18ª Edição - O Espectro

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  • 18 Edio - 6 Abril 2015 Ncleo de Cincia Poltica ISCSP - UL

    A Educao em Portugal pg6

    Condenados a repetir os erros do passado

    pg11

    Na Grcia, a revolta popular traduziu-se numa tmida vitria eleitoral do SYRIZA. Em Espanha, o plano

    mais radical: a formao de raiz de um partido poltico que encarne no s os valores, mas o

    prprio modelo assemblerio dos protestos anti-austeridade.

    A culpa dos

    reguladores? pg8 Poncha Laranja pg4

  • POLTICA INTERNA

    02 | O ESPECTRO 6 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro

    Um dos principais de-safios que Portugal enfrenta a sua ele-vada dependncia energtica. Esta situa-o advm sobretudo do facto do pas ser escasso em recursos naturais e mais espe-cificamente energti-cos. Assim Portugal tem sido ao longo do tempo um grande im-portador de matrias primas, na rea ener-gtica sobretudo car-vo, gs natural e, com maior proemi-nncia, o petrleo. Em Portugal esta a taxa de dependncia ener-gtica era em 2005 de 88,8% representando uma fatia importante das importaes por-tuguesas e contribuin-do para que Portugal tivesse uma balana

    comercial claramente negativa. Assim tem de ser uma priorida-de para Portugal di-minuir os gastos com a importao de energia e para um pas com escassez de recursos energticos a aposta nas energias renovveis torna-se natural. Essa aposta j comeou a ser fei-ta em Portugal tendo tido o seu auge du-rante os governos do Eng. Jos Scrates. Tal aposta j come-ou a dar os seus fru-tos com a taxa de de-pendncia energtica em 2014 a descer pa-ra os 71%. Assim esta aposta nas energias renovveis deve ser continuada e incenti-vada no s porque tem efeitos positivos

    para a economia co-mo tambm tem efeitos positivos para o ambiente j que no geral estamos a falar de formas de energia no poluente. assim necessrio analisar as diferentes formas de energia renovvel enumeran-do vantagens e des-vantagens bem co-mo a sua implanta-o em Portugal. Energia Hdrica: Esta a forma de energia renovvel com maior implantao em Por-tugal tambm devido ao facto de ter sido a primeira a surgir. Es-te tipo de energia ge-rado pela energia que se encontra nu-ma determinada massa de gua como um rio tem a vanta-gem de ser uma das formas mais eficien-tes de produzir ener-gia renovvel geran-do uma grande pro-duo, tendo um bai-xo custo de produo e proporcionando um desenvolvimento local. Infelizmente esta tipo de energia tem tambm algu-

    mas desvantagens pa-ra o ambiente, como a eroso dos solos e destruio de ecossis-temas, e para as pes-soas j que pode pro-vocar a transferncia de populaes ribeiri-nhas como se verifi-cou no Alqueva. Actu-almente j 30% da energia consumida em Portugal tem ori-gem hdrica. Energia Elica: Esta forma de energia re-novvel que aproveita a energia gerada pelo vento atravs de ven-toinhas gigantes tem tido um crescimento vertiginoso em Portu-gal sobretudo desde 2005. A ttulo ilustrati-vo Portugal est a pro-duzir 23 vezes mais energia elica do que 10 anos atrs. As su-as vantagens so o facto de ser inesgot-vel, ser relativamente barata, no poluente e existir rentabilidade no investimento. Con-tudo apresenta tam-bm algumas desvan-tagens como o facto de ser intermitente e dependente da exis-tncia e da velocidade

    em parceria com o NAE - ISCTE

    Dependncia

    energtica e sustentabilidade

    ambiental

    Pedro Diogo

  • 6 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 03

    POLTICA INTERNA

    do vento, provocar rudo, alterar a paisa-gem e interferir com as rotas de aves. Energia Solar: Esta for-ma de energia apro-veita a luz do sol para a criao de energia. Existem vrias tcni-cas de produo entre as quais se contam os painis foto voltaicos e as fbricas heliotr-micas. As principais vantagens so o facto de no ser poluente, necessitar de pouca manuteno, aumen-to da potncia ao lon-go do tempo e apli-cvel a habitaes. As principias desvanta-gens so a grande quantidade de energia que necessrio no seu fabrico, os preos elevados e a depen-dncia das condies atmosfricas. Portugal est na linha da frente neste tipo de energia com a Central Foto-voltaica de Serpa en-quanto uma das maio-res centrais do Mundo. Outros tipos de ener-gia renovvel so menos atraentes ou por ainda se

    encontrarem numa fase embrionria, energias das ondas e mars, ou por terem efeitos negativos ele-vados, como o caso da biomassa. Naturalmente a utili-zao destas formas de energia deve ser incentivada e expan-dida sendo que a sua distribuio pelo ter-

    ritrio deve ser adap-tada s especificida-des climatricas, oro-grficas e hidrolgi-cas do mesmo para aproveitar ao mximo cada uma

    destas formas de energia. Para alm disso o pas deve ter um forte enfoque na poltica ambiental com um compromis-so no que respeita a outras vertentes co-mo a defesa dos habitats e da biodiversidade, podendo apostar no turismo da natureza,

    na promoo da mo-bilidade sustentvel (atravs de carros elctricos e hbridos), uma regrada utilizao dos recur-sos naturais, sobretu-

    do a gua potvel que um bem cada vez mais escasso bem co-mo a terra arvel e um compromisso de fazer o possvel para reverter o actual padro de aquecimento global e subida do nvel global dos oceanos, atravs da reduo da emisso dos gases de

    efeitos de estufa, algo que est intimamente relacionado com as energias renovveis e com a mobilidade sus-tentvel.

    Energia Elica em Portugal ENERGIASRENOVAVEIS12.BLOGS.SAPO.PT

  • 04 | O ESPECTRO 6 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro

    POLTICA INTERNA

    Poncha de Laranja

    Tiago Santos

    Poderia comear este texto recorrendo costumeira alegoria do Bailinho da Madei-ra que marca grande parte dos comentrios

    polticos sempre que a populao insular se desloca s urnas. Po-deria mesmo ter en-titulado esta opinio tomando de assalto a caracterstica dana da Regio Autnoma. No entanto para alm de cair na repetio

    cairia no erro de no adequar as palavras realidade, visto que as ltimas eleies no assistimos a uma superioridade abis-

    mal como tem sido hbito. Miguel Albu-querque e toda a sua equipa partiram para estas eleies na pe-numbra do passado recente do PSD Ma-deira e com isso tam-bm na penumbra do passado da prpria

    ilha sendo estes in-dissociveis. verda-de que o agora Presi-dente Regional havia h pouco tempo con-quistado a liderana do partido, conquis-tando desde logo um lugar na histria, mas essa vitria no po-deria nunca servir de afirmao poltica e

    muito menos signifi-caria que a vitria nas eleies regio-nais estava assegura-da. O acto eleitoral interno surge num plano diferente da-quele que se realizou no passado dia 29 de Maro pois a ausn-

    cia de uma candidatu-ra jardinista deixava o campo aberto para a vitria de Albuquer-que, que havia j con-quistado um impor-tante resultado contra Alberto Joo Jardim em 2012. O acto elei-toral foi o teste ao fu-turo do agora Presi-dente Regional e do PSD na Madeira na era ps-Jardim. Foi a balana que permitiu escrutinar se o reina-do do ex-Presidente foi fruto solitrio da sua pessoa, ou se exis-te verdadeiramente uma ligao entre a populao madeiren-se e o Partido Social Democrata. Hoje, co-nhecidos os resulta-dos, a resposta parece bvia. Para alm da confirmao da fora da onda laranja na ilha estas eleies trouxe-ram a pblico as fragi-lidades do Partido So-cialista na regio. Em coligao com o PTP e com o PAN no conse-guiu concretizar a Mu-dana que deu nome candidatura, tendo sido relegado condi-o de terceira fora

    Miguel Albuquerque TVI24.IOL.PT

  • POLTICA INTERNA

    6 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 05

    poltica local. Este re-sultado deve ser pon-derado pelos dirigen-tes socialistas a nvel nacional, porque a derrota, essa, foi pe-sada. Ainda sobre o Partido Socialista pa-rece-me evidente que o afastamento da po-pulao madeirense ao partido da rosa no se esgota nos candida-tos regionais. Antnio Costa fez questo de marcar presena du-rante a campanha e nem isso parece ter contribudo para um resultado positivo, motivo que levou o Secretrio-Geral do PS a no se pronunciar sobre os resultados. No deixa de ser irni-co que foi no segui-mento de um acto eleitoral, ganho pelo Partido Socialista, que Antnio Costa se lan-ou no seu Golpe de Estado e que agora, com uma derrota ca-tegrica, no exista sequer uma declara-o pblica proferida pelo lder. Esta conju-gao de factos pare-ce confirmar que ape-sar das diferenas en-

    tre o PSD Madeira e o PSD de Pedro Pas-sos Coelho os madei-renses colocam-no no topo das suas pre-ferncias. Pode ser dito, talvez com ra-zo, que o resultado regional ditou uma nova maioria absolu-ta a favor do maior partido do Governo pelo facto de o Pri-meiro-Ministro no se ter imiscudo na campanha de Albu-querque, mas ainda assim desde as elei-es internas que a Comunicao Social faz questo de colar os dois polticos quer pela sua conhecida amizade, quer pela proximidade que es-tes tiveram nos tem-pos de Juventude So-cial Democrata, quando Passos lide-rava a estrutura a nvel nacional e Albu-querque era lder na Madeira. Albuquer-que conquistou para si e para o seu parti-do nova maioria ab-soluta contrariando os que acusavam o Poder Regional da Madeira de funcionar

    numa lgica de Mo-narquia e que apon-tavam figura de Al-berto Joo Jardim a total responsabilida-de pelas sucessivas vitrias social-democratas. O popu-lismo e mesmo a co-aco, argumentos arremessados a Jar-dim, parecem dar agora lugar a um si-lncio face ao surgi-mento de uma nova figura com resultados semelhantes. Por fim, mais uma vez se comprova que a Ma-deira um activo de peso para as aspira-es do PSD, que no deve ser esquecido pela direco parti-dria. Parece-me que Passos deveria agora aproveitar politica-mente o inebriamen-to provocado pela Poncha de Laranja que Albuquerque serviu e assim con-quistar de modo defi-nitivo o apoio da po-pulao insular para as Eleies Legislati-vas que se aproxi-mam. Torna-se claro que a Madeira mui-to mais que Costa!

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  • 06 | O ESPECTRO 6 ABRIL 2015 www.facebook.com/OEspectro

    POLTICA INTERNA

    em parceria com o NAE - ISCTE

    Qual o interesse da

    Educao? (I)

    Gonalo Lima

    Desde h alguns scu-los a esta parte (pelo menos desde Adam Smith e a sua Riqueza das Naes, de 1776) se tenta perceber quais os factores cha-ve que determinam o aumento da riqueza de um pas, ou seja, o seu crescimento eco-nmico. Num mbito mais abrangente, e na verdade mais funda-mental, fala-se em de-senvolvimento. De qualquer das formas, para que haja uma es-tratgia de polticas pblicas no sentido de garantir o bem-estar colectivo da popula-o do pas necess-rio, em primeiro lugar, fazer o diagnstico certo dos principais problemas e, em se-gundo lugar, aplicar o tratamento adequa-do. Um dos problemas que mais constrangi-mentos cria ao cresci-

    mento econmico em Portugal , inega-velmente, a forma-o e qualificao profissional dos seus cidados. Devido ao atraso significativo provocado pelo tor-por do Estado Novo, e apesar das melhori-as significativas da ltima dcada, Portu-gal continua a ser um dos pases com pio-res resultados neste tipo de indicadores, ao nvel da Unio Eu-ropeia (UE). Desta-cam-se sobretudo, a elevada taxa de abandono escolar precoce (18,9% em 2013) e a baixa per-centagem de popula-o com Ensino Su-perior (17,6%, em 2013; 7,4 pontos per-centuais abaixo da mdia da UE). A aprendizagem, seja ela formal ou infor-mal, o processo pri-

    mordial de acesso ao Conhecimento. O mesmo tem um valor intrnseco: todo o processo de evoluo humana processo de conhecimento das suas prprias possibi-lidades. Mas tem tambm um valor mais prosaico asso-ciado ao crescimento econmico, que na gria econmica se d o nome de capital humano, factor fun-damental na criao de riqueza. Quanto a isto, segundo a OCDE (2003), um aumento de um ano no nvel mdio de escolarida-de traduz-se num au-mento da taxa de crescimento anual entre 0,3 e 0,5 pon-tos percentuais. Alm disto, sabido que as economias modernas caracteri-zam-se cada vez mais pela sua capacidade de diferenciao pro-dutiva, ou seja, pela sua capacidade de inovao, algo para o qual fundamental uma populao cada vez mais instruda e com capacidades de

    aprendizagem cont-nua. As generalizadas baixas qualificaes e a elevada taxa de abandono escolar continuam a tornar o nosso sistema de ensi-no um mecanismo re-produtor de desigual-dades: alarga o fosso de rendimento entre aqueles que concluem o Ensino Superior e os que se ficam por n-veis mais baixos de qualificao. A desa-celerao do investi-mento dos ltimos anos em programas de formao ao longo da vida (e o fim de ou-tros) tambm em na-da contribui para a convergncia dos pa-dres de qualificaes com os da UE. Para que Portugal no fi-que para trs no pro-cesso de desenvolvi-mento necessita de uma escola pblica forte e de excelncia, capaz de formar do melhor modo os alu-nos a pensarem por si mesmos e a desenvol-verem trabalho de al-to valor acrescentado, seja em contexto uni-versitrio, seja em

  • POLTICA INTERNA

    contexto profissional. No processo de me-lhoria constante da escola pblica , con-tudo, importante refe-rir o equilbrio delica-do entre a necessida-de de aumento da exi-gncia de aprendiza-gem e a capacidade de incluso, bem co-mo a criao de moti-

    vao para o pensa-mento autnomo. Va-le, pois, a pena adian-tar algumas propostas de melhoria do siste-ma de ensino, a de-senvolver a longo-

    prazo. Divido-as em dois tipos de propos-tas, umas de altera-o estrutural (da organizao e funcio-namento das escolas) e outras de alterao programtica (dos programas propria-mente ditos). Em ter-mos de propostas de alterao estrutural,

    considero fundamen-tal (1) a criao de um sistema de avali-ao de professores, com funcionamento efectivo e revises regulares do modelo

    de avaliao aplica-do; (2) reformulao da carreira docente, cuja progresso pro-fissional seria cada vez mais baseada na qualidade do traba-lho prestado e no s na antiguidade; (3) maior autonomia e liberdade de contra-tualizao com pro-

    fessores, por parte dos agrupamentos escolares; (4) reforo do investimento em actividades extra-curriculares e de apoio aos alunos nas

    escolas, transversal a todas as escolas, com o intuito de integra-o social e reforo de aprendizagem. Em termos de propostas de alterao progra-mtica, considero fun-damental (1) a inclu-so da disciplina de Filosofia logo a partir do 7 ano de escolari-dade, enquanto intro-duo histria das ideias e rudimentos de Lgica; (2) a obri-gatoriedade da disci-plina de Matemtica A para todos os cursos cientfico-humansticos; (3) re-foro do ensino de obras de literatura universais, que no se esgotem numa verso em prosa da Odisseia, nem em apenas obras portuguesas; (4) in-centivo criao de aulas mais participa-das com reforo da capacidade de auto-nomia de aprendiza-gem dos alunos. Em prximos textos justi-ficarei, conveniente-mente, cada uma...