17ª Edição - O Espectro

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  • 17 Edio - 2 Maro 2015 Ncleo de Cincia Poltica ISCSP - UL

    Portas dOuro

    pg2

    Quem tem medo dos preos do petrleo?

    pg7

    Seria bom que, com esta ameaa dos preos do petrleo, o Governo angolano pressen-

    tisse a reduo do seu capital poltico e se empenhasse nas reformas polticas necessrias,

    para que no se tor-ne realidade a ame-aa bem mais negra de antigas convul-ses sociais.

    Evaso Fiscal

    pg6

    Bandeiras do Syriza JACOBINMAG.COM pg11

  • POLTICA INTERNA

    02 | O ESPECTRO 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    Portas dOuro

    Tiago Santos

    O Labirinto no qual se viram encurralados directores e altos quadros do Servio de Estrangeiros e Fronteiras, do Instituto dos Registos

    e Notariado, do Ministrio da Justia e empresas imobilirias, conduziu ao congelamento da atribuio de vistos Gold durante os ltimos meses do ano transacto e incio daquele que agora decorre. Uma das principais medidas de atraco de investi-

    mento para o nosso pas, ao ser assolada por suspeitas de corrupo e pagamento de luvas, tornou-se obsoleta e foi, tal como seria

    expectvel, suspensa. O investimento estran-geiro em Portugal, principal factor de motivao para a im-plementao desta medida, verificou um crescimento de 641% at imploso do referido escndalo e tendo como base o valor calculado em

    Setembro de 2013. Derivado da medida concretamente definida, o Estado, reteve desde a introduo da mes-ma em 2012, um va-lor em torno dos 1100 milhes de eu-ros. Independen-temente da conclu-so do processo e das implicaes judi-ciais que da advirem, o Tesouro Nacional no poderia perma-necer privado de uma injeco de capi-tais desta ordem, ainda que pessoas individualmente con-sideradas venham a ser declaradas culpa-das em sede de julga-mento por ilcitos co-metidos no decorrer do processo. Aten-dendo a esta necessi-dade oramental, Paulo Portas, en-quanto principal es-tratega do programa, viu-se obrigado a al-terar a formulao do projecto com o intuito de afastar possveis irregulari-dades e, em simult-neo, alargar a base de incidncia do

    mesmo. O aumento da fiscalizao e a sua descentralizao cer-tamente cumpriram a funo de evitar no-vos escndalos. As no-vas possibilidades de investimento altera-ro a gnese dos in-vestidores e do inves-timento em si. No an-terior diploma o inves-timento era, na sua totalidade, afecto ao sector imobilirio que pelas suas caractersti-cas uma vertente econmica sem qual-quer valor acrescenta-do e na qual o investi-mento nico no pro-cesso de criao de riqueza. Para alm dos factores enunciados no nos esqueamos do efeito deste mes-mo sector no crash de 2008, coisa que Portu-gal no pode correr o risco de repetir. O no-vo diploma abre espa-o a investimentos na investigao cientfica, na cultura e na reabili-tao de patrimnio. Ora desta forma o Go-verno colmata a difi-culdade financeira de investimento cultural e fomenta, em simul-

    Paulo Portas POLITICAPORTUGAL.COM

  • 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 03

    POLTICA INTERNA

    tneo, o progresso cientfico-tecnolgico dando resposta aos anseios da crescente comunidade de inves-tigadores que muitas vozes levantou aquan-do da atribuio de bolsas pela Fundao para a Cincia e Tec-nologia. Em acrscimo, atende-se tambm ao desfa-samento entre os grandes centros e as periferias interiores ao consagrar uma re-duo do valor mni-mo de investimento necessrio para a ob-teno do Visto. Por-tugal no pode conti-nuar a ser um pas a duas velocidades. Por-tugal no pode ser mais interior e litoral porque as dimenses territoriais fazem de ns um pas onde a coeso territorial tem de ser regra Cultura, Cincia e Rea-bilitao passam as-sim a ser uma trade de conceitos com pos-sibilidade de cresci-mento num pas onde urge a aproximao aos padres euro-peus. Cultura, Cincia

    e Reabilitao pas-sam assim a ser uma realidade no desen-volvimento nacional, sem que isso signifi-que uma alienao de recursos do Esta-do investidos nas reas fundamentais para o investimento pblico como a Sa-de, a Educao e a Segurana. Atendendo s priori-dades que o Estado deve ter e numa par-ceria que se espera de sucesso entre o pblico e o privado, Paulo Portas lana os fundamentos para o aumento da Taxa de Crescimento sem hi-potecar as funes primordiais da rela-o existente entre as autoridades esta-tais e os cidados. Aguardemos os pri-meiros resultados que comprovem que o investimento priva-do pode e deve col-matar os sectores aos quais o Ora-mento no consegue responder, tendo em conta os condicionamentos existentes.

    em parceria com o NAE - ISCTE

    Pedro Diogo

    No atual momento em que Portugal est a sair de uma reces-so profunda, de extrema pertinncia discutir qual a me-lhor estratgia para o desenvolvimento de Portugal. Os ltimos anos tm sido marca-dos pelas polticas de austeridade e por uma estratgia de desenvolvimento ba-seada nos baixos sa-lrios e nas exporta-es. Ora, mesmo aps o fim do Progra-ma de Ajustamento, o pas apresenta um crescimento residual, um desemprego ele-vado mesmo com a emigrao e com os ocupados, a dvida pblica continua a aumentar e a taxa de inflao j negativa. A evoluo destes

    indicadores fulcrais mostra que esta estra-tgia econmica neoli-beral, aplicada pelo atual governo, est a ser um falhano (os dados econmicos de outros pases da UE mostram que tambm nesses pases estas polticas esto a fa-lhar). Assim, neces-sria uma estratgia de desenvolvimento alternativa. Com o fa-lhano generalizado das polticas neolibe-rais, e devido ao facto de j existirem provas dadas, as polticas keynesianas assumem-se como a melhor al-ternativa disponvel. Ou seja, num perodo de recesso ou de bai-xo crescimento, como o que vivemos atual-mente, necessrio estimular a economia.

    Estratgia para o

    desenvolvimento de

    Portugal

  • 04 | O ESPECTRO 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    POLTICA INTERNA

    Apesar do atraso tem-poral do BCE, a recen-te compra de ttulos de dvida pblica, esti-lo quantitative easing americano, e as baixas taxas de juro, mos-tram que a poltica monetria j est no caminho certo para

    promover o cresci-mento e o emprego. Agora falta a outra parte, ou seja, uma poltica oramental expansionista. Estas polticas so necess-rias para aumentar o consumo e a procura interna. O objetivo que, atravs de au-mentos salariais e da construo de obras pblicas, se aumente o rendimento das fa-

    mlias, aumentando assim o consumo e, portanto, a procura, o que seguidamente far aumentar a pro-duo e novamente o emprego, trazendo crescimento econo-mia. As polticas de prote-

    o social tambm devem ser re-alargadas. Tambm elas contribuem para recuperar a procura interna para alm de combaterem a po-breza e a desigualda-de, algo que tambm tem aumentado fru-to das polticas de austeridade. Claro que devido elevada dvida pblica estas polticas keynesianas

    devem ser acompa-nhadas de alguma conteno oramen-tal, mas sempre at um ponto que permi-ta um crescimento econmico significa-tivo (pelo menos 2%). Para alm da alterao das polti-

    cas conjunturais, Por-tugal necessita tam-bm de uma altera-o das polticas es-truturais, ou seja, so necessrias polticas que promovam um crescimento a longo prazo. Portugal deve continuar a sua apos-ta nas exportaes mas ao contrrio do que tem sido promo-vido pelo atual go-verno, deve apostar

    nas exportaes de produtos com elevado valor acrescentado, j que os nossos salrios nunca sero baixos o suficiente para com-petir sequer com pa-ses do Leste Europeu. Para esta alterao no padro de especializa-o necessrio um aumento do nvel de educao dos jovens portugueses e progra-mas de aprendizagem ao longo da vida para trabalhadores menos qualificados j no ati-vo. O facto de o pas ter uma moeda forte refora ainda mais es-ta necessidade de ex-portar produtos com alto valor acrescenta-do. Deve existir igual-mente uma estratgia que promova um de-senvolvimento ambi-entalmente sustent-vel com regulaes ambientais mais aper-tadas em articulao com a UE, por exem-plo no que respeita aos nveis de CO2 e de outros poluentes, apostando tambm em produtos biolgi-cos e proteo dos ecossistemas.

    Euro MUNDOLEOWEEZER.BLOGSPOT.COM

  • 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 05

    Apelo aos Judeus

    para regressarem a

    Israel

    Joo Ferreira

    O Primeiro-Ministro israelita Netanyahu apelou aos judeus eu-ropeus a mudarem-se para Israel na sequn-cia dos atentados em Copenhaga contra a principal sinagoga da capital dinamarquesa. A todos os judeus da Europa: eu digo que Israel vos espera de braos abertos, acrescentou. Segundo Netanyahu, o governo israelita vai adoptar um plano para enco-rajar a imigrao de judeus da Frana, Bl-gica e Ucrnia, com um montante de cer-ca de 45 milhes de dlares( cerca de 40 milhes de euros). No entanto, o mi-nistro israelita dos Ne-gcios Estrangeiros, Avigdor Lieberman, j tinha pedido uma guerra sem quartel

    contra o terrorismo islmico, aps os lti-mos atentados come-tidos na capital dina-marquesa em que morreram duas pes-soas, entre elas um jovem judeu, e cinco ficaram feridas. O pri-meiro ministro israe-lita asserta que o seu pas est preparado para acolher uma imigrao em massa proveniente da Euro-pa. Estamos espe-ra que esta onde de ataques e os assassi-natos antissemticos continuem a aconte-cer, disse Benjamin Netanyahu. Os aten-tados na capital dina-marquesa asseme-lham-se aos do jornal francs Charlie Heb-do, em Janeiro, por terem como alvo uma sinagoga e um artista sueco conheci-

    do pelas suas carica-turas controversas de Maom. De acordo com a Lei do Regres-so de Israel, qual-quer pessoa que te-nha pelo menos um av judeu tem o di-reito de emigrar para a Terra Sagrada e re-ceber automatica-mente a cidadania. Estas medidas aca-bam por ser benfi-cas tanto para os ju-deus e extremistas de direita. Para os

    judeus ser benfica porque podem re-gressar para a sua terra natal, onde no sero alvos de antis-semitismo, agresso, dio e possvel homi-cdio. Para os de ex-

    trema direita ser tambm benfico, pois, tero a oportuni-dade de ver o seu pas livre daqueles que mais odeiam e des-prezam, acabando por deitar fora os seus cartazes Judeus, fo-ra! e viver uma vida tranquila a escolher que outra etnia iro odiar a seguir. Contu-do, o primeiro minis-tro francs, Manuel Valls, exortou os ju-deus de Frana a per-

    manecerem no pas, depois de centenas de tmulos judaicos te-rem sido profanados. A minha mensagem para os judeus france-ses a seguinte: Fran-a tambm foi ferida e

    POLTICA EXTERNA

    Primeiro-Ministro Netanyahu HAARETZ.COM

  • 06 | O ESPECTRO 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    a Frana no quer que vocs se vo embora, disse Valls. O dio crescente aos judeus faz com que no te-nham mais nenhum stio para viver em se-gurana seno em Is-rael, mas, face guer-ra contra os palestini-anos, Israel no pare-ce um lugar to segu-ro para os judeus co-mo parece. Concluo que, apesar dos esfor-os feitos e dos esfor-os que esto para vir, os judeus europeus e judeus em geral tero uma tendncia a afas-tarem-se cada vez mais das sociedades europeias e desliga-rem-se do mundo as-sim que a guerra isra-elo-palestiniana aca-bar vitoriosa para o lado de Israel at o dio acalmar na Euro-pa. Parece que caiu sobre os judeus uma maldio de dio por terem sido respons-veis pela morte de Je-sus Cristo, o Messias. No futuro, Israel po-der vir a ser um vali-oso Aliado, ou um te-mvel Inimigo.

    A semana passada deu incio a mais um escndalo de evaso fiscal no velho conti-nente e o suspeito do costume voltou a aparecer em cena o HSBC. O banco que, em 2012, foi conde-nado ao pagamento de uma multa de 1,9 mil milhes de dlares nos EUA por lavagem de dinheiro proveniente de car-tis de droga Mexi-canos e que se viu envolvido no escn-dalo de manipulao da taxa libor, agora arguido num caso de fuga fiscal sem prece-dentes. O caso torna-do agora pblico re-monta a 2007, quan-do Herv Falciani, um especialista em se-gurana informtica do HSBC, roubou uma lista detalhada de 100 000 clientes que, alegadamente, estariam a usar a fil-ial sua do HSBC pa-

    ra evitar obrigaes fiscais. Ao todo, esti-ma-se que o mon-tante que escapou aos cofres de mais de 200 pases ascenda a 180 mil milhes de euros. O caso vem alertar novamente para a premncia do com-bate evaso fiscal, numa altura em que o controlo oramen-tal tem estado na or-dem do dia das agen-das polticas europe-ias. A fuga ao fisco representa hoje um dos principais atenta-dos ao Estado de Direito, coeso so-cial, ao desenvolvi-mento econmico e ao prprio projeto europeu. Para que tenhamos uma ideia mais clara da gravi-dade do fenmeno, relembremos que, especificamente no caso portugus, as estimativas em 2013 apontaram para um

    POLTICA EXTERNA

    Evaso Fiscal

    Joo Rodrigues

    fuga ao fisco no valor de 12 mil milhes de euros o suficiente para financiar em 63% o Servio Nacional de Sade ou para reembolsar a troika das tranches rece-bidas nesse ano. Tor-na-se desta forma evi-dente o risco que este crime representa para a concretizao do Es-tado Social, ao retirar verbas astronmicas dos cofres do estado para o financiamento dos servios pblicos de educao, sade e segurana social. Esta apropriao de recur-sos pblicos tem con-sequncias incisivas no aumento da desig-ualdade social e no aumento do risco de pobreza, deixando particularmente vul-nerveis jovens e idosos. O combate evaso fiscal tem sido uma das bandeiras polticas do executivo portu-gus nos ltimos anos e tm sido tomadas medidas importantes para o aumento da eficcia e da eficincia da Autoridade

    em parceria com o NAE - ISCTE

  • trio de Economia e Gesto da Fraude). Mais do que sortear Audis no Portal das Finanas, necessria uma ao europeia enrgica e

    coordenada para evi-tar as grandes fugas de capital para off-shores e o dumping fiscal dentro do espa-o europeu. Nesse sentido, a Comisso Europeia prepara-se para avanar em Maro com um plano contra a evaso fis-cal, que ter como principal objetivo um maior intercmbio de informao e a tributao das em-

    presas nos espaos econmicos em que exercem atividade, mitigando assim o planeamento fiscal agressivo que as grandes empresas

    conseguem exercer para explorar vantag-ens fiscais em pases como a Holanda, Malta, Chipre e Lux-emburgo. Pelo caso exposto por Falciani, agora acusado de espio-nagem industrial na Sua, torna-se ainda evidente a neces-sidade de combater o poder instalado dos bancos para dar cobertura a ativida-

    POLTICA EXTERNA

    Tributria e Aduanei-ra. Contudo, em 2013, a economia paralela em Portugal aumen-tou para uns extraor-dinrios 26,81% do PIB, bastante acima

    da mdia da OCDE de 16%. Quer isto dizer que, se a economia paralela no existisse, Portugal teria tido um superavit oramental de 0,4% ao invs de ter registado um defi-cit de 4,85% ou, no sendo demasiado ex-tremista, se Portugal estivesse dentro da mdia da OCDE nesta matria, o deficit teria sido de apenas 2,5% (nmeros do Observa-

    des criminosas, sejam elas a lavagem de din-heiro ou a evaso fis-cal, atravs de uma superviso mais aper-tada. Resta saber se o poder poltico eu-

    ropeu tem a coragem e a tenacidade sufi-cientes para atacar pela raiz as clulas cancergenas que ameaam a in-tegridade das socie-dades europeias ou se se continuar a apresentar medidas a conta-gotas, medida que a opinio pblica se vai exaltando pelos escndalos dados luz pelo jornalismo de investigao.

    Banco HSBC TELEGRAPH.CO.UK

    2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 07

  • POLTICA EXTERNA

    em parceria com o NAE - ISCTE

    Gonalo Lima

    Quem tem medo dos

    preos do petrleo?

    A economia angolana baseia o seu cresci-mento na produo de petrleo, como bem se sabe. O ouro negro vale mais de 90% das exportaes do pas e 75% das re-ceitas fiscais. Em 2014, 29 mil milhes de dlares petrolfe-ros forraram os cofres do Estado angolano porm, bastante abai-xo dos 34,9 mil mi-lhes de dlares, em 2013. Esta quebra de-veu-se sobretudo ao recuo nas exportaes e queda acentuada dos preos do petr-leo, desde Junho. Ape-sar de poder chegar produo de 2 mi-lhes de barris de pe-trleo por dia, este ano, o pas no tem sequer uma quota do mercado mundial de 2%, o que faz de An-

    gola um price-taker e, assim, mais sus-cetvel a flutuaes do mercado. A queda abrupta dos preos parece dever-se so-bretudo a duas ra-zes, uma eminente-mente poltica, outra estritamente mer-cantil, mas ambas com o mesmo ator principal, a Arbia Saudita, maior pro-dutora da OPEP. Se formos pelo lado do mercado, tem-se ve-rificado um abranda-mento da procura internacional de pe-trleo sobretudo de-vido estagnao da economia europeia e ao abrandamento do crescimento na Chi-na. Ora, a Arbia Saudita tinha duas opes, ou mantinha a mesma quantidade de produo, fazen-

    do descer os preos, ou restringia a pro-duo para manter as margens de lucro, de resto em concor-dncia com a estrat-gia do cartel. Porm, o quadro internacio-nal tem-se alterado, no que diz respeito ao equilbrio de for-as com o Ocidente. A oferta de petrleo tem aumentado significativamente (cerca de 80% entre 2008 e 2014), bem como a direo dos fluxos internacionais: os EUA passaram a importar mais do Ca-nad que dos pases do Golfo e a ameaa dos produtores norte-americanos de xisto betuminoso come-ou a tonar-se mais premente. Ou seja, por um lado a con-corrncia comea a apertar, por outro, os interesses polticos e geoestratgicos ga-nham maior relevn-cia. Assim sendo, a restrio da produ-o poderia levar a Arbia Saudita a per-der a sua quota de mercado para outros

    produtores. A verdade que o pas tem mar-gens mais confort-veis que os seus par-ceiros da OPEP para entrar numa guerra de preos, devido sua capacidade de produo de petrleo onshore, a baixo custo. Ao contrrio dos rabes, Angola tem uma produo offshore, com custos ainda relativamente elevados (segundo estimativas da Mor-gan Stanley a produ-o em guas profun-das e ultra-profundas varia entre os 52 dla-res e os 56 dlares por barril), o que pe em causa a viabilidade econmica da extrac-o de petrleo em guas angolanas, visto os preos j terem co-tizado abaixo desses valores. Ora, se os preos do petrleo se mantiverem em torno dos 60 dlares por barril nos prximos tempos, como at data deste texto se encontram, isto signi-ficar graves proble-mas para a economia angolana. Uma polti-

    08 | O ESPECTRO 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

  • POLTICA EXTERNA

    2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 09

    ca econmica obtusa poder levar a uma aposta cada vez mai-or na produo de petrleo, no sentido de cortar os custos e manter a vantagem comparativa. Porm, o padro de especiali-zao seguido pela

    economia do pas (produo de recur-sos naturais no reno-vveis, como o petr-leo e os diamantes) acarreta srios dile-mas para o seu de-senvolvimento. Devi-do fraca dinmica do crescimento da procura por recursos naturais no longo-prazo, e devido re-duo do seu preo,

    tender a haver uma degradao significa-tiva dos termos de troca do pas face ao exterior. Isto tender a provocar instabili-dade econmica e poltica. Algumas me-didas tm sido toma-das para conter esta

    instabilidade, nome-adamente a criao do Fundo Soberano de Angola, de modo a garantir uma repar-tio inter-geracional dos benefcios da ex-plorao petrolfera, e o investimento em infraestruturas de carcter produtivo. Porm, e mais recen-temente, polticas de restrio de importa-

    es (que afetam muitas empresas ex-portadoras portugue-sas) tendem a distor-cer as reais capacida-des de criao de ri-queza do pas. Em boa verdade, basta uma anlise do Rela-trio Social de Ango-

    la (RSA), de 2013, co-ordenado pelo Pro-fessor Alves da Ro-cha, para perceber que as condies so-ciais e o quadro insti-tucional, apesar dos esforos tmidos, es-to ainda longe de garantir a manuten-o de um fluxo mni-mo de rendimento que se traduza no efetivo desenvolvi-

    mento do pas. Apesar de, segundo o Banco Mundial, Angola ser um pas de rendimen-to mdio elevado (PIB per capita), a organi-zao poltica angola-na continua a deixar inclume o essencial do atual modelo de reproduo de desi-gualdade (RSA, p. 28), o que se reflecte no seu desenvolvi-mento humano e no seu crescimento, com o sistema de ensino ainda a ser incapaz de formar os tcnicos ne-cessrios sua susten-tabilidade econmica, e os nveis de corrup-o a serem um entra-ve conduo de me-lhores negcios. Seria bom que, com esta ameaa dos preos do petrleo, o Governo angolano pressentisse a reduo do seu capi-tal poltico e se empe-nhasse nas reformas polticas necessrias, para que no se torne realidade a ameaa bem mais negra de antigas convulses sociais.

    Petroleira HYPESCIENCE.COM

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    10 | O ESPECTRO 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    SOCIEDADE DE DEBATE DO ISCSP - UL

    AEISCSP - UL

    NECPRI - FCSH/NOVA

  • POLTICA EXTERNA

    Dilemas do CashCall

    Rui Sousa

    No final de Janeiro al-go estranho aconte-ceu. Abriam telejor-nais, as pessoas fala-vam na rua, questio-nava-se a origem do acontecimento, ener-gmenos enchiam es-pao televisivo arra-sando o desconhecido e para espanto de muitos, um partido constitucionalmente legal ganhou eleies no pas ao qual con-correu. Se um ser ex-tra-planetrio aterras-se na Europa no fatdi-co ms de Fevereiro poderia ainda supor que o Syriza se enga-nou no pas que que-ria governar. Mas no, aparentemente e para choque de muitos, a democracia vigorou e uma coligao rapida-mente foi formada para corresponder s expectativas do eleito-rado. De seguida, no-vo desafio e nova lio dada pela Europa aos prprios europeus,

    neste caso no mbito da lingustica. Habil-mente, o senhor Schuble, a senhora Lagarde, o se-nhor Dijsselbloem e outros que possuem o ttulo de Sr. ensina-ram populao a utilizao devida das conjunes adversa-tivas numa frase cor-rectamente constru-da. Oraes que pos-suam mas, contudo, porm ou todavia na ligao de dois pen-samentos, adquiri-ram um novo signifi-cado: esquecer por completo a ideia an-tes da conjuno. An-tes de Fevereiro de 2015, a frase "tentei chegar cedo, mas perdi o comboio" li-gava duas oraes com pensamentos contrrios ou com-pensatrios. Depois do ms do Carnaval de 2015, a frase "a democracia muito bonita, mas a Grcia

    tem de cumprir os seus compromissos" ganha um novo rele-vo. A parte anterior conjuno pode de-saparecer e ficamos s com a segunda parte. A importncia do discurso passou a residir na segunda parte da frase, confe-rindo ao resto o pro-psito de acessrio e complementar. No fundo, o debate de resoluo dos proble-mas da Grcia reside nesta pequena gran-de questo. O que vale mais, a primeira orao ou a segun-da? possvel conju-gar as vontades con-trrias ou o avano para a ruptura o caminho nico? No estar a Grcia a des-cobrir o caminho ma-rtimo para a resolu-o da dvida, lidera-do por Bartolomeu Varoufakis lutando contra o Herr Ada-mastor? Em poca de scares, Maria Luis Albuquerque foi me-dalha de Schuble. Portugal faz lembrar aquele tio convidado para um casamento

    que aluga um BMW e compra uns culos Ray Ban s para mos-trar que tem dinheiro aos familiares mas no final devolve tudo e no tem onde cair morto. Cultura portu-guesa. Um check nas aparncias, um zero na substncia. No somos a Grcia. Roger Hodgson escreveu e comps em 1979 uma das canes mais ricas e criticas dos Super-Tramp e, sobretudo, dos anos 70. A msica visava a padronizao excessiva do sistema de ensino ingls que cada vez mais castrava a criatividade e sensi-bilidade das crianas. A dada altura da can-o, uma estrofe re-produz na perfeio a actualidade greco-europeia. Now watch what you say/ Or they'll be calling you a radical/ A liberal, oh fanatical, crimi-nal/ Oh, won't you sign up your na-me?/ We'd like to feel you're/ Acceptable, respectable, oh pre-sentable, a vegetable.

    2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    O ESPECTRO | 11

  • Propriedade do Ncleo de Cincia Poltica ISCSP - UL Coordenador: Isa Rafael | Co-coordenador: Andr Cabral | Revisores: Andr Cabral e Beatriz Bagarro | Design: Isa Rafael | Plataformas de Comunicao: Daniela Nascimento, Joo Cunha

    e Joo Silva | Cartaz Cultural: Isa Rafael

    www.facebook.com/OEspectro jornaloespectro@gmail.com

    CARTAZ CULTURAL

    10h - 18h

    Museu Nacional de Arte Antiga

    Rua das Janelas Verdes

    1249-017 Lisboa

    3,50

    COLEO

    FRANCO MARIA RICCI

    12 | O ESPECTRO 2 MARO 2015 www.facebook.com/OEspectro

    CICLO DE

    CINEMA

    MUDO

    19h

    Museu da Msica

    Rua Joo de Freitas Branco

    1500-359 Lisboa

    Preo sob consulta

    at 12 MARO

    HOT CLUBE

    DE

    PORTUGAL

    22h30 e s 00h

    Hot Clube de Portugal

    Praa da Alegria, 48

    1250-004 Lisboa

    5 - 10

    parceria com

    at 08 JULHO

    at 12 ABRIL