18º Congresso de Iniciação Científica CONSTRUÇÃO DE ... ?· 18º congresso de iniciação científica…

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  • 18 Congresso de Iniciao Cientfica

    CONSTRUO DE UMA TEORIA DO LAZER A PARTIR DOS AUTORES CLSSICOS: ASCONTRIBUIES DE BENJAMIN, ADORNO E HORKHEIMER, MARCUSE, FROMM,HABERMAS, ELIAS E DUNNING

    Autor(es)

    RENATA MORAIS DO NASCIMENTO

    Orientador(es)

    NELSON CARVALHO MARCELLINO

    1. Introduo

    Os termos teoria e prtica so bastante utilizados no senso comum, o que levou a um desgaste quanto ao seu entendimento,inclusive nos meios acadmicos, principalmente naquelas reas ligadas prtica de atividades.Em geral, entende-se teoria, como uma especulao, ou como discurso vazio, desvinculado da realidade vivida no concreto, eprtica, como uso, experincia desvinculada da teoria, o que a transforma, via de regra, em tarefa, ou ao desprovida de sentido. Se entendermos Teoria como conjunto de conhecimentos, no ingnuos, que apresentam graus diversos de sistematizao ecredibilidade, e que se propem explicar, eludicar, interpretar e unificar um dado domnio de problemas que se oferecem atividadeprtica; e Prtica, como saber provindo da experincia, e ao mesmo tempo aplicao da teoria, poderamos, ao invs de sua dicotomia,compreender o que SAVIANI (1980) denomina de dialtica estabelecida entre ao, reflexo, ao. Dessa forma chegaramos no auma dicotomia teoria e prtica, mas a um conceito que no lhes esgotasse a extenso, ou seja, a uma unidade, que no pode e nodeve ser entendida como unificao, no que se chama de prxis: Entender-se-ia que no existe atividade sem projeto, ato semprograma (FORACHHI, M.A.e MARTINS, J.S. 1981). Assim, no necessria a criao de uma Cincia especfica para a elaborao de uma Teoria sobre uma determinada problemtica,mas essa pode ser estabelecida a partir da contribuio de vrias cincias e da reflexo filosfica, ou seja, da Filosofia entendidaenquanto produto e sobretudo, enquanto processo. importante destacar, ainda, que a Teoria, exatamente por guardar estreita relao com o agir humano, no neutra, possuindo noapenas uma dimenso lgica, mas tambm uma dimenso antropolgica (PEREIRA, 1982). No so puramente objetivas, mascarregam alto grau de historicidade e de subjetividade. Assim sobre um mesmo assunto, uma mesma problemtica, existem, e devemexistir, teorias divergentes, e at antagnicas, dependendo das concepes que as embasam. Podemos considerar que existe uma Teoria do Lazer, desconhecida da grande maioria dos profissionais que atua na rea, que vemsendo formulada desde a filosofia Clssica, e ganha impulso com a criao e desenvolvimento das Cincias Humanas, entre a segundametade do sculo XVIII e a primeira metade do sculo XIX, e que tem recebido contribuies constantes da Sociologia, Antropologia,Arquitetura/Urbanismo, Comunicaes, etc. 1.Desconhecendo a Teoria do Lazer, o profissional que atua nessa rea, alm de confundir a prtica do lazer, com a prticaprofissional que o lazer requer, no estabelece uma prtica, mas sim um tarefismo. Isso pode ser verificado nas aulas de graduaode muitos cursos superiores e nos manuais de recreao e lazer. 2.A Teoria do Lazer, sobretudo embasada em autores clssicos, imprescindvel para fundamentar projetos especficos deinvestigao que relacionam atividades fsicas e/ou modalidades esportivas relacionadas ao componente ldico da cultura, ou asrelaes entre o lazer e as demais esferas da vida social(MARCELLINO, 1995).

    2. Objetivos

  • Nosso objetivo foi analisar as principais contribuies de alguns autores clssicos, ps revoluo industrial, para a construo de umapossvel teoria do lazer.

    3. Desenvolvimento

    O trabalho foi efetuado por pesquisa bibliogrfica ( PARRA FILHO & SANTOS, 2002, RAMPAZZO, 2002, HUHNE, 2002,SANTOS, 1999, ECO, 1977), realizado a partir de levantamento bibliogrfico efetuado no Sistema de Bibliotecas da UNIMEP eUNICAMP, e ferramentas disponveis na Internet. As obras selecionadas foram lidas e analisadas por anlise textual, temtica,interpretativa e crtica (SEVERINO, 1980).

    4. Resultado e Discusso

    A bolsa de Iniciao Cientfica nos permitiu o estudo dos seguintes autores: Walter Benjamin; Theodor W. Adorno e MaxHorkheimer; Herbert Marcuse; Erich Fromm; Jrgen Habermas; Norbert Elias e Eric Dunning. A partir da leitura da crtica que essesautores fizeram da sociedade e da cultura contempornea possvel visualizar elementos importantes sobre a temtica do lazer talqual inserido na sociedade ento criticada. Para o estudo sobre Benjamin, foram selecionados alguns textos de Reflexes sobre a criana, o brinquedo e a educao(BENJAMIN, 2002), e o ensaio sobre A obra de arte na era de sua reprodutibilidade tcnica (BENJAMIN, 1995). Nos trabalhos selecionados para anlise, a percepo que, tanto ao defender a criatividade infantil e o ldico nos momentos delazer (BENJAMIN, 2002), quanto ao tratar de forma positiva das mudanas ocorridas nas formas de produo cultural/artstica, apartir da utilizao de tcnicas de reproduo que levaram ao maior acesso das massas (BENJAMIN, 1995), Benjamin valoriza acapacidade e a possibilidade humanas de aproximao e participao em produes culturais como algo revolucionrio e positivo,instrumento de atitudes crticas. De relao com o lazer, destaca-se o entendimento de Benjamin de que isso ocorreria nos momentosde lazer e distrao, quando a pessoa geralmente tem maior contato com produes culturais e artsticas. A compreenso de Benjaminacerca da mudana na forma de produo cultural/artstica, a partir da utilizao de tcnicas de reproduo que levam maiorrecepo das massas, foi reprovada por Adorno e Horkheimer (WIGGERSHAUS, 2002). Podemos encontrar elementos dessacontraposio a Benjamin ao analisar suas contribuies para uma possvel teoria do lazer a partir da leitura de Dialtica doEsclarecimento (HORKHEIMER; ADORNO, 1985), obra clssica da dcada de 1940, que selecionamos para o estudo dacontribuio de seus autores. O termo Indstria Cultural, cunhado por Adorno e Horkheimer em Dialtica do Esclarecimento (HORKHEIMER; ADORNO,1985), denuncia na cultura o que antes era arte e tornou-se tcnica, produzida como mercadoria. Refere-se tambm difuso deprodutos culturais a nvel comercial e autoritrio, como forma de adaptar as massas s mercadorias. A ideologia da Indstria Culturalseria dominao por meio da disseminao de produtos padronizados, destinados ao consumo das massas, como se tivessem quesatisfazer necessidades iguais. Essa padronizao, aceita sem resistncia, culminaria na falta de autonomia dos indivduos, e na suadominao inconsciente. A Indstria Cultural seria a destruio da capacidade crtica da obra de arte, dominando assim os indivduose criando uma forma de diverso alienante. Adorno e Horkheimer (1985) diagnosticam os produtos da indstria cultural, nosmomentos de lazer, como repressores das liberdades individuais, que padronizam e conformam as massas, condicionando-as aomundo do trabalho. Estudamos Herbert Marcuse a partir de A ideologia da sociedade industrial (MARCUSE, 1979). A partir da anlise realizada,compreendemos que o lazer est includo na teoria de Marcuse como parte integrante da sociedade industrial, porm, comocompreende, as atividades de lazer esto ligadas a outras esferas da sociedade por serem administradas pela poltica e pela economia.Assim, no podem ser consideradas livres. Em outras palavras, o que Marcuse afirma que mesmo os momentos reconhecidoscomo horas livres, quando o indivduo estaria supostamente liberado para cumprir as atividades que bem entendesse, no sorealmente horas livres na razo da sociedade industrial desenvolvida. Sendo assim, as atividades praticadas como lazer, sejam elasatividades em grupo ou individuais, so regidas pela sociedade, dominadas por seus interesses, manipuladas como meio demanuteno da dominao estabelecida (MARCUSE, 1979). No estudo sobre Erich Fromm, mereceu ateno Psicanlise da sociedade contempornea (FROMM, 1983). Para Fromm, o homemda sociedade ocidental do sculo XX no sabe o que fazer nem como lidar com seu tempo livre do trabalho. O homem alienado infeliz e est ansioso para matar o tempo. Para isso, consome diverso como forma de distrair-se de sua infelicidade. O consumo dadiverso d-se pelos meios de comunicao e pelos produtos culturais comercializados, que serviriam como um remdio contra aexteriorizao de sintomas neurticos. Sem esse remdio cinema, rdio, TV e esporte ? o homem seria deixado por conta de seusprprios recursos. Ao analisarmos o trabalho de Habermas, foram selecionadas as obras Mudana estrutural da esfera pblica (HABERMAS, 1984) e

  • Teora de la accin comunicativa (HABERMAS, 1987). Em Mudana estrutural da esfera pblica (HABERMAS, 1984), Habermascritica as formas de a difuso, escolha, apresentao e embalagem das obras culturais a partir de quando passaram a ser produzidaspara consumo, pelo objetivo de distrair e divertir dos consumidores, ao invs de formar e educar o pblico por meio da cultura(HABERMAS, 1984).Segundo Habermas, as caractersticas dessas produes, que garantem conforto e comodidade massareceptora, so fundamentais para essa regresso das produes culturais, que por sua vez fazem regredir aquele que as consome(HABERMAS, 1984). J em Teora de la accin comunicativa (HABERMAS, 1987), Habermas compreende que as sociedadesmodernas esto divididas em duas esferas: O mundo do sistema, que o mundo do trabalho (economia e Estado), e o mundovivido, que o mundo das relaes e da comunicao, representando a vida social cotidiana, (HABERMAS, 1987). A leitura dessesreferenciais tem sido utilizada como embasamento para estudos acerca do lazer. Pesquisadores contrrios concepo de tempo detrabalho estritamente ligada de tempo livre, recorrem a Habermas para falar de um lazer desvinculado do trabalho, abordando asociedade vista como determinada pelo meio comunicativo, em que a categoria trabalho, ao invs de ser determinante, teria potencialde igualdade em relao s demais esferas da vida social (ALMEIDA; GUTIERREZ, 2008). Analisamos tambm os trabalhos de Norbert Elias e Eric Dunning, a partir da teoria do processo civilizador, exposta por NorbertElias na obra O processo civilizador (ELIAS, 1990 e 1993), consubstanciadas em A busca da excitao (ELIAS; DUNNING, 1992).Os autores fazem uma crtica tradicional anlise do lazer como prtica presa dicotomia lazer x trabalho. No consideram que olazer e os objetivos de sua prtica sejam totalmente determinados pelo trabalho; dessa forma, defendem que o lazer s pode sercompreendido se analisado a partir da rotina dos indivduos, no somente em relao ao trabalho, mas tambm em outras atividadesdo tempo livre (ELIAS; DUNNING, 1992). Outra questo importante que Elias e Dunning no compreendem as tenses como algodo qual as pessoas fogem em suas prticas de lazer. Pelo contrrio, entendem o lazer como uma busca por excitao e prazer que, porconta do controle exercido sobre os impulsos das pessoas, no podem ser manifestados na vida cotidiana. Assim, um tipo de tensoagradvel tem papel importante como quebra da rotina por meio de um perigo imaginrio e provisrio (ELIAS; DUNNING, 1992).

    5. Consideraes Finais

    Destacamos e analisamos a contribuio de alguns autores clssicos do sculo XX, para a formulao de uma possvel Teoria dolazer. Eles so das mais variadas formaes, o que confirma que o lazer um campo multidisciplinar de estudos. As contribuies dosautores devem ser levadas em conta, de acordo com o tempo/espao em que viveram, e suas filiaes ideolgicas. Suas abordagensora so diretas, ora so indiretas (MARCELLINO, 2010, 1992), e a considerao do lazer ocorre tanto de uma perspectiva idealista,quando de uma perspectiva concreta (MARCELLINO, 1992). Demonstram, no conjunto, que o lazer tem sua especificidade(MARCELLINO, 1992), mas que deve ser entendido no plano cultural de que faz parte, e com suas relaes com o terreno dasobrigaes, destacando-se as relaes lazer e trabalho. Quanto sustentao ao mtodo enquanto relao teoria e prtica, ou processo discursivo, verificamos que os autores oraadotam abordagens funcionalistas e ora crticas, baseadas no materialismo-histrico dialtico (MARCELLINO, 2010), e queessas ltimas podem ser apenas crticas, ou critico-criativas.

    Referncias Bibliogrficas

    ALMEIDA, M. A; GUTIERREZ, G. L. Cultura e lazer: uma aproximao habermasiana. Lua Nova, v. 74, p. 93-138, 2008.BENJAMIN, W. Obras escolhidas. So Paulo: Brasiliense, 1995.________. Reflexes sobre a criana, o brinquedo e a educao. So Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2002.ECO, U. Como se faz uma tese. So Paulo: Editora Perspectiva, 1977.ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da excitao. Lisboa: Difel, 1992.ELIAS, N. O processo civilizador: uma histria dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. v. 1._____. O processo civilizador: formao do estado e civilizao. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1993. v. 2.FORACCHI, M. A. e MARTINS, J.S.(Org.) Sociologia e Sociedade. Rio de Janeiro: Livros Tcnicos e Cientficos, 1981.FROMM, Erich. Psicanlise da sociedade contempornea. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1983.HABERMAS, Jrgen. Mudana estrutural da esfera pblica: investigaes quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio deJaneiro: Tempo Brasileiro, 1984._____. Teora de la accin comunicativa, I. Racionalidad de la accin y racionalizacin social. Madrid: Taurus, 1987a._____. Teora de la accin comunicativa, II. Crtica de la razn funcionalista. Madrid, Taurus, 1987b.HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialtica do Esclarecimento: fragmentos filosficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.HUHNE, L.M., Metodologia cientfica: caderno de textos e tcnicas, Rio de Janeiro: AGIR, 2002.MARCELLINO, N.C. Lazer e educao.15. ed., Campinas, Papirus, 2010._________. A dicotomia teoria/prtica na Educao Fsica. In: Motrivivncia. Santa Catarina: UFSC, Ano VII, n 08, p. 73-78, 1995.__________. O lazer: sua especificidade e seu carter interdisciplinar. Revista Brasileira de Cincias do Esporte, CBCE, v. 12, p.

  • 313-317, 1992.MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.PARRA F., D. & SANTOS, J.A. Metodologia cientfica. 5a. Edio. So Paulo: Futura (2002).PEREIRA, O. O que teoria. S.Paulo, Brasiliense, 1982.RAMPAZZO, L., Metodologia cientfica. So Paulo: Edies Loyola, 2002SANTOS, A.R.dos, Metodologia cientfica: a construo do conhecimento, 2a. edio. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.SAVIANI, D. Educao do senso comum conscincia filosfica. So Paulo, Cortez/Autores Associados, 1980.SEVERINO, A.J. Metodologia do trabalho cientfico. So Paulo. Cortez, 1980.WIGGERSHAUS, R. Escola de Frankfurt: histria, desenvolvimento terico, significao poltica. Rio de Janeiro: Difeel, 2002.

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