modelo da confraria de Lisboa no tocante arregimentao e hierarquizao dos participantes incluindo pela primeira vez as mulheres - s formas de angariar recursos e prestar contas, assim como s prticas de caridade. Dessa forma, as Santas Casas exerceriam, ao longo do sculo XIX, lugar central na assistncia mdica e social populao pobre da capital e do interior. Em toda a provncia, alm dos precrios hospitais de Santos, Itu e Sorocaba [...] s So Paulo possua Hospital da Caridade com Casa dos Expostos anexa e Lazareto (MESGRAVIS, 1976, p. 134). At o final dos oitocentos, a Irmandade da Misericrdia ainda se responsabilizaria pelo atendimento hospitalar dos desamparados.8 Na capital, o Hospital de Caridade e a Casa dos Expostos, que acolhia os recm-nascidos abandonados e os destinava adoo, foram inaugurados em 1825 e sofreriam reformas e acrscimos constantes nas dcadas posteriores. Desde 1802 j havia tambm na cidade um abrigo para os lzaros, onde eram confinados os doentes que perambulavam pelas ruas da cidade e, mais tarde os de toda a provncia (MESGRAVIS, 1976, p. 124). Por muitas dcadas, no entanto, tais instituies funcionaram como abrigos aterrorizantes, uma vez que socorriam as pessoas pobres, portadoras de molstias contagiosas, alienao mental ou outras doenas terminais depois de esgotadas as ervas caseiras e as benzeduras. O tratamento dos indivduos dotados de recursos financeiros, ao contrrio, era realizado em casa. A teraputica preconizada para a lepra, em 1840, exemplifica bem a indigncia da medicina das Santas Casas: afora o confinamento, que j se adotava desde o sculo anterior, prescreviam-se sangrias copiosas, suadouros, choques eltricos e banhos quotidianos e prolongados, alm de frices com solues desinfetantes (MESGRAVIS, 1976, p. 130). A despeito dos avanos da medicina no sculo XIX, especialmente com as descobertas de Lister e Pasteur sobre a origem microbiana das doenas e a fundao da enfermagem moderna, as condies hospitalares na provncia de So Paulo pouco se alteraram. O corpo de enfermeiros era8 O Almanach Litterrio Paulista para o ano de 1881 informa que a provncia somava sete Casas de Misericrdia: uma em So Paulo e as demais em Jacare, Campinas, Santos, Bananal, Itu e Sorocaba. Ver, a respeito: FERREIRA (2002, p. 32).

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ainda composto por prticos, fossem os homens ou as irms de caridade. Permaneciam as dificuldades de arrecadao de recursos, tanto provenientes das dotaes oramentrias pblicas quanto das doaes de particulares. Somente na dcada de 1880 o tratamento dos enfermos seria beneficiado da organizao de um corpo clnico constitudo de profissionais especializados, como cirurgies, mdicos para molstias dos olhos, parteiros e especialistas em senhoras (MESGRAVIS, 1976, p. 152-156). Nas trs ltimas dcadas do sculo XIX j se podia observar na provncia o grande prestgio conferido profisso mdica e a irradiao do seu poder na sociedade. A medicina no s se tornaria um ofcio rentvel como tambm passaria a ser porta de ingresso para o mundo da poltica e da elite intelectual. Os princpios da abnegao e da caridade crist, pressupostos para a dedicao assistencial e pblica desses profissionais, seriam rapidamente substitudos por valores pragmticos e tipicamente capitalistas. Como se observa na leitura dos jornais e dos almanaques da poca, novos consultrios mdicos eram abertos em nmero crescente para o atendimento privado dos mais abastados, tanto na capital quanto nas cidades interioranas. Pginas e pginas desses peridicos tambm eram ocupadas por guias mdicos com receitas para todos os males e a publicidade de seus autores. Anunciavam-se ainda os produtos dos recentes laboratrios homeopticos criados na paulicia e a instalao de drogarias nas principais cidades da hinterlndia. Disseminavam-se igualmente propagandas de remdios para combater doenas variadas: reumatismo; sfilis; dor de dentes; hemorridas; epilepsia; distrbios femininos e outras. As descobertas cientficas eram demonstradas em sua utilidade cotidiana. Em 1885, o Almanach Litterrio de So Paulo anunciava o Atauba de Sabyra, um assombroso remdio dos ndios! Maravilha do sculo XIX! Aprovado pela Junta de Hygiene pblica do Rio de Janeiro e autorizada pelo governo Imperial!. No desenho que acompanhava a propaganda, estampa-se a figura de um ndio com seu arco-e-flecha em posio de combate a uma cobra. Para fincar suas razes nos hbitos da populao, a cincia e a publicidade dos paulistas buscavam o amparo dos smbolos j sedimentados no imaginrio coletivo (FERREIRA, 2002, p.87). Apesar do prestgio alcanado, os mdicos seguiam disputando espao com os benzedores e feiticeiros.

A Repblica e a constituio de um aparato mdico-sanitrioAs transformaes por que passou a cidade e o Estado de So Paulo a partir das dcadas finais do sculo XIX foram objeto de inmeros estudos, que compem vasta e diversificada produo historiogrfica sobre o tema. Em 1872 a capital, com populao na casa dos 30 mil indivduos, ocupava23

um modesto dcimo lugar entre as cidades brasileiras, superada em termos de habitantes por Niteri, Fortaleza, Cuiab e So Lus (SINGER, 1977, p. 1920).9 Conservava ares coloniais e particularizava-se pelo aspecto montono e quase tristonho pelo pouco movimento de comrcio em grosso e de fbricas (MARQUES, 1980, p. 242), s perturbado pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de So Francisco, cuja fundao remontava a 1827. A simples meno das cifras do crescimento populacional fornece a dimenso das mudanas: 64.934 em 1890; 239.820 em 1900; 357.324 em 1910; o que equivale a um crescimento de mais de mil por cento entre a ltima dcada citada e os anos 1870. Num perodo particularmente marcante, os poucos anos compreendidos entre 1886 e 1900, o percentual chegou aos 400%. No censo de 1920 registraram-se 579.033 citadinos e na primeira metade do decnio seguinte ultrapassou-se a marca de um milho. No surpreende, portanto, que a cidade tenha se tornado motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, um enorme desafio para as elites republicanas encarregadas de geri-la. Era preciso garantir o abastecimento e qualidade da gua e dos vveres, racionalizar a circulao, implantar sistema de transporte pblico, iluminar, abrir ruas e avenidas, calar, canalizar crregos, coletar lixo e esgoto domstico, controlar enchentes, fiscalizar moradias, arborizar e embelezar a cidade. Tais intentos no se dissociavam do controle daqueles que eram percebidos pelas camadas dominantes como ameaas ordem que se desejava implantar vadios, capoeiras, jogadores, escroques, ladres, criminosos, alienados, prostitutas, mendigos, menores abandonados, sem esquecer os grevistas e os insufladores de idias estrangeiras no seio dos ordeiros trabalhadores nacionais. Problemas de natureza semelhante j vinham sendo enfrentados por pases europeus desde o final do sculo XVIII, quando o desenvolvimento industrial e o crescimento das cidades, em propores at ento inusitadas, colocaram na ordem do dia a estreita relao entre as condies ambientais e as doenas, o que no por acaso ocorreu, de incio, na Inglaterra. No havia consenso em relao s causas das infeces e doenas epidmicas, com as explicaes variando num amplo espectro que, de forma esquemtica, abrigava os defensores da teoria dos miasmas, para os quais a origem do mal provinha da decomposio de material orgnico e animal e das guas estagnadas; seus opositores diretos, os contagionistas, os quais sublinhavam o papel dos contgios especficos, e uma mirade de posies intermedirias que tentavam conciliar posturas antagnicas.10 Em comum, porm, a nfase na necessidade de aes do poder pblico, que ganhou novos contornos com a era bacteriolgica, responsvel no s por inaugurar outras perspectivas para a compreenso das enfermidades, mas por tornar ainda mais urgente e justificada a interveno de especialistas dotados de competncia tcnica.9 O mesmo autor informa que a populao do municpio era de 21.933 habitantes em 1836 e de 31.385 em 1872. Ver, ainda: FUNDAO SISTEMA ESTADUAL DE ANLISE DE DADOS (2004). 10 Para uma anlise detida da questo, consultar: CZERESNIA (1997).

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No se trata de retomar aqui os passos desse complexo processo,11 mas de chamar a ateno para a existncia de todo um arsenal de saberes que inspiravam e guiavam a ao das elites locais, que deles se valeu para a tarefa de tentar ordenar e controlar o espao urbano. Tal projeto inscreviase na busca do progresso e da modernidade e ancorava-se nos mtodos provenientes da cincia, com seus preceitos racionais e capacidade de criar/ restaurar o equilbrio da sociedade, freqentemente descrita e analisada a partir de metforas organicistas. Projetos urbansticos e de engenharia a Escola Politcnica de So Paulo data de 1892 , medidas no campo da assistncia, higiene e sade pblicas e atitude enrgica da polcia conjugavam-se na pretenso de fazer com que cada indivduo ocupasse o seu lugar e funo com vistas ao funcionamento do corpo social. Ainda que no haja acordo entre os especialistas quanto existncia de uma ntida segregao geogrfica das classes sociais na cidade antes da dcada de 1930, no restam dvidas quanto distncia que separava os bairros habitados pelas camadas mais abastadas, situados nas partes mais altas da cidade, e os ocupados pelos operrios e trabalhadores pobres, prximos das vrzeas e dos trilhos das ferrovias.12 Somente com a Repblica So Paulo foi dotado de um efetivo sistema de sade pblica, uma vez que, ao longo do sculo XIX, no se foi muito alm da criao do Instituto Vacnico (1838), responsvel pela aplicao da vacinao antivarilica mas que conheceu longos perodos de inatividades e da fundao, j no final do Imprio, da Inspetoria de Higiene (1884), subordinada ao Rio de Janeiro e destituda de oramento prprio. O quadro alterou-se de profundamente na dcada seguinte, em consonncia com a nova ordem republicana, que passou para a alada dos Estados as questes relativas sade pblica. O Servio Sanitrio, organizado entre 1891 e 1892 e reformulado em 1896, subordinava-se Secretaria do Interior e contava com estrutura organizacional complexa que inclua: Diretoria do Servio Sanitrio, Servio Geral de Desinfeco, Seo de Estatstica Demogrfico-Sanitria, Hospital de Isolamento, Hospcio de Alienados, Laboratrio Qumico e Farmacutico, Laboratrio de Anlises Qumicas e Bromatolgicas, Instituto Vacinognico, continuao do antigo vacnico, e Instituto Bacteriolgico.13 Em 1901, foi criado o Instituto Butant e, em 1903 inaugurado, o Juquery, destinado aos doentes mentais. J o Instituto Pasteur data de 1903 e permaneceu como uma instituio privada at 1916, quando seu patrimnio foi doado ao Estado. Em 1894, veio a pblico o primeiro Cdigo Sanitrio. Tal aparato, sem equivalente no restante da federao e que consumia pores significativas do oramento do Estado, no pode ser dissociado das mutaes em curso na economia paulista, que impunha nova e diversificada agenda. Alm dos problemas relacionados ao crescimento da11 A bibliografia sobre o tema vastssima, mas cabe destacar os trabalhos clssicos de Rosen (1980, 1994). 12 Sobre as diferentes posies, consultar: BERTOLLI FILHO (2003, cap. 1). 13 Adotou-se a nomenclatura consagrada pela legislao de 1896. Sobre as origens do Servio Sanitrio e as competncias e funes especficas de cada uma de suas sees, ver: RIBEIRO (1993, especialmente o captulo 1).

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capital, as reas ainda no tocadas do interior os mapas de 1890 atestam que apenas metade do territrio era ocupado, correspondendo o restante a extensas regies cobertas de florestas (REIS, 2004, p. 141) comearam a ser rapidamente rasgadas pelos trilhos das ferrovias, tomadas por cafezais e por uma enorme populao flutuante, o que alterou profundamente o quadro nosolgico vigente. A sucesso de surtos e epidemias de clera, febre amarela, peste bubnica, malria, atingia o funcionamento da economia cafeeira e exigia equacionamento rpido, num momento em que o deslocamento de mo-de-obra e o mercado de trabalho tomavam propores mundiais. Era preciso livrar Santos do rtulo de porto insalubre, no qual os navios que traziam imigrantes eram aconselhados a no atracar.

Prtica, produo e interveno do saber mdicoOs avanos no campo da microbiologia forneciam poderosas ferramentas para o saber mdico, cujos resultados parecem inquestionveis ao olhar contemporneo. Entretanto, como bem destacou Luiz Antonio Teixeira (2007, p. 57-58), no momento de seu surgimento esteve longe de implicar a [...] asfixia instantnea de outras concepes mdicas; pelo contrrio, consubstanciou-se por longas negociaes, muitas vezes tensas, com seus detentores [...]. No perodo que se estende entre a dcada de 1880 e os primeiros anos do sculo XX, grande parte do emergente acervo de conhecimentos da microbiologia ainda no era aceita por uma parcela do campo mdico. Os modelos de propagao das doenas por microrganismos, as ilaes entre a existncia de vetores e o aparecimento de doenas e, at mesmo, a validade de alguns conceitos, mais tarde considerados clssicos, como a especificidade etiolgica das doenas infecciosas, eram alvo de intensas controvrsias. Tais consideraes so fundamentais, pois convidam a questionar uma determinada leitura a respeito das descobertas e prticas mdicas, que no s enfatiza as realizaes bem sucedidas dos que trabalhavam dentro dos novos parmetros, mas ignora o processo de luta no campo cientfico. No se pode esquecer, contudo, que a aposta no estava ganha de sada, aspecto que a memria posterior tende a esmaecer em prol da exaltao das descobertas realizadas, canonizao de seus protagonistas e imposio de periodizaes, enquanto se silencia sobre a pluralidade de percepes e26

interpretaes que se afiguravam, num dado momento, verossmeis. Tratase, portanto, de significativa reviravolta metodolgica, que tem produzido trabalhos instigantes.14 Os mdicos que em So Paulo estiveram frente do Servio Sanitrio nas suas primeiras dcadas Emilio Ribas, seu diretor (18981917); Adolfo Lutz, no Instituto Bacteriolgico (1893-1908); Arnaldo Vieira de Carvalho, no Instituto Vacinognico (1892-1913); Vital Brasil, inicialmente no Bacteriolgico (1893) e primeiro diretor do Instituto Butant (1901-1917) quando o instituto ganhou autonomia inserem-se nesse espao de debates e perfilam-se ao lado das novas interpretaes. As pesquisas de Adolfo Lutz no Bacteriolgico, que comprovaram a ocorrncia de epidemia de clera na Hospedaria dos Imigrantes, esclareceram a natureza das chamadas febres paulistas, confirmaram a peste bubnica em Santos, assim como as experincias para ratificar a teoria havanesa acerca da febre amarela, conduzidas com a ajuda de Emlio Ribas,foram objeto de intensos debates, tanto nos fruns especializados como na imprensa em geral. No que respeita aos primeiros, vale destacar o rumoroso caso das febres paulistas, objeto de votao na Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, que acabou por decidir, contrariamente ao que indicavam as pesquisas de Lutz, que no se tratava de febre tifide. A avaliao do diretor do Instituto Bacteriolgico foi incisiva: [...] grande parte da classe mdica e da imprensa diria desta cidade revelou pouca inclinao para formar uma opinio objetiva sobre os assuntos mdicos do dia. Em vez disso, se opunham sistematicamente a todo o progresso, baseando suas idias em trabalhos de autores que no eram competentes ou estavam superados. Estes fatores estiveram especialmente presentes durante as discusses relativas s febres paulistas. (apud STEPAN, 1976, p. 133) A opinio de Lutz deve ser contextualizada e matizada: assumir que sua apreenso dos fatos atraso e incompetncia versus progresso e procedimentos cientficos adequados possa dar conta dos termos em que se colocava o debate equivale a alar a fala de um dos contendores nica forma possvel de entender a controvrsia, sem que se chegue sequer a formular a questo das motivaes em jogo, analisar os argumentos mobilizados por cada lado e avaliar o que, afinal, mobilizava tantas energias. Quando tais questes so formuladas, o quadro muda significativamente e os aspectos da controvrsia deixam claro que a crtica posio dos defensores da microbiologia no era sinnimo de obscurantismo (TEIXEIRA, 2007, p. 160). A percepo e a compreenso das doenas articulavam-se s distintas formas do exerccio profissional: pesquisadores familiarizados com tcnicas e diagnstico de laboratrios, de um lado, e aqueles que acumulavam vasta experincia na lida cotidiana com pacientes, nos consultrios e14 Veja-se, por exemplo: BENCHIMOL (1999).

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hospitais, de outro. A importncia do exemplo tambm reside no fato de colocar a nu as disputas pela legitimao dos saberes. As formulaes de Bourdieu sobre as lutas em torno das instncias de consagrao fornecem instrumentos analticos poderosos e sugestes perspicazes para apreender a situao, mas exigem uma investigao sistemtica a respeito de como se organizava o campo mdico em So Paulo. Seria difcil reduzir o grupo dos microbiologistas a meros aspirantes ao poder basta lembrar as posies de relevo que ocupavam na mquina sanitria do Estado e o vasto programa de interveno social que formularam e aplicaram , mas tampouco parece correto tomar de sada, como certa e inevitvel, sua hegemonia, o que torna a questo particularmente desafiante. O mapeamento sistemtico dos espaos de produo, debate e difuso do saber mdico em So Paulo est por ser feito. O j citado trabalho de Luiz Antonio Teixeira (2007, p. 17-59), consagrado Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, fornece um quadro das diversas instituies existentes no perodo imediatamente anterior fundao da Faculdade de Medicina. Assim, no que respeita propriamente pesquisa, destacava-se a estrutura do Servio Sanitrio, com os institutos Bacteriolgicos e Butant, o Hospital de Isolamento e o Hospcio do Juquery, este capitaneado por Franco da Rocha desde sua criao. Fora do mbito do Estado, havia o Instituto Pasteur, que conheceu particular desenvolvimento entre 1906 e 1912, sob a batuta do mdico italiano Antonio Carini.15 A prtica mdica, por sua vez, concentrava-se no Hospital Geral da Santa Casa de Misericrdia, especialmente a partir do momento em que a direo clnica coube a Arnaldo Vieira de Carvalho (1894). Na rea do ensino, o destaque era a Escola Livre de Farmcia (1898), instituio privada, porm subvencionada pelo poder pblico, enquanto em termos de publicaes peridicas especializadas contava-se com a Revista Mdica de So Paulo (1898), que dispunha de um laboratrio de microscopia prprio, dirigido por Vital Brasil; a Gazeta Clnica de So Paulo (1903) e os Anais Paulistas de Medicina e Cirurgia (1912), alm do Boletim editado pela Sociedade de Medicina e Cirurgia. A entidade, que agregava os profissionais da rea, conheceu breve existncia entre 1889 e 1891, porm seu funcionamento efetivo data de 1895, quando foi reorganizada e passou a se constituir num importante espao de debates. Sob seus auspcios foi fundada em 1896 a Policlnica de So Paulo, que visava a prestar servios mdicos gratuitos populao carente. A trajetria dos nomes mais destacados da medicina paulista evidencia que havia intensa circulao por esses espaos e que os alguns indivduos podem ser encontrados nas reunies da Sociedade, na direo de revistas, em cargos do Servio Sanitrio, na direo dos hospitais, mas ainda no h um estudo sistemtico que evidencie as linhas de fora que presidiam tais articulaes, trocas, disputas e especificidades no interior do campo constitudo por essas instituies. O percurso de instituies, por sua15 Sobre as origens e o funcionamento do instituto antes da incorporao pelo Servio Sanitrio, ver: TEIXEIRA (1995). A respeito do papel dos mdicos de origem italiana, ver: SALLES (1997).

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vez, talvez possa ser reavaliado. E aqui o caso mais evidente o Instituto Bacteriolgico, que conhece uma inegvel perda de vigor depois que Lutz resolveu transferir-se para Manguinhos.16 As possibilidades de anlise no se limitam s acirradas discusses sobre as causas da morbidez e suas formas de tratamento. Independente das disputas que polarizavam a comunidade mdica, o potencial de interveno da microbiologia no esperou pelo consenso para ser colocado em prtica. De fato, a abordagem microbiana possibilitava abordar a questo das epidemias a partir da perspectiva biolgica, ou seja, descoberta do agente etiolgico e das formas de propagao da doena. De posse desse saber tcnico especializado, era possvel implementar programas de sade pblica nos quais as condies sociais podiam ser deslocadas para um plano secundrio. certo que os resultados alcanados acabaram por reforar tal perspectiva, alm de garantir para os sanitaristas um lugar de proa na produo cientfica nacional e mesmo internacional. Afinal, num momento em que a populao da cidade de So Paulo aumentava em ritmo acelerado, o coeficiente de mortalidade despencou dos 30,73% em 1894 para 18,14% em 1899 (STEPAN, 1976, p. 132). O quadro otimista no se estendia para alm de algumas cidades e assumia coloraes bem mais sombrias quando se tratava do interior do pas. A famosa expedio mdico-cientfica de 1912, na qual Artur Neiva e Belisrio Pena percorreram reas do Nordeste e Centro-Oeste e diagnosticaram o precrio estado de sade da populao sertaneja, causou grande impacto e colocou na agenda do dia os debates em torno do saneamento dos sertes (NEIVA; PENA, 1999).17 Em So Paulo, foi somente em 1917 que se organizou o Servio de Profilaxia Geral, rgo do Servio Sanitrio destinado s reas rurais do Estado, isso no mbito de uma vigorosa campanha em torno da recuperao da sade do brasileiro, na qual mais uma vez transparece a crena quase ilimitada no poder das aes mdico-sanitrias.18 A composio ecltica da Liga Pr-Saneamento, que agregava mdicos, polticos e homens de letras, e os debates nos matutinos, semanrios e mensrios indicam que a questo extravasou o crculo restrito dos especialistas e foi capaz de mobilizar amplos setores sociais. O advogado, escritor e editor Monteiro Lobato colocou a pena e sua Revista do Brasil a servio da causa. Com a franqueza e praticidade que lhe eram peculiares, analisou seu engajamento em termos do renome e prestigio adquiridos: A mim favoreceu muito aquela campanha pr-saneamento que fiz pelo [jornal O] Estado [de S. Paulo]. Popularizou a marca Monteiro Lobato; o pblico imagina-me um mdico sabidssimo, e a semana passada tive um chamado telefnico altas horas da noite (LOBATO, 1964, p. 173). A observao, para alm de indicar o grau de interesse despertado pelo tema,16 Ver a anlise de Stepan (1976, p. 126-145), que comparou as trajetrias dos Institutos Osvaldo Cruz e Bacteriolgico. 17 Para uma anlise circunstanciada da poltica de saneamento rural nos anos 1910 e 1920, consultar: HOCHMAN (1998). 18 No se pode perder de vista que o interesse pelo brasileiro do interior ocorreu no contexto das conseqncias da Primeira Guerra Mundial, que paralisou o fluxo de imigrantes para o continente americano.

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alerta para a importncia de o historiador mobilizar a imprensa peridica. Alis, as crticas de Lutz h pouco citadas no se limitaram aos colegas mdicos: tambm incluram a imprensa diria. Foi nas pginas da revista de Monteiro Lobato que Afrnio Peixoto sintetizou as esperanas depositadas na nova medicina. Apesar de longo, vale acompanhar o trecho no qual o consagrado mdico sintetiza as transformaes em curso: A velha medicina ainda a presente, recalcitrante, impenitente e por fora de rotina sobrevivente durante muitas dcadas ainda a medicina curativa, remedeira, teraputica. A nova medicina j instalada e propagada, de mais em mais, embora a crendice, a ignorncia, o misonesmo, a medicina preventiva, a higiene, a profilaxia... A nova medicina funda-se, pois, no conhecimento da causa ou etiologia das doenas, de onde a oposio que a corrige ou suprime, a preveno que a evita e faz desaparecer. a ela que pertence toda essa maravilhosa ecloso de cincias da famlia da Higiene a Microbiologia, a Parasitologia, a Imunoqumica, a Quimioterapia, a Diettica, a Fisioterapia, a Eugenia que representam as foras novas de ao contra a doena, inventadas pelo gnio humano [...]. Se eliminarmos as doenas parasitrias, infectosas e txicas, teremos eliminado logo imediatamente quota imensa daquelas que lhe so consectrias. Para no perder tempo no debate basta indagar: quantas doenas orgnicas, constitucionais, hereditrias, cardiopatias, cirroses, nefrites, epilepsias, degeneraes no se suprimiro, acabando com o alcoolismo? S a sfilis metade da patologia: noventa e cinco por cento dos aneurismas dos grandes vasos so dessa causa especfica [...]. A Higiene uma nova medicina, de menos de um sculo... Mas a Higiene apareceu, tornou-se moda, imps-se como hbito e se vai impondo como necessidade. A vacina salva milhes de vidas... O advento da Microbiologia, procurando o conhecimento da causa das doenas, altera a face do mundo, dando a esperana e j a certeza da vitria sobre a doena. A difteria, a raiva, a peste, a febre tfica, o ttano, o carbnculo so prevenidos; elas mesmas e outras tantas so curadas; todas so agredidas pela notificao compulsria, o isolamento, a desinfeco... Como da Astrologia saiu a Astronomia, da Alquimia saiu a Qumica, sai da Medicina a Higiene. No m sorte das lavras produzirem borboletas. (PEIXOTO, 1918, 354-361. Combate s doenas infecto-contagiosas, para o que se dispunha de homens de cincia, capazes de planejar, controlar e executar as medidas necessrias em consonncia com os poderes pblicos. Verdadeiros cruzados modernos, manipuladores competentes das verdades cientficas, no pretendiam limitar seu campo de ao aos mosquitos, antes enveredavam, a30

exemplo de Peixoto, para julgamentos de ordem moral, num claro sinal de que nada passava despercebido ao olhar atento e vigilante do especialista. Para o caso especfico da loucura, cabe destacar a atuao de Franco da Rocha, responsvel pela concepo e implantao do Hospcio do Juquery, detidamente estudado por Maria Clementina Pereira da Cunha (1986). Apesar do vigor do sistema sanitrio e das instituies mdicas do estado e do fato de haver, desde 1891, legislao acerca da criao de uma Faculdade de Medicina em So Paulo, foi somente em dezembro de 1912 que o projeto saiu do papel. certo que a deciso comportou seu rol de barganha poltica, mas preciso no perder de vista a tenso que o aparecimento de curso privado e livre, propiciado pela reorganizao do ensino superior em 1910, criou entre os profissionais da rea. A cronologia reveladora: o curso da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo entidade homnima da que seria fundada em 1934 data de 1911, enquanto a escola oficial comeou a funcionar em 1913. Em sua pesquisa sobre o processo de implantao e os anos iniciais da Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, Andr Mota investigou a questo e mostrou a oposio decidida de ncleo significativo de mdicos renomados que, quando convidados a lecionar na instituio particular, negaram-se terminantemente. J Luiz Antonio Teixeira chama ateno para o tom dos debates na Sociedade de Medicina, que tanto expressavam preocupao com a qualidade do curso como deixavam entrever o dissabor pela ameaa ao monoplio da formao proveniente das escolas oficiais (MOTA, 2005, p. 167-219; TEIXEIRA, 2007, p. 125-132). A disputa acabaria ganha pela entidade oficial, pois a outra no s no conseguiu competir com a entidade oficial, encabeada por Arnaldo Vieira de Vieira de Carvalho e tampouco pode atender s exigncias impostas pela legislao de 1915, datando de 1917 seu fechamento. As condies precrias de funcionamento da academia oficial, descritas com riqueza de detalhes por Mota, talvez possa ser imputada conjuntura, que jogou papel importante na deciso de finalmente colocar o projeto em prtica. A bibliografia unnime em apontar o enorme impacto dos acordos com a Fundao Rockfeller para a estruturao e o perfil futuro do curso. Os primeiros contatos remontam a 1916, quando momento em que a Fundao dava os primeiros passos no sentido de apoiar escolas mdicas em vrias partes do mundo com o objetivo de melhorar o ensino e a pesquisa. Tratava-se de um desdobramento das aes j realizadas no campo da sade pblica, pois de acordo com Fosdick (1989, p. 105), autor de uma obra clssica sobre a entidade, o responsvel pela Junta Internacional de Sade, Wickiffle Rose, acreditava que [...] unless basic medical education could be gratly improved, there was little promise for public health in many of the countries in which he [Rose] was working.1919 A introduo de Steven C. Wheatley para a edio citada valiosa, uma vez que esclarece o lugar ocupado pelo autor na estrutura da Fundao e a conjuntura de produo da obra, qual seja, um momento em que a entidade enfrentava pesadas crticas nos Estados Unidos. O livro pode ser considerado, segundo Wheatley, uma espcie de biografia oficial da Fundao.

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A parceria Faculdade/Fundao iniciou-se com a criao do Departamento de Higiene (1918) origem da futura Faculdade de Higiene e Sade Pblica (1946), continuou com o envio de especialistas brasileiros para estgios no exterior e a criao da cadeira de Anatomia e Histologia Patolgica (1920). A simples enumerao, entretanto, no d conta da extenso do projeto. De fato, em troca do aporte de um milho de dlares, a instituio adequou-se, entre 1918 e 1925, ao modelo imposto pelos doadores, consagrado no regulamento aprovado em 1926. Na sntese de Maria Gabriela Marinho: O novo regime garantiu que as disciplinas pr-clinias se estruturariam em departamentos com nfase no trabalho de laboratrio, institucionalizado, dessa forma, a figura do pesquisador em dedicao exclusiva pesquisa e docncia. Estes dois aspectos, o tempo integral para pesquisa e docncia e a correspondente estruturao de departamentos com nfase no trabalho de laboratrio e a reduo do nmero de alunos, somados criao do hospital-escola (hospital de clnicas), constituam o cerne do modelo introduzido pela Fundao Rockefeller (MARINHO, 2001, p. 63-64).20 O significado dos acordos para a trajetria da Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo inegvel, mas cabe investigar como a presena desses professores estrangeiros e as normas que tinham a incumbncia de impor foram encaradas pelos docentes e alunos que vivenciaram as transformaes.

Os discursos e seus limitesO panorama traado procurou evidenciar o investimento que o poder pblico republicano de mos dadas com mdicos sanitaristas, higienistas, psiquiatras, engenheiros e urbanistas realizou no sentido enfrentar os desafios aportados pelas transformaes que assolaram o Estado a partir do final do sculo XIX. Nesse passo, insere-se o rol de instituies, atividades e projetos de interveno social nos quais os mdicos desempenharam o papel dos mais relevantes. Perseguiam-se a modernidade e o progresso, que nos aportariam condio de pas civilizado. A confiana depositada na cincia, porm, no significava que esta se constitusse num saber unvoco e homogneo. Muito pelo contrrio, como se procurou demonstrar a partir de alguns exemplos relevantes, os debates eram acirrados e nem sempre ficavam restritos ao mbito profissional estrito. Alis, as instituies que configuravam o campo mdico paulista, cada vez mais diversificadas medida que se adentra o sculo XX, ainda aguardam por um estudo sistemtico, que as articule e coloque em dilogo. Entretanto, preciso distinguir entre o discurso produzido, o seu af totalizante e controlador e a assuno de que tal pretenso tenha se20 O hospital, contrapartida do governo do Estado, foi construdo entre 1938 e 1944. A pesquisadora investiga, de forma detida e cuidadosa, a atuao da Fundao no Brasil.

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espraiado pelo meio social de maneira to completa como imaginavam/ desejavam. As fissuras expressavam-se de forma candente em momentos de crise, como demonstram, por exemplo, os trabalhos consagrados anlise da gripe espanhola. As anlises do tema so instigantes na medida em que flagram, num momento de ruptura da ordem, a atitude dos poderes pblicos, especialistas e pessoas comuns. O que tornava a situao ainda mais desafiante para os saberes oficiais era a incapacidade de solucionar, contornar, aliviar ou mesmo garantir o acesso da populao aos remdios. Por meio dos debates e anncios na imprensa, torna-se possvel discernir uma contracultura mdica, ou seja, as polmicas que se instauram no mundo da cincia sobre a gripe e suas causas. A partir dos anncios de remdios, por sua vez, pode-se perceber a mescla entre um mundo no qual a cura adquiria um ar maravilhoso e aquele regido pelas prticas cientficas autorizadas. Numa conjuntura em que as recomendaes emanadas do Servio Sanitrio pareciam ter pouca ou nenhuma eficcia, no admira que as promessas de solues miraculosas tenham proliferado (BERTOLLI, FILHO, 2003, p. 97-136). Porm, a questo no se circunscrevia unicamente a essa situao, pois mesmo os remdios aprovados por rgos governamentais seguiam, no incio do sculo XX, valendo-se de apresentaes que, por vezes, no os distinguiam plenamente dos elixires aplicveis a todas as situaes. De fato, a gripe acirra e coloca em evidncia prticas que fazem parte do cotidiano da populao e mesmo da poro letrada que via os anncios nos dirios (BERTUCCI, 2003). Em sntese, as prticas e o saber mdico devem ser remetidos ao contexto histrico, s demandas sociais que lhe so impostas, s instituies e aparatos nos quais se exerce e s condies que ento presidem a produo de saber na disciplina ou, noutros termos, as verdades aceitas e os padres de trabalho. O peso do discurso mdico invade o nosso cotidiano, prescreve formas de vida e de morte. Os que alvos das prescries, por seu turno, no so to dceis e nem to facilmente controlados como sonharam os elaboradores das polticas. E so justamente nessas mltiplas fissuras que se insinuam o trabalho e a contribuio do historiador.

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DE CRIADEIRAS A FAZEDORAS DE ANJOS: AS AMAS DE LEITE E A CRIANA DESVALIDA SOB O OLHAR DA MEDICINAJos Fernando Teles da Rocha 1 Helosa Helena Pimenta Rocha2

[...] Torna-se necessario estabelecer o exame obrigatorio de todas as que se propem ao mister de nutrizes, levando ao seio das famlias, por meio de uma propaganda inteligente, a convico de que no deve ser admitida a ama de leite quem no trouxer o certificado desta repartio. Para este effeito, vamos fazer distribuir instruces s famlias sobre o aleitamento das creanas, mortalidade infantil e os perigos da alimentao mercenria sem inspeco etc. (RIBAS, 1906, p. 43) Este trecho, extrado do relatrio apresentado em 1906 pelo diretor geral do Servio Sanitrio do estado de So Paulo, dr. Emlio Ribas, ao secretrio dos Negcios do Interior, dr. Gustavo de Oliveira Godoy, permite uma primeira aproximao das prticas mdicas de fiscalizao das amas de leite, institudas entre o final do sculo XIX e as primeiras dcadas do sculo XX. Incidindo sobre os cuidados a observar em relao contratao de amas e, ao mesmo tempo, procurando configurar como legtima uma medida legal que obrigava as candidatas a se submeterem a um exame que as certificasse para o exerccio do ofcio, o fragmento oferece indcios para uma anlise das representaes sobre a infncia desvalida3 produzidas no campo da Medicina.1 2 Doutorando em Educao pela Unicamp. Professor de Histria da rede estadual e particular de ensino. Bolsista pela Secretaria Estadual de Educao de So Paulo. Doutora em Histria da Educao e Historiografia pela Universidade de So Paulo (USP). Professora na Faculdade de Educao da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde integra o comit gestor do Centro de Memria da Educao. Scia fundadora da Sociedade Brasileira de Histria da Educao e membro da Society for the History of Children and Youth. O termo criana desvalida remete quela que necessita de ajuda, figurando, nos documentos examinados, como sinnimo de criana abandonada, exposta, rf. Segundo o Diccionario de Lngua Portuguesa (SILVA, 1922, p. 606), desvalido aquele que no tem valimento para com algum; que no tem homem, pessoas que o proteja, e lhe valha. O Novo Diccionrio da Lngua Portuguesa, de Candido de Figueiredo, edio de 1899, define desvalido como aqulle que no tem valimento; o homem desgraado, miservel; e part. de desvalr (apud RIZZINI, 1997, p. 284).

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Examinar a presena dessas representaes e as diversas dimenses que recobrem, no mbito da discusso sobre a temtica dos cuidados com a infncia desvalida, no estado de So Paulo e, mais particularmente, na capital, o objetivo a que nos propomos neste texto4. Para tanto, tomamos como fontes relatrios da Diretoria do Servio Sanitrio do estado de So Paulo, o Cdigo de Posturas Municipal, dados sobre a mortalidade infantil, regulamentos para inspeo das amas e relatrios de mdicos e mordomos da Santa Casa de Misericrdia5, principal local de atendimento a doentes e desvalidos da cidade de So Paulo entre os sculos XVIII e XIX. O perodo que recortamos marcado pela discusso de uma ampla gama de propostas e projetos, bem como pela formulao de um conjunto de intervenes nos mais diversos mbitos da sociedade, as quais visavam a colocar o pas na rota da modernidade, segundo a trajetria traada pelos pases europeus. Nesse contexto, mdicos, juristas, engenheiros e educadores buscam articular-se em torno da criao de mecanismos de controle sobre a populao em geral, incidindo, neste caso, sobre a infncia desvalida e as amas de leite, as quais passam a ser consideradas, pelo discurso mdico, como uma das grandes responsveis pelos altos ndices de mortalidade infantil. Tendo como intento a implantao de um projeto desenhado conforme o modelo das naes consideradas civilizadas e segundo as pautas do movimento higienista6, difundido no Brasil em final do sculo XIX, os mdicos apresentaram, por meio de suas teorias, prticas e representaes, subsdios para a discusso sobre o que consideravam como desacertos4

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Neste texto, trabalharemos com o conceito de representaes na perspectiva exposta por Chartier (1990, p. 17), segundo a qual as representaes do mundo social assim constitudas, embora aspirem universalidade de um diagnstico fundado na razo, so sempre determinadas pelos interesses de um grupo que as forja. Da, para cada caso, o necessrio relacionamento dos discursos proferidos com a posio de quem os utiliza. Formados por um conjunto de 50 volumes, esses documentos renem relatrios tanto dos mdicos quanto dos administradores das vrias instituies sob responsabilidade da Santa Casa, denominados mordomos. Eram anuais e enviados ao provedor da Santa Casa, que os apresentava em reunies da Mesa Conjunta daquela instituio. Merisse (1997, p. 33) explica que o higienismo constituiu-se num forte movimento, ao longo do sculo XIX e incio do XX, de orientao positivista. Foi formado por mdicos que buscavam impor-se aos centros de deciso do Estado para obter investimentos e intervir no s na regulamentao daquilo que estaria relacionado especificamente rea da sade, mas tambm no ordenamento de muitas outras esferas da vida social. O movimento higienista e, especificamente, o higienismo voltado infncia, foi apropriado pelos mdicos brasileiros no final do sculo XIX, desdobrando-se em um amplo leque de intervenes. Procurou-se investir sobre a infncia e, por meio dela, sobre a famlia, ensinando noes de limpeza, higiene e sade. Esta higiene, como regime de sade das populaes, nas palavras de Foucault (1979, p. 201), implica, por parte da medicina, um determinado nmero de intervenes autoritrias e de medidas de controle. Para Rago (1985, p. 118), os mdicos-higienistas concentraram-se em trs eixos: a elevada taxa de mortalidade infantil, o problema do menor abandonado e a necessidade da figura do mdico na medicalizao da famlia.

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presentes na sociedade. De acordo com seus pontos de vista procuraram incutir, principalmente na populao pobre, uma cultura da higiene: do corpo, da roupa, das casas, dos bairros, das cidades. Visando examinar as representaes produzidas pelo olhar mdico no interior desse projeto de pas moderno, o texto tratar, inicialmente, das preocupaes em torno da infncia desvalida e o conjunto de aes adotado com vistas a proteg-la. Em seguida, discutiremos o lugar que foi sendo atribudo s amas de leite no interior das causas que, segundo os mdicos, respondiam pelos altos ndices de mortalidade infantil.

Proteger para se sentir protegidoA discusso em relao ao modo mais adequado de recolhimento e assistncia criana, que passava a ser objeto de ateno dos adultos, marca o perodo compreendido entre o final do sculo XIX e o incio do XX. Como observa Rizzini (1993), a presena das crianas nas ruas, nos asilos, nas famlias, nas fbricas e oficinas chamava a ateno de vrios setores da sociedade de ento, alertando para a urgncia do enfrentamento de problemas como a mortalidade e a criminalidade infantil. No s as cenas, mas tambm os nmeros preocupavam, aquecendo as discusses e provocando o surgimento de propostas, projetos, leis (RIZZINI, 1993, p. 26). O objetivo principal, ainda segundo a autora, era o de proteger e assistir a infncia desvalida, alm de aliviar a conscincia de uma sociedade envergonhada e ameaada com a sua presena (RIZZINI, 1993, p. 26). A problemtica articulava-se s preocupaes com a formao de um adulto exemplar, a ser preparado adequadamente para a emergente sociedade urbano-industrial. Mais: as crianas representavam o futuro no s da famlia, mas do pas. No mbito dessa discusso, os mdicos e outras categorias profissionais posicionaram-se diante da situao da criana desvalida, tentando encontrar solues para esse que passava a ser considerado como um problema inadivel. Como um dos focos da discusso, figurava a possibilidade de transformar a criana em mo de obra produtiva, que ajudasse a construir aquele ideal de nao. No intuito de concretizar tal aspirao, tornava-se necessrio e urgente alterar o quadro negativo em torno daquele perfil de criana, diminuindo os altos ndices de mortalidade e melhorando as condies de assistncia e proteo. Rago (1985, p. 123) observa que: [...] a preocupao em retirar os menores da rua, internando-os em instituies disciplinares ou dentro de casa, recai inicialmente sobre a criana pobre das cidades, sobre os rfos, mendigos, pequenos vagabundos, que apareciam para os mdicos e especialistas em geral como possveis criminosos do futuro.39

Tematizando as iniciativas que visaram ao enfrentamento do problema da infncia desvalida, Rizzini (1997, p. 30) pe em cena os agentes que chamaram para si a tarefa de ordenao da sociedade, assinalando que caber medicina (do corpo e da alma) o papel de diagnosticar na infncia possibilidades de recuperao e formas de tratamento. Como assinala Rago (1985, p. 121), os projetos de interveno formulados nesse campo pautavam-se na crena de que dar assistncia mdica e proteo infncia significava tambm evitar a formao de espritos descontentes, desajustados e rebeldes. No centro dessas iniciativas, figurava a preocupao com a formao de um novo cidado que poderia ser moldado desde a primeira infncia e constitudo pelo trabalho e pela educao. O atendimento infncia desvalida problema presente desde a poca da colonizao, mas que naquele momento ganhava nova dimenso e a tentativa de diminuir a mortalidade infantil advinda daquela condio eram vrtices do projeto de redimensionamento do pas, que tinha como objetivo melhorar o meio social e facilitar a construo de um ideal de nao imaginado pelas elites. A criana foi, ento, alada ao lugar de figura privilegiada e alvo principal de reflexes e de inmeras intervenes. Como afirma Rago (1985, p.118), a criana foi percebida pelo olhar disciplinar, atento e intransigente como elemento de integrao, de socializao e de fixao indireta das famlias pobres [...]. Neste amplo cenrio, os mdicos chamaram para si a responsabilidade de disciplinar e corrigir fsica e moralmente as crianas desvalidas, representadas como um perigo sociedade. Por meio de representaes que associavam a imagem daquelas crianas aos perigos de todas as ordens, indolncia, doena, ao crime e aos riscos para o futuro da nao, os mdicos se apresentam como os mais legtimos agentes da regenerao da infncia, justificando assim as intervenes tanto em mbito governamental como na famlia. Em suma, autoproclamando-se detentores de um saber que permitia a eles ocupar um espao mais amplo na sociedade da poca, lanaram olhares e produziram representaes fundadas em argumentos econmicos, sociais, polticos, higinicos, as quais se articulavam no sentido de legitimar as intervenes sobre o corpo da criana. Intervenes essas que visavam, segundo os seus formuladores, preservar a vida e a sade das mesmas e transform-las em adultos saudveis, instrudos, disciplinados e teis para o pas. Diante de tal problemtica, trs eixos bsicos passaram a se configurar em objeto de ateno e interveno: a famlia, a criana e a mulher. Esta ltima, em consonncia com as representaes sobre o seu lugar na sociedade, que vinham sendo construdas h sculos, passou a ter seu papel materno valorizado pelo saber mdico. Saber esse que procurava persuadir as mulheres de que o amor materno um sentimento inato, puro e sagrado e de que a maternidade e a educao da criana realizam sua vocao natural (RAGO, 1985, p. 79).40

Exterior a essa trade, em que se procuravam articular a famlia, a criana e a mulher-me, e caminhando em sentido oposto, estava a criana desvalida. interessante notar que os casos de abandono de crianas na cidade de So Paulo eram bastante frequentes, conforme mostram as pesquisas de Pilotti e Rizzini (1995); Marclio (1997, 1998) e Venncio (2001), entre outras. Apesar de a Roda dos Expostos7 ter sido um dos principais locais para a efetivao dessa prtica, praas, lixeiras, caladas, portas de igrejas ou mesmo das casas de particulares tambm foram bastante utilizadas por pais e mes que desejavam abandonar seus filhos recm-nascidos. Os que tinham idade mais avanada eram encontrados em meio populao de desempregados, vadios, mendigos presente nas ruas da cidade. Tais cenas contrastavam com a imagem que se tentava construir da famlia, em que esta figurava como um dos pilares do projeto civilizatrio, por meio do qual se buscava alar o Brasil ao nvel dos pases considerados civilizados. Sendo assim, como organizar a sociedade de modo a que essa parcela da populao fizesse parte do novo ordenamento social projetado na virada do sculo XIX para o XX? No enfrentamento dessas questes, mdicos, juristas e educadores lanaram mo de um amplo conjunto de estratgias as quais incluram, no caso das crianas desvalidas e das amas de leite, a aprovao de uma srie de leis, decretos e regulamentos que intentaram normalizar a vida das pessoas; ordenamento legal esse que, ao mesmo tempo em que se pautava em uma srie de representaes sobre a pobreza, contribuiu para a produo da desqualificao da parcela mais pobre da populao. A tnica das polticas sociais implementadas na cidade de So Paulo, no perodo, abrangendo sade, educao, saneamento, segurana, entre outros aspectos, pautou-se pelos objetivos de ordenao e controle. Vale lembrar que, visando alcanar tais objetivos, a implantao dessas polticas contou, principalmente, com o dilogo e articulao entre medicina e Estado. Em relao a essa questo, Gondra (2004, p.49) observa que a medicina buscou, no sculo XIX, ocupar um lugar central no seio da sociedade, com vistas a projetar seus princpios e mtodos e, desse modo, obter reconhecimento e respaldo social. Tal aproximao entre Medicina e Estado fez parte do processo de constituio da medicina social que, segundo Foucault (1979), desenvolveuse na Europa, a partir do sculo XVIII, com uma funo controladora sobre a sociedade. Analisando esse fenmeno, o autor reconstitui as trs etapas da formao da medicina social, distinguindo os processos vivenciados na Alemanha, Inglaterra e Frana. Assim, de acordo com ele, a medicina7 Instrumento cilndrico oco que, girando em torno de seu prprio eixo e apresentando numa das faces uma abertura que ficava voltada para uma janela, destinava-se a receber o exposto. Colocada a criana no seu interior este era girado em 180 graus e, desse modo, o enjeitado era recolhido e providenciava-se sua internao. Em So Paulo, a Roda foi inaugurada em 1825 e permaneceu no muro da Santa Casa at sua desativao, em 3 de outubro de 1951. (CARVALHO, 1996). A Roda, ento, tornou-se um dos pilares do projeto de assistncia criana desvalida, sendo, alis, uma das principais instituies criadas para sua proteo. Uma das justificativas para sua implantao foi a de ser uma possibilidade que poderia impedir o aborto e o infanticdio, alm de garantir o anonimato de quem abandonava as crianas no instrumento.

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social, atuando na medicalizao das cidades, da famlia e da criana, desenvolveu-se em medicina de Estado, medicina urbana e, finalmente, medicina da fora de trabalho (FOUCAULT, 1979, p. 80), sendo esta ltima na tentativa de medicalizar a camada mais pobre da populao, alm da classe trabalhadora. Momento em que o saber mdico invadiu as diferentes esferas da sociedade, atuando de forma controladora nos aglomerados sociais representados, quase sempre, como locais insalubres, promscuos e fadados a doenas de toda espcie. No caso de So Paulo, o perigo urbano representado pela massa de desocupados, pelas doenas e epidemias, pela falta de infraestrutura da cidade, que crescia desordenadamente no final do sculo XIX, entre outros aspectos abriu espaos para uma interveno mdica voltada para os objetivos de remover os obstculos e problemas que se opunham nova ordem social. Tal interveno pautou-se nos princpios da higiene pblica que, segundo Foucault (1979, p. 93), configura-se em uma tcnica de controle e de modificao dos elementos materiais do meio que so suscetveis de favorecer ou, ao contrrio, prejudicar a sade. Assim, coube aos mdicos a tarefa de organizar e disciplinar a vida da cidade de So Paulo, uma vez que este grupo profissional procurou ocupar um lugar importante no crescente nmero de rgos pblicos criados a partir da Repblica88, constituindo-se como uma espcie de agentes policiais da higienizao das cidades, numa juno entre reforma urbana e sanitria99. Alis, por meio da criao dessas instituies, So Paulo procurou afirmarse como modelo para o Brasil, no que se refere questo da sade pblica. A criao de tais instituies pode ser lida como uma estratgia privilegiada para a articulao e legitimao de iniciativas de interveno voltadas para os propsitos de ordenao da sociedade, na medida em que figuravam, dentre seus objetivos, a orientao dos governos em termos das aes a serem empreendidas nas cidades de forma a sanear os problemas advindos do crescimento urbano, dentre eles o da sade pblica. Nesse conjunto de iniciativas, assume lugar de destaque a criao, por meio da Lei n 43, de 18 de junho de 1892, do Servio Sanitrio rgo pblico responsvel pelo saneamento e pelas polticas de sade e higienizao do estado de So Paulo. Ocupando um papel bastante amplo no que diz respeito s aes relacionadas ao policiamento dos aspectos sanitrios e higinicos da cidade, o rgo tinha, entre suas funes, a de inspecionar escolas, fbricas, oficinas, hospcios, asilos e amas de leite. Subordinado Secretaria de Estado do Interior, o Servio Sanitrio era composto, quando de sua criao, por um Conselho de Sade Pblica e uma Diretoria de Higiene.8 Citando Emerson Elias Merhy, Cunha (1986, p. 37) lista os seguintes rgos surgidos no perodo psRepblica: Inspetoria de Higiene (1891), substituda no ano seguinte pelo Servio Sanitrio; Instituto Vacinognico e Comisso de Vigilncia Epidemiolgica para a Zona Urbana (1892); Laboratrio Bacteriolgico e Servio de Desinfeco (1893); Instituto Butant (1901) e Instituto Pasteur (1903). Fora estes rgos, em 1894 foi promulgado o Cdigo Sanitrio do Estado de So Paulo. Sobre este tema, ver Ribeiro (1993), Telarolli Jnior (1996) e Hochman (1998).

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Especificamente em relao s amas, alm de vacin-las, o rgo passou a fiscalizar seus servios, antes feito por anncios de particulares nos principais jornais da Capital (RIBEIRO, 1993, p.120). Ainda de acordo com a autora, as mulheres que, mediante pagamento, amamentavam no seio uma criana na sua casa ou na casa do contratante, passaram a ser obrigadas a fazer registro junto ao Servio Sanitrio para poderem exercer seu ofcio (RIBEIRO, 1993, p. 120). Dentre as vrias questes que ocuparam a ateno dos agentes sociais preocupados com a ordenao da sociedade, esse perodo foi marcado tambm pelas crticas de mdicos, educadores, juristas, os quais procuravam pressionar o governo e as instituies particulares responsveis pela assistncia criana desvalida, com vistas adoo de um novo modelo de atendimento a esse perfil de criana, conforme registra Marclio (1998, p. 194): Os mdicos higienistas procuraram atacar a questo da infncia abandonada em vrias frentes: combate mortalidade infantil; cuidado com o corpo (estmulo educao fsica, aos esportes, amamentao e alimentao corretas); estudos, importao de conhecimentos e campanhas de combate s doenas infantis; educao das mes; introduo da Pediatria e da Puericultura, como reas de conhecimento; campanhas de higiene e sade pblica etc. As anlises de Marclio evidenciam que o problema da criana desvalida assumia mltiplas dimenses. Ao seu lado estava, por exemplo, a questo da mortalidade infantil advinda, muitas vezes, daquela situao. Nesse sentido, importante analisar como, no interior desse movimento de proteo infncia desvalida, os mdicos se posicionaram e procuraram demarcar a sua atuao diante de problemas como a mortalidade infantil. Nessa anlise, importante levar em conta os nmeros de tal mortandade, alm do papel atribudo alimentao inadequada como uma das principais responsveis por tal problemtica.

A mortalidade infantil mantm-se elevadaA frase acima abre a mensagem apresentada ao Congresso Legislativo, em 14 de julho de 1925, por Carlos de Campos, presidente do estado de So Paulo. Revela, como se pode notar, a preocupao da autoridade com o problema da mortalidade das crianas, problema que, embora no fosse novo, ganhou expresso no final do sculo XIX e primeiras dcadas do XX, sendo eleito como um dos mais graves entraves para o progresso do Brasil. Na anlise das dimenses desse fenmeno e do modo como foi formulado pelos mdicos higienistas no perodo, os relatrios elaborados43

pelos mdicos e mordomos da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo e os relatrios anuais apresentados pelos presidentes do estado podem oferecer importantes indcios, na medida em que, alm de apresentar os ndices de mortalidade, pem em cena as posies assumidas nas discusses sobre a temtica, no s na cidade como no estado de So Paulo. Analisando o lugar ocupado pela mortalidade nos discursos e propostas elaboradas pelos mdicos, Rago (1985, p.125) adverte que, ao lado do abandono em que viviam as crianas pobres, os mdicos comeavam a se alarmar com os ndices crescentes de mortalidade infantil no pas. A autora ressalta, ainda, que [...] refletindo sobre o tema, a literatura mdica procura detectar as causas do fenmeno, elabora estatsticas e quadros comparativos referentes situao em outros Estados ou mesmo entre pases. Certamente, o problema no era novo, mas neste momento histrico adquire dimenses inusitadas no discurso mdico, criminologista, dos industriais, principalmente pela ameaa de despovoamento que representava para a nao. (RAGO, 1985, p. 125) De fato, a preocupao com a mortalidade infantil atravessava fronteiras. No Boletn del Consejo Nacional de Higiene, documento produzido durante o XIV Congresso de Higiene e Demografia de Berlim, realizado entre 23 e 29 de setembro de 1907, os doutores Dietrich (Berlim), Alexandre Szana (Temesvar) e Taube (Leipzig) chamavam a ateno para a problemtica na Alemanha, Frana e Hungria. Em suas anlises, criticavam, especificamente, a amamentao realizada por amas de leite nos pases citados, dando nfase s conseqncias econmicas e sociais da utilizao de tais servios (BOLETN DEL CONSEJO DE HIGIENE, 1909, p. 6). Para o Dr. Szana, la mortalidad de los nins confiados nodrizas h sido trs veces mayor que la de los nios dejados suas propias madres mediante una prima de amamantamiento, y dos veces ms grande que el de los nios remitidos con sus madres cuidados extraos [BOLETN DEL CONSEJO DE HIGIENE, 1909, p. 6). Cabe, ento, discutirmos a atuao dos mdicos diante da formulao e do enfrentamento da problemtica da mortalidade infantil, mesmo porque, ao elegerem a criana como o futuro da nao e como um dos pilares do projeto de redimensionamento social imaginado e posto em prtica por diversos setores da sociedade, esses profissionais participaram da produo de representaes em que se articulam os modos de criao das crianas pelas mes, amas e asilos infantis aos altos ndices de mortalidade infantil. Visando a conferir legitimidade a seus discursos, lanaram mo de dados estatsticos, com base nos quais procuraram definir e difundir critrios que permitissem reduzir os nmeros alarmantes de mortes antes do primeiro ano de vida, elaboraram modelos de interveno, divulgaram44

perfis de conduta e preceitos morais. Elementos que se articularam na produo de representaes marcadas pelo sentido de apreenso em relao mortalidade infantil e de urgncia de uma interveno que fizesse face gravidade do problema. As intervenes destes profissionais desdobraram-se em uma srie de aes orientadas pelos intentos de alterar hbitos e debelar antigos costumes, considerados como modos de vida no condizentes com a realidade da poca. Entre essas aes, estavam as campanhas pelo aleitamento materno, as quais ganharam o apoio de vrias categorias profissionais e setores da sociedade. Na articulao dessas campanhas, figura como elemento central a oposio utilizao dos servios das amas de leite, mulheres que passaram a ser representadas por mdicos, juristas e educadores como responsveis pela transmisso de doenas como a sfilis e a tuberculose. Na construo dessa oposio, as amas so identificadas como ameaa, uma vez que, com suas prticas de cuidado das crianas, desafiavam o saber mdico, fazendo uso de um saber popular e recorrendo a curandeiros, benzedeiras, entre outros, na tentativa de curar as crianas doentes sob seus cuidados. Procurando examinar a arqueologia e a trajetria do fenmeno do abandono de crianas, por meio da Histria do Ocidente e no Brasil (MARCLIO, 1998, p. 11), o estudo de Marclio contribui para apreender as dimenses da mortalidade dos expostos no quadro mais geral da mortalidade infantil. Segundo ela, esse ndice foi um dos maiores encontrados no sculo XIX, [...] de todas as categorias que formaram a populao brasileira, incluindo a dos escravos, a dos expostos foi a que apresentou os maiores ndices de mortalidade infantil e de mortalidade geral, pelo menos at o fim do sculo XIX. No era incomum, nas Rodas de expostos, a perda de 30% ou mais de bebs, s no primeiro ms de vida. Mais da metade morria antes de completar o primeiro ano de existncia. Apenas 20% a 30% dos que foram lanados nas Rodas de Expostos chegaram idade adulta (MARCLIO, 1998, p. 237). Mas, quais os motivos de tamanha mortalidade? De acordo com Merisse (1997, p. 35), um dos argumentos era de inspirao racista: o de que a utilizao de escravas como amas-de-leite se constitua como uma das principais causas dos altos ndices de mortalidade infantil. Em 1892, segundo Ribeiro, uma comisso instituda pelo secretrio dos Negcios do Interior, Cesrio Motta Jnior, formada pelos drs. Brulio Gomes Mello de Oliveira, W. Strain e Bento Jos de Souza, elaborou um relatrio no qual eram apresentadas as seguintes causas: nascimentos ilegtimos, alimentao precria, habitaes insalubres, abuso do lcool, falta de asseio e oscilaes de temperatura e de umidade na atmosfera da capital (RIBEIRO, 1993, p. 117).45

O perodo compreendido entre o final do sculo XIX e as primeiras dcadas do XX marcado por investimentos no sentido de mapear as dimenses da mortalidade infantil no estado de So Paulo, compreender as suas causas e formular projetos de interveno. Por meio de estatsticas demogrficas que revelavam a alta nos ndices de mortalidade infantil, este fenmeno passou a ser um dos focos principais tanto dos olhares mdicos como de outras autoridades. Analisando a forma como o problema tematizado pelos mdicos, Rago (1985, p. 126) destaca que, [...] levantando as causas gerais da mortalidade infantil, o discurso mdico apontava a hereditariedade, a ignorncia e a pobreza como as mais importantes. Entre os motivos particulares, destacava: os transtornos digestivos, os distrbios respiratrios e as causas natais e pr-natais. Evidentemente, tambm a amamentao mercenria era colocada num dos primeiros lugares na hierarquia das origens das doenas infantis. Com estes diagnsticos, os mdicos, associados a outros representantes das elites, de certa forma marcaram seus territrios, produzindo explicaes para a mortalidade infantil, as quais articulavam as suas causas aos modos de vida das camadas mais pobres da populao. Seus discursos participaram da produo de representaes que conferiam aos mdicos, porta-vozes do saber cientfico, a responsabilidade por reverter a situao. Para isso, era necessrio lanar mo de estratgias disciplinadoras que possibilitariam civilizar, nos termos de Elias (1994), aquela parcela da populao. Assim, a divulgao de nmeros de bitos infantis jogou um importante papel na construo da representao da urgncia e da necessidade de intervenes que visassem controlar tal mal. Nesse sentido, vale atentar para as prticas dos mdicos da Santa Casa, por exemplo, que divulgavam, via relatrios dirigidos ao provedor da instituio, informaes e dados acerca da situao da mortalidade das crianas sob sua responsabilidade. Em suas anlises, tambm examinavam os nmeros levantados e sugeriam medidas para diminuir os elevados ndices de mortalidade das crianas. Vale ressaltar que, na produo desses dados estatsticos, esses profissionais tratavam de apresentar distintamente os nmeros de crianas institucionalizadas no Asilo dos Expostos e o quantitativo das que estavam sob a responsabilidade das amas contratadas pela Irmandade. Em relatrio apresentado em 1912, pelo dr. Synsio Rangel Pestana ao ento mordomo do Asilo dos Expostos10, Joo Mauricio de Sampaio10 O Asilo dos Expostos foi criado em 1824 como unidade anexa da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo. Em 1896 foi transferido para o bairro do Pacaembu, permanecendo naquele local at 1997, ano em que foi desativado. Durante esse perodo de quase cem anos, constituiu-se como um dos pontos de

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Vianna, o mdico registrava que, naquele ano, a porcentagem de bitos de creanas de 0 a 1 anno, em toda Capital, foi de 19,9 por 100 nascimentos (PESTANA, 1913, p. 88). Com as crianas sob responsabilidade da Santa Casa e, consequentemente, com as amas, foi de 28,5% por 100 entrados (PESTANA, 1913, p. 88), o que representava um total de 50 crianas falecidas dentre as 175 crianas criadas junto s amas. Em relao mortalidade geral na capital, Telarolli Jnior (1996, p. 56) destaca utilizando como fonte o Anurio Demogrfico da cidade de 1894 a 1920 que, no ano de 1894, o coeficiente de mortalidade de crianas menores de um ano foi de 175,3 por mil nascidos. No ano seguinte, saltou para 198,5. Com nmeros bastante oscilantes ao longo do perodo examinado pelo autor, temos o menor ndice em 1900 com 113,5. J o maior foi registrado em 1918, quando chegou a 236,4. Estudando as representaes da mortalidade no discurso mdico em So Paulo e utilizando como fonte os anurios demogrficos da Seo de Estatstica Demgrafo-Sanitria do Servio Sanitrio, Alves (1999, p. 3A) revela que, na capital paulista, em 1894, para 6.229 nascimentos, faleceram 1.022 crianas de 0 a 1 ano de idade. Em 1909, de 11.135 nascimentos, o nmero de bitos foi de 1.863, tambm na mesma faixa etria e, por fim, em 1919, de 16.916 crianas nascidas, 3.051 faleceram. Em termos do estado de So Paulo, em mensagem apresentada ao Congresso Legislativo, em 14 de julho de 1923, o presidente do estado, Washington Lus, declarava que 30.292 crianas, por mil nascidos, faleceram, na faixa de 0 a 1 ano (MENSAGEM APRESENTADA AO CONGRESSO LEGISLATIVO, 1923, p. 160). No ano seguinte, chamava a ateno para o coeficiente dos natimortos que elevou-se em Santos, S. Carlos, e Guaratinguet soffrendo, porm, reduco mais accentuada que esse accrescimo na Capital, Campinas, Ribeiro Preto e Botucatu (MENSAGEM APRESENTADA AO CONGRESSO LEGISLATIVO, 1923, p. 82). O exame da questo, apoiado em dados estatsticos, possibilitou identificar que a maior causa mortis das crianas estava relacionada a problemas do aparelho digestivo. Na mensagem enviada pelo presidente do estado, Carlos de Campos, ao Congresso Legislativo, em 1926, a autoridade relatava que a qualquer esprito culto que conhea ligeiramente o meio, no ser estranho que essa morbilidade resulta da absoluta carncia de noes de puericultura por parte de grande maioria das mes (MENSAGEM APRESENTADA AO CONGRESSO LEGISLATIVO, 1926, p. 51). Com esta declarao possvel retomar a questo da alimentao, ou melhor, o papel atribudo a ela no que diz respeito mortalidade infantil, sobretudo das crianas advindas dos meios mais pobres e das crianas desvalidas. Isso porque o discurso mdico tendo como base as explicaesreferncia criana abandonada e institucionalizada na cidade de So Paulo. Em 23 de junho de 1998, o imvel foi leiloado pela Secretaria de Estado dos Negcios da Fazenda, passando a fazer parte da Fundao Faculdade de Medicina (FFM). Logo em seguida, em 10 de julho do mesmo ano, foi tombado pelo Conselho do Patrimnio Histrico, Arqueolgico e Turstico do Estado de So Paulo (Condephaat) (ROCHA, 2005, p. 10).

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da puericultura1112 criou representaes acerca do aleitamento materno como elemento primordial para o desenvolvimento das crianas, incluindo a tanto as crianas de famlias ricas como as pobres e desvalidas, mas principalmente estas, pois eram, segundo os dados levantados no perodo, as que engrossavam as estatsticas de mortalidade. Analisando o livro Mortalidade das crianas em So Paulo, publicado pelo mdico Joo Teixeira lvares em 1894 e destinado s mes pobres, Ribeiro (1993) assinala que o autor atribui alimentao inadequada a alta mortalidade infantil na cidade. De acordo com Ribeiro (1993) figuravam, dentre as preocupaes do mdico, o fato de que era impossvel, na poca, convencer as mes de que o leite materno era o nico alimento a ser dado s crianas. Segundo Almeida (1999, p. 34), tal enfoque em relao amamentao articulava-se s estratgias da medicina higienista, a qual valeu-se do aleitamento materno como instrumento para se fortalecer na sociedade e colonizar progressivamente a famlia. Nesse sentido, os cuidados em relao alimentao das crianas configuravam-se em ponta de lana de um investimento que tinha na difuso e legitimao de certo modelo de famlia um dos seus objetivos. Esse perodo marcado, assim, por iniciativas dos mdicos no sentido de incutir nas mes, principalmente as das famlias pobres, a importncia da amamentao natural. Pregando a moral e bons costumes, procuravam convencer as mulheres da importncia e do privilgio de serem mes, de poderem amamentar uma criana, responsabilizando-as pela sade de seus filhos. Tal estratgia pautava-se, evidentemente, sobre representaes da mulher como boa me e esposa ou, nas palavras de Rago (1985, p. 131), como a guardi do lar. Porm, esta era, de certa forma, uma batalha difcil de ser empreendida pelos mdicos, uma vez que, segundo a mesma autora, a pobreza, na medida em que se refletia na m alimentao das mes e dos filhos, no trabalho excessivo das mulheres, especialmente das gestantes, influa diretamente na constituio orgnica da criana ou resultava mesmo em sua morte, segundo a lgica do discurso mdico (RAGO, 1985, p. 128-129). As campanhas capitaneadas pelos mdicos em favor da amamentao natural tiveram no combate s prticas de amamentao das crianas pelas amas de leite a sua contraface. Prticas essas cujos riscos se justificavam pelo fato de que, por viverem em ambientes viciosos e insalubres, o leite dessas mulheres poderia tornar-se nocivo s crianas. Paralelamente s campanhas de aleitamento, tentou-se colocar em prtica, via legislao, uma fiscalizao mais eficaz sobre as amas, com foco na diminuio dos ndices de mortalidade infantil e com base em discurso que se pautava na bandeira da proteo infncia desvalida. O exame do11 Segundo Novaes (1979, p. 11), a puericultura surge em fins do sculo XIX, na Frana, e prope-se a normatizar todos os aspectos que dizem respeito melhor forma de se cuidar das crianas com vistas obteno de uma sade perfeita.

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Cdigo de Posturas do municpio de So Paulo constitui-se em um exemplo de que a preocupao com a questo da mortalidade, do aleitamento e da fiscalizao das amas j estava presente antes mesmo da proclamao da Repblica, perodo no qual a sade pblica passou a ocupar um lugar de destaque na agenda dos governos estaduais. Aprovado em 6 de outubro de 1886, o cdigo fazia parte de uma srie de medidas tomadas pelos governantes no intuito de organizar e controlar o espao urbano que passava por vrias transformaes na poca. Eram 318 artigos que incidiam sobre os mais diversos aspectos da vida na cidade, determinando, por exemplo, que os vasos de flores no poderiam mais ficar nas janelas, os cavalos no deveriam galopar pelas ruas (exceto a cavalaria e em casos urgentes), as mascaradas pblicas s poderiam se exibir nos carnavais [...] (SCHWARCZ, 1987, p. 48). No ttulo XX, Dos criados e das amas de leite, ntida a inteno de controle sobre as atividades daqueles que eram considerados criados de servir, incluindo-se nessa categoria as amas de leite. No artigo 263 estabelece-se que criados de servir, no sentido da postura, toda pessoa de condio livre, que mediante salrio convencionado, tiver ou quizer ter occupao de moo de hotel, hospedaria ou casa de pasto, cozinheiro, copeiro, cocheiro, hortelo, de ama de leite, ama seca, engommadeira ou costureira, e em geral a de qualquer servio domstico (1921 , p. 50) J em seu artigo 279, o Cdigo de Posturas prescrevia: [...] a mulher, que quizer empregar-se como ama de leite, obrigada, alm do que est estabelecido nestas posturas a respeito dos criados em geral, a sujeitar-se na Secretaria da Polcia a um exame medico da Cmara Municipal, o qual declarar na caderneta o estado de sade em que ella se achar. Paragrapho nico Ser este exame repetido todas as vezes que o patro o exigir, e sem essa exigncia, de 30 em 30 dias, sob pena de lhe ser cassada a caderneta (CDIGO DE POSTURAS, 1921, p. 54). interessante notar o rigor em relao ao servio das amas. Caso ela estivesse fora da lei, o cdigo previa, em seu texto, multa e at priso. O artigo 281 confirma essa informao: As amas de leite no se podero encarregar da amamentao de mais de uma criana, sob pena de 20$ de multa e de cinco dias de priso (CDIGO DE POSTURAS, 1921, p. 54). Segundo o artigo 282, no poder ser empregada como ama de leite a mulher, cujas condies de sade, a juzo do dito mdico, no lhe permittirem a amamentao sem prejuzo reconhecido para si ou para a criana. A infractora pagar multa de 30$, alm de oito dias de priso (CDIGO DE POSTURAS, 1921, p. 54). Por fim, o artigo 283 impe que a ama poderia ser despedida quando tivesse vcios que pudessem prejudicar a criana, ou quando da49

falta de leite, for este de m qualidade; ou ainda, quando no tratar com zelo e carinho a criana, ou finalmente quando fizer esta ingerir substancias nocivas sade (CDIGO DE POSTURA., 1921, p. 54). O exame das prescries quanto ao exerccio do ofcio de ama de leite permite perceber as articulaes entre as preocupaes com a questo da qualidade do leite e os comportamentos morais da ama. Tais preocupaes permaneceram no Regulamento para o Servio de Amas-deLeite (SO PAULO, 1905) na capital, aprovado em 1905. Em seu artigo 4, o regulamento previa que as amas, para obterem o atestado de boas condies de sade e estarem aptas para a amamentao, deveriam ser inspecionadas no gabinete da Diretoria do Servio Sanitrio: com escripto assignado pelo juiz de paz, delegado ou sub-delegado de policia do districto o seu nome, sobrenome, profisso, naturalidade, estado, domicilio, o nome e a profisso do marido, dever sujeitar-se ao exame clinico e analyse qualificativa do leite (SO PAULO, 1905). Os dados colhidos nesses exames justificavam a habilitao ou a interdio das amas, como se pode depreender da leitura do relatrio apresentado, em 1915, pelo presidente do Estado de So Paulo, Rodrigues Alves, ao Congresso Legislativo. Sobre os dados resultantes da inspeo das amas, o presidente informava que, naquele ano, as visitas e fiscalizao domiciliares realizadas pela Seco de Proteco Primeira Infancia e Inspeco de Amas de Leite chegaram a 2.625. Alm disso, foram distribudos 24.386 frascos de leite; examinadas 110 nutrizes, das quaes apenas 14 obtiveram attestados. Tambm foram feitos 54 exames de leite a pedido de particulares (MENSAGEM APRESENTADA AO CONGRESSO LEGISLATIVO, 1915, p. 31). Em suma, a emergncia de um conjunto de preocupaes em relao aos problemas gerados pelo crescimento da cidade de So Paulo, entre o final do sculo XIX e as primeiras dcadas do XX, colocou a questo do cuidado e proteo infncia desvalida na ordem do dia. Nesse contexto, os mdicoshigienistas assumiram papel de destaque na articulao de intervenes que, ao se voltarem para o problema da infncia pobre e desvalida, participaram da produo de representaes sobre o espao urbano e seus problemas, os hbitos e costumes da populao e, ao mesmo tempo, da legitimao da urgncia e necessidade da criao de instituies e rgos de fiscalizao. Incidindo sobre as diferentes esferas da sociedade, os mdicos-higienistas participaram, nesse sentido, da formulao de um amplo projeto de ordenao social, no qual as crianas desvalidas e os responsveis pelo seu cuidado e proteo ocuparam um lugar que merece ser investigado. [...] Essas mulheres no comprehendem as regras de hygiene alimentar [...] Colocadas no centro da discusso acerca da mortalidade infantil, as amas foram normatizadas, reguladas e classificadas. O trecho, extrado do50

relatrio da mordomia da Santa Casa de 1910, escrito pelo mdico Synsio Rangel Pestana (1910, p.102), exemplar do lugar atribudo s amas de leite no conjunto das causas que, segundo os mdicos, respondiam pela mortalidade infantil. A leitura e anlise da documentao produzida pelos profissionais que ocuparam esse cargo, bem como dos mdicos ligados aos rgos estatais evidencia a presena de vrios termos e adjetivos que serviram para representar a figura das amas. Eis alguns deles: mercenrias, pessoas incultas e pauprrimas, pobres, nutrizes mercenrias, mulheres analphabetas e incapazes, bondosas, mas incultas, caboclas, sertanejas, fazedoras de anjos ignorantes e ingnuas e mulheres dedicadas, porm rsticas, sem preparo e sem recursos. Para os mdicos da Santa Casa, a causa maior de bitos das crianas sob a responsabilidade da Irmandade era sua criao junto s amas, representadas como as grandes responsveis pelos altos ndices de bitos das crianas sob seus cuidados. Em seus relatrios, publicavam estatsticas sobre a mortalidade, explicaes sobre a mesma, com base nas quais argumentavam que a principal alternativa para o problema era uma fiscalizao mais rgida e eficaz sobre aquelas mulheres. Um levantamento feito ano a ano nos relatrios da mordomia, a partir de 19031214 at 1935, d conta de que 5.620 crianas foram entregues s amas. Desse total, 1.274 morreram, ou seja, 22,6%. Foi possvel levantar tambm, por meio dos relatrios mdicos, um total de 62 causas de bitos, cujos nmeros se referem tambm aos anos de 1903 a 1935, com uma lacuna: o ano de 1933, em relao ao qual no aparece registro algum. A maioria das mortes ocorreu na faixa etria de 0 a 1 ano, perodo considerado mais crtico quanto ao risco de morte, segundo os mdicos do Asilo. Embora a questo da faixa etria no fosse objeto de uma anlise detalhada, levantamos que de 1913 a 1917, 142 crianas entre 0 a 1 ano faleceram. Em 1919, foram 33. Em 1921, 28. Entre 1925 a 1927, 65. J de 1933 a 1935, 34. Referindo-se mortalidade do ano de 1906, o mdico do Asilo dos Expostos, Synsio Rangel Pestana, declarava que, de um total de 146 crianas sob os cuidados das amas contratadas pela Santa Casa, 33 faleceram. Em seu comentrio registrava: espero que com uma organizao mais efficaz de fiscalizao das amas de leite, a mortalidade do anno corrente de 1907 seja bem menos elevada do que a que hoje apresento (PESTANA, 1907, p. 59). Embora no disponhamos de dados para afirmar que as amas que passavam pela inspeo do Servio Sanitrio eram as mesmas contratadas pela Santa Casa, vale registrar que em 1906 o Relatrio da Diretoria do Servio Sanitrio do estado de So Paulo, assinado pelo dr. Emlio Ribas, registrava que, de 105 amas examinadas, foram classificadas como boas12 14 A escolha por 1903 deve-se ao fato de que foi naquele ano que se iniciou a publicao dos nmeros de crianas entregues s amas; e 1935, por ser o ltimo ano antes da inaugurao do berrio. Creditamos a diminuio e posterior fim do servio das amas-de-leite instalao desse novo local, que ocorreu em 1936, quando a Santa Casa de Misericrdia de So Paulo alugou uma casa na Rua Frederico Steidel, 157, bairro de Santa Ceclia. Para l eram enviadas as crianas deixadas nas Rodas de Expostos ou que foram abandonadas e as encontradas pelo servio policial.

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40, soffriveis 58 e ms 7 (RIBAS, 1907, p. 43). Em seguida, comentava que o consultrio de lactantes foi utilizado por 28 crianas, mas de crr que tornando-o mais conhecido do publico, venha a prestar reaes servios s classes menos favorecidas, em que predomina to alto coefficiente de mortalidade infantil (RIBAS, 1907, p. 43). Representadas, na maioria das vezes, de forma negativa, recaa sobre as amas de leite grande parte da culpa pela mortalidade das crianas desvalidas sob seus cuidados na cidade de So Paulo. A principal justificativa dos mdicos era a prpria formao das amas pobres e sem instruo embora tambm houvesse casos em que pairavam sobre elas acusaes de negligncia para com as crianas. Nesse sentido, em 1910, o mdico Synsio Rangel Pestana declarava que ignorantes e ingnuas, essas mulheres no comprehendem as regras de hygiene alimentar, necessrias boa sade da criana, nem outros cuidados exigidos para encaminhar o desenvolvimento normal desses frageis organismos (PESTANA, 1910, p. 102) Nesse mesmo relatrio, so explicitadas as formas como deveria ser feita a fiscalizao das amas contratadas pela Santa Casa. Discorrendo sobre os servios das amas que moravam na cidade e as que viviam em bairros mais afastados, o mordomo Joo Mauricio de Sampaio Vianna defendia que [...] a medida que se impe desde j ser no sentido de no entregarem a amas residentes fora da capital as creanas que de agora em deante ficarem sob a proteo dessa Mordomia. Entregues essas creanas a amas residentes na capital, a respectiva fiscalizao ser mais effetiva e, portanto, mais efficaz. O prprio medico do Asylo pode surprehendel-as em suas residencias e verificar por si mesmo as condies de asseio da ama, do seu domicilio e do lactante, e certificar-se da observncia das regras de hygiene que lhes so ensinadas todos os mezes por ocasio da pesagem e do exame dos lactantes na Santa Casa (VIANNA, 1910, p. 103). As reflexes do mordomo deixam explcitos os intentos de controle e enquadramento das amas, os quais se justificavam, segundo o discurso mdico-higienista, em funo da urgncia e necessidade de diminuio da mortalidade infantil na cidade de So Paulo. Objetivo esse que s poderia ser atingido por meio da modificao dos hbitos e dos modos de pensar e agir das mesmas, considerados imprprios e dissonantes pelo menos do ponto de vista mdico em relao s necessidades daquele momento. Suas recomendaes pem em cena um conjunto de prticas que deveriam ser realizadas pelos mdicos da Santa Casa, as quais incluam o exame, a fiscalizao e o ensino de regras de higiene, por exemplo, as quais se articulavam em torno dos propsitos de civilizar (ELIAS, 1994) aquelas mulheres consideradas brbaras e cujos atos, igualmente brbaros, poderiam ser perfeitamente relacionados morte das crianas sob seus cuidados.52

A vigilncia sobre aquelas mulheres seja as que residiam na cidade ou as que viviam na zona rural era um objetivo a ser alcanado, o que pode percebido pelo uso do verbo surprehendel-as. Dialogando um pouco mais com a declarao do mordomo, nota-se a tentativa de se fazer um verdadeiro cerco ao redor das amas, o qual recobria a fiscalizao das prprias amas, de suas casas e das crianas sob sua guarda. Enfim, ressaltase aqui o papel que os mdicos chamavam a si no enfrentamento de um problema de tamanha magnitude: o de regular e disciplinar a ocupao das amas e de seu cotidiano. importante chamar a ateno tambm para o fato de que, de acordo com inmeros relatos publicados nos relatrios da mordomia, os altos ndices de mortalidade infantil no eram atribudos, prioritariamente, qualidade do leite, mas sim s condies de moradia e higiene das amas. Assim, pobreza, vcios, doenas, pssima alimentao, insalubridade, falta de asseio, entre outros, foram alguns dos elementos que compuseram as representaes produzidas pelos mdicos sobre a figura das amas; representaes essas que englobavam os mais distintos aspectos de sua vida, dentre eles, suas moradias. Alis, o local de moradia constituiu-se em uma questo recorrente nas anlises sobre as amas, que circularam nos relatrios da mordomia. Servia como um dos principais pretextos para as discusses entre mdicos e mordomos. So inmeros os casos em que os mdicos acusam as amas ditas rurais de procurarem tratar as crianas doentes com remdios caseiros ou mesmo de recorrerem a curandeiros que moravam nas redondezas de suas casas, o que evidencia as lutas de representao entre um saber que buscava se legitimar e saberes institudos sobre as crianas pequenas e os cuidados que exigiam. Em 1912, o mdico Synsio Rangel Pestana, em relatrio apresentado ao mordomo dos expostos, Sampaio Vianna, atribua os altos ndices de mortalidade das crianas ao fato de as amas morarem afastadas do centro da cidade e buscarem auxlio de pessoas desqualificadas, segundo seu ponto de vista. V. Ex. bem comprehende a principal causa dessa alta porcentagem, no me cano de proclamar, a falta de assistncia medica regular. A maioria dos bitos se verifica nos lactantes entregues s amas dos stios, creaturas inteiramente ignorantes do que seja hygiene alimentar. Alm da falta de cuidados necessrios no que diz respeito amamentao, ao aleitamento mixto na poca prpria para a desmama, etc. h ainda a falta de medico no logar, o que obriga as amas a consultarem os curandeiros boaes da redondesa que os tratam sabe Deus como, pela homeophatia ou pela allopathia. (PESTANA, 1913, p. 38). A declarao do mdico permite observar que havia uma cobrana junto ao mordomo e, por que no Santa Casa, para um melhor atendimento53

mdico nas regies mais afastadas da capital. Esse, alis, o aspecto mais frequente nos relatrios da mordomia. Vrias so as solicitaes dos mdicos no sentido de que fosse aprimorado esse tipo de atendimento. Assim, embora suas anlises participem da produo de representaes das amas como seres ignorantes, ingnuos, no se pode deixar de considerar a atuao dos mdicos na demanda por providncias que visavam a melhorar o atendimento concedido a elas e, nessa medida, as condies de vida das crianas sob sua responsabilidade. Questo que tambm pode ser lida como indcio das reivindicaes das prprias amas por melhores condies de vida. Quase no mesmo perodo, mais especificamente em 1911, foi realizada a reforma do Cdigo Sanitrio de 1894, a qual, dentre outras alteraes, resultou na ampliao das atribuies do Servio Sanitrio. Ao Estado caberia, a partir de ento, fiscalizar as atividades do municpio, por exemplo. Criou-se tambm a Seo de Proteo Primeira Infncia (RIBEIRO, 1993, p.114). A partir desta reforma, o servio de amas-de-leite ganhou importncia pois foi transformado numa seo especfica do Servio Sanitrio sob responsabilidade de trs mdicos, com oramento prprio, independente da Diretoria do Servio Sanitrio (RIBEIRO, 1993, p. 121). Segundo Carvalho, em 1915 o Consultrio de Lactentes, ento subordinado Seo de Proteo Primeira Infncia do Servio Sanitrio, iniciava a distribuio de prmios de robustez s mes que, atravs da amamentao no peito, houvessem conseguido encaminhar seus filhos aos melhores resultados frente s demais crianas (CARVALHO, 1996, p. 67). Era uma medida, provavelmente, ligada questo das campanhas de aleitamento materno, conforme sinalizamos anteriormente. Iniciativa semelhante, embora vinculada a questes filantrpicas, j tinha sido experimentada pela Santa Casa em 1905, premiando as trs amas cujos lactantes se apresentassem em melhores condies, tendo em vista para o julgamento, a pezagem inicial e o estado de sade (MATTOSO, 1906, p. 68). Nota-se, ento, que foram inmeras as tentativas para diminuir os ndices de mortalidade infantil das crianas sob os cuidados das amas. Para isso, como podemos observar, os mdicos propem uma srie de estratgias orientadas no sentido de disciplinar as mulheres e, especificamente, as amas de leite. Tais medidas no se dissociam de iniciativas que, nesse mesmo perodo, ocorriam em diferentes estados brasileiros, bem como em outros pases. Durante o Primeiro Congresso Brasileiro de Proteo Infncia, realizado no Rio de Janeiro em 1922, dr. Arthur Moncorvo Filho, diretor fundador do Instituto de Proteo Infncia do Rio de Janeiro, apresentou uma comunicao intitulada Regulamentao das Amas de Leite no Brasil. O exame do texto permite verificar algumas concluses aprovadas no Congresso. Entre elas: A despeito da respeitvel opinio daquelles que combatem a regulamentao das amas de leite, profisso em these condennavel,54

foroso confessar tornar-se ella de necessidade imperiosa, sabendo-se que, na impossibilidade de supprimir-se a industria do aleitamento mercenrio bastas vezes recurso precioso para a salvao das creanas, no se pde conceber a ausncia de severas medidas que impeam a disseminao dos muitos males capazes de ser transmitidos pelas nutrizes mercenrias em mao estado de sanidade (MONCORVO FILHO, 1925, p. 337). Para se ter uma idia da dimenso com a questo das amas de leite, em suas relaes com o problema da mortalidade infantil, o Primeiro Cdigo de Menores do pas, de 1927, em seu primeiro captulo, j trazia a determinao das mulheres que podiam amamentar filhos de outras pessoas, evidenciando que a questo da proteo ao menor passava pela questo da amamentao dita mercenria (CARVALHO, 1996, p. 45). Em 1930 tomou posse, como mdico do Asilo dos Expostos, dr. Joo Leite de Bastos Jnior. Em seu primeiro relatrio, apresentado ao mordomo Sampaio Vianna, registrava que, tirando a mdia de todos os ndices, em 26 anos de observao de 1903 a 1929 verificou-se que a mortalidade correspondia a 23,3 crianas por mil nascidas. Lanando mo das declaraes do professor uruguaio Luiz Morquio, procurava demonstrar que o nmero era extremamente alto: O Prof. Luiz Morquio, em notvel conferencia realisada h poucos mezes, na Santa Casa desta Capital, declarou que toda mortalidade que fosse alm de 7 por cento seria excessiva e passvel de reduo. Referindo-se aos quatros annos em que exerceu a direco medica do asylo de Orphans e Expostos de Montevideo, informou que conseguiu reduzir a mortalidade de 20% a 7 (BASTOS JNIOR, 1930, p.125). As declaraes de Morquio e a sua citao pelo mdico do Asilo permitem perceber a relevncia que assumia o problema da mortalidade infantil e o papel da produo e divulgao de dados estatsticos na legitimao das estratgias por meio das quais os mdicos procuraram constituir o problema e legitimar as suas intervenes. Temeroso quanto aos elevados ndices de mortalidade das crianas que viviam junto s amas, o mdico solicitava, no relatrio referente ao ano de 1933, a transferncia das crianas menores de dois anos em poder das amas, propondo, inclusive, a construo de um local adequado para atendlas. Justificava seu pedido argumentando que [...] esse doloroso confronto entre a elevada lethalidade das crianas confinadas s bondosas mas incultas caboclas de Itapecerica, e a mortalidade nulla das que ficam sob os cuidados das virtuosas e55

dedicadas Irms de So Jos, est a clamar por providencia urgente e definitiva que ponha os lactentes em situao de igualdade de outros expostos. Esta providencia importa, inicialmente, na construco de um pavilho para menores de 2 annos, onde esses infelizes possam receber os benefcios da moderna hospitalizao (BASTOS JNIOR, 1933, p. 281). O que se observa que os mdicos e mordomos da Santa Casa, em seus relatrios, continuavam a produzir imagens nas quais as amas, ou mesmo as suas condies de vida, que incluam sua casa, a instruo, os seus costumes, a relao com outras prticas de sade, eram consideradas as grandes responsveis pela mortalidade infantil. Em 1936, o mordomo Sampaio Vianna, em um extenso relatrio ao provedor Antonio de Pdua Salles, relatava: pudemos verificar, de visu, como eram assistidas as creanas entregues s amas. Em geral, abrigadas em casas primitivas, sem qualquer recurso hygienico, tratadas por pessoas incultas e pauprrimas, as creanas viviam na mais completa falta de cuidados, os mais prementes [...]. [...] A falta de cultura e de recursos materiaes das pobres amas as impedia completamente de executar as regras que lhes eram ensinadas pelos medicos: assim peccava pela base a assistencia que se pretendia dar creana abandonada. (VIANNA, 1936, p. 195, grifos nossos) Mais dados estatsticos podem ser encontrados no relatrio da mordomia, relativo ao ano de 1938, que registra um ndice bastante significativo em termos de mortalidade infantil. Segundo registrava o documento, os dados referentes ao perodo de 1900 a 1936 evidenciavam que, das 2.784 creanas admittidas e entregues s amas mercenrias para serem criadas em suas casas, como se fazia at essa data, 1.444, ou seja, 52% falleceram (VILLARES, 1938, p. 257). A leitura dos relatrios da mordomia evidencia a necessidade cada vez mais forte de iniciativas que, partindo da Santa Casa e do prprio mordomo, possibilitassem modificaes substantivas no servio das amas. Como argumento para tais medidas, eram utilizados os dados colhidos pelo controle mensal, por meio da ida das amas ao hospital, os quais evidenciavam, segundo os mdicos, a precariedade das condies fsicas das crianas criadas por elas. Diante desse quadro, a criao do Berrio, em 1936, constituiu-se em uma das medidas postas em ao pela Santa Casa. Tal medida punha em cena novas prticas de cuidado com as crianas desvalidas. No momento em que a criana chegava ao local, abria-se imediatamente uma ficha. Nella56

fica annotada toda informao que se pde obter a seu respeito, sendo registrada na ficha a certido de nascimento, e qualquer outro documento, porventura encontrado, fica convenientemente archivado (VILLARES, 1936, p. 197). Se, por acaso, a criana no fosse registrada, a Santa Casa providenciava seu registro em Cartrio. Outras informaes revelam, ainda, que, paralelamente instalao do Berrio, foi criado tambm um Lactrio, com finalidade mdicosocial uma forma de restringir, ao que parece, o servio das amas, pois, de acordo com o prprio mordomo, sua finalidade seria extrahir, conservar e distribuir leite humano a dbeis, prematuros e doentes, expostos ou filhos de ricos e pobres, evitando-se assim, ao mesmo tempo, os inconvenientes irremediveis do aleitamento mercenrio (VILLARES, 1936, p. 200, grifos nossos). Citando Vasconcelos e Sampaio (1938), Lvia Vieira (1988, p. 10) relata em seu artigo que, na poca, propunham-se dois tipos de instituies para socorrer as crianas pobres e combater as criadeiras: Os lactrios, que alimentam as crianas e ensinam as mes, servem s mulheres que podem guardar junto de si os filhos; e as creches de depsitos: para as mulheres que so foradas a trabalhar. Segundo as anlises dos mordomos, as medidas adotadas no tardaram a produzir frutos. No relatrio da mordomia de 1938, o dr. Leite de Bastos Jnior relatava que o papel das amas se modificara. De nutriz mercenria que era, qualificativo aviltante e desprezvel, passou a ser doadora de leite, funco altamente humanitria, conforto de mes que soffrem e salvao de criancinhas que fenecem ( BASTOS JNIOR, 1938, p. 275). O incio das atividades do lactrio da Santa Casa de So Paulo coincide com o do Lactrio de Paris. Enquanto este, por meio da ordenha e distribuio do leite humano no Boulevard Port Royal, recolhia uma mdia diria de 4 mil gramas, sendo o leite vendido a 100 francos o litro, o de So Paulo tinha uma capacidade de 14 litros dirios, dos quaes a metade se destina aos nossos lactantes, e a outra se distribue mediante prescripo medica, aos prematuros, dbeis e doentes, cujas mes no tem leite (BASTOS JNIOR,1938, p. 275). A princpio, a iniciativa de implantao do Berrio deu resultados positivos. Tanto que, em reunio da mesa administrativa, de 5 de dezembro de 1941, foi aprovado parecer da Comisso de Contas e Obras favorvel autorizao para os estudos e elaborao de plantas e oramento para a construo de um prdio anexo ao Asilo Sampaio Vianna para servir de berrio (BASTOS JNIOR, 1941, p. 98). Um outro motivo pode tambm ter contribudo para essa diminuio no nmero de amas na cidade: na mesma dcada de 40 o Estado, por meio da criao do Departamento Nacional da Criana (DNCr), do Ministrio da Educao e Sade e da Legio Brasileira de Assistncia (VIEIRA, 1988, p. 4), comeou a investir em instituies voltadas proteo infncia e maternidade.57

Um exemplo desta postura foi a criao de creches, til instrumento de socorro s mulheres pobres e desamparadas (VIEIRA,1988, p. 4). Citando Odilon de Andrade Filho, Vieira (1988, p. 8) revela, ainda, que as creches eram o nico elemento capaz de combater eficazmente o comrcio das criadeiras que capricham em concorrer para aumentar o obiturio infantil. Segundo Vasconcelos e Sampaio, com a multiplicao das creches pelos bairros das cidades eliminar, automaticamente, o comrcio das criadeiras (apud VIEIRA, 1988, p.10). Sendo assim, observa-se que, a partir da dcada de 1940, o servio de amas de leite reduziu-se acentuadamente. Isso pode ser explicado pelo fato de que o Berrio criado pela Santa Casa era um local bastante procurado para a obteno de leite na cidade, segundo relatos publicados nos relatrios da mordomia. Paralelo ao Berrio, o Lactrio tambm pode ter sido um facilitador para a reduo dos servios das amas na cidade de So Paulo, na poca.

Consideraes finaisExpressar a dimenso tomada pelas prticas mdicas voltadas para a criana desvalida, bem como as representaes produzidas sobre a figura das amas de leite foi o intuito deste texto, no qual procuramos sinalizar como mdicos, representantes do governo, juristas e outros setores da sociedade se posicionaram diante dos diferentes problemas postos pelas transformaes que ocorriam em So Paulo, entre o final do sculo XIX e o incio do XX. Nossa abordagem focalizou, mais detidamente, as representaes produzidas pelos mdicos no contexto da elaborao de um amplo projeto de interveno que recaiu sobre os mais diferentes aspectos da realidade social, incidindo, neste caso em particular, sobre as amas e as crianas sob seus cuidados. Nosso objetivo, neste caso, foi o de pontuar algumas das tentativas de controle e normatizao que marcaram as prticas de fiscalizao das amas e de exame das crianas. Cabe acentuar que essas aes fizeram parte de um amplo projeto traado por grupos hegemnicos, no interior de uma conjuntura poltica, econmica, social que abrangeu grande parte do perodo aqui tratado. Destacamos, neste artigo, o papel dos mdicos como representantes de um saber que se apresenta como legtimo, reclamando para si a explicao dos problemas e a articulao de estratgias de interveno. Problemas, alis, considerados obstculos para a construo de um pas moderno. Entre eles, o da mortalidade infantil. Nessa anlise, optamos por percorrer, brevemente, os desdobramentos que marcaram as intervenes sobre as crianas desvalidas e as amas, traduzidas em prticas que incidiam sobre seus corpos, suas condutas e sobre suas prprias vidas, assinalando e fornecendo elementos58

para compreender como, a partir de uma determinada poca, foram produzidas representaes em torno daquelas mulheres que acabaram por ser qualificadas, na maioria das vezes, de forma negativa. Qualificaes que iam de criadeiras a fazedoras de anjos, conforme o ttulo deste artigo sugere.

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Criminologia e medicina legal em So Paulo: juristas e mdicos e a construo da ordemLuis Ferla1 Marcos Csar Alvarez2

IntroduoNa Europa, ao longo do sculo XIX, mutaes nas prticas penais, bem como nas percepes e nas representaes sociais, modificaram o estatuto do crime e da punio no interior da sociedade moderna. Como afirma Michel Foucault, foram introduzidos no ritual penal novos objetos de conhecimento e de interveno, objetos estes disputados por saberes emergentes, como a Psiquiatria, a Medicina Legal e, posteriormente, a Criminologia. A punio legal se deslocou da infrao cometida para o indivduo criminoso, o que duplicou e dissociou os objetos juridicamente definidos e codificados, que passaram a ser tambm objetos susceptveis de um conhecimento cientfico (FOUCAULT, 1977). A novidade da abordagem de Foucault sobre tais transformaes consistiu sobretudo em no tomar as mudanas no campo penal como um simples progresso no mbito das formas de conhecimento e como a inevitvel humanizao no mbito das prticas penais mas como transformaes complexas que possibilitaram a construo de novos objetos de conhecimento e de novas formas de governo dos homens. Neste sentido, a investigao dos nexos entre saber e poder, to exaustivamente desenvolvida por Foucault em diversos mbitos de sua investigao histrica, mostrou-se especialmente fecunda no registro penal, ao permitir explorar como os novos saberes normalizadores, como a Psiquiatria, as Cincias Humanas e a Criminologia, passaram a rivalizar com o Direito no que diz respeito ao dizer a verdade sobre o crime e a punio na modernidade. Embora no tenha estudado de forma mais aprofundada a emergncia da Criminologia, Foucault j apontava que tal saber tinha um papel particularmente utilitrio e de justificao cientfica do novo poder disciplinar voltado para a transformao dos indivduos (FOUCAULT,1 2 Professor de Histria Contempornea da Universidade Federal de So Paulo (UNIFESP, Campus de Guarulhos). Professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo (FFLCH-USP) e pesquisador do Ncleo de Estudos da Violncia da USP.

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1981), saber destinado ao poder, mais valorizado pela sua utilidade poltica e administrativa do que por sua exatido cientfica, onde o que est em jogo no a compreenso dos seres humanos envolvidos, mas trata-se de conhec-los para control-los (GARLAND, 1999, p.73). A histria da Criminologia no comea propriamente no fim do sculo XIX mas pode ser situada no interior da histria mais ampla das cincias mdicas na Europa desde o final do sculo XVIII (MUCCHIELLI, 1994) e mesmo a partir de autores como Adolphe Qutelet (1786-1874), que buscou aplicar as tcnicas estatsticas ao movimento do crime e da penalidade (BEIRNE, 1993). A prpria diversidade de expresses empregadas ao longo do sculo XIX para nomear a nova cincia Antropologia Criminal, Cincia Criminal, Antropologia Jurdica, Antropologia e Direito, Sociologia Criminal, Psicologia Criminal etc. indicam as flutuaes de sentido e as disputas intelectuais em torno dos novos problemas concernentes emergncia do homem criminoso como objeto de conhecimento e de interveno. No fim do sculo XIX, sobretudo com o aparecimento do livro de Csare Lombroso, LUomo delinquente, publicado pela primeira vez em 1876, todo um programa de investigao e reforma social ganhar certa coerncia e ir se desenvolver na Europa e tambm nos Estados Unidos, com inmeras publicaes, realizaes de congressos nacionais e internacionais, movimentos de reforma da legislao e das instituies penais etc. Se Lombroso no pode ser visto de forma ingnua como uma espcide de heri fundador da moderna Criminlogia, sendo na verdade sobretudo um herdeiro, j que seu livro Luomo delinqente condensava os ensinamentos da Frenologia, da Antropologia, da Medicina Legal e do alienismo dos dois primeiros teros do sculo XIX (MUCCHIELLI, 1994), ainda assim foi em torno de suas idias que se desenvolveram os principais debates sobre a natureza do crime e a funo da pena no perodo. O fim do sculo XIX correspondeu igualmente a um momento de forte institucionalizao da Criminologia no ensino universitrio, ento em plena expanso, em revistas exclusivamente consagradas a estas questes e na organizao de encontros internacionais, como os Congressos Internacionais de Antropologia Criminal. O primeiro congresso, realizado em Roma em 1885, representa o pice da carreira de Lombroso e da escola italiana de Criminologia. Mas tambm ao longo desses congressos que comeam a surgir algumas das principais resistncias s novas idias penais, manifestas sobretudo pelos adeptos da assim chamada escola sociolgica de Lyon, liderada pelo mdico francs Alexandre Lacassagne (1843-1924), que enfatizava o meio social como caldo de cultura do crime (apud DARMON, 1991, p. 91). Outra crtica importante aos trabalhos de Lombroso e s teorias da Antropologia Criminal partiram de Gabriel Tarde (1843-1904) e, posteriormente, de mile Durkheim (1858-1917). De qualquer modo, Lombroso, com Luomo delinqente, forneceu um paradigma biodeterminista de fcil assimilao, que contribua no apenas para pensar a natureza do crime e o papel da punio, em sintonia com as muitas teorias cientificistas ento dominantes, mas que poderia64

explicar as prprias diferenas presentes entre os homens. Diante da complexidade da nova sociedade industrial e urbana, perpassada por inmeros conflitos, a idia de que o crime era uma espcie de fenmeno natural e de que o criminoso no passava de um indivduo primitivo, que poderia ser anatomicamente identificado na multido, seduzia pela sua capacidade de fornecer uma explicao ao mesmo tempo cientfica e tranqilizadora acerca da desordem social. Ao mesmo tempo, a nova Criminologia rejeitava o igualitarismo formal liberal (GARLAND, 1985) e propunha todo um conjunto de reformas da legislao e institues penais, ao demarcar o embate entre a antiga escola clssica e a nova escola positiva no mbito penal. Neste artigo, pretende-se analisar como as idias da Criminologia e da escola positiva de Direito Penal foram incorporadas por juristas e mdicos paulistas e alguns de seus desdobramentos institucionais no estado, tanto no que diz respeito reforma das instituies penais quanto ao desenvolvimento da Medicina Legal. Num primeiro momento, o artigo descreve como as idias de Lombroso e os debates em torno da Criminologia foram incorporados pelos juristas em So Paulo no final do sculo XIX e incio do XX. Em seguida, procura fazer o mesmo no meio mdico legal, com nfase no papel cumprido pela Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de So Paulo, a partir de 1921. Alm disso, buscar-se- fazer um rpido inventrio das implicaes institucionais que a influncia daquelas idias produziu.

A Criminologia e os juristas em So Paulo A partir da segunda metade do sculo XIX, o debate intelectual no Brasil passou a incorporar um conjunto variado de novas idias, como o evolucionismo, o materialismo, as teoriais raciais, etc. Os debates em torno da Criminologia, que se desenvolviam na Europa no perodo, foram recebidos como parte dessa onda cientificista sobretudo por juristas e mdicos3. Da parte dos juristas, a recepo das idias da escola positiva de Direito Penal ocorreu precocemente, incorporadas ao ambiente de renovao cultural presente na Faculdade de Direito do Recife, que ento se abria para discusses filosficas as mais diversificadas. Deste modo, Joo Vieira de Arajo (1844-1922), lente da Faculdade de Direito do Recife, j se mostrava informado a respeito das novas teorias criminais, ao comentar as idias de Lombroso em suas aulas e tambm em textos sobre a legislao criminal do Imprio, em 1884 (cf. Arajo, 1884). No mesmo ano, Tobias Barreto, em seu livro Menores e loucos, faz referncias ao LUomo delinquente, ao discutir a necessidade3 Retrabalhamos aqui idias j apresentadas em diversos textos, sobretudo a partir de Alvarez (2003).

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de diferenciao das diversas categorias de irresponsveis no campo penal (BARRETO, 1926). Aps essa recepo pioneira no Recife, inmeros outros juristas brasileiros, ao longo da Primeira Repblica, passaram a divulgar as novas abordagens cientficas acerca do crime e do criminoso: Clvis Bevilqua, Jos Higino, Raimundo Pontes de Miranda, Viveiros de Castro, Aurelino Leal, Moniz Sodr de Arago, Evaristo de Moraes, Jos Tavares Bastos, Esmeraldino Bandeira, Lemos Brito, entre outros, publicam artigos e livros em que so discutidos os principais conceitos e autores da Criminologia e da escola penal positiva. Alguns se tornam entusiastas das novas teorias penais, outros censuram o exagero de algumas colocaes consideradas radicais, mas a grande maioria toma as novas discusses no campo da Criminologia como temas obrigatrios de debate no interior do Direito Penal (ALVAREZ, 2003). Mais do que isso, boa parte dessa produo intelectual acabou por extrapolar o debate entre os juristas e incidir sobre o meio mdico brasileiro, como ser discutido mais adiante. Particularmente o livro de Viveiros de Castro, Nova Escola Penal, publicado em 1893, influenciou a incipiente Medicina Legal brasileira e colaborou para os seus alinhamentos doutrinrios biodeterministas. Em So Paulo, no ocorreu um movimento intelectual simbolicamente equivalente ao da Escola do Recife, sendo que o conservadorismo da Faculdade de Direito do Largo So Francisco e o liberalismo dos bacharis paulistas parecem ter sido obstculos que retardaram relativamente a incorporao das novas idias cientificistas no mbito das discusses jurdicas. O prprio positivismo penetrou muito antes no periodismo acadmico, no qual j est presente no jornal A Repblica em 1876, do que na Faculdade de Direito, onde s chega com o ingresso de Pedro Lessa no corpo docente em 1888 (ADORNO, 1988). Nos ltimos anos do sculo XIX, no entanto, as novas idias criminolgicas j so discutidas no Largo So Francisco, sendo que dois juristas iro se destacar neste debate: Paulo Egdio e Cndido Mota. Com eles, a Criminologia ir emergir tambm no Brasil como um discurso com pretenses modernizadores, capaz de justificar o novo papel missionrios dos legisladores (SCHWARCZ, 1993), quer diante dos problemas mais gerais da nao, quer diante das reformas das instituies penais.

Paulo Egdio: Criminologia e reforma penitenciriaPaulo Egdio de Oliveira Carvalho (1842-1906) estudou na Faculdade de Direito do Largo So Francisco entre 1861 e 1865. Aps o trmino do curso, trabalhou como advogado e promotor pblico em Limeira, fixando depois residncia na capital do estado em 1870, quando iniciou sua66

carreira poltica. Foi ento eleito deputado provincial em 1870, constituinte em 1891 e senador estadual em 1894. Antonio Cndido cita Paulo Egdio como um pioneiro da Sociologia em So Paulo, num momento em que as Cincias Sociais ainda no eram praticadas por especialistas, mas sobretudo por intelectuais interessados em formular princpios tericos gerais ou interpretar de modo global a sociedade brasileira (CNDIDO, 2006). Mas as preocupaes de Paulo Egdio com relao Sociologia eram indissociveis, na poca assim como para muitos intelectuais no Brasil e igualmente na Europa , das preocupaes relativas Antropologia Criminal e suas interpretaes biodeterministas, bem como de questes prticas relativas ao combate ao crime e reforma da legislao e das instituies penais. O que decisivo, na recepo dos debates criminolgicos que ocorriam na Europa, por parte de Paulo Egdio, que para ele a Sociologia no deveria excluir as explicaes raciais e biolgicas. Neste sentido, em texto intitulado Contribuio para a histria filosfica da Sociologia, Egidio (1899, p. 47) afirmava que o estudo da estrutura anatmica do homem e das suas variedades raciais h de sempre fornecer esclarecimentos para o estudo dos problemas da sociologia. Deste modo, a forma como Paulo Egdio discutia as idias de Durkheim a respeito do carter normal do crime ilustra de modo paradigmtico como se dava a recepo das idias criminolgicas no Brasil, j que a maior parte dos intelectuais locais integrava ecleticamente teorias sociolgicas e biodeterministas, tal como progressivamente ocorria igualmente com a escola criminolgica italiana na Europa4. No entanto, o ensaio no qual Egdio discute as idias de Durkheim destaca-se, no panorama local, pela rigorosa discusso do mtodo defendido pelo socilogo francs, ao contrrio da maior parte das obras produzidas no perodo no Brasil sobre a Criminologia, voltadas sobretudo para o recenseamento das idias da escola italiana. Intitulado Estudos de sociologia criminal, tal trabalho permitiu que o autor fosse aceito como membro do Instituto Internacional de Sociologia de Paris, por indicao de Gabriel Tarde e Ren Worms (MACHADO NETO, 1969, p. 55). Ao longo do ensaio, Paulo Edgio polemizava contra a idia de Durkheim acerca do carter normal do crime. Egdio, em sua exposio, toma partido dos adeptos da escola italiana de Criminologia, ao refutar as crticas que o socilogo francs dirige a Garofalo, em especial, e ao4 O prprio Lombroso, ao longo de seus trabalhos, acabou incorporando, sua teoria do atavismo, as causas sociais que ajudariam a explicar as origens do comportamento criminoso. Mas tanto ele como a maioria dos demais autores que escreveram na virada do sculo a respeito da Criminologia no abandonaram o paradigma biodeterminista, que girava em torno da figura do homem delinqente. Na Frana, mesmo o mdico Alexandre Lacassagne (1843-1924), um adversrio de Lombroso, estava muito mais prximo de concepes que enfatizavam as caractersticas hereditrias que levavam ao crime do que de explicaes propriamente sociolgicas (MUCCHIELLI, 1998). As crticas mais significativas ao biodeterminismo de Lombroso partem efetivamente de Gabriel Tarde (1843-1904) e de Durkheim. Mucchielli; no entanto, considera que mesmo Tarde estava mais prximo dos biocriminologistas italianos de seu tempo do que geralmente se imagina, ao nunca colocar em questo as origens biolgicas do comportamento criminal individual (MUCCHIELLI, 2003, p. 65).

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reafirmar que o crime um fenmeno anormal, pois o criminoso aquele que se afasta das leis e das normas sociais. Logo, ainda segundo Egdio, Lombroso teria razo contra Durkheim, ao indicar que o criminoso se desvia profundamente do homem comum, constituindo um tipo prprio, uma natureza anormal. O advogado paulista igualmente buscava refutar empiricamente as concluses de Durkheim no sentido de que o progresso levaria a um crescimento da criminalidade. Ao analisar os dados acerca de estados como Pernambuco, Bahia e So Paulo, Egdio afirmava que, apesar da falta de estatsticas criminais convenientemente organizadas no pas, todos os documentos oficiais existentes no apontavam para um aumento da criminalidade nesses Estados5. O livro de Paulo Egdio acerca da sociologia criminal de Durkheim, pelo rigor e pelo mtodo de exposio, chamou a ateno mesmo de seus contemporneos, tendo merecido inclusive uma longa resenha crtica na Revista da Faculdade de Direito de So Paulo, publicada no mesmo ano da edio do livro e elaborada por Joo Mendes Jnior (1900). Mas justamente na defesa das idias de Lombroso, Ferri e Garofalo que Egdio no se distancia de seus contemporneos, o que mostra o predomnio da escola positiva e das idias biodeterministas no discurso da Criminologia no Brasil da virada do sculo. Mesmo aquele que talvez seja o autor que mais se aprofundou nos estudos da sociologia criminal no perodo no Brasil no se distanciou da escola italiana e sua nfase no carter anormal do crime e do criminoso. De fato, a argumentao de Paulo Egdio em seu Ensaios de sociologia criminal se apoia numa compreenso incompleta das idias de Durkheim que, como j ressaltava Gaston Richard, na seo dedicada sociologia criminal da LAnne Sociologique de 1896-1897, defendia o carter normal do par crime/pena (RICHARD, 1897, p. 393). Ou seja, se para Durkheim o crime um fenmeno normal, tambm o a reao social contra o crime, a sano ou a pena. Seguir o argumento de Durkheim, portanto, no implicaria em cair no paradoxo de no mais reprimir o crime e a criminalidade. Mas, se Paulo Egdio no percebe o desenvolvimento do argumento, isto se deve mais sua defesa, a priori, da escola positiva, j que ele acompanhava a publicao francesa, tendo citado inclusive o prprio Richard em seu livro. Outro aspecto interessante em Paulo Egdio que ele buscou, ao longo de sua atividade como senador em So Paulo, empregar os conhecimentos acerca da Criminologia para justificar amplos projetos de reformas das instituies penais do Estado. Entre 1893 e 1906, Paulo Egdio props ao senado uma ampla reforma penitenciria para o Estado de So Paulo, com o objetivo de criar um sistema que no fosse apenas repressivo mas igualmente preventivo, obedecendo s diretrizes fornecidas pela escola positiva.5 Paulo Egdio utiliza as estatsticas acerca dos crimes cometidos no estado, organizadas pelo dr. Manoel Viotti, chefe da primeira seo da repartio central da polcia.

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Nas cartas que enviou para o jornal Correio Paulistano e que foram depois publicadas em seus Ensaios sobre algumas questes de direito penal e de economia poltica (1896) , Egdio desdobrava de maneira detalhada os diferentes tipos de instituies que deveriam compor o sistema penitencirio: asilos, casas de trabalho para vadios e mendigos, sociedades de educao para as crianas abandonadas, asilos agrcolas, asilos industriais, orfanatos, penitencirias propriamente ditas, colnias agrcolas, sociedades de proteo para os menores e para os adultos criminosos que j tivessem cumprido condenao, caixas de seguro e estabelecimentos para os invlidos do trabalho etc. (EGDIO, 1896, p. 193-194). Percebe-se, deste modo, a amplitude da reforma proposta por Egdio, que entrelaava instituies penais e instituies de proteo social, envolvendo no apenas o Estado, mas toda a sociedade, e voltadas para o acompanhamento integral da vida daqueles que, mesmo que apenas potencialmente, estejam prximos ao mundo do crime. Paulo Egdio buscou implementar suas propostas e iniciou a discusso da reforma penitenciria na sesso de 7 de agosto de 1893 no Senado paulista, ao propor a necessidade de reforma do Cdigo Penal de 1890. Na sesso de 14 de agosto apresentou o Projeto n 33, criando o Asilo Industrial de So Paulo, destinado a recolher crianas de ambos os sexos que mendigassem pela cidade, as que tivessem pais condenados por sentena criminal e em cumprimento da pena, as rfs de pai ou notoriamente pobres e aquelas que, tendo pais, tutores ou curadores, fossem por eles abandonadas. Essa proposta do Asilo Industrial no teve continuidade e, com a apresentao posterior do projeto do Instituto Disciplinar por Cndido Mota, Paulo Egdio se deu por satisfeito ao apoiar o projeto deste outro jurista. Na sesso de 27 de julho de 1896, Paulo Egdio apresentou seu principal projeto, referente reforma penitenciria. O Projeto de Lei n 4 estabelecia a criao de novas instituies penais em todo o Estado, assim como propunha a criao de sociedades de proteo, voltadas para o amparo dos condenados que tivessem cumprido pena, entre outras medidas. Este projeto de Paulo Egdio deu origem criao da Penitenciria do Estado, mas seu autor no ficou satisfeito apenas com essa proposta, voltando a apresentar novos projetos para completar seu sistema penitencirio. Assim, na sesso de 13 de junho de 1904, apresentou o Projeto n 4, referente s sociedades de patronato, destinadas a dar assistncia aos condenados reclusos e suas famlias. E na sesso de 18 de agosto de 1905, apresentou, por sua vez, o Projeto n 3, referente criao de uma escola penitenciria de ensino superior na capital do Estado, voltada para o preparo tcnico dos indivduos que se dedicassem carreira penitenciria. A morte do senador paulista, no entanto, impediu que ele desse prosseguimento ao conjunto de reformas, sendo que a maioria caiu no esquecimento. Suas iniciativas mostram, entretanto, que as idias da escola positiva viabilizavam todo um discurso reformador das instituies penais69

na poca, sendo que as duas instituies construdas nas dcadas seguintes o Instituto Disciplinar e a Penitenciria do Estado seriam inspiradas nas diretrizes da nova escola penal. Cndido Mota, por sua vez, foi uma espcie de herdeiro das reformas propostas por Paulo Egdio, baseadas nos ensinamentos da escola positiva, sendo que com ele as idias da Criminologia encontraram guarida igualmente no ensino da Faculdade de Direito de So Paulo.

Cndido Mota e a classificao dos criminososCndido Nazianzeno Nogueira da Mota (1870-1942) nasceu em Porto Feliz, no estado de So Paulo. Matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo So Francisco em 1888, recebendo o grau de bacharel em 1891. Em 1892 foi nomeado promotor pblico em Amparo. Em dezembro do mesmo ano, foi transferido para a segunda promotoria pblica da capital, criada pelo governo Bernardino de Campos. Em 1896, no governo Campos Sales, sendo chefe de polcia Jos Xavier de Toledo, foi nomeado segundo delegado da capital, permanecendo no cargo dez meses. Em 1898, foi eleito deputado estadual e membro da comisso de instruo pblica, promovendo a fundao do Instituto Disciplinar. Reeleito deputado para a legislatura de 1901-1903, apresentou projetos referentes reforma judiciria e ao patronato agrcola, entre outros. Em 1905 foi eleito vereador para a Cmara Municipal da Capital. Por decreto de 21 de maio de 1908, foi nomeado lente catedrtico da primeira cadeira de direito criminal e, no mesmo ano, elegeu-se deputado federal, mandato que renunciou para ser secretrio da agricultura do governo Altino Arantes, em 1916. Na Cmara Federal, fez parte da comisso especial de justia militar, e das comisses de poderes e de instruo pblica. Elegeu-se senador estadual em 1922 e ocupou a vice-presidncia do senado at 1930. Foi tambm presidente do Conselho Penitencirio do Estado. A trajetria de Mota como docente da Faculdade do Largo So Francisco foi marcada justamente pela difuso das idias da Antropologia Criminal em So Paulo, no contexto da Primeira Repblica. O interesse pelas novas idias penais manifestou-se, entretanto, mais cedo na carreira de Mota, pois, nos relatrios apresentados quando ocupava o cargo de promotor pblico na capital do Estado, j empregava as noes da escola positiva para analisar as estatsticas criminais e antever as possveis tendncias da criminalidade na capital e no Estado de So Paulo. Por exemplo, em seu relatrio do ano de 1894 (MOTA, 1895), Mota faz observaes acerca dos problemas da ordem pblica na capital do Estado, preocupando-se no apenas em identificar as condutas que mereceriam uma ao preventiva do Estado como a mendicidade, a vadiagem e a prostituio , mas70

igualmente procurando as causas do incremento da criminalidade a partir dos fatores climticos, raciais, sociais e individuais que estariam na origem dos crimes. Entre estes diversos fatores, Cndido Mota ressalta o papel das caractersticas raciais, mostrando sua preocupao com a corrente imigratria [...] grande parte da qual no escolhida, cheia de rebotalhos das populaes europias, e principalmente da Itlia do sul (MOTA, 1895, p. 30) , bem como enfatiza que os crimes contra a pessoa cometidos por pretos e pardos, embora sejam minoria, so revestidos de circunstncias horrorosas, o que revelaria o alto grau de perversidade dos autores. Este interesse de Cndido Mota em relao aos novos conhecimentos penais levou-o, posteriormente, elaborao de um trabalho mais terico, que apresentou perante a Faculdade de Direito para disputar o lugar de substituto da cadeira de direito penal. O livro, intitulado Classificao dos criminosos e reeditado em 1925, foi considerado um importante momento na divulgao da escola positiva no Brasil. No prefcio dessa reedio, Cndido Mota agradece a boa recepo obtida na poca pelo texto original, que teria sido elogiado, no Brasil, por Nina Rodrigues, Clvis Bevilqua e Afrnio Peixoto, entre outros, e tambm no exterior, onde se destacaria a citao de Ferri e do prprio Lombroso (MOTA, 1925, p. 6). No mesmo prefcio, Cndido Mota lamentava, no entanto, no ter podido aprofundar seus estudos na rea penal devido a sua dedicao carreira poltica. Mas as idias da criminologia estaro presentes tambm num dos principais projetos que apresentou como deputado estadual, o da criao do Instituto Disciplinar. Este projeto est amplamente baseado nas concepes da escola positiva, tal como o autor as exps no texto anteriormente analisado. Numa publicao a respeito do projeto, editada em 1909, Cndido Mota apontava que a assistncia infncia desprotegida era prioritria frente s vrias categorias de infortunados, doentes, alienados, velhos, etc., devido ao perigo que ela representava enquanto elemento potencial de aumento da criminalidade. No projeto original por ele defendido, Cndido Mota prope assim a criao de um instituto correcional, industrial e agrcola para menores moralmente abandonados do sexo masculino. Neste instituto, seriam feitos diagnsticos completos dos internos, que seriam fotografados, examinados por mdicos e sujeitos s medidas antropomtricas, bem como o juiz que encaminhasse o menor infrator deveria enviar ao instituto informaes da natureza do crime cometido e suas circunstncias, antecedentes do detido e de seus parentes, para assim poder estabelecer um diagnstico completo das condies fsicas, intelectuais e morais do interno e de sua famlia. Era prevista tambm a vigilncia policial que acompanharia com discrio os menores que obtivessem livramento condicional. Esta preocupao com o conhecimento do menor, o carter preventivo e no-penal da instituio que no projeto inicial deveria se chamar Instituto Educativo Paulista e muitos outros aspectos do projeto esto inspirados nas concepes da escola positiva. O projeto de Cndido Mota foi aprovado, com modificaes, e convertido na Lei n 844, de 10 de outubro de 1902, e regulamentado pelo71

Decreto n 1.079, de 30 de dezembro do mesmo ano, que criou o Instituto Disciplinar. Como j mencionado, o senador Paulo Egdio apoiou a iniciativa, lembrando que o projeto era muito semelhante ao por ele anteriormente apresentado relativo criao de um Asilo Industrial, e elogiava o autor do projeto, [...] um dos raros moos brasileiros que se tem dedicado a esses altos estudos criminolgicos [...] (SO PAULO, 1903, p. 176). A criao do Instituto Disciplinar mostra, assim, como as teorias criminolgicas levavam o Estado a assumir funes alm daquelas previstas por uma concepo puramente liberal. O prprio Cndido Mota colocava esta questo em seu texto, ao afirmar que o Estado devia tomar a si a fundao de estabelecimentos destinados a prevenir e reprimir a criminalidade infantil (MOTA, 1909, p. 27). Contra aqueles que argumentavam que as escolas de preservao seriam apenas uma questo de beneficncia privada, Cndido Mota respondia que, sendo a conservao da ordem social uma atribuio do Estado, este deveria agir de maneira no apenas repressiva, mas tambm preventiva, enfatizando ainda as vantagens econmicas da preveno, uma vez que era muito mais fcil e menos dispendiosa a funo preventiva que a repressiva (MOTA, 1909, p. 32). O projeto do Instituto Disciplinar , deste modo, um interessante indicador da importncia que os novos conhecimentos penais adquiriram nas primeiras dcadas republicanas, mesmo que a instituio nunca tenha chegado a desempenhar o papel central no combate ao problema da infncia abandonada e delinqente, tal como queria Mota, j que a condescendncia, a priso sem processo [e] o procedimento repressivo idntico ao aplicado aos adultos continuaram a ser as formas bsicas de tratamento do menor (FAUSTO, 1984, p. 84). De qualquer modo, j no se tratava de uma instituio exclusivamente penal, mas uma instituio hbrida, voltada principalmente para a recuperao dos moralmente abandonados, que redimensionava as funes do Estado liberal frente ao problema da criminalidade nos grandes centros urbanos. Para perceber o carter inovador deste tipo de instituio, basta compar-la com a forma institucional voltada para a infncia pobre que a precedeu: a Roda dos Expostos. Trata-se de um mecanismo utilizado no Brasil colonial, por meio do qual as mulheres pobres abandonavam seus filhos, quando no podiam cri-los. Os asilos onde estas crianas ficavam recebiam o nome de Casa dos Expostos, Depsito dos Expostos ou Casa da Roda, e eram mantidos por entidades religiosas. Estas instituies eminentemente urbanas desempenhavam importante papel na regulao dos desvios da organizao familiar colonial, fornecendo tambm um tipo de assistncia s famlias pobres. A Roda e a forma de institucionalizao da infncia a ela relacionada entraram em crise ao longo do sculo XIX, principalmente devido s crticas que, partindo sobretudo dos higienistas, apontavam para os altos ndices de morte dos enjeitados. Vista tambm como incapaz de dar conta do aumento de crianas abandonadas verificado nas grandes cidades, a Roda acabou por tornar-se um exemplo negativo de72

institucionalizao da infncia abandonada, tendo sido formalmente extinta pelo Cdigo de Menores de 1927 (ALV AREZ, 1989). O Instituto Disciplinar, em contrapartida, desenhava um dispositivo institucional radicalmente diferente dos asilos dos expostos. A comear pela clientela, que no se reduz mais aos materialmente abandonados, mas que visa tambm os menores criminosos e todos aqueles que estejam em estado de abandono moral. Os objetivos perseguidos tambm so mais ambiciosos, pois se pretende que a instituio recupere e eduque moralmente os que esto sob sua tutela. Finalmente, com este tipo de instituio, o Estado assume para si a tarefa de dar assistncia a determinadas categorias da populao, sobrepondo-se assim benemerncia privada, responsvel pelas antigas Rodas. Diferentemente dos antigos depsitos de expostos, com o Instituto Disciplinar desenha-se plenamente um projeto de institucionalizao produtiva, voltado para a constituio de cidados moralizados e aptos para o trabalho. A Penitenciria do Estado, por sua vez, teria um papel muito mais relevante no sistema penal estadual, sendo que suas origens remontam ao projeto de reforma penitenciria proposto por Paulo Egdio, em 1896. A concretizao efetiva da instituio s ocorrer em 1920, o que demonstra sem dvida a distncia entre as utopias reformadoras dos juristascriminologistas e a viabilizao efetiva das reformas institucionais. Ainda assim, quando da citada inaugurao, a Penitenciria do Estado foi saudada pela imprensa da capital como um acontecimento de grande importncia social e poltica (SALLA, 1999). Portanto, se certo que, ao longo de toda a Primeira Repblica, estabelecimentos como o Instituto Disciplinar e a Penitenciria do Estado de So Paulo foram muito mais a exceo, frente ao quadro bem mais deprimente dos demais presdios brasileiros, no deixa de ser significativo que os mais modernos estabelecimentos penais da poca tenham sido viabilizados a partir da recepo das idias criminolgicas pelos juristas paulistas. Como afirma Garland (1985), a Criminologia, como conhecimento voltado para o estudo do criminoso, teve, como uma de suas condies de possibilidade, a existncia da priso como uma instituio disciplinar, voltada para a transformao dos indivduos. No Brasil, se as prticas punitivas na sociedade escravista do sculo XIX indicavam a impossibilidade de incorporao do modelo prisional panptico pois a aplicao indiferenciada do regime disciplinar a todos os indivduos nas prises era considerada inadequada pelos juristas, j que seria preciso modular a pena de acordo com a condio social do indivduo, devendo-se respeitar a hierarquia entre senhores, homens livres e escravos (KOERNER, 2006) , j na Repblica as concepes criminolgicas e a priso disciplinar podiam ser incorporadas aos ideais da elite, mesmo que o sistema penitencirio idealizado por Paulo Egdio nunca tenha sido plenamente concretizado e que as concepes da Criminologia tenham sido empregadas sobretudo para reinserir hierarquias de raa, gnero e classe no horizonte da igualdade republicana.73

A escola positiva e a medicina legal

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Pelo lado da Medicina Legal, como de resto sucedia, possvel tambm identificar uma migrao das idias do nordeste decadente ao cada vez mais preponderante centro-sul do pas. O mdico maranhense Nina Rodrigues, considerado o principal impulsionador da institucionalizao da Medicina Legal brasileira, foi quem difundiu as idias da criminologia cientfica no meio mdico. Apesar de haver trabalhado em So Lus e no Rio de Janeiro, foi em Salvador que Nina Rodrigues exerceu a principal parte de sua vida profissional. Mas seu conhecimento da escola italiana parece ter se dado via o debate que se travava no meio jurdico, principalmente aps a publicao de Nova Escola Penal, de Viveiros de Castro, em 1893 (CORRA, 1998, p. 88), como j referido. Sua decorrente identificao com a escola teria feito o prprio Lombroso cham-lo apstolo da antropologia criminal no Novo Mundo (CORRA, 1998, p. 82; HERSCHMANN, 1994, p. 50). A reputao que alcanou Nina Rodrigues e seu papel fundador da medicina legal brasileira7 o transformou em verdadeiro mito de origem. Seus seguidores passaram a reverenci-lo sistematicamente e a se auto-referirem como membros da Escola Nina Rodrigues, atitude que lhes conferia prestgio e legitimao profissional. Dois dos mais destacados membros da escola levariam essa filiao para o sul do pas: Afrnio Peixoto, para o Rio de Janeiro, e Oscar Freire, para So Paulo. No caso deste, sua vinda inauguraria um novo momento da Medicina Legal no Estado, catalisado a partir da criao da cadeira da disciplina na nova Faculdade de Medicina, e da fundao da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de So Paulo, arregimentadora do ncleo intelectual que organizaria e fortaleceria a influncia da Escola Positiva no meio cientfico brasileiro. A entidade foi criada em novembro de 1921. No Brasil, as iniciativas anteriores para congregar mdicos e juristas para discutir a criminalidade em uma mesma organizao foram poucas e efmeras.8 Nina Rodrigues foi tambm nisso o precursor, fundando uma entidade na Bahia em 1895, mas que sobrevivera apenas dois anos. Quase simultaneamente, em So Paulo nascia e desaparecia a Sociedade de Anthropologia Criminal, Sciencias Penais e Medicina Legal (FVERO, 1922, p. 151). No Rio de Janeiro, em 1897, foi fundada a Sociedade de Jurisprudncia Mdica e Anthropolgica, de existncia igualmente efmera (CARRARA, 1998, p. 177). Foi justamente Oscar Freire, ainda antes de vir para So Paulo, mas j como sucessor de Nina Rodrigues, quem retomou a iniciativa do6 A partir daqui, o presente texto uma verso adaptada de trechos da tese de doutoramento de Luis Ferla (2005a). 7 Nina Rodrigues empenhou-se particularmente no reconhecimento da figura do perito mdico-legista, contribuindo decisivamente para que a medicina legal se tornasse autnoma com relao medicina clnica (CORRA, 1998, p. 124). 8 As associaes e sociedades de medicina costumavam ter uma seo de medicina legal, mas que no inclua os bacharis (FVERO, FREIRE, 1922, p. 90-91).

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mestre, em 1914, fundando a Sociedade de Medicina Legal e Criminologia da Bahia (FVERO, 1922, p. 151). Sete anos depois, o mesmo professor estaria frente da criao da congnere paulista. Ambas representavam, quando isso acontecia, as nicas no Brasil dedicadas ao tema.9 Na verdade, o impulso decisivo para que se viabilizasse a Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de So Paulo veio justamente da referida organizao da cadeira de Medicina Legal na Faculdade de Medicina, inaugurada em abril de 1918 pelo mesmo Oscar Freire, trazido da Bahia para esta tarefa. A presidncia da nova entidade ficou com Alcntara Machado, cargo que este manteria at 1937, quando seria substitudo por Flamnio Fvero. Franco da Rocha foi indicado vice-presidente e Oscar Freire, o secretrio-geral. Alm do prestgio que tinha Alcntara Machado, como poltico e como professor da Faculdade de Direito, bem possvel que sua escolha tambm atendesse a objetivos diplomticos dos mdicos, que assim reforariam o carter misto da associao e minimizariam a desconfiana da ala jurdica da medicina legal paulista. Seria na esperada solenidade de instalao, em 15 de novembro de 1921, que as idias e teorias predominantes no meio iriam se manifestar, definindo os marcos iniciais de seu discurso, mas em linhas gerais destinadas a orientar a atuao da Sociedade por um longo perodo. Na sua fala inaugural, Alcntara Machado fez a apologia a Lombroso, que teria transformado o direito em cincia positiva, emprestando-lhe os mtodos da observao e da experincia (MACHADO, 1922, p. 13). Desde ento, a rea teria vivido verdadeira revoluo. A transferncia da nfase do crime ao criminoso parecia a ele j uma conquista consolidada, assim como a superao da concepo clssica que definia a pena conforme o delito: Quaisquer que sejam as nossas convices filosficas, todos ns sentimos que impossvel o regresso concepo antiga do delito, como simples entidade jurdica, e ao conceito anacrnico da pena inspirada exclusivamente na natureza do crime, sem ateno natureza do criminoso (MACHADO, 1922, p. 14). Partindo dessa base conceitual, Machado (1922) criticava a defasagem do acervo legal do pas, j que o Cdigo Penal de 1890 no a contemplava e permanecia preso aos preconceitos metafsicos e ultrapassados. Faltariam nele a individualidade da pena, a condenao condicional e as medidas de segurana (MACHADO, 1922, p. 15). A reforma das leis penais viria a ser uma das principais reivindicaes dos positivistas, no Brasil e em vrios outros pases. Na Sociedade de Medicina Legal e Criminologia, ela seria reafirmada com muita pertincia, presso que contribuiria por fim para a promulgao do novo Cdigo em 1940 e que influenciaria no seu contedo, como veremos mais adiante. Por outro lado, Machado tambm criticava a precariedade do conhecimento da criminalidade no Brasil, particularmente por conta da lacuna do estudo do criminoso. Enfim, o primeiro presidente da Sociedade9 Os paulistas no consideravam congnere a Sociedade Brasileira de Neuriatria, Psychiatria e Medicina Legal, fundada no Rio de Janeiro por Afrnio Peixoto e Juliano Moreira, na avaliao deles mais voltada neurologia e psiquiatria, sem priorizar a medicina legal (FVERO, 1922, p. 152; SOUZA, 1922, p. 23-24).

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deixava desde logo bem claro que a entidade chegava para contribuir na aplicao do programa positivista, principalmente na luta pela reforma da legislao penal e no aprimoramento do conhecimento cientfico sobre o criminoso. Outro momento importante para o reconhecimento das afiliaes tericas da Sociedade se deu em 1929, quando da morte de Enrico Ferri. O jurista italiano fora um dos principais discpulos de Lombroso e expoentes da Escola Positiva. Como Lombroso, foi militante socialista, chegando nesta condio ao parlamento. Por muitos anos foi editor do jornal Avanti, porta-voz do Partido Socialista. Com a ascenso de Mussolini ao poder, Ferri aderiu aos vitoriosos, tornando-se fascista at seus ltimos dias. Sua principal obra foi Sociologia criminal, publicada em 1884 e vista por muitos como uma relativizao das teses mais biologicizadas de Lombroso. De qualquer forma, Ferri foi um pertinaz opositor da Escola Clssica e um entusiasta da transformao do direito penal em cincia experimental. Em 11 de maio de 1929, um ms depois da morte de Ferri, a Sociedade organizou uma solenidade em sua homenagem no Teatro Municipal de So Paulo. O local escolhido j d suficiente idia da importncia que a entidade atribua ao evento. Mais do que isso, a mensagem embutida era a de que o fato do desaparecimento do eminente jurista extrapolava no apenas as fronteiras italianas, mas tambm as da criminologia e do direito penal, afetando a sociedade como um todo. Ou, ao menos, a parte dela mais culta e preocupada com seus problemas e seus destinos, justamente o extrato social acostumado a freqentar o Teatro Municipal. Na solenidade, as oraes todas enalteciam a obra de Ferri e principalmente os avanos da Escola Positiva. Alcntara Machado, em seu discurso, mais uma vez demonstrava sua firme confiana na generalizao das vitrias positivistas. Alm de auferir o mrito a Ferri, e apesar de enfatizar o carter irresistvel das transformaes, o autor deixava transparecer a existncia de opositores s novas idias, conferindo assim um carter um tanto militante ao evento: Se hoje em dia, quaisquer que sejam as nossas convices filosficas, todos ns sentimos que impossvel considerar o delito como simples entidade jurdica, o criminoso como abstrao, a pena como retribuio do mal sofrido pela sociedade, o juiz como distribuidor automtico das sanes encartadas nos descaminhos do Cdigo, a Enrico Ferri que devemos essas conquistas definitivas. Definitivas, sim. Apesar do descrdito lanado sobre a escola positiva pelos exageros de alguns de seus adeptos, a orientao que ele imprimiu luta contra a delinqncia to racional e to conforme s necessidades e ao esprito do nosso tempo, que, pouco a pouco, as novas idias se vo infiltrando na conscincia jurdica de todos os povos, e triunfam na legislao de todo o mundo ocidental. Assim, a condenao e o livramento condicionais. Assim, os tribunais para menores. Assim, os manicmios judicirios.76

Assim, a individualizao e indeterminao da pena, as medidas de segurana e transformao do crcere na penitenciria, isto , em oficina de homens, escola de reeducao e redeno moral. (MACHADO, 1929, p. 148) Poucos anos depois, quando convocado a escrever um anteprojeto para o novo Cdigo Penal, Machado teria a oportunidade de concretizar em proposta de texto legal vrias dessas idias. Mas o ato do Teatro Municipal deixa patente outra certeza. Ao contrrio de suas antecessoras, a Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de S. Paulo havia vingado. Mais que isso, entraria na dcada seguinte com grande vitalidade. Com exceo de alguns perodos de inatividade na dcada de 1920, nos anos de 1923, 1925 e 1926, ao longo de todo o perodo estudado a entidade manteve regularmente seu funcionamento, atingindo amplamente os objetivos a que se propusera em sua sesso inaugural. Foram organizados diversos eventos de carter cientfico, um nmero considervel de trabalhos foi apresentado em suas sesses e em sua revista, que por sua vez manteve existncia regular, e muitas de suas propostas extrapolaram o meio e tiveram repercusso social. Com relao ao nmero de scios, natural que o entusiasmo da fundao no perdurasse com a mesma intensidade no cotidiano da Sociedade ao longo dos anos. Se 191 nomes estiveram dispostos a assinar os seus estatutos em 1921, em seu aniversrio de 15 anos apenas 68 scios contribuintes estavam registrados (ASSEMBLIA..., 1937, p. 102). Mas, apesar disto, o quadro associativo parece ter aumentado continuamente, pelo menos o que indicam os dados disponveis. De 68 scios em 1936, passou para 81, em 1937 (ASSEMBLIA..., 1937, p. 102), 90 no ano seguinte (ASSEMBLIA..., 1938, p. 134), 106 em 1943 (SCIOS..., 1943), e 118 em 1945 (SCIOS..., 1945). Em 1937, no mesmo balano de 15 anos de existncia, a Sociedade contabilizou um total de 171 trabalhos cientficos, apresentados em 143 sesses (FVERO, 1936, p. 150), numa mdia de 11,5 trabalhos e 9,5 sesses ordinrias por ano. No perodo restante, de 1937 a 1945, essa mdia subiu para mais de 20 e mais de 15, respectivamente.10 Todos estes nmeros indicam um robustecimento crescente da Sociedade e de suas atividades ao longo do perodo, marcadamente nas dcadas de 30 e 40. Parte do aumento da produo cientfica pode ser atribuda criao das sees especializadas da Sociedade, a partir do ano de 1932. At ento, em 10 anos, haviam sido discutidos em plenrio 69 trabalhos. Apenas nos quatro anos seguintes 102 trabalhos foram apresentados (FVERO, 1936, p. 150). relevante tambm fazer uma anlise qualitativa de tal produo. Em dez anos de existncia, os assuntos que mais ateno receberam nas reunies da entidade foram: a reforma do Cdigo Penal; o valor da prova10 A partir dos dados dos relatrios anuais de 1938, 1939, 1940, 1941 e 1945 (ver as edies dos Arquivos dos respectivos anos).

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testemunhal; o mdico e a responsabilidade dos criminosos; e a percia das armas de fogo (FVERO, 1936, p. 150). Com exceo do ltimo, todos temas de relevncia estratgica para a Escola Positiva. A reforma do Cdigo ento j se constitua em reivindicao histrica. A prova testemunhal estava sob permanente desconfiana e era sistematicamente desqualificada pelos criminologistas. Da mesma forma que o tribunal do jri, este era um tema que confrontava a autoridade da cincia com o impressionismo do mundo leigo. Finalmente, a questo da existncia da responsabilidade do criminoso e, por conseguinte, da pertinncia ou no da idia de livre-arbtrio estava no cerne mesmo das concepes positivistas. No balano das atividades de 1936, quando tratava dos assuntos considerados mais relevantes, o secretrio geral adicionava a esses o tema da infortunstica. A importncia que a racionalizao do trabalho ganhava no meio mdico-legal levaria a Sociedade a organizar um congresso especfico sobre o tema, o primeiro do gnero no Brasil, em 1940. A impregnao de determinismos biolgicos em reflexes sobre o mundo do trabalho merece, por si mesma, ateno mais detida dos pesquisadores.11 A recorrente associao entre crime e acidente, e entre criminoso e acidentado, por exemplo, bastante significativa dessas simbioses disciplinares e discursivas. J no relatrio de atividades da Sociedade do ano de 1938, aparecia pela primeira vez o homossexualismo como um dos temas mais privilegiados e discutidos (SESSO..., 1938, p. 154). Associada patologia e periculosidade social a um s tempo, a homossexualidade ainda se prestava particularmente bem ao papel de objeto de determinismos biolgicos, por isso tudo interessando a Escola Positiva de maneira especial.12 Em 1941, por exemplo, a Sociedade premiava o trabalho Consideraes em torno de uma nova classificao de missexuais, de Slvio Marone (1945), professor assistente da Cadeira de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. Assim, a anlise do percurso da entidade no perodo em questo permite reconhecer a presena e a vitalidade do discurso positivista naquele meio, j atestadas quando da fundao da entidade. Ainda que daquela j distante sesso inaugural em 1921 at a concesso do prmio a Slvio Marone, em 1945, muita coisa tenha se transformado nas teorias da Escola Positiva, notadamente o crescimento da influncia da psiquiatria, mantiveram-se inalteradas a insistncia no estudo e na classificao dos criminosos, a idia da patologizao do ato anti-social, a defesa da individualizao e da indeterminao da pena e a confiana ilimitada na viso cientificista da criminologia. De uma forma geral, a Sociedade cumpriu um papel fundamental nas conquistas que a Escola Positiva pde comemorar ao longo de todos aqueles anos, e foi justamente seu alinhamento decidido em defesa de suas teses que possibilitou que isso acontecesse. Cabe, portanto, buscar os possveis deslocamentos do plano discursivo e retrico das principais teses da Escola Positiva para o nvel da realidade concreta.11 Uma tentativa de colaborar para isso est em: FERLA (2005b). Sobre a racionalizao cientfica do trabalho em So Paulo, ver: ANTONACCI (1993). 12 Sobre isso, ver: FERLA (2004); para uma abrangente anlise da histria do homossexualismo no Brasil, ver GREEN (1999).

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Institucionalizao e conquistasA impregnao dos determinismos biolgicos no pensamento e na prtica mdico-legais no perodo estudado permitia e mesmo demandava uma atitude propositiva e reivindicativa dos profissionais da rea. Sua amplitude buscava ultrapassar os limites das instituies carcerrias. Se os corpos anmalos podiam ser corpos de potenciais criminosos, cabia ao olhar especializado da medicina legal e da criminologia identific-los em meio multido e destin-los a tratamento adequado. Essa estratgia de controle social deveria ser aceita na perspectiva da preveno ao crime e da defesa da sociedade. Assim, o programa ideado continha o conjunto de reivindicaes de poder-saber da categoria, destacando-se a busca de prerrogativas, a criao e consolidao de instituies e principalmente a ampliao generalizada do direito de examinar, entendido aqui tanto como estratgia de sujeio e controle social, como tambm de construo do conhecimento cientfico e de legitimao profissional. Dos ncleos de profissionais congregados ao redor do ensino acadmico, da Sociedade de Medicina Legal e de sua revista, de resto praticamente coincidentes, surgiram as principais discusses e as propostas mais importantes na busca da implementao do referido projeto biodeterminista. Por exemplo, originou-se de tais articulaes profissionais, institucionais e doutrinrias a proposta de criao do Manicmio Judicirio de So Paulo. Nominalmente, um Manicmio Judicirio tem a funo de recolher insanos que cometeram crimes, ou sentenciados que enlouqueceram na priso. possvel identificar na consolidao desta instituio uma ntida conquista do programa da Escola Positiva, que subsiste at os dias atuais. Sua insero no aparato repressivo permitiu um salto de qualidade na busca da individualizao e da indeterminao da pena. Na verdade, a medicalizao das condies e da durao da pena encontrou no interior dos seus muros sua mais acabada expresso. Neste sentido, o Manicmio Judicirio representaria o paradigma penitencirio para aqueles mais convictos dentre os positivistas. O primeiro Manicmio Judicirio do pas foi criado em 1921, em sua capital.13 Uma grande rebelio no Hospcio Nacional foi o estopim para se decidir criar uma instituio que abrigasse os internos mais perigosos. Em 27 de janeiro de 1921, o Hospcio foi semi-destrudo por uma revolta liderada pelos internos na Seo Lombroso, destinada justamente aos loucos de maior periculosidade. Apenas com a interveno policial a situao foi controlada. Menos de trs meses depois, era lanada a pedra fundamental do Manicmio Judicirio do Rio de Janeiro. A inaugurao se deu em 30 de maio de 1921, com a presena do ministro da Justia Alfredo Pinto e de representantes do Presidente da Repblica, Epitcio Pessoa (CARRARA, 1998, p. 193-194; ANTUNES, 1999, p. 114-115).13 Para uma anlise do processo histrico que deu origem ao Manicmio Judicirio do Rio de Janeiro, ver CARRARA (1998).

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Em So Paulo, o Senador Alcntara Machado, poca tambm presidente da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia, apresentou um projeto de lei em 13 de dezembro de 1927, propondo a criao local do Manicmio Judicirio (MANICMIO..., 1927, p. 173). Havendo transitado rapidamente no Legislativo do Estado, o projeto se transformaria em lei em 26 de dezembro daquele ano. No entanto, a inaugurao e a conseqente transferncia dos criminosos alienados e dos alienados criminosos de um pavilho do Hospcio do Juquery para as novas instalaes s teriam lugar em dezembro de 1933 (WHITAKER, 1937). De forma geral, o manicmio judicirio representava a viabilizao de parte do programa positivista no apenas naquilo que ali se referia manipulao mdica da pena, mas tambm a uma reivindicao que vinha dos tempos de Lombroso e de seu criminoso nato: a seqestrao e o isolamento radical e perptuo dos indivduos considerados incorrigveis, nos interesses da segurana pblica. Essa proposta, por muitos considerada uma alternativa mais humana pena de morte, evidentemente reforava a retrica positivista no que ela tinha de preocupada com a defesa social. Em certo sentido, o fortalecimento da nfase do discurso nessa direo foi um mecanismo de defesa contra a decadncia da Escola, acusada historicamente de facilitar a impunidade criminal. Para Ruth Harris, a associao entre impunidade e interveno mdica nos tribunais tivera seu incio na segunda dcada do sculo XIX, na Frana, quando um grupo de mdicos defendeu vrios rus acusados de crimes brutais, como assassinato, canibalismo, estupro e mutilao (HARRIS, 1993, p. 14). Alegando monomania, uma modalidade de distrbio mental que s se expressaria em relao a um objeto ou atividade, os mdicos reivindicavam a absolvio dos acusados. Houve firme contestao dos juristas, alarmados tanto pela impunidade sugerida a crimes to repulsivos quanto pela intromisso alheia em seu ofcio. A partir de ento, a crtica utilizao de determinismos biolgicos nas salas dos tribunais freqentemente passava pelo receio de maior impunidade que supostamente acarretaria (HARRIS, 1993, p. 130). O discurso positivista, e por conseguinte seu programa de interveno social, sempre oscilou entre dois plos: de um lado, a retrica humanista de regenerao do delinqente, em ltima anlise irresponsvel pelos seus atos e indigno de castigo; e de outro, a reivindicao de mecanismos mais eficientes de defesa da sociedade, que possibilitassem a excluso do convvio social de indivduos perigosos, sem as incmodas restries impostas por acervos legais impregnados de concepes liberais. Toda vez que o pndulo transitava nesse segundo extremo, as possibilidades de acordo e de aceitao das teses positivistas ampliavam-se. Em outras palavras, toda vez que o discurso positivista se mostrava persuasivo no que dizia respeito ao combate criminalidade e desordem social, ganhava adeptos e respaldo social. Com relao a isso, possvel identificar um ponto de inflexo com a criao dos manicmios judicirios. Antes deles, o fantasma da impunidade acompanhava sempre a tese positivista da negao do livre80

arbtrio e da conseqente irresponsabilidade dos criminosos. O temor daqueles obcecados com a segurana da sociedade era tanto maior quanto mais se sabia serem os elementos mais perigosos justamente os mais aptos ao diagnstico de irresponsabilidade. Resolver o inaceitvel paradoxo de inocentar os mais brbaros criminosos e no ser capaz de oferecer a eles um destino institucional adequado e seguro era o papel central destinado aos manicmios judicirios. No entanto, no se pode negligenciar o carter essencialmente ambguo desse tipo de instituio. Pelo contrrio, foi justamente essa sua caracterstica ambivalente entre priso e hospital que facilitou sua consolidao histrica, como bem demonstra o estudo de Srgio Carrara (1998). O delinqente de alta periculosidade, estigmatizado na figura do degenerado, representava a um s tempo um embarao jurdico e um temor social. Ele mesmo um ser ambguo, entre o criminoso e o louco, no tinha na priso e no hospcio o seu locus conveniente, e sua livre movimentao pela sociedade era considerada a mais inaceitvel das alternativas. Alm disso, o Manicmio Judicirio surgiu tambm como a acomodao possvel entre as concepes clssicas e positivistas, ao reconhecer a ambigidade inerente entre o louco que agia por imposio de sua anormalidade biopsquica, carente de tratamento, e o criminoso que exercitava seu livre-arbtrio quando praticava o ato anti-social, merecedor, portanto, de castigo e punio. Como diz Carrara (1998, p. 195-199), essas ambigidades representaram a fora e a fraqueza dos manicmios judicirios desde seu surgimento at os dias atuais. Elas, na verdade, esto por trs dos complexos dilemas colocados ao funcionamento cotidiano dessas instituies, via de regra fracassadas tanto como prises quanto como hospitais. Mas, por outro lado, justamente tal ambivalncia que contribuiu para a resoluo dos impasses e inconvenincias que se acumulavam no sistema jurdicopenal, perigosamente prximo paralisia quando defrontado com a figura incmoda e assustadora do criminoso degenerado. No nos parece nem um pouco problemtico considerar desde essa perspectiva a criao e o funcionamento do Manicmio Judicirio de So Paulo, pelo menos dentro do perodo de que nos ocupamos na presente investigao. Idealizado e proposto pelos adeptos da Escola Positiva, e comemorado como uma conquista decisiva de seu programa14, sua viabilizao certamente deveu-se tambm ao consentimento de seus adversrios clssicos, de alguma forma aliviados pelo depuramento da penitenciria de seu pblico mais ostensivamente anormal e patolgico, procurando com isso esvaziar os reclamos positivistas que buscavam dar s prises feies de hospital. Por cima de tais dissenses doutrinrias, havia ainda o decisivo alvio de amplos setores da sociedade, tranqilizados com a perspectiva de que os criminosos mais brbaros seriam por fim retirados do convvio pblico e destinados a instituies adequadas pelo resto de suas vidas.14 Edmur de Aguiar Whitaker (1937, p. 484) chegou a consider-lo o coroamento da orientao de Lombroso.

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J no que se refere busca de uma modernizao do acervo legal do pas, em direo a uma maior representao das doutrinas do positivismo penal, o balano permanece parcial, mas com vitrias bastante significativas. Em vrios sentidos, os institutos da liberdade condicional e das medidas de segurana atenderam a reivindicaes da Escola e possibilitaram a concretizao de partes importantes de seu programa. O novo cdigo penal de 1940 reconhecia a necessidade da determinao da periculosidade do delinqente para a deciso do livramento condicional. A noo de predisposio medicamente determinada, enquanto caracterstica definidora da tendncia a cometer crimes, coroava os esforos da criminologia positivista para deslocar as perspectivas jurdicas do crime para o criminoso. Da que o diretor do laboratrio de antropologia criminal da Penitenciria do Estado declarasse, logo aps a entrada em vigncia do novo Cdigo, que um indivduo que cometesse um crime no deveria ser considerado um criminoso, caso declarado ausente de periculosidade (TELES, 1943, p. 108). Enfim, o instituto da liberdade condicional cumpriu o papel ttico de viabilizar parcelas de indeterminao da pena. No entanto, por esse dispositivo, possibilitava-se apenas a diminuio da pena, fazendo que a almejada indeterminao operasse apenas num sentido. Os indivduos considerados no perigosos deveriam ser postos em liberdade antecipadamente. Mas aqueles que permanecessem perigosos at o fim da pena, que destino deveriam ter? Pelas concepes clssicas de responsabilidade moral e de modulao da pena pelo crime, deveriam ganhar as ruas. Pelas concepes positivistas, deveriam permanecer encarcerados enquanto sua molstia persistisse, em nome da defesa social e da prpria regenerao do criminoso. O Cdigo Penal de 1940, por meio das medidas de segurana, abriria as portas para a viabilizao da segunda alternativa, prescrevendo a indeterminao da pena tambm no sentido contrrio, pela primeira vez permitindo o aumento do tempo da seqestrao, quando isso fosse considerado necessrio. Na exposio de motivos que introduzia o novo Cdigo, enfatizavase a diferena entre pena e medida de segurana. Enquanto aquela teria carter repressivo, condicionada principalmente pelo delito cometido, esta seria uma medida de preveno e assistncia social, e seria estabelecida em conformidade com a periculosidade do indivduo em questo. Por isso, no possuiria durao determinada, prolongando-se enquanto durasse o estado perigoso, como estabelecia o artigo 88 (FVERO, 1945, p. 374). Neste sentido, as medidas de segurana representavam mais um avano da sobreposio do princpio da culpabilidade pelo da periculosidade. Da que as metforas mdicas tambm servissem para a defesa das medidas de segurana, fazendo aluso incongruncia de se pr-definir o perodo de tratamento em funo da doena-crime, e no o condicionando individualidade do paciente-criminoso, nos mesmos termos utilizados para tratar do livramento condicional, apenas com sinal trocado. Flamnio Fvero (1944, p. 336), ento diretor da Penitenciria do Estado, no deixou de abordar as medidas de segurana desde tal perspectiva:82

No presdio, que um hospital de feio toda prpria, [os readaptveis] recebem o tratamento que a pena faculta, atendendo ao seu aspecto nitidamente pessoal. O tempo para isso varivel. Quase como na teraputica mdica. H doentes e no doenas. Em regra, o Cdigo prescreve o mximo necessrio para a readaptao do delinqente, podendo este mximo ser alargado ainda, se necessrio, por medidas de segurana. De forma geral, as medidas de segurana podem ser consideradas como parte do esforo positivista em busca do enquadramento de indivduos e grupos sociais que se encontravam fora do alcance das leis penais. Representavam, portanto, uma aproximao do limite da lei ao limite da norma. Nesse sentido, muitos identificaram no novo dispositivo uma excelente oportunidade para capturar de forma mais consistente e legalmente respaldada a enorme populao de delinqentes de pequenos delitos: punguistas, arrombadores, vigaristas, mendigos e vadios (SILVA, 1945, p. 168). Abria-se assim a possibilidade legal de internamento de longa durao de todos aqueles que obstinavam em no se integrar ao mundo do trabalho, e que at ento logravam ludibriar o sistema repressivo por conta da difcil comprovao de seus delitos. Dessa forma, as medidas de segurana representaram um aumento formidvel do poder de arbtrio da polcia no reordenamento das leis penais do pas. Por isso, para Mariza Corra (1998) elas seriam antes de tudo mecanismos de defesa da ordem poltica e social repressiva instaurada em 1937 com o Estado Novo. De fato, como Elizabeth Cancelli (1993, p. 22) insiste em sua reflexo sobre a polcia da Era Vargas, essa era justamente a principal instituio de sustentao do regime, e faz sentido que o Cdigo Penal de 1940 lhe aprimorasse a capacidade de interveno. A relao das medidas de segurana com Estados autoritrios confirmada pelo fato de que o modelo seguido pelo Brasil veio do Cdigo Penal da Itlia fascista, promulgado em 1931 (WHITAKER, 1941, p. 233). Ricardo Campos, Rafael Huertas e Jos Martnez fazem a mesma associao quando analisam a Espanha, exemplificando com a implementao das medidas de seguridad naquele pas em 1928, durante a ditadura de Primo de Rivera (CAMPOS MARN, MARTNEZ PREZ, HUERTAS, 2000, p. 112).

ConclusoPelo que foi visto, as idias biodeterministas da Criminologia lombrosiana exerceram forte influncia entre juristas e mdicos paulistas ao longo de muitas dcadas. Parte deste sucesso, sem dvida, se deve aos deslocamentos e mutaes nas prticas de punio da modernidade, j identificadas por autores como Foucault. Mas o discurso positivista encontrou no Brasil e tambm em So Paulo um ambiente ideolgico particularmente favorvel.83

Pode-se argumentar, no entanto, que o programa-utopia da Escola Positiva ficou pelo caminho pois, ao fim e ao cabo, o juiz no foi substitudo pelo mdico no tribunal, a indeterminao absoluta da pena no foi alcanada, os laboratrios de antropologia criminal no cobriram todo o aparato repressivo, a generalizao do direito de examinar, que no limite visava toda a sociedade, ficou muito aqum disso. Talvez a comprovao mais significativa do quo distante de seus objetivos utpicos ficaram os positivistas esteja no fato de que a percepo social sobre a priso jamais aproximou-a da imagem de um hospital. No entanto, a recepo e a circulao social dessas idias representaram um fenmeno de profundas conseqncias para a sociedade brasileira. Alm de conformarem as percepes durante muitas dcadas dominantes nos campos da Criminologia e da Medicina Legal no pas, o projeto positivista desempenhou papel de vetor orientador das aes dos setores das elites envolvidos na modernizao das instituies penais locais. Estabelecimentos como o Instituto Disciplinar e a Penitenciria do Estado foram apresentados como instituies modelares, construdos de acordo com os preceitos da Criminologia. Por sua vez, por trs da criao do Manicmio Judicirio, vislumbrava-se igualmente um avano da medicalizao da pena e da futura transformao da penitenciria em hospital. Com o livramento condicional e as medidas de segurana, deixava-se entrever uma maior indeterminao medicalizada da pena. E assim se dava tambm com a criao dos laboratrios de antropologia criminal e demais instituies relacionadas com a generalizao do direito de examinar e com o aprimoramento do conhecimento cientfico na rea, sempre considerados pelos positivistas como pouco mais que modelos para um futuro ainda a ser conquistado. Na atualidade, encontramos ecos de muitas das discusses realizadas pelos criminologistas na virada do sculo XIX para o XX. Assim, em termos do debate criminolgico (GARLAND, 1999), por um lado, ganha fora uma nova Criminologia do eu ou uma Criminologia da vida cotidiana, que v o crime como um fato normal e o criminoso como um agente racional, uma espcie de consumidor racional, sendo o crime um aspecto trivial da sociedade contempornea, um risco que deve ser calculado ou um acidente a ser evitado. Mas, por outro lado, reaparece uma Criminologia do outro, cuja matriz ltima lombrosiana, e que retoma a idia de que o criminoso uma espcie de monstro, totalmente diferente do indivduo no-criminoso. E, mesmo em outros mbitos de debate, percebe-se o renascimento dos determinismos biolgicos, em princpios do sculo XXI. Cabe, deste modo, anlise histrica e crtica colocar em perspectiva tais debates contemporneos. Participar da tarefa de dar a conhecer que muito do que hoje se diz e se faz nesse campo, j se disse e j se fez em outro tempo, uma atividade crescentemente imprescindvel.84

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Revistas mdicas paulistas e a nova realidade republicanaMrcia Regina Barros da Silva1 Em nota preliminar a seu mais famoso livro, Euclides da Cunha inicia sua denncia dos crimes cometidos em Canudos: Intentamos esboar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traos atuais mais expressivos das sub-raas sertanejas do Brasil. E fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexo de fatores mltiplos e diversamente combinados, aliada s vicissitudes histricas e deplorvel situao mental em que jazem, as tornam talvez efmeras, destinadas a prximo desaparecimento ante as exigncias crescentes da civilizao e a concorrncia material intensiva das correntes migratrias que comeam a invadir profundamente a nossa terra. (CUNHA, 2002, p. 17) A singularidade da descrio no esconde, antes anuncia uma especificidade coletiva que j se encontrava espraiada sobre o territrio brasileiro nas primeiras dcadas republicanas. s ordens de exigncias crescentes da civilizao e da concorrncia material, Euclides anunciava demandas que sua gerao construiu e vivenciou como aspiraes de um progresso que transformasse e modernizasse a nova sociedade burguesa de ento (SANTANA, 2001). No editorial da Revista Mdica de So Paulo, cujo primeiro nmero circulou em maio de 1889, reveladora a semelhana com a idia civilizacional que a apresentao de Euclides sugeria. Na revista podemos verificar a indicao das mesmas condies de progresso material, sinais de civilizao e modernidade, para qualificar o estado de So Paulo. A mesma crtica situao mental das sub-raas sertanejas do Brasil que Euclides fazia nos Sertes, em So Paulo aparecia como um julgamento depreciativo do nvel moral e intelectual da classe mdica brasileira. Tanta semelhana vale outra citao: A necessidade de uma revista cientfica, de h muito reconhecida entre ns, torna-se cada vez mais urgente, atentas as circunstncias de progresso social que tem tido esta provncia. O desenvolvimento material, o aumento de riqueza pblica e particular, tem marchado1 Professora do Departamento de Histria da FFLCH-USP, na rea de Histria das cincias. Pesquisadora de produtividade do CNPq.

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em progresso por demais rpida; o nvel moral e intelectual conserva-se em quase no antigo grau de muitos anos passados. Pode-se aplicar a verdade da lei fisiolgica, o desenvolvimento exagerado de um rgo e funes, prejudicando outros. [...] A classe mdica brasileira sofre de um grave mal, que a torna fraca, no tendo o papel que deveria representar, nem a influncia a que tem direito na nossa sociedade: a pouca fraternidade que existe entre seus membros, e o estado quase constante de agresso que predomina entre eles. (Revista Mdica de So Paulo, no. 1, vol. 1, maio de 1889) O que est em questo nesses dois textos uma mesma apreenso da realidade brasileira ao lado de uma provvel diferena nas conseqncias que cada parte imprimir s suas aes. A gerao de 1870 idealizou as reformas que a Repblica no implantou na direo esperada: riquezas e oportunidades no chegavam a todos, a cidadania faltava maioria, analfabeta e miservel. Alguns, como o prprio Euclides, foram responsveis por revelar o desalento e abandono do Brasil profundo (SEVCENKO, 2003), vtima de um nacionalismo ornamental (CANDIDO, 1995) que havia apagado grandes contingentes de cidados, excluindo-os da ordem primeira da nao. Por outro lado, neste mesmo momento, os males sociais verificados nas grandes cidades - insalubridade, endemias e epidemias, alm da falta de qualidade dos produtos de abastecimento passavam a ganhar controle mais eficiente. Ressalta-se com isso que, mesmo em um momento de to graves incertezas, o conhecimento cientfico e tecnolgico apresentou participao decisiva na conduo do pas a uma ordem liberal apropriada s condies tropicais. Os mdicos foram responsveis por grande parcela dessa nova organizao (BOMENY, 1993; BENCHIMOL, 1999). A ampliao da interveno estatal pelo territrio e pela sociedade foi o resultado do processo de criao de um Estado-nao moderno, desenvolvido a qualquer custo (CASTRO-SANTOS, 1985; HOCHAMN,1998). Com a bandeira da Regenerao Nacional, o saneamento mdico e a higienizao das cidades assentavam-se sobre um amalgama cientfico. Em So Paulo esse processo correspondeu institucionalizao da sade, comandada por mdicos que desempenhavam tanto funes administrativas como de pesquisa cientfica (MASCARENHAS, 1949; RIBEIRO, 1993; SILVA, 2004). Sob esta perspectiva possvel perceber mudanas importantes no trabalho mdico e nas questes referentes sade nesse incio de administrao republicana. Nesta avaliao, penso poder indicar que a ao da Medicina deve ser vista tambm como uma atividade intelectual em que as anlises e as propostas efetivadas por seus agentes, naquele perodo especfico da histria90

poltica brasileira, propunham-se a apreender a construo de uma nova organizao poltica e social a partir do ponto de vista da sade paulista. Em segundo lugar, acredito poder indicar aqui que o trabalho cientfico efetivado por um grupo especfico de mdicos, relacionado com os principais servios de sade da cidade, estava sendo, por sua vez, atravessado pela identidade moderna, fragmentria e industrial com que So Paulo se organizou a partir do sculo XX (MORSE, 1954; SEVCENKO, 1998, 1992), com conseqncias diretas para o nosso entendimento das aes de sade e produo de conhecimento empreendidas por tal grupo. Minha perspectiva aqui a de que as transformaes que caracterizaram a sociedade brasileira e paulista de modo mais amplo efetivaram-se de maneira eficaz e eficiente, em grande parte apoiadas nas modificaes propostas pela ao da medicina e de alguns de seus representantes. Do meu ponto de vista, tal grupo, ao se obrigar a um dilogo constante com os problemas da nao, com promessas de ateno sade, pblica e individual, inaugurava aes de combate s doenas, ao mesmo tempo em que construa novas formas de insero da linguagem cientfica no cotidiano da sociedade. A cincia em plena ascenso se constituiria por meio das atividades relacionadas sade tambm como um campo pedaggico da funo modernizadora da repblica, e fornecia ao mesmo tempo recurso para a construo do mundo industrial que se insinuava.

Revistas mdicas paulistasA historiografia tem possibilitado um quadro amplo de anlises dos processos sumariamente mencionados acima. Em graus variados diferentes aspectos da implantao da Repblica, embates polticos, questes de sade e sistemas culturais foram j avaliados (CASTROSANTOS, 1993; CARVALHO, 2001). O universo da cincia faz parte, quase constantemente, do panorama mais geral de explicaes sobre o que se transformava no perodo. A dinmica das sensibilidades, principalmente urbanas (BRESCIANI, 1984-1985), mas no apenas, se alterava sob a convergncia de invenes e descobertas tecno-cientficas. Assim se torna possvel indicar que a produo mdico-cientfica realizada em So Paulo apresentava um carter peculiar, dadas as condies de crescimento socioeconmico e o papel que a sade pblica desempenhou no seu processo de urbanizao (TELAROLLI JNIOR, 1996; SILVA, 2007). Esta dinmica de transformaes que agitavam a sociedade catalisava tambm o pensamento mdico-cientfico. Este buscou ostentar sua participao no novo cenrio, vido por refletir e exprimir vises prprias, propor rumos, prever e definir destinos. Um conjunto documental importante para efetivar tais discusses constitui-se do universo de revistas mdicas, e de temas aproximados, que foram criadas em So Paulo entre 1889 e 1950. Tais publicaes possibilitam91

identificar diferentes caractersticas da medicina paulista, tais como as principais instituies e indivduos com projeo e influncia para serem responsveis pela criao de publicaes, as reas de especialidades de exerccio de tais grupos, mudanas nas respectivas estruturas organizativas das instituies representadas, entre outros dados. Este grande perodo pode ser avaliado a partir de dois tempos diferentes. Primeiro da Proclamao da Repblica e tambm da criao da primeira revista mdica paulista, at os anos 1930, perodo considerado por grande parte da historiografia como de ruptura na histria nacional. Segundo, dos anos 1930 at a criao do primeiro organismo regulador na rea cientfica no Brasil, em janeiro de 1951, o Conselho Nacional de Pesquisas2 (CNPq), que proporcionou um carter diretivo ao estado brasileiro no tocante s atividades cientficas. Os acervos de peridicos mdicos formam um conjunto material de extrema importncia para a histria das cincias e da sade em particular. Tais acervos podem nos fornecer sries de dados sobre as atividades mdicas num largo perodo. Se lidos como uma representao institucional de atividades cientficas em seu conjunto, como indicam alguns autores, os peridicos especializados podem trazer diversas informaes (FERREIRA, 1996). Permitem que o pensamento mdico seja compreendido como um componente da histria mais ampla, e tambm que seja visto como conexo no entendimento da histria das atividades de determinada rea cientfica, em relao com os processos de produo de conhecimento, de ensino e de institucionalizao da cincia mdica, como no caso aqui discutido. Para fins de apresentao, foram construdos trs quadros em que constam as revistas mdicas pertencentes aos acervos das duas maiores bibliotecas de faculdades de Medicina de So Paulo: Centro LatinoAmericano e do Caribe de Informao em Cincias da Sade3 (Bireme), na Universidade Federal de So Paulo/Escola Paulista de Medicina; e Biblioteca da Faculdade de Medicina de So Paulo, da Universidade de So Paulo (USP). Tal material possibilita a organizao de um mapa amplo da produo biomdica paulista e de sua insero na produo brasileira. As revistas foram distribudas em trs grupos, tendo como balizas intermedirias a criao de faculdades de Medicina no estado e as transformaes institucionais por que passaram os peridicos e suas mantenedoras. Dessa maneira, torna-se possvel perceber a mobilidade e conseqentes transformaes do universo mdico institucional paulista, assim como avaliar perspectivas gerais da produo de conhecimento em sade veiculada nessas revistas. O universo de revistas identificadas composto por 89 publicaes. Os quadros a seguir informam a composio desse acervo a partir de dados2 Atualmente Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico. 3 A Bireme foi criada em 1967 por meio de um convnio entre a Organizao Panamericana de Sade, o governo do Brasil e a ento Escola Paulista de Medicina, com o apoio da National Library of Medicine, dos Estados Unidos. Sobre a histria da Bireme, ver Silva, Ferla e Gallian (2006) e Pires-Alves (2005).

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sobre o primeiro ano de publicao do peridico considerado, do ttulo, de informaes sobre os responsveis por sua criao, quando esta informao foi encontrada, e o ltimo ano de circulao de cada revista, acompanhadas at o ano de 2003. No presente estudo foram enfocadas somente as revistas paulistas dos dois acervos. No Quadro 1, primeiro grupo, foram relacionadas as primeiras revistas criadas em So Paulo em 1889 at o momento imediatamente anterior instalao de uma faculdade de Medicina no estado em 1912. Tais revistas foram produzidas no mesmo perodo em que surgiam novas instituies mdicas no estado, representativas de uma reorganizao na ateno sade, como o novo Hospital da Santa Casa de Misericrdia da cidade de So Paulo, de 1885; o Servio Sanitrio de So Paulo, de 1892; e a primeira Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, de 1895, entre outras instituies cientficas importantes no perodo. No Quadro 2, segundo grupo, foram relacionadas revistas criadas aps 1913, quando se inaugurava a Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo. Tais publicaes so apresentadas at o ano de 1933, quando se criou a segunda escola mdica no estado, a Escola Paulista de Medicina. Esse um momento de consolidao e expanso do ensino mdico e de expanso tambm de espaos profissionais, quando surgem vrios hospitais beneficentes na cidade.4 No Quadro 3, terceiro grupo, foram relacionadas revistas criadas entre 1934 e 1950, porque este foi um momento marcado por grandes transformaes no campo cientfico brasileiro, com alteraes tambm nas polticas cientficas adotadas no pas, como o acima indicado CNPq, fundado em janeiro de 1951.5 A bibliografia aponta esse ltimo perodo como um momento em que se alteravam as demandas nacionais e internacionais da pesquisa cientfica, em prol de outras reas como a Fsica e a Fsica Nuclear. Para a medicina paulista foi um momento de grande expanso no nmero de especialidades e de aumento no nmero de peridicos em circulao. O campo hospitalar tambm se modificava com o incremento do atendimento, quando a rede pblica de sade foi bastante ampliada.6

4 Hospitais criados nesse perodo: Hospital Oswaldo Cruz (1923), pertencente comunidade alem; Hospital da Cruz Azul, beneficente, criado pela Fora Pblica de So Paulo (1925); Hospital So Luiz Gonzaga (1932), para tuberculosos, situado no bairro do Jaan, pertencente Santa Casa de Misericrdia de So Paulo, entre outros. 5 A Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (Fapesp), criada uma dcada depois, em setembro de 1962, pode ser avaliada como um rgo que participa deste mesmo movimento de organizao. Ver Schwartzman (1979). 6 Hospitais criados nesse perodo. De carter privado: Hospital de Caridade do Brs (provavelmente em 1934) e Hospital Santa Cruz (1936), beneficente e pertencente colnia japonesa no Brasil. Hospitais do Estado: Hospital das Clnicas, pertencente Faculdade de Medicina de So Paulo, inaugurado em 1944; Hospital Sanatrio do Mandaqui; Pavilho Dr. Antonio Rodrigues Guio; Hospital Sanatrio Leonor Mendes de Barros; Casa Maternal e da Infncia, todos construdos na dcada de 1940.

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Quadro 1 - Publicaes mdicas paulistas e afins criadas entre 1889 e 1912Ttulo 1 Revista Mdica de So Paulo. Dirigida por Augusto Csar Miranda de Azevedo, Francisco de Paula Souza Tibiri e Mello Oliveira 2 Anurio Demogrfico. Seo Estatstica Demografo-Sanitria do Estado de So Paulo. (Deu origem aos boletins publicados independente) Boletim Trimestral de Estatstica Demografo-Sanitria do Interior de So Paulo Boletim Mensal de Estatstica Demografo-Sanitria da Capital Boletim Mensal de Estatstica Demografo-Sanitria de So Paulo Boletim Trimestral de Estatstica Demografo-Sanitria de So Paulo Boletim Mensal de Estatstica Demografo-Sanitria de So Paulo e dos municpios de Santos, Campinas, Ribeiro Preto, So Carlos, Guaratinguet e Botucatu Boletim Hebdomadrio de Estatstica Demographo Sanitria do Municpio de So Paulo, Santos, Campinas, Ribeiro Preto, So Carlos, Guaratinguet e Botucatu Interrompido de 1928 a 1934. Resumo Mensal do Movimento Demografo-Sanitrio do Estado de So Paulo por Municpios Estatstica Demografo-Sanitria 3 Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo Continua como Arquivos da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo Continua como Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo Substituda por Revista de Medicina e Cirurgia de So Paulo 4 Revista do Museu Paulista Continua como Arquivos de Zoologia do Estado de So Paulo Depto de Zoologia. Sec. de Agricultura Continua como Arquivos de Zoologia. Papis Avulsos. Museu de Zoologia USP 5 Revista Farmacutica Sociedade de Farmcia de So Paulo 6 Revista da Sociedade de Anthropologia Criminal, Sciencias Penais e Medicina Legal 7 Pharmaceutica e Odontologia. Drogaria Americana Fundada por Luiz M. P. de Queiroz Revista Farmacutica. Drogaria Americana. Fundada por Luiz M. Pinto de Queiroz. O sul americano. Drogaria Americana 8 Anurio Estatstico do Estado de So Paulo Deu origem aos boletins publicados independentemente: Boletim do Departamento de Estadual de Estatstica de So Paulo Boletim do Departamento de Estatstica do Estado de So Paulo 9 Revista Mdica de So Paulo Jornal prtico de medicina, cirurgia e higiene. Diretor proprietrio Victor Godinho 10 Coletneas de Trabalhos do Instituto Butantan Continua como Memrias do Instituto Butantan. Complementado por Anexos das Memrias em 1921 11 Jornal de Homeopathia. Redigido por Magalhes Castro 12 Gazeta Clnica Redatores Bernardo de Magalhes, Moraes Barros, Alves de Lima, Xavier da Silveira e Rubio Meira 13 Imprensa Mdica Continuao de Unio Mdica de 1881-1890/RJ 14 Revista da Sociedade Cientfica de So Paulo Colaboravam Adolpho Lutz, Antonio Carini, Edmundo Krug e outros 15 Revista Odontologia Paulista Sociedade Odontolgica Paulista. Redator chefe Emilio Mallet. Colaboraram os mdicos Ulisses Paranhos, Amrico Brasiliense, Rodolpho Chapot Prevost, entre outros. 16 Revista de Ginecologia e de Obstetrcia Centro de Estudos da Associao Maternidade de So Paulo. Sociedade Paulista de Perinatologia 17 Assistncia Mdica Sociedade Beneficente A Assistncia Mdica Fundada e dirigida por J. Demichelis 18 Revista dos Tribunais Tribunal de Justia, Tribunal de Alada Criminal de SP Ano de criao 1889 18841 ltimo ano 1890 1934

1894 1894 1895 1904 1918 1904

1894 1895 1903 1918 1925 1937

1930 1945 1895 1910 1914 1941 1895 1940 1968 1895 1896 1897 1904 1907 1898 1939 1952 1898 1901 1918 1902 1903 1904 1905 1905 1907 1908 1912

1944 1947 1898 1914 1941 1958 1938 1967 2003 1895 1896 s/ i. 2 s/ i. s/ i. 1997 1948 1963 1914 1918 2001 1902 1954 1914 1905 1905 1978 1908 20033

Fonte: a autora.

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Quadro 2 - Publicaes mdicas paulistas e afins criadas entre 1913 e 1933Ttulo 1 Anais Paulistas de Medicina e Cirurgia Sociedade Portuguesa de Beneficncia Suplemento Boletim do Sanatrio So Lucas 2 Arquivos de Biologia Revista do Laboratrio Paulista de Biologia S. A. Fundada por Ulisses Paranhos 3 Revista de Medicina Centro Acadmico Oswaldo Cruz. FMCSP 4 Boletim do Instituto de Higiene de So Paulo Dirigido por Horcio Geraldo de Paula Souza Continua como Arquivos da Faculdade de Higiene e Sade Pblica da USP Continua como Revista de Sade Pblica 5 Novotherapia 6 Arquivos da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de So Paulo Secretaria da Justia. Dirigida por Flamnio Fvero. 7 Annaes da Sociedade de Farmcia e Qumica de So Paulo 8 Memrias do Hospital de Juquery Fundada por Antonio Carlos Pacheco e Silva Continua como Arquivos da Assistncia Geral a Psicopatas do Estado de So Paulo Continua como Arquivos do Servio de Assistncia a Psicopatas do Estado de SP Continua como Arquivos da Assistncia a Psicopatas do Estado Continua como Arquivos do Departamento de Assistncia a Psicopatas do Estado de SP Continua como Arquivos da Coordenadoria de Sade Mental do Estado de SP Continua como Arquivos de Sade Mental do Estado de So Paulo 9 Annaes da Faculdade de Medicina de So Paulo Continua como Anais da Faculdade de Medicina de So Paulo. USP 10 Boletim Biolgico Clube Zoolgico do Brasil e Sociedade Brasileira de Entomologia. Laboratrio de Parasitologia. FMSP. USP 11 Actualidades Clnicas 12 Publicaes. Instituto Anatmico. Faculdade de Medicina. USP Continua como Publicaes do Departamento de Anatomia. Faculdade de Medicina. USP 13 Revista de Biologia e Higiene Sociedade de Biologia de So Paulo 14 Arquivos do Instituto Biolgico e Defesa Agrcola e Animal Continua como Arquivos do Instituto Biolgico Secretaria de Agriculta e Abastecimento 15 Arquivos Brasileiros de Hygiene Mental 16 Pediatria Prtica Sociedade de Pediatria de So Paulo 17 Publicaes do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina. USP 18 Revista de Criminologia e Medicina Legal 19 So Paulo Mdico Fundada por Antonio de Almeida Prado e N. de Morais Barros, entre outros. Propriedade de Alvaro Simes Correia e direo de Simes Mattos. 20 Folia Clnica et Biolgica Fundao Andrea e Virginia Matarazzo, fundada por Archimedes Bussaca. 21 Publicaes Mdicas Cia. Qumica Rhodia Brasileira 22 Revista de Teraputica Practica 23 Boletim do Sindicato dos Mdicos de So Paulo. Continua como Revista Informativa do Sindicato dos Mdicos de So Paulo 24 Medicina Prtica 25 Revista de Oftalmologia de So Paulo. Sociedade de Oftalmologia de So Paulo Absorvido como Arquivos Brasileiros de Oftalmologia 26 Publicaes do Laboratrio de Parasitologia Faculdade de Medicina. USP 27 Resenha Clnico Cientfica Instituto Lorenzini 28 Revista da Associao Paulista de Medicina. Continua como Revista Paulista de Medicina 1916 1916 1919 1947 1967 1921 1922 1924 1925 1936 1938 1941 1951 1966 1986 1926 1934 1926 1965 2002 1946 1966 2003 1940 1959 1994 1935 1937 1941 1950 1965 1985 1986 1933 1957 1939 Ano de criao 1913 ltimo ano 2003

1927 1927 1930 1927 1928 1934 1928 1928 1928 1928 1928

1931 1929 1943 1941 1934 1990 1930 1980 1950 1929 1948

1929 1929 1929 1930 1946 1931 1931 1944 1932 1932 1932 1941

1931 1964 1932 1945 1971 1938 1944 2003 1961 1972 1940 2003

Fonte: a autora.

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Quadro 3 - Publicaes mdicas paulistas e afins criadas entre 1934 e 1950Ttulo 1 Revista de Urologia de So Paulo. Dirigida por J. Martins Costa, Carvalho U. de Azevedo. 2 Revista Paulista Teraputica 3 Revista de Cirurgia de So Paulo 4 O Biolgico 5 Publicaes Farmacuticas 6 Revista de Neurologia e Psiquiatria de So Paulo 7 Revista de Obstetrcia e Ginecologia de So Paulo 8 Revista Paulista de Tisiologia. Sociedade dos Mdicos do Instituto Clemente Ferreira Continua como Revista Paulista de Tisiologia e do Trax 9 Arquivos de Higiene e Sade Pblica. Secretaria da Sade Pblica e da Assistncia Social 10 Caderno de Pediatria. Hospital Humberto I 11 Revista da Associao Paulista de Homeopatia Continua como Revista de Homeopatia (So Paulo) 12 Revista de Leprologia de So Paulo. Sociedade Paulista de Leprologia. Continua como Revista Brasileira de Leprologia. Sociedade Paulista de Leprologia Deu origem a Hansenologia Internationalis Diviso de Hansenologia e Dermatologia Sanitria. Instituto de Sade. Instituto Lauro de Souza Lima 13 Arquivos de Cirurgia Clnica e Experimental. Clnica de Molstias do Aparelho Digestivo. Faculdade de Medicina USP 14 Arquivos de Dermatologia e Sifilografia de So Paulo 15 Revista Clnica de So Paulo 16 Anais do Instituto Pinheiros 17 Revista de Oftalmologia de So Paulo. Absorvida pelos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia Conselho Brasileiro de Oftalmologia 18 Anais Estudantinos Continua como Anais Cientficos 19 Revista de Gastroenterologia de So Paulo. Sociedade Paulista de Gastroenterologia 20 Anais da Faculdade de Farmcia e Odontologia. USP Subdividida em Revista da Faculdade de Farmcia e Bioqumica. USP Continua como Revista Brasileira de Cincias Farmacuticas. Subdividida em Revista da Faculdade de Odontologia. USP 21 Fichrio Mdico-Teraputico Institutos Teraputicos Reunidos Labofarma 22 Revista XXV de Janeiro. Centro Acadmico XXV de Janeiro. Faculdade de Farmcia e Odontologia. USP 23 Ficha Clnica 24 Arquivos da Polcia Civil de So Paulo 25 Revista do Instituto Adolpho Lutz. Instituto Adolpho Lutz 26 Revista Mdico-Social 27 Arquivos de Neuro-Psiquiatria. Academia Brasileira de Neurologia (Suplemento Bol. da Ac. Bras. de Neurol.) 28 Revista Brasileira de Medicina. Editorial Sul 29 Anais Nestl. Companhia Industrial e Comercial Brasileira de Produtos Alimentares 30 Maternidade e Infncia 31 Notas Mdicas 32 Revista do Hospital das Clnicas. Faculdade de Medicina. USP 33 Selees Mdicas. Instituto de Teraputica Humanitas Ano de criao 1933 1933 1934 1935 1935 1935 1935 1935 1955 1936 1936 1936 1940 1933 1936 1976 1937 1937 1937 1938 1931 1938 1934 1945 1938 1939 1963 1970 1963 1939 1939 1940 1941 1941 1942 1943 1943 1944 1945 1945 1946 1946 ltimo ano 1938 1934 1956 1989 1950 1944 1947 1954 1965 1969 1941 1940 2003 1936 1970 2003 1969 1958 1958 1951 1944 1999 1944 1967 1945 1962 1969 1999 2003 1966 1963 1946 1984 2003 1945 1999 1999 1993 1977 1976 2003 1962

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Ttulo 34 Revista de Obstetrcia e Ginecologia de So Paulo Faculdade de Medicina, Universidade de So Paulo Continua como Anais da Clnica Ginecolgica Faculdade de Medicina. USP Continua como Anais do Departamento de Obstetrcia e Ginecologia Faculdade de Medicina. USP Ginecologia e Obstetrcia Brasileiras Ache Laboratorios Farmaceuticos (s. i. de 1962 a 1977) Revista de Ginecologia e Obstetrcia Instituto da Mulher, Hospital das Clinicas, FMUSP 35 Revista Brasileira de Otorrinolaringologia 36 Arquivos Brasileiros de Cardiologia Sociedade Brasileira de Cardiologia 37 Medicina Moderna 38 Anais da Clnica Ginecolgica da Santa Casa de So Paulo 39 Arquivos Mdicos Municipais Sociedade Mdica da Municipalidade de So Paulo 40 Boletim de Psicologia Sociedade de Psicologia de So Paulo 41 Boletim do Centro de Estudos de Oftalmologia Prof. Moacyr E. lvaro 42 Caderno de Teraputica Labor Laborterapica-Bristol S.A. 43 Boletim do Centro de Estudos Franco da Rocha Hospital do Juquery

Ano de criao 1935 1947 1959 1978 1990 1947 1948 1948 1949 1949 1949 1949 1950 1965

ltimo ano 1947 1958 1962 1988 2003 1966 1999 1950 1960 1963 1998 1958 1965 1981

Fonte: a autora.

DefiniesO pressuposto principal utilizado para compor o quadro dos peridicos aqui apresentados foi considerar como pertencente ao conjunto todas as revistas que mantiveram constantes, no todo ou em parte, contedos relacionados Medicina. Assim, foi considerada mesmo uma publicao no-mdica, mas com contedo na rea, como, por exemplo, a Revista dos Tribunais (1912), mesmo que tal revista no seja convencionalmente identificada como um peridico mdico e sim jurdico. A inteno primeira da pesquisa foi verificar os espaos disponveis para a publicao de temas mdicos no perodo considerado. Um segundo critrio foi o de incluir neste conjunto dados relativos s mantenedoras das revistas em circulao, assim como acompanhar modificaes nos ttulos de tais peridicos, pois a partir deles podemos ter uma noo razovel das transformaes institucionais do prprio peridico e do espao mais amplo de atuao mdica no Estado. Com este intuito, foram apontadas nos quadros, quando possvel, a mantenedora responsvel pela criao e sustentao do peridico e o grupo ou indivduos responsveis pela revista, quer rgo pblico ou privado. Algumas definies se fizeram necessrias. Inicialmente considerei como a mesma revista aquela que, ao ser assumida por outra mantenedora,97

continuou com o mesmo nome, apresentando artigos na mesma rea inicial de trabalhos. Neste caso, foi apontado nos quadros o ano em que tal alterao ocorreu. Em segundo lugar, considerei tambm como a mesma revista aquela que, mesmo com alguma alterao no nome, continuava representando a mesma rea e associao mantenedora original. Um exemplo inequvoco deste processo o do peridico Memrias do Hospital do Juquery, de 1925. Quando de sua criao, esta revista esteve ligada exclusivamente ao Hospital do Juquery, subordinado em sua criao, 1898, Secretaria dos Negcios do Interior e Justia. A partir de 1936 a revista, acompanhando alteraes na organizao dos servios da secretaria, tornou-se acessvel a outros setores da secretaria e foi denominada Arquivos da Assistncia a Psicopatas do Estado de So Paulo, excedendo os muros do hospital. At que em 1986 passou a ser intitulada Arquivos de Sade Mental do Estado de So Paulo, quando, aps um ano, teve sua circulao suspensa. Em terceiro lugar, foi preciso identificar quando alguma alterao na mantenedora alterava tambm o ttulo, mas com manuteno da representatividade do peridico, normalmente significando continuao da rea, especialidade ou grupo representado. Esse foi o caso do Instituto de Higiene e seu de Boletim, criado em 1919, onde o nome da instituio e o nome da revista mudaram, mas continuaram a representar a rea da Higiene, mantida a mesma funo de representar a instituio de ensino. Em 1947, o boletim do Instituto passou a ser denominado: Arquivos da Faculdade de Higiene e Sade Pblica da USP, aps a transformao do instituto em faculdade. Em 1967 o ttulo do peridico foi novamente alterado para Revista de Sade Pblica, a fim de adequ-lo a outra proposta editorial, esta mais ampla e que visava permitir a entrada de autores externos faculdade. E, por fim, o caso mais abundante, aquele em que a revista teve seu nome alterado, mas continuou tendo o mesmo rgo ou grupo como organizador, sem modificao no grupo ou rea de especialidade. O exemplo mais conhecido o do Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, criado em 1895. Em 1898, o boletim passou a ser veiculado dentro da Revista Mdica de So Paulo. Em 1910 tal boletim continuou a ser editado, s que a partir dali como publicao independente, com o ttulo de Arquivos da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo. Em 1914 foi novamente denominado Boletim, contudo ainda funcionando apenas como veculo de publicao das atas e dos trabalhos dos scios da Sociedade de Medicina. Em 1941, com a aceitao de artigos de autores no ligados Sociedade e deixando de noticiar as discusses havidas nas suas reunies e assemblias, o Boletim foi transformado e recebeu o ttulo de Revista de Medicina e Cirurgia de So Paulo, com o qual circula at o presente. Tais critrios foram inferidos a partir das modificaes percebidas no universo das publicaes da rea da sade acompanhadas aqui. So indcios de transformaes na rea e aspecto essencial para a avaliao da prpria idia de periodismo mdico. Tais dados podem nos trazer diversas informaes sobre o percurso das instituies de sade paulistas, suas98

formas de organizao, momentos de maior atividade ou de crise, propostas de determinada rea ou grupo de indivduos relacionados quele peridico, entre outros temas. A partir dos trabalhos publicados nas revistas podem tambm ser discutidos artigos dos principais nomes da medicina paulista, que se notabilizaram tanto por suas atividades cientficas quanto pelos cargos pblicos que ocuparam. Num primeiro momento encontramos repetidamente nomes dos mais importantes mdicos em atividades no perodo: Luiz Pereira Barreto, Adolfo Lutz, Emlio Ribas, Arnaldo Vieira de Carvalho, Vital Brazil, Rubio Meira. Em um segundo tempo podemos encontrar artigos de mdicos como Lemos Torres, Jairo Ramos, Afrnio do Amaral, Antonio Carlos Pacheco e Silva, todos personagens com acesso privilegiado a publicao em jornais dirios e revistas especializadas. Tais autores publicavam ao lado de inmeros outros profissionais, tanto alinhados com suas interpretaes de problemas anteriormente apontados doenas epidmicas, organizao sanitria de cidades, liberdade profissional como alguns com linhas divergentes de atuao. Outros assuntos, em geral menos avaliados pela historiografia, tambm podem ser discutidos a partir de tais peridicos, como possibilidade de introduo de tcnicas de laboratrio, de reorganizao do trabalho mdico, casos de teratologia mdica (estudo de deformaes orgnicas), contabilizao de atendimentos de hospitais, casas de sade, servios pblicos e privados do estado e da cidade de So Paulo, entre outras informaes relevantes. Nos artigos, notas e notcias veiculadas em tais peridicos podem ser discutidos questes relacionadas percepo e entendimento que esses representantes do campo mdico paulista tinham sobre sua prtica e as caractersticas da atividade cientfica produzida nesse processo. Tal contextura d suporte s possveis anlises empreendidas a partir desse material, pois h uma dimenso temporal na prtica cientfica evidenciada em tal documentao que importante resgatar, para um entendimento mais completo da ao da medicina e de seus representantes. A produo veiculada nos peridicos mdicos tambm pode ser testemunha dos quadros mentais de uma poca. Embora seja inteno primeira da linguagem cientfica demonstrar doses crescentes de objetividade e neutralidade j no h como sustentar essa viso no histrica da cincia (KNORR-CETINA, 1999; LATOUR, 1990). As leituras j realizadas dos artigos cientficos deixam transparecer possibilidades de discusso que outras produes poderiam no captar com a mesma preciso. Uma das principais questes previstas a possibilidade de discutir como a construo de uma viso da realidade social pela atividade mdico-cientfica pde inserir o conhecimento cientfico no debate intelectual daquele momento de reestruturao administrativa, econmica e social de So Paulo. E mais importante, como, ao mesmo tempo, tais questes foram apresentadas como lastro e centro irradiador de propostas para diferentes decises polticas, mais alm das questes meramente tcnicas como poderia se supor de incio.99

Inserir a produo cientfica, lado a lado com as obras de pensamento sobre o Brasil, e ao mesmo tempo como um conjunto de propostas diretivas para a sociedade paulista, auxilia na compreenso da fora efetiva que a produo cientfica exerce na sociedade na qual concebida. Lidos tambm como intelectuais, alm de cientistas, os mdicos, membros ativos da elite paulista, pretendiam com seus diagnsticos dar corpo a propostas, muitas vezes bastante autoritrias, sobre o presente e o futuro do pas. Criando o que poderamos chamar de modernismo cientfico, ao interessada em descortinar os males do Brasil.7 Buscavase, por meio de novas alianas, abrir espaos. A opo pela produo de um saber insistentemente nacional, e especialmente paulista, deveria ser suficiente para justificar a fala competente da medicina local. Haveria ai um contrato entre propostas sociais e atividades de cincias, acordo esse selado a partir dos textos cientficos, que exprimem de forma notvel o universo que seus autores vivenciavam. a partir desse conjunto documental que pretendo que seja possvel apontar outros modos de encarar um perodo importante da histria nacional e perceber muitas das tenses que caracterizam o Brasil at os dias atuais. Tal entendimento por ser visto em um exemplo apresentado a seguir.

Adolfo Lutz: um diagnstico socialEm diversos artigos possvel observar a construo progressiva de uma associao entre o diagnstico mdico, sustentado pelo dado cientfico, e um diagnstico sanitrio-sociolgico, acerca das condies de vida da populao pobre de So Paulo. A produo cientfica resultante das pesquisas bacteriolgicas empreendidas nos servios paulistas, principalmente Servio Sanitrio, e que se relacionavam s doenas de ordem pblica, possibilitava a construo de diagnsticos mais amplos. Temas de ordem social, alm do conhecimento biolgico, tinham lugar nestes artigos, que disseminavam diagnsticos de vrias ordens sobre os problemas da nao nos primeiros anos do sculo que se iniciava. A ao de qualificar a sociedade paulista para alm do dado mdico se verifica nas indicaes que eu diria sociologizantes, que muitos dos artigos fazem para assentar a informao cientfica naquele momento. Em vrios dos textos lidos mdicos e cientistas embasam discusses sobre doenas em um amplo quadro diagnstico: das relaes humanas, do trabalho e das vivncias dos moradores de So Paulo. Nestas associaes as7 Um exemplo desse empenho pode ser visto quando do convite ao mdico Victor Godinho, feito pelo governo do Maranho, para implantar naquele estado um programa de combate febre amarela em 1903-04. Inspetor do Servio Sanitrio de So Paulo e diretor da Revista Mdica de So Paulo, Godinho foi figura de amplo trnsito. Em 1905 escreveu o livro Nos domnios dos micrbios, momento que entrava em atrito com o ento prncipe da medicina paulista, Arnaldo Vieira de Carvalho, a respeito da eficincia da vacinao antivarilica empreendida pelo instituto do qual esse era diretor.

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distines de classe se naturalizavam. Como se naturalizavam os poderes, pois a presumvel soluo para os problemas apontados passava em geral por indicativos de construo de autoridade, tanto quanto por questes de tratamento, cura e sade. Em um peridico importante como a Revista Mdica de So Paulo Jornal Prtico de Medicina, Cirurgia e Higiene, criada em 1898, podemos ver o mdico Adolpho Lutz num momento de construo deste tipo de associao entre o dado cientfico e o diagnstico sanitrio-sociolgico das condies de vida em So Paulo: A helmintase8 freqentssima no Estado de S. Paulo e, como em toda parte, acomete de preferncia a populao agrcola, os trabalhadores de terra e as crianas. favorecida especialmente pela temperatura elevada, as chuvas abundantes e a falta de latrinas. Estas permitem a disseminao e o desenvolvimento abundante dos ovos e larvas das espcies que no se transmitem de individuo a individuo, sem passar por uma fase evolutiva, seja na gua, seja na terra mida. Assim o uso geral da gua exposta a qualquer contaminao e o contato freqente com a terra infectada explicam a predominncia da helmintase nas classes mencionadas. Nas cidades fechadas, onde o modo de vida diferente, os entozorios so muito mais raros. Com exceo de uma solitria, comunicada pela carne consumida, quase no se observam nos indivduos adultos que vivem em boas condies sociais e nunca saem do seu domiclio. De outro lado, a helmintase observa-se freqentemente nos hospitais, onde abundam os doentes chegados de lugares do interior, onde existem condies pouco higinicas. (LUTZ, 1899, p. 39) Para o embate da medicina com as doenas de maior incidncia naquele perodo, Adolpho Lutz apontava ao mdico o dever de funes que no deveriam se concentrar apenas no ato diagnstico e na cura. Tais aes deveriam, sim, ser mais complexificadas, pois precisariam estar concentradas tanto no mbito da atividade clnica, quanto na busca e posse dos saberes mais atualizados na rea. Isto porque o mdico deveria tanto ser efetivo no tratamento, quanto, e talvez principalmente, atuar no esclarecimento populao desinformada, ignorante e at mesmo obtusa para com as coisas da sade. Diz ele: Em relao aos vermes intestinais parece que o mdico no tinha outra tarefa do que a diagnose dos parasitas e um tratamento antihelmntico apropriado, mas no raro apresentarem-se outros problemas. H muitos doentes hipocondracos e histricos que sem razo alguma atribuem os seus padecimentos a vermes,8 Doena devida presena de helmintos (entozorio ou verme) nos intestinos. Novo Dicionrio Aurlio. Editora Nova Fronteira.

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principalmente existncia de uma solitria que julgam sentir. Estes, freqentemente exibem ao mdico como vermes, qualquer espcie de restos de alimentos no digeridos, mucosidades intestinais e outras coisas encontradas nas dejees. Nestes casos convm que o mdico saiba excluir a helmintase de um modo positivo. Nem sempre o doente se deixa convencer, Lembro-me de um caso onde os pseudo-helmnticos eram formados de pedaos de couve. O doente no satisfeito com minha explicao foi consultar mais dois mdicos que, sem saber da consulta prvia, me mandaram para exame microscpico mais duas amostras da mesma espcie. (LUTZ, 1899, p. 39) O procedimento apontado acima no era especialmente exclusivo de Lutz, mas adotado de modo sistemtico por grande parte do grupo mdico dirigente, que tambm pertenciam aos quadros da produo mdico-experimental de ponta naquele momento, conforme visto em grande quantidade de artigos consultados para o perodo. Tal leitura s se torna disponvel porque o peridico mdico serve aqui de sustentao para tal apropriao. O artigo cientfico constri uma autoridade que at a sua adoo no se podia identificar to claramente, como quando se utiliza esse tipo de documentao, tornada histrica e tomada como um dado de histria como outro qualquer.

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Perfil dos mdicos e mdicas em So Paulo (1892-1943)1Maria Lucia Mott2 Maria Aparecida Muniz3 Olga Sofia Faberg Alves4 Karla Maestrini5 Tais dos Santos6 Marcela Trigueiro Gomes7 O jornal paulista A Capital publicou, em 13 de fevereiro de 1922, uma reportagem sobre o uso do ttulo de doutor ilegalmente. Apresentava os doutores falsificados, mdicos no-titulados, uma lista nominal, j veiculada por uma revista mdica, de mais de cem profissionais nacionais e estrangeiros que exerciam sem registro profissional no estado de So Paulo. Houve rplica por parte dos leitores: O dr. Jos J. Ortigo de Sampaio, clnico em Piracicaba, tendo deparado seu nome numa publicao oficial em que era apontado como pseudo-mdico, escreve-nos indignado dizendo: Sou mdico legitimamente diplomado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde fui interno por concurso de uma das clnicas mdicas (Profs. Sodr e Oswaldo de Oliveira); tenho meu diploma registrado no Departamento Nacional de Sade Pblica, no Servio Sanitrio do Estado do Paran, onde chefiei interinamente a Profilaxia da Malria em 1918, e o tenho registrado no Servio Sanitrio do Estado de So Paulo pgina 259 do livro competente, desde julho de 1920 (que confirma a Secretaria do mesmo Servio1 M. L. Mott Participou na concepo geral, pesquisa e redao final; M. A. Muniz participou na pesquisa, na redaoe reviso e foi a responsvel pelos clculos, tabelas e grficos; O. S. F. Alves, K. Maestrini, T. Santos e M. T. Gomes participaram na pesquisa, na redaoe reviso. Contamos, ainda, com a colaborao de Ana Paula Ferreira Santos, Maria Mercedes Loureiro Escuder, Denise Muniz, Eleonora Rocha, Mrcia Regina Barros da Silva, Mrcia Lima Vieira, Ana Maria da Cunha, Jos Fernandoada Silva e Rute Castro, aos quais expressamos nossos agradecimentos. Doutora em Histria pela Universidade de So Paulo (USP), Pesquisadora Cientfica V do Laboratrio Especial de Histria da Cincia do Instituto Butantan - Secretaria de Estado da Sade de So Paulo (SESSP) e coordenadora do projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Bacharel em Sociologia pela Fundao Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo e Oficial Administrativo do Instituto de Sade - SESSP; Bacharel em Cincias Sociais pela USP e Pesquisadora Cientfica I do Laboratrio Especial de Histria da Cincia do Instituto Butantan - SESSP; Bacharel em Histria pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP); Bacharel em Histria pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP); Bacharel em Histria pelo Centro Universitrio FIEO (Fundao Instituto de Ensino para Osasco).

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Sanitrio). No justo, pois, sr. Redator, que eu aqui venha sofrendo as conseqncias de uma publicao infundada, que sendo falsa muito me prejudica nos meus legtimos direitos e na minha profisso honesta. (Mdico versus Servio Sanitrio, A Capital, 23/2/1922) No dia 25 de fevereiro de1922, o peridico voltou ao assunto: Ainda sobre a notcia que tivemos ensejo em transcrever de nossos colegas da Gazeta Clnica, a respeito dos falsos mdicos, ou melhor, dos mdicos que no so doutores recebemos de nosso ativo correspondente em Dourados, um pedido de retificao. Este se refere ao sr. dr. Malachias Guerra Junior, que no pode estar includo naquela lista, visto que formado em medicina de Belo Horizonte e tem seu diploma registrado nas diretorias Sanitrias de Belo Horizonte, Capital Federal, e S. Paulo, conforme tivemos ensejo de verificar pessoalmente. Sobre esta notcia devemos, para maior esclarecimento, dizer o seguinte: no sabemos se a Gazeta Clnica tem base para afirmar que os mdicos que formaram a lista que transcrevemos no so mdicos, ou se, apenas, quis dizer que no so doutores, isto , no defenderam teses e por conseguinte no so doutores. A fica a retificao. (Os falsos Mdicos, A Capital, 25/2/1922) Segundo as legislaes federal e estadual, desde os primrdios da Repblica, mdicos, dentistas, farmacuticos e parteiras, diplomados no Brasil ou no exterior, que tivessem como meta o exerccio dessas atividades, deveriam efetuar, como acima mencionado pelos indignados leitores do jornal A Capital, a inscrio no Servio Sanitrio do estado de domiclio profissional, efetuando novo registro sempre que mudassem de endereo para outro estado da federao. A inscrio ou registro era feito em livro especial, no qual eram transcritas informaes colhidas nos respectivos diplomas. Regularmente, o Dirio Oficial do Estado de So Paulo, que comeou a ser publicado em 1891, trazia em suas pginas a lista dos profissionais inscritos para conhecimento pblico, fornecidas pelo Servio Sanitrio, bem como denncias sobre mdicos, dentistas, farmacuticos e parteiras que exerciam sem registro, visando regularizar a situao dos infratores (caso fossem diplomados ou habilitados), o pagamento de multas, e a excluso dos inabilitados. O controle do exerccio profissional na rea da sade foi uma atribuio do poder pblico no estado de So Paulo por mais de 80 anos.1 A documentao sobre a fiscalizao profissional encontra-se no Arquivo Pblico do Estado de So Paulo e no Museu da Sade Pblica Emlio Ribas (Instituto Butantan/Secretaria de Estado da Sade de So Paulo). Esse106

ltimo tem sob sua guarda a coleo completa dos livros de registro do servio de fiscalizao profissional, entre 1892-19788. As informaes levantadas nos livros de registro o nmero de profissionais, a naturalidade, a proporo entre os sexos, o local de formao, as principais instituies formadoras, entre outros fornecem dados significativos para o conhecimento do mercado de trabalho mdico em So Paulo. Esse o objetivo deste artigo, tendo como recorte cronolgico o perodo de 1892 a 1943. A data inicial se deve ao ano de abertura dos livros de registro, e, a final, incorporao de outra fonte fecunda do incio dos anos 1940. Trata-se da obra Registro de mdicos do Estado de So Paulo, resultado da pesquisa realizada pelo Departamento Estadual de Estatstica, Seo de Estatstica Militar, publicado em So Paulo, em 1944.9 A anlise preliminar dos dados aponta para a sua riqueza, por trazer informaes sobre o perfil dos profissionais, o que certamente subsidiar inmeras pesquisas futuras. Permite identificar continuidades e mudanas no mercado de trabalho mdico nas cinco primeiras dcadas da Repblica, quando se compara o nmero de mdicos, a naturalidade, a formao e o sexo. Entre 1892-1943 entraram oficialmente no mercado de trabalho paulista 6.847 mdicos/as, conforme quadro abaixo.Quadro 1 Nmero de mdicos registrados por sexo entre 1892 e 1943Homens Brasileiros Estrangeiros s/inf.* Total 6.279 384 93 6.756 91 Mulheres 80 11 Total 6.359 395 93 6.847

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

O mercado de trabalho em So Paulo Coriolano Barretto de Burgos, natural da Bahia, nascido em 24 de dezembro de 1860, formado aos 27 anos pela Faculdade de Medicina da Bahia (FMBa) em 1887, foi o primeiro mdico a se inscrever no Servio Sanitrio (29 de abril de 1892). A escola e a naturalidade do profissional no8 9 No que se refere aos mdicos, o Conselho Regional de Medicina passou a exigir a inscrio na associao, conforme Decreto Federal de 1958; porm, a fiscalizao estatal continuou at 1978. O Conselho Regional de Medicina do Estado de So Paulo atua desde 1957. A coleo soma uma centena de livros, de cerca de 500 pginas cada, referentes s diferentes categorias profissionais da sade: mdicos, dentistas, farmacuticos, enfermeiros, parteiras, veterinrios, entre outros. Para essa pesquisa sobre os mdicos foram consultados 12 volumes, entre 1892 e 1943.

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eram excees naquele ano, quando se registraram mais mdicos naturais da Bahia e formados pela FMBa, do que paulistas, cariocas e fluminenses, formados pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ). Dos 54 profissionais inscritos, cinqenta obtiveram diploma no Brasil (26 pela FMBa e 24 pela FMRJ) e quatro no exterior. O nmero de mdicos paulistas soma sete. O primeiro mdico italiano a registrar o diploma, era natural de Cosenza e formado pela Universidade de Npoles, j apontando para uma tendncia que se verificar nos prximos cinqenta anos, da predominncia no Estado So Paulo de italianos egressos dessa escola. Deve ser lembrado que, at o final do sculo XIX, havia apenas duas faculdades de medicina no pas, localizadas na ento Capital Federal (Rio de Janeiro) e em Salvador (Bahia). Os paulistas que desejavam seguir a carreira mdica eram obrigados a mudar temporariamente para uma dessas duas cidades ou para o exterior. O longo perodo do curso, mais a necessidade de deslocamento para diferentes lugares para complementao da formao, reforam a afirmao de que a medicina era uma profisso de acesso restrito, sendo abraada, sobretudo, por representantes das camadas mdias e das elites. Em 1890 havia 1.384.753 habitantes em So Paulo. O desenvolvimento ocorrido no Estado a partir da expanso da economia cafeeira impulsionou o crescimento demogrfico, com populaes vindas de diferentes partes do mundo e mesmo de outras regies do Brasil. Entre 1890 e 1900, a populao do Estado dobrou, chegando a 2.282.279 habitantes. Nos dez anos seguintes somou 3.097.805. Os dados levantados nos livros de registro do servio de fiscalizao profissional desde a sua criao apontam que o crescimento do nmero de inscries de mdicos, ano a ano, no foi regular, nem crescente, at 1910, apesar do aumento demogrfico do Estado. Nos dois primeiros anos de funcionamento do Servio Sanitrio houve expressivo nmero de registros (106), certamente de profissionais que j vinham exercendo na capital paulista desde o final do Imprio, caindo em seguida. O Grfico 1 informa sobre a entrada de mdicos em 1892, quando do incio da fiscalizao at 1943. Nota-se uma oscilao no nmero de registros nos primeiros seis anos (1892-1898), quando o nmero de inscritos variou entre 13 e 54 por ano. Na dcada seguinte verifica-se um declnio no nmero de inscrio de mdicos (entre 12 e 34 mdicos inscritos por ano), retomando o crescimento em 1911, a partir de quando o nmero nunca inferior a 45. Identificam-se picos em 1920, quando os registros chegaram a um total de 216, em 1929 com 239 novos mdicos, 1934 quando foram registrados 256, e 1936, recorde do perodo, com a soma de 325 profissionais.108

Grfico 1 Nmero de mdicos registrados ano a ano (1892-1943)

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

As mdicas Em 1895 inscreveu-se a belga Maria Rennotte (1852-1942), primeira e nica mdica registrada na capital paulista por um perodo de mais de 20 anos. Maria Rennotte, que vivia no Brasil desde o final dos anos 1870, trabalhando como professora, formou-se em medicina em 1893 no Womans Medical College of Pennsylvania, nos Estados Unidos. Em 1895 revalidou o diploma na FMRJ e no mesmo ano se inscreveu no Servio Sanitrio de So Paulo. O segundo registro de uma mulher data de 1915. Trata-se da mdica italiana Olga Caporalli, formada pela Universidade de Turim. Entre 1892 e 1943 inscreveram-se 91 mdicas (80 brasileiras e 11 estrangeiras). Comparando-se a percentagem de mdicas registradas no perodo em So Paulo (1,3%) com a de alguns pases, pode-se dizer que maior que a da Espanha (0,1%), menor que a dos Estados Unidos (4%) e da Rssia (60%) (ORTIZ GMEZ, 2007). A anlise revela que a entrada das mulheres no mercado de trabalho paulista foi lenta e numericamente pequena (1,3 %) se comparada a dos mdicos. Porm aponta para alteraes, conforme Grfico 2. Depois de um intervalo de 28 anos, a partir de 1923, entre uma e oito mdicas se inscrevem anualmente, havendo uma tendncia de alta a partir de 1927. No ano de 1934 inscreveram-se sete mdicas para um total 249 inscritos do sexo masculino, representando 2,7% do total de registrados nesse ano. Em 1942 as mulheres somaram oito novas inscries de mdicas para um total de 302 mdicos.109

Grfico 2 Mdicas registradas ano a ano

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

Comparando-se os dados referentes naturalidade dos mdicos em exerccio em So Paulo, pode-se afirmar que nas primeiras dcadas da Repblica houve uma grande participao de no-paulistas na prestao de servios de sade para a populao, na implantao das reformas sanitrias, na criao e direo de estabelecimentos pblicos e privados.4 O mercado mdico de So Paulo acolheu representantes de 20 estados e do ento territrio do Acre. O processo de urbanizao e industrializao de So Paulo ocorrido a partir das ltimas dcadas do sculo XIX, a fama de alguns institutos de pesquisa recm-criados e os salrios oferecidos, foram sem dvida atrativos e catalisadores de profissionais brasileiros e estrangeiros que procuravam expandir as atividades. Nas primeiras dcadas da Repblica verifica-se, por parte do poder pblico, a preocupao com as condies sanitrias do Estado, o que resultou na organizao de novos servios para debelar e controlar epidemias ainda mal diagnosticadas, fabricar produtos farmacuticos, tratar de doentes, desenvolver pesquisas e formar mdicos. Foram ento criados o Desinfetrio Central, o Laboratrio de Anlises Clnicas, o Hospital de Isolamento, o Instituto Bacteriolgico, o Asilo de Alienados do Juqueri, o Instituto Serumterpico (Butantan) e a Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, para lembrar apenas alguns.10 Paralelamente, foram fundadas e remodeladas segundo o padro da medicina moderna, instituies particulares, filantrpicas, de classe e auxlio mtuo, voltadas para o combate, a preveno, o tratamento e a cura das doenas, como tambm para o ensino e a pesquisa em sade. A necessidade de profissionais qualificados e de renome, a disputa interna de grupos pelo poder, a necessidade de alianas com10 Uma anlise dos dados referentes aos mdicos em So Paulo entre 1892 e 1932, levantados nos livros de registro, foi publicada em Mott et al. (2008).

Naturalidade

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instituies de prestgio, a preocupao com a construo de uma imagem de excelncia, a falta de profissionais em determinadas reas desencadeou por parte da iniciativa privada e do poder pblico a procura de quadros capazes de desenvolver trabalhos nas reas da sade curativa, de sade pblica, de pesquisa e ensino no Estado de So Paulo, em diferentes regies do Brasil e mesmo dos principais centros do exterior.11 A amostra informa que, a partir de 1908, um nmero crescente de mdicos naturais de So Paulo requer inscrio. Nos anos 1930 os paulistas em exerccio no Estado de origem so maioria absoluta em relao aos nascidos nos demais estados brasileiros e no exterior (Grfico 3). Quanto inscrio de mdicos no paulistas, h uma prevalncia inicial de nascidos na Bahia e no Rio de Janeiro (cariocas e fluminenses); ocorrendo posteriormente um crescimento do nmero de profissionais de Minas Gerais. No total da amostra, Minas Gerais e Rio de Janeiro, estados com maior ndice populacional do Brasil at o incio dos anos 1940, aparecem como principais fornecedores de mdicos para o Estado de So Paulo (Grfico 4, Quadro 2). Um dado que merece destaque e que reflete mudanas na situao de gnero: com exceo das estrangeiras que foram as primeiras a se registrar, a primeira inscrio das mdicas brasileiras ocorre em 1917, a das irms paulistas Lima Pedroso, ambas formadas pela FMRJ. As mdicas nascidas nos demais estados brasileiros chegaram posteriormente, somente a partir de 1921. As mdicas eram provenientes de oito estados, com prevalncia de nascidas em So Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Proporcionalmente, as mdicas paulistas correspondem a 68% das profissionais, percentagem superior de mdicos paulistas, que somam 57,8% (Quadro 2).Grfico 3 Mdicos brasileiros registrados por ano, paulistas e demais nacionalidades e naturalidades identificadas

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros do Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943) 11 Silva (2003b) apresenta uma relao dos primeiros professores da Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo (1913-1928), a partir da qual procuramos dados referentes naturalidade. Dentre os 72, 34 so paulistas, 36 nascidos em outras localidades e dois sem identificao.

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Grfico 4 Mdicos brasileiros registrados por ano, segundo as principais naturalidades identificadas

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

Quadro 2 Registro de mdicos brasileiros por sexo, segundo a naturalidadeEstado SP MG RJ BA PE PR RS CE AL MA PA SE PB PI GO MT ES AM RN SC AC s/inf.* Total Homens 3.627 684 625 557 117 78 79 80 57 47 43 43 37 33 28 28 23 17 16 16 3 41 6.279 80 1 Mulheres 54 5 6 5 3 4 2 Total 3.681 689 631 562 120 82 81 80 58 47 43 43 37 33 28 28 23 17 16 16 3 41 6.359

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

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Nacionalidade Desde os primeiros anos de funcionamento do Servio Sanitrio, profissionais de diferentes nacionalidades buscaram regularizar o exerccio efetuando a inscrio. Alm de italianos, na dcada de 1890, inscreveramse mdicos nascidos na Frana, Portugal, Alemanha, Sua e Blgica. Nas quatro dcadas do sculo seguinte, registraram-se mdicos de diferentes nacionalidades e religies. Alm de europeus, norte-americanos, srios e libaneses (desde 1913), asiticos (japoneses, desde 1924), latinoamericanos. Entre 1892 e 1943 inscreveram-se 395 estrangeiros, sendo 384 homens (5,7% do total de homens) e 11 mulheres (12,1% do total de mulheres). Os estrangeiros participaram ativamente da institucionalizao do campo mdico brasileiro: fundaram hospitais e associaes de classe, lecionaram, formando as primeiras geraes de mdicos do Estado, desenvolveram pesquisas, participaram de congressos, e publicaram em diferentes veculos de divulgao. Alguns dentre eles voltaram para seus pases de origem durante os conflitos mundiais, para servirem suas ptrias ou por aqui sofrerem perseguies e represlias. Dentre os estrangeiros, a maioria (54%, 215 profissionais) era italiana, seguindo-se os nascidos em Portugal (37 profissionais).7 A anlise do perfil dos mdicos italianos aponta a origem meridional, com prevalncia dos diplomados pela Universidade de Npoles (44%, 96 mdicos), diferentemente da origem setentrional da maioria dos emigrados desse pas. Aps a Primeira Guerra, o nmero de mdicos italianos inscritos chegou ao pice, decaindo, aps o incio da Segunda Guerra, a um nvel inferior soma das demais nacionalidades (Grfico 5). Os vizinhos latino-americanos entraram a partir de 1910, quando se inscreveu um mdico argentino (11 registros para o perodo da mostra). Em 1917, registrou-se o primeiro uruguaio (dois no total); em 1931, chegou um paraguaio (trs no total); em 1932, um chileno (dois no total) e em 1942, o nico mexicano. No se verificou na amostra uma correlao entre o nmero de imigrantes do sexo masculino e feminino e o de mdicos e de mdicas registrados. Apesar da imigrao em massa de italianos e do grande nmero de mdicos (214), apenas uma mdica italiana requereu inscrio, contra uma belga (para nenhum mdico identificado dessa nacionalidade), uma let (para um mdico compatriota); duas russas (para 11 mdicos russos).

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Grfico 5 Mdicos estrangeiros registrados por ano, italianos e demais naturalidades identificadas

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

Quadro 3 Mdicas segundo nacionalidadePas Brasil Alemanha Rssia Blgica Frana Hungria Itlia Letnia Portugal Total Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978)Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943) Total 80 3 2 1 1 1 1 1 1 91

Formao No perodo da amostra funcionavam 13 faculdades no Brasil. A maioria estava localizada no Sudeste (sete), trs na Regio Sul, duas no Nordeste e uma no Norte (ver Quadro 4). Todas as faculdades estavam situadas nas capitais, e o Estado do Rio de Janeiro possua o maior nmero de escolas (quatro). So Paulo possua, ento, duas escolas, uma pblica e outra privada.114

Quadro 4 Escolas brasileiras de Medicina por data de fundao e localizaoNome Faculdade de Medicina da Bahia (FMBa) pblica Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ) pblica Faculdade de Medicina de Porto Alegre privada, federalizada em 1931 Faculdade de Medicina de Belo Horizonte privada, federalizada em 1931 Faculdade de Medicina Homeoptica do Rio de Janeiro; Instituto Hahnemanniano privada Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo (FMUSP) pblica Faculdade de Medicina do Paran privada, federalizada em 1950 Faculdade de Medicina Homeoptica do Rio Grande do Sul; Escola Mdica Cirrgica de Porto Alegre privada; federalizada em 1931 Faculdade de Medicina do Par privada, federalizada em 1950 Faculdade de Medicina do Recife privada, estadualizada em 1931; federalizada em 1939 Faculdade Fluminense de Medicina (FFM) privada, estadualizada em 1929 Escola Paulista de Medicina (EPM) privada; federalizada em 1956 Faculdade de Cincias Mdicas Universidade Estadual do Rio de Janeiro privada; estadualizada em 1950 Fundao 1808 1808 1899 1912 1913 1913 1914 Cidade e estado Salvador (BA) Rio de Janeiro (RJ) Porto Alegre (RS) Belo Horizonte (MG) Rio de Janeiro (RJ) So Paulo (SP) Curitiba (PR)

1914

Porto Alegre (RS)

1919 1920 1926 1933 1937

Belm (PA) Recife (PE) Niteri (RJ) So Paulo (SP) Rio de Janeiro (RJ)

Fonte: Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943); a partir de dados coletados de SARINHO (1989); FUNDAO OSWALDO CRUZ (2009).

Inicialmente, registraram-se mdicos formados pelas duas faculdades mais antigas do pas, a Faculdade de Medicina da Bahia e a do Rio de Janeiro, e, por faculdades estrangeiras. O fim da restrio abertura de escolas mdicas no Brasil se deu com a Repblica: em 1899 comeou a funcionar a escola de Porto Alegre e, nos anos 1910, foram inaugurados vrios estabelecimentos, alguns deles com vida efmera, outros permanecendo em atividade por alguns anos, outros ainda em funcionamento at hoje. Desde 1891 discutiu-se em So Paulo a fundao de uma escola mdica, sendo sancionada a Lei n 19, criando uma academia de medicina, cirurgia e farmcia na capital paulista. A lei no saiu do papel. Por 20 anos a idia no vingou, podendo-se afirmar que no havia consenso em torno dos projetos, nem mesmo da necessidade de criao de uma escola mdica, alm115

da rivalidade entre quem comandaria o processo. A formao de mdicos no Estado no era ento vista como sendo prioritria, diferentemente da engenharia e da agricultura. At mesmo alguns mdicos eram contra: a criao da escola mdica iria aumentar de nmero de profissionais, dificultando a sobrevivncia dos que j estavam no mercado, aviltando o exerccio. Outro ponto de discrdia era a grade curricular, o tipo e o nmero de anos necessrios para a formao e a aproximao com a Escola de Farmcia.8 Em 1911, o mdico Eduardo Augusto Ribeiro Guimares fundou uma faculdade de medicina na Universidade Livre de So Paulo, congregando um nmero expressivo de representantes ilustres do campo mdico paulista. Apesar do grande nmero de alunos inscritos, a proposta de ensino e a acolhida pelos pares no foram unnimes: no ano seguinte foi fundada uma escola oficial a Faculdade de Medicina e Cirurgia de So Paulo (FMUSP), que praticamente aniquilou o curso particular.9 Se ao iniciar as atividades em 1913, a nova faculdade no limitou o nmero de matrcula de alunos, na dcada de 1930 foram fixadas 70 vagas, bastante aqum da procura. Artigos publicados nos jornais em 1933 reportam-se situao vivida no estado de So Paulo, apontando a falta de vagas, a necessidade de mdicos, e conseqentemente, o pequeno nmero de profissionais paulistas formados em So Paulo: Tal circunstncia, aliada s demais condies determinantes da orientao vocacional, e ao sempre poder de absoro de novos mdicos, cuja falta cada dia mais se faz sentir por todo nosso Estado, onde h ncleos inteiros de populao desprovidas de recursos clnicos, deu o resultado de cursarem atualmente as demais escolas brasileiras, cerca de mil e quinhentos jovens paulistas. Esse fato, se tem constitudo um elemento importante para a unidade espiritual brasileira, no tem sido sem dano para a famlia e a economia paulista [...] so milhares de contos desviados anualmente da economia paulista. (ALBERNAZ, 1968, p. 4-5) A evaso de paulistas para estudar em outro estado da federao fica evidente nos livros de registros do servio de fiscalizao profissional. A anlise dos dados referentes formao dos mdicos em exerccio no mercado de trabalho paulista aponta para a predominncia de alunos formados pela FMRJ, que corresponde a 48% do total da amostra, sendo a maioria deles (51%) natural de So Paulo. (Quadro 5) A comparao dos dados referentes naturalidade e a escola de formao informa que no h correlao imediata entre o local de diploma e o de nascimento (Quadro 6a). Em meados dos anos 1930 houve um aumento significativo de registros de alunos paulistas formados por escolas situadas em outros estados, egressos do Instituto Hahnemanniano (63% do total de 232 eram nascidos em SP), da Faculdade Fluminense de Medicina (76%116

dos 271) e da Faculdade de Medicina do Paran (70% dos 240). Verifica-se que os mdicos paulistas recm-formados retornavam para o Estado para o exerccio profissional. No foram localizados em So Paulo registros de alunos formados pela Faculdade de Medicina Homeoptica do Rio Grande do Sul, fundada em 1914.10 Fazendo um recorte por sexo, constata-se que as mdicas formaramse em 9 escolas, das 13 ento existentes no Brasil, sendo a FMUSP e a FMRJ as principais escolas de formao. Das 26 mdicas formadas pela FMRJ, 21 eram naturais de So Paulo, duas do Rio de Janeiro e trs de Minas Gerais. Com exceo da FMRJ, h prevalncia de mdicas formadas pelas escolas do estado em que nasceram. No h grande mobilidade para outros locais, como aconteceu com os profissionais masculinos. As paulistas, alm da FMRJ, foram para a FFM (trs registros), a FMBa, o Instituto Hahnemanniano e a FMParan (um registro cada).

Quadro 5 Mdicos registrados por faculdadeFaculdade 1892 1893 1898 FMRJ FMUSP FMBa FFM EPM FMParan I.Hahnemanniano FMBeloHorizonte FMRecife FMPortoAlegre FMPar FCinciasMdicas Instituies Estrangeiras s/inf.* Total 54 4 22 3 179 117 136 205 444 822 945 975 32 35 36 26 84 68 55 16 1 1.450 1.520 1 3 6 20 6 6 11 1 9 1 5 1 1 12 6 20 92 99 60 7 3 1 26 58 38 30 43 80 24 96 1899 1903 47 1904 1908 71 1909 1913 126 1914 1918 331 1919 1923 485 119 99 1924 1928 552 207 91 1929 1933 579 226 57 18 1934 1938 628 264 136 143 1939 1943 349 369 120 110 257 105 120 44 24 5 2 2 13 Total 3.288 1.185 778 271 257 240 232 145 32 18 4 2 391 4 6.847

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

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Quadro 6a Naturalidade dos mdicos brasileiros nascidos nos quatro estados com maior incidncia de registros, segundo escola de formao

Faculdade FMRJ FMUSP FMBa EPM FMBeloHorizonte FMPortoAlegre FFM I.Hahnemanniano FMPar FMRecife FMParan FCincias Mdicas Instituies Estrangeiras Total

SP 1.681 1.054 61 232 49 3 206 148 2 168 1 75 3.681

MG 470 46 20 10 87 17 20

RJ 528 19 18 3 1 1 25 32

BA 46 2 506

2 1 2

16 3 689

1 3 631

2 1 562

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

Faculdades de Medicina paulistas Em 1920, quando se inscreveu Benjamim Reis, primeiro aluno formado pela FMUSP, 18 colegas da mesma instituio requereram seus registros no Servio Sanitrio. Entre 1920 e 1943, ou seja, em 13 anos, entraram 5.570 mdicos no mercado de trabalho paulista. No mesmo perodo, 1.306 formaram-se pela FMUSP, sendo que 1.185 se registraram, o que indica que 92% dos ex-alunos da Casa de Arnaldo procederam ao registro para exerccio da profisso em So Paulo. A FMUSP era um reduto de homens e mulheres paulistas: 1.055 (89%) eram naturais do Estado. A representao de outros estados era de 8,5% e de estrangeiros, 2,5%. O nmero de inscries de alunas egressas da FMUSP no Servio Sanitrio foi irregular (de zero a cinco registros por ano). No entanto, as inscritas somam 2,4%, maior que a porcentagem de mdicas registradas no perodo. Das registradas, 23 eram naturais de So Paulo, duas de Minas Gerais, duas do Rio de Janeiro e uma de Pernambuco. Entre 1938 e 1943, a EPM diplomou 310 mdicos, dos quais 257 se inscreveram no Servio Sanitrio. Assim como a FMUSP, a EPM era um reduto de paulistas (232 eram naturais do Estado). A participao feminina118

foi de 2,3%, percentagem prxima da FMUSP (seis alunas, quatro nascidas em So Paulo, uma em Pernambuco e uma na Alemanha). A primeira mdica descendente de japoneses a obter registro profissional, foi Hisako Watanabe, nascida em Catanduva em 1916 e formada em 1943. Em 1943 as duas escolas forneceram maior nmero de profissionais para o mercado de trabalho paulista (148 mdicos), enquanto das demais escolas somadas totalizaram 128.Tabela 1 Mdicos registrados por sexo e formados pelas FMUSP e EPM at Homens Mulheres Total N. 1157 28 1185 FMUSP % 97,6 2,4 100 N. 251 6 257 EPM % 97,7 2,3 100 N. 1408 34 1442

1943Total

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1920-1943)

Grfico 6 Mdicos formados pela FMUSP e pela EPM em relao aos formados por outras instituies (1920-1943)

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros do Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1920-1943)

Mdicos diplomados por instituies estrangeiras Dos 391 mdicos diplomados em instituies estrangeiras que exerceram em So Paulo entre 1892 e 1943, 285 nasceram no exterior e119

106 (27%) no Brasil, dentre esses, 75 (70%) no Estado de So Paulo. Nas duas primeiras dcadas da Repblica, os brasileiros buscaram formao na Frana e nos Estados Unidos, principalmente nas Universidades de Paris e da Pensilvnia. Vrios dentre os mdicos formados pela Universidade da Pensilvnia tiveram um papel de destaque na medicina paulista como, por exemplo, Benedito Augusto de Freitas Montenegro, que foi diretor da FMUSP; L. Job Lane, diretor do Hospital Samaritano; Antonio Gomes da Silva Rodrigues, que trabalhou com Vital Brasil; Alexandrino de Moraes Pedroso, que foi diretor no Instituto Bacteriolgico do Estado de So Paulo (ATIQUE, 2007). O primeiro registro de brasileiro formado na Itlia foi o do talobrasileiro Giuseppe Cioffi, de Guaratinguet, diplomado pela Universidade de Npoles em 1902. O mdico revalidou o diploma na FMRJ em 1905 e, no mesmo ano, registrou-se em So Paulo. At 1912, poucos brasileiros estudaram em escolas mdicas italianas. A partir de 1913, aumentou a freqncia de talo-brasileiros diplomados na Itlia que retornaram para So Paulo para trabalhar. A Universidade de Npoles foi o destino da maioria dos brasileiros que escolheram a Itlia para formao (32 dos 57 nascidos no Brasil). A entrada no mercado de trabalho de mdicos formados no exterior (brasileiros e estrangeiros) foi irregular, havendo anos nos quais no se efetuou qualquer registro, contra outros cuja soma excedeu ao de formados por instituies nacionais como em 1920: dos 39 mdicos que procuraram o Servio Sanitrio, 21 eram formados por escolas estrangeiras, 17 deles pela Universidade de Npoles. Conseqncia da Primeira Guerra Mundial? Questo que precisa ser investigada. A partir de 1930 cai efetivamente o ndice dos inscritos, formados no s pela referida faculdade, como nas demais. No foi constatado um nico caso de estudante brasileira (sexo feminino) que tenha seguido para a Itlia, a fim de cursar medicina e efetuado registro para clinicar em So Paulo. Entre 1892 e 1919, das seis mdicas registradas em So Paulo, quatro tinham se formado fora do Brasil (trs estrangeiras e uma brasileira), caindo significativamente a proporo de diplomas estrangeiros a partir da dcada de 20 (quatro entre 1920 e 1943). ngela Mesquita, nascida em So Paulo, foi a nica brasileira a se formar no exterior. Diplomou-se pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos em 1917 e segundo o Livro n.3 de Registro de Mdicos do Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional, foi habilitada to somente para o exerccio de qumica homeoptica (Livro 3 de Registros, p. 155) pelo Instituto Hahnemanniano no Rio de Janeiro, em 1919. Ela era filha de Igncio Xavier Paes de Campos de Mesquita, que ocupou por muito tempo o cargo de mdico da polcia em So Paulo. Durante a gripe espanhola, ela trabalhou juntamente com o mdico homeopata Alberto Seabra (BERTUCCI, 2004).120

Grfico 7 Mdicos diplomados no exterior

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

Tabela 2 Mdicos diplomados pela Universidade de Npoles segundo nacionalidadePas Itlia Brasil Paraguai s/inf. Total N 96 32 1 3 132 % 72,7 24,2 0,8 2,3 100,0

Fonte: Projeto Histria das/os Trabalhadoras/es da Sade (1892-1978) Livros de Registros Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional (1892-1943)

Mdicos em exerccio em So Paulo Os dados levantados nos livros de registro do Servio de Fiscalizao do Exerccio Profissional, apesar de fornecerem informaes valiosas e possibilitarem diferentes recortes, permitem um retrato da inscrio a entrada de mdicos e de mdicas ano a ano no mercado de trabalho. Com exceo talvez para o ano de 1892, o levantamento por si s no possibilita conhecer o montante de profissionais em exerccio em determinado perodo. Durante alguns anos, nas duas primeiras dcadas do sculo XX, a Gazeta Clnica, revista mdica publicada em So Paulo (1903-1949), apresentou a relao de mdicos residentes na capital e de domiciliados no interior de So Paulo. Em 1915 o Estado tinha uma populao de aproximadamente 3.890.140 habitantes. Foram levantados 805 mdicos, distribudos em 175 municpios (contra 57 sem mdicos), sendo 332 mdicos na capital e121

473 no interior, com destaque para Santos (45) e Campinas (30), cidades com maior nmero de profissionais. Encontra-se na listagem duas mdicas residentes na capital: a nossa j conhecida Maria Rennotte e a portuguesa Casemira Loureiro (esta ltima efetuou o registro no Servio Sanitrio dois anos depois, em 1917). No perodo, apesar de haver um maior nmero de mdicos no interior, no h notcias de representantes do sexo feminino. No incio dos anos 1940 foi feita uma pesquisa pelo Departamento Estadual de Estatstica Seo de Estatstica Militar (SEM) de So Paulo que resultou no livro Registro de Mdicos do Estado, publicado em 1944. O levantamento foi realizado pela coleta de dados fornecidos pelos servios de fiscalizao e controle do exerccio da medicina no Estado e por meio de informaes fornecidas pelos prprios mdicos. No levantamento esto relacionados nome, nacionalidade, idade, estado civil, ano de diploma e nome da instituio, endereos comercial e residencial, especialidades, idade, publicaes, nmero de mdicos no servio pblico, instituies e entidades voltadas para a Sade, da capital e do interior referente ao ano de 1943. So Paulo possua, ento, uma populao de aproximadamente 7.729.000 habitantes e 4.402 mdicos assim distribudos: na capital para 1.407.683 moradores, havia 2.381 mdicos (16,91 por 10 mil habitantes). Nos 269 municpios do Estado havia 2.021 mdicos para os 6.321.317 habitantes (3,2 no interior por 10 mil habitantes). Ou seja, em 30 anos a capital passou a concentrar maior nmero de mdicos que o interior do estado; havendo um aumento no nmero de profissionais de 2,06 por 10 mil habitantes em 1915, para 5,69 em 1943.Tabela 3 Nmero de mdicos e mdicas em exerccio em So Paulo em 1943 Homens Mulheres Total Capital 2.342 39 2.381 % 53,2 0,9 54,1 Interior 2.006 15 2.021 % 45,6 0,3 45,9 Total 4.348 54 4.402 % 98,8 1,2 100,0

Fonte: a partir de dados coletados de SO PAULO (1944)

Campos do Jordo (11,76 /10 mil habitantes), reconhecida estao de tratamento de tuberculose na poca, era o segundo municpio com maior nmero de mdicos por habitantes, seguido de Catanduva (8,23 /10 mil habitantes). O municpio de Bauru, que abrigava desde 1933 um asilocolnia para tratamento de hansenase possua 7,54 mdicos por 10 mil habitantes. Havia 25 municpios no Estado sem mdicos. A populao do estado dispunha de 309 unidades hospitalares sendo 67 na capital e 242 localizadas nos municpios do interior. No mercado mdico paulista encontram-se representantes de 20 estados brasileiros (no122

h meno a nascidos no territrio do Acre, como nos livros de registro). A predominncia era de profissionais naturais de So Paulo. Em segundo lugar, destacam-se os nascidos em Minas Gerais, seguindo-se os do Rio de Janeiro (somando-se os nascidos no ento Distrito Federal e no estado do Rio de Janeiro). Os naturais do Amazonas, Bahia, Esprito Santo, Gois, Minas Gerais, Par, Paraba, Rio Grande do Norte, Sergipe e Piau estabeleceram-se primordialmente no interior. Destaca-se o Estado do Piau: dos 12 mdicos, todos estavam sediados no interior de So Paulo (Quadro 6b).Quadro 6b Naturalidade de mdicos nascidos no Brasil em exerccio no Estado de So PauloEstado SP MG BA RJ PE PR RS CE AL MA PA MT PB PI AM SE GO SC ES RN s/inf. Total 3 4 3 4 1 2 98 2.176 35 3 4 3 4 1 2 98 2.211 Homens 1.640 127 58 120 22 21 23 9 10 10 8 10 3 1 1 1 1 1 Capital Mulheres 30 Subtotal 1.670 127 59 121 23 22 24 9 10 10 8 10 3 Homens 1.189 211 181 112 30 13 10 20 12 12 11 5 12 12 7 6 6 3 5 3 79 1.939 13 1 Interior Mulheres 5 4 3 Subtotal 1.194 215 184 112 30 14 10 20 12 12 11 5 12 12 7 6 6 3 5 3 79 1.952 Total 2.864 342 243 233 53 36 34 29 22 22 19 15 15 12 10 10 9 7 6 5 177 4.163

Fonte: SO PAULO (1944, p. 10)

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O maior nmero de mdicos estrangeiros em exerccio no Estado era nascido na Itlia; no havendo representantes do sexo feminino dessa nacionalidade exercendo em 1943. Os mdicos nascidos no exterior concentram-se na capital, conforme Quadro 7. No que se refere formao, os dados colhidos no Registro de Mdicos do Estado (SO PAULO, 1944) informam sobre a existncia de profissionais diplomados por 11 escolas mdicas brasileiras (no h referncia Faculdade de Cincias Mdicas do Rio de Janeiro, portanto uma a menos do que nos livros de registro acima analisados).Quadro 7 Mdicos estrangeiros e naturalizados brasileiros segundo pas de origem e local de atuao no estado de So PauloPas Capital Itlia Rssia Sria Portugal Argentina Alemanha Romnia Hungria Uruguai Japo ustria Frana Polnia Espanha Paraguai Letnia Sua Irlanda Outros Total 81 39 120 3 3 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 4 7 3 3 3 2 1 2 1 1 13 89 4 30 17 119 3 3 50 2 2 2 2 4 1 1 5 Estrangeiros Interior 25 Subtotal 75 2 3 7 2 5 Capital 21 15 13 7 7 5 4 2 1 1 2 1 Naturalizados Interior 8 1 5 7 1 1 Subtotal 29 16 18 14 8 6 4 2 3 2 104 18 21 21 10 11 4 5 3 9 3 3 3 2 1 2 1 1 17 239 Total

Fonte: SO PAULO (1944, p.11-12)

O estado do Rio de Janeiro comparece com alunos formados por trs escolas, seguido por So Paulo (duas), e os estados da Bahia, Minas Gerais, Paran, Pernambuco e Rio Grande do Sul (uma). A maioria dos124

mdicos em exerccio diplomou-se pela FMRJ, havendo maior nmero no interior. Dos formandos nas 11 escolas nacionais, 54% atuavam na capital e 45% no interior. A permanncia dos profissionais na cidade de So Paulo aps a concluso do curso foi a opo de 82% dos formados pela FMUSP e de 84% dos formados pela EPM. Entre os diplomados nas demais escolas do pas, apenas os egressos da FMPar permaneceram na capital em sua totalidade. Os procedentes das demais escolas seguiram freqentemente para as cidades do interior, como possvel verificar no Quadro 8.Quadro 8 Mdicos atuando na capital e no interior do Estado de So Paulo segundo escola de formaoInstituio Capital Homens FMUBrasil FMUSP FMBa EPM FFM FMUParan FMUMG IHanehmaniano FMUPE FMURS FMUPar Instituies Estrangeiras Total 881 829 98 174 98 61 35 20 10 7 4 125 2.217 2 39 Mulheres 7 18 4 5 1 2 Subtotal 888 847 102 179 99 63 35 20 10 7 4 127 2.381 54 1.952 1 15 55 2.021 Interior Homens 1.146 185 235 33 110 114 69 47 11 2 1 3 Mulheres 5 1 3 1 Subtotal 1.151 186 238 34 110 117 69 48 11 2 2.039 1.033 340 213 209 180 104 68 21 9 4 182 4.402 Total

Fonte: SO PAULO (1944, p. 13)

A presena das mdicas em 1943 era de 1,2% dos profissionais no mercado de trabalho (Quadro 9). Assim como os mdicos, a maioria foi atrada para a cidade de So Paulo. Dos 245 municpios com mdicos (includo a capital), 12 possuam profissionais do sexo feminino. No interior, as mdicas residiam em cidades com populaes entre 180 mil e 30 mil habitantes. Em Sorocaba, estava em exerccio a mdica com mais idade e anos de experincia, a paulista Ursulina Lopes Torres, nascida em 1882 formada em farmcia em 1901, no Rio Grande do Sul, e em medicina, em 1908, no Rio de Janeiro. Aurora Conceio e seu irmo Nilo Conceio, nascidos em Limeira e formados pela FMRJ, exerciam em Ribeiro Preto e Ivone Xavier Funes, casada com o colega da Faculdade de Medicina do Paran, exercia em Avar.125

As mulheres em exerccio na capital e no interior dedicavam-se em sua grande maioria ginecologia, obstetrcia, pediatria e clnica mdica. Um nmero restrito de mdicas tinha como especialidade neurocirurgia, tuberculose, anatomia e dermatologia. Jandira Planet do Amaral, formada pela FMUSP trabalhava no laboratrio de bacteriologia do Instituto Butantan, em So Paulo, onde foi diretora entre os anos 1968 e1975. As mulheres nascidas fora do Brasil vieram da Letnia (uma), da Frana (uma), da Rssia (duas) e da Alemanha (duas). Dentre as estrangeiras, destaca-se a let Margot Anderson, formada pela Universidade da Letnia, cujo diploma foi revalidado na Bahia, que trabalhava no Hospital de Varpa, colnia de imigrantes letes de religio batista, prximo a Pompia e Tup (regio conhecida como Alta Paulista).Quadro 9 Nmero de mdicas nos municpios do Estado de So PauloMunicpio So Paulo Santos Araatuba Ribeiro Preto Jaboticabal Avar Campinas Mogi das Cruzes Piraju Pompia So Joo da Boa Vista Sorocaba Total Fonte: SO PAULO (1944). N 39 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 54

A pesquisa realizada pelo servio de Estatstica Militar identificou que do total de 239 mdicos nascidos no exterior 119 naturalizaram-se brasileiros.

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Parte 2 Medicina e as artes de curar em municpios paulistas

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A Medicina e a Lei: o Cdigo Penal de 1890 e o exerccio de curar. Prticas mdicas e autos criminais em Bragana: assimetrias da modernizaoMaria Gabriela S. M. C. Marinho1 Fernando Salla2 O artigo analisa dois inquritos policiais datados do incio do sculo XX, extrados do Fundo do Poder Judicirio da Comarca de Bragana3 e enquadrados no captulo de Crimes contra a Sade Pblica, conforme a tipificao do Cdigo Penal de 1890. Promulgado segundo a moldura republicana, trata-se do primeiro cdigo penal brasileiro a estabelecer sanes legais em relao ao exerccio da medicina e a prticas consideradas lesivas sade da populao4. Os inquritos relacionam-se direta e indiretamente aos artigos 156 (charlatanismo e exerccio ilcito da medicina) e 157 (magia, espiritismo, curandeirismo) que estabelecem penas diferenciadas para as duas tipificaes. Em relao ao charlatanismo e exerccio ilcito da medicina, o Cdigo prescrevia priso de um a seis meses e multa. Para magia, espiritismo, curandeirismo, a pena poderia ser muito maior: priso de um a seis anos e multa. Uma dimenso relevante para a anlise refere-se assimetria das punies atribudas em cada uma das tipificaes. Desde o pioneiro trabalho de Rusche e Kirchheimer (1939), as punies podem ser encaradas como resultantes da estrutura de determinada sociedade. Elas expressariam,1 Maria Gabriela da Silva Martins da Cunha Marinho docente e pesquisadora da Universidade Federal do ABC (UFABC) onde atua nos bacharelados de Cincia e Tecnologia (BCT), Cincias e Humanidades (BCH) e no Mestrado em Cincias Humanas e Sociais,nas rea dePolticas Pblicas para Cincia, Tecnologia e Inovao. Pesquisador do Ncleo de Estudos da Violncia (NEV-USP) e professor da Universidade So Francisco (USF) As informaes que permitiram a elaborao deste artigo resultam de coleta realizada pelo projeto de pesquisa A modernizao do sistema de justia criminal da regio de Bragana Paulista (18901940), financiado pelo CNPq-USF. A documentao, proveniente do Fundo do Arquivo do Poder Judicirio da Comarca de Bragana, encontra-se depositada no Centro de Documentao e Apoio Pesquisa em Histria e Histria da Educao da Universidade So Francisco (CDAPH-USF), localizado no campus de Bragana Paulista. No projeto financiado pelo CNPq foram examinados cerca de 530 processos criminais. No Cdigo Penal de 1890 l-se: CAPITULO III, DOS CRIMES CONTRA A SAUDE PUBLICA: Art. 156. Exercer a medicina em qualquer dos seus ramos, a arte dentaria ou a pharmacia; praticar a homeopathia, a dosimetria, o hypnotismo ou magnetismo animal, sem estar habilitado segundo as leis e regulamentos: Penas - de priso cellular por um a seis mezes e multa [...]. Art. 157. Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilegios, usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de odio ou amor, inculcar cura de molestias curaveis ou incuraveis, emfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica: Penas - de priso cellular por um a seis mezes e multa [...]. 1 Si por influencia, ou em consequencia de qualquer destes meios, resultar ao paciente privao, ou alterao temporaria ou permanente, das faculdades psychicas:Penas - de priso cellular por um a seis annos e multa [...]. BRASIL (1890). Uma anlise mais especifica do Cdigo encontra-se em Alvarez, Salla e Souza (2003).

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segundo aqueles autores de influncia marxista, um mecanismo basicamente de dominao de classe. Michel Foucault (1987) foi quem mais ampliou a anlise sobre os sistemas punitivos desvendando os seus elementos enquanto tecnologia de poder. Mais recentemente, David Garland (1990), seguindo em parte as idias de Foucault, props que a punio deva ser vista como uma instituio social, o que permite localizar as imagens que temos dela na estrutura mais ampla ao mesmo tempo em que sugere a necessidade de ver a pena conectada a uma rede mais ampla de ao social e significado cultural (GARLAND, 1990, p. 282). Nesse sentido, pode-se ver que as prticas penais falam sociedade no somente sobre crime e castigo, mas servem como uma estrutura de raciocnio que ajuda a organizar o mundo que conhecemos atravs daquilo que entendemos como bom e ruim, normal e anormal, legitimidade e ordem; e tudo isso nos ensina a julgar, a preservar a ordem e a comunidade (SALLA; GAUTO; ALVAREZ, 2006, p.343). Portanto, a partir dos inquritos selecionados possvel sugerir uma hiptese a ser investigada em profundidade e que implicaria analisar com mais detalhes as procedncias sociais dos imputados nas duas modalidades. Em um dos casos, o inqurito menciona explicitamente prticas de curandeirismo, embora o delegado responsvel tenha optado pelo enquadramento por vadiagem. A deciso legal indica a existncia de limites tnues entre uma situao e outra, no caso, entre vadiagem e prticas de magia, espiritismo, curandeirismo. Nesse sentido, acentua-se a distncia social entre os enquadrados nas duas tipificaes e ampliam-se, por decorrncia, as conseqncias reais. A mais evidente a disparidade das implicaes em relao aos atos praticados, como pode ser acompanhado com detalhes nos dois casos aqui abordados, conforme se v a seguir.

Fronteiras do ilcito: o caso Roberto SniorEm maro de 1901, o Hotel Central de Bragana5 cidade localizada5 As origens da cidade de Bragana remetem criao da freguesia de Conceio do Jaguari, em 1765. Sua elevao com o nome de Vila Nova Bragana ocorreu em 1797, quando se desmembrou da Vila de Atibaia. Assumiu a condio de cidade de Bragana em 1856 e a denominao de Bragana Paulista em 1940. Em grande parte, esse ncleo urbano esteve diretamente associado ao movimento de diferenciao territorial e econmica que se processou no interior do empreendimento colonial. Sua ocupao seguiu o movimento de interiorizao das atividades de apresamento de indgenas e busca de minerais preciosos. Regio de transformao lenta, a economia local esteve basicamente centrada na lavoura e na criao de pequenos rebanhos, com o predomnio de fazendas mistas cuja produo no se enquadrava nos grandes interesses mercantis da economia brasileira, voltados para as culturas de exportao [...]. S com a produo de caf que a zona bragantina, embora modestamente, se ligou s reas que representavam os interesses gerais da economia nacional (LEITE, 1974, p. 8). A exemplo do que ocorria em boa parte da provncia de So Paulo, na segunda metade do sculo XIX a produo de caf assumiu lugar relevante na economia local e desencadeou uma onda modernizante que tambm a alcanou. Cidade de porte mdio, Bragana conta atualmente com cerca de 110 mil habitantes, segundo o Censo Demogrfico de 2000. Localiza-se a 70 km da cidade de So Paulo e a 64 km de Campinas. Encontra-se prxima da confluncia de duas grandes rodovias: a estadual Dom Pedro I, que liga o litoral Norte ao interior do estado, e a federal Ferno Dias, que segue em direo a Belo Horizonte. referncia importante como acesso ao complexo hdrico da Cantareira, que abastece a capital paulista. A localizao prxima a Minas Gerais permanece relevante na atualidade.

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no interior de So Paulo a cerca de 90 km da capital e prxima divisa com o sul de Minas Gerais presenciaria uma movimentao incomum. Instalado na Rua Cel. Osrio e administrado por Anna Bernardina de Vasconcellos, que ali residia com sua famlia, o estabelecimento era bem estruturado e dividia com mais trs hotis, o Paulista, o dos Viajantes e o da Estao, o fluxo dos visitantes que chegavam cidade para negcios, passeios e demais interesses pblicos e privados. O servio de linhas telefnicas havia sido criado em Bragana cinco anos antes, em 1896, pela Empresa Telephonica Bragantina, que em 1900 controlava 80 aparelhos ligados ao comutador central, dotado de capacidade para 100 assinantes. Em 1901, ladeado pela Charutaria Chalet Sampaio e pelo Gabinete Dentrio Arthur Ribeiro e Francisco Ribeiro, o Hotel Central, como assinante da empresa telefnica local, dispunha de uma linha que atendia pelo nmero 35. Nas ruas prximas, o comrcio prspero e a oferta de servios variados conferiam ao pequeno ncleo urbano suas caractersticas de enclave moderno, a contrastar com o amplo territrio rural do entorno. Ali, na regio central da cidade, localizavam-se tambm a Rua do Commercio, o Largo da Matriz, a Rua Direita e a Rua do Mercado. Nesse recorte urbano era possvel encontrar equipamentos e produtos importados para a lavoura, assim como escritrios de advogados ou de escriturao mercantil, registro de hipotecas, comissrios de caf, farmcia, padarias finas e lojas de tecidos com grande sortimento de fazendas, armarinho, chapus, calados. A variedade do comrcio estendiase para a Fabrica de Violes e Violas e alcanava o Athelier Photographico, cuja especialidade em fotografia de grupos ou retratos de criana era preferencialmente executada em dias nublados e a preos razoveis6. Naquele ms de maro, porm, a quebra da rotina buliosa no pequeno enclave urbano seria assegurada pela presena de um forasteiro excntrico. A edio do jornal A Cidade de Bragana noticiava: Dr. Roberto Snior. Acha-se nessa cidade este hbil doutor em direito e Medicina, e sugestionador, que percorre o nosso Estado, proporcionando aos enfermos a cura por meio da fora sugestiva. O dr. Snior, que reside na capital federal, acha-se hospedado no Hotel Central. Boa ocasio se oferece agora para experimentarem o tratamento hipntico os doentes de molstias nervosas e outras rebeldes medicao comum7.6 As informaes sobre o Hotel Central e arredores encontram-se no Annuario de Bragana para 1902. Contudo, uma boa descrio do ambiente local encontra-se nA Casa de Bragana, como registra o trecho a seguir: A Casa de Bragana era uma construo antiga, sita Rua do Comrcio, 180, pouco abaixo da Igreja do Rosrio. [...] De outro lado, uma varanda, de onde se descia, por uma escada de tijolos, at o quintal, que ia dar na Rua do Mercado. [...] Na Rua do Mercado, em frente ao porto dos fundos, casas modestas de residncia e de comrcio. (LEME, 1981:18-19) Optou-se por manter a grafia original dos documentos consultados. O recorte do jornal Cidade de Bragana consta do processo de 1901 e no h data, provavelmente comeo de maro). Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Roberto SENIOR.)

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Alm da publicao no jornal, a presena de Roberto Snior era tambm anunciada, de modo ainda mais clamoroso, pelo folheto distribudo na cidade e que proclamava suas habilidades nos seguintes termos: Curas Miraculosas do mdico Roberto Snior Doutor em Direito, Farrmcia e Medicina. Mestre de ilusionismo, fsica recreativa, qumica, tica e hipnotismo. Premiado com medalha de ouro na Exposio Universal de Chicago de 1893. Prodigioso Sugestionador.8 Acha-se nessa cidade o grande sugestionador, Roberto Snior, que, tendo feito na Capital Federal, Benfica, Dores de Paraibuna, Palmira, Rio Novo, Guarany, Ub, So Joo Del Rei, Barroso, Barbacena, Leopoldina, Recreio, Lapa, Porto Novo, Barra do Pira, Cruzeiro, Cachoeira, Guaratinguet, Pindamonhangaba e Taubat curas to extraordinrias que excederam o maravilhoso, empregando para isto to somente a sua prodigiosa fora sugestiva e a de suas mos miraculosas sobre a parte afetada, foi considerado um ente divinamente privilegiado e proclamado bem-feitor consciente e abnegado da humanidade, recebendo por isso inmeras felicitaes e manifestaes de gratido e apreo de muitas populaes e entre elas as que se seguem [...]9. O apelo eloqente dos folhetos rendeu clientela diversificada para o mdico que pde acolher personagens distintos da sociedade local. Acometidas por males variados, figuras como Francisco de Assis Valle, o baro de Juquery, cuja surdez era notria, atenderam aos reclames de Roberto Snior e acudiram ao Hotel Central em busca das curas prometidas. Filas se formaram na rua do Comrcio e o atendimento foi organizado por grupos de onze pessoas ou individualmente, segundo critrios pouco esclarecidos no inqurito que a Delegacia de Polcia instaurou pouco depois, tamanho o alvoroo provocado na cidade pela presena do notrio ilusionista.8 A informao pode ser confirmada pela seo Variedades da Gazeta Medica da Bahia, de 1895, srie, XXVI, Anno IV, Vol V, que traz, sob o titulo O Brazil na seco de sciencias medicas da Exposio de Chicago, o relatrio do mdico Julio Brando, membro da Comisso brasileira na referida Exposio. No caso, a meno encontra-se feita ao sobrenome verdadeiro de Roberto Snior, cujo nome completo era Jos Roberto Cunha Sales, como ser detalhado mais adiante no artigo. Representante no jri internacional do departamento de artes liberais, Brando relata, nos seguintes termos, a participao brasileira no referido evento: [...] tendo sido eu o nico representante do Brazil no jury internacional do departamento de artes liberaes, no tive grande trabalho em obter prmios para os expositores brazileiros abaixo indicados, to bem acceitos e apreciados foram os productos por elles exhibidos. A difficuldade consistia somente no grande umero de prmios a conferir, o que poderia conferir suspeitas de parcialidade. Resolveram ento os juizes de minha seco premiar individualmente s os expositores de merecimento incontestvel, conferindo um premio collectivo s comisses estadoaes e da capital, pois que tal premio recairia moralmente nos outros expositores no contemplados. [...] Emquanto no vem a publico a lista official dos prmios conferidos aos expositores brazileiros, apresso-me a satisfazer a justa curiosidade e longa espectativa dos interessados desta capital e dos Estados, apresentando abaixo uma lista com o nome dos expositores nacionaes que na minha seo obctiveram o premio acima. [...] Artes liberaes Seco de hygiene e medicina [...] Grupo 148 [...] Cunha Salles (Dr) Rio de Janeiro [...]. Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Roberto SENIOR.)

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Ao se apresentar sob o pseudnimo de Roberto Snior, doutor em Direito, Medicina e Farmcia, Jos Roberto Cunha Sales realizava uma dupla operao. De um lado, encobria sua identidade de conhecido empresrio do ramo de diverses no Rio de Janeiro, envolvido com fraudes, escndalos, pedidos de patentes, loterias, inclusive o jogo do bicho. Contudo, fora pioneiro em um vistoso empreendimento na capital federal: o Pantheon Ceroplstico, que reproduzia em cera as mais variadas figuras e personalidades da histria brasileira, apelidados pela imprensa de poca como bonecos ptrios.10 Por outro lado, nas andanas pelo interior do pas, Cunha Sales selecionava de sua vida pregressa os aspectos que julgava mais atraentes de seu universo pessoal, cujos negcios voltados para o mundo do fantstico e do maravilhoso haviam-lhe conferido grande notoriedade no Rio de Janeiro, inclusive pela via de processos judiciais.1110 Outros detalhes sobre Roberto Snior podem ser encontrados na dissertao de mestrado que o relaciona a Paschoal Segreto, empresrio italiano identificado com a introduo do cinema no Brasil, conforme trecho a seguir: Paschoal Segreto, imigrante italiano, comeou sua vida no Rio de Janeiro como entregador de jornais. Com o tempo constituiu sua prpria rede de bancas e fez alguma fortuna com o comrcio de bebidas nos quiosques da Praa Tiradentes. Sua figura bonachona e paternal foi freqentemente associada jogatina ilegal e s prticas de enriquecimento ilcito. Assim como Cunha Sales, conhecido pelo pseudnimo e pelos negcios que mantinha como sendo o Dr. Roberto Snior, prtico em medicina, empresrio do lazer, proprietrio de teatros, casas artsticas e de divertimento. Presidente do Centro Protetor dos Artistas Eqestres e Ginastas, autor do drama lrico A Filha do Maestro e da pea teatral A Esttua de Otero. Fundador da Companhia de Maravilhas Cientficas e da Companhia de Novidades Excntricas, do Museu de Cera Pantheon Ceroplstico. Inventor e fabricante de xaropes, reguladores femininos e sabes higinicos e teraputicos genuinamente nacionais, criou, entre outros: o Sabo Mgico ou Sabo Santo, para sardas e manchas; a Lavagem Americana, que lavava roupas sem sabo; o remdio Americano, para o estmago; e o rejuvenescedor Virgolina (REIS JUNIOR, 2008, p. 42). 11 Sobre as mltiplas atividades de Cunha Sales, aponta Martins: Um outro exemplo de utilizao das patentes industriais para associ-las ao jogo foi feito por Jos Roberto da Cunha Sales, um dos recordistas em pedidos de privilgios, constando em seu nome vinte e seis registros de patentes. Suas invenes eram bastante diferentes entre si, tais como um conhaque destinado cura de molstias do estmago e dos intestinos; cartes para a fiscalizao da renda das companhias de bondes; um xarope destinado cura da tuberculose, laringite, asma, coqueluche, bronquite e tosse; um mapa da inveno de um mtodo de escrita musical; um processo para extrair, da gua do mar, sal, soda, magnsia, cido clordrico e seiva para lavoura; um carro destinado publicidade de anncios em tela contnua, iluminada luz eltrica, ou outra espcie, com exibio de vistas recreativas por meio de lanterna mgica, dentre outras. [...] Alm dessas existem ainda: processo de preparar a borracha em rolos, paes, tubos, folhas, fios, lminas e para objetos moldados e de vulcaniza-la, conhaque estomacal denominado Aperitivo Americano, novo sistema de anncios, em vidro, pintados em diversas cores e fotografados coloridos, Cristal-esmalte destinado a preservar da oxidao os objetos de ferro em folha e fundido sem se prejudicarem pela ao direta do fogo, composio de cal, cimento, argamassa, betume, morteiro e pouzzalanes hidrulicos, vinho toni-nutritivo denominado Vinho Vivificante, mtodo para aprender a ler e escrever pelos signos ou notas da msica ao mesmo tempo tambm se aprende pelos caracteres do alfabeto, aprendendo-se a ler escrever e compor msica, fabricao de porcelana opaca, fabricao do vidro solvel, difano, lioneu, boemico, em fio, e de objetos de tica, qumica e astronomia, Flint-Glass e Gras, depurativo Cajurema, destinado a cura de todas as molstias de origem sifiltica, e as de pele, elixir denominado Mata-febre, licor destinado a cura da dispepsia, licor destinado a cura e preveno da clera-morbus, placa destinada a fiscalizar o imposto predial, ponte flutuante movida a vapor, para carga e descarga de navios denominada Ponte flutuante, sistema de bilhetes para espetculos de teatro e diverses congneres, realizado mediante mquina, ponte flutuante denominada Ponte Catraia, xarope destinado a cura da tuberculose, laringite, asma, coqueluche, bronquite, e tosse, sistema de fotografia movimentada. [...] eram invenes que muitas vezes se destinavam a negcios ilcitos. Para alm dessas idias, existia larga quantidade de supostos remdios [...] Outro fator que fica claro quando se olha as patentes a similaridade com os inventos que existiam na Europa e nos Estados Unidos desde o sculo XIX. Os autmatos [...] bem como as invenes relativas ao cinematgrafo eram conhecidas principalmente na Frana. (MARTINS, 2004, p.77).

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Natural de Recife, onde nasceu em 1840, Cunha Sales formou-se em direito pela Faculdade do Recife, em 1862. Fez carreira na cidade de Paraba do Sul, interior do Rio de Janeiro, e consta que teria se formado em medicina nos Estados Unidos. Alm dos ttulos e das invenes patenteadas, possua vrias empresas em segmentos distintos. Uma de suas atividades no Rio de Janeiro foi a exibio de anncios atravs da lanterna mgica, direito obtido em 1896. Trs anos depois, em 1899, foi processado e multado por usar ilegalmente a concesso como instrumento do jogo do bicho. Em decorrncia, seus bens, mveis, utenslios, instrumentos de jogo, objetos de decorao foram confiscados para a Fazenda Pblica. Os litgios conduziram perigosamente sua reputao para a vala dos escroques. Em 1899, depois de 30 dias na cadeia, Cunha Sales desapareceu do Rio de Janeiro. 12 Em vista da experincia adquirida no Rio de Janeiro, o inqurito promovido pela Delegacia de Bragana certamente no provocou maiores dissabores ao mdico itinerante, que rapidamente deixou a cidade. As instncias locais, porm, movimentaram-se ostensivamente. Enquadrado por charlatanismo e exerccio ilegal da Medicina, foi denunciado pelo promotor pblico de Bragana. Em 8 de maro de 1901, a pea que fundamentou a denncia relatava que, mediante passes, gestos e palavras, Roberto Snior garantia a cura de todas as molstias, menos aleijo, conforme trecho reproduzido a seguir: Exmo. Sr. Tendo chegado ao conhecimento desta Promotoria achar-se nesta cidade o dr. Roberto Senior, inculcando cura de molstias incurveis, fascinando e subjugando a credulidade pblica e praticando o hipnotismo ou magnetismo animal, sem estar devidamente habilitado, segundo as leis ou regulamentos, requisito-vos com urgncia inqurito policial acerca desses fatos, que a serem verdadeiros constituem os crimes previstos pelos arts. 156 e 157 do Cdigo Penal da Repblica. Sade e Fraternidade Ao Exmo. Sr. Tenente Aleixo Leutino Dignssimo Delegado de Polcia em exerccio O Promotor Pblico da Comarca Bel. Jos Maximo Pinheiro Lima13Um ano antes de registrar a patente da lanterna mgica, em 1895, Cunha Sales j havia tido complicaes com a Justia. Era dele tambm a patente para a criao do Pantheon Ceroplstico. Seria ele o nico a poder reproduzir em cera personagens da histria do Brasil. Tinha-se a idia de que o Pantheon seria um museu de cera. No entanto, cada bilhete, que custava 1$000 (mil ris) poderia receber um prmio. Assim estava preparado o artifcio para a realizao do jogo. [...] Como prmio, o Pantheon oferecia uma gravura de Tiradentes, mas caso os ganhadores no quisessem to patritico prmio, o prprio Pantheon se encarregava de compr-lo de volta, por uma importncia em dinheiro. [...] A Revista Illustrada no poupou crticas dizendo que o Pantheon era um lugar para o jogo onde as datas ptrias e os vultos da nossa historia [eram] postas ao servio da tavolagem e do roubo organizado. (MARTINS, 2004, p.79) 13 Nos documentos analisados, verificou-se como raro o procedimento de o promotor apresentar direta12

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No mesmo dia, cinco das oito testemunhas arroladas foram intimadas a depor e compareceram s 4 e meia da tarde na sala das audincias do juiz de paz, no edifcio municipal, a fim de serem inquiridas acerca do Dr. Roberto Snior14. Nos depoimentos colhidos, as testemunhas afirmaram que o atendimento podia ser coletivo, em grupos de at 11 pessoas, ou individuais, como informa o relato abaixo, extrado do depoimento de Jos Hortencio da Costa Rezende, 60 anos: [...] ento o depoente perguntou se ele garantia a cura do eczema, molstia da qual sofre pessoa de sua famlia ao que respondeu o doutor Roberto que curava pelo preo de cinqenta mil ris em seis consultas e tendo o depoente oferecido o dobro, isto , a quantia de cem mil ris para que o doutor Roberto efetuasse a cura e recebesse essa importncia depois de feita a cura, ele no aceitou alegando no poder [...]; disse mais, que sabe por ter visto, que grande o nmero de pessoas que se acumulam em frente ao Hotel Central para terem as consultas do doutor Roberto e que este cobra das pessoas que podem pag-lo dez mil ris por consulta e dos que no tm recursos pecunirios, [ilegvel] que recebe o que elas puderem dar; disse mais o depoente que pode afirmar estar a populao desta cidade fascinada pelas curas que se anuncia do doutor Roberto Snior porque sabe que pessoas de consideraes sociais tm ido procur-lo na esperana de curar-se de molstias incurveis, como por exemplo sabe que o Baro de Juquery que sofre h muitos anos de surdez e outros incmodos dados pela medicina como incurveis, ter procurado o referido doutor sem pessoa alguma ter obtido resultado satisfatrio; disse finalmente que pelo que tem ouvido de pessoas de sua amizade, que tm procurado o doutor Roberto, que este no seu tratamento no tem havido resultado algum.15 As sucessivas oitivas sustentaram o argumento do exerccio ilcito da medicina defendido pelo delegado encarregado, que se expressou do seguinte modo: Pelo depoimento das cinco testemunhas inquiridas neste processo, acha-se plenamente provado que o dr. Roberto Snior (atualmente nesta cidade no Hotel Central) depois de ter espalhado boletinsmente a denncia ao delegado que promoveria o inqurito. Uma hiptese plausvel que tal pode ter ocorrido em razo do escndalo que vinha provocando a presena de Roberto Snior na cidade. Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR). 14 Testemunharam: Firmino Fres, 47 anos, natural do Estado de MG, casado, negociante; Jos Hortencio da Costa Rezende, de 60 anos, natural de Socorro, casado, proprietrio; Francisco Martins Ferreira Junior, 43 anos, casado, natural da cidade, negociante, todos residentes na cidade de Bragana. Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR) 15Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR)

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inculcando ser capaz de curar toda e qualquer molstia, tem fascinado a populao, tanto desta cidade como de seu municpio, sendo grande o nmero de pessoas que se dirige ao Hotel Central a fim de serem curadas. Acha-se igualmente provado que o doutor Roberto Snior recebe de cada pessoa que o consulta a quantia de dez mil ris por sesso ou aplicao e que os doentes nada tm aproveitado das suas maravilhosas aplicaes. Achando-se portanto satisfeito o que o Ilustrado Promotor Pblico desta Comarca, Dr. Jos Maximo Pinheiro de Lima, requereu na denncia de fls. 2. [...]. Bragana, 9 de maro de 1901. (a) Aleixo Leutino. 16 No mesmo dia, os autos foram encaminhados para o juiz Manoel Jos Villaa e remetidos ao promotor pblico. Nesta instncia, o promotor solicitou informaes Cmara para verificar se o denunciado recolheu taxas e impostos devidos, nos seguintes termos: O Promotor Pblico da Comarca precisa a bem dos interesses da Justia Pblica, que vos digneis certificar se o Dr. Roberto Snior tem pago na Tesouraria Municipal os impostos da profisso mdica que exerce nesta cidade. Bragana, 9 de maro de 1901. O Promotor Pblico Bel Jos Maximo Pinheiro Lima17 Por sua vez, despacho do procurador da Cmara certifica que nesta recebedoria no consta pagamento algum de imposto municipal pelo Dr. Roberto Snior. Na pgina seguinte, mais uma vez, nova solicitao do promotor para o secretrio da Cmara Municipal, com seguinte teor: O Promotor Pblico da Comarca precisa, a bem dos interesses da Justia Pblica, que vos digneis certificar se o Dr. Roberto Snior tem registrado nos livros da Cmara Municipal, na forma da lei, sua carta de mdico. O secretrio da Cmara, Jos Avelino, informa: Certifico que em virtude do pedido supra, revendo no arquivo da Cmara o livro de registro do mesmo no consta ter registrado sua carta de mdico o doutor Roberto Senior. O referido verdade.18 Com base nestes documentos e no relatrio do delegado, o promotor pblico apresenta sua denncia ao juiz de direito da Comarca, Manoel Jos Villaa, datada de 28 de maro de 1901, que reiterava argumento j constante da sua solicitao inicial autoridade policial:16 17 18 Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR) Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR) Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR)

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O denunciado, intitulando-se fundador da nova escola de alta magia sugestiva e professor de fsica recreativa, qumica, ilusionismo, tica e hipnotismo, estabeleceu nesta cidade no Hotel Central seu escritrio e a fez aplicao de seu sistema de cura que constitui o crime previsto pelo art. 156 combinado com art. 157 do Cdigo Penal. [...] Sendo portanto necessrio um sumrio de culpa para a prova do crime em que incidiu o Dr. Roberto Snior que tem recebido grandes quantias das pessoas a quem tem fascinado e iludido, oferece a Promotoria Pblica a presente denncia que espera ser recebida para os fins legais.19 Ao receber o processo, o juiz da Comarca, Manoel Jos Vilaa, requereu novos depoimentos. As testemunhas foram ouvidas na fase judicial ao longo do ms de abril, mas no processo consta que a intimao feita para comparecimento do prprio Roberto Snior no foi entregue, por ele se achar em lugar no sabido, o que deve indicar que provavelmente ele j tivesse se retirado da cidade. Em seu despacho final, em 29 de abril de 1901, o juiz inocentou o acusado, julgando improcedente a denncia20. Desfecho distinto verificou-se muitos anos depois quando, em 1914, instaurou-se inqurito policial para investigar prticas de curandeirismo, tachadas ento como feitiaria contra o mulato Ireno Sampaio, conforme anlise a seguir.19 20 Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1901 (Processo: Roberto SENIOR) A seguir, a ntegra da sentena: Pelo dr. Promotor Pblico da comarca foi denunciado o dr. Roberto Snior como incurso nas penas do art. 156 combinado com o art. 157 do Cd. Penal. Procedido o sumrio, em que foram inquiridas 5 testemunhas, opinou a promotoria que havia provas suficientes para pronncia. Da prova testemunhal resulta que: a) o denunciado no garantiu a sua cura; no sabe se ou no formado em medicina (1. Testemunha); b) ouviu dizer que o denunciado formado em medicina (2. Testemunha); b) [assim, no original] nem sabe se o denunciado mdico (3. Testemunha); c) ouviu dizer que o denunciado formado em medicina (4. Testemunha); d) [ilegvel] foi restituda a quantia pela qual contratou a cura de um menino, apresentado ao denunciado para curar (5. Testemunha). E tendo bem examinado e considerando que no ficou provado nos autos no ser o denunciado formado em medicina Considerando que o nus dessa prova competia acusao; Considerando que pela autoridade competente, nesta cidade, no foi exigido do denunciado a sua carta de doutor em medicina; ou se foi no consta destes autos; Atendendo que o fato do denunciado no ter pago o imposto municipal e no registrar o seu ttulo na cmara no infere-se que no seja mdico; Atendendo mais que dos autos no consta estar ou no o ttulo do denunciado registrado na diretoria de higiene do Estado (art. 26 do Dec. n. 87 de 29 de junho de 1892, que seu regulamento lei n. 43 de 18 de junho do mesmo ano, que organizou o servio sanitrio do Estado); Considerando que pelo art. 25 do referido Dec. permitido ao graduado em medicina o exerccio da arte de curar em qualquer dos seus ramos e em qualquer de suas formas; Considerando que pelo art. 156 do Cdigo Penal o graduado em medicina pode exercer esta em qualquer dos seus ramos; Considerando que no tem aplicao a hiptese e a suposio do art. 15? [h falha na caneta e no se sabe se menciona o 156 ou 157, embora parea ser 7]; do Cdigo Penal; Considerando que em caso de dvida se decide a favor do ru; Considerando que o D. Tribunal Federal j se pronunciou sobre a matria no processo Eduardo Silva; Considerando tudo isso e o que mais dos autos consta, julgo improcedente a denncia, pagando a cmara municipal as custas. Publicada, [ilegvel]. Bairro do [ilegvel Beri?] (em diligncia) em 29 de abril de 1901.Manoel Jos Villaa. Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO).

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Horizontes sombrios: o caso Ireno SampaioO segundo caso no envolve o cenrio urbano, mas um bairro da cidade, conhecido como Boca da Mata, hoje municpio de Pedra Bela, a 30 km de Bragana, prximo divisa com o Estado de Minas Gerais. Tratase de um inqurito policial no qual o delegado prende Ireno Sampaio pela contraveno prevista no art. 399 do Cdigo Penal (vadiagem), mas ao longo de todo o desenrolar do caso sua condio de curandeiro e de feiticeiro era colocada pela autoridade e pelas testemunhas. Instaurado em 1914, tratase de um episdio nebuloso que comea pela deteno do acusado para registrar em seguida o seu suicdio, na delegacia. A portaria do delegado que abre o inqurito determinava a lavratura de um termo circunstanciado do facto capitulado no artigo 399 do Cdigo Penal, tomando declaraes das testemunhas e do prprio contraventor. Dois dias depois, em 14 de abril de 1914, o delegado em diligncia ao bairro Boca da Mata, acompanhado de alguns soldados da Fora Pblica, prende Ireno Sampaio e lavrado o termo circunstanciado no qual ressaltam mais os aspectos relativos ao curandeirismo do que efetivamente a fatos relacionados vadiagem: Auto Circunstanciado: [...] o dr. Alfredo de Lima Camargo, delegado de polcia em diligncia acompanhado de uma escolta [...] prenderam ordem da mesma autoridade o indivduo Ireno Sampaio, de quarenta e um anos de idade, indigitado curandeiro, por meio de feitiarias, vagabundo de estradas, indivduo que trazia consigo no ato da priso uma garrucha de dois canos, carregada, uma faca cabo de osso e metal, bem assim um sapicu contendo objetos de que usam os feiticeiros, tais como: casca de lagarto, chifre de veado, razes e sementes de plantas etc. pelo que o apresentaram incontinenti referida autoridade, com os objetos apreendidos, tudo para os devidos fins. 21 Seguiram-se ento, seguindo o mesmo termo circunstanciado, os depoimentos das testemunhas. A primeira delas era Joo Pereira de Vasconcelos, 22 anos, casado, empregado pblico, que residia no aludido bairro Boca da Mata, sabia ler e escrever. Em seu depoimento, a faceta de curandeiro do acusado destacada: Disse que: de cincia prpria sabe que o indivduo Ireno Sampaio no exercita profisso, ofcio, ou outro mister lcito, de vida; no tem meios de subsistncia e domiclio certo em que habite, sendo certo que ele depoente tem visto o acusado vagando pelas21 Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO).

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estradas em completa vadiagem, entregando-se ilcita profisso de curandeiro, em cujas prticas emprega a feitiaria, subjugando assim a credulidade pblica e extorquindo dinheiro dos incautos, que lhe cahem nas mos.; que por ouvir dizer sabe que o mesmo accusado ultimamente se incorporou a um grupo de salteadores, hora operando nas divisas deste Estado com o de Minas Gerais.22 O depoimento da segunda testemunha, Benedito Dias de Moares, de 25 anos, muito semelhante ao primeiro, o que pode indicar que a sua transcrio tivesse algum vcio, pois as palavras so as mesmas do primeiro depoimento. O que se altera um pouco quando ele afirma que Ireno um indivduo vagabundo e pernicioso sociedade, pois se entrega prtica de curandices, empregando feitiarias e, tal como a primeira testemunha, diz que Ireno integra uma quadrilha de bandidos porque tem ouvido dizer ultimamente. A repetio dos termos lavrados para a primeira testemunha reproduz-se no s no segundo, mas tambm no terceiro e quarto depoimentos. Ou seja, pelo teor do registro, as testemunhas sabiam de cincia prpria que o acusado no tinha profisso, ofcio ou mister para ganhar a vida, no tinha local certo de moradia, que se entregava ao curandeirismo e aplicava feitiarias. A quinta testemunha, de 32 anos, militar, torna os argumentos acusatrios ainda mais precrios, pois reconhece que por ouvir dizer, sabe que o acusado Ireno Sampaio vagabundo, individuo que se d profisso ilcita de curandeiro, por meio de feitiarias; que dito acusado ultimamente se reuniu a uma quadrilha de salteadores que segundo consta, existe nas divisas deste Estado com o de Minas Gerais.23 Ireno Sampaio foi interrogado. Ele tinha 43 anos, era vivo, negociante avulso e curandeiro, residente em Campo Mstico (Bueno Brando) no estado de Minas Gerais. Ele no negou suas prticas de curandeirismo. Disse que quando foi preso, nesse mesmo dia em que depunha, estava a caminho de So Paulo, para onde levaria para um curandeiro de nome Jos Manoel os objetos hoje encontrados em seu poder e apreendidos. Reconhecia tambm que faz receitas, manda aviar nas farmcias os respectivos remdios, aplicando a doentes dos quais recebe apenas gratificaes. Negou, no entanto, que integrasse o bando que fazia assaltos na divisa dos estados de Minas e So Paulo. 24 No obstante os depoimentos frgeis das testemunhas como elementos geradores de prova, a negao do prprio acusado de integrar o grupo de salteadores e a inexistncia de outras provas efetivas, o delegado, depois de ouvir o acusado, disse que:Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO). Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO). Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO).

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Estando averiguado achar-se o acusado Ireno Sampaio incurso no artigo trezentos e noventa e nove do cdigo penal, fosse submetido a processo continuando detido, visto com a sua legitimao hora feita pesarem sobre a sua pessoa indcios fortes de mais graves imputaes, tudo na forma e sob as penas da lei25. No dia 15 de abril Ireno Sampaio deu entrada na cadeia e, no final da noite deste mesmo dia, teria cometido suicdio. A percia no cadver foi feita no dia 16 de abril. No laudo, os mdicos designados atestaram tratar-se de um homem pardo de quarenta e trs anos de idade presumveis de estatura regular, de compleio robusta; vestia camisa de chita riscada, cala e ceroula de algodo, descalo. O meio pelo qual teria suicidado teria sido o uso de uma cinta para se enforcar, com o auxlio de um cano da privada na cela. Para completar a investigao sobre as causas da morte de Ireno Sampaio, o delegado intimou algumas testemunhas: seu companheiro de cela e outro preso, alm dos policiais que estavam de servio.26 O preso companheiro de cela de Ireno chamava-se Antonio de Souza Moraes, vulgo Antonio Porfirio, tinha 22 anos e aguardava julgamento. Seu depoimento foi depois utilizado pelo delegado no encerramento do caso. Disse que s 23 horas na priso nmero 3 da cadeia: Ouviu seu companheiro de priso Ireno Sampaio dizer que, dentre os objetos que lhe foram apreendidos em diligencia pela delegacia de policia havia um livro que muito lhe comprometia; que passando pelo sono ele depoente foi despertado por um barulho na privada na mesma priso, ocasio em que viu dito companheiro pendurado por uma cinta encamada, atada ao pescoo e presa, ou melhor, amarrada no cano da privada, enforcando-se,; que tentou salv-lo mas no o conseguiu.27 A segunda testemunha era um militar que estava de servio e que, segundo o depoimento, viu que Ireno estava se enforcando, mas como estivesse fechada a priso ordenou a outro preso de salv-lo, no o conseguindo. J o outro militar que prestou depoimento disse que Ireno se enforcou com uma cinta, mas que ele, depoente, cortou [a cinta] com uma faca a mandado do carcereiro, medida alis sem resultado, pois o suicida j estava agnico. O depoimento do carcereiro tambm repetio dos anteriores, mas traz uma observao que seria depois usada pelo delegado:25Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO). Ver o Termo Circunstanciado do dia 14 de abril do inqurito. O artigo do Cdigo Penal refere-se a vadiagem: CAPITULO XIII, DOS VADIOS E CAPOEIRAS, Art. 399. Deixar de exercitar profisso, officio, ou qualquer mister em que ganhe a vida, no possuindo meios de subsistencia e domicilio certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupao prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e bons costumes: Pena - priso cellular por quinze a trinta dias. ( BRASIL, 1890) 26Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO). 27Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO).

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Que sabe ter dito preso declarado ao seu companheiro de priso que se descobrissem os seus crimes ele Ireno Sampaio estava nos casos de at ser queimado.28 O relatrio do delegado, de 17 de abril, traz algumas informaes interessantes sobre as motivaes da diligncia ao Bairro Boca da Mata e sobre sua percepo acerca de Ireno Sampaio. Com o fim especialssimo de prender e processar bandidos, que, atualmente, infestam os mais distantes pontos da sede deste municpio, esta delegacia de polcia, empreendeu uma diligncia ao longnquo Bairro da Boca da Mata onde conseguiu efetuar a priso do mulato Ireno Sampaio, indigitado curandeiro e membro perigoso da quadrilha de salteadores, conforme o demonstram as provas colhidas [...]. Conduzido cadeia desta cidade, dito indivduo houve por bem suicidar-se, aps ter declarado ao seu companheiro de priso Antonio de Souza Moraes, vulgo Antonio Porfrio (1. Testemunha) que, dentre os objetos, que lhe foram apreendidos, havia um livro, que muito o comprometia, dizendo mais que si os seus crimes fossem descobertos, era o caso de at ser queimado. Eis a sntese do contedo desses autos...29 Os autos foram remetidos ao juiz, que pediu a manifestao do promotor pblico. Este nada questionou e pediu o arquivamento, pois tratava-se de um suicdio sem responsabilidade assim de quem quer que seja. O juiz nada questionou tambm.30

Consideraes finais O que aproxima e o que distancia os dois casos descritos? Um ponto em comum a forte resistncia da sociedade da poca ou pelo menos de boa parte de suas elites a qualquer tipo de prtica de cura paralela medicina tradicional. Porm, os dois casos so reveladores de como o sistema de justia criminal seguiu caminhos distintos em meio a percepes diferentes, tanto em relao aos procedimentos das autoridades como das prticas de cura dos dois acusados. No caso de Roberto Snior, ele percorria um circuito social formado por pessoas importantes na cidade, que provavelmente serviram de escudo protetor diante das investidas dos mdicos locais e mesmo do promotor pblico. Ele atuou no corao da cidade e apresentava credenciais (mdico, advogado) socialmente reconhecidas; alguns de seus clientes eram pessoas qualificadas nos autos28Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO). 29Consultar: Fundo do Poder Judicirio, 1914 (Processo: Ireno SAMPAIO). 30 Idem, ibidem.

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como negociantes. Panfletos distribudos engrandeciam sua figura, seus feitos, seus caminhos e passagens por vrias localidades. Suas prticas de medicina poderiam ser consideradas alternativas, mas talvez buscassem o reconhecimento, o aval da medicina tradicional. Ireno Sampaio, por sua vez, foi apresentado no inqurito como pardo, mulato, vadio, sem local certo de moradia, sem qualificao profissional e reiteradas vezes como curandeiro. Seu espao no era a cidade, mas o longnquo bairro da Boca da Mata e os territrios indefinidos onde atuavam grupos de salteadores (de que a autoridade policial o acusava de participar). Sua marginalidade social estava inscrita nestas qualificaes e localizaes; seu saber de cura pertencia a segmentos sociais muito diferentes daqueles por onde transitou Snior. Sua arte de manipulao dos elementos no era minimamente aceita, nem como exerccio de gramtica alternativa no campo da medicina. Talvez identificada como coisa de bugres, talvez sobrevivncia das prticas de negros escravos, sob qualquer forma inaceitvel para os grupos sociais que na jovem repblica queriam tornar o pas um exemplo de modernidade e varrer definitivamente os resqucios de nossa formao social herdados da colnia. Enquanto Snior permaneceu no exerccio de suas experincias por cerca de um ms, no centro da cidade, sem que se tenha notcia de qualquer pedido de priso dele por qualquer autoridade, Ireno, o indigitado curandeiro, foi alcanado e preso no longnquo bairro da Boca da Mata pelo delegado e um destacamento da fora pblica. Roberto Snior desaparece da cena nos autos, enquanto Ireno vai encontrar a morte em circunstncias bastante obscuras e que mais uma vez podem ser bastante reveladoras dos mecanismos de proteo de que gozavam (e ainda gozam) indivduos pertencentes a determinados grupos sociais, enquanto outros eram (e o so at hoje) vulnerveis, desvestidos do manto jurdico e, no limite, sacrificveis, como diria Giogio Agambem (2002). A histria nebulosa, a comear pela narrativa do colega de cela de Ireno, que no v e no ouve o suicdio e ainda afirma que quando se deu conta no conseguiu evitar o fato. De acordo com o depoimento desse colega, Ireno teria dito que a polcia tinha apreendido um livro comprometedor e que se seus crimes fossem descobertos poderia ser queimado. No entanto, ao mencionar esse fato em seu relatrio o delegado no faz nenhuma meno a esse livro ou a qualquer material apreendido. Ele mesmo, Ireno, produz os elementos que justificam sua morte.

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ARQUIVO DO PODER JUDICIRIO DA COMARCA DE BRAGANA PAULISTA 91791-1970. Processos: 1901 (Roberto SENIOR) ANNUARIO DE BRAGANA PARA 1902, Bragana Paulista, 1902. BRASIL. Senado. Decreto n 847, de 11 de outubro de 1890. http://www6. senado.gov.br/sicon/index.jsp. Acesso em: 25 jan. 2011. FVERO, F. Medicina legal. v. 3: Deontologia mdica e medicina profissional. 8. ed. So Paulo: Martins, 1966. FREYRE, G. de M. Ordem e progresso: processo de desintegrao das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio sculo de transio do trabalho escravo para o trabalho livre; e da monarquia para a repblica. 3. ed. com 37 ilus. Rio de Janeiro: Jos Olympio; Braslia, DF: Instituto Nacional do Livro. 1974. FOUCAULT, M. Vigiar e punir: histria da violncia nas prises. Petrpolis: Vozes, 1987. GARLAND, D. Punishment and modern society: a study in social theory. Oxford: Claredon, 1990. LEITE, B. W. de C. Regio bragantina: estudo econmico social (16531836). Marlia: Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras, 1974. LEME, Ernesto de Moraes. A casa de Bragana: memrias. pref. por Brasil Bandecchi. 4 capa por Hernani Donato. So Paulo: Parma, 1981, 134p. LEME, Ernesto de Moraes. A casa de Bragana II: captulos de um livro de memrias.. So Paulo: ELF Comunicaes, 2003, 102p. MARINHO, M. G. da S. M. da C. Medicina legal e percias mdicas em processos criminais. Constituio de saberes e aplicao de procedimentos mdico-legais. Campo, personagens e prticas periciais: So Paulo e Bragana. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTRIA DA SEO SO PAULO DA ANPUH: Poder, Violncia e Excluso, 19., So Paulo, 8-12 set. 2008. Anais... So Paulo: Histria/FFLCH/ USP, 2008. MARTINS, W. de S. N. Paschoal Segreto: Ministro das Diverses do Rio de Janeiro (1883-1920). Dissertao (Mestrado em Histria) Rio de Janeiro: Programa de Ps-Graduao em Histria, Instituto de Filosofia e Cincias Humanas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. REIS JNIOR, J. A. dos. O livro de imagens luminosas: Jonathas Serrano e a gnese da cinematografia educativa no Brasil (1889-1937). Tese (Doutorado em Educao). Rio de Janeiro: Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Revista Illustrada, Rio de Janeiro, Jullho, 1896 RUSCHE, G.; KIRCHHEIMER, O. Punishment and social structure. Nova York: Columbia University Press, 1939. SALLA, F.; GAUTO, M.; ALVAREZ, M. C. A contribuio de David Garland: a sociologia da punio. Tempo Social, So Paulo, v. 18, n. 1, p. 329-350, 2006.147

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Anexo AHOMENAGEM do povo do Rio Novo, Estado de Minas ao grande e caridoso mdico Dr. Roberto Snior: Mais um dote imenso e raro, um preciosssimo predicado acaba de juntar-se aos muitos que j possua o incansvel e laborioso Dr. Roberto Snior, esse eminente lutador, uma das mais brilhantes glrias da nossa querida ptria! Em Juiz de Fora, e quando disso se no apercebia, revelou-se no Dr. Roberto Snior essa mesma fora sugestiva de que dispe o Dr. Eduardo Silva e o professor Faustino Junior, e que tanto tem dado que fazer atualidade! Desde que reconheceu em si a existncia dessa prodigiosa faculdade, comeou a exercit-la o ilustre mdico-jurista com a mxima abnegao e desinteresse; e tal a energia dessa sua fora que tem S. S. operado curas to extraordinrias, que excedem mesmo ao maravilhoso! Queremos crer que a eficcia dessas curas, por todos reconhecidas como assombrosas devida circunstncia de mdico o Dr. Roberto Snior de maneira que conhecendo o organismo humano e sabendo qual o rgo afetado e a molstia que o afeta , faz com segurana convergir para esse rgo toda sua fora sugestiva. Em Juiz de Fora, Benfica, Dores de Paraibuna, Palmira e nesta cidade, o Dr. Roberto Snior tem produzido curas to extraordinrias que s os que as tm presenciado, como ns so capazes de acreditar! Vimos paralticos de muitos anos que nem sequer se levantavam , caminharem logo aps a primeira aplicao das abenoadas mos desse homem prodigioso; reumticos, disppticos, asmticos, toda sorte de doentes se restabeleceram! Enfim, o Dr. Roberto Snior um homem privilegiado por isso que molstia alguma resiste ao poderosssima de sua fora sugestiva!! A vinda desse ilustre pernambucano a esta cidade foi toda ocasional. Seguia ele de Juiz de Fora, a convite, para a cidade de Ub, quando, ao chegar a esta cidade, muitos cavalheiros distintos no consentiram que ele continuasse a sua viagem e conseguiram que aqui se demorasse algum tempo, por isso que muito precisavam de seus inestimveis servios. O Dr. Roberto Snior um cavalheiro distintssimo e do mais fino trato e, acedendo s instncias nossas, aqui se acha servindo a humanidade148

sofredora com inexcedvel abnegao recebendo em troca de suas maravilhosas curas o que cada um pode lhe dar, alm da imensa simpatia que lhe votam todos. Foi do nosso ilustre, distintssimo e conceituado Dr. Lindolpho Ferreira Lage a primeira visita que no Hotel Ismael recebeu o grande mdico jurista. Aps essa seguiram-se as visitas do Dr. Jos Hygino, mdico; Dr. Soares Brando, Dr. Rodolpho, muito digno presidente da cmara municipal e de muitos outros cidados distintos. Aps suas visitas, o Dr. Soares Brando e a Exma. esposa do Dr. Jos Hygino e mais duas Exmas. senhoras da sua famlia consultaram o ilustre professor Dr. Roberto Snior. So a nossa venerao, apreo, reconhecimento a esse admirvel luzeiro da cincia que nos impem o dever de virmos , cheios de orgulho denunciar esse assombroso e edificante acontecimento!! Cidade do Rio Novo, 10 de maro de 1900. Dr. Antenor de Arajo, advogado, Major Olympio de Arajo, vicepresidente da cmara municipal, negociante, F. J. Gomes, agente da estao da E. F. Juiz de Fora a Piau, Clarindo de Oliveira, conferente da estao., Major Jos da Silva Ferraz, capitalista., Joo Valentim Pereira, proprietrio., Dr. Reginaldo Cndido da Silva, engenheiro civil.,Pedro Paulo Gonoth, alfaiate., Germano Gomes Leo, alfaiate., Francisco Carelli, retratista., F. A. de Sequeira, viajante., Martinho Incio da Silva, viajante., Antonio Candido Gonlalves, professor., Francisco Vieira, estudante de humanidades., Isaltino G. Portugal, tipgrafo., J. R. Liberio Atheniense, bacharelando em cincias e letras.Sebastio Dumas de Cerqueira, estudante, Domingos Meutte, comerciante., Francisco Rodrigues de Oliveira e Silva, comerciante., Gustavo Silva Ferraz, empregado no comrcio., Jos Augusto Dutra, comerciante., Agostinho de Castro, comerciante., Joo Freire de Menezes, guarda-livros., Antonio Graziani, guarda-livros., Alferes Jaime Gomide, comprador de caf., Francelino Ferraz, fazendeiro., Martinho Rabelo Teixeira, capitalista, Joo A. M. Pereira, operrio., Humberto Vieira, estudante.

Dr. Roberto Senior - imponente manifestaoO distinto Dr. Roberto Snior, que, em sua excurso por este Estado, resolveu passar alguns dias nesta cidade, foi surpreendido no dia 4 do corrente com uma espontnea e imponente manifestao popular. s 7 horas da noite daquele dia, um grande nmero de cidados de todas as classes e hierarquias, precedidos da excelente banda de msica dirigida pelo maestro Pedro Celestino, dirigiram-se ao Grande Hotel Ismael149

onde se acha hospedado o ilustre sugestionador, sendo por este recebidos com gentileza e cavalheirismo. No grande salo do hotel reuniram-se os manifestantes, que eram em grande nmero, em nome dos quais falou o distinto e provecto professor Lery, que salientou as virtudes cvicas e os incontestveis mritos do manifestado, quer como mdico, quer como jurisperito, referindo-se tambm s muitas obras que tem publicado, e por cuja razo, conquistar um lugar distinto entre os escritores contemporneos; e ao finalizar disse o orador que o distinto professor Roberto Snior era considerado como um dos benfeitores abnegados e conscientes da humanidade, cujos males tem procurado com esforo e dedicao atenuar, quando no pode de uma s vez extermin-los; e que, portanto, a misso a que se entregara era nobre e patritica e o tornava digno das homenagens dos seus contemporneos e das bnos da posteridade. O Dr. Roberto Senior agradeceu comovidamente a espontnea manifestao popular da cidade do Rio Novo. Falaram em seguida os ilustres cidados Drs. Antenor de Arajo e Miguel Ribeiro, major Jaime Gomide, capito Csar Gomide, comerciante Carlos Gomide e hbil estudante Jos Atheniense que foram entusiasticamente aplaudidos. A todos os cidados presentes, entre os quais se achava o conceituado facultativo Dr. Lindolpho Lage, foi oferecido um delicado copo de cerveja, trocando-se por essa ocasio vrios brindes. Durante o tempo da improvisada festa popular, e em que reinou a maior cordialidade, a banda de msica Cortez executou diversas peas do seu repertrio. Imagens 1 Bragana no incio do sculo XX

Rua do Comrcio, aproximadamente 1909. Acervo Municipal Oswaldo Russomano, fotgrafo desconhecido.Fonte: BUENO (2005).

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Largo da Matriz, aproximadamente 1902-1904/Coleo Jos Roberto Vasconcellos, fotgrafo desconhecidoFonte: BUENO (2005).

2 Roberto Snior/Cunha Salles

Fonte: Revista Illustrada. Jul. 1896. p. 2 e 3. [a fonte deve ser uma referncia que conste da lista]

No alto, o detalhe reproduzido abaixo, com a figura de Cunha Salles (Legenda: Grande sarilho nesta cidade e corte de S. Sebastio do Rio de Janeiro, em meados do ano de Cristo de 1896, com o formidoloso jogo dos bichos que se alastrava por toda a parte. Felizmente as autoridades e a populao sensata parecem resolvidas a dar uma boa corrida em toda essa bicharada, o que j no sem tempo. Avante!)

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Fonte: Revista Illustrada. Jul. 1896. p. 2 e 3.

Detalhe: Cunha Salles e O Pantheon Ceroplastico

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Dilemas revelados e mito desfeito: Sorocaba e a epidemia de febre amarela na Repblica Velha Andr Mota1 Cssia Maria Baddini2

Durante muito tempo a compreenso de uma histria paulista equivalia a nos reportarmos histria do Estado nacional brasileiro, pois, numa perspectiva centralista, So Paulo procurou ostentar, na segunda metade do sculo XIX, um lugar original de construtor de um Brasil civilizado e empreendedor, com uma populao tida como racialmente superior e preparada para os dilemas do homem moderno que se anunciava. Nas palavras de Antonio Celso Ferreira, concebendo a histria enquanto uma marcha para a civilizao, com os paulistas como seus artfices, o remate da aula teria de ser a afirmao dessa fora poltica regional, garantida pela Repblica. O enredo pico desgua na razo poltica, evidenciando a finalidade didtica do saber histrico: explicar o presente pelo passado, como um ex libris de nossa histria, aberto aos olhos dos que nos visitam.3 Por esse vis, os estudos historiogrficos atuais preocupados em desvendar as particularidades regionais de So Paulo vm notando, que a idia de sampaulizar o pas empreendida ento, alm de reter traos condizentes com uma elite regional alegadamente apta a assumir o poder nacional, foi igualmente capaz de obnubilar as lutas internas e, sobretudo, os rearranjos entre esses grupos4. Esses rearranjos deveram-se extrema importncia dos poderes concentrados regionalmente, ainda na primeira metade do sculo XIX, para a construo da unidade e do Estado nacional5,Doutor em Histria pelo Depto. de Histria, FFLCH-USP, com Ps-doutoramento em Histria das prticas mdicas paulistas nos anos de 1930 pelo Depto.de Medicina Preventiva, FMUSP. Atualmente Coordenador do Museu Histrico da FMUSP. 2 Mestre em Histria pelo Depto. de Histria, FFLCH-USP e autora de Sorocaba no Imprio: comrcio de animais e desenvolvimento urbano. So Paulo: Annablume: Fapesp, 2002. Atualmente Professora da Universidade de Sorocaba. 3 FERREIRA, Antonio Celso. A epopia bandeirante: letrados, instituies, inveno histrica (18701940). So Paulo, Ed. Unesp, 2002, p. 283. 4 GLEZER, Raquel. Cho de terra e outros ensaios sobre So Paulo. So Paulo, Alameda, 2007; SALIBA, Elias Thom. Ideologia liberal e oligarquia paulista: a atuao e as idias de Cincinato Braga, 1891-1930. So Paulo, Tese de Doutoramento, Depto. de Histria, FFLCH-USP, 1981; BLAJ, Ilana. A trama das tenses: o processo de mercantilizao de So Paulo colonial (1681-1721). So Paulo, Humanitas/Fapesp, 2002 e FERRETTI, Danilo Jos Z. A construo da paulistanidade: identidade, historiografia e poltica em So Paulo (1856-1930). So Paulo, Tese de Doutoramento, Depto. de Histria, FFLCH-USP, 2004. 5 DOLHNIKOFF, Miriam. Elites regionais e a construo do Estado nacional. In: JANCS, Istvan (org.). Brasil: formao do estado e da nao. So Paulo, FAPESP/HUCITEC/UNIJUI, 2003. 1

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ganhando para isso inclusive autonomia para articulaes como a obteno de capacidade tributria, legislativa e coercitiva: fosse para atender a demandas especficas da regio como, por exemplo, a necessidade de estradas, fosse para satisfazer anseios generalizados como o de controlar o poder provincial, os grupos regionais acabaram se envolvendo de fato na construo do Estado nacional.6 Com o surgimento da Repblica em 1889 e sua opo pelo regime federalista, v-se que tal opo era uma estratgia para acomodar as fraes dessas elites regionais, ao mesmo tempo em que se buscava equilibrar as disputas internas7. Decorre da a importncia de se observar como se manifestava localmente esse jogo de foras, identificando particularidades fundamentais para a compreenso da acomodao entre as elites e entendendo em que medida o federalismo conseguia sobrepujar ou reforar os interesses em pauta8. Na esfera das representaes polticas, essas cidades do interior, exerceram papel essencial na formulao dos mitos de origem e da fixao daquilo que Antonio Celso Ferreira chamou de epopia paulista. Para ele, essas cidades tiveram uma importncia equivalente aos indivduos, desenhando-se tambm seus personagens9, a partir de toda uma movimentao em torno do levantamento de dados estatsticos e arqueolgicos, do enquadramento de bairros e ruas e da formulao de biografias das personalidades locais mais significativas. Nesse contexto, as cidades vo sendo urbanizadas e politicamente dominadas, aliando-se a proximidade das invenes modernas nascidas da Revoluo Industrial ao fortalecimento de ncleos familiares que vieram a deter poder sobre os espaos urbanos que se constituam ou expandiam. Segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz, o novo gnero de vida diferencia a populao urbana no apenas segundo nveis econmicos, porm muito mais ainda culturalmente, sendo que as camadas superiores adotam como sinal distintivo o requinte e um arremedo de cultura intelectual10. No mbito dessas alteraes, as noes higienistas, bem como as de ao sanitria, foram se incorporando aos espaos urbano e rural, tendo as descobertas de Pasteur dado nova significao s relaes entre espao, doena e sua manifestao, retirando do social as questes de sade, focalizando determinados espaos e grupos identificados como a ameaa, abrangendo por essa viso, o local de interao entre os agentes da doena e o hospedeiro humano11.6 Idem.p.465 7 MOTA JUNIOR, Vidal Dias da. A criao de pequenos municpios como um fenmeno da descentralizao poltica: o caso de Itaoca SP. Dissertao de Mestrado, So Carlos, Centro de Educao e Cincias Humanas Universidade Federal de So Carlos, 2002, p. 24. 8 BACELLAR, Carlos de Almeida Prado e BRIOSCHI, Lucila Reis. Na estrada do Anhangera: uma viso regional da histria paulista. So Paulo, Humanitas/Ceru, 1999. 9 FERREIRA, Antonio Celso. Vida (e morte?) da epopia paulista In FERREIRA, Antonio Celso, LUCA, Tania Regina de, IOKOI, Zilda Grcoli. Encontros com a Histria: percursos histricos e historiogrficos de So Paulo. So Paulo, UNESP/FAPESP/ANPUH/SP, 1999.p.100 10 QUEIRZ, Maria Isaura Pereira de. Cultura, sociedade rural, sociedade urbana no Brasil. So Paulo, EDUSP, 1978, p. 57. 11 BOUSQUAT, Aylene e COHN, Amlia. A dimenso espacial nos estudos sobre sade: uma trajetria histrica. In: Histria, Cincia, Sade Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 11, set-dez, 2004, p. 553.

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Para isso, foi se organizando e ampliando em pontos considerados fundamentais a rede de aes mdicas e sanitrias, que viam necessidade de uma interveno mais centralizada e controlada desses espaos potencialmente infectos. No caso paulista, a esfera estadual, num regime de centralizao de suas aes, tentou inicialmente tirar das mos das instncias municipais os poderes de atuao diante dos problemas de higiene e sade pblica, mas, em vista do descontrole de certas epidemias, da possibilidade da perda de domnio poltico em certos redutos municipais e da prpria inoperncia das aes estaduais, restituiu s municipalidades grande parte de sua ao sobre as questes relativas sade pblica. Os poderes municipais, por sua vez, inicialmente diante das dificuldades na introduo da prtica cientfica em solo brasileiro nas primeiras dcadas do sculo XIX e, posteriormente, com seu desdobramento num internacionalismo cientfico que passou a vigorar, atravs de encontros, congressos e divulgao de trabalhos12, obteve um contato paulatino e uma incorporao desses discursos e teorias em seus territrios. J a implementao dessas leis e aes sanitrias, ainda espao aberto para pesquisas, revelando uma lacuna preenchida apenas parcialmente por alguns estudos que perceberam a necessidade de se identificar questes, que s um estudo acurado das localidades municipais pode iluminar - o projeto sanitrio estadual promovendo intervenes e dirimindo poderes ou abandonando localidades que no faziam parte de seus interesses polticos e econmicos. Por isso, o objetivo deste trabalho contribuir para a histria do sanitarismo paulista, recuperando algumas dessas particularidades que envolveram o projeto estadual em legislar e impor aes de controle sanitrio aos municpios, a partir da fundao de seu Servio Sanitrio Estadual, em 189213. Exemplarmente, apresentamos os dilemas vividos pela cidade de Sorocaba e a incorporao dos negcios da sade aos embates polticos dos grupos dominantes locais. Ao fim e ao cabo, pretendemos reiterar a hiptese de que a histria de So Paulo ainda vem sendo conhecida e revelada, e sua interveno sanitria um elemento que a corrobora, dada a ausncia de mapeamentos mais abrangentes e sistemticos de muitos pontos do estado, abarcados ou no pelo projeto de se fazer de So Paulo o espelho do sanitarismo nacional14.

Municpios e controle sanitrio estadualDurante a Repblica Velha, assistiu-se a uma manipulao ostensiva das elites estaduais frente aos municpios: Para se manterem no12 Acompanhar essas transformaes no campo mdico-cientfico europeu e brasileiro em BYNUM, W. F. Science and practice of medicine in the nineteenth century. Cambridge, Cambridge University Press, 1994. 13 Estudo feito por MOTA, Andr. Tropeos da medicina bandeirante: medicina paulista, 1892-1920. So Paulo, Edusp, 2005. 14 Ver: HOCHMAN, Gilberto. A era do saneamento: as bases da poltica de Sade Pblica no Brasil. So Paulo, Hucitec/Anpocs, 1998 e MOTA, Andr. op.cit.

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poder ou para continuarem a ter o poder em suas mos, governadores ou presidentes estaduais usavam os municpios como massa de manobra para as eleies, evidentemente manipuladas, mas que garantiam a permanncia dos oligarcas e do status quo. (...) Isso propiciou numerosas intervenes do estado em seus municpios. O abuso e a arbitrariedade s foram estancados pela reforma constitucional de 192615. Para Rodolpho Tellarolli, essa relao fazia com que o fazendeiro de caf que governava o pas se mantivesse no poder pela mquina eleitoral que se estendia por todo o territrio nacional e no estado paulista, em uma pirmide cujos poderes se distribuam atravs do Presidente da Repblica, vindo abaixo o Partido Republicano Paulista e, na base do arcabouo, o coronel e sua famlia, parentes e dependentes16. E o projeto sanitrio que o estado de So Paulo implantou tocou exatamente nesta estrutura de poder. Inclusive, a partir da criao e efetivao do Servio Sanitrio em 1892, ressurgiram pendncias alusivas autonomia municipal, de modo a impedir que se implementasse o projeto sanitrio arquitetado, mesmo que os discursos oficiais quase sempre tentassem mostrar o contrrio, quer em suas aes de controle do espao a ser esquadrinhado, quer dos discursos voltados para a organizao da profisso e da prtica mdicas17. Nascia, assim, um jogo de foras que gestaria, num primeiro momento, um padro de legislao ambgua, mantendo indefinidos os limites das atribuies do Estado e de seus municpios18. O debate sobre a quem confiar os destinos da sade pblica local assumia dois plos. Os municipalistas, que se alinhavam com a defesa incondicional das prerrogativas municipais, e os centralistas, que no viam ofensa autonomia municipal quando o Estado normatizava a higiene local, pois, apesar de a lei prescrever a liberdade e autonomia dos municpios, estes eram subordinados s leis federais e estaduais19. Conforme se definiam garantias fora da centralizao estadual, alteravase a legislao atinente s atribuies municipais e estaduais, retirando-se paulatinamente dos chefes locais o controle sobre a higiene e a organizao espacial dos municpios. Explicitou-se a viso administrativa e cientfica dos responsveis pelas alteraes que se foram implementando e que tinham na figura do dr. Emilio Marcondes Ribas o condutor de toda a poltica sanitria, responsvel por fazer de So Paulo um plo cientfico e sanitrio no Brasil. A importncia de Emilio Ribas nessa contenda no s reafirmava sua vinculao s elites republicanas e cafeicultoras dirigentes, como tambm indicava sua postura centralista nos cargos que assumiria ao longo de sua carreira - inspetor sanitrio, chefe da Comisso Sanitria de Campinas em 1896 e o de diretor geral do Servio Sanitrio em 1898, cargo que ocupou15 MOTA JUNIOR, op. cit., p. 41. 16 TELLAROLLI, Rodolpho. Poder local na Repblica Velha, So Paulo, Ed. Nacional, 1977, p. 33. 17 BERTUCCI, Liane Maria. Remdios, charlatanices... e curandeiros: prticas de cura no perodo d a gripe espanhola em So Paulo. In: CHALHOUB, Sidney et al. (org.). Artes e ofcios de curar no Brasil. Campinas, Ed. Unicamp, 2003, p. 197-227. 18 TELLAROLLI JUNIOR, Rodolpho. Poder e sade: as epidemias e a formao dos servios de sade em So Paulo, So Paulo, Ed. Unesp, 1996, p. 198. 19 TELLAROLLI JUNIOR, Rodolpho, op. cit., p. 201.

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durante dezenove anos. 20 Em sua avaliao a respeito da realidade sanitria dos municpios paulistas, todos estariam reprovados, com exceo apenas de Santos, de Campinas e da prpria capital. Segundo ele, as outras cidades do interior estavam imersas em doenas e epidemias, frutos das dificuldades criadas pela autonomia municipal:Do que tem esta Diretoria conseguido na Capital, em Santos e Campinas, j tivestes a ocasio de ser informado nas pginas que ficaram escritas. Cabe-nos agora deixar estampado (...) o muito que resta fazer nas outras localidades, graas aos maus resultados que (...) nos tem revelado a to apregoada autonomia dos municpios. 21 Em sua viso, urgia uma modificao constitucional que retirasse das instncias municipais todo o controle sobre as aes sanitrias, visto que o caos de muitos municpios devia-se a seus prprios dirigentes, que no entendiam sobre o assunto e impediam qualquer ao por parte do Estado na questo da sade pblica. Em suas palavras, diante de: (...) indivduos que decidem dos magnos problemas de higiene mal sabendo assinar o prprio nome, no h outro remdio para sanar os males que deixamos apontados nas pginas anteriores, males talvez inevitveis por muitos anos, se no forem minorados pela fiscalizao severa e imediata do Estado. (...) Estamos perfeitamente habilitados a abafar o incndio para o qual a incria municipal tiver acumulado combustvel. No que diz respeito preveno, estamos na contingncia de quem v o perigo, adverte o descuidado de longe e nada pode fazer para evitar o desastre.22 Argumentos dessa natureza foram responsveis por arrematar legalmente, com aes dirigidas, o enfraquecimento da extenso dos poderes municipais sobre a higiene de seus limites administrativos23. Essa exigncia do Dr. Ribas, mesmo se dando desde a sua entrada na direo do Servio Sanitrio, em 1898, foi efetivado s em 1906, quando procurou extinguir praticamente todas as atividades municipais de sade pblica, sem que para isso tivesse que revogar a lei 432. Baseado na mesma, dividiu o Estado em distritos sanitrios, localizando suas sedes justamente nas maiores cidades do Estado e delegando toda a ao sanitria local ao inspetor sanitrio estadual indicado24. As funes estaduais estariam enfeixadas nas seguintes medidas:1) Executar, em todo o territrio do Estado, quaisquer providncias de natureza defensiva, como as que tm por fim a instituio de rigorosa vigilncia sanitria, assistncia hospitalar, isolamento e desinfeco; 2) Inspecionar os servios feitos pelas municipalidades; 3) Organizar ou criar nos municpios os servios que julgar convenientes ao bem da sade pblica; 4) Chamar a si em pocas anormais, sempre que o interesse pblico o aconselhar, os20 ALMEIDA, Marta de. Repblica dos invisveis: Emlio Ribas, Microbiologia e Sade Pblica em So Paulo (1898-1917). So Paulo, Dissertao de Mestrado, Depto. de Histria, FFLCH-USP, 1998. 21 Relatrio apresentado ao Dr. Cardoso de Almeida (Secretrio dos Negcios do Interior e da Justia) pelo Dr. Emlio Ribas (Director do Servio Sanitrio) referncia 1904, So Paulo, Typ. do Diario Official, 1905, p. 21. 22 Idem, p. 45-46. 23 MASCARENHAS, Rodolfo dos Santos. Contribuio para o estudo da Administrao Sanitria Estadual de So Paulo, So Paulo, Tese de Livre Docncia, Faculdade de Sade Pblica-USP, 1949, p. 57. 24 TELLAROLLI JUNIOR, Rodolpho, op. cit., p. 223.

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servios de higiene que, pela lei, forem confiados municipalidade.25 Evidentemente, a reao municipal no tardou, e sob diversas formas. A mais comum foi o no cumprimento das normas e leis implementadas pelos Cdigos Sanitrios, que pretendiam pautar as aes dos municpios pelas do Estado e numa posio mais extremada, chegou-se a impedir tais intervenes estaduais pelo uso da violncia.26 A deciso de Emlio Ribas, em tomar para si a responsabilidade de dirigir completamente as aes para estancar a propagao da amarela, por exemplo, gerou uma crise institucional e encontrou muitos bices. Segundo os estudos realizados sobre a organizao sanitria paulista, de Maria Alice Rosa Ribeiro, a complexidade das aes e resultados, como no caso da amarela, ia alm da dimenso poltica, pois as tcnicas e tecnologias aplicadas na prtica, no obtinham os efeitos esperados. Deste modo, apesar da desinfeco das casas e da queima de piretro e enxofre, acossado pela fumaa, o mosquito saa e voltava quando a fumaa se extinguia. As casas no tinham forros e as paredes eram crivadas de buracos, verdadeiras peneiras27. Mesmo com aes localizadas no combate ao mosquito, como definiam as medidas microbianas, como a interferncia na arquitetura das casas, na organizao material e espacial da populao local -, a falta de uma vacina imps grandes derrotas s concepes sanitrias estaduais. Ante essa srie de dificuldades, polticas e prticas, baixou-se uma nova reforma em 1911, que significou um recuo dos servios sanitrios estaduais, transferindo para estes [municpios] a responsabilidade pela vacinao, manuteno de hospitais de isolamento e gerao de estatsticas para o servio estadual (...) enfim, ampliaram-se as responsabilidades e as despesas das autoridades municipais.28 Houve uma sistemtica reduo de gastos por parte do Estado, reflexo de interesses polticos, limitando a organizao do modelo implementado, de modo a viabilizar minimamente a estruturao do capitalismo monopolista e exportador, e no um projeto sanitrio em toda a extenso pretendida29. Por essa opo, o governo estadual perdeu parte de seu poder em coordenar e manter o domnio sobre as aes relativas sade pblica em quase todas as esferas municipais, mas reduziu os gastos dos cofres estaduais e conteve, em nvel local, as divergncias polticas que envolviam a organizao dos municpios e seus chefes polticos. A responsabilidade municipal, agora aguada pela nova configurao das doenas e epidemias que grassavam ou mesmo das estratgias de combate que se veiculavam, acirrou as lutas polticas internas, exatamente por serem as questes de sade pblica objetos de contenda poltica e diviso de poder entre as instncias locais.25 REIS, Carlos. Repertrio da Legislao sobre o Servio Sanitrio do Estado de So Paulo, So Paulo, Typ. do Diario Official, 1907, p. 17. 26 GAMBETA, Wilson Roberto. Soldados da Sade: Formao dos Servios em Sade Pblica do Estado de So Paulo, So Paulo, Dissertao de Mestrado, Depto. de Histria, FFLCH-USP, 1988, p. 101. 27 RIBEIRO, Maria Alice Rosa. Histria Sem Fim... Inventrio da Sade Pblica, So Paulo, Hucitec/ Unesp/Abrasco, 1993, p. 82. 28 HOCHMAN, Gilberto, op .cit., p. 218. 29 MERHY, Emerson Elias. O capitalismo e a sade pblica, So Paulo, Papirus, 1985, p. 70.

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Sorocaba: sade pblica e epidemias na Repblica Velha Os primeiros pesquisadores de Sorocaba valorizaram um passado especfico da regio a fim de compor uma histria exemplar da cidade. O sculo XIX lhes ofereceu o reconhecimento da localidade como principal centro arrecadador de impostos sobre animais e redistribuidor de muares para transporte, apesar da ocupao local datar da primeira metade do sculo XVII. Essa caracterizao possibilitou relacionar a histria de Sorocaba integrao econmica, poltica e social do sul brasileiro, regio problemtica pelas incurses espanholas e freqentes revoltas. Esses elementos, associados perspectiva de valorizao da histria nacional, permitiram a construo de um passado herico da cidade pautado no tropeirismo. O conceito, apresentado na segunda metade do sculo XX, mergulha suas razes na primeira metade daquele sculo, luz da historiografia paulista que ento se desenvolvia e que tinha por objetivo alicerar a importncia de So Paulo na edificao da nao. Os trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Histrico e Geogrfico de So Paulo e pelo Arquivo Municipal de So Paulo exemplificam a viso do passado grandioso dos paulistas, destacando a figura do bandeirante como smbolo de bravura e iniciativa. Valores responsveis por transformar a populao colonial pobre e dispersa em prsperos cafeicultores, sustentculos da economia nacional nos sculos XIX e XX30. Essa produo consagra as etapas da histria nacional segundo os ciclos de uma economia essencialmente paulista: da produo de subsistncia, que garantiu a sobrevivncia de poucos ncleos de30 As publicaes dessas duas instituies demonstram claramente a inteno de corroborar a importncia de So Paulo na construo da nao. J em 1903, Washington Lus caracterizava a populao paulista como naturalmente herica porque resultante do cruzamento das raas branca, negra e ndia, condio fundamental para o trabalho grandioso da construo geographica do paiz atravs do bandeirismo. LUIZ, Washington. Contribuio para a historia da capitania de So Paulo governo de Rodrigo Csar de Menezes. Revista do Instituto Historico e Geographico de So Paulo, So Paulo, v. VIII, 1903, p. 22-137. Nessa mesma direo segue o trabalho de Joaquim Floriano de Godoy publicado dez anos depois, que assegura aos paulistas a identidade poltica da nao. GODOY, Joaquim F. de. Rpida noticia histrica da provncia de So Paulo. Revista do Instituto Histrico e Geographico de So Paulo, So Paulo, v. XVIII, 1913, p. 53-79. Os trabalhos de Taunay, publicados pela Revista do Arquivo Municipal de So Paulo na dcada de 1930, no s corroboram a interpretao dos paulistas como construtores da nao como embasam os estudos de Alusio de Almeida, considerado o principal historiador de Sorocaba. Foram vrios os textos deste ltimo publicados pela mesma revista na dcada de 1940. TAUNAY, Affonso de E..Atitudes de um satrapa setecentista. Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. II, jul/1934, p. 5-18; Id.. Castigo rgio de um satrapa e triunfo da Cmara de So Paulo (1730). Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. III, ago/1934, p. 9-16; ALMEIDA, Alusio de. Achegas biografia do Baro de Antonina. Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. CXVI, out, nov, dez/1947, p. 7-40; Id. Cristvo Pereira de Abreu. Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. LXXXIII, mai, jun/1942, p. 93-98; Achegas histria do sul paulista. Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. CXXXVIII, jan, fev, mar/1951, p. 3-7; Id. Estradas e impostos do sul do Brasil. Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. CLIII, nov. 1952, p. 73-80; Id. Contos populares do planalto. Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, So Paulo, v. CXLVII, abr,maio/1952, p. 3-50.

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povoamento, emergem os valorosos desbravadores dos sertes, inaugurando o ciclo do bandeirismo. Os tropeiros teriam aproveitado a iniciativa dos bandeirantes para explorar os campos do sul e integr-los economia central: o abastecimento da regio das minas e o escoamento do ouro durante o sculo XVIII; o transporte da produo de caf durante o sculo XIX. O percurso longo e contnuo dos condutores de gado pelas estradas do centro-sul teria permitido o povoamento de novos territrios, a fundao de vilas, a explorao de novos recursos naturais, a acomodao poltica e econmica de uma extensa regio aos interesses dominantes. Entretanto, esse conjunto de fatores escamoteia aspectos relevantes para compreender a complexidade das transformaes que se processam nessa parte do pas, ao longo dos sculos XVIII e XIX. As tenses presentes numa sociedade dependente, em grande parte, do comrcio com outras provncias parecem contradizer a afirmao de um projeto poltico coerente para todo o territrio nacional, como mostram os episdios dramticos da Revoluo Farroupilha durante o Imprio e da Revoluo Federalista na Repblica, revelando questes sensveis relacionadas a contextos polticos centralizadores. Tais episdios ganharam na historiografia nacionalista o carter de movimentos regionalistas que, longe de afetarem a poltica centralizadora, teriam possibilitado solues definitivas para a acomodao do sul revolucionrio nao31. O processo histrico de Sorocaba mostra a propagao desses conflitos no confronto das propostas de desenvolvimento local, discutidas pelos grupos polticos e participadas populao em momentos sensveis, como as epidemias de febre amarela que afetaram a cidade em 1897 e em 1900. nesse momento crtico de afirmao da Repblica e de formulao de medidas prticas para solucionar problemas urgentes que se testam os princpios norteadores do progresso e o papel do Estado nesse processo. O poder municipal desempenhar um papel relevante embasando as determinaes do governo do Estado para controle das epidemias ou condicionando-as aos interesses locais. Sua consolidao enquanto instituio representativa dos interesses gerais do municpio ganha impulso, em meio a disputas partidrias e tenses sociais. A retomada de um contexto que confronta as expectativas sociais com as propostas republicanas31 Chama a ateno a constatao de que os trabalhos sobre Revoluo Farroupilha e sobre a Revoluo Federalista tenham sido elaborados por pesquisadores regionais. Pesquisas mais recentes sobre o processo poltico na 1 Repblica retomam a Revoluo Federalista sob nova perspectiva, inserindo-a no quadro dos conflitos polticos que ameaavam o projeto unificador, conduzindo-o ento soluo autoritria da centralizao. PESAVENTO, Sandra J.. A Revoluo Federalista. So Paulo: Brasiliense, 1983; RESENDE, Maria Efignia L.. O processo poltico na 1 Repblica e o liberalismo oligrquico. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Luclia (orgs.). O tempo do liberalismo excludente: da Proclamao da Repblica Revoluo de 1930. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2003, p. 89-120; LOVE, Joseph. A repblica brasileira: federalismo e regionalismo (1889-1937). In: MOTA, Carlos Guilherme (org.). Viagem incompleta: a experincia brasileira (1500-2000): a grande transao. So Paulo: Editora SENAC So Paulo, 2000, p. 121-160; PAMPLONA, Marco A. V. Revoltas, repblicas e cidadania. Rio de Janeiro: Record, 2003. Sobre a perspectiva regionalista, ver: GRASSI, Fiorindo D.. Os maragatos e o Mdio Alto Uruguai no sul do Brasil. Frederico Westphalen, Ed. da URI, 1996; SILVA, Riograndino da C.. Notas margem da histria do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Editora Globo, 1968.

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pode elucidar aspectos de nossa prpria prtica poltica, levando-nos a repensar a relao que estabelecemos com a administrao municipal e o posicionamento que assumimos no quadro poltico nacional.

Poder local e sade pblica A caracterizao de Sorocaba como terra dos tropeiros tem levado considerao do liberalismo como uma tendncia poltica natural das elites locais e, por extenso, de toda a populao sorocabana ao longo de sua histria. Em 1925, Affonso de Freitas Jr. relacionou, entre as virtudes da cidade, a de ser propulsionadora da unidade do sul do Brasil, justificando tal ao por ser Sorocaba ninho de bandeirantes, bero de patriotas, terra de liberalismo32. Essa viso legitimadora da nao construda pelos feitos hericos corresponde construo do mito do bandeirante e do tropeiro. Alusio de Almeida, j em seus trabalhos da dcada de 1940, sugeriu o herosmo dos bandeirantes e tropeiros sorocabanos como fator fundamental para consolidar o desenvolvimento econmico do centrosul. Na dcada de 1960, o autor afirmaria o liberalismo como princpio poltico natural das populaes envolvidas com o trnsito e o comrcio de animais33. Vera Job, pesquisadora envolvida com o resgate do tropeirismo sorocabano, respalda a interpretao de Alusio de Almeida ao postular que O desejo de emancipao e de liberdade, os sentimentos surdos de revolta contra a opresso presentes na alma de todos os brasileiros, avultavam no tropeiro (...); esses homens do descampado, caminhando do rio da Prata s regies centrais, entrecortando o pas, cultivando os seus direitos com toda fora e cumprindo risca os deveres que o costume ou eles mesmos se impunham, onde quer que andassem, deixavam sempre idias liberais.34 Os princpios liberais, compreendidos como naturais da prtica dos desbravadores, seriam os elementos fundadores da nao. Interpretao tendenciosa, que enxerga no liberalismo a expresso dos anseios populares, dos sentimentos surdos de revolta, apesar de cumprir com a formao da nao sob princpios autoritrios que obrigavam o tropeiro a cumprir risca os deveres impostos. Outros pesquisadores locais envolvidos conjuntamente no resgate do tropeirismo sorocabano nas dcadas de 1970 e 1980 retomaram os estudos de Alusio de Almeida para neles buscar as razes histricas de uma identidade sorocabana. Os textos produzidos na dcada de 197032 FREITAS JR., Affonso de. A legenda sorocabana. Sorocaba, Gabinete de Leitura Sorocabano, 1925. 33 Politicamente, primeira vista parece que a civilizao do tropeiro, o seu meio que so os caminhos, o prprio ar que respira o leva s convices liberais, ao contrrio do ciclo do senhor do engenho ou do fazendeiro de caf, que originariam o despotismo pelas instituies patriarcais. ALMEIDA, Alusio de. O tropeirismo e a feira de Sorocaba. So Paulo: Luzes Grfica e Editora, 1968, p. 79. 34 JOB, Vera R.. Algumas consideraes sobre o ciclo do ouro e o tropeirismo. In: O tropeirismo e a formao do Brasil. Sorocaba, Academia Sorocaba de Letras, 1984, p.14.

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demonstram o esforo em singularizar um carter sorocabano segundo os princpios norteadores da poca: integrao nacional, desenvolvimento econmico, centralizao poltica. O tropeirismo figurava como fator que amalgamava esses princpios no mbito de uma histria particularmente sorocabana. O desenvolvimento econmico do municpio naquele momento, verificado pela instalao de fbricas e aumento populacional, atestava a acomodao da administrao municipal aos interesses do Estado autoritrio. A produo historiogrfica desse perodo, responsvel pela valorizao do tropeirismo como fato histrico sorocabano, ofereceu a justificao histrica para a adequao dos anseios operrios lgica do avano capitalista: ousadia do tropeiro sorocabano corresponderia a do empresariado local; ao herosmo daquele, o dos trabalhadores urbanos na faina diria pela construo da nao. As tenses so assim minimizadas e cedem lugar a uma interpretao pautada em mitos fundadores e ciclos econmicos35. possvel considerar que esse grupo de pesquisadores locais no pretendia criar uma situao melindrosa no contexto das dcadas de 1970-80, preferindo no confrontar a dominao poltica, ento claramente imposta pelo aparelho repressor do Estado ditatorial. Suas intenes pareciam ser as de constituir um espao de divulgao e valorizao da histria da cidade, o que aparentemente seria possvel margem da discusso poltica36. Acabaram promovendo a leitura de que, naturalmente, o amplo conjunto social relacionado prtica tropeira (condutores, compradores, negociantes da cidade, artesos do couro, ferradores, seleiros, profissionais liberais, etc.) desenvolveria aspiraes liberais ditadas tanto pela prpria experincia de liberdade, transitando pelos caminhos do sul, quanto pelo contato constante com aquelas populaes. imagem mtica do tropeiro como continuador da saga bandeirante soma-se, assim, a do gacho liberal que arriscava os interesses centralizadores pela maior mobilidade, autonomia econmica e contato com os espanhis do Prata. O sorocabano, homem da zona intermediria37, condensaria esse contato atravs das feiras anuais de muares, construindo a a sua especificidade econmica e tambm poltica. A documentao relativa poca das feiras sugere nova perspectiva interpretativa38. Ela mostra a complexidade dos arranjos polticos em uma35 Ver: ALMEIDA, Alusio de.Vida e morte do tropeiro. So Paulo: Martins, 1971. 36 JOB, Vera R.. Origens e importncia do ciclo do tropeirismo. In: Tropeirismo e Identidade Cultural da Regio de Sorocaba. Sorocaba, Academia Sorocabana de Letras, 1983, p. 5-10; FRIOLI, Adolfo. A feira de muares de Sorocaba. In: Tropeirismo e Identidade Cultural..., op. cit., p. 11-14; VIEIRA, Porphirio Rogich. As feiras de muares de Sorocaba. Sorocaba: Faculdade de Filosofia de Sorocaba, 1990; MATTOS, Mrio. Fases de prosperidade e de declnio do tropeirismo. In: O tropeirismo e a formao do Brasil. Sorocaba, Academia Sorocabana de Letras, p. 17-23, 1984. 37 ALMEIDA, Alusio de. O tropeirismo e a feira..., op. cit., p. 43. 38 provvel que as primeiras feiras de muares tenham ocorrido na regio ainda no sculo XVIII, possivelmente aps a instalao do Registro de Animais em 1750, que obrigava os condutores passagem pelo interior da vila. Entretanto, na documentao do sculo XIX que se encontram as referncias mais explcitas a essa prtica urbana, que no deve ser confundida com outras duas atividades relacionadas: o trnsito do gado e o comrcio de animais. A feira reunia um conjunto amplo de atividades que aproveitavam a concentrao de compradores e vendedores no ncleo urbano, em poca de trnsito intenso de tropas. Diferentemente da venda do gado, que ocorria preferencialmente nos campos do en-

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sociedade essencialmente pobre e dependente da produo de subsistncia, com poucas famlias detentoras de poder e riqueza at o sculo XVIII39, mas que aproveita a intensificao do trnsito de animais para diversificar as oportunidades de enriquecimento ao longo do sculo XIX. Ampliamse, ento as fortunas daqueles envolvidos com o comrcio estabelecido, a arrematao de impostos e a explorao do trnsito de tropas pelo ambiente urbano, atravs do aluguel de pastos e da facilitao das transaes mercantis pela atuao dos capitalistas40. Essa nova contextualizao urbana, construda durante esse sculo, foi articulada na complexidade das relaes entre a populao e o poder local. A regio atraa moradores, pois o trnsito de tropas garantia ao comrcio urbano um dinamismo promissor em certas pocas do ano41. Porm, essa atrao foi cuidadosamente controlada pela Cmara Municipal, instncia poltica que durante o Imprio teve seus poderes reduzidos na tentativa de acomodar o poder local, com grande autonomia nos antigos Conselhos Municipais, ao modelo de Estado nacional centralizado que se pretendia. O processo eleitoral manteve os grupos privilegiados no poder; a estrutura administrativa, organizada por um conjunto de leis imperiais e provinciais expedidas durante todo o perodo, garantiu mecanismos de controle poltico aos grupos locais (como a nomeao dos empregados da Cmara encarregados da fiscalizao e cobrana de impostos e da preparao de listas trplices para nomeao de cargos administrativos encarregados ao governo provincial); as principais atribuies das cmaras o oramento municipal e a elaborao e aplicao das posturas asseguraram o apoio do governo central a medidas polticas de controle do eleitorado ou do partido rival, bem como permitiram regular os usos do ambiente urbano. Alm desses instrumentos institudos legalmente, houve prticas polticas que vincularam a administrao municipal aos interesses particulares da elite local, como o emprstimo de capital para obras pblicas, a concesso de materiais para construo ou reparo de pontes e ruas, a doao de terrenos ou prdios para uso pblico. Tais prticas instrumentalizaram a troca de benefcios entre Cmara Municipal e particulares, sustentando o domnio poltico do poder local para alm das prerrogativas legalmente estabelecidas s cmaras.torno e medida que intensificava a modernizao urbana, a feira acontecia nas ruas e largos da cidade, garantindo a movimentao do comrcio local. BADDINI, Cssia M..Sorocaba no Imprio: comrcio de animais e desenvolvimento urbano. So Paulo: Annablume: Fapesp, 2002. 39 Sobre o assunto, ver BACELLAR, Carlos de A. P.. Famlia e sociedade em uma economia de abastecimento interno (Sorocaba, sculos XVIII e XIX). Tese (Doutorado em Histria) Departamento de Histria, FFLCH, USP, 1994. 40 Os capitalistas so referncia constante na documentao local da segunda metade do sculo XIX. Eram personagens fundamentais no comrcio de animais, pois as tropas eram comumente negociadas atravs de letras descontveis, em geral, aps um ano. Muitos vendedores descontavam essas obrigaes antes do tempo, pagando juros aos capitalistas locais geralmente, grandes comerciantes com lojas na cidade, que ao assim proceder permitiam a circulao de capital na praa de comrcio, movimentando seus prprios negcios. BADDINI, Cssia M., op. cit., p. 182. 41 Sobre a poca do ano de intensificao do trnsito de tropas, a documentao mostra que os meses finais e iniciais eram os que apresentavam maior nmero de animais. Esse perodo podia, no entanto, se alterar em funo de diversos fatores: estaes chuvosas que dificultavam o trajeto dos animais, revoltas no sul, pontes e estradas em mau estado. BADDINI, Cssia M., op. cit., p. 248.

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Elas foram constantes durante todo o Imprio, acompanhando e por vezes sustentando o processo de urbanizao. A reorientao poltica do incio da Repblica, com a instalao dos Conselhos de Intendncia e sua vinculao ao governo do Estado e, posteriormente, com a Constituio Estadual (14 de julho de 1891) e a Lei Orgnica (13 de novembro de 1891) demonstraria a preocupao com a autonomia dos municpios. Alguns mecanismos de controle da esfera municipal estabelecidos pela Lei de 1 de Outubro de 1828 foram mantidos: a aprovao das posturas e dos oramentos municipais, principais prerrogativas das cmaras no Imprio, mantiveram-se dependentes do governo estadual. As medidas legais e os debates subseqentes proclamao da Repblica mostram que a centralizao poltica, apesar da frmula federativa garantida pela Constituio de 1891, foi o instrumento para viabilizar a dominao das novas elites no cenrio nacional, bem como para vincular os poderes locais a uma estrutura de dominao que acomodasse as tenses e garantisse a unidade poltica42. A Repblica trazia a promessa de descentralizao; entretanto, as diferenas regionais e os interesses locais arriscavam desarticular a nao. Essa discusso dividiu os deputados paulistas na elaborao da Constituio Estadual, vencendo as propostas que garantiam a ingerncia do Estado sobre os municpios. O direcionamento poltico, porm, no foi condicionado unicamente pela imposio de um projeto vencedor na instalao da Repblica. A relao entre municpio e governo estadual tambm foi mediada pelo poder local, herdeiro de uma prtica poltica que garantia sua ingerncia sobre a organizao urbana. A influncia dos lderes locais sobre o governo do Estado para dele auferir benefcios para seus respectivos municpios43 j ocorria durante o Imprio, formalizando uma prtica que submetia a municipalidade ao poder central. Esse mesmo instrumento permitia o fortalecimento da dominao de certos grupos localmente, implicando nas articulaes polticas que garantiam a vitria de um ou outro partido nas eleies municipais. Apesar das medidas centralizadoras na formao do Estado nacional, as elites locais encontraram espao para defender e assegurar seus interesses, fazendo da administrao municipal o principal instrumento para atingir seus objetivos. Ainda que reduzidas a corporaes administrativas no Imprio, as cmaras municipais possibilitavam aos partidos locais gerenciar aspectos da organizao urbana que escapavam ou ultrapassavam a legislao. Isso fica evidente quando se observa a representatividade de certos empregados da Cmara Municipal como fiscais, arruadores, procuradores, administradores diretamente em contato com a populao. Esses cargos se mantiveram, na Repblica, providos por nomeao direta ou indireta dos vereadores. Eram responsveis pela aplicao efetiva das determinaes da municipalidade (cobrana de impostos; fiscalizao do mercado, das construes, da limpeza urbana; aplicao de posturas e cobrana de multas)42 TELAROLLI, Rodolpho. A organizao municipal e o poder local no estado de So Paulo na Primeira Repblica. Tese (Doutorado em Histria) Departamento de Histria, FFLCH, USP, 1981, p. 36-38. 43 Id., ibid., p. 127.

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e por esse motivo, alvos da avaliao dos moradores sobre a competncia da Cmara no encaminhamento de problemas particulares ou pblicos. As reclamaes sobre a atuao dos fiscais eram constantes nos peridicos de Sorocaba, especialmente em episdios crticos como as duas epidemias de febre amarela. Em 1897, logo aps a notcia do primeiro caso da doena na cidade, uma nota no peridico O 15 de Novembro sugeria a nomeao de um fiscal exclusivo para impedir os atravessadores de gneros alimentcios nas principais entradas da cidade, argumentando que a populao desta cidade, j est soffrendo as conseqncias na alta dos gneros alimentcios, devido aos atravessadores (...) propalando que aqui na cidade h muitos casos de febres e forte recrutamento44. O abastecimento urbano era um dos principais problemas locais em poca de trnsito intenso de tropas. Nessas ocasies, a municipalidade podia ser requisitada tanto para atender interesses particulares de grandes negociantes preocupados em controlar o mercado local quanto em apelo da populao ou da pobreza do municpio. A soluo apontada, a nomeao de um fiscal especial para percorrer estes pontos, ao menos por algum tempo at que os fornecedores fiquem convencidos de que so illudidos a no venderem os seus gneros a bel prazer dos atravessadores e bem assim multal-os por esta infraco de posturas45, mostra que a mera existncia de um conjunto de leis municipais proibitivas no garantia a soluo da questo. A expectativa recai numa soluo administrativa que refora a ingerncia da Cmara Municipal sobre a organizao urbana, desviando o mvel da questo: se os atravessadores agiam por interesses particulares, como confiar no particularismo de um grupo de vereadores para escolher um novo fiscal em defesa da populao? Desvio equivalente aparece em artigo de agosto de 1897, aps o fim da epidemia que ocorrera entre maro e julho. Ele cobra Cmara, enquanto corporao administrativa do municpio e superintendente immediata de todos os negcios locaes, a fiscalizao metdica e criteriosa dos quintais e casas, para evitar nova epidemia na cidade. Prope ainda: Decretar a obrigatoriedade da remoo de lixo e guas servidas em toda a cidade; instituir um fiscal incumbido exclusivamente da fiscalisao dos quintaes e respectivas sentinas, mas um fiscal que no pre, que todo o dia tenha por obrigao visitar pelo menos 200 quintais; formular uma lei completa sobre hygiene, legislando tambm sobre construcces de casas, de forma que sejam ellas convenientemente allumiadas e recebam a precisa ventilao. Cumprir finalmente os artigos de lei que decretar a esse respeito de um modo justo, equitativo.46 As sugestes sinalizam a percepo da Cmara Municipal como organismo responsvel pela efetivao das medidas consideradas eficazes44 O 15 de Novembro, n. 426, 25 mar. 1897, p. 2 45 Idem. 46 O 15 de Novembro, n. 453, 15 ago. 1897, p. 1.

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para evitar novas epidemias. Na realidade, j existia uma lei municipal especfica sobre o policiamento sanitrio desde 1894, que ressaltava a competncia da Cmara Municipal sobre o assunto. Segundo a lei, um vereador nomeado pelo presidente da Cmara se responsabilizaria pelo policiamento sanitrio, cobrando dos fiscais (tambm nomeados pela Cmara) as seguintes medidas: visitas domiciliares para inspeo das condies de higiene das habitaes, bem como do matadouro, mercado e armazns de viveres; vigiar o servio de limpeza pblica e particular47; avisar o vereador encarregado sobre algum caso de molstia transmissvel; intimar e multar os infractores dos preceitos sanitrios. As multas deveriam ser cobradas pelos fiscais e pagas em 24 horas. Aps esse prazo, os fiscais deveriam avisar o vereador responsvel, que encaminharia o caso ao Intendente Municipal para que promova immediatamente a cobrana executiva48. Nova lei municipal em 20 de dezembro de 1894 determinaria normas para construo, alinhamento e nivelamento dos edifcios no permetro da cidade, encarregando outro empregado da Cmara o arruador da fiscalizao. Essas medidas visavam a economia, policiamento municipal e hygiene publica, obrigando as novas construes a seguirem medidas padronizadas para portas e janelas, respeitarem o recuo frontal e altura mnima do telhado49. Quanto s novas ruas, deveriam respeitar a largura mnima estipulada (15 metros) e serem abertas paralela ou perpendicularmente s existentes, atendendo a um traado urbano mais racional. Os largos, da mesma maneira, deveriam possuir ngulos retos nos cantos50. Outras determinaes dessa mesma lei (obrigao de fechar com muros os terrenos da cidade, caiar os prdios, manter as testadas e calamento das ruas, limpar as propriedades de todo lixo acumulado) sugerem um conjunto de medidas para reformular o desenho urbano, no excluindo, entretanto, medidas higienizadoras: a caiao, a ventilao, a racionalizao das construes, o fechamento e limpeza de terrenos. Em captulo prprio, a lei destaca outras medidas equivalentes encarregadas Cmara Municipal: a vacinao obrigatria, a fiscalizao sobre a venda de gua potvel, de gneros alimentcios e bebidas, as condies das estrebarias, curtumes e fbricas de sabo e de vela na cidade51. Toda a fiscalizao estaria encarregada aos empregados da Cmara Municipal. A epidemia de febre amarela em 1897, entretanto, mostraria que essas determinaes no eram plenamente reconhecidas como eficazes para evitar a propagao da doena pela cidade. Alm das incertezas sobre os47 A primeira iniciativa da Cmara Municipal para dotar a cidade de um servio de limpeza urbana data de 1871. Naquela ocasio, a municipalidade contratou uma carroa para limpeza das ruas centrais, sob superviso do fiscal da cmara. Em 1877, contratou o servio a um particular da cidade. BADDINI, Cssia M., op. it., p. 200. 48 Lei n.2, de 15 de outubro de 1894. Decreta medidas sobre o policiamento sanitrio. Actos legislativos da Cmara Municipal da Cidade de Sorocaba, estado de S. Paulo 1894. Sorocaba: typographia Casa Durski, 1895, p. 4-6. 49 Lei n.5, de 20 de dezembro de 1894. Cria disposies sobre economia, policiamento municipal e hygiene publica. Actos legislativos..., op. cit., art. 3. 50 Idem, art. 9. 51 Iadem, arts. 72-81.

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agentes causadores e as formas de contgio, havia a desconfiana sobre o papel do Estado nesse processo. Muitas determinaes relativas higiene urbana no recebiam aplicao efetiva, pois esbarravam em usos costumeiros como a conduo de tropas pelas ruas, a manuteno de animais soltos nos largos, a lavagem de roupas no rio concomitante ao uso para abastecimento de gua potvel. Alm do mais, tambm havia resistncia de grupos polticos antagnicos em obedecer determinaes de seus rivais. Os episdios epidmicos no eram os nicos a revelar a trama de interesses e a insuficincia da municipalidade em resolver os impasses do momento. O amplo conjunto de posturas municipais aprovadas durante o Imprio, bem como as leis municipais do incio da Repblica, confrontadas com a atuao efetiva da Cmara Municipal na sua aplicao, mostram que no bastava estabelecer legalmente o direcionamento para certas questes pblicas. A municipalidade ficava condicionada efetivao de seu poder junto populao, sofrendo presses constantes de setores diretamente interessados na manuteno de seus privilgios, na garantia de suas vantagens ou simplesmente na defesa da inviolabilidade do lar. A criao ou aumento de um determinado imposto, o rigor ou sua falta na aplicao de posturas, o favor como critrio para concesso de terrenos urbanos foram argumentos freqentemente apresentados em requerimentos populares enviados Cmara durante o sculo XIX. Tais reclamaes mostram que havia uma certa autonomia do poder municipal em lidar com essas questes, ultrapassando as determinaes da lei. Essa parece ser a autonomia municipal defendida pelo Partido Autonomista Municipal Sorocabano, fundado em agosto de 1897, logo aps o fim da epidemia de febre amarela que ocorrera entre maro e julho. Concretamente, esse episdio testou e provou a incapacidade da administrao municipal em tratar questes urbanas importantes: a manuteno do comrcio local e a garantia das condies de salubridade do centro urbano, onde se concentravam fbricas, comerciantes e residncias da elite. Em janeiro de 1897, antes do surto epidmico, a Cmara Municipal aprovou uma lei de limpeza pblica sob intensos protestos da populao. Ela condicionou moradores de diversas ruas da cidade a pagar uma taxa obrigatria para uma empresa particular contratada pela Cmara. Em protesto, vrios moradores enviaram ao poder municipal representaes e abaixo-assinados, mas pouco adiantou. No dia 17 de janeiro, o 15 de Novembro comentou em tom sarcstico os argumentos de uma celebre representao (...)contra a lei de limpeza publica: (...) a limpeza dos quintaes no tem sido feita satisfactoriamente; no h limpeza na maioria dos quintaes da cidade, que permanecem cobertos de lixo e de lama, constituindo-se focos de miasmas que podem empestar a atmosphera 5252 O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 409, 17 jan. 1897, p. 2.

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A reclamao parece recair sobre a ineficincia da empresa contratada, sugerindo que a Cmara Municipal estaria favorecendo-a em detrimento da populao, sob risco de doenas provocadas pelos miasmas. Apesar da orientao poltica do peridico, declaradamente pr-Cmara Municipal, sobressai a perspectiva de uma cidade que deveria ter um servio de limpeza para garantia da populao, mesmo sob a reclamao de alguns. Essa viso reforada em um artigo de 31 de janeiro que informa sobre o novo contratante do servio e a expectativa positiva da maioria do povo (...) que no desconhece os benefcios salutares da hygiene. Para o autor, somente alguns espritos obsecados por partidarismo irreflectido que seriam contrrios iniciativa53. Nos meses seguintes, a folha intensificaria a propaganda em favor da limpeza dos quintais. A proximidade da febre amarela, que j havia atingido municpios vizinhos, foi o argumento principal para defender as medidas consideradas rigorosas da Cmara Municipal em relao limpeza pblica e particular54. Durante a epidemia, houve aumento dos pedidos de iseno da taxa de limpeza pblica por parte de proprietrios que no tinham solicitado o servio Cmara. Homens ricos e polticos influentes margem da administrao municipal, como o coronel Antonio Gonzaga Sneca de S Fleury e Manoel Furtado Corte Real, tiveram suas solicitaes negadas pela municipalidade, numa demonstrao de disputa partidria55. As tenses aumentaram e o impasse entre cmara e populao urbana tomou novas propores com a vinda, no incio de junho, do dr. Guilherme lvaro, inspetor de higiene do Estado. Sua chegada foi precedida por uma seqncia de intervenes do governo estadual sobre os trabalhos de limpeza, desinfeco e tratamento dos doentes encarregados a uma comisso especial da Cmara Municipal desde fevereiro de 189756. O ento inspetor municipal de higiene, dr. lvaro Soares, nomeado pela Cmara em maio do mesmo ano, chocou-se com a centralizao dos trabalhos promovida pelo inspetor estadual. Em julho de 1897, atendendo as indicaes deste ltimo, a Cmara Municipal reformulou a legislao sobre construes, determinando que todas as casas existentes na cidade deveriam ser reformadas segundo os preceitos de higiene: rea mnima de 30 metros para quintais, caiao, desinfeco dos prdios onde se deram casos da doena, reconstruo de muros. A fiscalizao, a cargo da prpria Cmara atravs de seus53 O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 413, 31 jan. 1897, p. 2. 54 So constantes os artigos a favor da limpeza urbana, mesmo durante os meses da epidemia na cidade: O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 417, 18 fev. 1897; n. 418, 21 fev. 1897; n. 419, 25 fev. 1897; n. 421, 7 mar. 1897; n. 423, 14 mar. 1897; n. 424, 18 mar. 1897; n. 434, 29 abr. 1897. 55 O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 437, 9 maio 1897, p. 2. 56 Essa comisso era composta por trs vereadores. Antes da vinda do dr. Guilherme lvaro, estiveram em Sorocaba o inspetor sanitrio do Estado dr. Marcondes Machado (maro) e o diretor do Servio Sanitrio do Estado, dr. Silva Pinto (abril), ocasio em que o chefe do desinfectrio, dr. Diogo de Faria, tambm visitara a cidade. Nessa ocasio, formou-se uma comisso sanitria para atuar na cidade composta pelos drs. Clemente Ferreira, Remigio Guimares e Saturnino da Veiga.

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fiscais, mostrou-se improfcua: muitos moradores se revoltaram e como resposta a municipalidade cedeu essa competncia aos inspetores sanitrios do Estado, drs. Guilherme lvaro e Epiphanio Pedroza. Em 20 de agosto, o 15 de Novembro defendeu as medidas autoritrias do dr. Guilherme lvaro, que intimava a populao a reformar suas casas sob ameaa de multa de 500$000 e fechamento dos prdios respectivos at o inverno de 189857. Artigos e editais publicados nos nmeros subseqentes mostram a defesa veemente da interveno do Estado sobre as medidas profilticas que deveriam ser adotadas para evitar nova epidemia58. Porm, revelam igualmente a resistncia de certos grupos em apoiar determinaes percebidas como abusivas por parte do governo estadual. neste contexto que se funda o Partido Autonomista Municipal Sorocabano em agosto, sob a direo de dois mdicos da cidade: o dr. lvaro Soares, ex-inspetor municipal de higiene, e o dr. Clemente de Toffoli. lvaro Soares tambm era capito-comandante do Grmio dos Atiradores, associao de cunho florianista fundada na cidade em 1893 por ocasio da Revolta da Armada59. Foi ainda comandante dos atiradores sorocabanos e tenente-coronel do 49 Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional, que seguiram para Apia, Assungu e Itarar, no sul do estado, para debelar a Revoluo Federalista. Sua atuao frente de um novo partido representou a contestao da interferncia do Estado na administrao municipal, supondo a capacidade da prpria municipalidade de enfrentar o surto epidmico. Tal confronto, porm, no foi total: o dr. lvaro Soares no condenou os preceitos de higiene professados pela comisso estadual. Na verdade reforou-os, mas enquanto medidas que deveriam ser promovidas pela Cmara Municipal60. O peridico O Autonomista, criado para promover o partido de mesmo nome, mostra a rivalidade entre grupos republicanos que disputavam o controle da Cmara Municipal ao instigar o debate sobre as medidas higienizadoras impostas pelo dr. Guilherme lvaro. O que se discutia no eram as medidas em si, mas a perda da autonomia da Cmara em aplic-las, como estipulava a lei municipal de 1894. Enquanto estivessem encarregadas municipalidade atravs de seus empregados, o poder local no se via privado de defender seus interesses. Porm, a cargo de uma comisso especial do Estado, a elite perdia a ingerncia direta sobre questes urbanas sensveis. Assim, o alvo do Partido Autonomista no era a interferncia do Estado nas questes de sade pblica, mas a forma como a57 As multas seriam executadas pela Coletoria do Estado em 48 horas. O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 454, 20 ago. 1897, p. 1. 58 O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 455, 22 ago. 1897, p. 1; n. 461, 16 set. 1897, p. 1; n. 462, 19 set. 1897, p. 2; n. 466, 3 out. 1897, p. 3. 59 Segundo o Almanaque de Sorocaba para 1950, 80 homens (...) comandados plo dr. lvaro Csar da Cunha Soares foram os primeiros membros do ento denominado Clube dos Atiradores. PREVITALI, Arlindo (org.). Almanaque de Sorocaba. Itu: Macedo, 1950, p. 16. 60 Ideal mais alevantado no pde impressionar o esprito daquelles quem confiamos a orientao dos poderes pblicos, a no ser o de zelar da sade do povo (...). No depender o bem estar do povo de sua salubridade? (...) a hygiene que (...) poupa um capital cujo valor no devidamente apreciado entre ns. SOARES, lvaro. Hygiene - I. O Autonomista, Sorocaba, 12 out. 1897, p. 3.

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Cmara glycerista, contrria aos princpios florianistas que embasavam o autonomismo em Sorocaba, a permitia61. O presidente do Partido Autonomista, dr. lvaro Soares, sendo mdico, reconhecia como fundamentais as medidas de desinfeco, isolamento e reforma dos prdios exigidas pela Comisso Sanitria, mas no podia aceitar a forma impositiva como essa comisso efetivava seu trabalho, ultrapassando as prerrogativas da legislao municipal. Questionada sobre o que era percebido como abuso da Comisso, a Cmara respondeu em agosto: incontestvel a nescecidade de intervir a Camara em tudo que disser respeito ao melhoramento hygienico das habitaes, no entretanto a Camara s intervem ou poder intervir pelos meios estatudos em suas leis, assim pois, quanto a melhoramentos de prdios tem os srs. Inspectores mais recursos, mais foras mesmo, pela lei em vigor, para conseguir a sua realisao, do que a prpria Camara; e quanto demolio, a Camara s poder ordenar quando nos casos previstos em suas leis, pela frma e mais formalidades ahi contidas (...).62 Sem especificar por quais recursos ou foras a Comisso Sanitria se sobreporia municipalidade, a resposta revela a submisso s determinaes do governo do Estado. So vrios os artigos elogiosos ao poder municipal publicados no 15 de Novembro durante todo o segundo semestre de 1897, perodo ps-epidemia marcado pela fiscalizao rigorosa e imposio de multas pelo inspetor de higiene, dr. Guilherme lvaro. Esses artigos sugerem a intensa crtica que a Cmara sofria por setores diretamente afetados pelas exigncias da Comisso Sanitria e incitam, ainda, uma argumentao favorvel interveno do Estado nas questes de higiene. O fator incontestvel para essa argumentao era a necessidade de recursos para a Cmara promover duas grandes obras: a construo de uma rede de esgotos e a canalizao de gua potvel. A justificativa apresentada refora a centralizao: Falta-nos (...) um regular servio de abastecimento de agua potvel; falta-nos ainda como seu complemento indispensvel uma bem construda rede de exgottos (...)61 O Partido Republicano Federal, tendo frente Francisco Glicrio, foi fundado em abril de 1893. Era anti-florianista e apoiava a candidatura de Prudente de Moraes. As revoltas do perodo, entretanto Canudos e a Revoluo Federalista enfraqueceriam a unidade do partido, provocando uma ciso entre gliceristas e prudentistas (ou governistas, como eram denominados em Sorocaba). Quanto ao florianismo, defensor de uma Repblica forte e centralizada apesar da frmula federativa determinada pela sua Constituio, persistiu no mbito poltico mesmo aps o governo do marechal. Em Sorocaba, seus representantes eram membros do referido Grmio dos Atiradores. Em 1897, os autonomistas, formados no seio do florianismo local, acusaram a Cmara glicerista de compor um acordo poltico com a chapa governista para garantir a vitria nas eleies de 15 de outubro, para substituio de seis vereadores que haviam renunciado ao cargo em 10 de setembro, em protesto pela absolvio de um inimigo poltico acusado de injrias Cmara. Em 15 de outubro, os mesmos vereadores retornariam Cmara amparados pelo voto popular, ainda que os opositores acusassem manipulao do processo eleitoral. O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 460, 12 set. 1897; n. 462, 19 set. 1897; n. 469, 17 out. 1897. 62 Resposta da Cmara Municipal ao parecer sobre os inspetores sanitrios. O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 466, 3 out. 1897.

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Por certo ao Governo do Estado cabe auxiliar-nos, ou por outra, cabe pr mos obra e leval-a a seu termo; a elle, a realisao de taes servios que demandam grandes capitaes, a elle como superintendente de todos os negcios que dizem respeito saude publica das povoaes paulistas. E a elle que ns agora nos dirigimos em nome da populao sorocabana, em nome dos interesses do prprio Sul do Estado, cujas seguranas e garantias de sade publica dependem neste momento da salubridade de Sorocaba. Somos as portas e simultaneamente o emprio commercial de todo o Sul: si aqui se repele a epidemia todo o Sul ser empastado como aconteceu no Oeste (...). E, pois, ao dr. Campos Salles, cujo alto critrio administrativo bastante conhecido, dirigimos um appello para que com o povo sorocabano collabore efficazmente para o saneamento e defeza de Sorocaba, para as garantias e seguranas do Sul de S. Paulo.63 A exposio do problema de sade pblica como um risco iminente para todo o sul do pas reforava o intervencionismo do governo do Estado. Apontava, tambm, para a valorizao da cidade no quadro da economia nacional, argumento que poderia servir para convencer os moradores a atender as determinaes da Comisso Sanitria e aceitar a passividade da Cmara Municipal sobre o assunto. As tenses s se aliviaram em dezembro de 1897, com a substituio do dr. Guilherme lvaro por outro inspetor sanitrio, o dr. Flamnio Botelho. Esse fato foi comemorado pelos autonomistas da cidade, tanto que o peridico do partido encerraria sua publicao pouco depois. O ltimo nmero data de janeiro de 1898, sem mais apresentar as rixas polticas com a municipalidade64. O Partido Autonomista desapareceu, ento, da arena poltica. Sem conquistar representao na Cmara Municipal nas eleies de outubro de 189765 e com o afastamento de seu maior rival, o dr. Guilherme lvaro, enfraqueceu enquanto corporao. Alguns correligionrios apareceriam infiltrados na administrao municipal nos anos seguintes, como o caso do prprio dr. lvaro Soares, que assumiria a direo do Hospital de Isolamento durante a epidemia de 1900. Nessa ocasio, colaboraria sem restries polticas com a Comisso Sanitria do Estado, composta pelos drs. Flamnio Botelho, Ascnio Vilas Boas, Alfredo Guaran e Paula Sousa. O municpio, ento, seria dividido em quatro distritos, cada qual encarregado a um membro da Comisso Sanitria que se reportaria diretamente ao Servio Sanitrio do Estado, sob o comando do dr. Emlio Ribas. Aos mdicos do municpio, dr. lvaro Soares auxiliado pelo dr. Artur Martins, caberia a direo do referido hospital, submetido ao controle imediato da Comisso Sanitria.63 O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 455, 22 ago. 1897, p. 1. 64 OAutonomista, Sorocaba, 28 jan. 1898. 65 O dr. lvaro Soares, presidente do partido, foi o stimo candidato mais votado para eleger seis vereadores. O Autonomista, Sorocaba, 23 out. 1897, p. 1; O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 469, 17 out. 1897, p. 2.

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A epidemia de 1900 comeou em janeiro, atingindo uma rea urbana notadamente de residncia da elite. Preocupou as autoridades locais, no completamente refeitas dos problemas causados pelo surto de 189766. O alcance desse novo episdio da doena parece ter sido maior: enquanto em 1897 o 15 de Novembro acusou 42 bitos por febre amarela durante os meses da epidemia, o peridico A Lucta anotou 60 mortes dentre 800 doentes de janeiro a abril de 190067. Alusio de Almeida, analisando documentos da poca, ofereceu nmeros mais expressivos: Contamos e recontamos no 15 de Novembro e alcanamos 500 [vtimas] mais ou menos. A estatstica mais plausvel a do Correio Paulistano da poca: houve 3.000 doentes e 600 bitos. [O dr. ] Fajardo anotou os seus prprios doentes: eram 500 e morreram 34.68 Os peridicos da poca oferecem um retrato sombrio da cidade. Com a doena se espalhando rapidamente entre os moradores do centro urbano, fecharam-se muitas casas comerciais e muitos fugiram para localidades vizinhas. Percebendo a gravidade da situao e o risco para os negcios que representava uma epidemia na cidade, trs grandes industriais locais enviaram um telegrama ao governo do Estado em 17 de janeiro, solicitando as mais enrgicas providencias para conter o surto. O peridico assim expressa o teor do telegrama: Em nome da industria sorocabana, pelos interesses periclitantes della, demonstraram [os industriais] como est vinculada salubridade de Sorocaba. Si os recursos sanitrios no forem reforados, isto si no se procurar uma soluo prompta para o estado de cousas actualmente, como proseguir o trabalho das fabricas? E os proprietrios das Fabricas Nossa Senhora da Ponte, Santa Maria e Villela o sem numero de prejuzos e misrias que traria o fechamento dos nossos estabelecimentos industriaes.69 A resposta do governo do Estado foi imediata, enviando a Sorocaba o diretor do Servio Sanitrio do Estado, dr. Emlio Ribas, com toda66 Naquela ocasio, vrios moradores fugiram da cidade com medo do contgio, afetando o comrcio local e o equilbrio do mercado de gneros na regio. A notcia da epidemia afugentou, tambm, negociantes de outras partes que costumeiramente seguiam at Sorocaba para aproveitar o adensamento de condutores e compradores de gado. Alusio de Almeida, referncia importante da historiografia local, afirma que as feiras anuais de muares findaram-se ento para no mais se restabelecerem. ALMEIDA, Alusio de. O tropeirismo e a feira de Sorocaba, op. cit., p. 47-48. 67 O 15 de Novembro, Sorocaba, n. 445, 11 jul. 1897, p. 1; A Lucta, Sorocaba, n. 21, 1 abr. 1900, p. 1. 68 ALMEIDA, Alusio de. Sorocaba: 3 sculos de histria. Itu: Editora Ottoni, 2002, p. 393. 69 Os trs industriais em questo, Manoel Jos da Fonseca, Manoel Pereira Villela e Alexandre Marchisio eram proprietrios, respectivamente, das citadas fbricas txteis Nossa Senhora da Ponte, Villela e Santa Maria. Republica, Sorocaba, n. 4, 18 jan. 1900, p. 2.

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autonomia para tratar a questo70. Nos dias seguintes, com o agravamento da situao, a Intendncia Municipal fez publicar nos peridicos locais um apelo aos moradores para que auxiliem a digna Commisso Sanitria e bem assim aos distinctos clinicos, communicando-lhes immediatamente qualquer caso de molstia que se manifeste em pessoas de suas residncias71. As intimaes para reformas e desinfeces de prdios passaram a ser publicadas como determinao conjunta da Comisso Sanitria e da Intendncia Municipal, trazendo as assinaturas dos responsveis por essas reparties72. No incio de fevereiro, o peridico Republica destacou o interesse do governo do Estado por Sorocaba como obra da Cmara Municipal: bem de ver agora que si estamos do lado do governo, unicamente em virtude do interesse que vae manifestando, e isto com a independencia que o apanagio da nossa existncia, combateremos qualquer esforo, qualquer reaco levantada contra o funccionamento do servio sanitrio aqui installado (...). A nossa attitude perante a auctoridade municipal tem sido pacifica, cheia de espectativa, repleta de cordealidade. Si no nos temos mostrado pressurosos no elogio, nunca a condemnmos. nossa opinio porm, que o sr. Intendente deve estar da banda do governo e secundar, como lhe for possvel, a aco sanitria (...).73 O artigo defendia o apoio irrestrito da Cmara Municipal Comisso Sanitria, que gozava de uma especial autonomia do Estado para debelar a epidemia. Com isso buscava o favorecimento aos interesses locais, amalgamando uma prtica poltica que garantia recursos ao municpio mediante a limitao de sua autonomia em questes pblicas cada vez mais encarregadas a tcnicos, cuja especialidade cientfica poderia ser provada no ordenamento da sociedade e dos espaos por ela ocupados. Mesmo um peridico oposicionista como A Lucta, inspirado nos autonomistas de 1897, mostrou em suas crticas a crena de que a epidemia devia ser posta em mos de mdicos e autoridades sanitrias: Ento, possvel, ns, os encarregados da orientao popular fugirmos da rea da peleja entregando os nossos interesses a homens que s servem para exgottar os cofres, no s do governo federal, mas tambm os da nossa municipalidade? Serto que no! Ento (...), vamos fallar de tudo que merece nossa interveno (...) b) que se d providencias enrgicas os incumbidos do saneamento desta cidade e que andam todo o dia e todos os dias inglobados, de carro pelas ruas, de sobe e desce;70 71 72 73 Idem, p. 2. Republica, Sorocaba, n. 6, 25 jan. 1900, p. 2. Republica, Sorocaba, n. 7, 28 jan. 1900, p. 3. Republica, Sorocaba, n. 8, 1 fev. 1900, p. 1.

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(...) d) que cada districto tenha seu medico, e este procure de casa em casa as pessoas que possam estar affectadas de molstia epidmica; e) que os mdicos que ora acham-se em Sorocaba, no continuem a andar todos dentro de um carro, s pelo meio das ruas, sem dar execusso ao trabalho para que foram conduzidos a esta cidade (...).74 A cobrana por maior rigor nos trabalhos de saneamento e tratamento dos doentes reforava as atividades da Comisso Sanitria, mas tambm sugeria a participao da municipalidade na fiscalizao dos encarregados. O principal argumento era a perda de recursos municipais no combate epidemia, culpando o aparente descaso com que os mdicos atuavam. Essa imagem do mdico que devia se sacrificar em benefcio no s da populao, mas dos interesses da municipalidade, tambm esteve presente no elogio ao dr. Fajardo, definido pelo mesmo peridico como (...) homem extraordinrio que no trepidou em deixar a famlia [em Descalvado], amigos e a sacrificar os prprios intereces para vir por ao lado de uma populao angustiada e afflicta (...)os seus servios de medico abalisado e de homem de sciencia e caridade75. Em 1900, o desespero tomou conta dos moradores do centro urbano, de onde partiu a propagao da doena. A febre amarela parecia atingir especialmente o quarteiro central, formado pelas ruas Direita, Equador e das Flores, justamente a rea privilegiada de residncia e negcios da elite local. Entre janeiro e maio, perodo da epidemia, aumentou a fuga de moradores e o fechamento de casas de comrcio. A imprensa local demonstrou a preocupao das autoridades que, sucessivamente, mandaram publicar editais pedindo as chaves das residncias abandonadas para proceder desinfeco e incitando os moradores a apoiar os trabalhos da Comisso Sanitria. Com a epidemia rapidamente se propagando e atingindo seriamente os interesses da elite local, voltou ao debate poltico a ingerncia do poder municipal sobre a sade pblica. O fato dos dois surtos terem ocorrido em curto espao de tempo e do segundo episdio atingir com fria maior o centro de comrcio da cidade foi usado para criticar as oposies polticas e chamar colaborao conjunta municipalidade e governo estadual: A questo mxima, a nica de molde a arrastar e absorver os espritos, resume-se e cresce a cada minuto de importncia na debellao do mal imperante, da febre amarela a que tratamos com74 A Lucta, Sorocaba, n. 17, 21 jan. 1900, p. 1. 75 A Lucta, Sorocaba, n. 21, 1 abr. 1900, p. 1.

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um cavalheirismo inqualificvel, permanecendo, desde que ella nos visitou pela primeira vez, numa lazeira de inconscientes, numa inaco de collectividade sem a mais leve somma de conhecimentos em hygiene contempornea, de natureza rigorosa. Passou um ano sem voltar, e foi o sufficiente para que todos os sorocabanos socegassem, ningum mais cuidou que a febre pudesse tornar entre ns numa edio correcta e augmentada, o primeiro ataque ficou como um mau sonho de que a gente afinal, se vae esquecendo. S uma cousa se fez para combater a volta provvel da molstia: discutiu-se (...). Defeito velho, defeito de raa, defeito terrvel, o da palavra malbaratada em pura perda, somente para falar. Ao cabo (...), a inanidade, o nada, a prolongao deplorvel do pssimo estado hygienico em que nos achamos (...) Procuramos no h muito mover o interesse do governo do Estado. Elle despertou logo e, ao que parece, ser duradouro (...). Edifique-nos a inrcia havida: trabalhemos; no, porm, no conflicto esteril das opinies, no terreno odioso das discusses que nenhum resultado satisfactorio acarretam.76 O artigo, bastante extenso, traz o tom do desabafo. As tenses polticas de 1897 so mencionadas como as culpadas pelo descaso da populao com as questes de saneamento da cidade. Apesar das crticas e debates daquela poca, no havia sido feito um trabalho efetivo para dotar a cidade de esgotos e gua encanada. Tais servios, bastante caros, s seriam implantados em 1901, aps o segundo episdio da febre amarela, e com recursos exclusivos do governo estadual77. Em dezembro de 1901, o Intendente Municipal informou a contratao do servio de abastecimento de gua potvel junto ao governo do Estado, bem como a apresentao do projeto para uma rede de esgotos. Importante observar que tais melhorias atenderiam o centro urbano, onde menos de um tero da populao residia, mas que concentrava os moradores mais abastados e politicamente influentes78. Providncias como essa, que submetiam a municipalidade ao favor do governo estadual, foram tomadas em funo dos efeitos devastadores da epidemia para os comerciantes e industriais, mas justificadas em prol de toda a populao sorocabana.Nos debates da imprensa e na legislao municipal, o saneamento e as medidas higienizadoras so tratados como condies do progresso urbano e da civilidade dos moradores. A efetivao dessas medidas, entretanto, esbarrava na orientao das atividades produtivas conforme preceitos que escapavam racionalizao dos usos da76 Republica, Sorocaba, n. 6, 25 jan. 1900, p. 1. 77 PREVITALI, Arlindo (org.), op. cit., p. 18. 78 Camara Municipal de Sorocaba Relatorio do intendente no exerccio de 1900. Itapetininga: typographia da Tribuna Popular, 1901, p. 5-6.

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cidade. Nessas circunstncias, possvel evidenciar o jogo do poder local com a municipalidade. Lideranas fortes ou apadrinhados polticos podiam conseguir iseno de taxas e impostos ou trocar favores com a Cmara Municipal. Em outras situaes, setores sociais podiam se revoltar e forar o relaxamento da fiscalizao a cargo da cmara79. Em momentos crticos que arriscavam sensivelmente o equilbrio econmico e poltico do municpio, como a epidemia de 1900, o jogo poltico tomava outro contorno. O auxlio financeiro do governo estadual mostrou-se fundamental no s para extirpar a doena do meio urbano, mas para recuperar a economia local. Procuramos immediatamente mover o interesse do governo do Estado; e a prova de que o conseguimos, com o concurso de outras inffluencias embora, est no servio sanitrio que se vae desdobrando cada vez mais completo (...). Por emquanto, todo obstculo aco sanitria estabelecida, sobre ser extemporneo, equivale a um attestado de absoluto e impatritico desconhecimento da situao (...), em que os recursos, quaesquer que sejam, no devem soffrer demora na realisao.80 Partiu de trs industriais da cidade o pedido de socorro ao governo do Estado. A municipalidade, pressionada, submeteu-se ao comando da Comisso Sanitria. Restou ao poder local assegurar sua participao herica na guerra contra a epidemia, ainda que sob as orientaes dos inspetores do Estado. A historiografia local reforou essa interpretao. Alusio de Almeida apresentou a epidemia de 1900 como uma cruzada dos mdicos e cientistas para salvar a cidade, lembrando nomes de sorocabanos. Destacou o empenho dos religiosos locais no conforto espiritual da populao81. Retratou a cidade como flagelada, dependente de recursos do governo estadual e de municpios paulistas que contriburam atravs da Comisso de Socorro formada durante a epidemia. Sua leitura da febre amarela em Sorocaba, apesar dessas limitaes, permanece referencial. So as nicas anotaes embasadas em pesquisa documental de que dispe a historiografia sobre a cidade. Deixa em aberto, entretanto, a discusso sobre as condies urbanas que permitiram a79 Foi o que ocorreu no Imprio, com a revolta dos aguadeiros contra a demarcao de um posto nico no rio Sorocaba para buscarem gua potvel. A medida visava evitar o uso concomitante do rio para lavagem de roupas, bebedouro de animais e abastecimento de gua, justificando ser essa prtica contrria aos preceitos de higiene. Em 1878 foi aprovada a postura municipal que demarcava o referido porto, provocando o protesto dos aguadeiros que assim evitaram a demarcao. Ela s ocorreu de fato em 1885, quando a Cmara Municipal ensaiou tratar a questo com mais rigor, inclusive aplicando multas. Aps a inaugurao de dois chafarizes na cidade em 1886, a municipalidade afrouxou a fiscalizao do porto demarcado. Ver: BADDINI, Cssia M., op. cit., p. 198-199. A mesma determinao aparece na lei municipal de 1894, no captulo Hygiene e salubridade publica. Lei n. 5, de 20 de dezembro de 1894..., op. cit., art. 79. 80 Republica, Sorocaba, n. 8, 1 fev. 1900, p. 1. 81 Em 1897, o padre Luiz Sicluna; em 1900, dr. lvaro Soares, Monsenhor Joo Soares do Amaral, padre Jos Raimundo da Silva, Dom Antonio de Alvarenga e frei Daniel de Santa Maria. ALMEIDA, Alusio de. Sorocaba: 3 sculos de histria, op. cit., p. 391-393.

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propagao da doena e a efetivao das medidas sanitrias para vencla. Desconsidera completamente as questes polticas implicadas nesse processo, aceitando a acomodao da cidade aos preceitos sanitrios determinados pelo governo do Estado como uma amostra da civilizao e do republicanismo de sua populao heranas do liberalismo sorocabano.

Consideraes finais Ainda que os dois episdios epidmicos demonstrem a interferncia do governo estadual, preciso considerar as dificuldades na implementao das medidas impostas populao local. Estava em jogo no s o reordenamento da estrutura urbana, com a reforma de prdios e limpeza dos terrenos e quintais, mas que instncia poltica da Repblica se encarregaria dela e qual a ingerncia do poder local sobre o processo. Esse tensionamento entre os poderes estaduais e municipais parece ser um ponto central aos analistas, que buscam uma compreenso mais complexa dos fenmenos que giram em torno da organizao dos espaos pblicos e privados, tendo a sade pblica como eixo de suas anlises. No caso sorocabano, aqui tratado, a racionalizao do espao urbano e de seus usos encontrou resistncias e acendeu conflitos mesmo entre os promotores do progresso industrial, que podiam quase simultaneamente enviar um telegrama de socorro ao governo estadual e reivindicar a iseno da taxa de limpeza pblica ou usar de influncia poltica junto Cmara para garantir o funcionamento de fbricas insalubres ou que comprometiam o saneamento do entorno. Situaes assim sugerem um olhar mais atento s condies locais que possibilitaram no s consolidar um discurso poltico em favor do saneamento e da interveno tcnica para alcan-lo, mas tambm certas prticas do poder municipal para atender expectativas da elite local.82 Como ressalta Jos Murilo de Carvalho, (...)na prtica poltica brasileira nem o centralismo levou educao cvica, nem o federalismo levou garantia de liberdade. O primeiro sempre tendeu para o despotismo do governo, o segundo para o despotismo do poder privado. O debate sobre federalismo e centralismo nos leva, assim, inevitavelmente busca de uma sociologia e de uma antropologia da sociedade nacional.83 As elites brasileiras assumiram esse debate na construo da Repblica, mas no solucionaram os impasses do poder local, trazidos tona em momentos crticos como as epidemias de febre amarela. Em Sorocaba, cidade que foi se conformando como central dentro de uma certa regionalidade paulista, foi testada a capacidade do poder local em promover82 Acompanhar estudo de SANTOS, Marco Antonio Cabral e MOTA, Andr. So Paulo,1932: memria, mito e identidade, So Paulo, Ed. Alameda, 2009. 83 CARVALHO, Jos Murilo de. Federalismo e centralizao no Imprio brasileiro: histria e argumento. In: Pontos e bordados: escritos de histria e poltica. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 182.

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o progresso econmico e a modernizao. Para isso, condicionaram a municipalidade a tomar medidas efetivas de higiene e salubridade, aplicando ou permitindo aplicar a legislao que j existia. Arriscaram o domnio do poder local enquanto se formalizava uma prtica poltica que, longe de cumprir a promessa republicana de ampliar a participao popular, submetia a sociedade ao controle imediato do governo do Estado, ao mesmo tempo, que epidemias dos mais vrios tipos e graus de intensidade devastavam homens e mulheres, revelando, consequentemente, as tenses e disputas, reconsiderando as razes de nossa prpria atuao poltica e os princpios sobre os quais construmos, em mbitos locais, a legitimidade da prpria nao brasileira.

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O Vale do Ribeira entre 1970 e 1990: sade, educao, poltica e participao de sujeitos1Ana Silvia Whitaker Dalmaso2 Joana Azevedo da Silva3 Maria Ceclia Cordeiro Dellatorre4 Maria Cristina Turazzi5

1 Queremos deixar aqui registrados alguns entre os muitos nomes dos que fizeram e ainda fazem a histria do Vale do Ribeira e, em alguns casos, da sade pblica e de outros campos em So Paulo e no Brasil. A bandeira dos direitos sociais e da incluso, que muitos empunharam nos anos 1970-80, alcanou depois outras reas e pessoas, sem deixar de ser objeto de uma luta permanente. Fica a lembrana de alunos e residentes da FMUSP; bilogos, gegrafos, engenheiros agrnomos, espelelogos, todos estudiosos do Vale do Ribeira; Ftima Fernandes, Mrcia Buzzar, Maibi Inaj de Sousa Branco, Carlos Armando do Nascimento; Carlos Roberto de Rivoredo; Jos Celano; Eduardo Nakamura; Hilda Salinas; Janete ; Ldia Guerlenda; Mrcia Rabane Elias; Marlene Filgueiras da Fonseca; Ndia Leinig; D. Nilda, do bairro do Assungui, em Juqui, parteira e primeira agente; professores da FMUSP; professores das escolas comunitrias; Lucia Leite, o pessoal vindo da Paraba: Ana Clara, Giovane, Maria Alice; Vera Elisa, Regina Nicolete, Amadeu Capobianco; Carmem (da Sucen), Marisa Paganini, Maria Cecilia Gorla, Mirtes Peinado, Luiza Alonso, Sandramara Alonso, Valter Vitti, Roberto Vilanova; Rosa Maria de Jesus Patucci; Geraldo Vallau, Jos Alberto Salinas; Sandra Kennedy Viana; Sara Cavalcanti Barroso; e muitos outros, especialmente os agentes que possibilitaram que se fortalecesse todo o esforo. 2 Mdica sanitarista, possui mestrado em Programa em Medicina Preventiva pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (1991) e doutorado em Programa em Medicina Preventiva pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (1998) . Atuando principalmente nos seguintes temas: Prtica mdica, Sade coletiva, Sade. 3 Enfermeira sanitarista, doutora em Sade Pblica. Participou da concepo e da instalao do Centro de Sade-Escola do Butant, convnio entre a SES e a FMUSP. Em 1980, ento trabalhando na Delegacia Federal de Sade do Ministrio da Sade, acompanhou e participou, no Vale do Ribeira, da implantao do Projeto DEVALE. Sua dissertao de mestrado, defendida em 1984, na USP, teve como objeto de estudo a implantao e os resultados desse Projeto. Atualmente desenvolve estudos e pesquisas em consultoria para o Ministrio da Sade, a UNESCO, a Secretaria de Estado da Sade de So Paulo. 4 Mdica sanitarista, foi para o Vale do Ribeira para cumprir os trs ultimos meses do primeiro ano de Residncia em Medicina Preventiva da FMUSP. Foram "10 anos" de residncia no Vale: primeiro, no Centro de Sade de Juqui; Posteriormente, coordenando o "Projeto DEVALE, detalhado neste texto, no incio dos anos 80. Foi Diretora Regional da Regio DEVALE da SES, no primeiro governo estadual eleito ps-ditadura; por 20 anos foi docente da Faculdade de Medicina de Marlia. A partir de 2008 Coordenadora Municipal de Sade de Registro no Vale do Ribeira . 5 Mdica sanitarista, mestre em Sade Pblica, veio da Universidade Estadual do Rio de Janeiro para o Vale do Ribeira, como pediatra, para trabalhar em um projeto docente-assistencial, objeto de Convnio entre a Secretaria de Estado da Sade e o Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Fez especializao em Sade Pblica, na USP. Foi sujeito fundamental na concepo e na viabilizao do Projeto DEVALE e no desenvolvimento das aes de sade da Regio. Foi Diretora do Departamento Regional de Sade do Vale do Ribeira.

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ApresentaoA sade e a doena e os respectivos cuidados so reas privilegiadas para a emergncia de necessidades e a implementao de aes. De um lado, as condies de sade e vida so determinadas pelas formas como se do a produo e a apropriao de bens, de outro, as polticas de sade, saneamento e educao tanto esto relacionadas como repercutem nos modos de viver e adoecer dos indivduos e dos grupos familiares e sociais.A situao do Vale do Ribeira entre os anos 1970 e 1990 exemplar na conformao de necessidades de ordem econmica, poltica e social, tendo a rea da sade aglutinado um conjunto de propostas e embates por meio dos quais populao, profissionais, grupos organizados e poder pblico fizeram a histria. Inicialmente, descreveremos aqui as caractersticas da populao e da ocupao da terra, seguidas de alguns acontecimentos polticos e movimentos sociais da dcada de 1970, anos duros da ditadura militar, quando a presena de um campo de treinamento para guerrilha na regio funcionou como um divisor de guas e fez convergir para o Vale uma srie de polticas pblicas. Depois, enfocamos a interface entre sade e educao, com a instalao de Escolas Comunitrias e o convnio entre a Secretaria de Estado da Sade e a Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (FMUSP) na organizao de um sistema de sade. Por fim, apresentamos a proposta da Ateno Primria Sade, que no Vale do Ribeira desenvolveu experincias significativas na rea de sade pblica do estado de So Paulo, com a extenso da cobertura dos servios de sade, a participao da comunidade, a atuao do agente de sade e a gesto de uma rede de servios de sade, com suas interfaces com a luta por direitos sociais e a atuao intersetorial (Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986; Vilanova; Viana; Patucci, 1992; Dellatorre, 2002).

A terra e o homem no Vale do RibeiraSituada ao sul do estado de So Paulo, na fronteira com o Paran, a regio do Vale do Ribeira tem uma rea de 16.327 km2, abrangendo, na dcada de 1980, 16 municpios, entre o mar e a serra. O fato de 70% dessa rea serem montanhas e serras retardou a extenso de vias e meios de comunicao, assim como a implantao de uma agricultura mais produtiva. A regio tem clima subtropical mido, com veres quentes e sem estaes secas. Aliados s chuvas abundantes (acima de 2.000 mm/ano), os declives acentuados promovem a lavagem do solo, tornando-o cido e menos frtil. Como a rea de plancie extensa e o sistema de drenagem, lento, as chuvas ocasionam enchentes e danificam as vias de comunicao. A BR-116, que liga So Paulo ao sul do Brasil, foi aberta no incio da dcada184

de 1960. As estradas vicinais so precrias e ficam intransitveis com as muitas chuvas; o transporte coletivo na zona rural escasso, e os ribeirinhos ficam praticamente isolados, nas enchentes. A vegetao varia do mangue floresta tropical, representando a ltima grande reserva da Mata Atlntica do estado. No sculo XIX, a regio litornea do Vale do Ribeira prxima cidade de Iguape foi a maior produtora de arroz de So Paulo, representando importante produto de exportao baseado em mo-de-obra escrava. Para escoamento da produo, planejou-se a construo de uma estrada de ferro que ligaria Santos a Curitiba, mas o ciclo da rizicultura foi decaindo, e a prioridade de planos e projetos se voltou para o caf. Como a topografia e o clima da regio no eram propcios produo cafeeira, o Vale permaneceu isolado, desprovido de polticas pblicas, desenvolvendo uma pesca rudimentar no litoral, uma agricultura de subsistncia e extrao de produtos da mata como madeiras, fibras vegetais e palmito. Entre 1865 e 1930, o Vale do Ribeira foi alvo de diversas tentativas de colonizao estrangeira, e, apesar de todas as dificuldades, a de maior xito foi a japonesa, tutelada por empresa estatal japonesa. O estabelecimento dessas colnias na dcada de 1920 tinha como objetivo a produo de alimentos para o mercado interno, o que no aconteceu. Nas dcadas de 1940 e 1950, consolidou-se a cultura do ch, que l encontrou condies timas de produo. Parte da produo era feita em pequenas propriedades, e a colheita, vendida s fbricas de ch. O restante eram grandes plantaes, que utilizavam um sistema de assalariamento do trabalhador aliado a uma incipiente mecanizao da colheita. Desde a dcada de 1950, o ch e a banana so os produtos de maior importncia econmica do Vale. Iniciada em Santos, a bananicultura foi avanando em direo ao litoral sul, para responder demanda de mercado interno, especialmente da cidade de So Paulo, que tinha no operrio italiano recm-imigrado um grande consumidor de banana nanica com po, alimento barato, na poca. A construo de parte do projeto ferrovirio ligando as cidades de Santos e Juqui facilitou o escoamento da produo. A plantao da banana na vrzea dos rios era baseada em trabalho assalariado por dia, sem vnculo com a propriedade da terra, e as mudanas constantes das famlias de uma fazenda para outra no permitiam que as crianas frequentassem regularmente a escola. Alm disso, as condies de vida e sade eram precrias: as famlias se abrigavam em choas de capim ou barro durante o perodo de trabalho, recebendo um pedao de terra para plantarem uma roa, pelo qual pagavam um aluguel. A abertura da rodovia BR-116 e a expanso da circulao de mercadorias marcaram uma nova fase, caracterizada pela mudana na ocupao tradicional da terra: a formao de latifndios de propriedade de pessoas estranhas regio deu-se muitas vezes custa de processos violentos de enfrentamento, resultando na expulso de posseiros; o loteamento de terras ao longo das estradas e no litoral representou devastao da natureza da rea, com a emergncia de doenas propagadas por insetos; a urbanizao185

crescente pela oferta de emprego provocou um xodo rural da populao jovem, desestruturando a agricultura familiar, e atraiu antigos posseiros que saram de suas terras, ampliando as periferias das cidades sem recursos urbanos bsicos. A essas alteraes ecolgicas e sociais, somou-se a do papel dos habitantes locais, alijados das decises sobre o estabelecimento de diretrizes para o desenvolvimento do Vale. At o final da dcada de 1980, o Vale do Ribeira era a regio mais pobre do estado de So Paulo, com mais de 50% da populao vivendo em rea rural, onde os nveis de analfabetismo e pobreza se aliavam precariedade do acesso a servios pblicos. Acompanhemos as polticas que se foram implementando.

Dcada de 1970 as polticas no Vale do RibeiraA histria recente do Vale do Ribeira tem um importante divisor de guas: a presena do Capito Carlos Lamarca em Jacupiranga e Eldorado. Tomando partido da extenso e do isolamento da terra e do homem, caracterizada como rea relativamente desconhecida para o exrcito, que nem dispunha de mapas atualizados, um grupo de luta armada contra a ditadura militar, a Vanguarda Popular Revolucionria (VPR), instalou, desde novembro de 1969, um campo de treinamento de guerrilha, numa fazenda comprada na regio. A populao era escassa e a vegetao densa, facilitando a movimentao clandestina do grupo por cinco meses. Uma srie de prises forneceu as primeiras informaes sobre o campo de treinamento; em abril de 1970, iniciou-se um cerco de 40 dias comandado pelo Coronel Erasmo Dias. A regio foi evacuada e o campo bombardeado. Depois desse episdio, o Vale do Ribeira passou a ser considerado rea de segurana nacional, disseminando aes de vigilncia e marcando as relaes sociais com desconfiana, medo e insegurana. Para manter o controle da rea, foram abertas muitas estradas e construdas algumas pontes de cimento, e implantadas as Escolas Comunitrias de 1 grau (unidades escolares rurais de ao comunitria, Ueac), com professores morando no prprio bairro e conhecendo cada famlia. A Escola seria tambm um equipamento social de integrao de atividades voltadas para o desenvolvimento. Nessa poca, ampliou-se o acesso a pronto-atendimento mdico atravs da Superintendncia de Desenvolvimento do Litoral Paulista (Sudelpa), em paralelo s unidades da Secretaria de Estado da Sade, mas o gasto dos municpios em sade limitavase praticamente manuteno de ambulncias para transporte de doentes. Embora se tenham feito alguns investimentos em infraestrutura e numa estrutura administrativa pblica densa, o Vale continuou pobre. O estado de So Paulo era dividido em 12 regies administrativas, e as criadas para o Vale do Ribeira tinham carter especial, condizente186

com a preocupao com a segurana nacional. Criada no incio da dcada de 1970, durante o governo Abreu Sodr, a Sudelpa era o rgo encarregado de coordenar e promover a execuo do Plano de Desenvolvimento do Litoral, que tinha por objetivo o desenvolvimento econmico e social da regio, de forma harmnica e integrada na economia estadual (Sudelpa, 1972), abrangendo as reas de justia, transportes, agricultura, educao, economia, planejamento e promoo social. No plano de desenvolvimento da Sudelpa, destacou-se um conjunto de medidas como a legitimao de ttulos de propriedade da terra, a ampliao e melhoria das estradas, a implantao de Ueacs, com papel tanto de promoo como de controle social, a previso de incentivos fiscais para produo agrcola e o apoio para a abertura de pelo menos um centro comunitrio por municpio. Entre as polticas sociais na rea da sade, foram construdas unidades em cinco dos 16 municpios que j dispunham de Centros de Sade da Secretaria de Estado da Sade. Os mdicos da Sudelpa tinham contratos especiais e vinham de diversos estados do Brasil. A Diviso Especial de Sade do Vale do Ribeira (Devale), criada em agosto de 1973, contava com dois distritos sanitrios, aglutinados em torno das cidades de Registro e Apia. Nessa poca, todos os municpios do Vale tinham Centros de Sade, embora muitos no contassem com a presena permanente de um mdico. A regio de distrito de Apia, onde a Mata Atlntica permanecia mais intacta, com uma das maiores concentraes de cavernas do Brasil, despertava interesse de pesquisa em gegrafos, bilogos, espelelogos e ecologistas, entre outros profissionais. A ameaa regio vinha da minerao e da explorao do palmito, sendo o acesso bem mais difcil e distante da BR-116. No plano nacional, na vigncia do governo Ernesto Geisel, a necessidade de implantao de polticas sociais como resposta a situaes de crise era expressa no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND 1975-1979), que formulava metas para uma poltica social que deveriam assegurar aumento substancial da renda real para todas as classes [...] e reduo substancial da pobreza absoluta, ou seja, do contingente de famlias com renda abaixo do mnimo admissvel quanto alimentao, sade, educao e habitao (Brasil, 1974). Essas condies seriam dadas por aes em que se conjugassem medidas mais imediatamente econmicas como a poltica de emprego e de salrios, com estratgias de prestao de servios sociais, sobretudo educao, sade, saneamento e nutrio (Silva, 1984). Seguiram-se medidas normativas na rea social para se viabilizarem essas diretrizes, entre as quais a Lei do Sistema Nacional de Sade, n 6.229, de 1975. Tambm em 1975, realiza-se a V Conferncia Nacional de Sade, cujas recomendaes explicitam, para o Brasil, as propostas dos Programas de Extenso de Cobertura constantes do II Plano Decenal de Sade para as Amricas (19711980), recomendadas por organismos internacionais de sade. Seguem-se a elaborao e a implantao de programas sociais, dentre os quais se destaca, pela delimitao mais precisa do campo de187

atuao, tendo em vista os objetivos deste texto, o Programa de Interiorizao de Aes de Sade e Saneamento (Piass). Entre os Programas de Extenso de Cobertura, o Piass foi aquele que, institucionalizado como prtica governamental, conseguiu maior expresso. Na poca de sua criao, em agosto de 1976, sua atuao se restringia a municpios da regio Nordeste. Entre outras, eram diretrizes bsicas do Programa: I. ampla utilizao de pessoal auxiliar, recrutado nas prprias comunidades a serem beneficiadas; II. nfase na preveno de doenas transmissveis, inclusive as de carter endmico, no atendimento da nosologia mais frequente e na deteco precoce dos casos mais complexos, com vistas ao encaminhamento a servios especializados; III. desenvolvimento de aes de sade, caracterizadas por serem de baixo custo e alta eficcia; IV. disseminao de unidades de sade, tipo Miniposto, integradas ao Sistema de Sade da Regio e apoiadas por unidades de maior porte, localizadas em ncleos populacionais estratgicos; IV. ampla participao comunitria (Brasil, 1976). No anteprojeto para a expanso nacional do Piass (Brasil, 1979), analisaram-se as caractersticas das demais regies do pas (Norte, CentroOeste, Sudeste e Sul), para identificao de reas de maior prioridade para a expanso do Programa. Na regio Sudeste, apontaram-se como de grande carncia algumas reas do estado do Esprito Santo, as regies dos vales dos rios Jequitinhonha, Mucuri e Doce, norte e nordeste do estado de Minas Gerais e, em So Paulo, a regio do Vale do Ribeira.Com o Decreto Presidencial de Expanso Nacional, de novembro de 1979, ampliou-se a rea de atuao do Piass para o mbito nacional, e o Ministrio da Sade considerou a rea do Vale do Ribeira prioritria para sua implantao. Assim, na dcada de 1970, havia, de um lado, o movimento de oposio poltica, que se organizava e abria um campo de treinamento numa rea no ocupada, na poca, com aes do Estado, e, de outro, as polticas pblicas que vinham responder aos movimentos e a algumas necessidades sociais, fazendo do Vale do Ribeira uma regio de maior ateno e aes no estado de So Paulo. E as lutas passavam pelos homens, dos posseiros aos grileiros, da oposio situao, dos tcnicos aos cidados.

A sade e suas interfaces no Vale do RibeiraEm 1980, o Vale tinha uma taxa de urbanizao de 55,4%, com densidade demografia de 14,89 hab/km, contra uma taxa de urbanizao188

do estado de So Paulo de 88,64%. Quanto sade da populao, o Vale do Ribeira caracterizava-se pelo acometimento de doenas endmicas e epidmicas como arbovirose, malria, esquistossomose, leishmaniose cutneo-mucosa, tuberculose, hansenase e mordeduras por morcegos hematfagos. O coeficiente de mortalidade infantil em 1980 era de 73,7 por mil nascidos vivos (neonatal 33,1 e infantil tardia 40,6). Esses dados devem ser analisados considerando-se os problemas com os registros de nascimento e bito, muitas vezes aqum do acontecido, devido s dificuldades de transporte e isolamento da populao em reas extensas.

O ensino e a pesquisa tomando como referncia as condies de vidaA rea de educao foi especialmente privilegiada nas polticas sociais implementadas no Vale do Ribeira. Em maio de 1972, o governo do estado de So Paulo criou e autorizou a instalao de Ueacs, considerando que as condies peculiares do Vale do Ribeira exigem tratamento especial [...] determina que a escola de 1 grau nessa regio deve caracterizar-se por acentuada ao comunitria, como centro de integrao de atividades do processo de desenvolvimento (Decreto n 52.944/72). Essas escolas ofereciam a trs primeiras sries do ensino bsico, geralmente em classe nica. Os professores deveriam obedecer organizao e planos especiais, prestar 44 horas semanais de trabalho programado e residir no prprio prdio da escola. Nessas escolas, instrumentos disseminados de atuao e controle do Estado, os professores desenvolviam com os alunos atividades relacionadas ao campo era nelas que as hortas eram mais produtivas , sade e comunidade (Alves, 1985). Elas funcionavam tambm como centros comunitrios, sendo assumidas, em muitas vilas, como reas de seu direito e de responsabilidade de toda a populao. As escolas e os professores foram importantes dispositivos para a articulao de aes entre polticas sociais, como as reunies conjuntas mensais, com pauta para questes de ensino e de sade. Pela sua penetrao na vida da comunidade, as escolas e os professores tambm foram baluartes de algumas iniciativas de enfrentamento como, por exemplo, a resistncia vacinao contra meningite em 1975, em Juqui, depois da morte de uma criana recmvacinada. Na rea, esse foi o mote para a aproximao entre as reas da sade e da educao, dando incio a uma parceria fundamental para identificar e lidar com os determinantes das condies de vida e sade. Desde os anos 1960, a proposta da Ateno Primria como um conjunto de aes e programas planejados para responder aos problemas de sade mais frequentes e atuar na promoo da sade e na preveno de doenas vinha ganhando respaldo em diversos pases. Em 1978, na Conferncia de Alma-Ata, promovida pela Organizao Mundial de Sade189

(OMS) e pelo Unicef, estabeleceram-se os princpios e as formas de atuar da Ateno Primria, tomada como estratgia adequada para a extenso de aes de sade, com a perspectiva de cobertura de toda a populao at o ano 2000. O Brasil signatrio da carta.A descentralizao dos servios e a interiorizao das aes de sade e da formao dos alunos, especialmente das reas de medicina e enfermagem, ganhou foras no Brasil antes de 1964 e depois, em nova onda, na dcada de 1970. Em 1975, o Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), sob orientao do Professor Guilherme Rodrigues da Silva, iniciou suas atividades pioneiras no Vale do Ribeira, com o objetivo de estabelecer uma rea de pesquisa, ensino e prestao de servios em zona rural, atravs de convnio com a Secretaria de Estado da Sade (SES), o qual vigorou at 1979. Assim, o Vale foi rea de estgio para internos do curso de graduao e mdicos residentes, inicialmente no Hospital Regional de Pariquera-Au, para qualificao em assistncia hospitalar em rea rural. Depois, o estgio foi estendido para atuao tambm em unidades bsicas de sade. O Departamento de Pediatria aliouse Medicina Preventiva na organizao dos estgios. No fim de 1976, o mdico David Capistrano da Costa Filho foi indicado pela Faculdade de Medicina para coordenar o Projeto Acadmico de estgio dos internos e dos mdicos residentes da FMUSP no Hospital Regional de Pariquera-Au. Ele fez o curso de Sade Publica nvel local da Faculdade Sade Pblica da USP (primeira turma), prestou concurso para a vaga de sanitarista na SES e escolheu o cargo no Vale do Ribeira. Ocupou a funo de Diretor de Estudos e Programas da Regional e fez mestrado no Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Em dezembro de 1976, Maria Ceclia Dellatorre, residente do 1 ano na rea de Medicina Preventiva, deveria fazer estgio no Hospital Regional de Pariquera-Au, mas foi alocada pela Coordenao do Programa no Centro de Sade de Juqui, inaugurando a formao do sanitarista, em unidade bsica, no Vale do Ribeira. Em abril de 1977, Ceclia foi aprovada em concurso da SES e assumiu o cargo de Diretora do Centro de Sade de Juqui, recebendo internos e residentes da FMUSP no municpio. Por meio de contatos pessoais, Davi Capistrano levou diversos mdicos ao Vale, alguns com vinculao poltico-partidria comum (PCB); a maior parte vinha do Rio de Janeiro e do Cear, assumindo o trabalho no Vale como parte de um trabalho de transformao social. No final da dcada de 1970, o Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, por intermdio de docentes e alunos e com o apoio da SES, fez um levantamento para diagnstico das condies de sade da regio para subsidiar a futura implantao de um programa de assistncia sade regionalizado e integrado no Vale do Ribeira. Essas iniciativas e os profissionais formados atravs delas foram de grande importncia para a organizao dos servios de sade da regio, coerente com as propostas de extenso de cobertura e de participao comunitria. O programa de ateno sade foi formalizado em 1981, no Projeto Devale. A abertura do190

Centro de Sade-Escola Samuel B. Pessoa, no Butant, na cidade de So Paulo, em 1977, tambm por convnio entre a FMUSP e a SES, representou o deslocamento do ensino da rea rural para a urbana, passando a receber os alunos da graduao e os residentes das reas de Pediatria e Medicina Preventiva para estgio em ateno primria. O Vale do Ribeira tambm sediou campo de pesquisa nas reas de cincias sociais, sade, biologia e geologia, entre outros, propiciando muitas vezes a produo de conhecimento em reas de fronteira (Monteiro, 1977; Rea, 1981; Perosa, 1992). Por exemplo, estudando 12 localidades rurais de quatro municpios da regio, Monteiro (1977) encontrou a populao num estado nutricional pior do que em outras reas do Estado. A pesquisa do estado nutricional de diversos moradores da casa indicou que a desnutrio era um problema antes familiar que individual, havendo correlao entre irmos e entre me e filhos. Relacionando o estado nutricional de crianas com a ocupao paterna, o autor encontrou tambm uma relao entre estados graves e moderados de desnutrio e a forma de insero da famlia na estrutura social de produo. Considerando que essa forma de insero condiciona a capacidade de obteno de alimentos, em ltima instancia, acaba determinando o estado nutricional da famlia.Esse trabalho de Monteiro (1977) se alinha com a produo acadmica que marcou, na poca, o campo da epidemiologia na Amrica Latina, em que o estudo de determinantes das condies de doena e sade contribui para a denncia da desigualdade social.

A organizao do sistema de sade no Vale do RibeiraA implantao de poltica pblica na rea da sade e saneamento (Piass) criou as bases para experincias na interface sade, educao e participao comunitria.O plano de desenvolvimento da Sudelpa para o Vale do Ribeira construiu unidades mistas em cinco municpios que j dispunham de Centros de Sade da SES. Os mdicos tinham contratos especiais e vinham de diversos estados do Brasil: o regime de trabalho era de trs meses por ano no Vale, no necessariamente seguidos ou no mesmo municpio, ficando em tempo integral nas unidades de sade, mas recebendo o salrio no resto do ano. Com o tempo, todos os municpios passaram a ter Centro de Sade da rede da SES, embora muitos no tivessem a presena permanente de um mdico. A situao da regio era sobretudo de pobreza e precariedade, o que, ao lado da ausncia de equipamentos sociais e de servios de sade, resultava em alta mortalidade por causas evitveis e sobrecarga fsica e emocional para os profissionais, como confirma o depoimento abaixo, de Maria Ceclia Cordeiro Dellatorre, ex-Diretora Regional da Devale:191

Uma coisa nos marcou muito: o que aconteceu com uma famlia de desnutridos, porque a me era de Barra do Turvo [...] so mais de 32 quilmetros para chegar at aqui. As crianas que ela trazia estavam muito desnutridas. Ns demos o leite e explicamos que ela devia pegar leite por mais tempo. E a me falou assim: Olha, a senhora no precisa me dar mais leite, porque eu no tenho condies de chegar aqui. [...] Eu tive um caso de uma criana que morreu por acidose, porque ela estava to desidratada que o corpinho dela no resistiu e ela acabou falecendo; e foi por causa da distncia. A me veio a p, debaixo de sol, l de Barra do Turvo para c, e no deu tempo de a criana chegar aqui. Chegou j mortinha. E eu acho que isso devia ser frequente no s aqui, em todos os lugares [...] A gente via que muitas coisas poderiam ser resolvidas, se houvesse um atendimento bsico no bairro. O convnio entre a SES e a FMUSP, que vigorou entre 1975 e 1979, propiciou o contato de muitos profissionais com o Vale, como alunos e como supervisores e, para alguns, significou o comeo de uma carreira na regio. Para o Vale, representou a possibilidade de um planejamento mais progressista na rea da sade, baseado na proposta da Ateno Primria e de uma rede articulada de servios de sade. Os quadros de profissionais das unidades bsicas, mistas, hospitais e postos de gesto receberam muitos egressos dos estgios de graduao e de residncia mdica no Vale, ou foram convencidos pelos j alocados, num movimento de contatos individuais e pessoais. Muitos mdicos que estavam no Vale fizeram especializao como sanitaristas no curso de Sade Pblica para nvel local oferecido pela Faculdade de Sade Pblica da USP, por solicitao e mediante convnio com a SES. Esse curso chamado curso curto, com durao de seis meses foi concebido e viabilizado, a partir de 1976, na gesto do Secretario da Sade Professor Walter Leser, no contexto da implantao do modelo tecnolgico da programao de sade, na rede de unidades bsicas de sade, componente importante da Reforma Administrativa do Estado, ento em andamento. A preparao de profissionais mdicos para assumir a gerncia das Unidades Bsicas de Sade era um dos pontos importantes para a organizao da rede de servios bsicos de sade no estado. Aps concluir o Curso Curto de Sade Pblica, esses mdicos prestaram concurso na SES, escolhendo trabalhar no Vale do Ribeira e assumindo direes de Centros de Sade. Com a sada de David Capistrano do Vale, em 1977, Maria Ceclia Cordeiro Dellatorre assumiu a coordenao dos estgios da FMUSP, permanecendo at 1979.Cabe lembrar que, no fim dos anos 1970, a SES tinha, no Vale do Ribeira, os Postos de Assistncia Sanitria (PAS), quatro unidades situadas em trs municpios, as quais operavam com funcionrios sem treinamento especfico e onde ocorriam consultas mdicas intermitentes e sem vinculao com a participao comunitria. As estradas continuavam ruins e insuficientes, e no havia192

transporte coletivo para a populao rural. Na sede do municpio ficava o Centro de Sade, muitas vezes tambm sem atendimento mdico e sem telefone. O primeiro telefone foi instalado em 1979, no CS de Juqui, pelo ento Secretrio da Sade Adib Jatene, em razo da epidemia de mordedura por morcegos hematfagos. Nessa poca, j havia um grupo maior de profissionais de sade trabalhando de forma mais estvel no Vale, especialmente os gerentes/chefes de Centros de Sade, cargos privativos dos mdicos sanitaristas. Entretanto, as condies de sade e de assistncia continuavam muito precrias. De um lado, havia o acmulo de conhecimento tcnico da rea de Sade Pblica, levado por profissionais formados na Escola de Sade Pblica da USP. De outro, abria-se a possibilidade de financiamento pelo governo federal de poltica social que respondesse a iniciativas e movimentos sociais. de novembro de 1979 o Decreto Presidencial de Expanso Nacional do Piass que inclui a rea do Vale do Ribeira como prioridade para implantao do Programa. Assim, o tempo de trabalho e vida no Vale, os contatos com a populao e a poltica de desenvolvimento da regio, a tenso tica e social e a conjuntura nacional convergiram, em 1980, para a elaborao de um plano para o sistema de sade da regio. Eu estava em Juqui havia quase quatro anos, fazendo todo um trabalho de morrer de atender doentes. Atendendo doentes desde a manh at a noite, e isso ns fomos vendo que resolvia muito pouco. Ns atendamos as pessoas que ficavam mais prximas do Centro de Sade. As pessoas que moravam mais longe no tinham acesso; tinham dificuldades enormes. Quando chegavam ao Centro de Sade, j no havia fichas para atendimento. Ns fomos nos cansando desse tipo de atendimento (tcnico da equipe de Coordenao do Projeto apud Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986). Vejamos como o Plano foi construdo pelos sujeitos: Ns chegvamos ao municpio, procurvamos o Centro de Sade, verificvamos se havia hospital, quantos leitos, equipamentos, funcionrios. Nas prefeituras, fizemos um levantamento de quanto gastavam com sade e descobrimos que todas gastavam muito dinheiro, na maioria das vezes, s em ambulncias, salrio de motorista, gasolina para remoo de pacientes [...] Vimos tambm que metade ou quase metade da populao vivia na zona rural. com nenhum ou quase nenhum acesso a servios de sade. Vimos que a maioria dos municpios no tinha nem sequer um lugar para fazer um parto, nenhum atendimento hospitalar, por193

mais simplificado que fosse. Os Centros de Sade, com uma grande demanda reprimida, realmente, uma situao bastante sria. O principal que vrios rgos gastavam verbas com sade, mas de maneira totalmente descoordenada. [...] Em cima disso, ns comevamos a discutir seriamente a situao dos recursos para a sade no Vale do Ribeira, tentando juntar as coisas, fazer uma proposta (tcnico da equipe de Coordenao do Projeto apud Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986). Havia ainda as caractersticas da terra e a ocupao do Vale do Ribeira, uma vez que, na poca, metade da populao residia na zona rural, onde a estrutura viria era muito precria, com dificuldade de acesso aos poucos servios de sade existentes, dificuldade de transporte e ainda a inexistncia de mdicos em alguns dos municpios. O levantamento feito na regio deu origem a um relatrio, por municpio, em que a equipe de sanitaristas apresentava concluses e sugestes cuja nfase recaa na integrao de recursos, no funcionamento de unidades mistas, onde j havia prdio construdo, e no atendimento populao rural. Assim, em 1979, apresentou-se Coordenadoria de Sade da Comunidade (CSC) da SES de So Paulo uma proposta que consistia na organizao de um sistema regional descentralizado de sade, tendo o Hospital Regional do Vale como referncia especializada, a transformao de alguns Centros de Sade em unidades mistas, com alguns leitos para internao, e a recuperao de pequenas Santas Casas fechadas, para que todos os municpios tambm tivessem atendimento de urgncia e algum tipo de internao mais simples, alm de abrir postos de sade na zona rural para aes bsicas de sade, promoo, preveno e cuidados primrios pelo agente de sade, facilitando o acesso da populao rural ao servio. E essa proposta coincidiu com as providncias regionais de elaborao da proposta de organizao dos servios de sade no Vale do Ribeira, apresentada pela SES de So Paulo ao Ministrio da Sade sob a denominao de Plano Operativo Anual (POA), com vistas assinatura de um convnio entre os dois nveis de governo (Silva, 1984).As diretrizes do Ministrio para o POA-1981 que incluam a nfase na operao da rede de servios de sade, a participao comunitria, a regionalizao, a articulao dos programas em cada esfera de cuidado e servio, a integralizao das aes de sade, o desenvolvimento de recursos humanos e a implantao do Piass nessa rea da regio Sudeste fizeram com que a proposta elaborada para o Vale do Ribeira pelos sanitaristas da regio em conjunto com a comunidade o integrasse como um projeto prioritrio a ser desenvolvido (Silva, 1984). Durante a elaborao do POA, uma equipe do Ministrio da Sade visitou o Devale, junto com dirigentes e tcnicos da SES, ocasio em que foi apresentada a proposta, denominada a partir de ento Projeto Devale, que foi considerado perfeitamente coerente com as diretrizes do Ministrio194

da Sade quanto aos objetivos do Piass.Assim, ao ser aprovado em nvel federal, o Projeto de Expanso dos Servios Bsicos de Sade e Saneamento em rea Rural do Vale do Ribeira (Projeto Devale), por um lado, era uma opo para atender s necessidades de sade da regio e, por outro, contaria, como fontes de financiamento, alm da SES, com recursos do Ministrio da Sade e do Inamps, na medida em que integraria a rede nacional do Piass. Essa a histria do projeto que deu incio implantao do Piass no estado de So Paulo em junho de 1981. O objetivo geral do projeto era ampliar a cobertura de servios bsicos de sade e saneamento populao da regio abrangida pelo Devale, com ampla participao da populao (So Paulo, 1981). Para cumprimento desse objetivo, previam-se algumas aes, entre as quais: implantar Postos de Assistncia Sanitria operados por Agentes de Sade da comunidade em ncleos populacionais rurais e perifricos aos centros urbanos; integr-los com as Unidades de Ensino e Ao Comunitria, da Eduvale (Regional Especial da Secretaria de Educao), a fim de desenvolver trabalho na rea de ateno bsica sade; adaptar e reorganizar a estrutura tcnico-administrativa da rede de servios existente na regio, a fim de atender s necessidades surgidas com a expanso da oferta de servios de sade populao da regio; treinar os agentes de sade recrutados e selecionados na prpria comunidade para operar os Postos de Atendimento das reas rurais, desenvolver aes de saneamento e atendimento simplificado a condies de sade e doena mais comuns; atualizar e treinar o pessoal que atua nos diversos nveis do Departamento Regional de Sade do Vale do Ribeira e que ter participao no projeto; realizar estudo para a racionalizao dos servios de sade existentes na rea, com vistas a seu funcionamento integrado e hierarquizado, criando, assim, condies de cuidados mais especializados para necessidades identificadas (Silva, 1984). A sanitarista Maria Ceclia Dellatorre assume a Coordenao do Projeto Devale no Departamento Regional de Sade do Vale do Ribeira e, uma vez liberados os primeiros recursos, comea a seleo de tcnicos. A partir de 1980, terminado o convnio SES-FMUSP, a Santa Casa de Misericrdia de So Paulo passa a ter programas de apoio ao Hospital de Pariquera-Au. Cabe tambm mencionar a relao, no Vale, entre as reas de ateno sade e de saneamento, na medida do conhecimento em que o impacto do saneamento na qualidade da sade das populaes maior do que o das intervenes em doenas. As diretrizes do Piass, criado em195

1976 e expandido em 1979, previam a melhoria do saneamento acoplado s aes de sade. No Vale do Ribeira, essa rea ficou a princpio com o nvel central da Secretaria, que planejou e tentou realizar aes que no incluam a participao comunitria e dos agentes de sade. Foram construdas bases para fossa de concreto que, devido ao peso, exigiam um sofisticado esquema de sustentao e que no eram apropriadas s caractersticas locais, pois o lenol fretico em boa parte da regio era superficial. A partir de 1983, consegue-se um desenvolvimento concomitante das aes de sade e saneamento, com a formao tanto de agentes de sade como de agentes comunitrios de saneamento. Estes precisavam, alm de dilogo com a comunidade, da valorizao de seus conhecimentos, da capacidade de apreender suas expectativas e de domnio tcnico das diferentes construes na rea de saneamento. Quanto organizao da estratgia, pode-se dizer que a intersetorialidade ainda no era o termo que definia o trabalho realizado, mas, considerando a tarefa, no era possvel a ao no articulada. Foram convidados a participar e integrar-se ao projeto a Companhia Estatal de gua e Esgoto (Sabesp), com seus engenheiros e topgrafos, o Departamento de guas e Energia Eltrica (Daee), que conhecia os rios e o lenol fretico, a Sudelpa, que dispunha de mquinas pesadas para trabalhar os terrenos e abrir valas, as prefeituras municipais, com responsabilidade por parte do material, e, elemento primordial, o bairro, centralizando o debate. Uma engenheira sanitria vinculada ao Projeto Devale era responsvel pelo treinamento e pela superviso dos agentes comunitrios de saneamento e pelo acompanhamento dos planos e das obras. Duas experincias em torno das interfaces do saneamento merecem registro. Um bairro do municpio de Sete Barras queria banheiros como os da cidade, mas os recursos disponveis no permitiam ir to longe. Os moradores decidiram coletar banana de stio em stio at perfazer a carga do caminho da Secretaria da Agricultura e vender a banana no Ceasa, em So Paulo. Fizeram tambm a rifa de uma bicicleta e, no final, conseguiram comprar vasos sanitrios, caixas de descarga e chuveiros para todos. Esse um exemplo de iniciativa e participao comunitria. Nos municpios de Pedro de Toledo e Itariri, o impacto do saneamento foi a reduo drstica de novos casos de esquistossomose. Nessa poca, a Sucen realizava inquritos anuais e usava para tratamento dos casos positivos medicamentos com efeitos colaterais graves, alm de moluscocidas que degradam o meio ambiente, devido sua alta toxicidade. A melhoria da coleta de esgoto diminuiu no s os casos como os riscos do tratamento e os danos ambientais. Alm da qualidade da gua, o trabalho de saneamento rural trabalhava o destino adequado dos dejetos com solues diferentes, em funo do debate com a comunidade e o tipo de terreno. Nessa fase, a engenheira sanitarista do Devale recebeu importante apoio de tcnicos da OPAS, conforme contatos estabelecidos por Hortncia Hollanda, na forma de abordagem, debate e construo coletiva do modelo de dispositivo sanitrio a ser adotado.196

A Ateno Primria sade no Vale - a extenso de cobertura dos servios de sade: os postos de atendimento s reas rurais e a participao da comunidadeComo essa tambm foi uma experincia de participao dos tcnicos e da comunidade durante o regime autoritrio, optamos por apresentar um detalhamento maior deste item, por suas caractersticas histricas; em especial, a conduo do processo, a escolha dos agentes e a metodologia de treinamento, pela forma como foram montadas as aes do agente de sade e, por consequncia, o contedo do treinamento, considerando-se o contexto da poca e o esforo despendido na sua viabilizao.A gesto do projeto Devale e a gerncia das atividades, recursos e pessoas representaram grande desafio e demandaram muito empenho, sobretudo pelo contexto poltico de exceo em que se deram. A convivncia do projeto com a diretoria do Departamento no foi tranquila, e muitos dos tcnicos vinculados ao projeto receberam sanes pela forma como o conduziam, especialmente pelo pressuposto da participao comunitria. A organizao do sistema de sade articulando as aes entre os diversos servios de sade da regio, com a preparao da rede existente para servir de referncia demanda gerada pelos atendimentos nos postos rurais, a coordenao das instituies de sade existentes na rea e o funcionamento integrado de servios foram fatores determinantes para a elaborao da proposta inicial, que culminou no projeto Devale: A primeira ideia nossa no era a hipertrofia dos Postinhos. Esses abrangiam uma grande fatia da nossa proposta, mas foi quase s a eles que ns acabamos nos dedicando. A proposta era muito mais procurar que as unidades da Sudelpa passassem a ser unidades mistas e tivessem uma integrao com as outras unidades, assim, o Hospital de Regional de Pariquera-Au, as unidades mistas da prpria Secretaria da Sade entrassem em funcionamento, de uma maneira integrada (tcnico da equipe de Coordenao do Projeto apud Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986). A proposta era fazer a extenso de assistncia primria populao residente na zona rural por meio da atuao do agente de sade, abarcando atividades de sade e saneamento: [...] levar para mais perto de onde as pessoas moram, trabalham, uma srie de atividades ligadas ateno primria que, at a poca de implantao do projeto, s eram feitas no Centro de Sade197

situado na sede do municpio (tcnico da equipe de Coordenao do Projeto apud Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986). A escolha das localidades rurais onde seriam instalados os Postos de Atendimento s reas Rurais (PAR) foi da equipe de coordenao do projeto, juntamente com os prefeitos dos municpios, os mdicos dos Centros de Sade, as coordenadoras das Ueacs e os professores comunitrios, tomando como referncia o j citado levantamento realizado pela equipe nos municpios. Os critrios para a escolha dos bairros onde seriam implantados os PAR contemplavam distncia da sede do municpio, dificuldade de acesso e problemas de sade especficos como baixa cobertura vacinal, baixa cobertura do pr-natal, endemias e nmero de crianas desnutridas. Numa primeira fase, definiu-se a implantao de Postinhos em 15 localidades rurais pertencentes a sete municpios da regio, todos integrantes do Distrito Sanitrio de Registro. Considerando trs localidades que j contavam com Centros de Sade, os quais seriam incorporados nova filosofia de trabalho, haveria 18 postos rurais, abrangendo os municpios de Registro, PariqueraAu, Cananeia, Iguape, Juqui e Miracatu. A principal razo de escolha desses municpios para o incio do projeto deveu-se existncia de mdicos sanitaristas nos Centros de Sade (alguns contratados pelo projeto que, depois fizeram o curso de Especializao da Faculdade de Sade Pblica da USP e prestaram concurso para o Estado), o que facilitaria a superviso aos Postos.Escolhidos os bairros, a populao participava da definio do local onde seria instalado o posto, uma vez que o projeto no previa a construo de prdios. Em algumas localidades, o PAR foi instalado em prdios antigos da prefeitura; em outras, em locais alugados e, ainda, em prdios construdos pela populao, em regime de mutiro. A partir de 1982, com a abertura do segundo grupo de PAR, a solicitao da comunidade e sua organizao em torno da instalao do posto passou a ser um critrio fundamental para decidir a localizao dos novos PAR. Em todas as situaes, a partir da definio das localidades onde seriam implantados os Postos de Atendimento s reas Rurais, com o envolvimento dos professores comunitrios, representantes de igrejas, autoridades e outras lideranas, fizeram-se reunies com moradores dos bairros indicados para discutir aspectos como a construo, o funcionamento e a escolha dos agentes de sade.

O agente de sade no Vale do RibeiraPara a atuao dos agentes de sade, era preciso definiremse o sentido e os limites de seu trabalho, mas a proposta da equipe de coordenao no era a delimitao prvia das atividades dos agentes de sade em cada localidade rural, mas o estabelecimento de trs princpios gerais que deveriam integrar sua prtica:198

a) um, estritamente tcnico, ligado ao desenvolvimento de atividades para indivduos e famlias, no atendimento a queixas e/ou problemas; b) um ligado ao desenvolvimento de atividades com a comunidade; c) um relativo ao modo como se deveriam desenvolver essas atividades. Alm disso, havia a preocupao de no supervalorizar o aspecto tcnico do atendimento individual e a doenas em detrimento das atividades coletivas.Sinteticamente, a proposta de ao para o agente de sade no projeto Devale se caracterizava por proporcionar no s o acesso da populao rural ao atendimento aos problemas de sade, atravs da aplicao de conhecimentos e procedimentos especficos (curativos, vacinas, diagnstico e tratamento das doenas mais prevalentes, atendimento a crianas e a gestantes, primeiros socorros, encaminhamentos), mas tambm por basearse numa viso abrangente do indivduo dentro da comunidade e ainda incluir a discusso desses problemas de sade em funo das condies gerais de vida (So Paulo, Projeto Devale, 1981). Outra inovao da proposta do Devale era a preocupao de que os limites de atuao do agente de sade no fossem decididos em gabinete ou por um grupo de sanitaristas, mas que dessa discusso participassem os moradores dos bairros, trabalhando-se conjuntamente o conhecimento dos problemas e a identificao da maneiras de se ter sade (So Paulo, Projeto Devale, 1981). Definidos os locais onde seriam implantados os Postos de Atendimento nas reas rurais - com a participao dos professores comunitrios, representantes de igrejas (participao importante, porque as diferenas de credo eram, na maior parte dos bairros, motivo de ciso a ser ultrapassado), autoridades e outras lideranas , fizeram-se reunies com moradores dos bairros indicados para discutir aspectos como a instalao, o funcionamento e a escolha dos agentes de sade. Os organizadores procuraram estabelecer datas e horrios que no coincidissem com as atividades ordinrias dos moradores trabalho, aulas, cultos, missas, futebol etc. , para garantir um maior comparecimento e no excluir nenhum grupo. Os convites foram impressos e distribudos nas escolas, nas igrejas e por lderes locais; cartazes foram afixados em bares e em outros lugares de concentrao de pessoas. Essas reunies aconteceram quase sempre em Escolas Comunitrias (Silva, 1984), noite ou em finais de semana, o que sempre acarretava sanes para os tcnicos, posto que a Direo Regional no via com bons olhos essas iniciativas, confundindo-as com aes de subverso ao regime poltico vigente. Por causa dessa forma de conduo, tcnicos da equipe foram ameaados de demisso e um deles chegou a ser encaminhado para consulta psiquitrica (Alves, 1985).As contrataes dos agentes de sade foram feitas com recursos federais (do Piass), e seu vinculo empregatcio era com a SES, tendo sido esse o primeiro programa a contratar pessoal com regime CLT.199

A escolha dos agentes de sadeNa seleo dos agentes de sade, a nfase recaiu na inovao da proposta, em termos da concepo e da prtica da participao de todos os sujeitos. Em especial porque vigorava um regime autoritrio, e situao era excepcional, com a possibilidade de eleio direta dos agentes de sade e sua importncia na ampliao do acesso da populao rural s aes de sade e na formao dos tcnicos que participaram do processo. Alm disso, a forma como foi conduzido o processo lhe d uma especificidade e uma condio histrica inditas. Em relatos de tcnicos que participaram das reunies para discusso dos Postinhos e para a escolha dos agentes de sade, v-se que os moradores custavam a acreditar que realmente participaria dessa escolha. Eram comuns na regio respostas como: melhor seria que vocs mesmos escolhesses ou vocs so mdicos, enfermeiros, vocs que sabem.... Mas, a essas reaes de incredulidade, seguiam-se declaraes como: bom mesmo a gente escolher, porque quem pe tira! (Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986).Inicialmente, os presentes faziam uma lista de qualidades requeridas e de defeitos que no se admitiriam no futuro agente. Assim se definiram os critrios para a seleo dos agentes de sade. Alguns critrios foram lembrados em praticamente todas as reunies dos bairros: no fazer distino entre as pessoas, tratar todo mundo igual (pobre e rico, preto e branco, parente e no parente, da mesma religio ou de outra); ter jeito para a coisa; no ter medo de sangue; no ter medo de dar injeo; ser responsvel; no ter orgulho, ser maior de idade A qualidade saber ler e escrever gerou muita discusso: de um lado, argumentou-se que quanto mais estudo tiver, melhor, mas, de outro, ponderou-se que se a gente for exigir muito estudo, no bairro no tem ningum. Ao final, em geral, os grupos optavam pelo nvel de escolaridade mdio que o bairro oferecia.Outras qualidades foram julgadas necessrias em algumas reunies: comprometimento com a comunidade, ter boa vontade, ter tempo, ser educado, calmo, atencioso, ser decidido, no beber, andar ligeiro (este ltimo critrio certamente reflete as precrias condies de transporte, tendo o agente que se deslocar a p para visitar as famlias do bairro) (Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986).200

Depois da lista das qualidades, os moradores sugeriam nomes de pessoas conhecidas que atendiam queles requisitos. Na maioria das localidades, seguia-se a eleio, pelo sistema de votao secreta, escolhido pelos presentes: votao secreta melhor, porque a gente fica mais vontade, ningum fica sabendo, nem fica chateado, cada um vota com a sua cabea e no vai votar porque o outro primo, amigo ou parente (Silva,1984; Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum, 1986). Os votos eram escritos em pedaos de papel e colocados em urnas s vezes, o chapu de um dos participantes da reunio. Quando o morador no sabia escrever, cochichava no ouvido de um dos tcnicos, que escrevia para ele o nome escolhido. A apurao era sempre feita no mesmo local, com os eleitores servindo de fiscais de votao e de apurao.

O treinamento dos agentes de sadeTambm muito especiais e inovadoras foram a proposta metodolgica para o treinamento e o prprio modelo de treinamento elaborado pela equipe de coordenao do projeto Devale, com a participao de especialistas: Izabel dos Santos e Hortncia Hurppia de Hollanda, respectivamente, consultoras da Organizao Panamericana de Sade e do Ministrio da Sade.A proposta visava a garantir dois pontos bsicos: a) manter e fortalecer o compromisso e a solidariedade do agente de sade com sua comunidade de origem; b) dar ao agente condies de apropriao dos conhecimentos, da tecnologia e do instrumental adequado e necessrio para lidar com os problemas de sade dessa populao.Assim, a metodologia proposta visava a desenvolver competncias para conhecer criticamente as situaes de sade no contexto da realidade em que elas aparecem e buscar um saber que correspondesse necessidade de mudar tais situaes (Hollanda, 1979). Em termos prticos, a proposta se traduzia no recurso a uma srie gradual e encadeada de situaes, no sentido de promover o desenvolvimento do processo de ensino/aprendizagem, criando condies para a integrao entre o que os agentes em treinamento trouxessem de sua cultura e de suas experincias anteriores de vida e os conhecimentos que seriam inseridos durante o treinamento. Quanto ao papel do instrutor nessa metodologia: [...] atravs da observao e da reflexo, o instrutor/supervisor apresentar atividades (situaes-problema) estmulos previamente planejados para desencadear a busca sistemtica de respostas que, medida que sejam alcanadas, devero ser submetidas ao teste da prtica, numa sequncia de reflexo e ao, de prtica. Assim, a tarefa de quem ensina seria uma tarefa quase201

artesanal e de recriao de situaes pedaggicas que encaminhem o processo ensino/aprendizagem (Brasil, 1982). O treinamento inicial dos 19 agentes de sade teve a durao de 12 semanas e foi dividido em quatro mdulos didticos. Segue-se uma breve sntese. O primeiro mdulo tinha como objetivo central aprender a conhecer criticamente atravs de tcnica de construo simblica do bairro (comunidade), de levantamento e diagnstico dos problemas de sade da comunidade, alm da observao e discusso de outras questes da vida cotidiana das pessoas na comunidade. Em seu conjunto, o mdulo representava uma experincia de aprender a conhecer a realidade para agir sobre ela (Silva, 1984). Nessa perspectiva, as atividades da primeira semana de treinamento foram: a) apresentao, pelos futuros agentes, dos problemas de sade dos bairros onde residiam; b) discusso sobre a situao dos prdios onde iriam funcionar os postos de sade e as providncias a tomar; c) apresentao, pelos alunos, da histria de cada bairro.O levantamento feito pelos futuros agentes para conhecimento dos problemas do dia-a-dia do bairro e dos problemas de sade foi muito importante porque, a partir dele, os instrutores puderam discutir sade como algo maior que a presena de doenas, como insero no processo produtivo e acesso a bens e servios em geral, comeando a definio das atribuies do futuro agente e elaborando o contedo do treinamento, ou seja, os problemas que provavelmente representariam a maior demanda nos Postinhos. O relato de uma das agentes no incio do treinamento pode ilustrar uma determinada expectativa da populao e do prprio futuro agente em relao ao trabalho a ser desenvolvido na comunidade e a forma como foi conduzido o treinamento: Uma senhora que me v todo dia pegar o nibus para vir para c perguntou como que ia o negcio do treinamento, o que a gente estava aprendendo, se estava mexendo com remdios, essas coisas... Eu disse a ela que a gente estava batendo um papo, cada um falando dos problemas de sade do seu bairro... A conversa era entre mim e ela, mas, de repente, outra, que eu no conheo, que estava sentada, falou para mim: Escuta, se um dia eu levar um filho muito ruim l no Postinho, voc vai ficar perguntando negcio de terra, se Fulano tem terra, se tem esgoto na rua, ou vai procurar socorrer o meu filho? Nisso, eu parei. Se ela tivesse vindo com jeitinho, sei l, eu pensava no que responder, no ? Mas eu estava num meio onde eu no conhecia ningum, nunca vi202

essa mulher pela frente... Eu no sabia o que responder, eu fiquei sem graa, eu baixei a cabea e larguei a mulher falando sozinha... (aluna e futura agente de sade). Na ocasio, o instrutor lanou a questo para o grupo, e, problematizada, ela se tornou muito importante para a discusso e a concepo das atividades a serem desenvolvidas, o modo como desenvolvlas e como lidar com a expectativa das pessoas, inclusive dos prprios agentes, em relao ao atendimento nos Postinhos. A proposta do segundo mdulo era aprender com quem se quer ensinar. Assim, aps o levantamento e a discusso para conhecimento da realidade de suas comunidades, os treinandos ensinavam aos treinadores. No decorrer da atividade, trabalhava-se a compreenso de como se processa a comunicao que favorece uma aprendizagem, atravs da experimentao de diversas formas de entender os outros e de se fazer entender (Vilanova et al., 1992). Buscava-se uma troca, uma comunicao, uma relao dialgica entre professor e aluno, em que ambos so sujeitos do processo ensino aprendizagem (Turazzi, 2007). O terceiro mdulo trabalhava o desenvolvimento de uma concepo do corpo e suas relaes com o ambiente fsico e social em que vive e adoece como pr-requisito para a aprendizagem dos cuidados com o corpo. A base para a seleo do contedo do treinamento foram os problemas de sade colocados pelos moradores no levantamento feito pelos alunos junto s famlias no primeiro mdulo. A natureza dos assuntos variava muito, indo desde dor de barriga e dor em volta do umbigo at questes de posse de terra, passando por doenas de senhoras, verminose, partos e nefrite, entre outros. Depois da discusso de cada um, relacionaramse 90 problemas de interesse esse era o contedo. Em seguida, divididos em quatro grupos, os alunos agruparam questes que lhes pareciam afins. Os agrupamentos sugeridos pelas quatro equipes foram reagrupados em 18 grandes grupos, que contemplavam todos os 90 relacionados inicialmente. Assim, estava caracterizado, em termos gerais, o conjunto de atividades a serem desenvolvidas pelos agentes de sade no atendimento clientela. A organizao final foi a seguinte: 1) vermes: diarreia, vmitos, dor de barriga, dor em volta do umbigo, tosse por lombriga, ataque de bicha, como evitar barriga dgua, como construir fossa; 2) anemia: alimentao, verminose, sangramento; 3) desidratao: febre, diarreia, vmito, uso do cloro; 4) gripe: febre e convulso febril, dor de cabea, dor de ouvido, dor de garganta, tosse, dores musculares, sinusite; 5) outras doenas respiratrias: tosse, bronquite, pneumonia, tuberculose, como orientar uma pessoa que tem tuberculose e bebe e fuma; 6) feridas: pipoca no lbio, cobreiro, piolho, sarna,203

furnculo, erisipela, frieira, micose, picada de inseto, picada de barbeiro, feridas de varizes, feridas bravas (leishmaniose); 7) acidentes: engasgamento, pancadas, fraturas, ferimentos, hemorragias, queimaduras, afogamento, choque eltrico, mordida de morcego, mordida de cachorro, de gato, de rato e de outros, picada de cobra, de escorpio, de aranha, como tratar uma reao alrgica; 8) sade da mulher: clicas menstruais, hemorragia menstrual, cuidados com a gestante: ttano, aleitamento, como fazer o parto, hemorragia depois do parto, cuidados com o recmnascido, ttano, dor no baixo ventre, infeces ginecolgicas, menopausa; 9) doenas de transmisso sexual: sfilis, gonorreia; 10) doenas de crianas: sarampo, catapora, rubola, tosse comprida, caxumba, paralisia infantil, crupe (difteria), sapinho, sapo (estomatite), doena de macaco, desnutrio grave, mal de simioto; 11) reumatismo: reumatismo no sangue, reumatismo das juntas pequenas, reumatismo dos velhos, gota, dores musculares, cimbra, torcicolo (pescoo duro), dor na coluna; 12) ataque: tontura, desmaio, ataque epiltico, ataque dos nervos, doena mental; 13) corao: reumatismo no sangue, doena de barbeiro, presso alta, derrame, nervoso; 14) aparelho digestivo: dor de dente, dor de estmago, clica de fgado, hepatite, barriga dgua (transmitida pelo caramujo), cirrose, vescula, priso de ventre, hrnia, hemorroida; 15) rim: infeco urinria, nefrite, dor nas costas, clica de rim, pedra no rim, urina presa; 16) diabetes: quando suspeitar da doena, alimentao, exerccios, cuidados gerais, remdios usados, teste de urina, acar baixo; 17) vista: dor dolhos, conjuntivite, tersol, vesgo, dificuldade de viso; 18) trabalho no Postinho: como lidar com vacinas, como distribuir leite, como preencher os boletins, como esterilizar aparelhos, como fazer injees, como medir febre, pulsao, presso e foco de nen, como fazer curativos, como dar pontos, como encaminhar doentes, como agir em caso de morte (Silva, 1984). Ressalte-se uma vez mais a forma como foi desenvolvido o treinamento, notadamente o cuidado com a proposta metodolgica. A introduo do tema era sempre gradual, precedida de sondagem do grupo, com tempo para que as dvidas aparecessem. Cada novo conceito, cada novo conhecimento era sempre precedido de perguntas ao grupo, permitindo que se incorporassem o conhecimento e a experincia anteriores dos alunos. Depois, havia discusses e, finalmente, uma sntese. O conhecimento do corpo humano, por exemplo, foi sendo introduzido medida que se discutiam os problemas que o afetam. Assim, o aparelho digestivo foi estudado quando se discutiram os vermes, mais especificamente a forma de transmisso, os sinais, os sintomas e as possveis complicaes. Entre outras questes, a porta de entrada, o local preferido para fixao e a migrao do parasita ensejaram a introduo dos contedos204

referentes anatomia e fisiologia do sistema digestivo. Nessas ocasies, localizavam-se os rgos, montavam-se sistemas e se faziam desenhos na lousa, que depois era ilustrados com gravuras. Para entender melhor, os alunos pediam que se representasse o corpo por dentro. Nessa fase do treinamento, faziam-se dramatizaes para sintetizar o trabalho desenvolvido at ali, integrando a viso mais geral dos problemas de sade comunicao, ao contedo especfico ligado ao problema e avaliao que sempre se seguia s dramatizaes.Desde o incio do treinamento, verificou-se uma preocupao dos instrutores com a avaliao das atividades didticas, no sentido de valorizar a necessidade de reflexo sobre o trabalho realizado e a busca de formas de melhor-lo. Coerente com essa preocupao, o mdulo quarto criava situaes que ensejavam o desenvolvimento de atitudes e princpios relacionados com a necessidade de constante avaliao do trabalho desenvolvido e com a identificao de novas necessidades e de novas aprendizagens e reformulaes na prtica dos agentes de sade .Considerando os problemas de sade agrupados pelos treinandos, evidencia-se uma ampla gama de campos de atuao, cujo entendimento demandava um treinamento bastante complexo dos agentes de sade, um processo de educao permanente e uma sistemtica de superviso coerente e abrangente. Tambm estava claro para os instrutores que, pela complexidade, pelo conhecimento envolvido e pelo risco para a populao, muitos dos problemas relacionados jamais poderiam integrar o rol de atividades dos agentes de sade. Da a necessidade tambm de se organizar uma rede de servios e de profissionais que garantisse uma retaguarda atuao desses agentes. Ao todo, foram realizados cinco treinamentos: em 1981, em 1982, dois em 1984 e um em 1988, para um total de 92 agentes. Em 1992, o projeto contava com 61 Postinhos, ento municipalizados, e 74 agentes de sade em servio.O primeiro manual de orientao para os agentes de sade foi elaborado aps o primeiro treinamento, a partir do material gravado e registrado nas prprias aulas. (Vilanova et al., 1992).

Uma avaliao Em 1983, quase dois anos aps o incio do trabalho dos primeiros 19 agentes, o Ministrio da Sade, atravs da Delegacia Federal de Sade de So Paulo, em Convnio com a Universidade de Campinas, financiou uma avaliao sobre o desenvolvimento do Projeto de Expanso dos Servios Bsicos de Sade e Saneamento em rea Rural Vale do Ribeira Projeto Devale. A pesquisa tinha como objetivos analisar o trabalho desenvolvido pelos agente de sade no projeto Devale, identificar suas concepes e expectativas em relao a seu trabalho, a demanda da populao para os205

postos de sade e as opinies dos moradores sobre os servios prestados (Silva, 1984; Silva; Mendes-Gonalves; Goldbaum,1986).A metodologia incluiu a anlise de documentos e do material do treinamento, entrevistas com os coordenadores do projeto, com os agentes de sade e com a populao usuria e observao direta do trabalho dos agentes de sade.Os resultados apontaram sobretudo aspectos positivos em relao aos objetivos do projeto, entre os quais se destacam: 1) O perfil dos agentes de sade A maioria dos 19 agentes de sade que foram entrevistados e cujo trabalho foi observado nasceu e se criou no prprio Vale do Ribeira e tem famlia na regio, ou seja, compartilha ocupaes e atividades com a populao do bairro. Quanto idade, os primeiros agentes eram bastante jovens: 11 tinham em torno de 20 anos e apenas quatro passavam dos 30. Tambm se observou que foram escolhidas/eleitas pessoas que j desempenhavam uma funo similar esperada para o agente: eram habitualmente chamadas para dar orientaes em relao a problemas de sade, aplicar injees, ou, na maior parte dos casos, j desenvolviam algum tipo de atividade comunitria. 2) As concepes e opinies dos agentes sobre o trabalho Os agentes foram unnimes quanto importncia do trabalho que desenvolviam para a melhoria das condies de sade das localidades rurais onde atuavam. Ao detalhar essa importncia, distinguiam duas dimenses: uma referente satisfao experimentada pelo sentimento de utilidade de seu trabalho e pela conscincia de sua contribuio e outra ligada prpria populao e ao significado que o trabalho teria para ela ao ultrapassar o mero atendimento s necessidades e possibilitar um espao para a discusso de outros problemas de sade. O treinamento dado pela coordenao do projeto tambm foi muito bem avaliado, sobretudo pela forma como ele se desenvolveu em aulas informais , que deu a todos a oportunidade de se colocarem e aprenderem uns com os outros e com os instrutores. O nico aspecto questionado foi sua durao: quase todos disseram que, se tivesse havido mais tempo, provavelmente teriam aprendido mais para melhor atender s necessidades do trabalho. 3) A opinio dos agentes sobre a utilizao dos Postos pela populao Tambm os agentes foram unnimes em afirmar que a populao est muito satisfeita com o funcionamento dos Postos e com o trabalho desenvolvido por eles. Justificam essa afirmao pelo aumento dirio da demanda e pelos comentrios que ouvem dos moradores.206

Antes, a populao procurava s leite e remdios, no sabiam do atendimento. Agora, j se acostumaram. Eles gostam do jeito porque a gente deixa eles mais vontade; eles conversam entre si bastante, contam as necessidades deles, papeiam s vezes com as pessoas que vm junto com eles [...] E a gente tambm vai explicando as perguntas, conversando, dando risada. Antes, eles perguntavam, no comeo, quando ia vir mdico, se ia vir mdico uma vez por semana. Agora, no tem mais isso. Essa percepo dos agentes coincidia com a anlise dos dados das entrevistas com a populao e da observao do trabalho dos agentes. 4) Anlise dos dados sobre a utilizao dos Postos A anlise indica que 83,4% da populao das regies onde esto instalados frequentam esses servios, embora o faam por diferentes motivos. 59,9% referiram a proximidade e o fato de no precisar gastar dinheiro com transporte, no perder dia de trabalho e pela rapidez do atendimento, entre outros motivos mais operacionais; 11,2% referiram o uso seletivo para certos problemas de sade; para 9%, a utilizao do posto estava relacionada excelncia do atendimento e dedicao do agente; e 3% referiram o uso apenas para buscar medicamentos. Outros dados confirmam a efetiva utilizao dos Postos para todo tipo de problema, desde os mais simples resfriados e pequenos ferimentos e para buscar leite, vacinas ou solicitar exames at os mais complexos puericultura, remdios e atendimento pr-natal, nessa ordem de frequncia. Dos 738 entrevistados, 101 (13,5%) afirmaram no se utilizar dos Postos de Sade: 83%, em sua maioria chefes de famlia, alegaram no ter necessidade que justificasse seu uso, e apenas 3% referiram no utilizlos por considerar que os agentes no tinham competncia suficiente para desenvolver as atividades que lhes eram atribudas. 5) A opinio da populao sobre os Postos No desenvolvimento da pesquisa relatada aqui, os autores procuraram investigar, em relao s famlias que conheciam os Postos de Sade, em que medida e, principalmente, atravs de que aspectos se apreendeu a proposta de trabalho dos agentes em funo de seus componentes centrais: a) o tcnico, ligado a atividades para indivduos e famlias, no atendimento a queixas e/ou problemas; b) o relacionado a atividades com a comunidade; e c) o relativo ao modo como se desenvolvem essas atividades. A grande maioria das famlias entrevistadas (91,6%) entendeu e aceitou a proposta de trabalho dos agentes de sade, e, entre 73,3%, predominava a aceitao do componente mdico da proposta:207

Sei que funciona das 7 s 5 horas da tarde, de segunda a sexta-feira, mas, quando algum precisa, ela atende a qualquer hora do dia ou da noite. Atende a todas as pessoas do bairro: criana, mulher grvida, homem adulto, tudo. Quando a gente tem um problema mais grave, com a paz de Deus, a gente procura o Postinho; ela faz tudo o que sabe, e, o que no sabe, manda para Cananeia. Acho bastante til para a gente. Ela bastante favorvel para a gente: ela mede presso, d alguns comprimidos, entrega leite para as crianas. Ela aplica injeo, faz curativo, tira febre, entrega o leite, o gestal para mulher grvida; faz tudo o que uma boa enfermeira faz. Quanto s opinies dos moradores entrevistados sobre os Postos e seu funcionamento, predominaram as favorveis: 15% consideraram muito bom, por referncia melhoria das condies de assistncia populao; 33,9% consideraram muito bom, por referncia competncia e resolubilidade dos agentes de sade; 32,2% consideraram muito bom, por referncia ao relacionamento dos agentes de sade com a clientela; 8,4% consideraram muito bom, com outras justificativas; 10,2% colocaram restries e consideraram o atendimento ruim, em especial por referncia falta de medicamentos e de outros insumos. Quanto s sugestes das famlias para o funcionamento dos Postos de suas localidades, 6,8% consideraram tudo timo; 62,9% pediram mais medicamentos; 48,7% reivindicaram a presena de um mdico; 25,6% sugeriram a presena de um segundo agente no Posto e melhores condies de trabalho para eles; 4,3% gostariam que houvesse um dentista no Posto; 2,6% sugeriam melhoria dos prdios e uma superviso mais constante da equipe tcnica ao trabalho dos agentes. H ainda outras informaes, ao longo do documento de avaliao, segundo as quais os Postos de Sade eram realmente procurados e valorizados, e os agentes de sade bem conceituados pela competncia e dedicao com que faziam seu trabalho.Entretanto, embora a grande maioria reconhecesse que os agentes eram muito empenhados e responsveis, a anlises dos dados tambm detectou evidncias de muitas dificuldades e de algumas inadequaes no trabalho desses agentes. Os autores da avaliao relacionam essas dificuldades e inadequaes, em especial: [...] ao fato de o Departamento Regional de Sade no ter incorporado adequadamente o projeto s suas atividades, ou melhor, a ideia inicial de que o projeto Devale viria a se constituir na prpria programao de trabalho do Departamento Regional de Sade do Vale do Ribeira at o perodo observado [maro de 1983] no chegou a se concretizar (Silva, 1984; Silva; MendesGonalves; Goldbaum, 1986).208

Tambm em consequncia disso, essas insuficincias so em grande medida atribudas a dificuldades da coordenao do projeto para cumprir o planejamento, sobretudo as sistemticas de superviso e o processo de educao continuada previstos. Essas constataes so confirmadas em documento da coordenao do projeto Devale: [...] a superviso dos Postinhos era realizada por profissional do Centro de Sade de cada municpio. Na medida em que o sistema de sade foi se desenvolvendo na regio, principalmente com a incorporao de enfermeiros, a superviso era desenvolvida de forma muito heterognea nos diversos municpios. Uma diferena ntida na metodologia de superviso foi sendo constatada entre os municpios onde existia o enfermeiro ou mdico sanitarista e aqueles onde no havia esses profissionais [...] Quanto atualizao dos profissionais, em nvel regional, foi realizada apenas uma reciclagem dos agentes de sade em atividades do Programa de Sade da Criana, em 1989. As demais atualizaes foram feitas pelos municpios, por iniciativa prpria (Vilanova et al., 1992).

Consideraes FinaisAinda em relao a polticas pblicas, alm da ateno bsica, pelo menos em dois outros pontos a histria do Vale do Ribeira sofreu influncia importante das prticas de sade do estado de So Paulo: na determinao de vigilncia epidemiolgica em situaes envolvendo contaminao por agrotxicos e no planejamento de atendimento a calamidades. A ateno para os problemas de sade causados pelos agrotxicos nasceu do levantamento dos agentes na primeira fase do treinamento. Quando perguntados de que adoecem e morrem as pessoas no seu bairro, eles respondiam, em muitos casos, de veneno. No incio do trabalho dos agentes de sade, a abordagem tinha uma incidncia individual, e o que se podia fazer era orientar a proteo individual. S em 1983, j em outro momento poltico, durante o governo Montoro, sendo secretrio da Sade Joo Yunes, foi elaborado um projeto de vigilncia epidemiolgica, com aes nas reas de capacitao de recursos humanos, abordagem de trabalhadores rurais, produo de material de informao e discusso em vdeo, notificao compulsria e interveno nas reas de risco e nas formas nocivas de produo. Esse programa comeou no Vale do Ribeira e hoje abrange todo o estado de So Paulo, o nico do Brasil em que a intoxicao por agrotxico consta como agravo de notificao compulsria. O Vale do Ribeira era historicamente uma regio de enchentes, e no havia uma sistematizao sobre como agir com os desabrigados. A coordenao do projeto Devale assumiu tambm a coordenao da Defesa Civil da regio, entre 1983 e 1987. O ano de 1983 foi particularmente209

dramtico, no Vale e em toda a regio Sul, com repetidas enchentes, e sistematizaram-se as aes para proteger a populao: alerta aos ribeirinhos, cuidados com desabrigados, avaliao da rea para o retorno dos moradores e investimentos socioeconmicos. Em sntese, uma srie de aes que foram se conformando como produo tcnica, muito necessria na poca. Essa sistematizao vem sendo atualizada e ampliada hoje, com a incorporao de tecnologias. O projeto do Mercosul para calamidades, aprovado no incio da dcada de 1990, baseia algumas de suas propostas nessa sistematizao feita no Vale do Ribeira. O Piass propunha a articulao entre esses dois campos, fundamental para mudar as condies de vida e sade, diminuir a incidncia de muitas doenas e melhorar significativamente a expectativa de vida. Sua implantao no Vale do Ribeira ensejou no s a melhoria em condies endmicas, como no caso da esquistossomose, mas tambm, como na rea da sade, exigiu e foi beneficiado pela participao comunitria e pela articulao intersetorial. A partir da dcada de 1990, houve uma nova ciso entre as reas da sade e do saneamento, com avano relativo daquela e estagnao desta. Na organizao do sistema de sade, pontuamos que o Vale do Ribeira foi rea de iniciativa pioneira da Faculdade de Medicina da USP de um estgio fora do Hospital das Clnicas desde a sua inaugurao, em 1943, propiciando o contato de alunos e residentes com as necessidades de sade da populao e a estrutura de servios de uma regio. As condies precrias marcaram o ensino e as vivncias de muitos, mas tambm despertaram vocaes e contriburam para a formao de cidados. Como modelo de ateno, o projeto Devale foi muito avanado para a poca, pressupondo uma rede regionalizada e hierarquizada de servios e baseando a instalao dos PAR e a seleo dos agentes de sade na participao da comunidade, princpios depois includos na Constituio de 1988. Quanto ao trabalho do agente de sade, ele era, ao lado dos professores, o nico representante da poltica pblica em extensas regies, arcando com uma srie de responsabilidades. Se as aes de incidncia mais coletiva de promoo e vigilncia da sade so campos considerados prprios do trabalho de um agente de sade, os procedimentos de vacinao e curativos, o diagnstico e a teraputica so atribuies das reas de enfermagem e mdica. Trabalhando durante muitos dias e semanas sozinho, longe das sedes dos municpios e sem contar com outros profissionais da equipe de sade, o agente de sade assumiu quase todas as aes de ateno primria. Em 1986, regulamentou-se a Lei do Exerccio Profissional da Enfermagem (Lei Federal n 7.498/86), que dispe que a enfermagem, incluindo suas atividades auxiliares, s pode ser exercida por pessoas legalmente habilitadas e inscritas no Coren de sua rea no caso, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, tcnicos de enfermagem e parteiros. Em 1991, em Seminrio de Avaliao de 10 anos do projeto Devale, propsse que os agentes de sade que exerciam funes de enfermagem fizessem a qualificao profissional como auxiliares de enfermagem, o que realmente aconteceu.210

Hoje, numa anlise retrospectiva dos fatos histricos, considerase o trabalho mais coletivo dos agentes primordial para a mudana da incidncia de doenas, rea no coberta pela atuao mais individualizada do auxiliar de enfermagem. De certa forma, a Estratgia Sade da Famlia, modelo de ateno primria institudo pelo Ministrio da Sade a partir de 1994, retoma a figura do agente de sade na sua identidade mais prpria, inserindo-o como agente comunitrio numa equipe de sade integrada tambm por mdico, enfermeiro e auxiliar de enfermagem (Silva; Dalmaso, 2002). No Vale do Ribeira, muitos profissionais encontraram estmulo para o trabalho em contato com a populao e com grupos organizados e equipamentos sociais como as escolas e seus professores. Nesse sentido, se hoje a interface entre sade, educao, poltica e participao da comunidade so princpios do trabalho em sade, tiveram no Vale, entre os anos 1970 e 1990, condies precoces e frteis de desenvolvimento. No Vale tambm esteve muito presente a questo da terra, envolvendo aspectos da posse, da produo e do meio ambiente. Por ltimo, a histria feita de muitos sujeitos, e, destes, o Vale do Ribeira estava cheio gente com esperana, criatividade e coragem. Mais de 30 anos depois do perodo histrico focalizado neste captulo, o Vale do Ribeira volta a ser objeto de ateno de um novo programa de desenvolvimento econmico e social, com o lanamento pelo governo federal, em 25 de fevereiro de 2008, do programa Territrios da Cidadania, projeto conjunto entre vrios ministrios e rgos para 60 regies brasileiras consideradas: [...] desprovidas de recursos, com baixo ndice de desenvolvimento humano (IDH) e dinamismo econmico, deficientes de profissionais [...] o objetivo do Territrios da Cidadania a superao da pobreza e a gerao de trabalho e renda no meio rural [...] para a qual foram definidos objetivos especficos como a incluso produtiva [...] o planejamento e a integrao de polticas pblicas, a busca da universalizao de programas bsicos de cidadania e o incremento da participao social (Brasil, 2008, p. 16). As principais aes previstas pelo Ministrio da Sade so o incremento da estratgia Sade da Famlia, tendo no agente comunitrio de sade um profissional da maior importncia para o contato com a populao e a execuo de aes de promoo e preveno, a ateno sade bucal e a ampliao do acesso da populao a medicamentos essenciais. Na rea de educao, o Ministrio da Educao prev a construo de escolas de Educao Infantil, construes de escolas do campo e a aquisio de nibus especiais, tracionados, prprios para transporte de escolares em reas rurais. Como na dcada de 1970, constata-se que o Vale do Ribeira , no estado de So Paulo, junto com o Pontal do Paranapanema, a rea de maior vulnerabilidade, o que exige do poder pblico programas integrados de governo para fazer face desigualdade.211

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gua tambm questo de Sade Pblica: Geraldo Horcio de Paula Souza e o debate sobre o abastecimento da cidade de So Paulo: propostas para a superao da crise, 1913-1925Cristina de Campos1 Maria Lucia Caira Gitahy2 Adinha ficava triste quando percebia que seu pai tinha ido busc-la em sua aula de natao. Sua presena significava que, em breve, as aulas poderiam ser interrompidas. De dentro da piscina, ela o observava abrir o palet e lhe entregar alguns tubos de ensaio. Um pouco constrangida, a garota recolhia algumas amostras de gua da piscina, que seriam levadas aos laboratrios do Instituto de Higiene. Passados alguns dias e com o resultado insatisfatrio dos laboratrios, vinha o inevitvel cancelamento das aulas, com direito a uma visita do diretor do Instituto de Higiene ao presidente do Clube Atltico Paulistano para comunicar que as piscinas estavam imprprias para o banho e a prtica de esportes. O dr. Paula Souza gentilmente solicitava ao diretor o cancelamento de seu ttulo do clube, dizendo que somente iria reativ-lo quando a qualidade das guas fosse restabelecida. Depois de todo o alvoroo e restituda a boa condio da gua das piscinas, Adinha poderia, finalmente, retornar s suas aulas de natao3. A memria acima relatada, entre as lembranas pessoais de dona Ada Celina sobre seu pai, o mdico sanitarista Geraldo Horcio de Paula Souza, reveladora de como a gua, como questo relativa Sade Pblica, foi um tema perseguido1 Cientista Social pela Unesp, mestre e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de So Paulo (FAU-USP), pesquisadora convidada junto ado Departamento de Poltica Cientfica e Tecnolgica do Instituto de Geocincias da Unicamp (PRODOC/CAPES) e membro do grupo de pesquisas Histria Social do Trabalho e da Tecnologia como Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo (HSTTFAU) da FAUUSP. 2 Cientista Social (UNICAMP, 1976), mestre em Histria (UNICAMP,1983) e doutora em Histria ( University of Colorado, 1991), Professora Associada do Departamento de Histria da Arquitetura e Esttica do Projeto da FAU/USP e coordenadora do grupo de pesquisas HSTTFAU, que pertence ao LAbFAU. 3 Esta uma das memrias da nica filha de Geraldo Horacio de Paula Souza, Ada Celina, narrada durante as numerosas visitas feitas durante as pesquisas de mestrado e doutorado, entre 1998 e 2007.

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ao longo de toda a sua trajetria profissional. A preocupao com a gua remontava ao tempo de estudante universitrio, desdobrando-se entre a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e a Escola Politcnica de So Paulo4 na qual, durante as frias escolares, cursava em carter especial disciplinas ligadas a Qumica, Bacteriologia e Biologia sob a orientao de Roberto Hoottinger o jovem tinha como objeto de estudo as guas escuras do Rio Tiet de So Paulo, produzindo dois trabalhos referentes ao tema: Estudos biolgicos sobre o Rio Tiet. Primeira comunicao. Tratase de gua preta?, publicado no Anurio da Escola Politcnica, em 1912; e sua tese apresentada junto Faculdade de Medicina, Contribuio ao estudo da autodepurao de nossos rios, especialmente do Tiet, de 1913. De volta a So Paulo, aps a concluso do curso de Medicina, o jovem mdico continua com os trabalhos de pesquisa com Hottinger, realizando experimentos sobre a qualidade da gua consumida na capital paulista. Mesmo tendo posteriormente tomado outros rumos profissionais, veremos que o tema das guas de abastecimento permanecer presente em toda a sua trajetria5. No seria inadequado aqui sugerir que os estudos sobre a gua talvez tenham lhe revelado seu caminho junto Sade Pblica. Tendo como pano de fundo a insistente crise do abastecimento da cidade de So Paulo nas primeiras dcadas do sculo XX, o objetivo deste artigo revelar os primeiros passos de uma prtica mdica voltada Sade Pblica.

A crise de abastecimento de gua na cidade de So Paulo na passagem do sculo XIX ao XXA falta de gua na capital paulista tornou-se um problema constante das autoridades locais nas ltimas dcadas do sculo XIX, quando o sucesso da economia cafeeira transforma definitivamente a pacata cidade, antes referenciada como burgo de estudantes. O novo sistema ferrovirio, o aumento da populao urbana e a diversificao do comrcio e de outros servios, possibilitada pelas divisas geradas com as exportaes, impulsionaram as reformas urbanas em So Paulo a partir da dcada de 1860. Tais reformas tinham como objetivo substituir as antigas estruturas coloniais dotando a cidade de uma infra-estrutura moderna e que permitisse o seu rpido crescimento econmico. Neste contexto, um novo sistema de abastecimento, capaz de fornecer um volume maior de gua, passou a ser de vital importncia para a capital paulista. As guas captadas nas cercanias da cidade, utilizadas4 O diretor da Escola Politcnica de So Paulo era o pai de Geraldo Horcio, o engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza. 5 A trajetria de Geraldo Horcio de Paula Souza junto aos servios pblicos de Sade Pblica foi amplamente discutida em diversos trabalhos acadmicos, dos quais destacamos: FARIA (2007); ROCHA (2003); RODRIGUES; VASCONCELLOS (2007); CAMPOS (2002).

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para abastecer seus chafarizes, j se mostravam insuficientes na dcada de 1860, levando as autoridades locais a apoiarem estudos voltados busca de novas guas para guarnecer o abastecimento pblico. Estudos preliminares, dos quais destacamos o realizado pelo engenheiro ingls James Brunlees6, apontavam que os mananciais distantes da cidade, localizados na Serra da Cantareira, eram os mais indicados ao abastecimento pela excelente qualidade de suas guas, longe da poluio dominante entre os crregos que forneciam gua para So Paulo. O projeto, contudo, somente se concretizou em 1877, quando o governo provincial contratou a empresa Cantareira & Esgotos para construir e explorar comercialmente tanto as guas canalizadas da serra como um novo sistema de esgotos, uma vez que o volume de gua distribudo era insuficiente ao abastecimento urbano, principalmente nas pocas de estiagem que tanto castigaram a cidade (CAMPOS, 2005). Em mais de uma dcada de funcionamento, os empresrios da Cantareira & Esgotos foram incapazes de cumprir o contrato com o governo provincial, permanecendo So Paulo apenas parcialmente coberta pelos sistemas de gua e esgotos, o que agravou ainda mais a situao da populao que dependia do fornecimento pblico. Para reverter este quadro, uma das primeiras medidas do governo republicano, poucos anos aps ascender ao poder estadual, foi a de encampar os servios da Cantareira, fato que se consumou formalmente em 1893. Dentro do governo estadual paulista, os antigos servios pertencentes a esta companhia privada foram incorporados Repartio Tcnica de guas e Esgotos (RTAE), especialmente criada para o abrigo das funes ligadas ao saneamento. Segundo Bernardini (2007), a nova repartio passou por apurada organizao administrativa, com o fito de planejar o novo abastecimento de gua da capital paulista. A meta dos dirigentes da RTAE era aumentar o volume do lquido para 25 milhes de litros, valor correspondente ao crescimento populacional estimado para So Paulo nos prximos anos. Em outras palavras, os objetivos da nova repartio resumiam-se, segundo este autor, busca de material de qualidade e empresas fornecedoras7 comprometidas com a entrega do material necessrio para os encanamentos e a procura de novos mananciais e alternativas de abastecimento (BERNARDINI, 2007, p. 294). Com a superviso tcnica do engenheiro Jos Pereira Rebouas, decidiu-se que a cidade seria guarnecida, em sua parte alta8, com a gua aduzida na Serra da Cantareira, enquanto que a parte baixa beberia as guas captadas junto ao ribeiro do Ipiranga. Como resultado dessa nova estruturao, o volume total captado chegou significativa marca de 276 Concomitantemente aos estudos feitos para a estrada de ferro que deveria ligar Santos a Jundia, transpondo a Serra do Mar, o engenheiro escocs Brunlees, a pedido do governo provincial, realizou estudos para uma nova aduo ao abastecimento da cidade de So Paulo, durante a dcada de 1860 (CAMPOS, 2005). 7 Um dos desafios da Repartio era encontrar empresas que honrassem os contratos estabelecidos com o governo, na importao e entrega do material necessrio para a construo das novas linhas. vlido salientar que o setor de construo civil ainda no estava plenamente estabelecido em bases empresariais no perodo em questo (GITAHY; PEREIRA, 2002). 8 As zonas altas compreendiam as regies da colina central, Campos Elseos e Consolao, enquanto as zonas baixas, aos bairros populares do Brs e Belenzinho.

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milhes de litros dirios, superando assim as projees iniciais da RTAE. Depois de dcadas, a cidade de So Paulo havia superado a falta de gua que a castigava havia tantos anos. Entretanto, a abundncia de gua distribuda provocou outros problemas. Como observa BERNARDINI (2007, p. 301), o incremento e a melhoria do sistema de abastecimento levou expanso e ao adensamento construtivo sem qualquer controle legal, levando o governo, em especial a RTAE, busca de novos mananciais e de outras fontes alternativas de gua. Mesmo tomando medidas preventivas como a construo de reservatrios e o assentamento de novas linhas para o aproveitamento das sobras dos crregos j canalizados , as solues implementadas pela RTAE foram insuficientes para acompanhar o acelerado processo de urbanizao da cidade. Segundo o mesmo autor, a urbanizao desenfreada e a irregularidade no consumo de gua (pela falta de controle do uso domstico e tambm pelo desperdcio ao longo da prpria rede) foram os fatores que desencadearam uma nova crise no setor de abastecimento de So Paulo. Os primeiros anos da dcada de 1900 foram marcados por intensa movimentao do governo estadual, em especial na Secretaria da Agricultura, com vistas superao da crise. Alm dos trabalhos desenvolvidos pela RAE, a substituta da antiga RTAE9, o secretrio da Agricultura, Carlos Jos de Arruda Botelho, criou em 1904 a Comisso de Obras Novas, cujo foco seria exclusivamente atacar o problema do abastecimento por meio de medidas prticas, chamando-se para a direo dos trabalhos o engenheiro Saturnino de Brito. A proposta de Brito consistia no total remanejamento das redes existentes a partir de um novo zoneamento de distribuio de gua, medida que corrigiria, entre outros problemas, as perdas de gua ocasionadas pela forte presso dos encanamentos. Contudo, as aes da RAE no se restringiram apenas s propostas elaboradas pelo chefe da Comisso das Obras Novas10. Outros planos anteriormente apresentados como o de Theodoro Sampaio e o dos scios Ataliba Valle e Fonseca Rodrigues11 tiveram algumas de suas sugestes consideradas e implementadas pela repartio, como a utilizao do manancial do Cabuu (proposto por Sampaio) e a filtrao das guas do Tiet12 (proposta de Valle e Rodrigues), alm, claro, das correes da rede preconizadas pelo prprio Brito (BERNARDINI, 2007). Enquanto a Secretaria da Agricultura empenhava-se para solucionar o problema, o abastecimento de So Paulo ganhava outros9 Com a extino da Comisso de Saneamento do Estado, foram criadas duas reparties tcnicas de guas e esgotos, uma para a capital do estado e outra para as cidades do interior paulista. Em 1898, as duas reparties fundiram-se em uma nica repartio, a RAE, responsvel pelas obras de saneamento da capital e do interior (BERNARDINI, 2007, p. 341). 10 O engenheiro Brito permaneceu frente da Comisso de Obras Novas at 1905, sendo ento alocado para trabalhar no saneamento da cidade de Santos. Com a sada de Brito, assumiu o engenheiro Augusto de Figueiredo, que permaneceu frente desta comisso at o ano de sua extino, 1907. 11 Theodoro Sampaio elaborou seu plano em 1902, enquanto chefe da Repartio de guas e Esgotos da capital. Os engenheiros Ataliba Baptista de Oliveira Valle e Jos Antonio da Fonseca Rodrigues eram scios em diversas empresas prestadoras de servios pblicos de energia eltrica e de guas e esgotos. Ambos tornaram-se professores da Escola Politcnica de So Paulo. Fonseca Rodrigues era sogro de Geraldo Horcio de Paula Souza. 12 Sampaio tambm indicava o uso das guas filtradas do Rio Tiet.

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espaos de interlocuo, justamente por estarem nas mos dos tcnicos da RAE projetos que apontavam o uso das guas do rio Tiet como soluo crise. A soluo do abastecimento por elevao das guas desse rio, defendida por Ataliba Valle e Fonseca Rodrigues, no deixava de ser polmica, e ainda colocava abaixo a recomendao vigente desde as ltimas dcadas do sculo passado do uso de mananciais distantes, localizados nas cotas mais elevadas. O abastecimento por elevao chamou a ateno dos engenheiros, entretanto, foi entre os mdicos que causou um debate mais acalorado, precisamente, nas reunies da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo (TEIXEIRA, 2001).No mbito desta Sociedade, houve uma clara ciso entre os que defendiam as abordagens tradicionais e colocavam em cheque os mtodos modernos de filtragem contra os adeptos da elevao da gua do rio e sua purificao pelos filtros. A discusso, promovida pela Sociedade de Medicina, se estendeu imprensa paulistana e teve como interlocutores, segundo Teixeira (2001), nomes como Miranda Azevedo, Affonso de Azevedo, Arnaldo Vieira de Carvalho, Garcia Redondo, Clemente Ferreira, Jos Pereira Rebouas, Ataliba Valle e Fonseca Rodrigues. Longe de se esgotar, o debate sobre o uso das guas filtradas do Tiet ainda renderia discusses entre os favorveis e os contrrios a sua utilizao. O debate iniciado nos anos seguintes evidenciou que, cada vez mais, os conhecimentos cientficos conquistados nas dcadas anteriores em especial os avanos da microbiologia orientariam a prtica profissional de mdicos e engenheiros e constituiriam a base de sua argumentao favorvel ao uso das guas filtradas. Este foi o caso do mdico Geraldo Horcio de Paula Souza, um dos principais defensores do uso das guas do Rio Tiet.

A manifestao do Laboratrio de Biologia Geral da Escola Politcnica de So Paulo: filtrao, ozonizao e o dispositivo PerfectorEm meio ao intenso debate gerado pela crise do abastecimento que acometia a cidade de So Paulo, a Escola Politcnica tambm estudava, em seus laboratrios, uma soluo para o problema da falta de gua. No possvel definir ao certo quando estes estudos comearam, contudo as fontes sugerem que tenham se iniciado por volta de 1906, junto ao Laboratrio de Biologia Geral, do qual fazia parte o professor suo Roberto Hottinger (1875-1942). Outro membro do laboratrio era o filho do diretor da Escola219

Politcnica13, Geraldo Horcio de Paula Souza, que desde os tempos de graduando freqentava esse espao e realizava pesquisas bioqumicas sobre gua. Mesmo depois de formado, Geraldo Horcio prosseguiu com as pesquisas junto a Hottinger, desta vez estudando aspectos biolgicos do Rio Tiet. O estudo dos dois profissionais tinha como objetivo comprovar se estas guas poderiam ser utilizadas para o abastecimento pblico. Os resultados dessa pesquisa vieram tona em 1913, quando foram publicados, em forma de artigo, no nmero 45 da Revista Politcnica. Alm de Hottinger e Geraldo Horcio, o artigo trazia uma terceira contribuio, a do tambm professor da Politcnica Roberto Mange14 (1886-1955), que se incumbiu do projeto do sistema operacional e maquinrio empregados na elevao das guas. A publicao do artigo marca, de certa maneira, a entrada da Escola Politcnica e dos profissionais ligados s cincias biolgicas no debate sobre a crise do abastecimento em So Paulo. H que destacar tambm que, no debate ocorrido tanto na imprensa como na prpria Sociedade de Medicina e Cirurgia, os mdicos teciam crticas aos projetos apresentados, sem, no entanto, formularem um plano prprio de abastecimento para a cidade. Deste ponto de vista, o artigo dos pesquisadores da Politcnica (um veterinrio, um mdico e farmacutico, e o terceiro engenheiro mecnico) no se limitava crtica dos projetos anteriormente apresentados, propunha uma soluo crise do abastecimento com a elevao, tratamento e distribuio das guas do rio Tiet. Para chegar aos mtodos de purificao mais indicados para o Tiet, os autores realizaram estudos biolgicos do rio e da composio de sua gua, conhecendo-a a fundo. Logo na introduo, os autores explicam que a inteno do estudo era o aproveitamento daquelas guas para abastecimento pblico. Com tal intento, os pesquisadores realizam um amplo estudo dos mtodos existentes para a depurao de guas, uma vez que as guas do Tiet in natura estavam longe de ser potveis. Acreditavam que, aps tratamento adequado, estas guas se enquadrariam dentro das exigncias de sade e higiene uma gua de qualidade superior a da Cantareira o que as tornariam prprias ao consumo humano. Imbudos pelo sucesso alcanado no laboratrio com a purificao da gua do Tiet, os autores questionavam a insistncia de se ir buscar gua em um rio afastado (em referncia aos projetos de captao do Ribeiro Cotia, debatidos no perodo em tela), no to volumoso e que, pela sua distncia, dificultaria os trabalhos de fiscalizao. Ento, qual a13 Roberto Mange era suo, formado em Engenharia Mecnica pelo ETH de Zurique. Foi trazido ao Brasil por Antonio Francisco de Paula Souza, para assumir a Cadeira de Mquinas e Desenho de Mquinas da Escola Politcnica. De sua estreita vinculao ao ensino profissional resultou a implantao de vrios cursos pioneiros de aprendizagem industrial, entre os quais a Escola Profissional Mecnica (1924), criada junto ao Liceu de Artes e Ofcios, culminando com a criao do Senai (1943), visando atender formao de mo-de-obra tcnica especializada no campo da mecnica e eletricidade (SANTOS, 1985, p. 174, GITAHY, 1986, p.51-58). 14 Os autores pedem cuidado com o uso de filtros, por serem estes pouco confiveis. Sobre o uso dos filtros domsticos, ver o interessante trabalho de Bellingieri (2004). Poucos anos depois, Hottinger desenvolveu um filtro de uso domstico que consistia no revestimento de prata coloidal na parte interna dos filtros cermicos, que, alm de retirar partculas existentes na gua, tambm a esterilizava. Este processo logo se transformou em um filtro domstico comercializado como Filtro Salus (BELLINGIERI, 2004, p. 186; CAMPOS, 2002).

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garantia de pureza e no-contaminao daquelas guas que as autoridades pbicas poderiam assegurar populao? O artigo tinha como objetivo demonstrar que a cidade tinha condies de obter gua potvel bem perto e com despesas inferiores ao custo de uma captao em local mais afastado. Antes de apresentarem sua proposta, os autores faziam minuciosa reviso das propostas anteriormente apresentadas para solucionar o problema do abastecimento, atendo-se tambm s crticas dirigidas s mesmas. Propostas, crticas e polmicas, enfim, todas essas opinies foram comentadas pelos autores, que se basearam nos resultados obtidos durante sua pesquisa. Assim, so contemplados os pareceres emitidos pelos membros da Sociedade de Medicina e Cirurgia e tambm o livro Estudos preliminares para o reforo do abastecimento em So Paulo, escrito pelo diretor da RAE Arthur Motta (1911), obra que discute os diferentes projetos apresentados para o abastecimento de So Paulo. Conhecendo toda esta polmica, os autores decidiram fazer algumas objees s principais formas de captao sugeridas, verificando se cada um desses meios de obteno garante a pureza e qualidade do lquido distribudo para consumo da populao. Esta preocupao de fundo epidemiolgico, presente no raciocnio dos autores, justifica-se por ser a gua um dos principais agentes de propagao de doenas. A linha de argumentao seguida pelos autores, neste artigo de 1913, buscava comprovar a teoria da transmisso hdrica de doenas responsveis por grandes surtos epidmicos como tifo e clera. Sendo a gua um dos principais meios de transmisso destas e de outras doenas do trato gastrointestinal, os autores demonstravam a veracidade desta hiptese, baseando-se nas afirmaes de cientistas internacionais em uma vasta bibliografia. Tais preocupaes, sob o ponto de vista epidemiolgico, descortinavam o interesse dos autores em chamar a ateno das autoridades responsveis pelo abastecimento pblico para a necessidade do tratamento prvio, independentemente da forma de captao e da pureza da gua. Em So Paulo, o provimento de gua foi sugerido, segundo os autores, em trs possibilidades: 1) captao de nascentes; 2) uso de ribeires distantes da cidade, em altura superior; e 3) aproveitamento do Rio Tiet. A captao de nascentes ou captao subterrnea no era considerada pelos autores como forma ideal de abastecimento, pela desvantagem grande que consiste na pouca certeza de persistirem as condies boas (HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE, 1913, 107pgina107), pois no h como garantir sempre a mesma qualidade em caso de epidemia ou de infeco do territrio da bacia hidrogrfica. Contudo, para o caso paulistano as chances de contaminao eram pequenas, devido pouca permeabilidade do solo. Esta baixa permeabilidade garantia filtrao lenta e revelava gua de excelente qualidade presente em poos e minas. Por outro lado, as nascentes ao redor da cidade eram, segundo os autores, de baixa produtibilidade, com um volume insuficiente para o abastecimento. No tocante ao tratamento prvio, esta forma de captao, por ser subterrnea, no permitia a realizao da purificao, pois o encanamento era feito direto da fonte para o abastecimento pblico. Para esses casos, recomendava-se que o processo de esterilizao fosse feito pelo prprio consumidor com221

o uso de filtros, fervura da gua ou ozonizao (HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE, 1913, p. 107)15. O segundo tipo de captao considerado pelos autores foi o de ribeires16. Consideradas guas superficiais, sua qualidade depende das condies da superfcie. As guas de ribeiros escolhidas ao abastecimento, reconheciam os autores, situam-se em zonas pouco povoadas e cobertas de matas virgens, possuindo certa quantidade de substncias orgnicas. Estas guas so consideradas boas, mas como garantir a sua pureza? Para os autores, no haveria como garantir guas livres de contaminao, uma vez que as chuvas carregam toda a superfcie da rea da bacia para o ribeiro, no podendo nem mesmo a filtrao natural oferecer garantias quanto a sua qualidade. Geralmente, so captadas in natura, sem um prtratamento antes da distribuio. Contudo, podem ser tratadas antes de entrarem no sistema. Como medidas preventivas para a manuteno de sua qualidade, indicavam a fiscalizao rigorosa e a proibio da entrada pblica nas reas de captao, medidas praticamente impossveis. Na impossibilidade de fiscalizao confivel e por serem captadas sem tratamento, as guas de ribeires foram classificadas como perigosas ao consumo pelos autores. Na terceira forma de captao, o aproveitamento de rios, os autores explicavam que, desde os tempos mais remotos, as margens de rios eram utilizadas para o estabelecimento de assentamentos humanos, e suas guas comumente usadas para consumo. Nos ltimos sculos, com o aumento populacional caracterstico da era industrial, muitas das cidades que se serviam de rios urbanos para abastecimento foram atingidas por doenas, salientando a intimidade entre a gua de alimentao e a molstia como causadora das epidemias. Cientes do perigo a que estavam expostas, muitas cidades buscaram outras formas de abastecimento, entretanto, em alguns casos quando tais recursos no eram facilmente encontrados em suas proximidades, as autoridades responsveis partiam para a depurao dos rios, com a instalao de filtros em grande escala, obras de custo elevado que nem sempre eram eficientes na proteo de agentes patognicos. Para remediar as falhas do sistema de purificao foram desenvolvidos, com o auxlio da cincia e da tcnica, dois processos capazes de purificar as guas de rios, usados como complementao do saneamento aps a passagem pelos filtros. Os assim chamados esterilizadores possuam uma ao eficaz contra os germes causadores do tifo e clera, desde que em gua clara e livre de substncias orgnicas (HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE, 1913, p. 114-116).15 Os autores reforam a diferena entre a captao de nascentes e a de ribeires. A captao de nascentes, feita no subterrneo, retira a gua do solo sem a exposio ao ar atmosfrico. A gua captada nos ribeires, pelo contrrio, encontra-se na superfcie e da segue para a captao. guas de nascentes captadas em sua sada do solo so consideradas pelos autores como gua de superfcie, portanto, em condies iguais a dos ribeires. 16 Os autores reforam a diferena entre a captao de nascentes e a de ribeires. A captao de nascentes, feita no subterrneo, retira a gua do solo sem a exposio ao ar atmosfrico. A gua captada nos ribeires, pelo contrrio, encontra-se na superfcie e da segue para a captao. guas de nascentes captadas em sua sada do solo so consideradas pelos autores como gua de superfcie, portanto, em condies iguais a dos ribeires.

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Dois mtodos de esterilizao das guas em particular despertaram a ateno dos pesquisadores, o de ozonizao e o de uso de raios ultravioleta17, processos que poderiam aplicar-se aos objetivos pretendidos junto s guas do Tiet. Entre os dois mtodos, concluem que o da ozonizao era prefervel pela durabilidade e baixo custo dos aparelhos, pois as luzes ultravioleta ainda proporcionavam desvantagens e altos custos de manuteno. Aplicada gua do Tiet, a ozonizao efetuava com sucesso a esterilizao, mas no retirava o gosto da gua que persistia mesmo depois de todo o processo. nesse momento que Hottinger, Paula Souza e Mange revelam o trunfo de sua proposta: no artigo, os autores afirmam ter melhorado o processo de esterilizao pelo oznio com a introduo de um dispositivo, o Perfector, aparelho que permitia mesmo em guas em condies piores a obteno de gua pura e inspida. Tal aparelho, um invento de Hottinger, havia sido desenvolvido nas dependncias da Escola Politcnica com a finalidade de utilizao no saneamento das guas do Rio Tiet (HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE, 1913, p. 119). Depois da apresentao do Perfector, os autores descreviam, passo a passo, seus experimentos na elaborao de um processo de purificao das guas do Tiet para o abastecimento da cidade de So Paulo. As primeiras experincias comeavam pela filtragem das guas, pela simples filtrao e pela filtrao natural, por intermdio da abertura de poos prximos ao rio. Ambos os processos foram abandonados por no alcanarem os objetivos esperados. Assim, decidiu-se pelo uso de agentes coaguladores, base de cal e sulfato de alumnio. O efeito desse precipitado em uma gua calcrea produz uma leve floconizao no lquido que se aglomera (coagula) e fica depositada no fundo do recipiente. Este processo permitia, alm da eliminao das impurezas, uma diminuio considervel dos germes presentes na gua (HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE, 1913, p. 121-122). Com a introduo deste processo, os autores definem o caminho que a gua elevada do Rio Tiet deveria seguir para ser completamente limpa. Primeiro, cal e sulfato de alumnio seriam misturados na gua, que segue para um tanque de decantao, permanecendo de trs a cinco horas. As paredes do tanque, segundo os autores, permitiriam que a gua passasse para a prxima etapa, retendo a maior parte dos cogulos. Depois, a gua iria para os filtros rpidos (de areia com instalao automtica de lavagem), recomendando-se o uso dos filtros Bollman e17 Ainda hoje, estes dois processos so amplamente utilizados para o tratamento de gua. O oznio um gs oxidante extremamente potente, reativo e instvel. Estas caractersticas permitem tratar a gua oxidao, precipitao e sanitizao sem nenhum resduo de oznio aps sua aplicao. Alm disso, possibilita outras aplicaes visando o meio ambiente: reduo dos metais s suas formas insolveis (normalizao), quebra da cadeia dos hidrocarbonetos (dissociao) e solidificao dos compostos orgnicos dissolvidos, causando sua coagulao e precipitao (mineralizao). Fonte: Linde Gas. Disponvel em: . Acesso em: 15 ago. 2008. No processo com os raios ultravioleta (como so hoje conhecidos), A radiao ultravioleta (UV) gerada tambm in loco por descarga eltrica atravs de lmpadas de vapor de mercrio. Esta radiao natural, parte do espectro no visvel dos raios do sol em torno de 220 nm (comprimento de onda), penetra no corpo dos microorganismos, altera seu cdigo gentico e impossibilita a reproduo. H hoje cerca de 60.000 equipamentos de UV instalados, tratando gua no mundo, o primeiro foi instalado em 1901 na Cidade de Marselha - Frana, mas seu uso s se incrementou a partir de 1955, quando se descobriram os Trihalometanos. Aparelhos domsticos de UV na Europa e EUA se tornaram populares. Fonte: Abraqua. Disponvel em: . Acesso em: 15 ago. 2008.

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Jewell. A gua sairia dos filtros purificada das suspenses, materiais orgnicos e alguns germes, permanecendo, contudo, o gosto desagradvel do lodo, e fazendose necessria a esterilizao. O oznio, por sua vez, completaria a purificao da gua, mas tambm no eliminaria o gosto, tornando a gua ainda imprpria para o consumo. Por fim, seria necessrio o uso do dispositivo Perfector. O dispositivo eliminaria as substncias aromticas, eliminadas pelas indstrias e cumpria-se a outra importante tarefa necessria nos processo com oznio, que a decomposio do mesmo. Finalizado todo esse processo as guas do Tiet estariam prontas para serem distribudas ao abastecimento pblico. Tal processo, aconselhado para So Paulo, poderia ser aplicado, na viso dos autores, a outras cidades que estivessem em condies semelhantes capital paulista. Desta forma, os autores comprovaram e recomendaram o aproveitamento das guas do Rio Tiet. Como ltima recomendao, os autores advertiam que a estao de elevao das guas no deveria ser instalada no Morro da Penha, como o projeto anterior de uso do Tiet apregoava (referindo-se, talvez, ao projeto de Rebouas). A usina deveria ser instalada no Alto do Pari, a 500 metros da margem do Tiet, elevando-se a uma altura de 12 metros do nvel mais alto do rio.Quadro 1 Comparativo entre os projetos de captao pelo Rio Tiet e pelo Rio Cotia. Valores em contos de ris.Abastecimento de So Paulo Pelo Rio Tiet gua torna-se de primeira qualidade 1 Bacteriologicamente: Isento permanentemente de germes do tipo intestinal (coli, tifo, etc.) 2 Potabilidade: Livre de cor, cheiro e gosto No se torna necessria gua na cidade Usina hdrica moderna, centralizada, na cidade Para 4 mil m/hora 1 capital a empregar: 3.400:000$ [esclarecer que unidades esto sendo usadas] 2 despesa anual: Aprox. 856:000$ 3 preo por 1 m/ano: 24,5 rs [esclarecer que unidades esto sendo usadas] Aprox. 10 meses Purificada e garantida: a 24,5 rs por m/ano Pelo Rio Cotia No est prevista No est garantida

Purificao da gua (pelo processo indicado)

Duvidosa Dificilmente praticvel resultado duvidoso e de

Proteo da captao Conduo da gua Instalao

Cerca de 35 kilmetros de tubos, em parte de alta presso. Barragens, degrossisseurs Para 3.330 m/hora 1 capital a empregar: Mais de 16:000:000$ 2 despesa anual: Aprox. 1.400:000$ 3 preo por 1 m/ano: Mais de 48 rs

Custeio

Prazo para construo (at o fornecimento de gua) gua potvel

Aprox. 2 anos Duvidosa: a 48 rs por m/ano

Fonte: HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE, (1913, p. 191-192).

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Ilustrao 2 Perfil e planta das instalaes da usina elevatria no Alto do Pari

Fonte: HOTTINGER; PAULA SOUZA; MANGE (1913).

A proposta de Hottinger, Geraldo Horcio de Paula Souza e Mange teve pouca repercusso, cabendo-lhe apenas uma crtica, feita durante sesso da Sociedade de Medicina, em 1913, por Jos Pereira Barreto18. Esta crtica, no entanto, chegou at Geraldo Horcio apenas anos depois, no se sabem os motivos, o que nos leva a imaginar que esta proposta para a elevao e purificao das guas do Rio Tiet tivera pouco impacto na sociedade paulistana da poca. Quando tomou conhecimento da crtica de Barreto, em 1916, Geraldo Horcio fez questo de respond-la19, mesmo tendo passado tanto tempo. Assim como as demais crticas feitas a projetos semelhantes, a anlise de Barreto condenava o uso das guas do Tiet e o suposto processo de purificao daquelas guas: [...] a higiene de fato revolta-se em admitir que a populao de uma cidade venha a ser, normalmente, abastecida por guas impuras, como [so] as do Tiet, servindo de esgotos [...], guas poludas [...] sob color de que essas guas sofrem um processo purificador qualquer (PAULA SOUZA, 1916, p. I). As palavras deixam claro que Barreto desdenhava da eficcia de todo o processo indicado pelos autores do artigo de 1913, chegando a afirmar que as guas de esgotos destiladas seriam superiores as do Tiet, purificadas pelo sulfato de alumnio/cal/18 No sabemos se Jos Pereira Barreto tinha algum parentesco com o mdico positivista Luis Pereira Barreto (1840-1823). Este ltimo foi um dos que se pronunciaram favoravelmente ao uso das guas purificadas do Rio Tiet, assim como os mdicos Arnaldo Vieira de Carvalho e Emlio Ribas (PAULA SOUZA, 1936). 19 Esta resposta um manuscrito que encontramos nos documentos do Arquivo da Faculdade de Sade Pblica (FSP/USP). No sabemos se ele chegou a ser publicado.

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oznio. Para Barreto, as guas ideais para o abastecimento seriam as que se encontram em cotas elevadas e distantes dos centros urbanos. Em sua argumentao, a gua do Tiet serviria para abastecimento pblico se fosse captada junto a sua nascente, na Serra do Mar. Em sua resposta, Geraldo Horcio reafirma a seriedade dos estudos e dos processos realizados em parceria com Hottinger, apesar de j haverem sido superados, pois, em 1916, existiam outros procedimentos mais eficientes para o tratamento de gua, como o uso do cloro e do prprio oznio. Mesmo assim, ressaltou o mdico, at a publicao daquela proposta, em 1913, no havia sido apresentado um processo de purificao que chegasse aos resultados obtidos nos laboratrios da Escola Politcnica, de eliminao quase total dos germes existentes na gua e impedindo a passagem dos micrbios do tipo intestinal (PAULA SOUZA, 1916, p. VII). Para validar tais processos de purificao, Geraldo Horcio recorre citao de autores estrangeiros, relata a aceitao cada vez maior da ozonizao em vrios pases do mundo, bem como sua eficcia. Sobre as guas de ribeires distantes, Geraldo Horcio praticamente mantm a mesma argumentao de 1913, afirmando que o uso de tais ribeires em bacias expropriadas e fiscalizadas no esto seguros da contaminao de agentes externos. Mais do que rebater as crticas de Barreto, o artigo do mdico volta-se duramente contra a RAE, que at a presente data ainda no tratava as guas distribudas em So Paulo, independente da forma de captao. E revela que a proposta de purificao das guas de 1913, chegou at os dirigentes da RAE e foi recusada, por eliminar apenas 99% dos germes contidos na gua a purificar (PAULA SOUZA, 1936, p. VII). Para Geraldo Horcio, se tal processo fosse implantado naquela poca, mesmo estando em 1916 ultrapassado por outros mais seguros e baratos, a populao de So Paulo no necessitaria ferver a gua que consumia nem passaria pela experincia de 1914, quando os bairros do Brs e Belenzinho foram duramente castigados pela febre tifide depois de abastecidos com guas do Tiet, parcialmente filtradas por galerias filtrantes. Segundo o mdico, tal episdio comprovou a transmisso hdrica das molstias para a cidade de So Paulo.

A crise de 1924: o Servio Sanitrio se manifesta Em 1916, quando escreveu a resposta a Jos Pereira Barreto, Geraldo Horcio ocupava a posio de professor assistente da Cadeira de Qumica20, junto Faculdade de Medicina de So Paulo, desde 1914.20 Segundo Candeias (1984, p. 5), as cadeiras de Fsica e Qumica da Faculdade de Medicina foram instaladas junto Escola Politcnica de So Paulo, cujo diretor na poca era o pai de Geraldo Horcio, Antonio Francisco de Paula Souza.

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Ilustrao 3 Detroit (MI) A gua do lago apenas tratada pelo cloro. Reservatrio para gua purificada e casa das bombas. Imagens feita durante as visitas tcnicas de Geraldo Horcio aos sistemas de abastecimento nos Estados Unidos, 1918-1920.Fonte: Arquivo Pessoal de Ada Celina Paula Souza de Anhaia Mello.

Talvez os trabalhos desenvolvidos em parceria com Hottinger tivessem valido a indicao ao cargo que lhe abriu as portas ao mundo acadmico e certamente, o convite feito, em 1918, selou o seu destino junto Sade Pblica. Neste ano, Arnaldo Vieira de Carvalho (1867-1920)21 indicou o seu nome para uma das bolsas concedidas pela Fundao Rockefeller para o curso de doutoramento em Higiene e Sade Pblica pela Universidade Johns Hopkins. Alm da bolsa, Geraldo Horcio havia sido designado, neste mesmo ano, como assistente da Cadeira de Higiene, dirigida pelo cientista norte-americano Samuel Taylor Darling (1872-1925)22, outro fruto do acordo firmado entre esta fundao e o governo estadual paulista (MARINHO, 2001). A partir de ento, Geraldo Horcio desenvolve, tanto no mbito acadmico como tambm na esfera das polticas pblicas, toda uma trajetria profissional dedicada Sade Pblica (CAMPOS, 2002). Tal rumo, no entanto, no desviou suas atenes do problema da gua, pelo contrrio, talvez pela natureza do cargo junto Cadeira de Higiene, suas atenes quase que redobraram. Os anos em que permaneceu nos Estados Unidos foram de extrema valia para o aprofundamento de seus estudos ligados aos processos de tratamento e purificao das guas. Naquele pas, pode verificar o funcionamento de vrios sistemas de abastecimento alimentados com guas de rios, em sistema similar proposta que anos antes havia formulado para a cidade de So Paulo. Suas visitas tcnicas23 contemplaram instalaes de captao e tratamento de gua em cidades como New Orleans, Baltimore (Montebello Water Supply), Detroit, Memphis e Saint Louis (St. Louis Water Works), cidades que desenvolveram sistemas de abastecimento de acordo com os recursos hdricos disponveis. A visita a Memphis, por exemplo, permitiu que os estudantes Geraldo Horcio e Francisco Borges Vieira (1893-1950) conhecessem a captao subterrnea feita por meio de poos artesianos; nas cidades de Saint Louis e Detroit visitaram a captao de guas superficiais, na primeira, das guas do Rio Mississipi e na outra, em que guas de um lago eram apenas tratadas pelo cloro. Imbudas de um amplo conceito de saneamento, as visitas tcnicas tambm contemplaram sistemas de tratamento de esgotos que algumas dessas cidades vinham21 Sobre a fundao da Faculdade de Medicina de So Paulo e Arnaldo Vieira de Carvalho, ver: MOTTA (2005). 22 Sobre a trajetria profissional de Darling, ver: CHAVES-CARBALLO (2007). 23 A anlise que se segue foi feita com base nas informaes disponveis no arquivo particular da senhora Ada Celina Paula Souza de Anhaia Mello.

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desenvolvendo. Nestas visitas, travaram contato com diversos sistemas de tratamento, dos quais se destacam o uso de filtros percoladores24 em Atlanta, dessecao da lama em Columbus e os monumentais tanques Imhoff25, de Baltimore. A experincia das visitas tcnicas certamente complementou os conhecimentos acumulados na literatura e, sobretudo, muniu Geraldo Horcio de novos argumentos favorveis ao uso das guas do Rio Tiet, e tornou ainda mais clara a importncia do tratamento das guas destinadas ao abastecimento pblico, independente de sua natureza. De volta ao Brasil, Geraldo Horcio assumiu suas funes junto Cadeira de Higiene, que em 1922 se transformaria em Instituto de Higiene, do qual seria nomeado diretor. Neste mesmo ano, a conjuntura poltica vigente no governo estadual paulista propiciou como ressalta Faria (2007) a nomeao do mdico como diretor do Servio Sanitrio, rgo responsvel pela formulao de polticas de sade pblica do estado, alm de outras competncias (ALMEIDA; DANTES, 2001). Enquanto diretor deste rgo, Geraldo Horcio implantou um sistema de Sade Pblica centrado em uma nova instituio, o Centro de Sade, unidade que alm do oferecimento dos servios bsicos deveria difundir hbitos salutares por meio de um abrangente programa de educao sanitria (CAMPOS, 2002; CASTRO-SANTOS; FARIA, 2002). Com o lanamento das novas diretrizes das polticas de Sade Pblica, em 1925, mais24 Os filtros percoladores constituem um processo de tratamento de esgotos simples de construir e operar. So reatores aerbicos preenchidos com material de alta permeabilidade. Esse material constitui um meio suporte sobre o qual se desenvolve uma pelcula de microrganismos, o chamado biofilme, responsvel pela depurao dos esgotos. (BIANCHETTI, 2002) 25 Os tanques Imhoff so os assim denominados em honra a Karl Imhoff (1876-1965), engenheiro alemo especializado em guas, que concebeu um tipo de tanque possuem acom dupla funo derecepo e processamento - para aguas residuais. Podem se ver tanques Imhoff em muitas formas, retangulares e at circulares, mas sempre dispem de uma cmara ou cmaras superiores pelas quais passam as guas negras durante o perodo de sedimentao, alm de outra cmara inferior, na qual a matria recebida por gravidade permanece em condies tranqilas para sua digesto anaerbica. Fonte: Tanques Imhoff Wikipedia. Disponvel em: . Acesso em: 15 set. 2008.

Ilustrao 4, 5 e 6 A seqncia de imagens mostra um poo (abaixo) contaminado pelo esgoto, na cidade de So Paulo. As imagens datam de 1925. Fonte: Arquivo Ada

Celina Paula Souza de Anhaia Mello.

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conhecidas como a Reforma Paula Souza (RIBEIRO, 1993), novamente discutiram-se alternativas para o reforo do abastecimento da cidade de So Paulo. Esta, outra vez, estava em situao de emergncia devido impossibilidade do volume de gua acompanhar o rpido processo de crescimento e urbanizao da cidade. Para a resoluo do problema, resgatou-se uma antiga proposta apresentada ao governo em 1906, que consistia na aduo de guas distantes da capital. Estes estudos, realizados pelo engenheiro Euclides da Cunha (1866-1909), que mais tarde notabilizou-se como escritor, propunham o uso das cabeceiras do Rio Tiet, na bacia do Rio Claro26, com a possibilidade de aduo de 60 milhes de litros em 24 horas. Na iminncia de outra crise, em 1924 a Secretaria da Agricultura retomou o projeto de Cunha e criou, em 1926, a Comisso de Obras Novas da Capital, cujo objetivo era realizar os estudos e organizar os planos necessrios para a execuo do novo sistema de abastecimento para So Paulo. Para chefiar a comisso foi nomeado o engenheiro Henrique de Novaes (1884-1950), o mesmo que em 1912 havia defendido publicamente o uso daquelas guas para o abastecimento paulistano (BERNARDINI, 2007, p. 372-374). Antes da crise de 1924, a questo das guas e esgotos da capital paulista foi destacada no primeiro relatrio oficial do diretor do Servio Sanitrio, em 1922. Neste relatrio, o diretor pergunta por que um servio de ordem direta de Sade Pblica a gesto de guas e esgotos executada pela RAE no estava subordinado nem ao Servio Sanitrio nem Secretaria do Interior, repartio responsvel pelos servios relativos sade. Para ele, a RAE, subordinada Secretaria da Agricultura, conduzia mal seus servios, desconsiderando os reclamos da Sade Pblica, orientao equivocada que inevitavelmente abatia-se sobre a capital. Segundo Geraldo Horcio, H descaso de comezinhas noes de higiene, como se observa no inqualificvel lanamento de esgotos em plenas vrzeas, como por exemplo, na Barra Funda, que, sujeita a inundaes, constitui ameaa gravssima para a vizinhana, cujas habitaes so, em poca de enchente, invadidas pelas guas que carreiam todas as imundices da rede de esgotos. Essa imperfeio inescusvel do servio e a falta de retificao do rio Tiet ainda respondem pela praga dos mosquitos nesta capital. (PAULA SOUZA, 1936, p. 123) Para este mdico, era necessrio promover a imediata incluso da RAE na Secretaria do Interior ou subordinar seus laboratrios ao sistema de laboratrios existentes no Servio Sanitrio. Na impossibilidade de concretizao dessa transferncia, salienta o sanitarista que os trabalhos de engenharia e construo a cargo da RAE deveriam estar submetidos orientao cientfica da Secretaria do Interior, por serem os servios de guas e esgotos assunto de pura ordem sanitria. E ainda completa: Os26 As bacias do Rio Claro situam-se na origem extrema do Rio Tiet, na Serra do Mar, lado oposto de Juquiriquer, a 70 kilmetros da cidade de So Paulo (BERNARDINI, 2007, p. 372).

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servios de engenharia naquela repartio, lhe no caracterizam o fim, mas constituem apenas meio para o objetivo essencial que, reduzindo-se ao fornecimento de gua higinica e construo de rede de esgotos salubre, assunto inquestionvel de higiene e no de pura engenharia (PAULA SOUZA, 1936, p. 124). Poucos anos depois, o diretor do Servio Sanitrio novamente manifestaria sua opinio sobre o problema do abastecimento da capital, cujas deficincias eram sentidas diretamente no estado sanitrio paulistano. Alm da precariedade que envolvia os sistemas de guas e esgotos (pela pouca quantidade e pela baixa extenso das redes), o mau funcionamento desta rede de infraestrutura levava a populao da cidade a recorrer ao uso de poos e de fossas, geralmente fora dos padres higinicos, que acabavam por expor seus usurios ao perigo das doenas do aparelho gastrointestinal, como a febre tifide. Para combater esta molstia, considerada endmica, o Servio Sanitrio implantou um sistema de vigilncia e controle dos focos, entretanto, salienta Geraldo Horcio, o problema somente seria extinto quando a deficincia do abastecimento de gua e a insuficincia dos esgotos fossem superadas27. Enquanto tais melhoramentos no fossem construdos, de fato, o Servio Sanitrio acompanhava o agravamento da situao nas pocas de estiagem quando as guas in natura eram distribudas para as partes baixas da cidade. Como a resposta do governo crise persistia na busca de guas em cota superior, no caso do Rio Claro, Geraldo Horcio enfatizou que o problema s seria superado, caso um conjunto de obras complementares aduo, fosse construdo. No caso, as obras seriam reservatrios capazes de uniformizar a corrente, compensando a reduo do volume de gua durante as estaes secas. Em outras palavras, alertava para o que no havia sido realizado na empreitada anterior junto s guas do Ribeiro Cotia. No seu entendimento, o acelerado ritmo de desenvolvimento em que se encontrava a cidade e que no poderia de forma alguma ser contido logo as guas do Rio Claro seriam insuficientes ao abastecimento de So Paulo. Por esta razo, Geraldo Horcio recomendava como soluo imediata o uso das guas purificadas do Tiet e do Pinheiros para abastecer a parte baixa da cidade nos tempos secos. Sem qualquer meno proposta de 1913, o mdico ressaltava o baixo custo das obras de elevao e purificao, permitindo acudir de imediato o problema, liberando assim a RAE para se ocupar de tarefas como a aduo de guas longnquas, a extenso da rede27 Estas medidas foram apontadas tambm por alguns secretrios da pasta do Interior, anteriormente s observaes de Geraldo Horcio (BERNARDINI, 2007, p. 244).

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de esgotos e, no menos importante, comear a pensar na indispensvel medida sanitria de tratamento dos resduos antes de lan-los novamente no Tiet, uma vez que aquele mesmo rio serviria ao abastecimento de outras localidades (PAULA SOUZA, 1936, p. 113). Sua soluo emergencial para a crise, assim como no trabalho de 1913, tomava como exemplo cidades populosas da Europa e Estados Unidos que se serviam do mesmo sistema, alm das opinies emitidas por autoridades sanitrias que anos antes haviam apontado o uso das guas purificadas do Tiet: Rebouas, Brito, Ataliba Valle e Fonseca Rodrigues. Para complementar sua proposta, Geraldo Horcio enfatizava o emprego do cloro uma sugesto sua que, acatada pelo Secretrio da Agricultura, comeava a ser aplicada em So Paulo , que traria a garantia higinica e guas lmpidas e puras (PAULA SOUZA, 1936, p. 114). Como da outra vez, sua manifestao foi ouvida, mas recusada, preferindo o governo investir na Comisso de Obras Novas junto ao Rio Claro. Em meio s instabilidades polticas e econmicas do perodo, as obras foram interrompidas em 1930, e para salvar a cidade de So Paulo da falta de gua, o governo tomou como medida o uso emergencial das guas poludas da represa de Guarapiranga. Contudo, antes de serem distribudas, estas seriam tratadas pela primeira Estao de Tratamento construda em So Paulo, no Alto da Boa Vista (BERNARDINI, 2007, p. 383).

Consideraes finais A questo envolvendo a captao de novas guas para reforar o abastecimento da cidade de So Paulo sem dvida motivou um acalorado debate, que se prolongou por anos dentro da sociedade paulistana. Engenheiros realizavam estudos e propunham projetos. Tais projetos eram amplamente discutidos neste meio tcnico e tambm pelos mdicos. Afinal, gua tambm era um problema de sade e, para a distribuio pblica, sua qualidade e pureza deveriam ser comprovadas. Os mdicos discutiam com os engenheiros, discutiam entre si, apoiavam determinados projetos, mas foram poucos os que se aventuraram a formular projetos e propostas interdisciplinares e aplicadas, voltadas soluo do problema do abastecimento da cidade. No plano da formulao de projetos, dominado pelos engenheiros, trs pesquisadores um veterinrio, um mdicofarmacutico e um engenheiro , respaldados pela Escola Politcnica de So Paulo, decidiram entrar no debate com a apresentao de uma proposta polmica de elevao das guas poludas do Rio Tiet. Depois da sada de seus colaboradores, Geraldo Horcio de Paula Souza permaneceu na arena defendendo no apenas o uso destas guas, mas tambm que o processo de purificao e tratamento fosse extensivo s outras formas de captao, pois acreditava que, com o avano da urbanizao, o risco de contaminao das guas tornava-se cada vez maior. Sua proposta de captao das guas do231

Tiet e do Pinheiros, tal como havia idealizado, no se concretizou. Porm, algumas de suas linhas permaneceram e convenceram as autoridades pblicas da urgncia do tratamento prvio das guas, que acabou se concretizando por meio do processo de clorao da gua. Depois do memorial de 1925 e de sua sada da direo do Servio Sanitrio, Geraldo Horcio envolveu-se com outros temas relativos Sade Pblica, em nvel internacional, como tcnico em Higiene da Liga das Naes (1927-1929). No entanto, seu trabalho de pesquisa nos laboratrios do Instituto de Higiene continuou, como alguns registros fotogrficos evidenciam, e os estudos com a gua prosseguiram. Adinha que o diga.

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A sade pblica nas cidades de Rio Claro, So Carlos e Araraquara, em fins do sculo XIX Maria Alice Rosa Ribeiro1 Marili Peres Junqueira2

IntroduoEste artigo tem por tema a sade pblica, as concepes e as prticas adotadas nos fins do sculo XIX na regio que fazia parte do chamado Oeste Paulista, por onde a cultura cafeeira traou seu roteiro de expanso, abrangendo os municpios de Rio Claro, So Carlos e Araraquara. Nas trs ltimas dcadas do sculo XIX, o caf consolidou-se nessa regio, denominada de boca do serto: a estrada de ferro e a imigrao em massa de trabalhadores europeus tornaram possvel a implantao das lavouras cafeeiras em terras mais distantes do Porto de Santos. O crescimento da populao da regio acompanhou a expanso da agricultura e o processo de urbanizao, trazendo, tambm, problemas de sade pblica, doenas, epidemias, discusses sobre o saneamento, necessidade de instalao da rede de gua, drenagem dos crregos e das guas das chuvas, construo da rede de esgoto e novas normas e padres nas edificaes. As dcadas finais do sculo XIX foram marcadas pela ecloso, no interior paulista, da epidemia de febre amarela, que estivera restrita ao litoral, mais especificamente cidade de Santos. A partir de 1889, a febre passou a percorrer, ano aps ano, as cidades do Oeste Paulista, de onde derivou seu nome de Febres do Oeste Paulista. Os veres calorentos, a umidade do ar, o aumento da populao e a deteriorao das condies de vida propiciaram o desenvolvimento das epidemias e de outros males, como a varola, a malria, a influenza, a tuberculose, o tracoma, entre outras.1 Pesquisadora Colaboradora do Centro de Memria Unicamp, CMU, e Professora (aposentada) do Curso de Economia da Faculdade de Cincias e Letras da Universidade Estadual Paulista, UNESP. Doutora em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP. Livredocente em Formao Econmica do Brasil, UNESP. Professora Adjunta do Departamento de Cincias Sociais, Faculdade de Artes, Filosofia e Cincias Sociais da Universidade Federal de Uberlndia- UFU. Doutora em Sociologia pela UNESP- Campus de Araraquara-SP.

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Procura-se, neste artigo, destacar os elementos gerais e especficos e as semelhanas e diferenas entre as reaes que afloraram naquelas cidades durante os surtos epidmicos de febre amarela. A escolha destas epidemias deve-se intensidade e freqncia com que ocorreram e aos impactos que trouxeram sobre o processo de urbanizao. Reconstituiu-se a histria das epidemias com base nas fontes de documentos, relatrios de inspetores sanitrios, cdigos de posturas municipais, jornais, almanaques e impresses de viajantes.

Nos tempos de epidemias de febre amarelaCom a chegada da ferrovia s cidades de Rio Claro, em 1876, So Carlos, em 1884, e Araraquara, em 1885, e com a poltica de imigrao subsidiada pela provncia/estado de So Paulo em 1884, a produo cafeeira ganhou flego para continuar sua expanso a terras mais longnquas do Porto de Santos e o fluxo de imigrantes tornou-se constante para estas regies, garantindo mo-de-obra em abundncia nas lavouras. Chegados a Santos, passavam pela Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brs, na capital paulista, e depois seguiam para o interior, para os trabalhos nas fazendas. Coincidindo com o maior fluxo de imigrantes, as epidemias de febre amarela tornaram-se mais freqentes e intensas. O calor, a umidade do ar, as chuvas constantes, o aumento da populao e a deteriorao das condies de vida pareciam formar o caldo de cultura para o desenvolvimento das epidemias. Os imigrantes menos aclimatados eram as principais vtimas das doenas. Em 1889, a febre amarela venceu a barreira da Serra do Mar e chegou a Campinas. Desde ento, ano aps ano ela eclodia em uma nova cidade do Oeste Paulista: Limeira, Rio Claro, So Carlos, Araraquara, So Simo, Ribeiro Preto. Apesar das medidas sanitrias adotadas pela Cia. Paulista de Estrada de Ferro e pela Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, sob orientao da Diretoria do Servio Sanitrio do Estado de So Paulo como desinfeco das bagagens dos imigrantes na estao; uso de vages especiais para as pessoas que embarcassem nas cidades atingidas pela epidemia; transmisso telegrfica dos nomes dos indivduos suspeitos , a febre amarela penetrou na rota dos imigrantes para o caf. Os grandes surtos epidmicos ocorridos em Santos em 1892, 1895, 1896 e 1897 eram o prenncio de que, naqueles anos, surtos da febre amarela replicar-se-iam nas cidades receptoras dos trabalhadores imigrantes. As conseqncias das epidemias sobre as cidades cafeeiras do Oeste Paulista foram imensas. Pode-se dizer que foram as responsveis pelo movimento de reforma do espao urbano, com o estabelecimento das primeiras iniciativas no campo da organizao sanitria urbana: construo de rede de gua e de esgoto, instalao do servio de recolhimento regular do lixo, arruamento, canalizao e drenagem de crregos, mudanas dos236

cemitrios para locais mais distantes das zonas residenciais e comerciais das cidades, bem como a normalizao das construes de casas e outros edifcios imposio de janelas em todos os cmodos, inclusive na cozinha, altura mnima entre o cho e o teto, obrigatoriedade de poro em determinados terrenos midos e eliminao das alcovas. A ao das autoridades estaduais nos surtos epidmicos era uma imposio legal nos casos que ocorressem. O Servio Sanitrio do estado deslocaria inspetores sanitrios e desinfetadores para combaterem a epidemia, e as autoridades municipais ficariam obrigadas a colaborar com a autoridade estadual. A perda da autonomia das autoridades municipais era uma das principais fontes de conflitos que afloraram nos tempos das epidemias. A insubordinao da autoridade municipal s determinaes da Diretoria do Servio Sanitrio estimulava e potencializava novos focos de conflito entre os mdicos locais, os habitantes e os inspetores sanitrios em comisso na localidade. O que se passou naqueles anos o eixo da exposio que segue, buscando mapear as diferentes prticas, concepes e interpretaes das causas do mal, at ento desconhecidas.

Rio Claro e os conflitos com a Comisso SanitriaEm So Joo Batista do Ribeiro Claro, como era denominada a cidade de Rio Claro, a epidemia de maior proporo ocorreu em 1892, quando o nmero de bitos foi de 331 pessoas (SANTOS, 2000, p. 126). O desconhecimento da causa da febre amarela fez com que as prticas das autoridades sanitrias municipais e estaduais no fossem voltadas para um alvo especfico, mas para vrios, e ao mesmo tempo saneamento bsico, fiscalizao dos hbitos privados da populao, higiene da habitao, isolamento e desinfeces faziam parte das prticas sanitrias da poca. Assim, as autoridades sanitrias atuavam em todas as frentes possveis para debelar a doena. Um exemplo bastante estranho o da proibio do consumo de frutas verdes e, em especial, das mais lquidas. A Cmara de Rio Claro aprovou em 1894 a proibio de venda de melancias e quaisquer frutas que pudessem prejudicar a sade pblica. Em que o consumo de melancia poderia prejudicar a sade coletiva? No se sabe, mas, diante de uma situao de desconhecimento das causas da febre amarela, qualquer coisa poderia ser associada ao seu surgimento. O Cdigo de Postura Municipal reservava uma parte a questes de sade pblica. Alm da obrigatoriedade da vacinao contra varola, o de Rio Claro, de 1893, apresentava 58 itens referentes ao asseio, higiene e sade pblica, bem mais abrangente do que os 20 artigos dedicados sade pblica constantes do Cdigo de 1884, antes da chegada da epidemia cidade.237

No referido cdigo, a influncia dos surtos epidmicos j se manifestava com a determinao de que todos os moradores da cidade fossem obrigados a franquear ao fiscal e Comisso Sanitria a entrada em seus quintais, para verificao da presena de guas estagnadas ou outra coisa nociva sade pblica, como chiqueiros e formigueiros. O cidado que no franqueasse a entrada do fiscal era multado (SANTOS, 2000, p. 128). Uma das razes para que os agentes das Comisses Sanitrias fiscalizassem as moradias era o elevado nmero de no-notificao de casos de febre amarela, ato obrigatrio por lei. Os moradores no somente no comunicavam os casos como tambm escondiam seus parentes doentes para que no fossem removidos para o isolamento tal prtica era geral nas cidades com epidemias. Para os moradores, levar as pessoas doentes para o isolamento no hospital ou lazareto era a certeza da morte. Tal noo decorria provavelmente do fato de que somente os pacientes em estado grave ou terminal eram deslocados para o isolamento, pois, primeiramente, as pessoas eram tratadas em suas casas. Em Rio Claro, o isolamento dos indivduos com febre amarela era feito, como em quase todas as cidades atingidas pela epidemia, no antigo hospital para variolosos, no lazareto, que foi reformado pela Cmara. Desta prtica denota-se a concepo sobre a forma de transmisso da doena por meio do contgio, portanto, o isolamento era a medida necessria para evitar sua propagao. O terror da epidemia e o temor do isolamento tornaram a fuga para chcaras e stios na zona rural uma constante no comportamento dos habitantes da cidade. Duas autoridades atuavam nas pocas dos surtos epidmicos: a municipal, por meio da Cmara e da Intendncia, e a estadual, representada pela Diretoria do Servio Sanitrio, que enviava para as localidades atingidas uma Comisso Sanitria, composta por um ou mais Inspetores Sanitrios, profissionais mdicos alocados no Servio Sanitrio do estado, e um grupo de desinfetadores, ligados tambm ao Servio Sanitrio, alocado junto ao Desinfectrio Central da capital. Os conflitos entre as autoridades municipais e estaduais e entre estas e a populao marcaram os perodos da epidemia. No relatrio apresentado pelo dr. Evaristo da Veiga ao Diretor Geral do Servio Sanitrio sobre os meios de defesa contra a febre amarela, em 1895, ele descreve as viagens a vrias cidades do Oeste Paulista e os encontros que promoveu com as Cmaras Municipais. Nessas oportunidades, aconselhava a adoo de medidas urgentes e de carter mais severo do que as constantes nos Cdigos de Posturas. O prprio inspetor elaborou um projeto de lei para que as cmaras o aprovassem, o que ocorreu integralmente pela Cmara de Rio Claro e de outras cidades. No projeto, o inspetor propunha a criao da Inspetoria de Higiene Municipal, sob responsabilidade de um profissional mdico, auxiliado por fiscais em nmero tanto quanto necessrio, em funo do tamanho da populao da localidade. Previa a fiscalizao domiciliar; a notificao obrigatria dos casos de febre amarela e de outras doenas transmissveis; o isolamento238

dos doentes; as multas por ocultamento de doentes; a desinfeco regular das casas; e a vacinao obrigatria contra a varola (SO PAULO, 1895). Entretanto, o relacionamento amistoso entre o inspetor, dr. Evaristo da Veiga, e as autoridades municipais durou pouco tempo. Foi interrompido quando o inspetor denunciou o no-cumprimento das medidas aprovadas pela Cmara e acusou as autoridades municipais de desleixo na fiscalizao. Segundo Veiga, a causa do agravamento do quadro epidmico em Rio Claro se deveu falta de fiscalizao e ao no cumprimento de medidas de isolamento. O Inspetor denunciou tambm os clnicos locais por no cumprirem a notificao dos casos e pelo ocultamento de doentes, para evitar a remoo para o Lazareto, hospital destinado ao isolamento dos doentes. Um novo foco de atrito surgiu com os cocheiros, que, insatisfeitos com a remunerao recebida pelo transporte de doentes para o isolamento e de cadveres para o cemitrio, negavam-se a manter o servio. Este pagamento era de responsabilidade do governo do estado, j que a Intendncia de Rio Claro no dispunha de recursos para cobrir tais despesas3. Sem condies de se manter frente da Comisso Sanitria, o dr. Evaristo da Veiga pediu sua substituio. No entanto, os desentendimentos no cessaram mesmo com o novo inspetor, dr. Jos Redondo. O jornal da cidade, O Rio Claro, fazia ferrenha campanha contra a ao do Servio Sanitrio do estado. Condenava as remoes para o Lazareto, denunciava as desinfeces e a invaso das habitaes procura de doentes. O jornal instigava a opinio pblica contra as prticas do Servio Sanitrio. O ocultamento de doentes por parte dos clnicos persistia. Para descobrir os esconderijos de doentes, o inspetor sanitrio em comisso colocou um secreta para seguir os clnicos. O secreta contratado, um cabo do Destacamento Policial de Rio Claro, acabou adquirindo febre amarela e falecendo. Assim, o inspetor voltou a insistir com a Cmara para que esta assumisse a fiscalizao e contratasse fiscais para percorrer as casas, em busca dos doentes. Em 1890, a populao do municpio era de 24.584 habitantes, representando um aumento de 22% em relao a 1886; j em 1900, atingia a cifra de 38.426, ou seja, um crescimento de mais de 50% em relao a 1890. Assim, a dcada de 1890 registrou expressivo crescimento da populao do municpio, fruto, em grande parte, do fluxo migratrio. Os anos de 1893, 1894, 1895 e 1897 registram as maiores entradas de imigrantes: quase 2 mil por ano (DEAN, 1977, p. 155). Rio Claro era o ponto de chegada dos trilhos da Cia. Paulista de Estrada de Ferro, vindos das cidades de So Paulo, Campinas e Limeira. A Cia. Paulista construiu na cidade uma das suas mais importantes oficinas mecnicas de reparao, consertos e manuteno de vages e locomotivas.3 Relatrio apresentado ao Dr. Diretor Geral do Servio Sanitrio pelo Dr. Evaristo da Veiga, Inspetor Sanitrio em Comisso na cidade de Rio Claro, 1896, p. 280-284. In: Relatrio apresentado ao Sr. Dr. Presidente do Estado de So Paulo pelo Secretrio dos Negcios do Interior e Instruo Pblica. So Paulo, Typographia do Dirio Oficial, 1897.

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Com o crescimento e a diversificao das atividades urbanas, a cidade tornava-se um centro de atrao de imigrantes, que abandonavam os trabalhos agrcolas para se dedicarem aos ofcios urbanos, j que alguns desses j tinham profisses urbanas nos pases de origem. Em 1896, as oficinas mecnicas da Paulista contavam com 250 operrios. Alguns de seus mecnicos tinham que se deslocar para outras localidades, para atenderem a servios de reparao de locomotivas. Trabalhadores das oficinas e ferrovirios, operadores dos servios de trens maquinistas, foguistas, bilheteiros, etc. ficavam muito expostos s epidemias que grassavam em outras localidades e eram, normalmente, suas primeiras vtimas. Um novo conflito eclodiu, quando o Inspetor Sanitrio em Comisso, por temor da propagao da molstia, proibiu os ferrovirios, que viajavam para locais epidmicos, de transitarem pelo centro da cidade de Rio Claro. Os ferrovirios e os trabalhadores das oficinas deveriam permanecer nas cercanias da estao, segregados do resto da populao. Diante da proibio, os ferrovirios ameaaram entrar em greve, o que levou o Inspetor a relaxar a medida4. Enfim, as epidemias roubavam a tranqilidade da rotina das cidades do interior e os acontecimentos mudavam o dia-a-dia das pessoas. Revoltas da populao contra o Inspetor Sanitrio em Comisso, que exigia a aplicao do isolamento dos doentes, se sucederam naqueles anos. A mais grave ocorreu durante a epidemia de 1897, quando a populao se insurgiu contra o Inspetor e a polcia teve que intervir e solicitar reforo policial do governo do estado. Por volta de 1898, Rio Claro estava livre dos surtos epidmicos, as autoridades do municpio apontavam para a ocorrncia de um estado de sade geral relativamente bom, no houve registro de casos de febre amarela. Enquanto isso, em So Carlos, uma das mais intensas epidemias grassava na cidade.

So Carlos: a Quadrilha Mangano e as experincias do dr. SanarelliCom a desistncia da Cia. Paulista de construir a ligao entre Rio Claro e So Carlos, um grupo de cafeicultores da regio, liderados pelo Conde do Pinhal e por seu sogro, Visconde de Rio Claro, assumiu a concesso e fundou a Cia. Rio Claro de Estradas de Ferro, em 1881. Em 1884, seus trilhos chegavam a So Carlos do Pinhal e, no ano seguinte, a Araraquara. Em 1889, a Cia. Rio Claro foi adquirida por capitalistas ingleses, que fundaram a Rio Claro Railway Company (SANTOS, 2000,4 Relatrio apresentado Diretoria Geral do Servio Sanitrio do Estado. Acerca da epidemia de Rio Claro pelo Dr. Jos Redondo, Inspetor Sanitrio em Comisso, 1896, pp. 328-330. Relatrio apresentado pelo Secretrio dos Negcios do Interior e Instruo Pblica de 1896. So Paulo: Typographia do Dirio Oficial, 1897. Ver RIBEIRO (1993, p. 79-98).

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p. 93; GRANDI, 2007, p. 82). Nos anos 1890, a rede de estradas de ferro estava plenamente constituda, interligando uma vasta regio de cidades e de terras tomadas pela lavoura de caf, para onde se dirigiam os imigrantes. O ano de 1895 no foi nada bom com relao febre amarela; ocorreram muitos casos em Santos, Campinas e Araraquara. Percebe-se que em So Carlos a epidemia atingiu apenas a zona rural, preservando a cidade ou o ncleo urbano. Nesse ano, em So Carlos, 300 imigrantes italianos vindos de Santos chegaram para os trabalhos nas lavouras de caf, mas alguns j chegavam doentes. O sintoma do vmito preto, caracterstico da febre amarela, foi registrado, alm de outros que confirmaram a doena5. O grupo de italianos apenas pernoitou em Santos, onde a epidemia grassava, e viajou em vago especial at a estao da Fazenda Floresta, de propriedade do italiano Aurelio Civatti. Mas o pernoite em Santos j foi suficiente para adquirirem a doena. Dois dias depois, um imigrante morria, em seguida, mais dois, das cinco pessoas que adquiriram a doena. As desinfeces foram feitas nas casas das colnias da Fazenda Floresta, nos vages e na estao. O inspetor sanitrio, o mdico Balthazar Vieira de Mello, diagnosticou e notificou a doena. O relato dos casos observados pelo inspetor restringiuse zona rural, assim, a febre amarela chegava pela primeira vez a So Carlos6. Apesar de restrita a uma rea do municpio, no final de 1895 eram anunciadas pela Intendncia medidas de preveno contra doenas epidmicas e transmissveis, veiculadas em um dos jornais de So Carlos, o Ordem e Progresso. Tais medidas diziam respeito notificao dos casos, ao isolamento imediato dos doentes, salvo quando pudessem ser tratados em domiclio, e desinfeco das casas dos doentes. A relao entre a qualidade do ar e a causa da febre amarela era constante nos relatos dos inspetores e nas medidas adotados pela Diretoria do Servio Sanitrio e representava a concepo dominante nas cincias mdicas das causas das doenas, denominada, ento, de concepo miasmtica. Esta pressupunha que as doenas se propagavam pelo ar e no pela compreenso bacteriolgica da sade e da doena, como na medicina ps-pasteuriana. Em um artigo publicitrio do Colgio So Carlos, o diretor afirmava que o prdio se localizava numa parte alta da cidade, aonde o micrbio no chegara, e, apesar de no serem luxuosas as instalaes, estavam em boas condies higinicas (O SO CARLOS DO PINHAL, 1896b). Tal ressalva deveria provocar boa impresso nos futuros candidatos, tranqilidade nos pais e conseqente aumento no nmero de matrculas, que era o objetivo do artigo.5 6 A febre amarela caracteriza-se por um comeo brutal, com febre de 40 graus, dores violentas nas costas e na cabea e vmitos, podendo levar morte. Os vmitos so, s vezes, acompanhados de sangue, da a designao de vmito preto. Relatrio sobre os casos de febre amarela ocorridos na Fazenda Floresta, municpio de So Carlos do Pinhal, apresentado ao Sr. Dr. Joaquim Jos da Silva Pinto Jr., DD. Diretor Geral do Servio Sanitrio do Estado de So Paulo pelo Dr. Balthazar Vieira de Mello, Inspetor Sanitrio em Comisso, maroabril de 1895, pp. 99-100. Relatrio apresentado ao Sr. Dr. Presidente do Estado de S. Paulo em 30 de maro de 1896 pelo Secretrio dos Negcios do Interior e Instruo Pblica, Alfredo Pujol. So Paulo, Typographia do Dirio Oficial, 1896 (Anexos X e XI).

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Em 1896, o cenrio era bem diferente. A zona urbana antes preservada foi fortemente atingida, segundo o relatrio do dr. Vieira de Mello. Dividido em duas partes, o relatrio trata, na primeira, dos casos importados para a cidade e, na segunda, dos casos que se desenvolveram in situ, constituindo, de fato, a epidemia em si, que grassou por mais de trs meses, de 22 de janeiro at 30 de abril de 1896. Este o relatrio mais importante e minucioso sobre a febre amarela em So Carlos, pois traz precisamente os nomes dos indivduos acometidos pela doena, suas nacionalidades, a localizao geogrfica das casas com a ocorrncia de casos. Alm do relato dissertativo, o inspetor elaborou um mapa das casas afetadas em So Carlos, com o nmero de pessoas vitimadas, por domiclio7. A regio mais afetada pela epidemia de febre amarela coincide com a regio de maior concentrao de residncias de imigrantes, principalmente de italianos, reafirmando, assim, a relao entre imigrao e epidemias. A relao entre o poder pblico municipal e a Diretoria Sanitria do estado era de enfrentamento, segundo relata o inspetor sanitrio em comisso, pois existia, por parte das autoridades municipais, a recusa em aceitar o diagnstico de epidemia. Um fragmento extrado do relatrio retrata a situao delicada na qual o inspetor se encontrava, no cumprimento de suas obrigaes, como funcionrio do Servio Sanitrio estadual: Essa medida [servio de higiene defensiva], dictada pelo senso pratico de quem se acostumou a ver no cumprimento de um dever a satisfao de uma conquista, longe de ser acceita pela municipalidade de So Carlos com a solicitude de que era credora, despertou naquella corporao animosidade contra o Governo e a Directoria Sanitaria, a tal ponto que o inspector sanitario foi recebido na Estao por um fiscal da Intendencia que lhe declarou serem ali desnessarios os seus servios, podendo regressar logo que lhe approuvesse8. A origem de todos os casos da epidemia de So Carlos, segundo o relatrio, foi a contaminao ocorrida em Araraquara, de um comerciante italiano, de nome Tosi9. O comerciante ia freqentemente buscar mercadorias, j que eram bem mais baratas em Araraquara, pois a cidade estava quase vazia por causa da febre amarela, ningum ia at l ou fazia compras nela, por medo da epidemia. Tosi era proprietrio de um restaurante no Largo da Estao, em So Carlos, e, por meio desse, contaminou outras pessoas que freqentavam o seu estabelecimento, de acordo com o relatrio.7 RELATORIO ao Director Geral do Servio Sanitrio sobre a epidemia da febre amarela na cidade de So Carlos do Pinhal, 1896b. In: RELATORIO apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Presidente do Estado de S. Paulo em 15 de maro de 1897 pelo Secretrio de Estado dos Negcios do Interior, Antonio Dino da Costa Bueno. So Paulo: Typographia do Diario Official, 1897. Ibidem p. 293 Segundo a relao de bitos do cemitrio Nossa Senhora do Carmo de So Carlos, ocorreu um sepultamento em 22 de janeiro de 1896 de um Luiz Tosi, italiano, 21 anos, comerciante, por febre amarela. Contudo, esse no foi o primeiro sepultamento por febre amarela naquele ano, ocorreram outros. No se tem idia de por que Tosi foi considerado o nmero um pelo Relatrio (1896b).

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Dois mdicos locais, o Dr. Gasto de S e o Dr. Nery Gonalves, auxiliaram nos trabalhos de desinfeco, promovidos para que a epidemia no se alastrasse, envolvendo: limpeza dos dejetos e das peas de roupa que os doentes usavam; interdio dos seus quartos e, s vezes, do estabelecimento por inteiro, como, por exemplo, do Hotel Ramalho10, e reformas internas; limpeza com sulfato de cobre; retirada do papel de parede; caiao das paredes e pinturas de tetos e portas11.

Fonte: O SO CARLOS DO PINHAL (1896c).

A notificao dos prdios inspecionados e as modificaes propostas para aqueles que no passaram na vistoria eram publicadas pelos jornais. Muitas notcias a este respeito e a informao sobre as multas aplicadas eram veiculadas nos jornais para o amplo conhecimento da populao, no apenas para aqueles que estavam sendo fiscalizados e autuados. Outra medida que se fez presente nos tempos de epidemia foi a proibio de lavagem de roupas nos quintais das casas, visto que isso poderia trazer prejuzo sade pblica, segundo o prprio articulista.

10 Esse hotel foi impedido de receber hspedes, pois um caso de febre amarela fora ali mesmo tratado. A permisso para isso foi dada, com a ressalva de no haver mais circulao de pessoas no local. Contudo, o movimento continuou normalmente, sem mesmo se alertar para o risco de contaminao e, por isso, o hotel foi fechado at o pleno restabelecimento do enfermo, a desinfeco e a reforma do prdio. Nesse hotel se hospedara o articulista do Correio Paulistano em dezembro de 1890, quando fez uma reportagem apologtica da cidade de So Carlos. 11 A descrio da atuao dos mdicos e da Comisso Sanitria em So Carlos repete as aes descritas por outros estudiosos do tema; ver: BERTOLLI FILHO (1996, p. 14); IYDA (1994, p. 39).

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Fonte: O SO CARLOS DO PINHAL (1897).

As medidas preventivas diziam respeito, principalmente, gua, moradia e aos objetos utilizados pelos doentes, pois se acreditava serem estes os locais de contaminao e de repouso do Germen amarelligeno12. No relatrio, o inspetor sanitrio, como se pode constatar no trecho que segue, alertava para o fato de que a gua era um dos meios importantes de propagao da epidemia, mas no era o nico, pois o contgio se efetuava tambm pelo ar: No se pde contestar o valor da agua na propagao da epidemia. Mas dahi a asseverar-se que a febre amarella s possue aquelle meio de vehiculao, sacrificar o bom senso em proveito exclusivo do amor proprio. [...] o facto que se impe pela observao que a febre amarella contagiosa, e que o contagio se effectua pelo ar, quer o germen se ache nas paredes do predio, ou no slo em que este assenta. (RELATRIO, 1896b, p. 309) s irregularidades das paredes, falta de piso ou a outros defeitos na construo das casas eram atribudas as falhas na desinfeco e na higiene. Mas esse no foi nem de longe o nico problema enfrentado pelo trabalho da Comisso Sanitria. Sucederam-se enfrentamentos entre o inspetor12 Sobre a relao entre a transmisso hdrica ou mista (ar e gua), ver: TELAROLLI JNIOR (1996, p. 101-107). Cabe lembrar que o mosquito vetor ainda no tinha sido descoberto e aceito pela cincia, bem como as verdadeiras causas da febre amarela.

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sanitrio, dr. Vieira de Mello, cuja hostil recepo j foi mencionada, e os clnicos locais e com a intendncia municipal. Repete-se a reao que se observou em Rio Claro, os mdicos de So Carlos emitiam notificaes falsas e atestados de bitos com causa adulterada. Em Campinas, esse fato tambm ocorria, com o objetivo de no alarmar a populao, o que acabava por levar ao descrdito dos mdicos e do prprio poder pblico. A populao sabia de fato o que estava ocorrendo na cidade. Em Ja (1897), o dr. Amorim liderou um motim contra a comisso sanitria chefiada por Emlio Ribas, pois este se recusava a notificar os casos de febre amarela e passou a ser alvo das multas expedidas pela comisso (LAPA, 1996, p. 269; TELAROLLI JNIOR, 1996, p. 161-162). Depois de denunciar os clnicos locais por falsificao, o inspetor sanitrio em comisso em So Carlos esperou ainda mais dois dias para que a Intendncia Municipal se pronunciasse sobre o caso. Ao final, o inspetor declarou em seu relatrio ao Diretor do Servio Sanitrio: Como, porm, o sr. Intendente nada deliberou a respeito, incompatibilisando-me deste modo, com a corporao de que fazia parte, deliberei solicitar a minha substituio, no officio que se segue, dirigido ao Dr. Director Geral do Servio Sanitario (RELATRIO, 1897, p. 306). Ao final do relatrio, o ofcio foi reproduzido, contendo os motivos do pedido de afastamento do mdico dr. Vieira de Mello: Conforme tivestes opportunidade de observar, procurei realizar ali o servio mais completo que me permittiram as condies locaes, e para cujo desempenho no trepidei arrastar com toda a odiosidade da parte da populao attingida pelas medidas sanitarias tendentes a sustarem a marcha da epidemia, conseguindo circunscrevel-a numa zona que representa a quinta parte da area total da cidade (RELATRIO, 1896b, p. 307). Desse trecho cabe ressaltar a reao das pessoas, descrita pelo Inspetor. A populao da cidade odiava a presena do Servio Sanitrio e era contra suas medidas. Uma das piores era a retirada dos parentes enfermos das prprias casas e isol-los. Tal procedimento era muito doloroso para as pessoas que gostariam de estar cuidando de perto dos doentes amados. Alm, claro, da interdio das casas em que ocorreram casos de febre amarela. As casas eram fechadas e as chaves, entregues Intendncia, sendo somente devolvidas aps a reforma e a desinfeco. Isso no muito agradvel, obviamente, e gera desentendimento e revolta. A organizao dentro da cidade foi muitas vezes invasiva para a populao: uma interveno muito aguda no espao e na vida das pessoas em nome da sade pblica (BERTUCCI, 1997, p. 40). Outra atitude que desagradou ao inspetor foi a restituio aleatria das chaves, sem que a necessria desinfeco, higiene e reforma tivessem sido realizadas nas casas.245

A Intendencia, porm, assim no comprehendeu, e foi restituindo as chaves que lhe eram solicitadas, sem sequer occupar-se das reformas cogitadas no interdicto, annullando destarte os meus intuitos. [...] Essa atitude, somada falta de aplicao de multas, pois o Coletor de Impostos estava ausente, como observa o inspetor: O collector, porm, como todos os demais funccionarios publicos, achava-se ausente, e a multa ficou lettra morta.. (RELATRIO, 1896b, p. 307)[pendente na lista] idem Prossegue o inspetor em seu ofcio de demisso: Em vista do exposto considerei-me exautorado, e sem autonomia para proseguir na tarefa que at ento havia desempenhado com a maxima solicitude, mau grado os obices apontados, deliberando pedir-vos a minha substituio, per incompatibilidade com a Intendencia Municipal (RELATRIO, 1896b, p. 308). [pendente na lista] idem Um problema que se juntou ao esvaziamento da cidade de So Carlos durante a epidemia de 1896 foram os roubos e os saques13. Naquele municpio, tais eventos adquiriram dimenso maior do que ocorria em outras cidades. Foi formada uma quadrilha, a Quadrilha Mangano, que recebeu essa denominao por causa de seu lder, Francesco Mangano. Sua atuao deixava os habitantes de sobreaviso, pois a quadrilha cometia uma infinidade de delitos, desde simples furtos at assassinatos, incndios, ameaas e terrorismo de vrios tipos, durante os anos da epidemia de febre amarela, 1896 e 1898. Em 1898, o delegado Gaspar Berrance capturou a quadrilha, com o auxlio de membros do bando. No momento de sua priso, a quadrilha era composta basicamente por imigrantes italianos, 22 homens, e apenas uma portuguesa, esposa de um dos componentes. Com as denncias posteriores, foram indiciadas cerca de quarenta pessoas no processo (RIZZOLI, 1995; JUNQUEIRA, 1998, p. 91-112; MONSMA; TRUZZI; CONCEICAO, 2003). O Almanaque de 1928 relata o aparecimento da clebre Quadrilha Mangano da seguinte forma: Em 1896, por ocasio da segunda epidemia, comeou a operar aqui uma perigosa quadrilha de gatunos, chefiada pelo italiano Francisco Mangano, que, durante meses, trouxe em continuo sobressalto os pacatos habitantes da nossa cidade e municpio (CAMARGO, 1928, pgina). O delegado Gaspar Berrance foi aclamado pela cidade como um verdadeiro heri, pelo desmantelamento da quadrilha, recebendo vrias homenagens naquele perodo, inclusive a primeira pgina inteira no jornal, salientando sua bravura (A OPINIO, 1898a).13 Em Campinas, algumas casas foram assaltadas. Ver: SANTOS FILHO; NOVAES (1996, p. 176).

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Outro artigo muito interessante, que foi vinculado no jornal de So Carlos, relata outro tipo de conflito, advindo da epidemia de febre amarela: a conteno nada ortodoxa da epidemia de febre amarela pelo uso de porretes em portadores dos seus sintomas e anuncia tambm, com muita ironia, a passagem do dr. Sanarelli e a aplicao da sua vacina, pois ningum consegue encontrar os doentes, nem mesmo pegados lao, em So Carlos. Tm-se aqui a reiterao dos relatos anteriores da fuga e do esvaziamento da cidade ou as pessoas estariam com medo das experincias do dr. Sanarelli? O mesmo artigo traz a denncia muito grave da procura de portadores de febre amarela com porretes, na rea prxima estao frrea, zona de maior incidncia de doentes. Segundo o artigo, a Rua General Osrio, prxima Estao Ferroviria, estaria com grupos armados com porretes para, possivelmente, matar os doentes de febre amarela uma erradicao nada convencional da doena. Um italiano conhecido da cidade, Ferracci De Simoni, participava de tal ato. Era proprietrio do jornal local LOperario Italiano, foi fundador da loja manica Cristoforo Colombo, alm do suposto envolvimento com a Quadrilha Mangano. Essa ocorrncia foi praticamente um estado medieval, onde a melhor sada era exterminar aqueles que poderiam comprometer ou ameaar a vida da populao em geral. No ocorreram em So Carlos revoltas generalizadas contra a vacinao obrigatria da varola, como no Rio de Janeiro, mas houve esse incidente com porretes. A matana coletiva permanece no imaginrio local at hoje, apesar de no se terem outras fontes reafirmando tal fato.

Fonte: A OPINIO (1898b).

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O Relatrio (PESSOA, 1899), que se refere ao ano de 1898, no menciona a epidemia de febre amarela em So Carlos. O principal relato so as descobertas do Dr. Domingos Freire e do Dr. Giuseppe Sanarelli sobre a doena. No ltimo quartel do sculo XIX, o desenvolvimento dos conhecimentos sobre os micrbios alteraria profundamente a rea da sade14. O relatrio no menciona os testes feitos em So Carlos pelo dr. Sanarelli, apenas a rejeio da utilidade de seu soro e da especificidade do Bacillus icteroides como agente causador. Sanarelli era um bacteriologista italiano radicado em Montevidu, onde fundou e dirigia o Instituto de Higiene Experimental do Uruguai, e onde realizava tambm pesquisa sobre a febre amarela. Numa de suas visitas ao Rio de Janeiro, colheu material para suas investigaes e afirmava ter descoberto o bacilo causador da doena, que denominava bacilo icteride ou bacilo de Sanarelli. Em seguida ao anncio de sua descoberta, foi convidado pelo governo do estado de So Paulo, por meio da Diretoria do Servio Sanitrio, pela Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo e pela Revista Mdica de So Paulo a ir a So Carlos, onde grassava a epidemia, para testar seu serum contra a febre amarela, em fevereiro de 1898. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriolgico de So Paulo, em seu relatrio Diretoria14 Os trabalhos de Pasteur, Koch e seus seguidores sobre a atuao dos microorganismos na transmisso das doenas abririam caminho para o estudo da febre amarela como paradigma da microbiologia. (TEIXEIRA, 2001, p. 220).

Fonte: A OPINIO (1898c).

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do Servio Sanitrio, quem relata as experincias de Sanarelli em So Carlos. Lutz e seu assistente, dr. Arthur de Mendona, acompanharam Sanarelli a So Carlos e o auxiliaram nas experincias para isolar o bacilo icteride dos doentes (RIBEIRO, 1993, p. 37). Entre 14 e 19 de fevereiro de 1898 os pesquisadores conseguiram isolar o que supunham ser o agente infeccioso de alguns doentes, mas, quando aplicaram o soro elaborado por Sanarelli, as experincias foram um desastre. Lutz logo percebeu que o agente infeccioso, ou seja, a causa, no fora descoberta, o bacilo icteride nada tinha a ver com a febre amarela, no passava de um agente de alguma infeco oportunista (RIBEIRO, 1993, p. 41). Em seu relatrio, o inspetor sanitrio em comisso em So Carlos rejeitou a descoberta de Sanarelli, aproximando sua posio da defendida por Lutz, que considerava que ainda no havia sido solucionado o problema da causa da febre amarela nem tampouco sua cura, pois o soro no tivera resultados satisfatrios para comprovar sua eficincia. O inspetor, ao final de seu relatrio, afirmava: entre as duas illaes oppostas, s uma terceira verificao deveria illudir a duvida; na falta dessa, nenhuma affirmao positiva deveria, com fundamento, ser proferida (PESSOA, 1899, p. 256257).15 Os jornais de So Carlos no publicaram em quem foi inoculado o soro Sanarelli, mas o Correio Paulistano, de So Paulo, exps que a inoculao fora feita nos presos da cadeia local, pois pelo menos eles no fugiam16. Lutz, em seu relato, afirma que foram inoculados doentes que estavam no Hospital de Isolamento. O artigo do A Opinio de 17 de fevereiro de 1898 relata a chegada do dr. Sanarelli, motivada por um convite da classe de So Paulo. Registra a presena de um grande nmero de pessoas (mil pessoas) e de autoridades para recepcion-lo na estao do trem. Talvez esse nmero fosse menor ou somente retrico, visto a fuga em massa da cidade. Com certeza, as pessoas estavam procura de um verdadeiro milagre, isto , uma cura imediata e segura. No mesmo dia deu elle principio a suas experincias, fazendo diversas inoculaes (A OPINIO, 1898c). No dia 6 de julho de 1898, o Inspetor Sanitrio comunicou ao Intendente Municipal a extino da epidemia de febre amarela na cidade de So Carlos (A OPINIO, 1898a). Entretanto, o medo permaneceu, mesmo no ocorrendo mais epidemias na cidade. Um edital, publicado em 7 de setembro de 1899, relata a existncia de uma vigilncia severa na limpeza dos quintais, pois estavam em um perodo de intenso calor. Clama tambm populao que mantenha limpos os quintais e evite a estagnao de guas de sabo nos quintais, obviamente sob presso de multas.15 Sobre as pesquisas bacteriolgicas sobre febre amarela e a busca de da vacina realizadas por Domingos Freire, ver: BENCHIMOL (1999). 16 O Dr. Sanarelli aplicou injeces nos presos da cadeia local, at agora nenhum caso de febre. Esta noticia foi desmentida, pois no ocorrem casos como bitos. O serum foi um desastre, a carta noticiando o sucesso foi apcrifa. Correio Paulistano, 5 jun. 1898. Ver RIZZOLI, 1995.

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Araraquara, uma cidade fantasma sob a epidemiaEm 1890, o municpio de Araraquara possua 8.151 habitantes, distribudos nas duas parquias: So Bento de Araraquara e Boa Esperana. A cidade era bem menor que Rio Claro, sua populao era 3 vezes inferior. Uma parcela era composta por famlias recm-chegadas ao municpio, pessoas pouco aclimatadas, sendo 19% da populao formada por estrangeiros17. Nos anos seguintes, os imigrantes sero o principal fator impulsionador do crescimento da populao. Apesar de um afluxo populacional crescente, a cidade no contava com uma suficiente distribuio de gua, o que, para alguns contemporneos, contribuiu para o agravamento da epidemia de febre amarela (CORRA, 1967, p. 194). Em 1895, os primeiros casos suspeitos foram observados. Os clnicos locais relutavam em aceitar o diagnstico do terrvel mal, pois era a primeira vez que a febre amarela ocorria. Mas as evidncias se confirmaram com a morte do presidente da Cmara, major Ricardo de Matos, a do dono do caf da cidade e a do vigrio da parquia, padre Luciano Francisco Pacheco. Estes acontecimentos abalaram a convico dos que no aceitavam o diagnstico de febre amarela. A polmica entre mdicos e leigos estava resolvida: a epidemia chegara tambm a Araraquara. Segundo o relato de Pio Loureno Corra (1915, p. 39-40), contemporneo daqueles acontecimentos: Desencadeou-se, afinal, o alarma e o pnico, que as autoridades sanitrias e administrativas no puderam mais evitar. Cada qual deu-se maior pressa em sair da cidade. As fazendas, os pequenos ncleos em torno das estaes ferrovirias do municpio tudo se encheu de retirantes. Alguns destes levavam consigo o vrus ainda incubado, e concorreram para o alastramento do mal. Fecharam-se quase todas as casas comerciais, e um nico hotel, o Hotel Magalhes, permaneceu aberto. difcil imaginar que Araraquara permanecesse imune entrada da epidemia, dada a sua forma de transmisso via mosquito Aedes aegypti, mas que, at ento, se desconhecia. No ano de 1895 e nos prximos trs anos, a epidemia grassou de forma virulenta e de tal forma que a vida na cidade foi inteiramente afetada, pois a quase totalidade da populao urbana foi atacada, provocando uma desorganizao poltico-administrativa.17 Esta participao coincide com a do estado como um todo. O estado de So Paulo tinha, em 1890, 164.393 habitantes e, deste total, 31.273 eram estrangeiros, ou seja, 19%. Ver: BASSANEZI; FRANCISCO (2002).

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Uma comisso sanitria foi enviada da capital e iniciou seus trabalhos com as desinfeces das habitaes, a limpeza das ruas e a remoo dos doentes para o isolamento. A comisso, composta por inspetormdico, desinfetadores e fiscais, trouxe uma vasta proviso de desinfetantes e aparelhos para o combate aos miasmas deletrios (CORRA, 1915). As primeiras epidemias de Santos e de Campinas serviram para que a Diretoria do Servio Sanitrio estabelecesse uma srie de procedimentos a serem adotados pelos inspetores sanitrios: fiscalizao das habitaes em busca dos doentes ocultados por parentes, isolamentos dos doentes; desinfeces; caiao das casas; remoo do lixo, etc. Na maioria das cidades, o Hospital de Isolamento era um antigo lazareto, assim fora em Rio Claro, em So Carlos e tambm em Araraquara. Pio Corra relata que a Comisso mandou reabrir o Lazareto de Variolosos, que fora til nos anos de epidemia de varola, entre 1892 e 1893. Distante da cidade, nos campos suburbanos, os doentes foram compulsoriamente transportados para l. A ida para o isolamento Casa da Morte era a denominao popular do lazareto significava, na prtica, a decretao antecipada de sua morte. Uma morte solitria, passada longe da famlia e dos amigos.

Fonte: LOPES (1999).

Nos domiclios, o tratamento ministrado aos doentes por seus familiares tinha por base os conhecimentos de ervas e remdios caseiros, como ch de raiz de grama, doses de Vegetalina Imperial, usada pelos araraquarenses para mordedura de cobra; banhos de cosimento de tomateiros e o famoso Xarope Paliano, que prometia cura da doena. Esses procedimentos opunham-se aos preconizados pelos Mdicos e pela Comisso, que via no isolamento dos doentes a medida mais apropriada para debelar a epidemia.251

Alm do isolamento e por se desconhecer a forma de transmisso da doena, diferentes prticas eram prescritas, ora por se acreditar que a transmisso era por via hdrica, ora por contgio, ora por miasmas. Aqui tambm persiste a noo de que a doena era provocada por miasmas, pelos maus ares e maus cheiros, emanados e exalados das matrias em putrefao. Uma das primeiras medidas da Comisso Sanitria foi o plantio de eucaliptos nas ruas e nas praas da cidade para purificar os ares. Entretanto, em to pouco tempo os efeitos da purificao no se fizeram sentir e no afastaram os novos surtos epidmicos. Da concepo miasmtica decorriam tambm as desinfeces com as mais diversas substncias, como enxofre, soluo de sulfato de ferro e cido fnico ou creolina, para esgotos e latrinas; e mais sulfato ferroso, sulfato de cobre e gs sulfuroso, para limpar o ar das casas onde morreram doentes e das estaes ferrovirias. Como a epidemia no cedia, novas medidas passaram a ser adotadas pela Comisso Sanitria. Havia um consenso entre as autoridades sanitrias de que as precrias condies de habitao propiciavam o aparecimento da epidemia. Das 518 casas existentes em Araraquara, 43% estavam em ms condies. As habitaes passaram a ser o alvo da comisso, que exigia a limpeza e a caiao. Toneladas de cal vieram das caieiras de Rio Claro para serem espalhadas com ps e enxadas nas ruas, nos quintais, nas fossas e nas latrinas. Em meados do ano a epidemia cedeu; o conjunto de medidas era to variado que no se poderia apontar uma como a responsvel pelo arrefecimento. A trgua foi interrompida em outubro de 1896, com a morte do padre Hiplito Evangelista Braga, que havia substitudo o antigo proco, vitimado no ano anterior pela febre amarela. A o pnico e a fuga tomaram conta da cidade. A reao da populao foi fugir para o campo. No se aguardou a Comisso Sanitria vinda da capital: a desorganizao administrativa e o abandono da cidade foram logo sentidos. A Cmara Municipal e o Foro fugiram espavoridos, primeiro para a fazenda do Ouro, mais tarde para a estao de Amrico Brasiliense. Afastadas da cidade a sede da Comarca e do Municpio aqui ficaram, como representantes gerais do poder pblico, a Comisso Sanitria, o comandante do destacamento policial e um fiscal municipal. (CORRA, 1915, p. 40) O cemitrio foi fechado por ordem da Comisso Sanitria, para evitar os miasmas exalados dos sepulcros contaminados, que traziam o vrus da doena. A prova dos males trazidos pelo cemitrio estava estampada nas vtimas os dois padres e vrios coveiros , as pessoas que assistiam os enfermos e os enterramentos. O antigo Cemitrio So Bento foi lacrado e o Cemitrio das Cruzes, para o sepultamento das pessoas mortas pela febre amarela, foi construdo s pressas. A desorganizao administrativa, pois o governo municipal passou a administrar de longe,252

juntou-se ao desabastecimento da cidade, pois no havia lenha, no havia mais alimentos, leite, legumes, carne, frangos, ovos. Os pequenos sitiantes e chacareiros no entravam na cidade pestilenta para trazer seus produtos. Durante a epidemia de 1896, os conflitos entre a comisso e a populao no foram to expostos, em parte porque restaram poucos habitantes na cidade, por outra parte, porque a comisso teve o apoio de um importante fazendeiro da regio, Antonio Loureno Corra, proprietrio da Fazenda Lajeado, que no somente apoiava as iniciativas dos inspetores sanitrios como tambm se responsabilizou pelo abastecimento da cidade. Uma das teorias para explicar a epidemia era a da transmisso por via hdrica, defendida pelo dr. Luiz Barreto Pereira, presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de So Paulo, de modo que, para debelar a epidemia, o governo estadual empreendeu obras de abastecimento de gua, at ento deficitrio, e mandou captar as guas das nascentes dos Pinheirinhos. As obras tiveram incio febril, com muitos engenheiros e operrios. Em pouco tempo, Araraquara podia dispor de gua encanada nas torneiras das praas pblicas e das esquinas, onde a populao poderia abastecer-se, em vez de usar os poos dos quintais que haviam sido proibidos pela Comisso Sanitria. Este foi o primeiro passo para a instalao da rede de gua encanada por toda a cidade. Mas o recrudescimento da epidemia no ano de 1897 lanou por terra a teoria hdrica; agora, de fato, os miasmas pareciam ser a causa mais plausvel. Foi retomado o combate s sujeiras das ruas ou dos terrenos baldios e das casas. A limpeza da cidade foi retomada com mais efetividade, pois, agora se tratava de instalar os esgotos e comear a construo da rede pela cidade. O governo estadual e a Comisso Sanitria providenciaram o fornecimento gratuito de latrinas populao. Depois de tanto esforo, a epidemia comeou a ceder e, em 1897, quando teve seu ltimo aparecimento, Pio Loureno finalizou seu relato, dizendo: Foi assim que Araraquara, coberta de eucaliptos e de cal, e privada das antigas privadas, do cemitrio de So Bento e dos poos, viu afinal, em 1897, o ltimo caso de febre amarela afundir-se no cemitrio de contagiados da charneca das Cruzes (CORRA, 1915, p. 40). E conclua com uma pitada de ironia, registrando: certo, todavia, que nem um nico Aedes aegypti (Stegomya fasciata) foi at ento diretamente perseguido ou siquer suspeitando da parte direta que tomara nas dantescas angustias do homem, seu vizinho e o seu alimentador (CORRA, 1915, p. 40).

EplogoA ironia que encerra o relato de Pio Loureno Corra18 merece ser qualificada. De fato, naquela poca, nenhum mosquito fora diretamente perseguido. Na verdade, a crtica aos procedimentos e s prticas sanitrias18 Pio Loureno Corra era casado com Zulmira, prima-irm de Mario de Andrade. Foi na Chcara Sapucaia, de propriedade deles, em Araraquara, que o grande autor escreveu Macunama.

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da poca, que se desprende do comentrio, torna-se anacrnica, quando se verifica que seu autor a formulou quando j se conhecia o verdadeiro vetor transmissor da febre amarela, mas isso demorou um pouco para acontecer. No se conhecia a verdadeira forma de transmisso naqueles tempos de epidemia de 1895, 1896 e 1897. As concepes de sade pblica, postas em prtica pela Diretoria do Servio Sanitrio de So Paulo, por meio das Comisses Sanitrias enviadas s localidades com surto epidmico, basearam-se nos conhecimentos sobre epidemiologia das doenas daquela poca, que, para muitas delas, eram precrios, como era o caso da febre amarela. Somente em 1902-1903, com as histricas experincias realizadas no Hospital de Isolamento de So Paulo, hoje Hospital Emilio Ribas, constataram que o transmissor era o mosquito Stegomya fasciata, hoje denominado de Aedes aegypti. S ento o combate ao mosquito tem incio e posto em prtica nas ltimas epidemias de febre amarela no estado de So Paulo, em Ribeiro Preto e So Simo, em 1904. Portanto, no se conhecia o meio pelo qual a febre amarela era transmitida. E isto levou formulao de diversas teorias que orientaram o Servio Sanitrio de So Paulo e adoo de medidas de combate s mais variadas e excntricas vistas hoje: as desinfeces das casas, dos solos e a caiao das casas e dos muros, altura mnima de p direito das edificaes, isto , entre o cho e o teto, o plantio de eucaliptos nas ruas de Araraquara, etc. Estas eram as estratgias naquela poca e que atendiam concepo miasmtica. O isolamento atendia idia da transmisso por contgio e, por fim, as construes da rede de gua encanada e de esgoto atendiam concepo da transmisso pela gua, ento denominada de teoria hdrica. Essas concepes eram incorretas para explicar a causa das epidemias, porm acabaram por prescrever medidas que resultaram na reduo das epidemias e das doenas limpeza das casas, das ruas, fornecimento de gua limpa e construo de esgotos, coleta de lixo, legislao das edificaes, entre outras aes. As epidemias de febre amarela e o conhecimento precrio e insuficiente de suas causas promoveram a primeira reforma urbana, de carter sanitrio, com a construo da rede de gua e esgoto, o calamento das ruas, o recolhimento do lixo das habitaes, a drenagem do solo, a canalizao de rios e crregos e outros. Compartilhamse aqui as idias de alguns estudiosos da urbanizao: de que o espao urbano deve ser entendido no seu aspecto objetivo, mas como resultado das relaes sociais que refletem a sociedade como um todo (VRAS, 2000, p. 96) e de que a cidade um resultado direto da experincia dos homens que a habitam e fruto de realidades sociais, no importando que estejam no mesmo lugar e tenham, ao longo dos sculos, o mesmo nome (LANNA, 1996, p. 25). Logo, nos fins do sculo XIX, teve incio um processo de reforma sanitria urbana nas cidades do interior paulista, que vai trazer melhorias para a populao de Santos, Campinas, Rio Claro, So Carlos e Araraquara, que, na verdade, antecipa a grande reforma urbana ocorrida no Rio de Janeiro, quando do episdio da Revolta da Vacina (1903-04) (SEVCENKO, 1993).254

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______. Secretaria dos Negcios do Interior e Instruo Pblica. Relatrio apresentado ao Exm. Sr. Dr. Presidente do Estado de S. Paulo em 15 de maro de 1897 pelo Secretario de Estado dos Negocios do Interior, Antonio Dino da Costa Bueno. So Paulo: Typographia do Diario Official, 1897. ______. Secretaria dos Negcios do Interior e Instruo Pblica. Relatrio apresentado ao Dr. Diretor Geral do Servio Sanitrio sobre os meios de defesa contra a febre amarela em vrias cidades do Oeste, pelo Dr. Evaristo da Veiga Inspetor Sanitrio. So Paulo: Typographia do Diario Official,, 1895. p. 164-170. ______. Secretaria dos Negcios do Interior e Instruo Pblica. Relatrio apresentado ao Dr. Diretor Geral do Servio Sanitrio pelo Dr. Evaristo da Veiga. Inspetor Sanitrio em Comisso na cidade de Rio Claro. 1896 pp. 280-284. In: Relatrio apresentado ao Sr. Dr. Presidente do Estado de So Paulo pelo Secretrio dos Negcios do Interior e Instruo Pblica. So Paulo, Typographia do Dirio Oficial, 1897. .[a entrada no pode ter duas datas de publicao; esclarecer tambm a informao sobre um relatrio dentro de outro relatrio] Ver explicao acima ______. Secretaria dos Negcios do Interior e Instruo Pblica. Relatrio sobre os casos de febre amarela ocorridos na Fazenda Floresta, municpio de So Carlos do Pinhal, apresentado ao Sr. Dr. Joaquim Jos da Silva Pinto Jr. DD. Diretor Geral do Servio Sanitrio do Estado de So Paulo pelo Dr. Balthazar Vieira de Mello, Inspetor Sanitrio em Comisso, maro-abril de 1895, pp. 99-100. Relatrio apresentado ao Sr. Dr. Presidente do Estado de S. Paulo em 30 de maro de 1896 pelo Secretrio dos Negcios do Interior e Instruo Pblica, Alfredo Pujol. So Paulo: Typographia do Dirio Oficial, 1896. Anexos X-XI.

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Sanatrios, tecnologia mdica e cultura urbana: uma visita cidade sanatorial de So Jos dos Campos na primeira metade do sculo XXPaula Vilhena Carnevale Vianna1 Ftima Aparecida Ribeiro2 A tuberculose visitada na produo mdica cientfica sob inmeros prismas: desde a relao tuberculose/urbanismo, reveladora dos vieses da modernidade, a anlises da organizao e constituio dos servios de sade pblica, considerando os enfoques campanhista versus educativo; passando por estudos sobre a participao social, com nfase nas ligas; ou ainda anlises histricas e epidemiolgicas. Este artigo busca desvelar as condies sociais, econmicas, culturais, de conhecimento tcnico, enfim, o espao social no momento especfico de constituio da rede sanatorial da estncia de So Jos dos Campos, entre 1900 e 1950. Trata-se de ampliar o olhar para outros determinantes na constituio desta rede, alm da poltica de sade pblica para o controle da tuberculose e das aes especficas a ela relacionadas. Desde os anos 1960, cientistas sociais, filsofos e gegrafos concebem o espao de vida como um elemento ativo, socialmente construdo, que tanto influencia as relaes sociais como por elas influenciado, contrapondo-o acepo usual de paisagem ou pano de fundo onde transcorrem os acontecimentos sociais (SANTOS, 2002). Estes espaos, que se apresentam de uma determinada maneira, e, apropriados dentro de lgicas especficas, so vivificados e transformados pelas relaes sociais que os sustentam, guardam as concepes que, em diferentes momentos, os possibilitaram. O sentido atribudo s cidades e seus smbolos igualmente uma construo social: para Lefebvre (1974), os objetos produzidos na sociedade edificaes, monumentos ou obras de arte; expressam as relaes de poder nesta mesma sociedade, mascaradas, em geral, sob a ideologia do desenvolvimento, do conhecimento, do progresso.1 2 Mdica, Doutorado em Medicina Preventiva, atual Professora de Sade Coletiva e pesquisadora do Programa de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional/ Universidade do Vale do Paraba, Univap, SP Mdica sanitarista, Mestre em Medicina Preventiva, atual Interlocutora de Acidentes e Violncia do Grupo de Vigilncia Epidemiolgica de So Jos dos Campos/SES e Mdica do Programa Aquarela (Ateno a Famlias em Situao de Violncia Domstica)

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O espao urbano vai sendo construdo em camadas muitas vezes sobrepostas, e a passagem do tempo, carregando concepes que se modificam, fica de certa forma cristalizada em objetos possuidores de determinado valor e localizados em determinado ponto no tempo e no espao (SANTOS, 2002). O tempo, o espao, a arquitetura se entrelaam no ambiente urbano, e simultaneamente lhe conferem um significado e lhe traduzem um sentido. O reconhecimento da idade desses objetos e de seu significado social (pensemos nos sanatrios construdos na cidade de So Jos dos Campos) pode auxiliar a compreender a evoluo do lugar so, na denominao de Santos (2002, p. 73), objetos-testemunha, ou rugosidades, pistas acerca das combinaes histricas e especficas [...] do capital, das tcnicas e do trabalho utilizados. Nessa acepo, So Jos dos Campos constituiu-se como estncia para tratamento da tuberculose no apenas pela condio climatolgica favorvel: os tisiologistas que para l migraram promoveram esta condio a mote desenvolvimentista local desde a primeira dcada do sculo XX, portanto, muito antes da oficializao da estncia, no ano de 1935 (VIANNA, 2007). Nesse espao dinmico, as polticas nacionais ganham vida e so modificadas, criam-se novas proposies e possibilidades para a consecuo de fins no visualizados inicialmente: em So Jos dos Campos, a tuberculose foi o motriz para a entrada do municpio no circuito modernizador paulista, por mais antagnica que essa relao possa parecer a princpio. Este artigo investiga a construo da rede sanatorial na primeira metade do sculo XX naquela cidade.

Tuberculose e cidades: a poltica paulista e nacional at 1950Ao revelar a insalubridade das cidades modernas, a tuberculose uma das primeiras condies de sade a estimular o planejamento de sistemas de controle sanitrio, englobando desde a assistncia a medidas preventivas de espectro mais amplo sanitrio, ambiental, de edificaes, educativo (ROSEN, 1994). Como metfora, simbolizava simultaneamente o romantismo e a morte e o isolamento (SONTAG, 1984). O tuberculoso, dotado da mobilidade decorrente de sua (des)insero no espao fsico e social, peregrinava em busca de locais saudveis, do campo aos balnerios, sob o signo da fundamentao clnica do princpio do sculo XIX: clima e isolamento sanatorial, em lugares sempre distantes das cidades.260

Da perspectiva econmica, a tuberculose inaugurou o clculo financeiro do custo da doena e do tratamento, especialmente importante em se considerando a populao de risco. E legitimou a filantropia, representada por ligas e instituies assistenciais, como agentes da solidariedade econmica pela sade (GUILBERT, 1992; ROSEN, 1994). No Brasil, Lourival Ribeiro (1956) separava o combate tuberculose no Brasil em trs fases: 1889-1930, antecedentes da poltica nacional; 19301945, revoluo sanitria e incremento de rgos tcnicos, e aps 1945, a campanha nacional de tuberculose sob a gesto de Rafael de Paula Souza. Na primeira fase, a tuberculose girava em torno de questes empricas e tcnicas. Antes de ser nacionalmente identificada como problema de sade pblica, foi reconhecida como questo social pelas ligas, criadas entre 1889 e as primeiras dcadas de 1900. Neste perodo, as concepes da medicina tinham sua base emprica nas descobertas de Koch, que sustentam as aes propostas para o controle da doena: o isolamento do agente causador explicava a cadeia de eventos determinantes da doena, ao meio ambiente cabia o papel de facilitador e coadjuvante na transmisso. Note-se que este perodo marcado pelo surgimento de diferentes aparelhos de estado que atuam sobre as condies de sade da populao a fim de garantir o projeto econmico agroexportador da economia cafeeira e o processo de urbanizao. o perodo de institucionalizao da sade pblica, profundamente influenciada pela sociedade civil, organizada, no caso da tuberculose, em ligas e associaes mantenedoras dos sanatrios. A relao entre essas organizaes e o aparelho do Estado era prxima: representantes do governo as constituam e, por vezes, presidiam. Formadas por mdicos, capitalistas e outros elementos de prestgio, eram semelhantes na estrutura e finalidade, voltadas divulgao de instrues profilticas e arrecadao de fundos para construo de dispensrios, e, especialmente, sanatrios (RIBEIRO, 1956, p. 63-84). Para Guilbert (1992), um ponto central desta relao era aliviar os hospitais centrais das grandes cidades dos tuberculosos, tendo por base a teoria econmica da necessidade. Os hospitais tornaram-se sanatrios, do latim sanatorius, prprio cura. Renomear a instituio facilitou sua aceitao social, uma vez que o tuberculoso, com seu exuberante quadro clnico iria tornar-se o inimigo sanitrio nmero um da sociedade urbana. Nos sanatrios, invariavelmente fora da rea urbana, duas garantias: aos doentes, sol e ar puro; s cidades do campo, renda (embora os preos no cobrissem o longo tempo de tratamento da molstia). Para a autora, a penitncia sanitria revestiu-se de lgica teraputica ainda que o conhecimento mdico fosse incipiente, a concepo de agente hospedeiro e a necessidade de isolar as fontes de infeco dos susceptveis sustentava tecnicamente a poltica sanatorial. Em termos polticos, a base econmica e conceitual da rede sanatorial paulista foi influenciada por uma visita Europa feita por Victor Godinho, mdico do Servio Sanitrio do Estado, em 1900: sem os recursos proveniente da legislao social ou das companhias de seguro que261

possibilitaram a expanso daqueles estabelecimentos na Europa, o governo paulista assume, em conjunto com a iniciativa privada, a construo dos sanatrios (RIBEIRO, 1993). Erigidos nos arredores da capital, economizariam os recursos investidos na imigrao e complementariam a obra higinica realizada pelo Servio Sanitrio em So Paulo (RIBEIRO, 1993, p. 127). A ao se complementaria com a ao higienizadora sobre os cortios e o centro da cidade, viabilizada com a Reforma do Cdigo Sanitrio em 1911. A viagem de Godinho resultou numa das primeiras publicaes brasileiras sobre a arquitetura sanatorial, distribuda a vrios municpios paulistas como uma cartilha a ser seguida (BITTENCOURT, 2000). Estado e Ligas se aproximam, e a construo de sanatrios incentivada (BITTENCOURT, 2000, p. 71; BERTOLLI FILHO, 1993; MOTA, 2001, p. 143-145). Ainda nesta primeira fase do combate tuberculose, nasce a Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose. Resultado da Reforma Sanitria de Carlos Chagas, em 1920, a inspetoria estimulou o estabelecimento de dispensrios no Rio de Janeiro (RIBEIRO, 1956, p. 91) e lanou a Cruzada Nacional contra a Tuberculose, que tinha, entre seus objetivos, coordenar as instituies, fazendo desaparecer a rivalidade (RIBEIRO, 1956, p. 110). A Reforma Carlos Chagas foi uma primeira iniciativa de ordenar os diversos equipamentos de sade pblica, especificando suas funes e atribuies, entre elas a organizao das aes de controle da tuberculose no pas. Concomitante a esta organizao estatal da sade pblica, as recm criadas Caixas de Aposentadoria e Penso inauguram a prestao de assistncia ligada previdncia social, especialmente voltada populao ligada ao processo de industrializao, e que tero seu papel na luta contra a tuberculose mais tardiamente, a partir da dcada de 1960. Entre 1930 e 1945, a criao do Ministrio de Educao e Sade possibilitou a organizao dos programas, que passaram a ter mbito nacional. Entre as diretrizes, o Plano Federal de Construo e Instalao de Sanatrios objetivava formar um armamento antituberculoso completo e eficiente, composto por dispensrios, sanatrios e preventrios (RIBEIRO, 1956, p. 127), numa parceria entre a filantropia e o Ministrio da Sade, que ampliou a capacidade hospitalar do pas. O Servio Nacional de Tuberculose, criado em 1941, mantinha o eixo norteador na educao e na construo de sanatrios, cujos leitos foram prioritariamente ocupados pela populao que dispunha de recursos para o tratamento, enquanto os dispensrios, igualmente subsidiados com recursos pblicos, atendiam a populao pobre e carente dos centros urbanos. O incentivo construo de equipamentos no interior justificado pelo acesso local ao tratamento, que evitaria o fluxo de doentes para as capitais, com base na grandiosa e operante obra do setor privado (RIBEIRO, 1956, p. 165). Embora a relao com a urbanizao seja evidente, a condio de vida da populao mais atingida pela doena ficou relegada a segundo plano e, quando abordada, se fazia por meio de medidas262

que imputam ao doente a causa da doena, que seria debelada com medidas higienizantes do comportamento ou da moradia, cabendo ao Estado um papel orientador (MOTA, 2001). A partir de 1946, sob a coordenao de Rafael Paula Souza, o Estado assumiu definitivamente o controle da tuberculose. A Campanha Nacional fortaleceu o corpo tcnico, levantamentos epidemiolgicos e de vacinao se intensificaram, concentrando-se nas zonas de maior incidncia da doena; a construo de sanatrios e dispensrios foi regulamentada e padronizada e as questes previdencirias foram abordadas. O sistema decorrente desta poltica na primeira metade do sculo XX caracterizado por Iyda (1993) como dispendioso, privativista, fragmentrio, de pouca eficcia e efetividade e despreparado para as inovaes trazidas pelo desenvolvimento dos novos e definitivos tratamentos para a tuberculose. O controle do Estado sobre o sistema foi ampliado gradativamente, a partir de medidas como a notificao compulsria e a criao de rgos governamentais para instituir as aes de controle, que, com o tempo, foram completamente transferidas para a responsabilidade do Estado. Embora reconhecidamente uma questo social, a tuberculose no foi tratada como tal. Aos doentes cabia o isolamento individual, autoritariamente conferido pelos higienistas e pela legislao decorrente, e coletivo, por meio da redeno sanatorial que aliviava e protegia a cidade produtiva.

Os sanatrios: nem hotis, nem hospitaisOs hospitais pblicos de isolamento do final do sculo XIX, voltados s doenas infecto-contagiosas, eram locais de acolhida e segregao. A maioria possua deficiente estrutura fsica, incluindo instalaes de gua e circulao de ar, e funcionava de forma intermitente, sem corpo mdico ou de enfermagem permanente. Conhecidos como antecmaras da morte, apresentavam elevada taxa de mortalidade, decorrentes da falta de tratamento eficaz, do acmulo de doentes, da internao tardia e da propagao da doena em razo das condies estruturais. A populao atendida era majoritariamente pobre, e o local de instalao, de difcil acesso (TELAROLLI JNIOR, 1996, p. 149-155). outra a concepo dos sanatrios, traduzida em sua arquitetura. Jardins e alpendres, janelas amplas asseguram profusa iluminao e ventilao e os diferenciam no s dos hospitais como tambm da insalubridade das cidades, ligada etiologia da doena. Ofereciam o ar, a luz e o espao; elementos ausentes do ambiente urbano. Tecnicamente, o discurso mdico, legitimado pelo poder pblico, os justificava, afirmando que, desde que bem dirigidos e sob rgida disciplina, os sanatrios eram lugares seguros (RELATRIO DA COMISSO DE INVESTIGAO DE PARIS, 1895, apud GUILBERT, 1992). A parceria Estado/filantropia no financiamento do tratamento acenava ainda com a possibilidade da263

vantagem econmica, do ponto de vista da sociedade, para incentivar a implantao dessas organizaes de cura (GUILBERT, 1992). O mal da civilizao era fruto evidente da urbanizao e do progresso. Os sanatrios se incluem na poltica de sade higienista e de normalizao dos espaos, e, de maneira igualmente importante, inseremse no projeto capitalista. A recuperao da populao atingida, essencial reproduo do capital (ou o afastamento para evitar o contgio de seus pares) acarretava um custo direto para a sociedade. Ao ligar vantagens econmicas instalao dos sanatrios em cidades fora do sistema produtivo, cria-se uma nova engrenagem de articulao pblico-privado, e um uso do espao que ser impulsionado pela questo econmica e poltica, trabalhado junto opinio pblica pelo discurso modernizador da higiene, de defesa da cidade e do sistema produtivo e de relaes sociais que a possibilitam. Os sanatrios foram impulsionados pelos Cdigos Sanitrios, no perodo de consolidao do perfil industrial da cidade de So Paulo. Ao espacializar o tempo sanatorial, os sanatrios so a representao concreta da poltica de sade higienista. Possuem um significado particular para a representao social da tuberculose, tanto no aspecto tcnico quanto cultural. Tecnicamente, representam a medicina pr-pasteurina, da cura fundada no clima, alimentao e repouso. Culturalmente, carregam a ambgua imagem do isolamento e da amarga aura potica que envolveu o doente tuberculoso. No entanto, de modo mais amplo, devem ser vistos a partir das mudanas econmicas e sociais que a modernizao impunha ao pas e cidade de So Paulo, de forma mais acentuada, na entrada do sculo XX.

Estncias climticas: a base legalNo Brasil, assim, semelhana de outros pases, a poltica de controle da tuberculose adotada inicialmente privilegiou a implantao de dispensrios e, especialmente, de sanatrios (IYDA, 1993). Essa poltica normativa e reducionista de controle converteu distritos tidos como estratgicos para o controle da tuberculose em Prefeituras Sanitrias. A imagem modelo eram as estncias europias, que introduziam nas ainda provincianas cidades a cultura e o modo de vida das cidades maiores. Em So Paulo, a base legal para a criao das estncias foi a Constituio Estadual de 1921, que previa estncias climatricas de repouso, administradas pelo governo do Estado, em locais de clima vantajoso e estrutura instalada (MASCARENHAS, 1953, p. 185). O projeto de Campos do Jordo, primeira estncia climatrica criada no estado de So Paulo, em 1926, vinha sendo elaborado desde o sculo XIX (RIBEIRO, 1993, p. 125), numa tensa e acentuada relao entre os setores pblico e privado. As prefeituras sanitrias recebiam emprstimos estaduais para a melhora e264

aparelhamento do municpio, como a realizao de obras de saneamento e higienizao. Em 1931 foi criada no estado de So Paulo a Seo de Profilaxia da Tuberculose, diretamente subordinada diretoria do Servio Sanitrio, que centraliza as aes relativas doena. A interferncia poltica nas estncias se intensifica: a partir de 1933, o prefeito deve ser mdico nomeado por indicao da Diretoria Geral do Servio Sanitrio; hospitais e penses para tuberculosos ficam sujeitos rgida regulamentao, e um sistema de profilaxia da tuberculose institudo (notificao dos casos; obrigatoriedade de enfermeiras especializadas nos estabelecimentos de sade; orientaes higinicas e de desinfeco). O Decreto no 6.198, de 1933, estendeu a So Jos dos Campos e So Roque as disposies mencionadas, e a estncia climatrica de So Jos dos Campos foi criada pelo Decreto 7.007, de 12 de maro de 1935. Em 1947, a cidade se tornou Estncia Hidromineral (MASCARENHAS, 1942, p. 189-193).

Os sanatrios na cidade de So Jos do inicio do sculo XXSo Jos dos Campos urbaniza-se na dcada de 1920. A Cmara local institua medidas normalizadoras e contratos com capitalistas nacionais e estrangeiros, geradores da primeira instalao de infra-estrutura urbana, como sistemas de gua e calamento, num lento processo de modernizao (MLLER, 1969, p. 60-67). So Jos caminhava no ritmo das pequenas cidades brasileiras de ento, porm com outro motriz: se leis municipais do perodo concediam favores para a construo de pequenas indstrias (FUNDO CMARA MUNICIPAL DE SO JOS DOS CAMPOS, 1911, p.22), favoreciam na mesma medida a construo de sanatrios. A construo da cidade se deu, assim, de modo peculiar e oportuno, numa combinao inusitada das medidas de controle da tuberculose vigentes, de incentivo aos sanatrios, com a regulamentao das indstrias e do meio urbano (VIANNA, 2007). Nessa cidade de notveis, como descreve Santos (1996), os mdicos se destacam. Clemente Ferreira, que conhecia a cidade desde o final do sculo XIX, recomenda-a a Mrio Galvo, tisiologista e tsico. Galvo chega cidade em 1904, e nela falece em 1925, construindo uma renomada prtica clnica (segundo relato de Rosemberg (2001) foi um dos primeiros mdicos no pas a usar o pneumotrax) e influente articulao poltica. Seu obiturio, no jornal local descreve-o como um vulto de destaque no mundo cientfico, poltico e social do pas, [...] um elemento social de relevo, que muito honra nosso meio (CORREIO JOSEENSE, 1925a, pgina1), e demonstrando a importncia da tuberculose para a cidade, destaca: [o Dr. Mrio Galvo] conseguiu despertar, em benefcio de nosso progresso intelectual e material,265

as vistas da classe mdica com referncia s condies excepcionais deste clima [...] Foi ele, inquestionavelmente, que lhe infiltrou [ cidade] uma seiva nova, ridente de benefcios futuros. (CORREIO JOSEENSE, 1925a, pgina 1) Foi o vereador e mdico Mrio Galvo quem se ops primeira proposta de construo de sanatrio feita Cmara em 1909 por Monteiro Lobato, no pela utilidade do empreendimento, que atenderia as condies especialssimas do seu privilegiado clima, ultimamente to procurado por numerosos enfermos ou pela salubridade pblica (menor exposio da populao ao contgio), mas pela localizao, sugerindo a construo fora do permetro urbano (FUNDO LIGA DE ASSISTNCIA E COMBATE TUBERCULOSE, 1911, p.1). A Comisso de Fazenda e Contas reiterou o parecer e reservou o terreno inicialmente concedido para a construo de um hotel sanatrio a qualquer fbrica que viesse a ser fundada na cidade, reservando ao hotel-sanatrio terrenos situados fora do permetro urbano da cidade (FUNDO LIGA DE ASSISTNCIA E COMBATE TUBERCULOSE, 1911, pgina 2). O projeto do sanatrio de Monteiro Lobato, vinculado possibilidade de receitas estaduais, no se concretizou e, em 1914, a Cmara subsidiou a compra de chcara para a construo de um sanatrio ligado Santa Casa de Misericrdia de So Paulo. Dentro da viso da construo de sanatrios no interior, desafogando a capital; do uso da doena como sada econmica; e da articulao Estado-filantropia, o recurso inicial para a construo provinha da Cmara Municipal de So Paulo, do governo federal e do alto comrcio de So Paulo, alm de fundos angariados em quermesses paulistanas comandadas pela esposa do senador Olavo Egdio Aranha. O sanatrio comeou a ser construdo em 1917, erguido pela filantropia e pelo poder pblico municipal. O Sanatrio Vicentina Aranha foi inaugurado em 1924, com a presena de Washington Luiz e comitiva, em evento que, na memria coletiva, marca a converso da cidade em estncia, muito antes do ano de 1934 (BONDESAN, 1967, p. 38). Projeto do renomado escritrio de arquitetura de Ramos de Azevedo e maior da Amrica Latina, o Vicentina Aranha foi fruto dessa conjuno de interesses externos e locais, econmicos e sociais, possibilitado pela poltica e pela articulao das relaes sociais no espao, instalando-se em uma cidade j sanatorial. De fato, o sanatrio Vicentina Aranha consolidou o perfil da cidade. Em 1925, a expresso estao climatrica aparece pela primeira vez no Correio Joseense, em anncio de terrenos em lotes para venda em prestaes. A propaganda destaca o clima de Davos, Ilha da Madeira, Campos do Jordo e So Jos dos Campos, ressaltando que: A cidade velha, um tanto anti-higinica, est sendo reformada com casas modernas, a gua aumentada, a usina de fora e luz grandemente melhorada. [...] Possui So Jos dos Campos todos os recursos e os seus mdicos dedicadssimos, gozam de bela fama para doenas pulmonares. (CORREIO JOSEENSE, 1925b, pgina 2)266

Os terrenos para venda situavam-se em frente ao sanatrio, entre a estrada de ferro e a estrada de automvel. Como observado por Rolnik (1997, p. 43-44), o componente da rentabilidade do solo urbano no pode ser descolado da estruturao e construo do territrio. A consolidao da imagem de estncia ampliou as vias de negcios e relaes, o que influiu na caracterizao dos espaos urbanos, bem como abriu possibilidades de articulaes intergovernamentais. A edificao da estncia se deu sobre ordenamentos polticos e econmicos no espao real da vida que, lentamente, transformava-se em urbana. O peridico Correio Joseense, lanado em 1920, dedicou artigos tuberculose (em geral de primeira pgina) em 24 dos 40 fascculos publicados naquele ano, numa demonstrao da importncia da imprensa na divulgao sobre a tuberculose. A srie Instrues Sanitrias, matria de primeira pgina em cinco nmeros consecutivos, guarda enorme semelhana com as recomendaes do Relatrio da Comisso de Investigao de Paris de 18953, que, por sua vez, assemelham-se s recomendaes do servio estadual, elaboradas no mesmo perodo e divulgadas no interior de So Paulo no incio do sculo XX (MOTA, 2001, p. 144).4 Os artigos certamente uma reproduo do relatrio do Servio Sanitrio do Estado ressaltavam a curabilidade, o tratamento higinico e os meios de evitar a tuberculose. Ao receio emanado da presena do tuberculoso e percepo do risco das cidades cuja reputao de bom clima facilitaria a infectividade, [...] se no toma providncias para impedir o contgio (CORREIO JOSEENSE, 1920c, pgina1), os sanatrios surgem como soluo, numa transcrio que modifica o teor do documento de Godinho e Azevedo (apud MOTA, 2001, p. 143-144, grifo nosso) 5: a tsica pode se curar em qualquer altitude [...] mesmo em domiclio, com a condio de ser este transformado em um pequeno sanatrio [...]. O texto prossegue, afirmando a segurana dos sanatrios, com sustentao estatstica: Nos sanatrios no se observam contgios pela tuberculose [...]: de cada 100 doentes [...] pelo menos 30 reestabelecem-se completamente, 40 melhoram consideravelmente podendo voltar a suas ocupaes habituais, 26 deixam de aproveitar e apenas quatro vem agravar seu estado[citao sem referncia o mesmo correio joseense, 1920c, p.1 No seis e necessrio repetir a ref.]. A base sanatorial, defendida pelas ligas, sistematicamente reforada: graas a essa vigilncia constante, aos conselhos do profissional, que as3 Sobre a segurana dos estabelecimentos sanatoriais em cidades do interior, a Comisso de Investigao de Paris concluiria, em 1895: un tablissement bien dirig ne peut prsenter aucun dangerpour son voisinage. Cest ainsi quen ont dcid en tous pays les autorits scientifiques et les lgislateurs (Guilbert, 1992). O trabalho Fonte para a educao popular, elaborado por Victor Godinho e Guilherme lvaro, sob a direo do Servio Sanitrio, em 1899, foi elaborado para ser transcrito pelo jornais cientficos ou noticiosos da poca; continha informaes clnicas, de contgio e tratamento da tuberculose, e reforava a importncia da higiene e da disciplina para a cura da doena. Embora no recomendasse o uso dos sanatrios, o ambiente de luz e aerao dos estabelecimentos era ressaltado (Godinho e lvaro, 1899, in Mota, 2001, p.143-4,). Segundo Mota (2001, p.143-4) , ao afirmar que a cura era possvel em qualquer estabelecimento, o documento reforava a importncia das medidas educativas e higinicas, e reduzia a importncia dos sanatrios, proposta defendida pelas Ligas.

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curas so conseguidas muito facilmente nos sanatrios fechados, isto , de disciplina obrigatria [...] os climas e os remdios so simples coadjuvantes [citao sem referncia idem. Todo o trecho deste pargrafo refere-se mesma matria]. O risco do contgio e o temor dele decorrente transparecem igualmente no peridico local, que afirma no haver seleo ou separao: No turbilho social misturam-se doentes e sos (CORREIO JOSEENSE, 1924a, pgina2); o isolamento dos contagiados tido como soluo para a cidade. Ao mesmo tempo, a salubridade do municpio considerada superlativa e notria, posto que centenas de vidas gravemente comprometidas tm daqui regressado aos seus lares, louvando So Jos dos Campos, como o sanatorium de todo o Sul, Oeste e Norte da Capital (CORREIO JOSEENSE, 1924b, pgina2) imagem reforada pelos tisiologistas, em seus postos tcnicos e polticos. O primeiro sanatrio foi recebido com temor, no pelo estabelecimento em si, considerado seguro e de grande relevncia pela adequao do tratamento, mas pelo que poderia representar para a cidade: mesmo um perigo muito grave pela invaso de tuberculosos de toda parte do Brasil (CORREIO JOSEENSE, 1924c, pgina1). O acesso diferenciado apontado: claro que ali se contaro em maior nmero os doentes de classe, que pagam sua estadia [...] os pobres ingressaro em quantidade infinitamente menor [...] Provavelmente o Sanatrio no dar conta dos doentes da Santa Casa (transferidos) e a os enfermos vo para onde?. (CORREIO JOSEENSE, 1924c, pgina1) A reportagem alerta que a publicidade do sanatrio em peridicos paulistas e cariocas atrair levas desses expatriados em busca de sade (CORREIO JOSEENSE, 1924c, pgina1, grifo do autor). O artigo gerou reao na cidade e no jornal paulistano Folha da Noite, obrigando O Correio a se retratar. Na rplica, o jornal assumiu o receio da invaso de enfermos e questionou sua utilidade para as classes pobres, numa antecipao do cenrio que se desenvolveria. O sanatrio gozou de benefcios pblicos desde sua inaugurao, bem como de representatividade poltica: no solene evento municipal de homenagem primeira grande indstria instalada na cidade, o discurso de saudao ao homenageado [Sr. Jos Severo, diretor da Tecelagem Parahyba] foi proferido pelo diretor do Sanatrio Vicentina Aranha, Dr. Caio Machado (CORREIO JOSEENSE, 1927, pgina1). Os sanatrios foram tambm locais privilegiados para o desenvolvimento da tecnologia mdica, no somente a do clima e da institucionalizao da disciplina, mas tambm relativa aos equipamentos e procedimentos invasivos, como o pneumotrax e outros procedimentos cirrgicos. Alm de Mario Galvo, chegam cidade os tisiologistas Nlson Dvila, no ano de 1914, e Ruy Dria, no ano de 1925[estes anos dizem respeito a que? ano que chegaram cidadre]: o primeiro, vereador pelo Partido Republicano Paulista, apoiou a construo da Santa Casa local e a dirigiu. Onipresente, dirigiu tambm o Sanatrio Vicentina Aranha e foi268

equiparado a um feiticeiro por quem o conheceu6. Dria, seu rival poltico, foi um dos fundadores do Partido Democrata local. Proprietrio de um sanatrio na rea comercial da cidade, afirmava que a cidade no precisava de fbricas, e sim de doentes (BELCULFIN, 2000). Junto a Rodolpho Mascarenhas (tisiologista que seria o primeiro prefeito sanitrio da cidade e seguiria influente trajetria na sade pblica paulista), formaram a comisso que discutiu a oficializao da estncia. Outros tisiologistas da cidade, como Jos Rosemberg, ocupariam cargos pblicos e universitrios de destaque, ou permaneceriam na cidade, participando ativamente da vida acadmica. O intercmbio tcnico com So Paulo evidenciado no contato com Clemente Ferreira, que visita a cidade em 1914, nos artigos conjuntos publicados na Revista Mdica local e na avaliao das drogas quimioterpicas que acabariam por modificar a histria da doena7. Velloso, mdico tisiologista, vindo em 1945 e agraciado com o ttulo de patrimnio humano da cidade, protagonizou diversos desses movimentos: Inventei vrios aparelhos, inclusive o de Pneumotrax. Foi usado em todo o Estado de So Paulo, Paran, era com meu aparelho [...] Fiz a patente e todos os dispensrios do Estado de So Paulo, todas as cidades maiores tinham [...], esse atendimento da TB, centro de sade. (VELLOSO, 2003, pgina) Sobre os medicamentos para a tuberculose: Quando surgiu a Hidrazida, o Dr. Paulo Souza me nomeou como encarregado de divulgar... E eu estava encarregado de ver isso, de estudar a distribuio da Hidrazida; se desse certo, estreptomicina [...] Passava por mim; tnhamos reunies e tal. (VELLOSO, 2003, pgina 6) O campo dos tisiologistas escapava ao sanatrio para ocupar a cidade nas penses e repblicas, os tuberculosos recebiam cuidado e se submetiam a procedimentos. No por acaso, alguns tisiologistas da dcada de 1930 utilizaram seu aparato tecnolgico para converterem-se em mdicos do trabalho na dcada de 1950. Velloso ilustra esta converso em seu instituto mdico e de abreugrafia, inaugurado em 1951 e ampliado para um estabelecimento de 25 consultrios no centro da cidade: [...] todo o servio de controle das indstrias em geral era feito aqui, porque era um servio particular, a gente fazia a radiografia aqui [...] fazia cento e cinqenta, duzentos por dia! Ento todas essas indstrias passaram por mim [...] a TB era molstia do trabalho. [o dispensrio] J existia, mas estava muito no incio, havia filas. [...] O dispensrio at um certo tempo funcionou, mas sem aquela preciso, aquele cuidado, assim, particular que eu tinha, estatstico e tudo, e as firmas todas me mandavam, porque precisava da6 7 Entrevista concedida por Velloso autora (2003), mdico tisiologista que teve contato com Dr Nelson Dvila no Sanatrio Vicentina Aranha, na dcada de 1940. Velloso (2003, p.5): Quando surgiu a Hidrazida, o Dr. Paulo Souza me nomeou como. encarregado de divulgar a parte da Hidrazida... E eu estava encarregado de ver isso, de ES, p.5tudar a distribuio da Hidrazida; se desse certo, estreptomicina....Passava por mim; tnhamos reunies e tal.

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documentao. TB era doena do trabalho, ento todas passavam por aqui. A GM em 59, foi toda passada [...], depois j nem quis mais [...], porque fazia chapa grande para fazer a admisso. E as indstrias todas [...] [...], Rhodosa, Kodak, aquele meu aparelho transportava para l [...] Eu chegava a ir l [s indstrias], fui Tecelagem Parahyba [...] Eu chegava a fazer o controle geral deles, e as outras indstrias, Ericsson, todas essas indstrias na beira da estrada, todos faziam aqui [...] Essa preocupao [com a tuberculose] foi praticamente at 80 e pouco [...] (VELLOSO, 2003, pgina 7-8) Note-se que interesses privados e da corporao mdica definiam o aparato institucional de controle da doena, numa estreita relao pblico/ privado que relegava para segundo plano as instituies pblicas. Esta situao persistir at a constituio da rede municipal de servios pblicos, na dcada de 1970, numa cidade j classificada como econmica e no mais dos notveis tisiologistas. Nesse municpio de pouca expresso agrria e incipiente industrializao, a tuberculose ocupou os espaos e estruturou a frgil base econmica local. O iderio nacional da higienizao das cidades tornava cultural e socialmente aceitvel essa dinmica particular de urbanizao, e compreensvel o movimento de manuteno da imagem de cidadeestncia. Esta necessidade , no entanto, transitria, porque a servio de outro objetivo a modernizao; e as contraditrias matrias do Correio Joseense atestam a ambigidade do desenvolvimento urbano baseado na condio de estncia climatrica: incentivar os sanatrios e igualmente o controle pblico, fiscalizatrio; manter a tuberculose e os tuberculosos, mas a distncia segura (CORREIO JOSEENSE, 1920e).

A fria sanatorial8 em So Jos Dos Campos: dados objetivosAntes de ser decretada estncia, So Jos dos Campos j dispunha de 360 leitos para tuberculosos, distribudos em cinco sanatrios. A alta representatividade de So Jos dos Campos e Campos do Jordo, responsveis, em 1935, por 75,8% dos leitos para tuberculose no Estado de So Paulo, mantida aps o programa de ampliao da rede sanatorial implantado a partir de 1938 e impulsionado na segunda metade da dcada de 1940, que ampliou para mais de 5.000 leitos o total efetivo do Estado (MASCARENHAS, 1953, p. 224-229).8 Termo utilizado por Guilbert (1992) para descrever a expanso dos sanatrios na Europa, no final do sculo XIX.

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Em 1956, havia no Brasil 25.797 leitos distribudos em 100 sanatrios, localizados em 36 cidades (RIBEIRO, 1956) (Quadro 1). Destas, 18 eram capitais, e das 18 cidades restantes, 9 localizavam-se em So Paulo e 5 no Rio de Janeiro. Cinco cidades So Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Campos do Jordo e So Jos dos Campos possuam 49% dos estabelecimentos e 70% dos leitos do pas. Eram tambm as nicas cidades com cinco ou mais estabelecimentos, com destaque para o Rio de Janeiro, que, numa demonstrao da centralidade da poltica de sade poca, dispunha de 15 sanatrios, e praticamente 20% do total de leitos do pas. Para Rio de Janeiro, Salvador e So Paulo a caracterizao de plo urbano, a concentrao das aes em sade, decorrente, entre outros fatores, do dinamismo econmico, e a relativa concentrao industrial justificam a maior proporo de sanatrios, considerando a tuberculose doena ocupacional. Belo Horizonte, Campos do Jordo e So Jos dos Campos compartilham outras caractersticas: construram a rede de sanatrios precocemente, com estabelecimentos de natureza privada (no pas, a relao era, em mdia, de 50% de estabelecimentos pblicos e 50% privados) e, com pouco (Belo Horizonte e Campos do Jordo) ou nenhum (So Jos dos Campos) incentivo da Campanha Nacional contra a tuberculose. Campos do Jordo e So Jos dos Campos concentravam praticamente todos os leitos pagos no Estado: em 1935, 75,8% dos leitos para tuberculosos e 91,4% dos leitos pagos localizavam-se nas duas cidades. Em 1953, somadas capital, em que se destaca o Hospital do Mandaqui com 1029 leitos, Campos do Jordo e So Jos dos Campos representavam 72,7% do total de leitos e as duas ltimas cidades albergavam 91,0% dos leitos pagos (Tabela 1). Eram ainda as nicas cidades a dispor de diversos estabelecimentos para o tratamento da tuberculose, todos de propriedade privada, em contraste com as instalaes amplas e nicas nas demais cidades, produtos da poltica sanatorial adotada pelo Servio Nacional de Tuberculose comandado pelo mdico sanitarista Paula Souza (MASCARENHAS, 1953, p. 228-229; Quadro 1). A poltica de sade confundia-se com a poltica urbana na cidade sanatorial. A rede sanatorial foi reforada em um momento em que j se questionava a eficcia do clima na cura da tuberculose. O boletim mdico elaborado pelos tisiologistas locais, de distribuio nacional e tendo eminentes especialistas nacionais como colaboradores, traz um artigo de Hlio Fraga com prs e contras, pelo conhecimento cientfico da poca, do clima como adjuvante na teraputica da tuberculose pulmonar (FRAGA, 1935). Os servios de sade da cidade, que no podiam ser considerados uma rede, eram compostos, em 1944, por seis sanatrios, um hospital filantrpico a Santa Casa de Misericrdia, que no atendia pacientes tuberculosos, e um posto de sade. Havia 13 mdicos para uma populao de cerca de 40 mil pessoas (1 mdico para 3.077 pessoas). Os sanatrios eram voltados a populaes especficas e, assim como a Santa Casa, recebiam subsdio da prefeitura.271

O posto de higiene da cidade foi inaugurado em 1932, e convertido em Dispensrio de Tuberculose em 1945, dez anos aps a oficializao da estncia. Equipado com recursos para profilaxia, diagnstico por imagem, e tratamento clnico e invasivo da doena, possua na equipe mdicos sanitaristas e consultantes, tcnicos de laboratrio e Raio-X, auxiliar de enfermagem e escriturrios. A no-integrao rede sanatorial, de propriedade privada, um consenso nas entrevistas realizadas: Rosemberg (2003, p.5), como que a confirmar a dificuldade de se estabelecer uma poltica de controle da tuberculose, afirma que ningum teve a idia de fazer uma conexo Sanatrio/Dispensrio, nunca houve isso. A ligao ocorria entre o dispensrio e as penses, por uma questo de fiscalizao sanitria, porque o dispensrio controlava as penses dos tuberculosos (Rosemberg, 2003, p.5). O posto de sade era subvencionado pela Prefeitura Sanitria e cerca de 50% do valor recebido era convertido para a assistncia aos operrios da Tecelagem Parahyba (FLRIO, 1944). A assistncia mdica previdenciria, instituda na cidade em 1940, somou-se rede sanatorial e ao atendimento individual nas penses, mas no os substituiu. O sistema de controle da tuberculose, seguindo as diretrizes polticas nacionais, s seria adotado na cidade na dcada de 1970, com a implementao das Aes Integradas de Sade. A presena e articulao de tisiologistas tcnicos e polticos erigindo e dirigindo os sanatrios, e o desenvolvimento de um circuito econmico, social e poltico ligado doena antecederam a implantao de um programa pblico para o controle da tuberculose e construram, por outras vias, a cidade sanatorial. Na avaliao sanitria realizada pelo Estado em 1944, os servios de sade foram considerados no mesmo captulo das associaes beneficentes, sob a denominao Assistncia Social. A relevncia dessas associaes para a sade (quatro particulares Liga Contra a Tuberculose, Associao das Damas de Caridade, Fraternidade Operria da Tecelagem Parahyba, Associao So Vicente de Paula; e duas religiosas Franciscanos do Sagrado Corao de Jesus e Instituto das Pequenas Missionrias de Maria Imaculada) ressaltada: a capacidade filantrpica considerada boa, e [...] bem conduzida poder prestar mais servios causa da sade pblica (FLRIO, 1944, p. 134-135). Os sanatrios, construdos at 1967 e distribudos nas reas do centro e sanatorial, junto remodelao urbana, conferiram cidade no s um perfil especfico, mas tambm uma tipologia arquitetnica (BITTENCOURT, 1998). a arquitetura sanatorial, em especial o sanatrio Vicentina Aranha, hoje tombado como patrimnio histrico, que instaura a modernidade arquitetnica no Vale do Paraba (BITTENCOURT, 1998, p. 85-86). Nesta cidade marcada pela sade e pela doena, alpendres e varandas contaminam as edificaes da cidade e levam ar e luz s casas, simultaneamente habitaes e penses. O espao privado do lar se constitui em oposio ao espao da rua, mas esta alterao do perfil urbano pode ser relacionada tambm s concepes arquitetnicas das estaes teraputicas,272

que, na reviso de Bittencourt (2001, p. 67-68), influenciaram arquitetos na concepo de projetos hospitalar e habitacional. Ao se basear nas premissas da higiene e exibir, em seu estilo limpo e no-rebuscado, um projeto racional e funcional, o sanatrio incorpora o iderio da arquitetura moderna (BITTENCOURT, 2001, p. 83) e considerado uma de suas razes concebido por uma necessidade da medicina e da higiene, converteuse em programa da nova arquitetura moderna (MILLER, 1992, apud BITTENCOURT, 2000, p. 89-92). Em So Jos dos Campos a marca sanatorial imprime-se nas residncias modernas do final da dcada de 1920 e incio da dcada de 1930. Se esse novo conceito do habitar, representado na mudana arquitetnica da fachada e na organizao interna da casa, inserese no movimento cultural de urbanizao nacional que ressignifica as ruas e privatiza o espao do lar (ROLNIK, 1997, p. 31-34), as casas avarandadas ganham na cidade sanatorial um significado simblico adicional. Nove sanatrios foram construdos entre 1926 e 1967, e, destes, seis eram ligados a instituies filantrpicas. O ltimo sanatrio, erguido pela Liga Joseense de Assistncia e Combate Tuberculose, em 1967, foi fruto de um acordo para substituir o Sanatrio Adhemar de Barros, localizado na rea sanatorial, que, na dcada de 1960, j havia se convertido em residencial (BITTENCOURT, 1998, p. 136). Construdo em rea rural, o estabelecimento, por questes jurdicas, nunca foi ocupado, sendo demolido em 1991 (BITTENCOURT, 1998, p. 136-137). Alm do primeiro projeto de Hotel-Sanatrio, do incio do sculo XX, outros quatro sanatrios foram planejados, porm no executados Sanatrios Penitenciria, do Sindicato dos Trabalhadores de Teatro de So Paulo, do Sindicato de Ferrovirios da Companhia Mogiana (BITTENCOURT, 1998, p. 140-147). A estncia se imprime no mapa da cidade em diferentes momentos: em 1932, a cidade dividida em trs zonas residencial, comercial e sanatorial, ato ratificado em 1933, que amplia a zona sanatorial e incorpora uma quarta zona s trs primeiras a industrial. No ano de 1954, a rea sanatorial mantida, com acrscimo de nova regio, a aeronutica (BELCULFIN, 2000). Dos oito sanatrios da cidade, apenas dois no se localizavam na zona sanatorial: eram tambm os nicos de propriedade particular; Sanatrios Ruy Dria e Sanatrio So Jos (BITTENCOURT, 1998, p. 56-136). Os sanatrios imprimiram tambm na vida da cidade o ritmo cadenciado e disciplinar dos horrios: Teixeira (1994) comenta o estranhamento dos recm-chegados estudantes do Instituto Tecnolgico de Aeronutica (ITA) em 1950, dos hbitos alimentares (municipal) cesta ps-prandial. As penses confundiam-se com os sanatrios. Aps a decretao de estncia, cadastravam os inquilinos e encaminhavam o cadastro ao posto de higiene e prefeitura, e notificavam todos os casos suspeitos de tuberculose. Construdas sob normatizao sanitria, em muitos aspectos assemelhavamse aos sanatrios, inclusive em seu rgido e disciplinado funcionamento (quantidade e tipo de refeio servida e mtodos de higienizao). Mesmo273

com as inmeras penses instaladas na cidade (chegaram a cerca de 26 at o ano de 1960), muitas residncias particulares ainda acolhiam doentes, como fonte de renda no municpio de poucas alternativas financeiras. Savastano (2003, pgina 11) recorda o papel de personagens que conduziam ou transitavam em torno das penses: os religiosos levando aos doentes o conforto espiritual, bem como as donas das penses: Aquelas mulheres eram verdadeiras mes daqueles jovens, eram todos jovens [...], os aplicadores de injeo [...] tinham a bicicleta com aquela parafernalha, direitinho, no eram farmacuticos [...] iam porque tinham aquela funo, tantas injees que tinham que aplicar, todos os remdios que tinham que dar. Essas penses receberam os estudantes do ITA e os trabalhadores da indstria na dcada de 1950. No ano de 1952, dos 20 estabelecimentos de hospedagem da cidade, dez ainda eram sanatoriais. Em 1959, ainda havia duas penses sanatoriais e nove hospitais especializados em tuberculose, demonstrando, de um lado, a persistncia funcional de estncia de repouso e tratamento na cidade j industrializada (SO JOS DOS CAMPOS, 1961) e, de outro, a adaptao dos equipamentos pblicos e privados para o novo ambiente social que se institua, a cidade moderna, do meio tcnico industrial, da inovao, da informao. O documento de planejamento urbano de 1961 afirma, ao constatar a persistncia funcional da estncia: No entanto, os joseenses desejam esquecer de modo definitivo esse perodo, orgulham-se de ter conseguido expulsar do centro as casas que recebiam doentes, apreciam afirmar que a cidade se transformou de maneira radical e nada mais conserva das caractersticas anteriores (SO JOS DOS CAMPOS, 1961[no consta esse ano] p. II. 7.1[qual o significado um documento tcnico, e esta a numerao da pgina ?]) Torna-se claro, tanto pelas entrevistas como pelos registros escritos, que, diretamente vinculada ao desenvolvimento urbano, a tuberculose pairava como uma incmoda necessidade, uma sombra sobre a cidade de clima e povo abenoados, nascida para o progresso. No momento em que a industrializao se concretizava, no havia possibilidade de coexistncia entre a cidade sanatorial e a cidade industrial: um novo lugar seria conferido tuberculose. Porm sua presena ficaria impressa na reorganizao dos servios de sade que se anunciava.

De tecnologia paisagem: a extino da estnciaO movimento de declnio da estncia climtica como motriz da cidade se inicia em 1950, com trs marcas tradicionalmente reconhecveis: a instalao do Centro Tcnico Aeroespacial (CTA); a inaugurao da Via Dutra; e a vinda das primeiras indstrias de grande porte, que configurariam274

o padro industrial local caracterstico, voltado ao setor aeroespacial. Embora este processo tenha sido concomitante descoberta de drogas para o tratamento da tuberculose9, modificando a abordagem teraputica da doena, a transformao da cidade, seus espaos, sua funo e a configurao de seus servios de sade no foi imediata. A duplicidade de funes da cidade perdurou at o incio da dcada de 1960, em longos 20 anos de transio. Foi no espao sanatorial, privilegiado pelo investimento pblico com infra-estrutura, que se concentraram os equipamentos pblicos e privados de servios incluindo os de sade, que teriam sua finalidade transformada bem como a rea de moradia da populao de mais alto poder econmico. Souza e Soares (2002, p. 84) apontam a topologia privilegiada da Zona Sanatorial e a proximidade com o ncleo urbano como fatores que influenciaram a especulao imobiliria que se seguiu desativao da rea na dcada de 1950. J no final da dcada de 1940, a prefeitura aprovou um projeto de loteamento de alto padro, baseado no conceito europeu das cidades-jardim, um espao privilegiado [...] incrustado na nobre zona sanatorial (SOUZA; SOARES, 2002, p. 82). A especulao ocorreria na rea central e, na mesma medida, s margens da Rodovia Presidente Dutra. O sistema de sade local guarda igualmente as marcas deste perodo, que delineia o caracterstico contorno dual observado no pas: ao lado do sistema pblico constitudo, um robusto sistema privado, com alta densidade tecnolgica, ligado industria e seus convnios, numa marcada transio. Com o advento do tratamento e a mudana do perfil epidemiolgico, a tuberculose deixa de ser objeto de interesse privado e passa definitivamente para a esfera pblica. A rede sanatorial da cidade, a quantidade de penses, os circuitos estabelecidos em torno da doena revelam a lgica progressista, voltada ao capital na edificao dos sanatrios da cidade no incio do sculo XX, possibilitada pela articulao de mdicos, polticos e capitalistas da cidade. Do mesmo modo, a beleza e arejamento de suas construes marcaram a cidade na dcada de 1940 e influenciaram o cotidiano da cidade, que vivia entre o temor do contgio e a nsia pelo progresso. Os sanatrios construdos, distribudos em toda a cidade, extravasando os limites impostos pelo planejamento urbano da zona sanatorial, revelam a importncia desses estabelecimentos para a cidade de ento e as relaes entre o poder pblico e o privado, bem como a resignificao local das diretrizes estaduais da poltica de sade, apropriadas de maneira particular em prol do desenvolvimento da cidade, e a influncia na configurao do sistema local nas dcadas que se seguiram.[no citao; erro de diagramaocitao sem referncia] Nessa ruptura com o passado, os sanatrios perdem seu simbolismo de tecnologia, segurana e modernidade para permanecerem no tecido urbano na forma de paisagem (como parque arborizado no centro nobre da cidade) ou, para a cidade, como objeto-testemunha, memria arquitetnica de um passado de atraso e receio. Certamente essa representao merecer ser revisitada...9 A estreptomicina foi descoberta em 1944, a pirazinamida em 1949 e a isoniazida em 1950 (Bertolli Filho, 1993).

275

Quadro 1 Leitos hospitalares para tuberculose em funcionamento no Brasil, em 1956, segundo incio de funcionamento e natureza do estabelecimentoInaugurao Nmero de estabelecimentos. Nmero de leitos Localidade Sem nformao 1931-45 1946-56 Federal At 1930 CNCT/ MES Sem auxlio CNCT/ MES Sem auxlio Natureza Pblico Estadual Privado

Outro 7* 1 2 1 1 1 1 7

DF (RJ) Campos do Jordo Belo Horizonte So Paulo So Jos dos Campos Salvador Recife Belm Petrpolis Bauru Curitiba Fortaleza Manaus Niteri Nova Friburgo Porto Alegre Aracaj Araraquara Botucatu Campos Catanduva Cuiab Florianpolis Joo Pessoa Juiz de Fora Lapa Lins Macei Natal Rezende So Jos dos Pinhais So Luis Sta Rita do Passa quatro Trememb Vitria Total

15 11 9 9 8 5 4 3 3 2 2 2 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 100

4.978 1.528 1.359 2.627 885 1.370 1.689 1.009 430 300 246 444 480 463 262 1.172 60 600 1.000 339 600 38 100 101 366 300 1.000 200 114 200 300 152 800 50 235 25.797

1 1 2 2 1 7

3 2 5 2 1 1 1 1 1 17

1 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 20

5 5 2 4 1 3 1 1 2 1 1 26

1 1 2 4 1 1 1 1 1 1 14

4 1 3 2 1 1 1 1 1 1 16

2 1 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1

2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 -

6 11 10 5 8 4 3 1 1 1 1 1 1 53

15 19

Fonte: as autoras, com base em: BITTENCOURT (2000, p. 54-60: Estudos de Zoneamento do Brasil para a execuo da Campanha Nacional contra a Tuberculose, 1949) e Ribeiro (1956). Acrnimos:CNCT Campanha Nacional de Combate Tuberculose; MES- Ministrio da Educao e Sade[todas as fontes devem constar da lista de referncias com dados completos]..

276

Tabela 1 Leitos hospitalares para tuberculose em funcionamento no Estado de So Paulo, em 1953, segundo natureza.Municpio Capital Campos do Jordo So Jos dos Campos Total dos trs municpios Total do Estado Gratuitos 1.858 918 367 3.143 4.762 % 94,8 58,6 44,8 Pagos 102 648 453 1.203 1.215 Total 1.960 1.566 820 4.346 5.977 % 32,8 26,2 13,7 72,7

Fonte: MASCARENHAS (1953, p. 224).

Quadro 2 - Sanatrios de So Jos dos Campos segundo ano de fundao, nmero de leitos, instituio mantenedora, pblico alvo, fim das atividades sanatoriais e situao em julho/2004Ano de fundao 1924 Nome do Sanatrio Vicentina Aranha No Leitos Instituio mantenedora Santa Casa de So Paulo Associao Evanglica Beneficente Particular Instituto das Pequenas Missionrias Fim de atividade Dcada de 1960 Situao atual Patrimnio histrico Hospital geritrico, desativado Fundao Valeparaibana de Ensino (conservado) Demolido Casa de repouso para idosas, propriedade das Pequenas Missionrias Demolido Espao ocupado atualmente pelo Parque Municipal Santos Dumont Patrimnio, propriedade da Prefeitura Municipal de So Jos dos Campos Demolido Preservado Hospital Infantil e Maternidade

270

1934

Vila Samaritana

121

1967

1934

Ruy Dria

100

1961

1935

Maria Imaculada

93

1978

1936

Ezra

120

Sociedade Ezra de Beneficncia

Incio dcada 1970

1938

Adhemar de Barros

110

Liga de Assistncia Tuberculose Particular Instituto das Pequenas Missionrias

?

1946 1952

Sanatrio So Jos Antoninho Rocha Marmo

58 50

1983

Fonte: as autoras, com base em: MLLER (1969); BITTENCOURT (2000); BELCULFIN (2000).

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Os servios de sade no estado de So Paulo: seletividades geogrficas e fragmentao territorialEliza Pinto de Almeida1 Ricardo Mendes Antas Jr.2

IntroduoDo ponto de vista do fortalecimento da cidadania no Brasil, a institucionalizao do Sistema nico de Sade (SUS) representa uma vitria da nossa sociedade. A luta pelo direito sade pblica comea a se delinear j nos primeiros anos da ditadura militar, quando o governo organizou um sistema excludente, pautado em servios que tinham no hospital privado o seu principal centro de referncia. Com essa proposta, atendia-se sobretudo parcela da populao brasileira cujos chefes de famlia estavam inseridos no mercado formal de trabalho. A concentrao dos servios mdico-hospitalares nas fraes mais dinmicas do territrio brasileiro e a excluso da maioria dos trabalhadores brasileiros e de seus familiares marcam as aes dos militares nas polticas de sade. Nesse contexto que se organizam os primeiros movimentos pela reforma sanitria envolvendo mdicos sanitaristas e outros profissionais da sade, universidades, igrejas, movimentos sociais. O captulo da Constituio de 1988 que afirma que a sade um direito de todos e um dever do Estado um desdobramento dessas lutas, iniciadas 20 anos antes. E os 20 anos posteriores Constituinte exigiram flego ainda maior para que o SUS no se tornasse letra morta. De fato, s em 1993, aps o impechement do presidente Fernando Collor de Mello, que se inicia a implantao do SUS, com a edio da primeira Norma Operacional Bsica (NOB). O aperfeioamento do SUS exigiu a edio de novas normas, e desse modo que surgem as normas NOB/96, NOA 2001/2002, proporcionando ajustes e adequaes s realidades regionais do pas. A presente anlise busca traar lineamentos sobre como o SUS se espacializa no territrio paulista, focalizando as concentraes que se1 2 Professora doutora do Instituto de Geografia Desenvolvimento e Meio Ambiente UFAL Professor doutor do Departamento de Geografia FFLCH/USP

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manifestam no territrio e suas relaes com a urbanizao, sem deixar de lado os condicionamentos mais gerais relacionados formao socioespacial brasileira.

A estrutura organizacional do SUS no territrio brasileiroO SUS um complexo sistema organizacional que busca harmonizar uma srie de variveis que compem a prestao de servios de sade para toda a sociedade brasileira. Esses servios combinam, em grande medida, compra, uso e manuteno de equipamentos tecnolgicos bsicos ou sofisticados; o conhecimento cientfico e a prtica disciplinar mdica, com fomento a fundaes e institutos de pesquisa; a ampliao da responsabilidade dos municpios na prestao do atendimento populao, garantindo o processo de descentralizao; a transferncia de recursos da Unio para estados e municpios; a garantia da assistncia bsica; a vinculao de repasses de verbas ao cumprimento de programas do governo federal para aes de sade; mais a participao da comunidade na gesto do sistema, atravs dos conselhos municipais de sade. Nas dimenses territoriais do Brasil, o sistema normativo ordenado que compreende o SUS adquire feies particulares segundo as demandas prprias a cada regio do espao geogrfico. A importncia dessa poltica pblica que tem hoje 20 anos de existncia pode ser dimensionada quando constatamos que dos 186 milhes de brasileiros (2008), cerca de 140 milhes dependem exclusivamente desse sistema. Para que seja possvel essa ampla cobertura, o sistema emprega 86,2% do total de 1.580.546 profissionais de sade que h no Brasil. Outros nmeros ainda chamam a ateno sobre os recursos humanos do SUS: tomando o territrio como um todo, dos 600 mil com formao na rea de sade em nvel de ensino superior, 77,1% fazem parte desse sistema pblico. Entre os que trabalham no SUS, a proporo de 1 formado em nvel superior para cada 3 profissionais e, vale lembrar, 76,5% dos profissionais formados em medicina no Brasil atuam no sistema. Esses dados so referentes a agosto de 2008, segundo o DATASUS. Esse complexo sistema organizacional realizou, em 2006, 475,3 milhes de consultas, das quais 129,1 milhes (27,2%) concernem apenas ao estado de So Paulo. J Minas Gerais, que tem aproximadamente metade do total da populao paulista, participa com apenas 9,8%; o Rio de Janeiro, 9,6%; a Bahia, 6,4%; o Rio Grande do Sul, 4,9%. Essa concentrao de consultas no estado de So Paulo reflexo do elevado grau de concentrao das estruturas do SUS. Dos profissionais formados em ensino superior que trabalham no sistema, So Paulo detm 25,3% do total, sendo que a concentrao de mdicos ainda mais elevada: 27,2%.282

As explicaes dessa concentrao relacionam-se ao fato de que o territrio brasileiro tem um alto grau de modernizao seletiva, isto , historicamente, a concentrao das infra-estruturas e das firmas privilegiou o territrio paulista, o que acabou por configurar uma urbanizao corporativa. A concentrao dos recursos fiscais em mos do governo federal desde o incio da repblica, contrariando o princpio federativo, permitiu escolher livremente a geografizao dos equipamentos coletivos, condicionando as aes atuais que reforam essa lgica, pois os interesses corporativos em mant-la so de grande fora de persuaso nos meios polticos e sociais. Trata-se de uma lgica em que [...] h, de um lado, premeditada escolha das infra-estruturas a instalar e de sua localizao, com a criao de equipamentos do interesse especfico de certas atividades. De outro lado, tomamse disposies para facilitar o intercmbio internacional e interno, mediante incentivos tanto genricos como particulares a cada caso, que vo desde as tarifas de favor nos Correios e Telecomunicaes, ao estabelecimento de linhas de crdito. (SANTOS, 1993, p. 107). O atual complexo mdico-hospitalar tributrio dessa concentrao. Por isso, h que se considerar entre suas causas os capitais e a fora de trabalho relacionados indstria e aos servios do complexo industrial da sade (GADELHA, 2006), tais como a fabricao de produtos farmacuticos e de aparelhos para usos mdico-hospitalares e odontolgicos; o comrcio desses produtos e aparelhos, e a assistncia mdica suplementar. Em 2005, esse conjunto de setores empresariais envolviam, no territrio nacional, 928.494 trabalhadores e movimentavam 57,1 bilhes de reais, aproximadamente um tero do total de 181,8 bilhes das atividades relativas sade nesse ano (IBGE, 2008). Desse modo, tanto o Estado e o papel das universidades pblicas a crucial quanto as corporaes acabam produzindo uma expanso urbana corporativa, condicionadora e tambm condicionada pela expanso do SUS, que investe fortemente em instalaes pblicas no interior do estado (complexos hospitalares, centros de pesquisa, universidades em cooperao com Estado e corporaes). Os investimentos em sade feitos pelo SUS no estado de So Paulo tm direcionado novas centralizaes de empresas ligadas ao setor da sade, colaborando, assim, para a composio de classes mdias com elevado poder aquisitivo no interior do estado, o que delineia claramente o processo de urbanizao corporativa apontado por Milton Santos em A urbanizao brasileira (1993) e Metrpole corporativa fragmentada (1990). Como diz o autor em Por uma economia poltica da cidade [...] a cidade constitui, em si mesma, o lugar de um processo de valorizao seletivo. Sua materialidade formada pela justaposio283

de reas diferentemente equipadas, desde as realizaes mais recentes, aptas aos usos mais eficazes de atividades modernas, at o que resta do passado mais remoto, onde se instalam usos menos rentveis, portadores de tcnicas e de capitais menos exigentes. Cada lugar, dentro da cidade, tem uma vocao diferente, do ponto de vista capitalista, e a diviso interna do trabalho a cada aglomerao no lhe indiferente. Assim, s diversas combinaes infra-estruturais correspondem diversas combinaes supraestruturais especficas. (SANTOS, 1994, p. 129-130).

Urbanizao corporativa e seletividades geogrficas do SUS A universalizao do sistema de sade pblico no Brasil e seu funcionamento enfrentam enormes desafios, sabidamente ligados s disparidades econmicas, culturais e socioespaciais e tambm ao predomnio de interesses privados sobre os pblicos, freqentemente considerados de modo desarticulado. Disso decorre o retrato da sade veiculado nos meios de comunicao, que conduz a uma viso de caos generalizado e total falncia do sistema pblico de sade. Filas nos pronto-socorros, falta de mdicos, dificuldades para marcar consultas, aparelhos quebrados, pacientes tratados de maneira desumana fazem parte do cotidiano vivido por muitos brasileiros, mas tambm verdade que desse sistema depende a maioria da populao e no em qualquer parte do territrio que tais deficincias so crnicas. O acesso aos equipamentos e servios de sade varia em cada poro do territrio, mormente nas regies metropolitanas, que concentram a maior parte dessas estruturas, onde o acesso ao sistema mais rpido, mas o uso dos equipamentos e servios mais lento. Essa situao se explica pela relao entre o nmero de equipamentos e o total da populao concentrada nas regies metropolitanas. A universalizao da sade, nesse sentido, tem sido uma ferramenta importante no combate aos problemas decorrentes dessas desigualdades. Mas, para que a universalizao se concretize, preciso que a sociedade brasileira se aproprie do SUS, que pressione os poderes por polticas pblicas efetivas, ainda que ferindo interesses de multinacionais do setor farmacutico, de indstrias de equipamentos mdico-hospitalares, de hospitais privados e empresas privadas de medicina. A prpria formao dos profissionais da sade oferecida nas universidades prioriza a especializao em detrimento da formao de mdicos generalistas e est pautada na medicina curativa, no na preventiva o que em muito se tem revelado funcional aos interesses corporativos. A medicina preventiva, ao impedir que o corpo adoea precocemente, contraria investimentos vultosos em equipamentos284

tecnolgicos sofisticados, materiais especficos para o complexo hospitalar e a prpria expanso do sistema hospitalar. Citamos aqui duas importantes campanhas de preveno em que o governo federal vem atuando com vistas a atenuar impactos no SUS: - o combate ao tabagismo: Entre 1996 e 2005, houve mais de 1 milho de internaes atribuveis ao tabagismo (...) As internaes atribuveis a todos os grupos de enfermidades (cncer, DIC, influenza e pneumonia) custaram um total de R$ 1,1 bilho (preos de 2005) (IGLESIAS, 2007, p. 52-53); - campanha contra acidentes de trnsito: Quanto s internaes no Sistema nico de Sade (SUS), dados de 2006 indicam que foram 123.061, ao custo de R$ 118 milhes. A maioria das internaes (41.517) ocorreu por atropelamentos, seguidos pelos acidentes com motociclistas (34.767) (Ministrio da Sade, 2007, p. 2). H, no entanto, um amplo conjunto de doenas que no so alvo de campanhas intensivas do Estado, para as quais no h polticas de preveno, que, se fossem implementadas, poderiam transformar profundamente a relao da populao com o SUS, que hoje um sistema encarregado de cuidar das doenas, administrando-as, e raramente capaz de elimin-las ou preveni-las. Um sistema assim construdo acaba por favorecer setores econmicos que se desenvolvem em torno da lgica da administrao da doena. Temos, portanto, um pesado sistema que funciona em direo contrria da preveno e que draga os recursos na direo dos interesses corporativos, em duplo sentido: em favor das corporaes empresariais do setor que tm interesse na expanso hospitalar do SUS e da corporao mdica, que tem vrios interesses ligados diviso do trabalho especfica na medicina, que hoje de grande complexidade e extensa complementaridade entre as especialidades, dependendo, por isso, de verbas para pessoal, instalaes fsicas e institucionais, alm das pesquisas de ponta. Numa medicina assim altamente tecnologizada, h a gerao de demandas convergentes com os interesses corporativos empresariais, realimentando um ciclo de necessidades. A medicina preventiva no excluiria a medicina curativa, no entanto, esta ltima, pelas razes mencionadas, tem ganhado no brao de ferro sobre as disposies dos oramentos pblicos. No estado de So Paulo, a confluncia dos interesses corporativos assume propores significativas, influindo, inclusive, no processo de urbanizao por isso a denominamos urbanizao corporativa. Se tomarmos como parmetro as empresas de fabricao de aparelhos e instrumentos para usos mdico-hospitalares, odontolgicos e laboratoriais e de aparelhos ortopdicos, as empresas de fabricao de produtos farmoqumicos, as empresas de fabricao de medicamentos para uso humano e as empresas de fabricao de materiais para usos mdicos, hospitalares e odontolgicos, anotaremos um total de 1006 unidades (RAIS Atlas de competitividade da Indstria Paulista, 2008). A metrpole paulistana, com285

412 dessas empresas, Ribeiro Preto, com 68 delas, e Campinas, com 36, so as trs cidades que mais concentram esse tipo de empresa, mas h mais concentraes significativas em todo o estado, conforme mostra o mapa 1. Mapa 1 Uma das causas da urbanizao corporativa o fato de essas cidades concentrarem os servios hospitalares de alta complexidade3 (mapa 2), pois so mais exigentes em relao manuteno e renovao tecnolgica e recebem maiores volumes de investimento por parte do SUS, garantindo, via de regra, vultosos lucros para os investidores privados. possvel perceber, conforme o mapa 2, que a lgica que preside a localizao dessas empresas est relacionada com as cidades que concentram os complexos hospitalares expressos pela disponibilidade de equipamentos de alta complexidade e que ambos (empresas e complexos hospitalares) esto fortemente vinculados aos principais eixos virios do territrio paulista. Mapa 2 As concentraes de mdicos no estado (mapa 3) apresentam um padro semelhante s concentraes dos servios de alta complexidade e principalmente das indstrias ligadas aos complexos hospitalares. Esses dados, associados, ressaltam o aspecto corporativo da urbanizao paulista, posto que h uma forte cooperao entre profissionais, empresrios e instituies cujo objeto de interesse comum a sade transformada em setor econmico. Todos esto, assim, bastante vinculados e dependentes do SUS e de seus planos de expanso no mbito da tecnologia e dos recursos humanos.3 Os servios hospitalares de alta complexidade incluem as seguintes especialidades: centros de alta complexidade em oncologia com radioterapia e/ou quimioterapia; cirurgia cardaca, marca-passo, cardioversor desfibrilador implantvel, marca-passo multi-stio; laboratrio de eletrofisiologia; tratamento endovascular; implante coclear; programa de assistncia ventilatria no invasiva aos portadores de distrofia muscular; tratamento da epilepsia; gastroplastia; tratamento de lbio palatal; unidades de cuidados especiais em queimaduras; ortopedia.

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Mapa 3 O processo de expanso do SUS, associado s dinmicas que se desenrolam nos demais setores econmicos dinamizados pelas prticas sociais acaba por correspondentes4, transformar gradativamente as funes e as estruturas que, num movimento conjunto, conduzem a prpria urbanizao para uma lgica socioespacial indita. assim que [...] o arranjo espacial das cidades muda, tanto pelo seu tamanho consideravelmente aumentado, como pela sua localizao mais dispersa. Mudam, sobretudo, suas funes. As cidades so os elos de uma cooperao e de uma regulao que se devem dar em escala nacional, a servio das atividades com dimenso nacional, isto , as grandes empresas e o Estado. Por isso, devem ser localmente equipadas para o exerccio dessa vocao nacional, indispensvel realizao do modelo nacional adotado. (SANTOS, 1993, p. 108). As atividades no-hegemnicas so, em geral, relegadas ao arranjo espontneo do mercado e muitas acomodaes sociais e econmicas ocorrem conforme os condicionamentos oriundos das rugosidades do espao geogrfico5. J as atividades centrais so programadas pelo poder poltico de modo a atender aos interesses do prprio Estado e tambm aos das corporaes. As localizaes mais interessantes ao capital e ao Estado, mas tambm aos segmentos de classe mdia corporativos (em termos de especialidades profissionais) com poder de influncia na formao da opinio pblica, so levadas em conta na hora da geografizao dos investimentos pblicos. [...] A maior parte da evidncia que temos sobre grupos de deciso, barganha, controle do governo central, democracia, burocracia e similares, indica tambm que qualquer organizao social, econmica e poltica que obtm qualquer permanncia suscetvel de cooptao e subverso por grupos especficos de interesse. Numa4 5 A educao e a expanso das universidades pblicas e privadas, mais a constituio de redes de pesquisa e ensino, por exemplo, renem um quadro igualmente complexo que interfere efetivamente na urbanizao corporativa. Rugosidades do espao geogrfico so conjuntos de formas socialmente criadas pelas divises de trabalho pretritas e que permanecem no presente, geralmente com novas funes. Como essas formas que resistem so diferentes em cada poro do territrio, os condicionamentos dinamizam as novas estruturas, iguais a princpio, mas com particularidades regionais em seus funcionamentos. Ver Milton Santos Por uma geografia nova. So Paulo: HUCITEC, 1978.

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democracia constitucional isso usualmente desempenhado por pequenos grupos bem organizados de interesse que acumularam os recursos necessrios para influenciar os tomadores de deciso. (HARVEY, 1980, p. 93). Pode-se perceber assim o carter sistmico da urbanizao corporativa ou, em outros termos, que a urbanizao corporativa tributria de uma lgica do sistema produtivo contemporneo alimentada por diversos segmentos sociais imbudos da cultura do consumo moderno. Este ltimo no se qualifica mais s pela aquisio de bens de interesse individual ou familiar, mas tambm da tecnologia avanada de que as atividades hegemnicas hoje so bastante exigentes. Essas atividades centrais se dispem em rede e sistema, interessando totalidade dos ncleos urbanos, no importa onde estejam localizados. nesse sentido que podemos falar de uma urbanizao corporativa (SANTOS, 1993, p. 109). De modo que o SUS, ao definir as centralizaes dos equipamentos e instituies de sade, re-hierarquiza o sistema urbano, define reas de influncia e periferias, enfim, valoriza o espao de determinadas cidades que exercero regulao e influncia poltica sobre as demais. O sistema urbano contemporneo atual uma rede de cidades, mas h ns da rede mais importantes que outros.

Espaos luminosos e espaos opacos no estado de So PauloA lgica da urbanizao corporativa cria novas centralidades e no capaz de cobrir o territrio de modo homogneo, como mostram os mapas 1, 2 e 3, o que acaba por gerar um padro concentrador de infra-estruturas, firmas, instituies e pessoal qualificado. Esse processo conduz formao de espaos luminosos e espaos opacos no territrio paulista, conforme a oferta e o acesso aos servios de sade. Isso tambm se revela na maioria dos setores econmicos, pois cada centralizao geogrfica de um setor induz outras concentraes, j que os aparatos produtivos instalados reforam a cooperao capitalista mais estreita, sendo a localizao geogrfica um elemento no negligencivel nas vantagens competitivas. [...] Espaos luminosos [so] aqueles que mais acumulam densidades tcnicas e informacionais, ficando assim mais aptos a atrair atividades com maior contedo de capital, tecnologia e organizao. Por oposio, os subespaos onde tais caractersticas esto ausentes seriam os espaos opacos. Entre esses extremos haveria toda uma gama de situaes. Os espaos luminosos, pela sua consistncia tcnica e poltica, seriam os mais suscetveis de participar de regularidades e de uma lgica obediente aos interesses das maiores empresas. (SANTOS e SILVEIRA, 2001, p. 264).288

Estamos, portanto, diante de um processo de criao e re-criao do meio, isto , do espao geogrfico como um produto socialmente construdo. A cada perodo histrico a sociedade transforma, num esforo coletivo, o meio onde ela vive e se reproduz: por vezes temos o meio natural modificado em meio artificializado, mas freqentemente a sociedade procura refuncionalizar o meio j produzido, valendo-se de sistemas tcnicos e organizacionais mais recentes, regulando o territrio para cumprir funes e necessidades emergentes. Esses re-equipamentos do territrio para atender s novas demandas, com sistemas modernos que unem tcnica e cincia, esto sintonizados com o presente (e mesmo com o futuro prximo) e produzem um novo meio, o meio tcnico-cientficoinformacional (SANTOS, 1996, p. 190), correspondente ao perodo de globalizao que atravessamos. A difuso do meio tcnico-cientfico-informacional se d seletivamente no territrio brasileiro, pois a expanso de um meio como esse exige grandes inverses de capitais e no consegue se expandir em todas as direes e em igual ritmo no tempo histrico, o que acaba provocando grandes desigualdades no uso e na ocupao desse novo meio. No caso particular do estado de So Paulo, possvel associar essa difuso desigual criao de espaos luminosos e espaos opacos. Os eixos rodovirios so indutores da expanso do meio tcnicocientfico-informacional e conseqentemente da urbanizao corporativa no estado. Resultam desse processo reas em que a urbanizao se d mais intensamente e nas quais a implementao de fixos bem sucedida6, pois conhecem rpida e eficazmente a presena de fluxos informacionais de todo tipo (ordens, capitais, conhecimentos especializados etc.), tornando-se espaos luminosos em contrapartida aos espaos opacos; s vezes, mesmo quando h alguma densidade tcnica, determinadas pores do espao geogrfico no so capazes de atrair os tipos de fluxo estruturadores do perodo, e permanecem como espaos opacos no territrio, ainda que algum esforo do Estado tenha se realizado em sentido contrrio. Ao observarmos os eixos virios no estado de So Paulo e estabelecermos as relaes com as implementaes dos fixos de sade e com as firmas a eles relacionadas, constatamos que esto a as principais reas luminosas do territrio paulista: 1) A rodovia Presidente Dutra (BR 116), que liga a metrpole paulista com o estado do Rio de Janeiro, passando pelo Vale do Paraba, onde encontramos importantes centros urbano-industriais como So Jos dos Campos, Jacare, Taubat e Guaratinguet. Em So Jos dos Campos temos um importante centro aeroespacial, alm de instituies como o Instituto Tecnolgico da Aeronutica (ITA) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referncias na rea de pesquisa cientfica e tecnolgica.6 Os fixos nos do o processo imediato do trabalho. Os fixos so os prprios instrumentos de trabalho e as foras produtivas em geral, incluindo a massa dos homens (SANTOS, 1988, p. 77). Podemos considerar, ento, como fixos de sade os hospitais, clnicas de sade, postos de atendimento e at mesmo as indstrias relacionadas ao setor de sade, mais toda a fora de trabalho necessria para a dinamizao desses elementos que so fixos no territrio e que esto em constante relao entre si, formando um sistema. Essa relao sistmica dos fixos estabelecida por fluxos materiais e informacionais.

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2) A rodovia Washington Luiz (SP 310), um prolongamento da via Anhangera em direo a So Jos do Rio Preto, que passa por ncleos urbano-industriais importantes como Rio Claro, So Carlos, Araraquara, Catanduva e outros menores. O destaque o plo tecnolgico de So Carlos, um importante centro de pesquisa direcionado engenharia, fsica e qumica, por intermdio da Universidade Federal de So Carlos (UFSCar) e o campus da Universidade de So Paulo (USP). Conta, tambm, com o Parque de Alta Tecnologia de So Carlos, fundado em 1984 e uma incubadora de pequenas empresas criadas em 1986. 3) As rodovias Anhangera e Bandeirantes (SP 330; SP 348), que passam pela Regio Metropolitana de Campinas em direo ao centro agroindustrial de Ribeiro Preto. 4) A rodovia Castelo Branco (SP 280), que passa por cidades importantes como Sorocaba e Itu em direo a Botucatu e Bauru. Podemos destacar, em Sorocaba, o campus da UFSCar e o da UNESP. justamente para essas parcelas do territrio paulista que os investimentos pblicos e privados tm se destinado nos ltimos anos, processo que pode ser melhor percebido a partir da dcada de 1980, quando assistimos intensificao do processo de disperso industrial, com a sada de muitas unidades produtivas da Regio Metropolitana de So Paulo em direo ao interior do estado, em funo de estratgias especficas de acumulao de capital do setor. Alm da densidade das redes de transporte e de comunicao, podemos apontar a existncia de universidades com tradio em pesquisa (Unicamp, Unesp, UFSCar, PUCCamp), a presena de mo-de-obra especializada e a facilidade de comunicao com a metrpole paulistana. A reunio de uma expressiva classe mdia se traduz na constituio de um mercado de consumo importante: no ranking das cidades com maior nmero de famlias ricas do pas (PORCHMANN e AMORIM, 2003) v-se que a maioria delas est localizada nesses eixos rodovirios. Contrastando com esses espaos luminosos, reconhecemos os espaos opacos, nos quais as vias de acesso so, em grande parte, precrias, como no Vale do Ribeira, no Litoral Sul e no Pontal do Paranapanema, onde a pobreza da populao e a falta de dinamismo econmico decorrem da seletividade dos investimentos pblicos e privados. A maior densidade tcnica e organizacional da sade em determinados espaos no territrio paulista pode ser constatada quando observamos a distribuio de determinados tipos de equipamentos, e aqui selecionamos os equipamentos de diagnstico mais freqentemente utilizados pela medicina hegemnica (mapas 4, 5, 6 e 7), sintonizada com os produtos gerados pelas corporaes da sade, evidenciando, com isso, que a diretriz hoje dominante no SUS, alm de gerar um alto custo, incapaz de atender a curto prazo proposta de universalizao. Sobretudo se considerarmos que, se h insuficincias no territrio federado mais rico do pas, nos demais entes da federao a situao pode ser mais grave.290

Mapa 4

Mapa 5

Mapa 6

Mapa 7

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Os servios de sade so vistos tambm como um bem de consumo que gera novas possibilidades produtivas. Campinas, Ribeiro Preto, So Jos do Rio Preto e So Jos dos Campos so importantes centros de referncia. Universidades pblicas USP, Unesp e Unicamp em cidades que esto nos principais eixos rodovirios criaram uma geografia privilegiada nesses lugares, favorecendo o trnsito de pacientes entre diversas partes do territrio, inclusive de outros estados do Brasil, acelerando o crescimento dos servios mdicos e despertando o interesse de ramos diversos da indstria de equipamentos mdico-hospitalares, da farmacutica e das empresas de sade. Como observa Milton Santos (1989), as aes governamentais relacionadas com os servios pblicos da cidade estimulam nela, indiretamente, novas criaes. Assim, a construo de um hospital ocasiona automaticamente o estabelecimento de mdicos particulares, enfermeiras e, s vezes, mesmo laboratrios anexos; isto faz crescer o poder social da cidade (p. 111). A seletividade com que o poder pblico foi atuando no territrio brasileiro tem ampliado a ao de um conjunto reduzido de cidades que v seu poder constantemente reforado. Cada um desses ricos municpios, entretanto, apresenta problemas como a falta permanente de mdicos nos lugares mais perifricos. Neles, a baixa qualidade dos servios de sade em certas reas propicia a reincidncia de doenas relacionadas pobreza, como a tuberculose, a dengue e quadros permanentes de subnutrio. Desse modo, nas cidades ricas do interior paulista, a dialtica dos espaos luminosos e opacos se reproduz, conseqncia da seletividade das modernizaes ocorridas nesses municpios. No so todos os lugares tocados igualmente pelo processo de difuso do meio tcnico-cientfico-informacional. Esses problemas no aparecem nos guias que traam panoramas para os potenciais investidores no setor, enfatizando os lugares com maiores investimentos tcnico-cientfico-informacionais, como se eles representassem a totalidade da realidade municipal. Os servios de sade de mdia e alta complexidade (LABASSE, 1982), sobretudo, entram como um ingrediente para alimentar a guerra dos lugares, que buscam atrair novos investimentos para seus respectivos municpios. Desse modo, aqueles lugares mais privilegiados do ponto de vista das modernizaes e das rendas tendem a ser atrativos aos sistemas complexos, ao passo que regies carentes e pobres ficam relegadas aos equipamentos bsicos (se tanto), criando um crculo vicioso que s pode ser alterado com a presena de um Estado capaz de impor uma nova regulao da vida social nos lugares (ALMEIDA, 2005). Por conta desse crculo vicioso, o uso do territrio nos espaos opacos fica limitado pela precariedade dos sistemas de movimentos do territrio. As vias de circulao que no interessam aos grandes capitais so, de modo geral, praticamente esquecidas, dificultando os deslocamentos e limitando o uso do territrio pelos agentes no-hegemnicos, o que engloba a grande parte da populao, que, embora tenha direitos, acaba no tendo acesso ao SUS nas suas distintas hierarquias.292

Consideraes FinaisPara que o preceito fundamental do SUS a universalizao se torne uma realidade nos lugares opacos, preciso garantir-lhes uma fluidez que funcionalize a medicina preventiva, orientando recursos pblicos para polticas de sade eficazes no atendimento das populaes que vivem em pores do territrio sem grandes concentraes urbanas. As aes podem ser mais adaptadas s condies especficas de cada poro do espao geogrfico e no impor necessariamente mais implementaes tcnicas e normas rgidas que preservam a lgica corporativa na sade. A difuso seletiva dos sistemas de objetos e de aes vinculados aos servios de sade tornou ainda maiores as desigualdades entre os lugares e entre as pessoas. Esta anlise dos servios de sade no territrio busca mostrar como a urbanizao corporativa no estado de So Paulo exerceu um papel preponderante na distribuio desigual desses servios, do que decorre a existncia de espaos luminosos e opacos. Cada vez mais, a estruturao de uma rede privada de servios de sade vinculada s aes curativas tem se expandido apenas para as partes mais dinmicas do territrio paulista, reiterando a lgica da urbanizao corporativa. importante garantir a fluidez de servios de sade por todo o territrio do estado para atender meta da universalizao, mas isso no exige que se imponha a mesma lgica, com a implementao de fixos semelhantes queles da medicina corporativa. O combate desigualdade, no que tange sade, est estritamente relacionado maior proximidade entre a populao e os profissionais da sade, principalmente os mdicos, para orientao sobre hbitos saudveis, preveno de problemas bsicos relativos s prticas pessoais e sobre cuidados com os ambientes da vida cotidiana, deixando, assim, os complexos hospitalares para o tratamento de problemas ligados s patologias, em vez de problemas crnicos relativos baixa qualidade de vida de populaes que, por falta de acesso a informao especializada e desconhecimento de procedimentos adequados, adoecem. A concentrao dos servios de sade em grandes centros urbanos, somada aos crescentes recursos pblicos destinados a sua manuteno e ampliao, tem comprometido as principais metas do SUS. O SUS no um sistema autnomo, e sua concretizao depende do conhecimento da dinmica territorial atual. Reconhecer a existncia dos espaos opacos e estabelecer polticas voltadas s demandas caractersticas dessas fraes do territrio, sem que, para isso, se expanda a urbanizao corporativa, que custosa e perversa, j seria um sinal de transformao importante na orientao do SUS. Para que esse sistema pblico de sade se concretize como um elemento de justia social, preciso assumir uma orientao poltica voltada s necessidades da populao, o que pressupe um pacto entre as diversas instncias de poder (municipal, estadual e federal) e um projeto293

nacional comprometido em combater as desigualdades socioespaciais do territrio brasileiro. Nas atuais condies econmicas da formao socioespacial brasileira, trata-se de uma reorientao da lgica de expanso do Sistema nico de Sade, e no simplesmente de aumentar o volume de investimentos, que sempre se anuncia como nico bice para sua ampla consolidao.

RefernciasALMEIDA, E. Uso do Territrio Brasileiro e os servios de sade no perodo tcnico-cientfico-informacional. Tese de doutorado apresentada no Departamento de Geografia da Universidade de So Paulo, 2005 (314 p.). BRASIL. Ministrio da Sade. Avaliao do Ministrio da Sade indica aumento dos acidentes. Boletim Eletrnico. Secretaria de Vigilncia em Sade em Rede, n. 27, mar. 2007. GADELHA, C. A. G. Desenvolvimento, complexo industrial da sade e poltica industrial. Revista Sade Pblica, So Paulo, v. 40, n. spe, 2006, (pp. 11-23). Disponvel em . Acesso em: 19 Jun. 2008. doi: 10.1590/S0034-89102006000400003. HARVEY, D. A justia social e a cidade. So Paulo: Hucitec, 1980. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATSTICA. Economia da Sade Uma perspectiva macroeconmica 2000-2005. Estudos & Pesquisas Informao Econmica. Ministrio do Planejamento, Oramento e Gesto/Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica. Diretoria de Pesquisas Coordenao de Contas Nacionais, Rio de Janeiro, 2008. _______ Estatsticas da Sade: Assistncia Mdico-Sanitria. Rio de Janeiro, Ministrio do Planejamento, Oramento e Gesto/ IBGE Diretoria de Pesquisas Coordenao de Populao e Indicadores Sociais 2006. IGLESIAS, R. et al. Controle do Tabagismo no Brasil. Documento de Discusso Sade, Nutrio e Populao (HNP). Washington: Departamento de Desenvolvimento Humano do Banco Mundial, Regio da Amrica Latina e do Caribe, 2007. LABASSE, J. La ciudad y el hospital. Geografia hospitalar. Madrid: Instituto de estudios de administracion local, 1982. LIMA, N. T. (org.). Sade e Democracia: histria e perspectiva do SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. MINISTRIO DA SADE. Avaliao do Ministrio da Sade indica aumento dos acidentes. Boletim Eletrnico. Secretaria de Vigilncia em Sade em Rede. Ministrio da Sade, N 27, maro de 2007.294

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Sobre os autoresAndr Mota possui graduao (1994) e doutorado (2001) em Histria pelo Departamento de Histria da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Huma nas da Universidade de So Paulo (FFLCH-USP). Entre 20062008 recebeu uma bolsa de ps-doutoramento junto ao Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Atualmente, coordenador do Museu Histrico Prof. Carlos da Silva Lacaz, FMUSP. Publicou, entre outros, Quem bom j nasce feito (sanitarismo e eugenia no Brasil) (DP&A, 2003); Tropeos da medici na bandeirante (medicina paulista 1892-1920) (Edusp, 2005); Infncia e sade: pers pectivas histricas (co-autoria) (Hucitec, 2009); So Paulo 1932: memria, mito e iden tidade (co-autoria) (Alameda, 2010). Maria Gabriela S. M. C. Marinho docente da Universidade Federal do ABC (UFABC) e doutora em Histria Social (FFLCH-USP). pesquisadora associada do Museu Histrico da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (MH-FMUSP) e foi professora, por muitos anos, da Universidade So Fran cisco (USF). Publicou, entre outros, os livros Norte-americanos no Brasil: uma hist ria da Fundao Rockefeller na Universidade de So Paulo, 1934-1952 e Elites em nego ciao: breve histria dos acordos entre a Fundao Rockefeller e a faculdade de Medicina de So Paulo 19161931(USF, 2003), nos quais analisa a presena da Fundao Rockefeller em instituies de ensino e pesquisa em So Paulo. Cssia Maria Baddini possui graduao em Histria pela Universidade Es tadual de Campinas (Unicamp) (1991) e mestrado em Histria Social pela Uni versidade de So Paulo (2000). Atualmente professora titular da Universidade de Sorocaba. Tem experincia na rea de Histria, com nfase em Histria do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: cidade, comrcio, econo mia, urbano, feira, poltica. Publicou: Sorocaba no Imprio: comrcio de animais e desenvolvimento urbano (Annablume: Fapesp, 2002). Fernando Salla, socilogo, doutor em Sociologia pela Universidade de So Paulo. Pesquisador Snior do Ncleo de Estudos da Violncia (USP). Professor da Universidade So Francisco. Coordenador-chefe do Departamento de Monografias do Instituto Brasileiro de Cincias Criminais (IBCCRIM). Autor do livro As prises em So Paulo, 1822-1940 (Annablume: Fapesp, 1999).296

Maria Alice Rosa Ribeiro, doutora em Economia pelo Instituto de Econo mia da Unicamp. Livre-Docente em Formao Econmica do Brasil, Faculdade de Cincias e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ps-doutorado no Institute of Latin American Studies, (Ilas), University of London, e na ChemicalHeritage Foundation (CHF), Filadlfia. autora de livros e artigos, dentre os quais Histria sem fim: um inventrio da sade pblica, So Paulo, 1880-1930 (Edunesp, 1994), laureado com o Prmio Jabuti 1994 - Cincias Humanas. Professora adjun ta do Departamento de Economia da Faculdade de Cincias e Letras da Unesp, campus Araraquara (aposentada). Atualmente pesquisadora colaboradora no Centro de Memria Unicamp (CMU), onde desenvolve o projeto Famlias, ne gcios e empresas na economia do Oeste Paulista 1850-1930. Paula Vilhena Carnevale Vianna, mdica, mestre em Infectologia pela Uni versidade Federal de So Paulo (Unifesp) e doutora em Medicina Preventiva pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo. Atualmente pro fessora de Sade Coletiva e pesquisadora do Programa de Planejamento Urba no e Regional da Universidade do Vale do Paraba (Univap), So Jos dos Cam pos (SP). Tania Regina de Luca, professora livre-docente do curso e programa de ps-graduao em Histria, Unesp, campus de Assis, pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq). Alm de artigos em revistas e captulos de livros, publicou O sonho do futuro assegurado: o mutualismo em So Paulo (Contexto, 1990), A Revista do Brasil: Um diagnstico para a (N)ao (Unesp, 1999); Imprensa e cidade (Unesp, 2006, co-autoria com Ana Luiza Martins) e organizou as coletneas Histria da imprensa no Brasil (Contexto, 2008, com Ana Luiza Martins); Franceses no Brasil, sculos XIX e XX (Unesp, 2009, com Laurent Vidal) e O historiador e suas fontes (Contexto, 2009, com Carla Bassanezi Pinsky). Atualmente desenvolve pesquisas sobre a imprensa na Era Vargas. Antonio Celso Ferreira, professor titular do curso de graduao e do pro grama de ps-graduao em Histria da Unesp, campus de Assis. Alm de arti gos em revistas e captulos de livros, publicou A epopeia bandeirante: letrados, ins tituies e inveno histrica (Unesp, 2002), Um eldorado errante: So Paulo na fico histrica de Oswald de Andrade (Unesp, 1996), A conquista do serto (Atual, 2009), com Rogrio Ivano, e organizou as coletneas Encontros com a Histria: percursos histricos e historiogrficos de So Paulo (Unesp, 1999), com Tania de Luca e Zilda Yokoi; Letras e identidades: So Paulo no sculo XX, capital e interior297

(Annablume, 2008), com Marcelo Lapuente Mahl; e O historiador e seu tempo (Unesp, 2008), com Tania de Luca e Holien G. Bezerra. Atualmente assessor editorial da Edi tora Unesp. Marcos Cesar Alvarez, mestre e doutor em Sociologia pela USP, professor no Departamento de Sociologia e no programa de ps-graduao em Sociologia da FFLCH-USP, pesquisador no Ncleo de Estudos da Violncia da USP, tendorealizado ps-doutorado na cole des Hautes tudes em Sciences Sociales, Pa ris. Desenvolve pesquisas empricas ligadas aos temas da violncia, da punio, do controle social e das polticas de segurana, bem como reflexes acerca da teoria sociolgica e do pensamento social no Brasil. Autor de Bachareis, criminologistas e juristas: saber jurdico e nova escola penal no Brasil (1889-1930), (IBCCrim, 2003), e organizador de O legado de Foucault, (Unesp, 2006). Atual mente, bolsista de produtividade em pesquisa pelo CNPq e vice-coordenador do programa de ps-graduao em Sociologia da USP. Ricardo Mendes Antas Jr., graduado em Geografia pela USP (1989), mestre (1995) e doutor (2002) em Geografia Humana pela mesma instituio, com um ano de especializao na Frana Paris I, Sorbonne (1997-98). Atualmente pro fessor do Departamento de Geografia da USP, na cadeira de Geografia Urbana. Tem experincia na rea de Geografia Humana, pesquisando principalmente os seguintes temas: Reestruturao urbana e refuncionalizao do espao, Hegemonia corporativa, Soberania de Estado, Pluralismo jurdico, Globalizao e tecnologias da comunicao e informao. Eliza Pinto de Almeida, gegrafa, doutora em Geografia Humana pela USP e professora do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Marili Peres Junqueira professora adjunta do Departamento de Cincias Sociais (Decis) da Faculdade de Artes, Filosofia e Cincias Sociais (FAFCS) da Universidade Federal de Uberlndia (UFU). Doutora em Sociologia pela Unesp. Maria Lucia Mott (In Memoriam) foi doutora em Histria e desenvolveu pesquisas em histria da Sade desde os anos 1980, comeando com estudos de gnero ainda no incio do desenvolvimento da rea de pesquisa no Brasil. Foi pesquisadora do Instituto Butantan - Laboratrio de Histria da Cincia (Secretaria de Estado da Sade de So Paulo). Coordenou pesquisas,298

publicou trabalhos, reali zou conferncias e participou de eventos ligados a: Histria das polticas, ins tituies e profissionais de Sade; Filantropia; Memria e histria da Sade. Maria Aparecida Muniz, graduada em Sociologia e Poltica pela Fundao Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo (2003). Atualmente efetivo do Ins tituto de Sade e atua em pesquisas na rea de Sade Coletiva na Secretaria de Estado da Sade de So Paulo (SES-SP). Olga Sofia Faberg Alves, graduada em Cincias Sociais, mestranda em Histria Social, pesquisadora do Laboratrio de Histria da Cincia do Instituto Butantan (SES-SP). Marcela Trigueiro Gomes, historiadora e professora da rede pblica muni cipal de So Paulo. Participou do projeto da pesquisa dos Trabalhadores da Sa de junto ao Centro de Memria da Sade - Museu Emlio Ribas (SES-SP). Fatima Aparecida Ribeiro mdica Sanitarista pela Uerj e mestre em Medi cina Preventiva pela FMUSP. Atualmente mdica do Programa Aquarela (Pro grama Intersecretarias do Municpio de So Jos dos Campos - SP para ateno s famlias em situao de violncia domstica) e mdica sanitarista da SES/SP responsvel pela rea tcnica de acidentes e violncias do Grupo de Vigilncia Epidemiolgica XXVII/So Jos dos Campos (SP). Helosa Helena Pimenta Rocha, doutora em Educao pela Universidade de So Paulo (2001) com estgio de ps-doutorado na Universidad de BuenosAires (2007-2008). professora na Faculdade de Educao da Unicamp, membro do Comit Gestor do Centro de Memria da Educao (CMEFE/Unicamp) e co ordenadora do Grupo de Pesquisa Memria, Histria e Educao. Integra a co misso editorial da Revista Brasileira de Histria da Educao. bolsista de Produ tividade em Pesquisa do CNPq e pesquisadora associada do Centro de Investigacin Manes, sediado na Universidad Nacional de Educacin a Distan cia (Madri). Luis Ferla, professor de Histria Contempornea da Unifesp, campus de Guarulhos. Suas investigaes dedicam-se aos temas relacionados aos fenme nos da modernidade e s histrias do corpo. Sobre os determinismos biolgicos no Brasil de entreguerras, publicou diversos artigos e o livro Feios, sujos e malva dos sob medida (Alameda: Fapesp, 2009). Atualmente299

integra a equipe de investi gadores do projeto internacional Polticas pblicas, vida privada y control social: Argentina y las redes eugnicas del mundo latino. Maria Lucia Caira Gitahy, formada em Cincias Sociais (Unicamp, 1976), com mestrado em Histria (Unicamp, 1983) e doutorado em Histria Social (University of Colorado, 1991), professora da Faculdade de Arquitetura e Ur banismo (FAU-USP) desde 1994, tendo-se efetivado em 2000 e feito sua livredocncia em 2002. Foi coordenadora da rea de Concentrao em Histria e Fundamentos Sociais da Arquitetura e do Urbanismo do Programa de Ps-Gra duao (2005-2009) e vice-presidente da Comisso de Ps-Graduao da FAU USP (2007-2009). Faz parte do corpo editorial da revista Desgnio - Revista de His tria da Arquitetura e do Urbanismo. Tem experincia na rea de Fundamentos So ciais da Arquitetura e Urbanismo, com nfase em Histria Social, atuando prin cipalmente nos campos: Histria do trabalho, Histria social da tecnologia do concreto, Cultura urbana e construo. Cristina de Campos, cientista social, mestre, doutora e ps-doutora pelaFAU-USP. pesquisadora junto ao Grupo de Pesquisas Histria Social do Traba lho e da Tecnologia como Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo (HSTTFAU). Atualmente pesquisadora convidada junto ao Departamento de Poltica Cientfica e Tecnolgica do Instituto de Geocincias da Unicamp. Marcia Regina Barros da Silva possui graduao e licenciatura em Histria pela USP (1991), e mestrado (1998) e doutorado (2003) em Histria Social pela mesma universidade. Atualmente docente da rea de Histria das Cincias do Departamento de Histria da USP. Publicou, entre outros, Estratgias da cincia: a histria da Escola Paulista de Medicina (19331956) (Editora Universitria So Fran cisco, 2003). Joana Azevedo da Silva possui graduao em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (Ufba, 1965); especializao em Sade Pblica (1973) e em Planejamento do Setor Sade pela Faculdade de Sa de Pblica da USP (1975), e mestrado (1983) e doutorado (2001) em Sade Pbli ca pela mesma faculdade. Tem experincia na rea de Sade Coletiva, com nfa se em Sade Pblica, atuando principalmente nos seguintes temas: Programa de sade da famlia, Agente comunitrio de sade. Publicou, entre outros, Agente comunitrio de sade: o ser, o saber, o fazer (Fiocruz, 2002, co-autoria).300

Ana Silvia Whitaker Dalmaso, mdica, possui mestrado em Programa em Medicina Preventiva pela FMUSP (1991) e doutorado em Programa em Medici na Preventiva pela mesma faculdade (1998). Atua principalmente nos seguintes temas: Prtica mdica, Sade coletiva, Sade. Publicou, entre outros, Agente co munitrio de sade: o ser, o saber, o fazer (Fiocruz, 2002, co-autoria). Maria Cecilia Cordeiro Dellatorre mdica sanitarista, foi para o Vale do Ribeira para cumprir os trs ltimos meses do primeiro ano de residncia em Medicina Preventiva da FMUSP. Foram dez anos de residncia no Vale: pri meiro, no Centro de Sade de Juqui; posteriormente, coordenando o Projeto Devale, no incio dos anos 1980. Foi diretora regional da Regio Devale da SES, no primeiro governo estadual eleito ps-ditadura; por 20 anos foi docente da Faculdade de Medicina de Marlia; a partir de 2008, coordenadora municipal de Sade de Registro, no Vale do Ribeira. Maria Cristina Turazzi, mdica sanitarista, mestre em Sade Pblica, veio da Uerj para o Vale do Ribeira, como pediatra, para trabalhar em um projeto docente-assistencial, objeto de convnio entre a Secretaria de Estado da Sade e o Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Fez especializao em Sa de Pblica na USP. Foi sujeito fundamental na concepo e na viabilizao do Projeto Devale e no desenvolvimento das aes de sade da Regio. Foi diretora do Departamento Regional de Sade do Vale do Ribeira. Jos Fernando Teles da Rocha, Possui mestrado em Educao pela Universidade So Francisco (2005) e doutorado em Educao pela Universidade Estadual de Campinas (2011). Tem experincia na rea de Educao, com nfase em Educao, atuando principalmente nos seguintes temas: educao, infncia, infncia institucionalizada, diferenciada e prtica pedaggica. Karla Maestrini - Possui graduao (bacharelado e licenciatura) em Histria pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo e extenso cultural em Poltica e Tratamento dos Arquivos pela mesma instituio. Atua nas reas de pesquisa histrica e estudos arquivsticos com nfase em patrimnio cultural e Histria da Sade. Tais dos Santos - Bacharel em Histria pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo, PUC-SP.

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