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  • 2.O Design brasileiro e sua relao com a sociedade

    A histria do Design pode ser abordada segundo diferentes vertentes

    metodolgicas. Algumas costumam recair sobre os objetos em si o que se pode

    chamar de cultura material -, os quais codificam em sua estrutura e aparncia uma

    srie de informaes complexas sobre a sociedade, tecnologia e criao individual.

    Neste captulo, procuro traar um percurso histrico que se baseia, principalmente,

    na histria social voltada para a produo, circulao e recepo de bens de

    consumo. Comento, resumidamente, concepes pessoais sobre a trajetria do

    Design no cenrio internacional embasadas nos discursos de alguns autores

    contemporneos. Num segundo momento, discuto o percurso nacional do Design

    tentando apontar suas motivaes e reflexos na sociedade.

    Ao final do captulo, discuto a formao acadmica brasileira em Design no

    intuito de melhor compreender quais so as nfases dadas formao do profissional

    que vai atuar na prtica, uma vez que este ltimo o setor onde desenvolvo minha

    pesquisa de campo.

    Consideraes preliminares

    Segundo Souza (1997)1, as mudanas ideolgicas, sociais, culturais e polticas

    aportadas pelas Revolues Francesa e Americana e as facilidades produtivas

    oferecidas pela Revoluo Industrial, de uma maneira geral, fizeram com que os

    homens e mulheres da era Moderna passassem a conceber o mundo como um

    espao a ser conquistado, como um provedor disponvel e fonte inesgotvel de

    recursos para a concretizao de seus sonhos e obras. O Design, tal qual hoje

    concebido, origina-se nesta poca sendo fruto das intensas mudanas sociais e

    produtivas do perodo. Ainda segundo Souza, com a diviso internacional do

    trabalho decorrente das revolues mencionadas, o designer emerge do processo

    1 SOUZA, P. Notas para uma histria do Design. Rio de Janeiro: 2AB, 1997.

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    produtivo a partir da necessidade de aliar os conhecimentos da arte e da tcnica para

    configurar e adaptar os produtos para a fabricao em srie com mais eficcia.

    Conforme Niemeyer (1994)2, o ciclo do consumo culminou com um rpido

    desenvolvimento tecnolgico e teve como principal caracterstica a alienao dos

    homens quanto aos meios de produo, j que os prprios donos destes meios

    apropriaram-se do trabalho humano e o transformaram em uma mercadoria como

    outra qualquer, separando o produtor de seu produto. Como conseqncia, os

    homens e mulheres da poca precisaram vender a sua fora de trabalho conferindo-

    lhes, atravs do salrio, a condio de consumidor. Portanto, o consumo consolidou-

    se, progressivamente, como o lugar estratgico, econmico e poltico de todo o

    processo de produo. Com o desenrolar de interaes sociais complexas e, grosso

    modo, atravs de estratgias ideolgicas persuasivas os trabalhadores das cidades

    passaram a crer que suas necessidades sociais, simblicas, individuais etc. seriam

    satisfeitas a partir do consumo.

    No final do sculo XX, o cenrio que classificado por alguns autores como

    Ps-modernidade apresenta, segundo Lyotard (1989)3, algumas caractersticas

    evidentes como a descrena em meta-narrativas, a valorizao do individualismo, a

    busca pela identidade particular e a idia de que tudo pode ser mediado por seu valor

    de troca. Conforme Canclini (1997)4, neste cenrio, sob o controle e a servio do

    sistema capitalista, o indivduo participa do contexto social atravs de um processo

    onde consumir representa comunicar e a partir da, segundo uma releitura de Marx

    realizada por Klein (2001)5, instala-se na sociedade o fetichismo das mercadorias e

    o poder de construir identidades fica a cargo, destacadamente, das grandes marcas

    internacionais.

    Nesta nossa sociedade, conduzida por provocaes visuais e necessidade de

    satisfao de desejos e fantasias muitas vezes provocadas pelo consumismo, as foras

    controladoras legitimam o direcionamento e a conduta imediatista, voluntarista e

    pragmtica. De alguma forma, tambm, pode-se notar estas caractersticas no

    profissional de Design, expressas por seu carter frequentemente imediatista, quando 2 NIEMEYER, L. Esttica e Design no Terceiro Milnio. Revista Estudos em Design , Rio deJaneiro, v. II, n. 1, p. 71-75, 1994.3 LYOTARD, J. A Condio Psmoderna. Lisboa: Gradita, 19894 GARCIA-CANCLINI, N. Consumidores e Cidados - conflitos multiculturais da globalizao. Riode Janeiro: Ed UFRJ, 1997.5 KLEIN, N. No logo: el poder de las marcas. Barcelona: Paidos, 2001.

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    pressupe que todos os valores podem ser submetidos ao. A conseqncia desta

    atitude a adoo do pensamento simplista de que o Design se faz na prtica.

    Percebe-se que na Ps-modernidade, os consumidores, de maneira geral,

    comearam a adotar condutas identitrias distintivas como mxima expresso de uma

    idia de liberdade. a prpria subdiviso do consumo em tribos. Segundo uma

    anlise radicalista, Klein (2001)6 considera que eles o fazem sem perceber que esto

    sujeitos a um cdigo, como um condicionamento desenvolvido e alimentado pelas

    prprias corporaes. Adotando este comportamento o indivduo est condenado a

    exercer sua liberdade, preso s variaes restritas que o mercado lhe oferece ao

    consumo.

    Creio que estas constataes se estendem prtica do Design. Como o

    designer sujeito participante deste contexto social, atravs do referencial

    bibliogrfico estudado e da consulta ao material de apoio, pude perceber que nas

    tendncias profissionais do Design Grfico contemporneo est presente uma forte

    valorizao do estilo pessoal e a inteno de responder s necessidades dos clientes

    com a adoo da ideologia do Design livre de valores, na qual o designer um

    transmissor neutro das mensagens dos clientes. Sobre o tema, MacCoy (1997)7

    comenta que apesar de possibilitar certas expresses de um estilo pessoal,

    O Universalismo nos trouxe um estilo corporativo (..,), que ignora o poder eas potencialidades dos vocabulrios estilsticos regionais, idiossincrticos,pessoais ou culturalmente especficos. E o ideal de Design neutro um mitoperigoso. Na realidade todas as solues de Design envolvem um ngulo,uma perspectiva, implcita ou explcita. Os designers mais honestosreconhecem suas inclinaes abertamente, ao invs de manipular suasaudincias com afirmaes de verdade universal e pureza. (MacCoy,1997).

    Percebi, tambm, que existe a tendncia de concentrar a prtica profissional em

    setores do Design Grfico que executam trabalhos comerciais e persuasivos. E, em

    comparao com estes, ainda so pouco divulgados os projetos de Design para

    setores que abordam a manuteno da qualidade de vida dos usurios, tais como a

    sinalizao preventiva de acidentes, informaes sobre cuidados sanitrios e onde o

    Design da Informao possa oferecer facilidades ao processo e alfabetizao de

    educao em geral. 6 KLEIN, N. No logo: el poder de las marcas. Barcelona: Paidos, 2001.7 MACCOY, Katherine. Replicando la tradicin del diseador apoltico. In Fundamentos del Madrid:Blume, 1972.

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    2.1Comentrios sobre a trajetria do Design brasileiro

    A tarefa de esboar um histrico do Design Grfico brasileiro , sem dvida,

    uma empreitada complicada. Dependendo da diretriz adotada possvel apontar

    pontos de partida completamente diferentes. Uma corrente mais comprometida com

    o Modernismo, o qual dominou boa parte da produo artstica dos anos 1910 a

    1960 costuma relacionar o surgimento do Design no Brasil aos desdobramentos

    desta poca, com as experimentaes do Instituto de Arte Contempornea do

    MASP, em 1951, e a inaugurao da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI),

    em 1963 (Cardoso, 2005)8.

    Tal concepo chega a considerar um anacronismo aplicar o termo Design a

    qualquer situao anterior a este perodo. Para Cardoso (2005) ocorreu nesta fase,

    mais precisamente, uma ruptura: surgiu a conscincia do Design como conceito,

    profisso e ideologia, sendo equivocado pensar que o Design propriamente dito

    atividade projetual relacionada produo e ao consumo em larga escala tenha

    surgido nesta poca. Para este autor, o aspecto mais problemtico em afirmar que o

    Design brasileiro tenha se iniciado a partir de 1960 consiste na recusa de reconhecer

    como Design tudo o que veio antes:

    clarssimo que durante os cinqenta a cem anos anteriores a tal dataeram exercidas entre ns atividades projetuais com alto grau decomplexidade conceitual, sofisticao tecnolgica e enorme valoreconmico, aplicadas fabricao, distribuio e ao consumo de produtosindustriais. Isto verdade tanto para a rea tradicionalmente chamada deDesign de produto quanto para a rea grfica, embora as evidnciasconhecidas at agora apontem para uma evoluo mais rpida e maisimpactante da produo industrial de impressos deste perodo (Cardoso: 8,2005).

    Esclarecendo dois pontos aparentemente contraditrios; Cardoso diz que,

    primeiramente, afirma-se que houve, de fato, uma ruptura por volta de 1960 e que

    esta inaugurou um novo paradigma de ensino e exerccio da profisso, que

    corresponde quilo que hoje reconhecemos como Design no pas, de influncia

    nitidamente modernista, filiado ao processo de institucionalizao das vanguardas 8 CARDOSO, R (org.). O Design brasileiro antes do Design. So Paulo: Cosac Naify, 2005.

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