19ª Edição - O Espectro

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19 Edio - 30 Abril 2015 Ncleo de Cincia Poltica ISCSP - UL Quando ser Abril pg2 Euro: consequncias e desafios pg9 Para os pases do Sul como Portugal o Euro representou logo partida um grande desafio j que uma moeda muito mais forte do que o escudo, o que contribui para um maior dfice da balana comer-cial. Mar de Sangue pg8 Pobreza em Portugal IMAGES.CDN.IMPRESA.PT pg3 POLTICA INTERNA 02 | O ESPECTRO 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro Faz 41 anos que um golpe preparado pelo Movimento das Foras Armadas derrotou o Estado Novo, colocando fim a dcadas de represso, privao e guerra. Por todo o pas, e pelo mundo fora, portugueses recuperaram a capacidade de sonhar com um futuro diferente. Esta esperana pode ser lida na voz de um operrio de construo civil que confessa a um jornalista: J esperava isto muito tempo. Faz todo o sentido recordar e celebrar as conquistas do 25 de Abril, especialmente hoje, quando o povo portugus enfrenta um novo autoritarismo. O regime da austeridade reabilitou a represso, privao e outros abusos de poder. Mesmo quando passar o pretexto da crise da dvida pblica, sero encontrados outros pretextos para prepetuar a dominao. Ficaram por cumprir os projectos de liberdade, solidariedade e soberania popular que, h 41 anos, aqueciam os coraes dos nossos pais e avs. Quem os realizar? O povo unido que desespera, sem ver sada? As elites polticas, arrogantes e corruptas? Os movimentos sociais, que desmobilizam para fundar mais uma fora partidria de esquerda trotskista? Os Marinhos Pintos da praa pblica? No h Dom Sebastio vista, continuar Abril por cumprir-se. Quando ser Abril? Rui Coelho COMUNIDADE.SOL.PT 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro O ESPECTRO | 03 POLTICA INTERNA em parceria com o NAE - ISCTE A letargia econmica em Portugal Com o aproximar das eleies legislativas multiplicam-se as pro-postas para a salvao da economia nacional, no entanto a questo para a maioria dos portugueses reside na dvida incontornvel acerca da capacidade de mudana de qual-quer um dos executi-vos que venha a to-mar posse. Circuns-tncias cclicas par-te, a verdade que a economia portuguesa enfrenta um grave problema de competi-tividade, que nenhum governo conseguiu nos ltimos 20 anos resolver. A poltica de horizontes curtos, com perspetivas limi-tadas a 4 anos, impe-diu a implementao de uma estratgia co-esa de longo prazo que permitisse a alte-rao das caractersti-cas que o determi-nam. Portugal tem um grave problema na sua estrutura pro-dutiva, devido es-pecializao em seto-res que se baseiam na competitividade-custo, semelhantes aos de pases asiti-cos e do leste euro-peu que nessa com-ponente conseguem ser mais competiti-vos. As deslocaliza-es, falncias e per-da de cota de IDE, foram uma dinmica demasiado evidente no incio do milnio, principalmente aps o alargamento da Unio, que veio re-forar a tendncia iniciada com a libera-lizao aduaneira a oriente em 95 com o fim do acordo Multi-fibras. Num pas que precisa rapidamente de se modernizar tecnologicamente e de intensificar a sua Joo Rodrigues aposta nas cincias e tecnologias, urge ex-plicar o que fazer a 258 mil desemprega-dos registados - que tm o 3 ciclo de es-colaridade ou menos. Poder a resposta a este problema dra-mtico no implicar a continuao de uma aposta nos baixos custos de trabalho? Ou implicar a rees-truturao do tecido empresarial portu-gus a excluso per-manente do mercado de trabalho destes trabalhadores? Alm das bvias carncias de capital humano, que so a causa de maior relevncia pa-ra o atual padro de produo pouco competitivo e din-mico, existem entra-ves conjunturais que ameaam ir perpetu-ando o problema. A fraca dinmica do mercado interno mi-tiga o investimento interno e externo, pelo que a capacida-de de exportao se torna um fator deter-minante no processo de atrao e fomen-tao de investimen-to. Consequentemen-te, Portugal tem de apresentar condies endgenas suficiente-mente mais favorveis s dos mercados de destino para compen-sar os custos incorri-dos pela no localiza-o nesses mercados. Neste sentido, preci-so ter uma viso de longo prazo para a im-plementao de uma estratgia nacional que vise a criao de condies para a for-mao de clusters in-dustriais, que atuem como polos de desen-volvimento e cresci-mento e que se alas-trem de forma trans-versal a todo o pas. No obstante os casos exemplares que exis-tem em Portugal, dos quais a Autoeuropa e o parque industrial de Palmela so o melhor exemplo, existe uma clara incapacidade de fazer florescer casos semelhantes de forma substancial. A perpe-tuao do problema resulta diretamente da avidez poltica pelo dispndio de recursos 04 | O ESPECTRO 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro POLTICA INTERNA cclico adverso acen-tuou a emigrao de populao qualifica-da, precisamente a que encontra mais oportunidades no exterior e paradoxal-mente, a que o pas mais precisa apesar de ser incapaz de a integrar. Talvez tiran-do proveito do es-quecimento e da crescente desconcen-trao que o uso in-cauto dos estmulos virtuais trouxe ao no-vo milnio, a alterna-tiva socialista enri-quecida por demago-gias avelhentadas, pouco concretas, pouco sustentadas e que nos aspetos es-em aes com efeitos de curto-prazo e com consequncias eleito-rais expressivas nas eleies seguintes. O desastroso resultado, a ingerncia dos problemas basilares da economia portu-guesa e a mera preo-cupao com a altera-o de condies de contexto, que nos condenam indefinida-mente reao ao in-vs da antecipao das dificuldades. A mi-opia poltica um tu-mor no fulgor nacio-nal e as dioptrias pa-recem vir a agravar-se cada vez mais. Na pre-sente legislatura, s em 2013 o governo diminuiu a verba do Ministrio da Educa-o em 370 milhes euros, o que repre-senta uma enorme laxao face ao mai-or problema nacional - descurando propo-sitadamente os ale-gados ganhos de efi-cincia. Em termos reais, entre 2005 e 2013 s o ensino su-perior perdeu 200 milhes de euros de dotao do oramen-to de estado, o que difcil perceber face a outros to exagera-dos gastos noutras rbricas. Como se no bastasse, a inca-pacidade de resposta face a um perodo senciais deixam vis-lumbrar muito pouco. No desprezando as propostas positivas apresentadas, a falta de ideias novas e de direo no foge tra-dio da poltica por-tuguesa de apresentar curativos para lceras varicosas. Muito pou-co se diz acerca da ex-plorao e potencia-o das capacidades do pas, no se adian-ta nada de novo para combater o problema do desemprego acima enunciado, nem se acrescenta uma clara estratgia de moder-nizao e qualificao dos recursos huma-nos, para alm do que j tem vindo a ser fei-to, apesar de reconhe-cida a sua importn-cia. bom que os por-tugueses no caiam em promessas fceis e vazias, e sejam mais exigentes com todos os candidatos ao po-der quanto apresen-tao de propostas de futuro para o pas, sob pena de o pas conti-nuar a agonizar na le-targia econmica. COPY.PNN.PT POLTICA INTERNA 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro O ESPECTRO | 05 #Je Suis Candidate Aussi Diz-se que as Presi-denciais de 2016 no tardam a. De entre as promessas ilusrias da democra-cia, financiadas pela liberdade de imprensa e informao, e num momento em que a confiana no governo e nas instituies pol-ticas se encontra em declnio, num registo histrico no regime que o 25 de Abril de 1974 nos trouxe, sur-ge uma particular ideia de que as pesso-as se acham particu-larmente prximas e se acham capazes de exercer, no s o seu sentido crtico de opi-nio, mas tambm a competncia para ser-vir determinado cargo pblico, e no um qualquer: ou almejam um assento no Parla-mento ou a suite real no Palcio de Belm. Ou seja, para alm de julgarem toda a pol-tica no caf, tambm possuem o descara-mento (ou no) de olhar para si prprios como um possvel exemplo. E o pior que a ideia comea a fazer-lhes sentido pelo menos, para mais de uma dezena de portugueses fez. As eleies Presiden-ciais de 2016 em Por-tugal contaro com, pelo menos, mais de dez potenciais candi-datos e continuamos atentos s prximas notcias porque pos-sivelmente aparecer mais algum. um va-lor histrico, que ba-te as Presidenciais de 1986, onde se dispu-taram Mrio Soares e Freitas do Amaral nu-ma segunda volta, numas eleies com 8 candidatos. Talvez a confiana no gover-no varie numa rela-Francisca Sassetti o inversa com a participao poltica, nomeadamente, com o interesse por assu-mir pastas institucio-nais polticas. Por um lado, no estamos aqui a menosprezar o voto que cada um to inalienavelmente possui para determi-nar o seu represen-tante, mas a capaci-dade de se auto-intitular um. No sei porque dizem que h uma crise de repre-sentatividade; nunca tivemos tantas pes-soas a querer ser a cara do pas! Se con-siderarmos a mnima proposta de 10 can-didatos, para 10 mi-lhes de portugue-ses, falamos de 0,0001 % de repre-sentatividade de to-dos os portugueses! Por outro lado, ser correcto banalizar o que mais profundo do que uma notcia e mais importante do que ateno mediti-ca? Afinal meus se-nhores falamos do futuro do pas. Mas porque h tan-tos candidatos? Per-gunto-me se ser pela falsa proximidade en-tre governantes e go-vernados, entre cau-sas e participao, co-mo aquele euro que doam para a AMI que decerto que che-ga aos meninos esfo-meados em frica -; ou ento se ser pela tendncia exagerada de mobilizao dos Media e a mania de que toda a gente muito crtica neste pa-s e muito apta ao bom comentrio pol-tico todos adoramos o Cavaco e elogiamos o seu trabalho, por isso que votmos ne-le, certo? -, e isso re-lembra-me de #JeSuisCharlie. Lem-bram-se do ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo? Todos queriam ser Charlie quando um grupo ex-tremista islmico ma-tou meia dzia de pes-soas em resposta a medidas xenfobas e extremistas em Frana e o slogan inflamou as pessoas, que se consi-deraram aptas a de-fender a causa justa-mente; contra a radi-06 | O ESPECTRO 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro POLTICA INTERNA calizao islmica, sa-bendo que muitas de-las so xenfobas e no radicalistas relati-vamente ao prprio islamismo. Agora, em Portugal, todos que-rem ser o novo presi-dente da Repblica Portuguesa, conside-rando-se aptas a de-fender a causa e o pa-s justamente, porm revelam-se pessimis-tas quanto ao estado do Pas e criticam mais a torto do que a direito, sabendo que muitas delas espera-ram, pelo menos 35 anos anos, para come-ar a preocupar-se com o raio do seu pa-s!! As ilusrias promessas da democracia dizem-nos que nem todos podemos ser o que quisermos. E que simplesmente triste a vulgarizao e banali-zao de assuntos s-rios, porque desvalori-zamos a nossa identi-dade e a seriedade da nossa poltica. Isto so assuntos srios. Um Presidente da Repbli-ca competente, srio e convicto, pode revi- talizar a vontade e o poder nacionais. J dizia o Cames Um fraco rei faz fraca a forte gente. Apesar de tudo, fico, na verdade, muito feliz por saber que existem, pela primei-ra vez na Histria de Portugal, tantas pes-soas competentes a lutar pelo destino do nosso pas. Pelo me-nos, h quem se inte-resse intrinsecamen-te pelo pas. Talvez seja isto obra de D. Sebastio - quem sa-be? Este pas conti-nua a surpreender-me, e garanto-vos que nunca me abor-reo. H sempre no-vidades e coisas his-tricas inditas na poltica portuguesa, sobretudo em elei-es o fenmeno Marinho e Pinto de vira-casaquismo, as Primrias do PS em 2014, a priso de um ex-Primeiro-Ministro, e agora um enorme nmero de candida-tos que abrange um variado leque de pro-fissionais: desde ex-deputados, a ex-vices de Cmaras, ex-reitores, malta de sin-dicatos; a festa est cheia. Esperemos que o Tribunal Constitucio-nal no se junte fes-ta e tenha juzo. Temos uma capacida-de extraordinria para nos reinventarmos. Ou no. Talvez seja mais: Tudo ao molho e f em Deus. PPLWARE.SAPO.PT POLTICA INTERNA em parceria com o NAE - ISCTE Qual o interesse da Eduo (II)? No ms passado apresentei, na primeira parte deste texto, algumas ideias para reflexo sobre o sistema de ensino. Embora o sistema de ensino em Portugal tenha vindo a ser progressivamente melhorado (com alguns altos e baixos) a continuidade dessas melhorias exige uma direco. Com isto em mente, gostaria de explorar a ideia de introduzir Filosofia como disciplina do ensino bsico, a partir do 7 ano. Vivemos, hoje em dia, numa sociedade cada vez mais marcada pela importncia do imediato. A informao prolifera e circula velocidade de uma ligao internet. A quantidade avassala-dora de informao disponvel cria a iluso de um acesso a cada vez mais conhecimento. Porm, como aqui defendo, informao no conhecimento. Para ter acesso primeira apenas preciso ver na superfcie do terreno, almejar o segundo saber-se que preciso escavar. Mas mais do que di-zer onde escavar, os programas escola-res deveriam fornecer a p para o empreendimento. Em vez de limitar-se a impingir um con-junto de matrias aos alunos, a escola de-veria preocupar-se sobretudo em ajudar a activar as potencia-lidades dos mesmos: saber fazer e, sobre-tudo, cada vez mais importante, saber Gonalo Lima pensar. Para tal parece-me que a introduo de uma disciplina de Filoso-fia, j a partir do 7 ano, seria uma ideia a considerar. A filosofia lida essen-cialmente com con-ceitos que constitu-em a base do pensa-mento lgico, o que induz um maior sen-tido crtico e aptido para transformar in-formao em conhecimento. A melhoria nas capacidades dos alu-nos tenderia tambm a repercutir-se numa maior facilidade de aprendizagem das outras disciplinas di-tas nucleares (como a Matemtica ou o Portugus). Prova disso mesmo foi um projecto fi-nanciado pela Paul Hamlyn Foundation (www.phf.org.uk), realizado em dez escolas do Reino Unido, em que alunos entre os onze e os treze anos tiveram uma aula de filosofia por semana durante um ano lecti-vo. A quase totalidade dos alunos (97%) revelou melho-rias significativas nas suas capacidades cog-nitivas, bem como na sua concentrao e confiana. Parece-me que este tipo de aprendizagem poderia ser, tambm, um forte incentivo a aulas com uma maior participao por parte dos alunos, na sua vontade de fazer perguntas e discutir conceitos que vo para alm do que o seu quotidiano, e alunos mais interessados so normalmente sinnimo de maiores competncias e melhores resultados. Um cenrio promis-sor, mesmo para os aficcionados pelos rankings. Mas, verdade, j quase me esquecia: pensar uma maada. Outros que o faam, ns compramos. 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro O ESPECTRO | 07 Mar de Sangue Tiago Santos Entre 700 e 900 pes-soas morreram no Do-mingo afogadas no Mediterrneo. Paga-ram com a vida uma iluso que para elas no se cumpriu. s portas da Europa, o nosso mar transfor-mou-se num gigantes-co cemitrio. Uma metfora doloro-sa de um continente que deixou de ser uma referncia moral. in Jornal I, 21 de Abril de 2015. O Mediterrneo ondu-la milhas e milhas transformando-se ca-da vez mais num mar vermelho, vermelho de dor e de sangue, vermelho de morte. A porta da Europa para aqueles que vm de frica fecha-se com a fora das ondas e a ira da tempestade que nega a navegao s jangadas ancestrais que so a ltima espe-rana para milhares de pessoas para quem viver tona da gua no metfora. No de hoje. No , mas s agora teve impacto no corao da Europa. Como em muitas outros mat-rias a dormncia de Bruxelas s parece aliviar quando o cho-que to grande que se torna impossvel no acordar. A 20 de Abril de 2015 quase um milhar de seres humanos viram o seu sonho de ter pela primeira vez uma vida ir por gua abaixo, literalmente. As imagens choca-ram e inflamaram a Europa numa onda de indignao que ecoou nas paredes dos edifcios onde laboram os rgos da Unio Europeia, des-poletando o huma-nismo dos polticos europeus que se apressaram a agen-dar uma Cimeira para 23 de Abril de 2015, com a resoluo do flagelo em mente. Partindo do pressu-posto que a Europa, aquela que os pais fundadores imagina-ram, hoje uma Eu-ropa sem fronteiras internas, o nosso ter-ritrio um territrio cujas propores se estendem de Itlia ao Reino Unido, de Por-tugal Estnia o que significa que uma atrocidade deste n-vel no pode nunca ser um problema de um Estado, mas an-tes da comunidade. No um problema de Itlia, um pro-blema dos vinte e oi-to Estados que com-pem o maior projec-to poltico da hist-ria. Urgem as respostas que tardam em che-gar. Certamente que a Europa no poder receber a totalidade das pessoas que ten-tam clandestinamen-te entrar no nosso solo, pois isso signifi-caria um choque de-mogrfico e econ-mico possivelmente insuportvel para um projecto que atraves-sa um dos piores mo-mentos desde a sua criao. No temos simples-mente condies para acolher no nosso seio todos aqueles que, ao contrrio dos que c esto, vm na Europa uma luz ao fundo do tnel, uma esperana infinita que os leva a deixar tudo para trs e embarcar. Mas se no os pode-mos acolher podere-mos fazer o que sem-pre fizemos. Somos, ns europeus, o expo-ente mximo da diplo-macia econmica e da ajuda humanitria, sempre na linha da frente no apoio ao de-senvolvimento de Es-tados cujas condies em nada dignificam a espcie humana. Ur-ge, hoje, realocar es-tes recursos para os pases de onde par-tem aqueles que no mar morrem, garan-tindo que no futuro o fundo do Mediterr-neo no o fundo do poo. POLTICA EXTERNA 08 | O ESPECTRO 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro POLTICA EXTERNA em parceria com o NAE - ISCTE Euro: Consequncias e Desafios O Euro, moeda nica de 11 estados da Unio Europeia, na altura, incluindo Portugal foi criada a 1 de Janeiro de 1999. Contudo a sua criao foi antecedida por um processo de integrao econmico e monetrio que comeou em 1979 com o Sistema Monetrio Europeu (SME) atravs do qual a maior parte dos pases da CEE concordaram em ligar as suas moedas de forma a evitar flutuaes significativas entre os seus cmbios. Este sistema permitia ajustamentos peridicos em termos de taxas de cmbios mas aps de 1986 passou-se a utilizar alteraes s taxas de juro internas para manter as taxas de cmbio dentro da faixa autorizada. Em 1986 com o Acto nico Europeu que permitiu a livre circulao de pesso-as, capitais, bens e servios. O maior entrave livre circulao era mesmo as diferentes moedas e cmbios existentes entre os vrios pases da ento CEE. Isso levou ao tratado de Maastricht em 1992 que estabeleceu as bases para a criao da Unio Econmica e Monetria que estabeleceu as condies que os pases teriam de cumprir para entrar na Zona Euro. Aps este tratado o objectivo passou a ser a harmonizar o comportamento das economias. Aproximaram-se as Pedro Diogo taxas de inflao, de juro e de cmbio e proibiram-se os Estados de se financiar directamen-te nos respectivos Bancos Centrais e es-tabeleceram-se critrios de adeso Zona Euro que os di-versos pases tiveram de cumprir. A entrada na Zona Euro teve vrias consequncias para os pases que entraram. Algumas delas foram positivas para todos os pases como o facto de ter facilitado a circulao de pessoas entre os pases aderentes e portanto contribuiu para o aumento do turismo intraeuro-peu. O facto de ser a moe-da nica de um con-junto de estados con-fere tambm aos pa-ses da Zona Euro maior facilidade de comrcio internacio-nal e maior presena na economia mundi-al. O euro tambm uma moeda estvel e que desde a sua cria-o estabilizou as ta-xas de inflao e as taxas de juro nesses pases. Contudo nem todas as consequncias foram positivas. Desde logo o Euro enfrentou um grande desafio, o de unir sobre a mesma moeda e sobre a mes-ma poltica mone-tria e cambial pases com diferentes nveis de desenvolvimento econmico e tambm com diferentes neces-sidades de poltica monetria. At crise internacional de 2008 o Euro passou estar a funcionar bem mas a partir da as suas fragi-lidades comearam-se a notar sobretudo aps a Crise das Dvi-das Soberanas nos pa-ses do Sul da Europa. Para os pases do Sul como Portugal o Euro representou logo partida um grande de-safio j que uma moeda muito mais forte do que o escudo, o que contribui para um maior dfice da balana comercial. A verdade que a dcada aps a entrada 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro O ESPECTRO | 09 POLTICA EXTERNA de Portugal no euro foi uma a dcada per-dida, em que a econo-mia portuguesa estag-nou com um cresci-mento mdio inferior a 1%. Claro que outros factores contriburam para esta situao mas a entrada na zona euro foi um desses factores. As dificulda-des porque est a pas-sar a Zona Euro ainda hoje deve-se a uma resposta insuficiente do BCE no que respeita a poltica mo-netria. Aps a Crise Internacional em 2009 o BCE desceu a taxa de refinanciamento para 1% e em 2011 at as aumentou ligei-ramente, passando a partir da a descer continuamente at aos 0,05% actuais. Pe-rante uma crise desta dimenso e posterior-mente da crise das dvidas soberanas o BCE devia ter descido mais a taxa de juro, o actual valor de 0,05% j devia ter sido atin-gido mais tempo co-mo fizeram os bancos centrais dos EUA, Rei-no Unido e Japo. O quantitative easing, compra macia de ttulos de dvida p-blica dos Estados por parte do Banco Cen-tral, apenas agora est a ser aplicado na Europa e nos EUA esta poltica, utiliza-da para estimular a economia em situaes em que a taxa de juro j de 0% ou prximo, co-meou a ser adopta-da pela Reserva Fe-deral americana em 2009 juntamente com medidas ora-mentais expansionis-tas por parte do 1 governo de Barack Obama. Como pode-mos verificar a eco-nomia americana tem registado nos ltimos 2 anos uma trajectria muito mais positiva que a europeia facto que tem de ser pelo me-nos em parte explica-do por estas polticas expansionistas por comparao com a austeridade na Zona Euro. Esta crise e os programas de austeridade sem sucesso aplicados aos pases do Sul da Eu-ropa vieram colocar em causa os alicerces do prprio euro. So-lues que passam por uma sada da Moeda nica volta-ram a ser postas em cima da mesa. Em Portugal, alguns de-fendem que o pas devia voltar ao Escu-do procedendo tam-bm a uma desvalori-zao cambial. Con-tudo esta sada do Euro levaria a gran-des dificuldades do pas em aceder a fi-nanciamento externo nos mercados o que poderia facilmente levar o Estado e os bancos nacionais falncia, o acesso ao crdito tornar-se-ia muito mais difcil o que seria negativo para o investimento. Aqueles que defen-dem a sada do Euro apontam a conse-quncias positivas do ponto de vista da ba-lana comercial por-que a forte desvalorizao traria exportaes mais ba-ratas e importaes mais caras. Contudo para um pas to de-pendente de importa-es como Portugal isto poderia aumentar bastante as importa-es contrabalanan-do o efeito positivo das exportaes. Para alm disso essa rpida desvalorizao levaria a uma inflao galo-pante. A entrada no Euro tal-vez tenha sido um er-ro mas a sada do mesmo no uma boa soluo e actual poltica expansionista do BCE embora tardia e insuficincia permite alguma recuperao econmica. No entanto pode exis-tir uma soluo inter-mdia na questo da moeda. A Moeda Comum, proposta pe-lo economista francs Frdric Lordon, confi-guraria uma situao em que continuaria a existir o Euro que se-ria ele prprio conver-tido nos mercados contra todas as divisas externas, mas cada pas teria a sua prpria verso nacio-nal com uma paridade 10 | O ESPECTRO 29 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro PUBLICIDADE fixa especfica face ao Euro de acordo com as necessidades dos diferentes pases. Desvalorizaes ou revalorizaes pontu-ais seriam tambm permitidas mas s de acordo com processos polticos complemen-te subtrados s influncias dos mercados cambiais. Esta soluo permitiria evitar a instabilidade cambial associada ao SME ou moedas nacionais devido eliminao dos mercados cambiais intra-europeus e convertibilidade ao balco do BCE mas permitiria que cada pas tivesse uma moe-da ajustada s suas necessidades especficas. Devido estes factores pen-so que a Moeda Co-mum devia ser pelo menos debatida. 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro O ESPECTRO | 11 www.observatoriopolitico.pt Propriedade do Ncleo de Cincia Poltica ISCSP - UL Coordenador: Isa Rafael | Co-coordenador: Andr Cabral | Revisores: Andr Cabral e Beatriz Bagarro | Design: Isa Rafael | Plataformas de Comunicao: Daniela Nascimento, Joo Cunha e Joo Silva | Cartaz Cultural: Isa Rafael www.facebook.com/OEspectro jornaloespectro@gmail.com CARTAZ CULTURAL 10h s 19h Galeria da Cordoaria Nacional Rua da Junqueira, 69-69 A 1300 Lisboa 3 estudante, 5 adulto EXPOSIO SEBASTIO SALGADO 12 | O ESPECTRO 30 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro II ECONOMICS DAY Todo o dia ISCTE Avenida das Foras Armadas, 1649-026 Lisboa Grtis at 30 MAIO TEATRO E MORRERAM FELIZES PARA SEMPRE 4 a 6 (21h30), Sbado (19h e 22h) Hospital Jlio de Matos Avenida do Brasil, 53 1749-002 Lisboa 35 p/ pessoa parceria com 13 MAIO at 02 AGOSTO