2011 | catálogo escultores mineiros

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Galeria Estação | Exposição ARTUR PEREIRA, G.T.O. GERALDO TELES DE OLIVEIRA, JADIR JOÃO EGÍDIO | Curadoria Taísa Palhares | De 26 de julho a 01 de outubro de 2011

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  • Artur Pereira GTO Geraldo Telles de OliveiraJadir Joo Egdio

    escultores mineiros

    curadoria Taisa Palhares

    abertura 26 de julho s 19h

    So Paulo 2011

  • 2Artur PereiraMadeira139 x 29 x 26 cm

  • 3Escultores Mineiros

    Dos trs escultores mineiros que mostramos nesta exposio, Artur Pereira, gto e

    Jadir Joo Egdio, somente o ltimo est vivo e trabalhando. Jadir conterrneo, da

    cidade de Divinpolis, do gto geraldo telles de oliveira. o nico deles que tive o pri-

    vilgio de conhecer foi o Artur Pereira, de Cachoeira do Brumado. Foi em uma deliciosa

    viagem que fiz no final dos anos 80 com meu scio poca, querido amigo e mestre,

    Paulo Vasconcellos, com quem tive minha primeira galeria de arte. Fizemos naquele

    momento uma importante mostra do seu Artur, escultor predileto de outro escultor

    mineiro, Amilcar de Castro. Como no poderia deixar de ser, foi um grande sucesso!

    Mais recentemente, em 2009 e 2010, o Instituto Moreira Salles organizou uma expo-

    sio individual do mesmo seu Artur itinerante, com a curadoria do crtico e professor

    de histria da arte Rodrigo Naves. Acompanhei a mostra em alguns lugares e testemunhei

    a admirao e a frustrao do pblico por no poder adquirir peas expostas. Foi quando

    tive a ideia de mostrar os trs artistas em uma exposio comercial, desta vez com a cura-

    doria da taisa Palhares, uma das curadoras da Pinacoteca do Estado de So Paulo.

    Sobre o gto, no tenho ideia de quando e onde foi feita sua ltima exposio. J

    que sou apaixonada tambm pelo trabalho dele e vou comprando todas as melhores

    esculturas que caem nas minhas mos, senti que a oportunidade de mostrar os trs

    artistas juntos seria mais do que adequada.

    o Jadir teve em 2010 uma mostra em uma galeria paulistana. As obras desse grande

    escultor mostradas aqui so na maioria dos anos 70 e 80, e pertenceram importante cole-

    cionadora mineira Celma de Albuquerque, a quem agradeo por, j naquela poca, enxergar,

    colecionar e divulgar a obra desses cones da escultura popular mineira.

    Vilma Eid

  • 4GTOMadeira74 x 46 x 29 cm

  • 5A observao de um artista pode atingir uma profundida-de quase mstica. Os objetos iluminados perdem os seus nomes: sombras e claridades formam sistemas e problemas particulares que no dependem de nenhuma cincia, que no aludem a ne-nhuma prtica, mas que recebem toda sua existncia e todo o seu valor de certas afinidades singulares entre a alma, o olho e a mo de uma pessoa nascida para surpreender tais afinidades em si mesma e para as produzir.

    Paul Valry

    Desde o primeiro contato que tive com as criaes de Artur Pereira (1920-2003), gto (1913-1990) e Jadir Joo Egdio (1993), chamou-me a ateno a acuidade de suas respectivas expresses plsticas. Suas esculturas sugerem a intimidade de uma relao que se constri a partir da observao contnua, lenta e acumulativa das coisas e do mundo.

    Ao reuni-los na mesma exposio, buscou-se explorar, mediante o duplo exerccio de aproximao e distanciamento, a singularidade de suas comple-xas esculturas compostas. Enquanto tais, essas peas sinalizam a existncia

    A alma, o olho a mo: trs escultores mineiros1

    Taisa Palhares

  • 6de uma tradio que, sem propriamente constituir uma escola, de certo modo encontra-se ancorada na cultura regional desses artistas, que, no esqueamos, apesar de no possurem educao formal em arte, conviveram com um patri-mnio artstico considervel. No por acaso eles pertencem, segundo a crtica especializada, a um grupo seleto de mestres populares da escultura em madeira.

    Percebem-se neles as marcas da inventividade de uma cultura hbrida, na qual o homem e a natureza, as dimenses espirituais e terrenas da existncia, encontram-se em profunda simbiose. quase impossvel decifrar o sentido de suas composies sem conhecer o universo de referncias que constituem as comunidades s quais pertencem. Como trabalhadores que dedicaram parte de suas vidas lida no campo ou a ofcios manuais, e que no tempo livre par-ticipam das atividades religiosas comuns a diversas comunidades, com seus festejos e rituais, suas obras so impensveis sem essa experincia. Vale dizer que, diferentemente de algumas proposies muitas vezes carregadas de arti-ficialismo da arte dita contempornea, eles realizam de fato a continuidade entre a arte e a vida, entre indivduo e coletividade, a ponto de restiturem sem proselitismos o potencial criador de todo homem.

    notvel a destreza na maneira como cada um deles trabalha com a madeira em suas complexas peas. os trs esculpem a partir de blocos inteirios que mes-mo depois de entalhados conservam algo de sua forma original. o que primeira vista pode parecer banal, mas que na verdade revela um sentido esttico especial. Pois no difcil imaginar quo diferentes elas seriam se fossem constitudas pela juno de partes separadas, mesmo que perfeitamente encaixadas.

    o que parece estar em jogo aqui uma noo de unidade da e com a matria, em que a madeira bruta trabalhada a partir de formas que ela contm em si e

  • Jadir Joo EgdioMadeira214 x 48 x 11 cm

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  • 8sugere ao artista. Neste sentido, tudo no caso dessas grandes peas, do formato aos aspectos particulares da superfcie, resulta de uma relao de respeito m-tuo entre o criador e seus monoblocos.

    ***

    Artur Pereira iniciou sua trajetria esculpindo em barro figuras isoladas de bichos. Nascido e criado em Cachoeira do Brumado, Minas gerais, seu primeiro conjunto foi uma caada, e logo depois ele esculpiu um prespio pequeno em cedro. A partir de ento, passa a trabalhar nos blocos macios de madeira macia complexas composies baseadas em sua experincia da vida rural.

    Bichos, rvores, plantas, caadores, vaqueiros, boiadas fazem parte do ima-ginrio de suas esculturas compostas, cuja elaborao origina colunas vazadas e galhadas. Nelas reconhecemos o mesmo desenho sinttico de volumes robus-tos e arestas arredondadas de suas peculiares figuras unitrias.

    Em suas esculturas de conjunto, predomina uma integrao quase total en-tre as partes do todo, mas sem que cada figura perca um forte sentido de indi-vidualidade, como mostra uma das pequenas colunas presentes na exposio. Seu ritmo espiralado em ascenso ordena o sentido da composio.

    No entanto, para que alcance este efeito o artista no lana mo, como comum a muitos criadores populares, de uma repetio infinita das mesmas partes. Ao contrrio, ao caminharmos em volta desta pea, percebemos que uma face nunca igual a outra e que neste concerto cada animal em sua singu-laridade possui um papel.

  • 9Artur PereiraMadeira81 x 45 x 50 cm

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    Sobretudo nas galhadas, h uma interessante variao no tamanho dos bi-chos, gerando a inverso da iluso da perspectiva tradicional. os felinos que se encontram no topo dos galhos so em geral estranhamente maiores do que os animais e seres humanos que se encontram na base, evidenciando uma estra-nha relao assimtrica altamente expressiva.

    Neste sentido, pode-se afirmar que o universo encaixado2 de Pereira con-serva a abertura de mltiplos arranjos, revelando um olhar generoso que no buscava representar o mundo natural a partir de uma hierarquia estanque.

    De maneira simples e singela, ele esclarece sobre a extrema unidade que orientava seu modo de proceder:

    Nunca aconteceu de eu terminar uma pea diferente do que pensei. Ter-mino do jeito que veio na cabea. No modifico. Se vier outra coisa na ideia eu pego outra pea e fao aquilo que t pensando, que veio na ideia. Mas aquela que eu comecei eu tenho que arrematar3.

    H nestas palavras uma noo de indivisibilidade tanto da imaginao quanto da matria, sendo que a primeira no pode se efetivar sem o concurso da se-gunda. No seu caso, escolher o bloco errado significaria pr em risco a ideia imaginada, visto que sua concretizao depende da completude e inteireza do fazer. Com sua inteligncia arguta, Pereira vislumbra nas peculiaridades formais da matria bruta, com seus troncos e suas ramificaes, a possibilidade de novas composies que, ao mesmo tempo, mimetizam e recriam a natureza.

    tambm essa concepo de um mundo indiviso e simultaneamente mlti-plo que parece animar as esculturas de gto e Jadir. Como artistas que desen-

    GTOMadeira, detalhe163 x 43 x 40 cm

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    volveram seus respectivos trabalhos na cidade de Divinpolis, Minas gerais, h em primeiro lugar uma proximidade efetiva entre eles, que, diferentemen-te de Artur Pereira, costumam se dedicar com quase exclusividade a motivos religiosos ainda que esses se constituam como uma mistura entre elemen-tos do catolicismo, dos mitos indgenas e da cultura afro-brasileira4.

    tendo iniciado sua carreira como escultor a partir de uma revelao em sonho, gto via na atividade artstica uma espcie de misso divina. E, na engrenagem peculiar que interliga os planos terreno e espiritual, a figura hu-mana teria um lugar de destaque. Por isso, suas esculturas vazadas se formam a partir de uma rica trama humana que exprime uma viso de mundo cosmo-gnica na qual paraso e inferno surgem como lugares em constante mutao.

    A reincidncia de determinados elementos em suas esculturas nos faz acreditar no conhecimento, mesmo que inconsciente, de uma simbologia ancestral. A unio de crculos em si emblema poderoso do tempo e da completude, alm de representar o mundo espiritual e o cosmos nas mais diversas culturas a estrutura marcante que caracteriza as peas de gto. Vistas de longe, elas remetem s curvas e arabescos ornamentais de uma importante tradio oriental antiga que, diante da proibio de representar seres humanos, foi capaz de jogar com todo um leque de padres e formas decorativas inspiradas pelo mundo natural a fim de expressar a experinc